06/04/2010

Ametista de poupa branca

Linaria amethystea subsp. multipunctata (Brot.) Chater & D.A. Webb
Dizem os livros que a Linaria amethystea se distingue de outras espécies pela asa verrugosa da semente achatada. Pode ser. Nós, enquanto nos ajoelhávamos mesuradamente num orquidal (palavra que designa um metro quadrado com mais de dez ófris), reparámos nestas flores de cor creme pintalgadas de roxo, esporão longo e púrpura, manchinha cor-de-laranja ao peito. Convocadas deste modo quase todas as cores que existem, veio-nos à memória uma outra flor que encontrámos no vale do Tua. Para esta espécie, os botânicos propuseram, e com acerto, que se etiquetassem duas subespécies: a amethystea e a multipunctata — a qual, a julgar pelo nome, deverá exibir muito mais pintinhas do que a outra.

Como as outras linárias, este passarinho-morado tem um caule erecto e folhas semelhantes às do linho. É um terófito de terrenos cultivados e expostos ao sol que floresce de Fevereiro a Junho. Não é rara, embora seja endemismo da Península Ibérica. Mas sabe o leitor como é invejar em surdina quem já a tinha avistado? Pois é, só agora é que nos curámos.

05/04/2010

O cheiro que passa

Helleborus foetidus L.
Das quinze espécies do género, quase todas europeias (a excepção é chinesa) e de grande reputação em jardinagem, foi este o único heleboro que se instalou em Portugal. Porém, a julgar pelos nomes que lhe atribuímos, como erva-besteira ou heleboro-fétido, não o tratamos com muito carinho. Ainda que a acusação de malcheiroso já venha lavrada no nome científico, ela é um bocado exagerada, e tal ónus injusto não deve servir de pretexto ao ostracismo. De facto, o mau cheiro só se manifesta quando as folhas são esmagadas, e não há nenhuma compulsão que nos obrigue a triturar este heleboro ou qualquer outra planta. Que ele responda à agressão exalando um fedor ofensivo é um acto de legítima defesa. Há animais que fazem o mesmo. De resto, as flores — que são verdes, têm muitos estames de curta duração, e aparecem de Janeiro a Abril — até soltam um perfume agradável.

Se o heleboro não deve ser esmagado, dita o bom senso que muito menos deverá ser comido: trata-se de uma planta que, mesmo quando seca, é perigosamente tóxica tanto para o homem como para o gado. Em tempos idos terá mesmo sido usado como vermífugo e como repelente de piolhos.

O heleboro prefere terrenos calcários, pedregosos, a meia sombra ou dominados por matos rasteiros. É comum encontrá-lo na Serra dos Candeeiros, embora nunca lá chegue a reunir populações densas. Planta rizomatosa, a sua parte aérea, que atinge um máximo de 80 cm de altura mas pode alargar-se até um metro, renova-se a cada par de anos.

Na foto em cima o heleboro exibe claramente dois tons de verde. O mais escuro é o das folhas, que são compostas, cada uma delas formada por sete a onze folíolos lanceolados e de margens dentadas. O verde mais claro, na parte superior da planta, deve-se às brácteas na base dos pedúnculos florais e às corolas das flores. E deve-se também aos frutos pálidos, de pontas aguçadas, que, mesmo em meados de Fevereiro, já haviam sido produzidos em grande quantidade.

04/04/2010

Camélia pascal



Domingo de Páscoa, manhã alta, perpassava ao cabo da rua braçada rúbida de camélias. Uma, a mais vermelha, ia o juíz da igreja entalá-la na cruz de prata de guizeiras entre a aspa e o braço do justiçado. E, assim guarnecida, o senhor padre dava a beijar às famílias ajoelhadas Cristo e a Primavera.

