30.9.09

Urzes brancas



Erica arborea L. / Erica lusitanica Rudolphi / Erica cinerea L.

Hoje propomos ao leitor a versão botânica do passatempo descubra as diferenças. Não vale a pena apontar variações triviais, como seja o número de flores que aparecem em cada foto, mas o comprimento da corola e o maior ou menor grau de saliência do estilete já representam diferenças genuínas. E são justamente estas discrepâncias entre as flores (bem visíveis nas fotos acima - clique para as aumentar) que nos permitem distinguir os dois primeiros arbustos. É que, tirando isso, eles têm folhagem semelhante, atingem ambos os três ou quatro metros de altura (embora a E. arborea seja em geral mais corpulenta), e as suas épocas de floração coincidem em parte (a da E. lusitanica, que prefere o Inverno, termina em Março, altura em que se iniciou já a da E. arborea, que vai até Julho ou Agosto). Os nomes vernáculos também não contribuem para individualizar estas plantas: urze-branca é uma designação que se aplica indistintamente a uma ou a outra, e queiró ou queiroga servem para quase todas as nossas urzes, sejam elas de flor rosa, lilás ou branca.

As três urzes de hoje são espontâneas em Portugal, e foram fotografadas em espaços naturais do norte do país - embora, de acordo com os mapas de distribuição apresentados na Flora Digital de Portugal, a Erica lusitanica, que encontrámos em Valongo, devesse estar ausente do Douro Litoral, Beira Interior, Minho e Trás-os-Montes. A nossa terceira urze, Erica cinerea, não indo além dos 80 cm de altura, é mais rasteira do que as outras duas. Habitando ela preferencialmente nas províncias nortenhas, tê-la encontrado na Serra do Alvão nada teve de extraordinário. O espanto é termos deparado com dois ou três exemplares com flores brancas, quando o normal na espécie é que elas sejam cor-de-rosa ou lilás, como a Crix aqui mostrou.

De modo que, leitor, não vale a pena atafulhar a memória com as diferenças que detectou entre as flores brancas da E. cinerea e as das outras urzes. Tão raramente ela se veste de branco que não pode aspirar a chamar-se urze-branca; o melhor que consegue é urze-roxa.

29.9.09

Salsaparrilha


Smilax aspera L.

Quando em Julho vimos esta trepadeira, a folhagem pareceu-nos de uma Convolvulaceae. Não estava na época de floração, que, sabemos agora, vai de Agosto a Outubro, por isso esperámos por um reencontro que nos elucidasse. É raro, porque exige em geral meses de vigilância e uma disponibilidade que não temos, conseguirmos assistir a todas as etapas da vida anual de uma planta; mas é isso o que, neste caso feliz, as fotos, obtidas numa mesma tarde de Setembro, documentam.

Ao centro está um pé masculino com umbelas de 5-20 flores minúsculas de 6 estames proeminentes. À direita vê-se um pé feminino, perfumado, que no bosque se enroscava sedutoramente no anterior. Nesta imagem pode também notar as duas gavinhas que nascem na base de cada folha. À esquerda retrata-se um cacho de bagas, que serão pretas quando amadurecerem.

A Smilax aspera leva uma vida caprichosa, experimentando vários formatos para as folhas, mais ou menos sagitadas, de base cordiforme com um veio central - ou vários paralelos e em palma - e margens adornadas por minúsculos espinhos aduncos que ajudam na escalada, ou não. Os botânicos têm acompanhado esta volubilidade com igual aprumo: o género Smilax pertenceu à família Liliaceae mas foi recentemente alojado, com mais dois géneros, numa família à parte, Smilacaceae, pequena, com apenas 370 espécies de trepadeiras rizomatosas, 3 das quais da Europa mediterrânica.

A salsaparrilha gosta de bosques cerrados de regiões temperadas ou subtropicais. Os rizomas e as raízes são aromáticos e contêm ingredientes depurativos; a S. medica Schltdl & Cham. e a S. officinalis Kunth têm mesmo uso medicinal. Os frutos não são comestíveis, ao contrário do que asseveraram Dioscórides e Plínio; a planta apresenta um grau respeitável de toxicidade.

A palavra salsaparrilha deriva da castelhana zarzaparrilla. Esta compõe-se de zarza (em português sarça, isto é, silva), aludindo aos espinhos que lembram os das silvas (Rubus sp.), e parrilla, de parra (de uvas ou bagas). Teremos dito outrora sarçaparrilha, mas a erosão do uso levou-a ao som mais liso de salsa, e «o vocábulo azulou»*.

* Carlos Drummond de Andrade, As palavras que ninguém diz

28.9.09

A Short History of the World



Teucrium polium L. subsp. capitatum (L.) Arcang. - Serra dos Candeeiros
Teucrium scorodonia L. - Serra do Açor

.....Adapt or perish, now as ever, is Nature's inexorable imperative.

.....H. G. Wells (1922)

27.9.09

Momento narcisista

A jornalista Maria Augusta Silva publicou ontem, 26 de Setembro, na revista NS - Notícias Sábado (distribuída com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias) uma óptima recensão do livro A Árvore de Natal do Senhor Ministro, atribuindo-lhe uma classificação de quatro estrelas em cinco possíveis. Fico orgulhoso por esta grande senhora do jornalismo português ter encontrado tanto que louvar no meu livro. A crítica pode ser lida na íntegra aqui (ficheiro jpg), mas transcrevo de seguida um breve extracto:

«Juntam-se às palavras 150 fotografias do autor, também elas espantosas. Palavras e imagens convocam-nos para reflexões inadiáveis numa escrita também ela árvore frondosa. O Porto em particular, onde vive e que ama, motiva-lhe agudas críticas. (...) Com saber e sensibilidade, Ventura Araújo fala de árvores, flores, jardins, parques, ruas. Leva-nos a outras terras, nomeadamente a Angra do Heroísmo e Londres. Analisa paisagens e comportamentos. Encanta-se quando a natureza é amada e respeitada. Enluta-se com desvarios. Um livro que desafia inteligências graníticas.»

