30.4.07

Parque de Avioso


Sobreiro e (à direita) giesta (Cytisus striatus), urze (Erica sp.), arroz-dos-muros (Sedum brevifolium)

Foi em Agosto de 2005 que a Câmara da Maia promoveu, antes mesmo da inauguração oficial, uma série de visitas guiadas ao novo Parque de Avioso, um espaço de 30 hectares a norte do concelho, já na fronteira com a Trofa. Apesar de os trabalhos de arranjo paisagístico não estarem então totalmente concluídos (ainda não o estão dois anos depois), o que pudemos ver era promissor: caminhos cheios de curvas e desníveis criando perspectivas variadas; pequenas matas de sobreiros e carvalhos; um vale fresco, convidativo ao descanso, sulcado por um riacho; um recreio para crianças no abrigo do arvoredo. Tudo planeado e executado pela própria Câmara, que optou muito sensatamente por não recorrer aos arquitectos da moda.

A Câmara aproveitou as árvores existentes (carvalhos e sobreiros, com uma envolvente de pinheiros e eucaliptos), plantou muitos novos carvalhos (Quercus robur), e procedeu a uma sementeira de bolotas que se saldou por um previsível fiasco. Além do terreno inóspito em que foram semeadas e da seca que então afligia o país, as plantas que porventura germinassem ainda teriam que sobreviver ao pisoteio dos utentes do parque. Houve ingenuidade nessa apressada tentativa de criar um carvalhal, pois a natureza não se regenera de um dia para o outro, e muito menos o faz num espaço de lazer que se quer muito frequentado. É um caso em que a natureza precisa de ser ajudada: há que plantar árvores de porte já razoável (faltam ainda muitas árvores no Parque de Avioso), abrindo covas amplas que se encham com boa terra vegetal. E não se plantem só carvalhos: os azevinhos, medronheiros, cerejeiras, castanheiros, azereiros, teixos e tantas outras árvores e arbustos da nossa flora nunca lá hão-de aparecer espontaneamente.

Enquanto não chegam as árvores, é a vegetação espontânea dos nossos montes que vai dando uma cor primaveril ao Parque de Avioso: urze, giesta, tojo, sargaço e um sem-número de minúsculas herbáceas. Tudo isto vai secar ou desbotar no Verão, e à falta de cor há-de juntar-se a falta de sombra numa grande porção do parque. E não ajuda a compor o conjunto que o «edifício de acolhimento», onde deveriam funcionar uns comes-e-bebes e uma esplanada, esteja ainda desocupado.

28.4.07

The Scarlet Pimpernel

Este é o título de uma novela de aventuras, que decorrem no cenário da Revolução Francesa, escrita em 1905 pela Baronesa Emmuska Orczy. O enredo, que os críticos literários consideram de qualidade inferior, sem rigor histórico e socialmente condenável, foi contudo um sucesso no seu tempo, adaptado posteriormente ao cinema e televisão. O herói é uma figura esquiva, solitária, gaiata para afastar as atenções de si e assim, secretamente, com coragem e ousadia, salvar aristocratas franceses da guilhotina.


Anagallis arvensis

Scarlet pimpernel é também o nome carinhoso que os ingleses dão à flor da Anagallis arvensis, cujo tamanho não ultrapassa o de uma unha do dedo mindinho. Planta anual, rara de encontrar apesar de apreciar dunas e campos de cultivo em repouso, precisa de sol para não definhar: as folhas esforçam-se para ter sempre a face superior voltada para o sol e, mal o céu se ensombra ou há ameaça de chuva, as flores fecham-se e escondem-se entre a ramagem. É famosa pelo seu uso em cosmética; e, diz-se, um bom remédio contra a melancolia.

27.4.07

Explicação da flor



Cornus florida - Parque Florestal de Amarante, Abril de 2007

A beleza em Portugal é uma raridade, e por isso voltamos sempre aos locais onde a encontramos. É a terceira vez que esta árvore em Amarante, que nem sequer logrou ter nome em português, aparece no nosso blogue: ora vista de longe como uma mancha rosa na paisagem; ora de perto para melhor lhe admirarmos a floração. Hoje vêmo-la de mais perto ainda, e aproveitamos a ocasião para lhe desvendarmos as flores. Essas grandes pétalas rosadas são na verdade brácteas - ou seja, folhas modificadas que se mascaram de pétalas. E a flor que vemos à esquerda não é propriamente uma flor, mas sim um arranjo floral: no seu centro, em vez de estames, o que há é um ramalhete de minúsculas flores.