Aquilino Ribeiro, Aldeia: Terras, gente e bichos (2010, Bertrand Editora)

03/04/2010

Da cor do limão

Gennaria diphylla (Link) Parl.
Patrizio Gennari (1820-1897), botânico da Sardenha, foi o primeiro director do Jardim Botânico de Cagliari. O acervo deste Jardim, inaugurado em 1866 com cerca de 430 espécies, exibe hoje mais de seiscentas árvores, outros tantos arbustos, umas mil suculentas e várias orquídeas endémicas nesta região autónoma italiana. Como a da foto.

É um geófito de raízes tuberosas com duas folhas cordiformes, desiguais e alternadas num caule de 15-30cm que termina numa espiga coberta de flores verdes, em geral viradas para um mesmo lado, com esporões corcundas. Pede sombra, de pinheiro, loureiro ou, na falta deles, de algum arbusto perenifólio como o carrasco, e uma fenda de rocha à medida da folha maior. Há registo da sua presença no sudoeste da Europa (mas aqui rara), na Tunísia, na Córsega, na Sardenha e na Macaronésia (Canárias, Madeira e Porto Santo).

02/04/2010

Um problema de imagem


Genista tournefortii Spach
Esta planta, ao contrário de várias congéneres suas de marcada vocação bélica, não vem armada de espinhos aguçados para nos tolher o passo. O género Genista é polimorfo: inclui plantas agressivamente eriçadas, outras sem quaisquer espinhos, e ainda uma terceira categoria em que os acúleos estão presentes mas não incomodam muito. As da primeira classe levam o nome de tojos (designação mais vulgarmente aplicada ao género Ulex), as da segunda classe chamam-se giestas (mas as giestas mais comuns são do género Cytisus), e as da terceira classe — que abrange a G. tournefortii, com espinhos ramificados nas axilas das folhas — não parecem ter, em português, qualquer nome comum.

Estamos assim perante um óbvio problema de identidade. O género Genista não é uma marca forte, nem possui uma imagem que o público claramente identifique. Até lhe roubaram o nome latino que era seu por direito, genista, não sem antes o estropiarem para giesta nesta língua bárbara que é a nossa. Uma empresa de consultoria, daquelas que têm a poção mágica para resolver todos os problemas do mundo (ou tinham, antes de a crise lhes deixar a careca à mostra), recomendaria uma aposta decidida naquilo que o género Genista tem de distintivo. Só assim, valorizando a diferença, é que ele pode esperar impor-se no mercado. (Qual mercado? — pergunta o leitor já confundido. Não estou bem certo, mas diz a cartilha dos magos consultores que hoje em dia tudo se vende e tudo se compra. Também será assim, suponho, no reino vegetal.)

Esta estratégia de reposicionamento tem na Genista tournefortii o seu elemento-chave. De facto, este arbusto rasteiro (até 50 cm de altura), penugento, com ramos por vezes ascendendentes, que floresce de Abril a Junho e habita na faixa litoral do território português que se estende do Mondego ao Alentejo — este arbusto, dizíamos, não se confunde com um tojo nem com uma giesta. Por um lado, falta-lhe a agressividade espinhenta; por outro, as suas folhas são simples, em vez de serem trifoliadas. A maioria das giestas, aliás, nem tem folhas que se vejam, ou por serem minúsculas, ou por caírem ainda antes da floração. Só falta baptizar a G. tournefortii com um nome sonante para dar início à campanha. Que tal giesta-mansa?

Por coincidência, ainda há poucos dias aqui apareceu uma mostarda com o epíteto tournefortii. Refere-se ele a Joseph Pitton de Tournefort (1656–1708), botânico francês que foi um dos precursores de Lineu, e em cuja obra Élémens de botanique (1694) as plantas já aparecem agrupadas por géneros. Ao estabelecer a proximidade entre espécies, Tournefort olhou para as flores, atendendo sobretudo ao número e ao arranjo das pétalas. Lineu (1707–1778), embora também valorizasse as flores, decretou que as pétalas eram irrevelantes: o que interessava eram os orgãos sexuais (estames, ovários, etc.). As pétalas tinham apenas a incumbência, por vezes dispensável, de fornecer o leito nupcial.