26.9.09

Um rio só se mata uma vez




Serra do Alvão: pinheiros-bravos (Pinus pinaster Aiton) nas margens do rio Ôlo, perto das Fisgas de Ermelo

Logo após deslizar por uma sucessão de piscinas naturais talhadas no granito, o rio Ôlo encontra as Fisgas de Ermelo, onde se precipita numa cascata com um desnível de duas centenas de metros. Mas não é esse fenómeno natural que mata o rio: incólume apesar da queda, ele prossegue o seu curso, agora menos acidentado, até se juntar ao Tâmega, em Fridão.

Quem tudo fez para matar o rio foi o coveiro dos nossos espaços naturais: o mesmo que usa o risível pseudónimo de ministro do ambiente e que está, felizmente, de saída do cargo (oxalá não volte). O programa de construção de barragens apadrinhado pelo governo prevê nada menos que cinco novas barragens na bacia do Tâmega, todas acima de Amarante. Uma delas, a de Fridão, apenas seis quilómetros a montante da cidade de S. Gonçalo, armazenará uma massa de água capaz de submergir Amarante num abrir e fechar de olhos. Outra, a de Gouvães da Serra, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, seria em parte alimentada por um transvase do rio Ôlo; com quase todo o seu caudal desviado para norte pouco depois da nascente, o rio praticamente desapareceria.

A Iberdrola, empresa eléctrica espanhola à qual caberá construir e explorar as quatro barragens no Alto Tâmega (a barragem de Fridão calhou à EDP), poderia, se quisesse, fazer o transvase do rio Ôlo, pois era isso que estava previsto na concessão que lhe foi entregue pelo governo português. Mas, a 3 de Fevereiro passado, em sessão pública na Faculdade de Engenharia do Porto, um responsável da Iberdrola explicou que a «empresa decidiu não efectuar o transvase do rio Ôlo – embora concessionado no projecto – porque seria um grave crime ambiental destruir a cascata de Ermelo». (Mais detalhes nesta página.)

É sem dúvida edificante. O governo leva de bandeja um rio ao altar do sacrifício, mas o oficiante da cerimónia, incumbido do acto sangrento, recusa-se a executá-lo por entender tratar-se de um grave crime ambiental. São os empresários espanhóis, e não o governo da república portuguesa e os seus ministros, que zelam pela integridade do Parque Natural do Alvão. Ao lançar um infame «programa nacional de barragens» que vai destruir o Sabor, o Tua e o Tâmega, o governo assumiu-se, em relação ao interior norte do país, como potência colonial ocupante, explorando para exclusivo benefício seu e dos seus amigos as riquezas naturais dos territórios subjugados.

25.9.09

Urze-dos-pântanos


Erica tetralix L.

São as urzes que pintam de lilás as nossas serras por altura da Primavera. Faz-nos bem vê-las, assim como nos faz bem respirar o ar perfumado da serra; mas a familiaridade embota a vista e, sendo elas tão corriqueiras, acabamos por não lhes dar muita atenção. Adivinhando a trabalheira que seria destrinçá-las, é grande a tentação de as considerar tão só como cenário, nunca as chamando à boca do palco. Porém, ao fim de cinco anos de existência do blogue, mau seria se ainda nos tolhessem tais receios infantis. Avancemos pois confiadamente para a nossa primeira Erica. (Assinale-se, contudo, que já antes falámos de outras urzes: a Calluna vulgaris e a Daboecia cantabrica.)

Contam-se em cerca de 850 as espécies do género Erica, das quais mais de 660 são sul-africanas. Aqui na Península contentamo-nos com 15 espécies espontâneas, e só uma delas (E. andevalensis) é um endemismo ibérico. A Erica tetralix tem uma área de distribuição ampla, que se estende até ao centro e norte da Europa. Preferindo terrenos húmidos ou pantanosos, não aparenta ser muito vulgar em Portugal. Encontrámos os exemplares acima retratados nas imediações da Barragem Cimeira, na Serra do Alvão; mas outras espécies de urzes (E. scoparia e E. cinerea) eram por lá muito mais abundantes.

A Erica tetralix, que tomámos a liberdade de rebaptizar como urze-dos-pântanos - os nomes legitimados pela tradição são margariça e urze-peluda -, não costuma exceder os 70 cm de altura, e floresce tardiamente, de Junho a Outubro. Distingue-se das suas congéneres pela disposição das folhas (em grupos de quatro, abraçando os nós dos galhos), pela penugem que recobre toda a planta (incluindo os cálices das flores), e pelas flores agrupadas em umbelas nas extremidades dos ramos.

24.9.09

Palmeira vinícola


Jubaea chilensis (Molina) Baill.

A placa de madeira à entrada faz-nos crer que se trata de um parque excepcional, cuidado com desvelo, onde a natureza se refugiou aliviada. Porém, se o Parque Municipal de Alta Vila, em Águeda, foi grandioso, isso já não se nota. São muitos os espécimes em ruínas, tem um aspecto geral de abandono, e há até quem ouse estacionar dentro dele a pretexto de organizar actividades para crianças.

São certamente do desenho original, gizado por Eduardo Caldeira, vários ciprestes-do-Buçaco (Cupressus lusitanica), um deles de porte majestoso, um belo arbusto-bananeiro (Michelia figo), camélias (Camelia japonica), cedros (Cedrus libani e C. atlantica), castanheiros-da-Índia (Aesculus hippocastanum), carvalhos (Quercus robur), castanheiros (Castanea sativa), austrálias (Acacia melanoxylon), loureiros (Laurus nobilis), tílias não podadas ao pé de banquinhos soalheiros, uma colecção variada de palmeiras tropicais, uma melaleuca colada a uma estufa, um bambuzal desengraçado e muita passarada no seu uso de passarinhar. Mas foi uma fantástica palmeira-do-Chile que nos arrebatou a atenção.