Essas inflorescências que parecem flores são uma das características do género Cornus, se bem que nalgumas espécies as brácteas vistosas estejam ausentes. São cerca de seis dezenas as espécies de arbustos ou pequenas árvores, originárias da Ásia, Europa e América do Norte, que integram o género Cornus, muito cultivado em países onde a jardinagem é levada a sério mas quase inexistente nos jardins portugueses. Os frutos são bagas carnudas, em regra vermelhos, muito apreciados pelos pássaros. A Cornus florida é nativa da costa leste dos EUA, e atinge uma altura máxima de 10 metros. Na sua forma mais comum apresenta «flores» brancas, e não cor-de-rosa como as deste exemplar.

26.4.07

A ler - Ainda a Avenida dos Aliados

No Quinta do Sargaçal

Ulmeiro - Amarante



Ulmus glabra 'Pendula' no Parque Florestal de Amarante -fotos: Abril de 2005
A manchinha cor-de-rosa na fotografia da direita corresponde à copa de um Cornus florida aqui já retratado Este ulmeiro "chorão" fica à sua frente, à direita.

25.4.07

3 x 10 + 3


Libertia grandiflora

«Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos.»

Manuel António Pina
(JN, 24 de Abril de 2007)

24.4.07

O tojo de Boímo


Ulex europaeus - Parque Biológico de Gaia

Pelo caminho fora já o tojo se mostrava bonito, mas a partir dos Arcos tornou-se esplendoroso. Toda a serra estava em flor. E o amarelo do tojo deita luz. Deve ser porque a flor sendo labiada se fecha sobre si mesma, e guarda lá a luz. De certeza é um pedacinho de sol que lá se esconde e o tojo ilumina a própria atmosfera que o rodeia. A planta em si tesinha, orgulhosa, com os seus ramos elegantes e fortes, anuncia a Primavera antes de tempo, qual arauto alegre e vaidoso. As flores de Verão foram-se há muito, mas quando já nos esquecemos delas, outras vieram para nos alegrar! Primeiro os crisântemos, com seu cheiro seco e as pétalas em “cabeleira”; e, quando a nossa lembrança os deitou fora, (...) chega o tojo de picos muito ruins depois de secos, mas bem menos agressivos quando verdes. E o verde da planta é tão forte de seiva e cor! Aqui só dois ou três pés, além uma leirita meia cheia, mais adiante um campo grande pejado daquele amarelo de sol. Alguns gostam de socalcos e então é vê-los em escadinhas, umas mais esvaídas, outras tontas de cor! Uns espreitam medrosos, outros escondem-se atrás das giestas, porque para elas ainda não chegou a hora. Vê-los de perto é ter a noção da força do agreste vestido de cor pujante e lisinha para amparar o Sol radioso da flor. A bem dizer a Primavera já diz alguns segredos a certas plantas amigas. Os salgueiros são talvez os primeiros a ter rebentos, a couve galega empertigada deita a sua flor branca, fresca e bonita, cheia de alegria, os chorões até já tem folhinhas, e tudo nos lembra o milagre que acabou de acontecer há tão pouco tempo: o milagre das magnólias. Aqui e além ainda se vêem restos das suas flores, e elas deixam-nos as suas pétalas côncavas descansando pelo chão fora para se fazerem lembradas. Como se fosse possível esquecê-las! É neste ninho de alegria e promessas que o tojo mostra a sua flor.

Ai tojo “meu” de Boímo, por que és tão bonito e viçoso? Visita-nos todos os anos. Mas por que te «calas» tão depressa e não ficas connosco até vir a chuva de Inverno?


Março de 2006
Maria de Lourdes Álvares Ribeiro [kiki-ribeiro(at)sapo.pt]

23.4.07

Da horta



Apesar de estes duas espécies de Phlomis surgirem lado a lado no jardim de Serralves, e de serem ambas de origem mediterrânica, elas não costumam encontrar-se na natureza. A P. fruticosa, de flores amarelas, é mais oriental e distribui-se desde a Sardenha até à Anatólia; a P. purpurea, do Mediterrâneo oeste, fica-se por Portugal, Espanha, Marrocos e Argélia. As folhas aveludadas e as flores agrupadas em coroa na axila das folhas mais altas dão a estas plantas um ar exótico muito atraente. Pertencem à família Lamiaceae, o que se nota no formato das flores, em particular no capuchinho da corola. É notória a semelhança com o género sul-africano Leonotis; as duas plantas partilham a preferência por solo pobre, seco ou bem-drenado, e muito sol. No Inverno são apenas um montinho de folhas usadas a proteger as raízes enquanto esperam por nova rodada de calor.