01/04/2010

Flor que ri

During excessive laughter the whole body is often thrown backward and shakes, or is almost convulsed; the respiration is much disturbed; the head and face become gorged with blood, with the veins distended; and the orbicular muscles are spasmodically contracted in order to protect the eyes. Tears are freely shed. Hence, as formerly remarked, it is scarcely possible to point out any difference between the tear-stained face of a person after a paroxysm of excessive laughter and after a bitter crying-fit.

Charles Darwin, The expression of the emotions in man and animals (Folio Society, 2008)

There is a figure of a Bacchante leaning backward, her head thrown quite behind her, which seems to be a favourite invention, as it is so frequently repeated in basso-relievos, cameos, and intaglios; it is intended to express an enthusiastic frantic kind of joy. This figure Baccio Bandinelli, in a drawing that I have of that Master of the Descent from the Cross, has adopted (and he knew very well what was worth borrowing) for one of the Marys [Mary Magdalen], to express frantic agony or grief. It is curious to observe, and it is certainly true, that the extremes of contrary passions are with very little variation expressed by the same action.

Sir Joshua Reynolds (The Literary Works, ed. H. W. Beechy, 1890)


Scrophularia sambucifolia L.
Esta herbácea é perene e tem flores maiores que as de outras espécies do género. É um endemismo ibero-mauritano-atlântico que floresce de Fevereiro a Julho e, entre nós, aporta com frequência, levianamente, às bermas de estrada do litoral centro. Ali assusta-se, e com razão, sempre que avista funcionários, munidos de cones para as divisórias onde se instalam em segurança, empunhando a roçadeira pronta a dizimar qualquer ervinha — e estica o caule mais uns centímetros, quase chegando a um metro de altura, para os amedrontar. Eles, destemidos porque insensíveis, cumprem à risca o corte de cabelo para disfarçar a calvice — com anel ralo em torno do cocuruto nu — e arrasam igualmente a verdura que amenizaria o alcatrão. A flor ri-se de tamanha insensatez, como se zurrasse.

31/03/2010

Folhado florido

Viburnum tinus L.


Quando a Primavera se nos apresenta com o seu cabaz de muitas e sortidas flores, seria ingratidão esquecermos aquelas plantas que nos fornecem regalo à vista no tempo das flores magras. E o folhado (Viburnum tinus), além de iniciar a sua lida floral ainda em pleno Inverno, prolongando-a até Abril, faz-nos companhia tanto nas cidades como em muitos dos nossos espaços naturais. Trata-se de um dos poucos arbustos da nossa flora espontânea que entraram no comércio hortícola e têm lugar de honra em jardins públicos e privados. As fotos reflectem essa dualidade: a primeira foi captada na Mata da Margaraça (concelho de Arganil), a segunda no Parque de Serralves. Ou um tête-à-tête entre uma planta da cidade e uma planta do campo, sem que nenhuma se sinta diminuída face à outra.

Originário da Europa mediterrânica e do norte de África, o folhado prefere bosques perenifólios ou galerias ribeirinhas. Em Portugal, e apesar de ocorrer também no vale do Douro, é mais comum da Beira Litoral para sul, parecendo estar ausente na faixa mais oriental do território. Na Margaraça encontramo-lo associado a azereiros, medronheiros e loureiros; no Pinhal do Rei, na Marinha Grande, é parte do coberto arbustivo do pinhal manso.

É um arbusto perenifólio, de folhas grandes (até 10 cm), verde-escuras e opostas, que pode atingir os seis metros de altura mas em geral se fica por bem menos. As flores, com cinco pétalas brancas ou rosadas fundidas na base, vêm dispostas em agrupamentos achatados (chamados corimbos) com cerca de 10 cm de diâmetro. Os frutos são drupas pretas ou azuis-escuras, pequeninas, cada uma delas contendo uma única semente. E são os pássaros que, devorando a polpa dos frutos por a acharem deliciosa (opinião não necessariamente partilhada pelos humanos), se encarregam de espalhar as sementes.