A Jubaea chilensis é a única espécie do género Jubaea e já vai rareando no seu habitat natural, uma pequena região montanhosa no centro do Chile. Este estado vulnerável, que só se resolve com um convincente programa de protecção, deve-se ao crescimento lento desta planta, e, sobretudo, à utilização da seiva, rica em açúcares, na produção de uma bebida fermentada e, quando fervida, de um mel-de-palma muito apreciados na América do Sul; lamentavelmente, esta extracção exige o abate da árvore.

O que a torna tão especial? É uma palmeira monóica, de fuste liso e cinzento, com folhas sésseis, compostas, em forma de pena de 3-4m de comprimento e ráquis arqueado. Aprecia Invernos amenos, embora resista a geadas, mas, ao contrário da maioria das outras palmeiras, não se dá bem com a brisa salgada. Pode chegar aos 30m de altura, e um registo europeu destas árvores indica que a de maior porte em estufa é a dos Kew Gardens, com 25m e 1.3m de diâmetro na base do espique. As inflorescências nascem entre as folhas protegidas por espatas e medem cerca de metro e meio; as flores roxas, cada uma com uns 30 estames, juntam-se em grupos de 3, uma feminina e duas masculinas. Raramente frutifica antes dos 60 anos; o fruto ovóide e pequenino (de ~4cm de diâmetro) é um coquito (R. A. Philippi, paleontólogo alemão, denominou-a Micrococos chilensis) com casca impermeável e polpa fibrosa que envolve um endocarpo duro de interior branco comestível.

O nome Jubaea é, segundo William T. Stearn (Dictionary of plant names for gardners), dedicado ao rei Juba da Mauritânia (antes Numidia), no norte de África, que se suicidou em 46 a.C. depois de ver o seu reino reduzido por Júlio César a uma província romana. Contudo, outros autores (como G. López González, em Los árboles y arbustos de la Península Ibérica e Islas Baleares, 2006, ou os de À sombra de árvores com história) preferem uma versão menos romanceada, e mais plausível (trata-se afinal de uma espécie chilena dedicada a um rei africano): entendem que o homenageado é o filho deste rei, Juba II, que a história guarda como culto, autor de vários tratados sobre História Natural e um apaixonado pela botânica que participou em várias expedições pioneiras à Madeira e Ilhas Canárias.

No Porto conhecemos as Jubaea de Vilar d'Allen, talvez contemporâneas da de Águeda. A foto da esquerda mostra a do Jardim Botânico de Coimbra, em terraço de acesso proibido. As da direita retratam a de Águeda, a mais formosa.

23.9.09

Culpa e expiação


Pinus wallichiana A. B. Jacks.

Quando no princípio do mês de Setembro visitámos o Parque de São Roque movia-nos um propósito: apresentarmos a este pinheiro um sincero e pungente pedido de desculpas. Felizmente que ele ainda está vivo e para durar, pois senão as desculpas teriam sido póstumas; e não sabemos se tal prática, que ultimamente se tem banalizado entre os humanos, é aceitável no reino vegetal. E fomos nós, os culpados pelo ultraje, a admitir o erro, e não algum representante mais ou menos oficial que tomasse para si as nossas culpas. Arrependidos, mas de pescoços bem empertigados para encararmos de frente o nosso interlocutor, jurámos emenda e prometemos reparação.

A afronta deu-se há cinco anos, quando aqui exibimos uma foto do labirinto do Parque de S. Roque onde este pinheiro era bem visível, sem que ele nos tenha suscitado a mais leve menção. Falámos do buxo, das camélias, da faia e do carvalho-americano (entretanto já desaparecido); mas o pinheiro, embora ultrapassasse em altura todas as árvores vizinhas, foi como se não existisse. E, para agravar o caso, a foto reapareceu em livro, ocupando uma página inteira, sem que esta lamentável cegueira selectiva tivesse sido remediada.

O pinheiro aceitou as desculpas que lhe apresentámos, mas impôs certas condições. Dando cumprimento ao que ficou acordado entre as partes, fazemos agora publicar, com um grau de destaque equivalente ao da matéria blogada que corporizou a ofensa, duas fotos do ofendido, acompanhadas por legenda identificando-o claramente pelo nome científico. Mais exigiu o queixoso que louvássemos a sua elegância e raridade, o que fazemos de bom grado mas não sem uma ressalva: não indo longe o tempo em que para nós todos os pinheiros eram iguais, não estamos em condições de asseverar que este Pinus wallichiana seja assim tão raro no nosso país.

Por último, cumpre-nos publicitar os dados biográficos e sinais particulares deste esbelto pinheiro. Originário dos Himalaias, a sua área de distribuição natural vai do Afeganistão ao nordeste da Índia, passando pelo Butão; o seu nome vernáculo nas diversas línguas é justamente pinheiro-do-Butão. Tem uma copa piramidal, pode atingir os 35 metros de altura, e as suas agulhas, que medem de 11 a 20 cm, são pendentes e flexíveis, estando dispostas em grupos de cinco.

P.S. Num gesto de amabilidade tocante, o pinheiro-do-Butão autorizou que aproveitássemos o ensejo para lembrar que as sazankas estão em flor, e que o Parque de São Roque é o melhor lugar do Porto para as ver e cheirar.

22.9.09

Doces filhas de paul


Angelica sylvestris L.

A erva-dos-anjos (Angelica archangelica L., do norte da Europa) possui tantas virtudes culinárias e medicinais que se diz ser obra de anjo. Nela se juntam uma fragância doce e intensa - e não apenas nas flores - e a fama de ser afrodisíaco milagroso, remédio garantido contra a peste, antídoto de venenos, abono de longevidade e escudo contra bruxedos e maus-olhados. E, tendo-nos assim assegurado o bem-estar, ainda se deixa consumir em licores aromatizados com as bagas (Chartreuse e Bénédictine), saladas, sopas, sorvetes, como fruta cristalizada (verde e translúcida - já provou?) e compotas, de que é exemplo uma famosa receita inventada há uns séculos num convento de Niort que, tome nota magro leitor, fica quase no centro do triângulo com vértices em Paris, Nantes e Bordeaux.