No livro The Jade Garden - New & notable plants from Asia, de Peter Wharton, Brent Hine e Douglas Justice (da University of British Columbia Botanical Garden & Centre for Plant Research, 2005), os autores testemunham a boa adaptação desta planta a climas extremos, desde que viva em canteiros de pouca rega.

21.4.07

Marmelo, marmeleiro, marmelada



Cydonia oblonga - Palácio de Cristal, Porto

Se tudo correr bem, as flores destas árvores vão transformar-se em frutos - e é só para combater o desperdício que a seu tempo iremos apanhar marmelos a este recanto tão pouco visitado dos jardins do Palácio. A natureza é generosa mesmo com os sem terra da cidade.

O marmeleiro, originário do Médio Oriente mas há muitos séculos aclimatado na Península Ibérica, mantém com a nossa língua uma relação ambígua. Deu origem a uma palavra portuguesa que veio a ser adoptada por outras línguas, mas depois desinteressou-se dela; ou, mais exactamente, a árvore não quis mais conversa com as versões para exportação da palavra. A nossa marmelada (necessariamente de marmelo) deu marmalade em inglês (que é a compota de laranja amarga) e marmelade em francês (nome de qualquer compota com a consistência do puré, mas não da genuína marmelada - pois ao mais parecido com ela que por lá têm chamam os franceses cotignac d'Orléans). Prova acabada de que os estrangeiros não têm jeitinho nenhum para línguas.

20.4.07

Tulipeiro revisitado


Tulipeiro (Liriodendron tulipifera) -Casa das Artes- Porto
Ver álbum de fotos

Pedido

Alguém me ajuda a identificar esta ave?
(que gravei por acaso enquanto estava a video-contemplar um rododendro em flor ;-)
Um amigo disse-me que era um melro, mas na altura não me pareceu e agora continuo na dúvida.



(A propósito de aves e de cantos não deixem de ver e ouvir a absolutamente extraordinária Lyre Bird, filmada e descrita por D. Attenborough)

19.4.07

Vegetação ruderal



Borago officinalis

O género Borago tem três espécies, endémicas na região do Mediterrâneo: B. longifolia, da Líbia; B. pygmaea, do sul de Itália; e B. officinalis, a borragem mais comum, usada em bebidas espirituosas ou saladas e cultivada em larga escala para extracção, a partir das sementes, de um óleo rico em ácido gama-linoleico. A folhagem destas plantas é muito penugenta e as flores azuis (raramente brancas) são estreladas e exibem estames gordos. São habitantes de solos pobres e recantos desconfortáveis, como escombros, bermas, taludes, campos outrora cultivados, matas incendiadas.

Crê-se que o termo borragem, que deriva do latim borrago, poderá estar relacionado com o árabe abu ‘araq, que designa substância diaforética, pelo uso em medicina árabe da borragem como sudorífero.

18.4.07

O primo continental


Echium plantagineum - Quinta de Santo Inácio e Parque Biológico de Gaia

Como muitos dos seus conterrâneos, também o massaroco - ou pride-of-Madeira quando viaja para o estrangeiro - tem primos no Continente. Um deles é o Echium plantagineum, vulgarmente chamado soagem, herbácea anual espontânea em Portugal e em toda a bacia mediterrânica, que vemos agora pintando de azul os campos. Disseminando-se ela sem ajuda humana, é natural que os nossos jardineiros a não valorizem, mas a verdade é que noutros países são comercializados vários cultivares da planta. Há dias o blogue Um Toque mostrou-nos alguns Echium plantagineum que parecem sofrer de uma obesidade doentia: em vez da habitual haste estreita, formam elefantinos caules achatados de onde saem várias cabeças floridas. Talvez essas plantas, em lugar de - como é normal para a espécie - completarem em poucos meses o seu ciclo de existência, contem já alguns anos de vida. O efeito não é paticularmente bonito, mas é curioso de se ver. E quem sabe se algum horticultor mais afoito não quererá reproduzir esses monstros, registando assim novo cultivar?