30/03/2010

Azul na terra como no céu

Polygala microphylla Link
Perhaps the finest flower of Northern Portugal and the neighbouring part of Spain, which hangs from the shady banks and is literally covered with blue flowers in myriads. P. L. Giuseppi, Portugal and its Plants, Bull. Alp. Gard. Soc. 14, 1946 (transcrito de Polunin & Smythies, Flowers of South-West Europe, Oxford University Press, 1997)

Convictos de que este ano o mundo está a funcionar normalmente — se dúvidas houvesse, bastar-nos-ia esta chuva inesgotável, entre outros tormentos mais civilizados, para as dissipar —, aceitámos resignados o formato simplificado das flores desta Polygala, sem o ápice fimbriado que é usual no género. Afinal não é defeito, a espécie é celebrada e esse detalhe até ajudou a identificá-la.

É uma herbácea vivaz baixinha (não mais de 10 cm de altura; as sépalas em asa não excedem 1 cm) que vive em rochedos e bosques ensombrados por sobreiros ou pinheiros do norte de Portugal. As folhas, pequenas e lineares, pouco duram, deixando as flores hermafroditas sozinhas em palco entre Fevereiro e Junho.

Das cerca de quinhentas espécies de Polygala, dezassete são europeias e, delas, apenas seis escolheram a Península Ibérica como casa. A das fotos, rara, talvez esteja a mudar de endereço.

29/03/2010

Samambaia arrepiada

Blechnum brasiliense Desv. [cultivar «Crispum»]
Não são estas as samambaias que no Brasil se costumam cultivar em vasos pendurados do tecto. Mas samambaia é nome que lá se dá aos fetos que formam abundantes tufos de frondes arqueadas. O Blechnum brasiliense, de que o epíteto revela claramente a pátria de origem, segue o mesmo figurino, mas atinge um peso e um tamanho que exigem o apoio da terra firme. Chega mesmo a formar um pequeno tronco, e as suas folhas pinadas e coriáceas esticam-se até um metro e meio de comprimento. Não será excessivo incluí-lo na categoria dos fetos arbóreos.

O Blechnum spicant, que há tempos aqui apresentámos, tem dimensões modestíssimas se comparado com o seu primo sul-americano. De facto, esse pequeno feto ribeirinho parece ser o único membro europeu do género Blechnum. A maioria das restantes espécies — há cerca de duzentas — prefere as regiões tropicais do hemisfério sul, sobretudo da América e da Austrália. Assim, e pese embora o seu aspecto incomum aos nossos olhos, o Blechnum brasiliense, que gosta de locais húmidos a meia sombra ou a pleno sol, é um representante típico do género a que pertence.

Com grande potencial decorativo, o que mais chama a atenção no Blechnum brasiliense é o vermelho acobreado das suas folhas. É esta a cor que elas têm quando novas, mas ficam verdes ao envelhecer, e a presença dos vários tons intermédios dá à planta uma atraente variedade cromática. No cultivar «Crispum», de que existem muitos exemplares no Jardim Botânico do Porto, há ainda a particularidade de os folíolos serem retorcidos, quase arrepiados.

28/03/2010

Festa da Primavera

Masdevallia sp.