Não nos entusiasmemos em demasia porque, das 110 espécies do género Angelica registadas no hemisfério norte, a única espontânea entre nós é a A. sylvestris que, infelizmente, não nasceu tão prendada. Mas tem a mesma arquitectura carnuda que impressiona: enormes (~15cm de diâmetro) umbelas de flores rosa pálido que nascem em folhos de brácteas sulcadas de leivas de onde despontam, por graça, ramos de folhas minúsculas e ponta trilobada. Porém, é a Angelica gigas Nakai, do Japão, Coreia e Sibéria, com flores ainda maiores e da cor do chocolate, a preferida dos jardineiros. Caprichos que nos empobrecem o paladar.

21.9.09

Caçador de rios 3: Roding


The Temple - Wanstead Park - Epping Forest

Londres de A a Z é um atlas de ruas em formato de livro que se folheia como se fosse romance, com a peculiaridade de sermos nós os protagonistas. Abrimos a página com o quadradinho onde nos encontramos e espetamos o dedo: estamos aqui. Tal é a minúcia do atlas que nem os caminhos florestais foram esquecidos: podemo-nos guiar por ele na Epping Forest, mas só na metade sul, que o resto já fica de fora. Foi assim que consegui ir a pé da estação de Leytonstone até ao parque de Wanstead, parte da floresta que pertenceu a uma casa senhorial demolida em 1824. Regista a história terem aqui existido grandiosos jardins formais, com longas alamedas e parterres graciosamente geométricos. Hoje nada disso sobra, engolido que foi pelo arvoredo espontâneo. Dessa época ficaram apenas o templo - pequeno edifício com pórtico neoclássico, onde funciona o atendimento aos visitantes - e os lagos artificiais com ilhotas arborizadas, alguns deles quase secos por altura da minha visita, em meados de Agosto.


Lago com Lythrum salicaria - Wanstead Park - Epping Forest

O rio Roding, afluente do Tamisa, tem aqui um troço que corre paralelamente a um lago de formato longilíneo, cuja vocação claramente fluvial talvez tenha sido despertada pela vizinhança do seu colega nas lides aquáticas. Vistos do caminho que os separa, lago e rio parecem gémeos. Mas eu, instruído pelo meu A a Z, queria por força atravessar o rio; e um lago, por muito que se disfarce de rio, não precisa de ser atravessado, mas tão só circundado. O rio marca aqui os limites da Epping Forest; logo depois há uma estrada servida por um autocarro que me transportaria comodamente até à parte da floresta mais a norte. Para chegar à paragem só teria de transpor o rio - proeza trivial, bastou descalçar os sapatos e arregaçar as calças - e rodear as traseiras do bairro contíguo à estrada.


Rio Roding - Epping Forest, Londres (em primeiro plano, Acer pseudoplatanus)

A Grã-Bretanha é talvez o país mais liberal (ou será socialista?) do mundo a conceder direito público de passagem em propriedades privadas: por toda a ilha existem trilhos, muito usados por caminheiros e amantes da natureza, que nenhum proprietário tem permissão para vedar. O reverso da medalha é que, onde não houver caminho autorizado, a passagem é mesmo impossível e não há desenrascanço que nos valha. Ou, se não for impossível, é arriscada e imprudente. E o A a Z, vendo bem, não indicava qualquer caminho legítimo até à estrada, mesmo estando ela ali tão perto.

Ocorreu-me isto depois de ter saltado duas vedações e de me ter visto a salvo, ainda atarantado de susto e com arranhões nas mãos e nos joelhos, na paragem que me propusera alcançar. A primeira barreira era inocente, quase convidativa: uma paliçada de madeira baixa, dando acesso a um carreiro que parecia desembocar na estrada. Mas a segunda barreira, depois de duas centenas de metros rompendo por uma vegetação cada vez mais densa e espinhenta, era gratuita e maldosa, formada por barras metálicas com dois metros de altura e pontas aguçadas. Recuar estava fora de causa, mas não sei como consegui ultrapassar tamanho obstáculo com a roupa intacta. Não invadi propriedade alheia e, tanto quanto sei, ninguém me observou neste exercício de alpinismo à mão desarmada. Mas não quero repetir a aventura: doravante, ficar-me-ei pelos caminhos assinalados no mapa.

20.9.09

Ouça o filme, mas leia também o livro

Já pensou nos presentes que vai dar no Natal? Se você for um nosso leitor assíduo, decerto há muito se muniu de todos os livros que estão anunciados aí na coluna da esquerda. (Atenção: Um Porto de Árvores está esgotado.) Mas aquele seu familiar ou amigo(a) que não tem a fortuna de nos conhecer precisa de ajuda, e é você quem o(a) pode ajudar. Que tal oferecer livros com árvores?

A nossa mais recente incursão editorial é A Árvore de Natal do Senhor Ministro - Crónicas Arborescentes, livro que reúne, ilustrados com inúmeras fotos, os melhores textos que aqui fui publicando entre 2004 e 2008, minuciosamente revistos e aumentados.

Apesar do carácter quase sigiloso da edição, aconteceu-me fazer, a convite da associação Campo Aberto, uma apresentação pública do livro em 3 de Junho passado. A sessão, em jeito de monólogo, foi gravada pelos meus anfitriões num ficheiro mp3 (disponível aqui - duração 42 min). As fotos cuja projecção serviu de fio condutor ao discurso, e que naturalmente não aparecem no ficheiro, foram extraídas do livro ou surgiram posteriormente aqui no blogue. Ouvir a gravação é como assistir a um filme a que foram suprimidas as imagens - o que nem sequer é inédito no cinema português.