«Árvores e Florestas de Portugal»

Esta série de nove livros, coordenada pela Liga para a Protecção da Natureza e por uma equipa do Instituto Superior de Agronomia, começa amanhã a ser distribuída semanalmente (às quintas-feiras) com o Público, ao preço de 10 euros por volume. Potencialmente, trata-se da obra de divulgação mais importante que sobre o assunto alguma vez se editou em Portugal - e mal estaríamos nós e os nossos leitores se a deixássemos fugir. Eis a lista completa dos volumes previstos, com as respectivas datas de saída (clique em cada título para mais informações):

  1. Floresta portuguesa: imagens de tempos idos - 19 de Abril
  2. Os carvalhais: um património a conservar - 26 de Abril
  3. Os montados: muito para além das árvores - 3 de Maio
  4. Pinhais e eucaliptais: a floresta cultivada - 10 de Maio
  5. Do castanheiro ao teixo: as outras espécies florestais - 17 de Maio
  6. Açores e Madeira: a floresta das ilhas - 24 de Maio
  7. Floresta e sociedade: uma história em comum - 31 de Maio
  8. Proteger a floresta: incêndios, pragas e doenças - 7 de Junho
  9. Guia de campo: as árvores e os arbustos de Portugal continental – 14 de Junho

17.4.07

Juniperus- Zimbro

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Juniperus sp. fotografado no Concelho de Sabrosa > - Rio Douro ao fundo- Agosto de 2006
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(A propósito do corte de zimbros na zona do Alto Douro- ler aqui)
«O género Juniperus compreende cerca de cinquenta espécies de arbustos ou mais raramente pequenas árvores de folha persistente habitando todas o hemisfério Norte. (...) Distinguem-se facilmente das outras Coníferas pelos seus frutos, que são pequenos cones constituídos por escamas carnudas e unidas entre elas , formando pequenas bolas, os gálbulos, maduros somente no segundo ano, ficando então com o aspecto de bagas de um negro azulado - as "baies de genièvre" do zimbro comum. A maior parte das espécies são dióicas: existem portanto pés masculinos e pés femininos.
As folhas são também muito singulares. São as únicas Coníferas que, adultas, têm ora folhas aciculares (agulhas), ora escamiformes (escamas), ora ambas simultaneamente, enquanto que a sua folhagem juvenil é exclusivamente acicular. Estas agulhas são quase sempre verdes na sua face inferior mas apresentam na face superior, 1 ou 2 bandas de estomas de um branco aveludado, o que confere de longe uma aparência cinzenta ou azulada. (...)
As plantas deste género são utilizadas com os mais diversos fins desde a antiguidade. Os frutos do Juniperus comunis é usado como condimento e para o fabrico de álcool; da madeira do Juniperus oxycedrus extrai-se óleo de cade; (...)» traduzido de Larousse des Arbres et des arbustes de Jacques Brosse.

16.4.07

Chinese fringe-flower



Loropetalum chinense var. rubrum - Parque Biológico de Gaia

15.4.07

As magnólias


Magnólia em Santo Tirso, 3 de Março de 2007

Há magnólias de folhas vivazes, grossas, revestidas de verniz brilhante, espesso e seco. As folhas vão caindo aos poucos, e pelo ano fora deixam no chão um desenho de cores com amarelo, castanho, verde, algumas até mesmo de preto se vestem. A sua ramagem é frondosa, e a árvore chega a ser enorme. As flores brancas fazem-se um pouco rogadas pois é preciso procurá-las com os olhos para as encontrarmos no meio daquela floresta de folhas verdes e duras. Às vezes apetece colhê-las só para as desgarrar daquela ramagem imensa e linda. Na mão parecem mais lindas ainda, o que não acontece com as magnólias de folha caduca, pois a essas temos quase medo de lhes tocar. São estas últimas que anunciam o milagre da Primavera. E vingam-se das suas irmãs dando flores antes mesmo de chegarem as folhas. Em Fevereiro conseguem fechar a porta do tão triste Inverno para nos alegrar. Quem as conhece espreita-lhes a chegada como se faz com as andorinhas: vai-se à janela, pergunta-se ao Sol se está quentinho, rogam-se pragas à chuva que dá viço à planta mas mela as flores… Porém a expectativa é grande, sobretudo porque a vinda da floração não tem dia marcado. Os rebentos vão crescendo compridos bicudos, compactos, mas os ramos sem folhas ainda cheiram a Inverno! Só que os botões não tomam conhecimento e vão procurando antecipar a Primavera alojando-se aconchegados e felizes. Um dia lá vem uma corzinha de flor surgindo do miolo do rebento. É a certeza de que virá breve aquele milagre de espanto, e para isso basta esperar um pouquinho. A árvore cobre-se de flores brancas ou arroxeadas. Pétalas côncavas, primeiro fechando-se numa quase bola, que depois se vai abrindo lentamente. Pétalas que perdem a força, mas não perdem a cor que levam para o chão quando caem. Talvez para se vingarem do Inverno. E cobrindo os ramos sem folhas as flores das magnólias tornam o espectáculo mais milagroso ainda. No Porto vale a pena fazer uma peregrinação visitando as magnólias em flor e tantas ali há!