Exposição de Orquídeas Tropicais

17 e 18 de Abril de 2010

Jardim Botânico da Ajuda, Lisboa

10h00 às 18h00

Organizada pela Associação Portuguesa de Orquidofilia

27/03/2010

Moscardinho

Ophrys bombyliflora Link


Button Moulder — Hello, old man.
Peer — Good evening, friend.
Button Moulder — In a hurry? What are you doing, here on this empty moor?
Peer — Moving towards my death. What else?
Button Moulder — Ah. Excuse me... my eyes aren't what they were. Are you Peer Gynt?
Peer — So people say.
Button Moulder — Perfect! The man I was sent to find.
Peer — What for?
Button Moulder — Easy. I'm a button moulder. You're to go in my ladle.
Peer — Why?
Button Moulder — To be melted down.
Peer — Pardon?
Button Moulder — Here's the ladle, wiped and waiting. Your grave's dug. Your coffin's ordered. My orders are to fetch your soul to the Boss at once.
Peer — Without a word of notice?
Button Moulder — That's how it's always done. Births... burials. Day chosen on the quiet. Not a word to the guest of honour.
Peer — I don't feel well. Oh Peer! What an end to your journey! I wasn't all that bad. An idiot, perhaps. Not a proper sinner.
Button Moulder — Precisely. Not a proper sinner. You were not bad enough for the sulphur-pit, nor good enough for paradise. That's why you go to the casting ladle with the others.
Peer — You're going to melt me down, and start again?
Button Moulder — That's right. Like worn out coins.
Peer — I refuse. I won't.
Button Moulder — What's all the fuss about? It's not important. You were never yourself, alive — why do you care what happens when you're dead?
Peer — Never myself? You're joking! Never myself — Peer Gynt? What else have I ever been? I am Peer. All Peer.
Button Moulder — You have been selfish, but not yourself.


Henrik Ibsen, Peer Gynt (1867; trad. Kenneth McLeish)

26/03/2010

Mostarda em barda

Brassica tournefortii Gouan.


Era sabido que não tardaria a vingança das couves e dos rabanetes. Um acto de contrição só me fica bem: eu já desdenhei das couves. Infringindo a liberdade que cada um tem de ser rei (ou rainha) em sua casa, opinei por escrito que um vizinho meu, em vez de couves, deveria ter na varanda alguma flor mais requintada. Desataram então as couves a perseguir-me em tudo quanto é jardim, fingindo-se, com indiscutível brio, de plantas ornamentais. É que a Brassica oleraceae L., que comparece à nossa mesa sob os mais diversos disfarces (penca, repolho, couves-de-Bruxelas, bróculos, couve-flor), também dispõe de uma versão anã, com folhagem em tons de rosa, amarelo e vermelho, própria para enfeitar canteiros. Tal disfarce, porém, não engana os coelhos que pululam nos jardins do Palácio de Cristal: couve, segundo eles, é para comer com a boca e não com a vista. Nos outros lugares da cidade onde não há desses vorazes roedores, as couves ornamentais têm vida mais tranquila. E há até um funcionário especializado em cortar à tesoura as hastes florais, poda inocente que visa evitar que a planta revele ao mundo o seu carácter de hortaliça.

Antes de chegarem às hortas — e, mais recentemente, aos jardins —, as couves foram simples plantas espontâneas, brotando em terrenos pedregosos ou ruderais desde a Europa mediterrânica até à Ásia temperada. Das mais de 30 espécies do género Brassica, 21 são europeias e 10 delas ocorrem na Península Ibérica. Mesmo das que foram domesticadas (como a nabiça — Brassica napus L.) encontram-se ainda populações silvestres. E algumas são invasoras fora do seu território de origem. Um exemplo é a mostarda africana, Brassica tournefortii, que pelo seu comportamento reprovável se tornou problemática nos desertos da Califórnia e do México. É que ela, habitante dos lugares mais áridos do norte de África e do Médio Oriente (e também de alguns países do sul da Europa, incluindo Portugal e Espanha), já sabia bem como sobreviver nesses habitats inóspitos. O segredo está em aproveitar qualquer vestígio de humidade para germinar antes da concorrência.

Mostarda é o nome que se dá ao condimento preparado com as sementes desta e de outras plantas semelhantes. As mostardas mais suaves provêm da Sinapis alba ou da Sinapis hirta; as mais pungentes obtêm-se de plantas como a Brassica juncea, a Brassica nigra ou a Brassica tournefortii.