Goste ou não do filme (o protagonista, admito-o, é fracote), só lhe tenho a dizer que o livro é muito melhor.

A Árvore de Natal do Senhor Ministro - Crónicas Arborescentes
Edições Afrontamento / Colecção Viver é Preciso - n.º 22
ISBN 9789723610123
Data de publicação: Maio de 2009
Número de páginas: 208


[Se não o encontrar nas livrarias, pode pedi-lo pelo
endereço contacto(at)campoaberto.pt ou encomendá-lo aqui]

19.9.09

Touca de freira


Aconitum hemsleyanum E. Pritz. *


Depois que eu fiz tudo isto aqui, todo mundo quer que eu resolva os problemas todos, mas a questão é que eu já ensinei como é que resolve e quem tem de resolver é vocês, senão, se fosse para eu resolver, que graça tinha? É homens ou não são? Se fosse para ser anjo, eu tinha feito todo mundo logo anjo, em vez de procurar tanta chateação com vocês, que eu entrego tudo de mão beijada e vocês aprontam a pior melança. Mas, não: fiz homem, fiz mulher, fiz menino, entreguei o destino: está aqui, vão em frente, tudo com liberdade. Aí fica formada por vocês mesmos a pior das situações, com todo mundo passando fome sem necessidade e cada qual mais ordinário do que o outro, e aí o culpado sou eu? Inclusive, toda hora ainda tenho de suportar ouvir conselhos: se eu fosse Deus, eu fazia isto, se eu fosse Deus eu fazia aquilo. Deus não existe porque essa injustiça e essa outra e eu planejava isso tudo muito melhor e por aí vai. Agora, você veja que quem fala assim é um pessoal que não acerta nem a resolver um problema de uma tabela de campeonato, eu sei porque estou cansado de escutar rezas de futebol, costumo mandar desligar o canal, só em certos casos não. Todo dia eu digo: chega, não me meto mais. Mas fico com pena, vou passando a mão pela cabeça, pai é pai, essas coisas. Agora, milagre só em último caso. Tinha graça eu sair fazendo milagres, aliás tem muitos que me arrependo por causa da propaganda besta que fazem, porque senão eu armava logo um milagre grande e todo mundo virava anjo e ia para o céu, mas eu não vou dar essa moleza, está todo mundo querendo moleza. A dar essa moleza, eu vou e descrio logo tudo e pronto e ninguém fica criado, ninguém tem alma, pensamento nem vontade, fico só eu sozinho por aí no meio das estrelas me distraindo, aliás tenho sentido muita falta.

João Ubaldo Ribeiro, O santo que não acreditava em Deus (de Já Podeis da Pátria Filhos e Outras Histórias, Editora Nova Fronteira, 1991)

* O formato e a cor das flores desta trepadeira chinesa são dados pelas sépalas; as pétalas estão convertidas em nectários resguardados pelo capuz. William Botting Hemsley (1843-1924) foi curador do herbário dos Kew Gardens e um especialista na flora da América Central e China.

18.9.09

Ácer papeleiro



Acer griseum (Franch.) Pax - Jardim Botânico da Universidade de Oxford

O tronco acobreado deste ácer parece desfazer-se em rolos de papel: dá vontade de recolher as películas e espalmá-las num caderninho, para usar em cartões de boas festas e noutras ocasiões de cerimónia. Só não sei se o frágil material resistiria sem se romper ao contacto rude de uma esferográfica. Preferível regressar às canetas de tinta permanente - ou, melhor ainda, às aladas penas que, depois de mergulhadas em tinteiros, roçavam levíssimas pelas superfícies onde largavam letras e símbolos. Quem tivesse uma só árvore destas e um bando de gansos de nada mais precisaria para se lançar como comerciante tradicional (ou artesanal) no ramo dos artigos de escritório.

Mas o investimento inicial seria pesado, além de exigir uma paciência incompatível com a vida acelerada dos tempos modernos. De origem chinesa e introduzido na Europa no início do século XX, o Acer griseum é raro de encontrar à venda, pois tem o hábito de dar sementes estéreis e é de difícil propagação. Além disso, cresce devagar - o que, assegurando-lhe embora vida mais longa do que aquela de que gozam árvores mais apressadas, significa que não produzirá, durante muitos anos, material de escrita suficiente para dar vazão às encomendas. Pensando bem, o melhor é desistir do negócio, e ficar com a árvore só por ela ser bonita. Bonita e arrumadinha: com uma copa redonda e compacta, raramente excede os nove metros de altura.

O exemplar no jardim botânico de Oxford pode contemplar-se de graça, uma vez que o roseiral onde lhe coube morar fica do lado de cá da entrada. As folhas, visíveis na foto acima, são trifoliadas, com folíolos lobados semelhantes às folhas dos carvalhos. Clicando na mesma foto, distinguem-se, num tom verde mais claro, as sâmaras características dos áceres, com as duas asas que, nesta espécie, formam um ângulo distintamente agudo.

17.9.09

Doce veneno amargo


Solanum dulcamara L.

A batata (Solanum tuberosum, de fruto tóxico) é um tubérculo humilde das montanhas andinas onde o solo é fino, as temperaturas baixas, os dias curtos e o ar rarefeito, e onde ainda hoje se consomem variedades silvestres, incluindo a linda batata azul. Desconhecida na Europa antes da Renascença, veio a ser mais do que uma fonte de nutrientes: permitiu uma explosão populacional sem precedentes e, depois de uma praga que devastou as plantações, forçou os europeus a uma emigração histórica para o Novo Mundo, o que lhe criou condições para conseguir a independência. Os conquistadores espanhóis desafiaram a civilização inca atraídos pelo ouro e pela prata, mas o notável legado dos incas veio guarnecido de milho e batata.