25/03/2010

Abelhinhas amarelas

Ophrys lutea (Gouan) Cav.
O trabalho de um evolucionista, como o dos historiadores e arqueólogos, pauta-se pela incerteza: tem de classificar organismos que desapareceram, ou ainda vivos mas que não pararam de evoluir e a cuja génese não assistiu. Além disso, aos que mal percebem o mosaico de afinidades ou de isolamento reprodutivo entre organismos, e não dominam os processos de diversificação genética e de especiação, parece que a taxonomia, com níveis tão subtis de diferenciação, é uma etiquetagem de conveniência imposta pelos cientistas à natureza. Contudo, todas as espécies têm um antepassado mais simples com uma evolução que, ainda que parcialmente desconhecida, determinou o presente e pode apoiar um estudo historicamente informado.

Até 2005, acreditou-se que as orquídeas tinham uma presença recente na Terra, começando talvez por colonizar a Malásia há uns 2 milhões de anos — muito pouco tendo em conta os 300 milhões de anos das coníferas. Mas os biólogos admitiam como improvável que uma adaptação tão astuta a uma tão grande variedade de habitats e de polinizadores (só não há orquídeas nos desertos e nos pólos; e a família Orchidaceae é a mais numerosa na Terra, com cerca de 25 mil espécies e mais de 100 mil cultivares) pudesse cumprir-se em tão curto lapso temporal.

O fóssil com 15-20 milhões anos de uma abelha (extinta, Proplebeia dominicana) com o dorso coberto de grãos de pólen de uma orquídea (igualmente extinta, Meliorchis caribea), descoberto na República Dominicana, confirmou esta suspeita. E em 2007, cientistas da Universidade de Harvard propuseram, a partir de informação genética desta planta, outra data para a primeira flor de orquídea: 84 milhões de anos, o que significa que as orquídeas afinal conviveram com os dinossauros.

24/03/2010

Nacionalismo vegetal

Carduus platypus Lange


Será que as plantas reconhecem as fronteiras entre estados? Para os botânicos amadores incapazes de interpretar com acerto uma chave de identificação inçada de termos abstrusos, era bom que a resposta fosse sim. Tomemos o exemplo deste cardo, fotografado no concelho raiano do Sabugal. Como foi encontrado em território português, deverá tratar-se do Carduus platypus, uma planta que ocorre nos dois países ibéricos. Se tivéssemos deparado com ele em Ciudad Rodrigo, que em linha recta fica a menos de 60 km do Sabugal, já haveria dúvidas acerca da sua identidade. Nesse caso poderia ser antes o Carduus granatensis, o qual, sendo praticamente igual ao outro, é um exclusivo do país vizinho. Mas a pergunta impõe-se: estarão as plantas impedidas de cruzar fronteiras? Fica a dúvida a roer-nos nesta era em que, mesmo para os humanos, as fronteiras intra-europeias (tirando as dos aeroportos) passaram a ser uma abstracção: edifícios alfandegários abandonados, sem filas de quilómetros nem guardas fiscais a vasculharem bagageiras. Ainda há poucas semanas, numa visita à Portela do Homem, no Gerês, pusemos o pé do outro lado e não notámos qualquer diferença. Por que haveria então uma planta de respeitar essa linha arbitrária que já nenhuma força policial controla?

Mas voltemos ao cardo e tratemos de o situar entre os seus semelhantes. O nome genérico Carduus não engana, mas há muitos cardos que não são Carduus. Alguns até são muito parecidos, como os que foram arrumados nos géneros Cirsium e Onopordum. De Carduus legítimos há cerca de 90 espécies na Europa, Ásia e África; umas 45 são europeias, e 10 delas ocorrem em Portugal.