A batateira pode propagar-se por sementes, difíceis de obter nas variedades hortícolas recentes, mas é mais usual a multiplicação pelos «olhos» dos tubérculos. Segundo Henry Hobhouse no livro Seeds of Change (Folio Society, 2007), até 1770 três plantas confundiam-se na designação «batata»: a branca, de que falámos antes, a batata-doce (Ipomea batatas) e a mandioca (Manihot esculenta). Variantes da palavra persistiram nas línguas europeias até surgir pomme de terre.

Quase todas as cerca de 1400 espécies do género Solanum, subtropical e maioritariamente da América Central e do Sul, têm folhas de aroma acre, flores encantadoras e frutos perigosos ou mesmo mortíferos (com bravas excepções, como o pepino, S. muricatum, a beringela, S. melongena ou o tomate, S. lycopersicum). A espécie das fotos, com vasto uso medicinal, é europeia, semi-lenhosa e, por hábito, gosta de vaguear escalando por outras plantas. Os frutos são bagas verdes, depois cor-de-laranja, que os pássaros consomem só depois de terem amadurecido para rubras.

16.9.09

Caçador de rios 2: East Dart

Exorta-nos o Guia do Visitante a Dartmoor (jornal em formato A3, com 22 páginas a cores, distribuído gratuitamente nos postos turísticos) a largar o carro, pois, diz-nos ele, o parque nacional está bem servido de transportes públicos e a sua beleza desfruta-se melhor a pé. Quem não conduz, como eu, não tem outro remédio senão acatar tal conselho; mas deve preparar-se para longas caminhadas (a parte boa) e ainda mais longas esperas (a parte má).

Os autocarros no sudoeste de Inglaterra, em Devon e na Cornualha, são uma delícia e um susto. Delícia pelas paisagens que desvendam: rios, charnecas, bosques de carvalhos e áceres roçando-se nas vidraças, casas com telhados de colmo saidinhas de alguma velha ilustração infantil, o vislumbre inesperado do mar ao desfazer-se uma curva. Susto porque as estradas são estreitas e cheias de ziguezagues, e muitas vezes não têm largura para se cruzarem dois veículos. Um dos motoristas que me transportou, muito jovial na sua condução trepidante, ria-se de cada vez que algum carro guinava para a valeta à sua aproximação: têm um medo de mim que se pelam, comentava para os passageiros entre gargalhadas.


Moretonhampstead

Dartmoor fica no condado de Devon, e tem o formato aproximado de um quadrado com 31 quilómetros de lado, com as urbes de Exeter e Plymouth nas proximidades dos seus vértices nordeste e sudoeste. É em Exeter, cidade nas margens do rio Exe com uma antiquíssima catedral e uma atraente vida ribeirinha (lojas, jardins, esplanadas, casas), que confluem os transportes públicos que servem tanto o interior rural do condado como o cordão de povoações costeiras que formam a «Riviera inglesa». Uma combinação de dois autocarros, de Exeter à pequena vila de Moretonhampstead, e desta à ainda mais pequena Postbridge, deixa-nos bem no centro de Dartmoor. O óbice é que o segundo destes autocarros só presta serviço duas vezes por dia em cada sentido, e apenas de segunda a sexta: é preciso madrugar e, depois, aguardar pelo fim da tarde para o regresso.

É verdade que um dia só não dá para quase nada, mas as dez horas que intermedeiam entre um transporte e outro são uma dose excessiva de natureza para quem, sedentário incorrígivel, não veio preparado para acampar. A solução foi chamar um táxi da lojinha que combina mercearia com posto de correios: mesmo que atenuada, a civilização nunca está longe.


Dartmoor: pastagem com tojo; Bellever Tor

São as ondulantes charnecas de tojo (Ulex) e urze (Erica e Calluna), numa sucessão de outeiros a perder de vista, que fazem a paisagem de Dartmoor. Moor ou moorland são aliás as designações para os lugares onde predomina este tipo de vegetação rasteira - que encontramos também, com certas diferenças, nas serras de Portugal. Coroando muitos dos cerros vêem-se formações graníticas estratificadas, a que é costume chamar tors. Entre as singularidades de Dartmoor avultam ainda as turfeiras, terrenos baixos com um solo quase sempre encharcado, por vezes perigosamente pantanoso, constituído por matéria vegetal fossilizada. E, claro, há o tempo: imprevisível é como o descrevem, querendo com isso dizer que, mesmo no pico do Verão, em Agosto, é avisado contarmos com dias encobertos e chuvosos. Quando visitei Dartmoor não chovia, mas a água tombara copiosamente nos dias anteriores; o único calçado realmente adequado ao terreno teriam sido galochas, nunca os sapatos leves que comigo trazia. Foi com estranheza que vacas e ovelhas me viram saltitar desgraciosamente sobre poças e charcos, buscando - e muitas vezes falhando - as ilhotas de terra firme no meio do lamaçal.


Dartmoor - East Dart River

A inépcia na decifração do mapa do percurso foi o que me levou até ao rio. Tê-lo-ia visto em qualquer caso, pois ele cruza a estrada junto a Postbridge, mas foi preciso perder-me a sério, treslendo todas as indicações, para chegar ao fundo deste vale onde o East Dart vai preguiçando rodeado por salgueiros e pinheiros-silvestres. O estado lastimoso dos sapatos foi um preço de pechincha por esta paisagem mágica, a que a névoa acrescentava um toque de sonho. Nada de postiço maculava o horizonte: nem casas, nem estradas, nem postes eléctricos, nem ventoinhas; só rio e arvoredo aninhados entre colinas.

É por aqui perto que nasce o rio Dart, de que Dartmoor tomou o nome. São dois cursos de água - o East Dart e o West Dart - que, depois de uma dezena de quilómetros a deslizar cada um no seu leito, juntam os trapinhos em Dartmeet (óbvio, não é?) para formarem um rio só. Daí até ao Atlântico o rio unificado tem ainda uma trintena de quilómetros a percorrer. E onde fica a foz do rio Dart? Em Dartmouth, pois então. A lógica destes ingleses é irrepreensível.