O C. platypus, robusta herbácea bienal que pode atingir um metro de altura, destaca-se entre os seus congéneres portugueses por exibir as maiores inflorescências, com cerca de 5 cm de diâmetro. Além disso, as suas brácteas são recurvadas e muito longas, quase lineares, com as pontas aguçadas tingidas de roxo. As suas hastes, e também as suas folhas jovens, surgem recobertas por uma penugem esbranquiçada, mas as folhas ficam glabras ao envelhecer. Frequenta terrenos cultivados ou ruderais, sobretudo aqueles que foram sujeitos a perturbações recentes. No Sabugal vicejava alegremente num bosque recém-ardido, e é bem conhecida a predilecção dos Carduus pelos entulhos de fresca data.

23/03/2010

Dias de harpa

Isoplexis canariensis Lindl. ex G. Don.
Madame Defarge, em A tale of two cities, é aldeã, mulher do taberneiro e temerosa defensora da revolução francesa. É a ela que Charles Dickens confia a parte menos digna da tragédia: cabe-lhe guardar nomes e suspeitas numa renda que tricota sem descanso, testemunho que servirá a razão da guilhotina. Fosse ela tecelã da natureza e, depois da linha branca para vincar a manhã, entremearia no tapete delicadas ervas, orquídeas, narcisos, campânulas e linárias, enlaçadas em tufos de algodão felpudo com cores quentes de Abril. E, ainda que somente traços, nenhuma espécie sumiria deste chão de fios.

O género Isoplexis conta com quatro espécies endémicas na Madeira (I. sceptrum (L. fil.) Loud) e nas ilhas Canárias (I. canariensis, I. chalcantha e I. isabelliana), ou talvez menos porque são raras e estão em risco de desaparecer do seu habitat natural. Apreciam bosques húmidos de pinheiros, escarpas rochosas ou ravinas de laurissilva, onde o solo é fugidio quando chove em excesso.

A Isoplexis sceptrum é um arbusto perene com caules ramificados que chega aos quatro metros de altura. As folhas são simples, obovadas, de 10 a 40 cm de comprimento e face inferior pubescente. As flores tubulares, que lembram as do género Digitalis (onde Lineu colocou as Isoplexis e aonde elas regressaram como secção independente em 1999), têm dois lábios, o inferior dividido em três lóbulos (redondos, mais curtos que os da foto). Reúnem-se em coruchéus densos cuja duração é longa (Julho-Agosto), adaptação a alguns pássaros polinizadores atraídos por receita timbrada de néctar.

22/03/2010

Primavera oriental

Primula japonica A. Gray
Tenho um vizinho que, gostando embora de plantas e cultivando uma variedade razoável delas no seu minúsculo jardim, revela alguma dificuldade com os nomes científicos. Como não gosta de fazer má figura, recorre amiúde a uma ou duas muletas de efeito assegurado. Uma delas é socorrer-se do epíteto japonica. São tantas as plantas que legitimamente ostentam esse nome que o erro, a existir, não será grave: se aquela não é japonica, outra haverá da mesma família que já o é, e a diferença entre as duas não será de grande monta. Foi assim que a magnólia-sempre-verde do jardim do meu prédio passou a ser uma Magnolia japonica — ela que, originária do sudeste dos EUA, sempre foi tratada como Magnolia grandiflora por causa das suas grandes flores. Mas não se ofendeu nada com a troca, até porque tem muitas primas japonesas.

Também as prímulas ou primaveras europeias (de que já mostrámos dois exemplos) têm família no país dos samurais. E nada melhor, para comprovar a asserção, do que trazer aqui a Primula japonica. Como país do hemisfério norte situado aproximadamente à mesma latitude que o nosso, as estações do ano, no Japão, são comparáveis às que aqui temos, e ocorrem na mesma altura. Contudo, lá a floração das primaveras (falo da flor, não da estação) é mais tardia, prolongando-se até ao Verão.

A P. japonica distingue-se da P. veris por ter as inflorescências organizadas em patamares: em cada andar — pode haver até seis — as flores dispõem-se em círculo, formando uma espécie de grinalda. Flores que podem ser brancas, ou assumir vários tom intermédios entre o branco e vermelho carregado. Nos dois extremos da escala cromática há cultivares registados no mercado europeu de jardinagem: «Miller's crimson» e «Postford white».

Petição por Monsanto

A Plataforma por Monsanto lançou um abaixo-assinado, dirigido ao presidente da Câmara de Lisboa e ao seu vereador dos espaços verdes, para que cessem as tropelias que têm sido cometidas contra o parque florestal de Monsanto: abate indiscriminado de árvores, continuação da actividade do campo de tiro, instalação de equipamentos e de actividades com impactos elevados. Os fundamentos do abaixo-assinado estão sintetizados neste documento. Quem quiser subscrever o protesto, pode fazê-lo aqui.

21/03/2010

Aos desarvorados

A Plataforma por Monsanto lançou um abaixo-assinado, dirigido ao presidente da Câmara de Lisboa e ao seu vereador dos espaços verdes, para que cessem as tropelias que têm sido cometidas contra o parque florestal de Monsanto: abate indiscriminado de árvores, continuação da actividade do campo de tiro, instalação de equipamentos e de actividades com impactos elevados. Os fundamentos do abaixo-assinado estão sintetizados neste documento. Quem quiser subscrever o protesto, pode fazê-lo aqui.

Ginkgo biloba L. — árvore nascida de semente em 1754 — Kew Gardens
Em Espanha, aqui há uns anos, estava em andamento o projecto de cortar as árvores que ladeiam as estradas, com o objectivo de diminuir o número de acidentes graves na circulação automóvel. Um sujeito, em vez de ir bater no tronco, voaria até ao campo e com isso, certamente, muita vida seria poupada. Foi por diante o projecto? Não sei. Só sei que me pareceu uma ideia tonta, talvez porque ainda não morri contra uma árvore...

Não deixar as árvores «virem» à estrada que resolve, afinal de contas? Haverá outras maneiras menos selvagens de poupar vidas: aperfeiçoar a mecânica dos carros, melhorar (ou açaimar) os cérebros dos condutores, etc.

Hoje, que é o Dia da Árvore, pensemos nas árvores que foram sacrificadas pela nossa colectiva e sôfrega tontaria. Qual de nós não terá uma querida ausente sob a forma de uma árvore que lhe acena de muito longe no tempo? Do recanto de jardim em que havia aquela árvore, lembras-te? Caducada a folha daqueloutra, recordas-te do fino desenho invernal que os teus olhos dela recortavam contra a lividez do céu? Pois olha, olha: agora, no lugar dessa árvore, desencaixotaram um novo prédio. Conta-lhe as janelas, dá pasto melancólico aos teus tristes olhos de citadino encarcerado. Tens candeeiros. Que queres mais?

A Primavera já está a acender as suas árvores. Põe qualquer coisa como uma flor em qualquer coisa como uma lapela e sai de assobio para a rua. Sê atrevido — e levanta, nem que seja só em imaginação, a tua própria árvore, nos sítios mais inesperados. E principalmente que ela atravanque tudo, suspenda a lufa-lufa dos negócios, se oponha, escandalosa, aos frenéticos automobilistas e os obrigue a fazer grandes desvios, para não baterem nela e nela acabarem por apodrecer encaixotados, como pobres mortais que são!


Alexandre O'Neill, Já cá não está quem falou (Assírio & Alvim, 2008)

Árvores no Cancioneiro Popular

20/03/2010

Loba-anã

Chaenorhinum origanifolium (L.) Fourr.
As cabras e o modo como se aproximam de um fio de erva podem preencher todo o cérebro de uma pessoa inteligente, mesmo que tal facto se passe às sete da tarde.

Muitas coisas acontecem na natureza. Com tanta erva e animal a pastar, para quê procurar diversão nas cidades?

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (Campo das Letras, 2004)