15.9.09

Pequenas Helenas


Thunbergia alata Bojer ex Sims

.....Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
.....Vivem pros seu maridos, orgulho e raça de Atenas.

.....Quando amadas se perfumam
.....Se banham com leite, se arrumam
.....Suas melenas
.....Quando fustigadas não choram
.....Se ajoelham, pedem imploram
.....Mais duras penas
.....Cadenas

.....Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
.....Sofrem pros seus maridos, poder e força de Atenas.

.....Mulheres de Atenas (Chico Buarque - Augusto Boal, 1976)

A designação inglesa desta trepadeira africana de caule volúvel, Black-eyed Susan, é problemática de traduzir: não sabemos se quase todas as Susanas têm olhos claros, justificando-se por isso uma possível homenagem às de pupilas escuras, ou se o nome quer evocar as vítimas-Susanas de actos violentos no confinado mas indefeso seio familiar. Esta planta lenhosa é polinizada por abelhas, e os especialistas estão convencidos de que o olho, que é o tubo castanho-chocolate da flor, reflecte a luz ultravioleta numa banda visível aos insectos, conduzindo-os até ao centro da flor.

É a nossa Susana herbácea de trato fácil, exigindo pouca água mas carecendo de uma pérgula ou treliça onde se enrolar. As folhas são rômbicas com cerca de 8 cm de comprimento, margens com lobos basais vincados e pecíolo alado.

O género Thunbergia, de cerca de 90 espécies de trepadeiras ou arbustos da África tropical e meridional, de Madagascar e da Ásia temperada, reconhece-se pelo par de brácteas, como duas castanholas, que abraçam a base das flores-trombeta. O botânico sueco Carl Peter Thunberg (1743-1828) foi um colector afamado de plantas sul-africanas e japonesas, e talvez o mais distinto discípulo de Lineu.

14.9.09

Chupa-chupas ao desbarato



Hydrocotyle bonariensis Lam. - Perafita, Matosinhos

Os chupa-chupas não gozam, entre a criançada, da mesma popularidade de outrora, e mesmo os adultos parecem já tê-los esquecido. Só assim se explica que, na Flora Digital de Portugal, se tenha dado a esta planta nome tão baço e inexpressivo como chapéus. Pois não é claro pela amostra incluída que estas folhas verdes muito empertigadas nas suas hastes, de uma redondez perfeita apesar das margens dentadas, são na verdade chupa-chupas, mesmo que ninguém lhes queira pôr a língua? (Pode até ser perigoso fazê-lo; deixemos os franceses experimentar primeiro.)

Quem a vê despontar do areal pode julgar que cada planta lança uma única folha, e que os caules encimados por umbelas floridas pertencem a alguma outra planta. Na realidade, a Hydrocotyle bonariensis é dotada de um caule comprido, rastejante, que se subdivide várias vezes e que, a intervalos irregulares, vai lançando hastes verticais, ora com folhas ora com flores. Como o caule está soterrado na areia, só as folhas e inflorescências ficam visíveis.

Das quase cem espécies de Hydrocotyle, apenas a H. vulgaris, que prefere charcos ou prados húmidos, é nativa em Portugal. A H. bonariensis, que só nas areias marítimas se sente em casa, é originária da América do Sul (e, segundo a Wikipedia, também da África tropical), mas naturalizou-se na costa sul da Europa, de Portugal à Itália. Além dos habitats diferenciados, outra característica distingue as duas Hydrocotyles presentes no nosso país: as inflorescências da H. vulgaris são quase insignificantes, e ficam em geral ocultas pelas folhas.

O nome Hydrocotyle refere-se à apetência de muitas destas plantas pela água (prefixo hydro) e ao formato das folhas: segundo William T. Stearn, a palavra grega kotyle significa pequena chávena. Chávena essa que corria o risco de entornar o conteúdo, não fosse o caso de, na H. vulgaris, e ao invés do que sucede com a H. bonariensis, as folhas estarem na posição horizontal.

12.9.09

The stone stood still


Braga (Bom Jesus)

The more dead and dry and dusty a thing is the more it travels about (...). Fertile things are somewhat heavier, like the heavy fruit trees on the pregnant mud of the Nile. In the heated idleness of youth we were all rather inclined to quarrel with the implication of that proverb which says that a rolling stone gathers no moss. We were inclined to ask, 'Who wants to gather moss, except silly old ladies?' But for all that we begin to perceive that the proverb is right. The rolling stone rolls echoing from rock to rock; but the rolling stone is dead. The moss is silent because the moss is alive.

G.K.Chesterton, Heretics (1905)

11.9.09

Funcho-marinho


Crithmum maritimum L. - Perafita, Matosinhos

A Câmara de Matosinhos completou, há poucas semanas, um passadiço de madeira sobre as dunas litorais de Perafita. A construção começa bem à vista da refinaria da Petrogal, que só com nevoeiro cerrado é possível ignorar: mesmo à noite ela é profusamente iluminada por holofotes e chaminés cuspidoras de fogo. E, estendendo o nevoeiro o seu manto benfazejo sobre a paisagem, é preciso que o vento não sopre para noroeste, pois senão é o olfacto que nos estraga o passeio.

Mas não há que sermos esquisitos, pois de facto habituamo-nos a tudo. Houve até quem escolhesse aqui morar, nos prédios e bairros que prolongam o núcleo urbano de Leça da Palmeira até à refinaria, ou, imediatamente a norte desta, já em Perafita, nas vivendas da marginal. Entre a sedução do mar e a repulsa dos fumos pestilentos, venceu o mar. Afinal, mar e praia estão sempre lá, e nem sempre o vento sopra a nosso desfavor.

Certo é que o passadiço se fez - e ainda bem, mesmo que a obra tenha obedecido a um calendário eleitoralista. A recuperação da vegetação dunar é tarefa simples, desde que haja vontade. Basta vedar uma certa área ao pisoteio e arrancar as invasoras (chorões, acácias, ervas-das-pampas); os resultados são visíveis ao fim de um ou dois anos, com o regresso e proliferação das plantas que aí têm o seu habitat. Em Perafita ainda falta erradicar as plantas infestantes, e não houve tempo para uma regeneração cabal da vegetação. Contudo, e ainda que exiba menor diversidade botânica, o espaço agora protegido alberga algumas espécies que são raras ou inexistentes nas dunas do litoral gaiense, onde uma intervenção semelhante, e de muito maior fôlego, se fez há mais de meia dúzia de anos. Por exemplo, nunca encontrei armérias (Armeria sp.) em Gaia, mas há uma pequena população nas rochas costeiras de Perafita. E a papoila-das-praias parece ser aqui bem mais abundante do que em Gaia.

O funcho-marinho (Crithmum maritimum), assunto desta prosa, existe também em Gaia, mas aí a sua presença é muito mais discreta do que em Perafita. Ignoro se tal discrepância se generaliza a uma assimetria norte-sul, com o Douro por linha divisória. Em Perafita, no auge da floração (que até é pouco vistosa, pois as inflorescências são esverdeadas), ocorrida em meados de Agosto, as praias e as rochas pareciam um jardim, de tão enfeitadas que estavam com maciços desta planta.

Planta umbelífera (da família da cenoura), suculenta, muito ramificada, formando moitas de 20 a 50 cm de altura, a distribuição global do funcho-marinho abrange a costa europeia atlântica e mediterrânica, e ainda o norte de África e as ilhas da Macaronésia (Açores, Madeira e Canárias). Dá-se melhor em rochas costeiras do que nos areais. Os franceses (a variedade de Homo sapiens mais omnívora que se conhece) ensinam-nos, lambendo os beiços, que as folhas da planta são comestíveis, boas para se confeccionarem pickles com travo salgado. Terá sido por esses gourmets incorrigíveis não controlarem a gula que a planta se fez rara na costa atlântica francesa, a ponto de aí ser hoje espécie protegida? Não queiramos seguir tão mau exemplo.

P.S. Pode ver aqui a mesma planta nas falésias algarvias.

10.9.09

Referendo pelo Palácio de Cristal

As obras de extensão do Pavilhão Rosa Mota que a Câmara do Porto quer realizar ameaçam destruir o lago e ferir de morte a harmonia e integridade dos jardins do Palácio de Cristal. O Movimento em Defesa dos Jardins do Palácio, que se opõe a esse atentado ao património, está a reunir assinaturas para requerer que a realização da obra seja sujeita a referendo local. Saiba neste endereço como assinar o requerimento e como ajudar na recolha de assinaturas.

Cup plant


Silphium perfoliatum L.

Esta planta perene das pradarias do leste da América do Norte é fácil de identificar, tantas são as suas peculiaridades. É uma herbácea em que quase tudo parece excessivo. É alta como um girassol mas tem caule rígido de secção quadrada com seiva que rescende a terebintina. As enormes folhas são rugosas com textura de papel, e as superiores são sésseis e perfoliadas (isto é, os lobos basais são adunados e envolvem os ramos, parecendo que o caule atravessa as folhas como numa espetada); deste modo formam taças onde se acumula a água e os pássaros bebericam. Pesquisa recente em biologia farmacêutica detectou uma eficiente acção antibacteriana de todas as componentes do sílfio, confirmando a pertinência do uso tradicional das suas folhas, flores e rizomas pelos índios americanos.

Como é frequente na família Asteraceae (embora haja, para aflição dos amadores como nós, numerosos contra-exemplos), a inflorescência é uma margarida com um coro central de florículos tubulares e outros de pétala comprida que formam a corola exterior - um órgão de sedução que se ocupa simultaneamente dos gestos e das emoções. As rosetas são suficientemente grandes (até 10 cm de diâmetro) para se distinguirem bem os dois tipos de florículos. Mas o esquema seguinte permite ao caro leitor verificar ainda com maior clareza estas diferenças.


Inflorescência de uma asterácea (ou «margarida») - do livro Australian Native Plants, John W. Wrigley & Murray Fagg

9.9.09

Caçador de rios 1: Cherwell


Rio Cherwell - Oxford

Desde a sua nascente nas Midlands inglesas, o rio Cherwell deambula 64 quilómetros para sul até Oxford, onde se junta ao Tamisa. Mas dois rios não bastavam à orgulhosa cidade, que ainda lhes acrescentou um canal e fez o Cherwell perder-se em bifurcações e desvios antes de o entregar ao Tamisa por dois caudais separados. Dir-se-ia que os colleges, competindo entre si tanto em grandeza como em bucolismo, não dispensavam um rio a correr nos seus domínios privativos; e a solução foi reparti-lo por múltiplos braços, na certeza de que a água dava para todos.

É uma envolvente verde riscada por traços de água que se descobre para lá das ruas onde edifícios universitários se entremeiam com todo o tipo de lojas. Há aqui uma clara inspiração veneziana, com a diferença de, em vez de palácios e catedrais, serem campos de jogos, árvores e prados a emoldurarem os cursos de água, que o são de água doce em vez de salgada. Pequenos barcos de fundo chato, empurrados à vara, suscitam o entusiasmo dos turistas e a indiferença dos ruminantes que tantas vezes, das suas pastagens, os vêem deslizar pelo rio. Chamam-se as embarcações punts; e, explicam os ingleses, não devem ser confundidas com gôndolas, pois, ao contrário da vara, o remo com que estas últimas são movidas não se apoia no leito dos canais. Enfim, pormenores de somenos: apesar dos trajes sumários, estes barqueiros equilibrando-se na popa das suas canoas recriam, propositadamente ou não, uma Veneza mais tranquila, em versão rural.


Christ Church Meadow - Oxford