Vivido desde que há magnólias, escrito em 21-04-2006 por
Maria de Lourdes Álvares Ribeiro [kiki-ribeiro(at)sapo.pt]
Texto enviado por Ana Aguiar

14.4.07

Bela e forte




Encantados pelos metrosíderos, melaleucas, eucaliptos, patos e gansos do Parque da Cidade, só há dias reparámos nesta mirtácea. Pelas inflorescências diríamos que se trata de um Callistemon; mas as folhas pequeninas a espiralar nos ramos tornaram mais difícil a identificação deste arbusto. Um catálogo da flora australiana parece indicar que se trata de uma Beaufortia, arbusto endémico no sudoeste da Austrália, talvez da espécie B. aestiva. Sendo assim não terá sido apropriada a escolha desta planta para os terraços mais à beira-mar do Parque: é que ela aprecia ambientes secos, tendo vida curta em climas húmidos e chuvosos.

O nome do género homenageia a duquesa de Beaufort (Mary Capel Somerset, 1630-1715), mecenas dos Jardins Botânicos de Badminton e Chelsea e exímia horticultora.

P.S. Uma investigação mais aturada - que envolveu ajuda intercontinental e a consulta do livro Australian Native Plants (5.ª edição) de J. W. Wrigley e Murray Fagg - permitiu-nos concluir que, apesar de ter folhagem e ramificação semelhantes às da Beaufortia, esta planta é na verdade uma Melaleuca diosmifolia, também originária do oeste da Austrália.

13.4.07

Encontro imediato


Uma visita recente ao belo jardim habitado por Ann K. and Jean Paul B. preparou-me para o encontro verdadeiramente inesperado com este exuberante Echium fastuosum (ou candicans) que vegeta num pequeno jardim na Rua Corte Real, não muito longe desta olaia florida. Pertencente ao género Echium (do gr ekhis, serpente), esta planta, segundo parece, é designada por "orgulho-da-Madeira" em outros idiomas excepto no nosso, em que tem o bem mais prosaico nome de massaroco .


Ver foto desta planta no seu habitat num dos belíssimos portfólios do fotógrafo Luís Quinta.

11.4.07

A vinca que não vinga

Visitando uma exposição de arquitectura, pode apreciar-se, reunido em ponto pequeno num único salão, aquilo que à escala real obrigaria a uma visita demorada a lugares diversos em pontos afastados da cidade. Há uma leitura unificadora que permite construir uma imagem simplificada de um certa realidade urbana, o que em si mesmo nada tem de errado: o mundo, afinal, só se deixa perceber em pequenas parcelas, e são essas incompletíssimas abstracções que formam os mapas mentais com que nos vamos governando. Mas a visão da maquete - ou do cenário digitalizado, ou das fotos cuidadosamente enquadradas - nunca pode substituir a experiência sensorial dos lugares. As pessoas não são feitas do mesmo material inerte que compõe os bonecos da maquete, nem são uma combinação evanescente de pixeis coloridos. Se não houver bancos para descansar, ou se os houver mas sem encostos e com assentos de pedra fria; se os abrigos não protegerem da chuva nem do vento; se a sinalética for tão discreta que se torne ilegível; se um jardim, em vez de plantas e flores, tiver a terra nua semeada de lixo e excrementos - então, experimentando estes desconfortos, as pessoas de carne e osso vão concluir que aqueles espaços não foram pensados para elas.



O arquitecto Eduardo Souto Moura cometeu cada um destes pecados contra os utentes do metro do Porto ou contra os frequentadores de espaços urbanos onde a empresa também interveio. Alguns dos «lapsos» foram já corrigidos, mas outros, em atenção aos direitos de autor do arquitecto (mais respeitáveis do que o bem-estar daqueles que diariamente sofrem com a sua obra), talvez nunca venham a sê-lo. O que não impede a obra de ser premiada internacionalmente como modelo de «inserção urbana», nem de sobre ela se inaugurar, na alfândega do Porto, uma exposição celebratória com muitas vénias e elogios. A mesquinha realidade quotidiana é triunfalmente obliterada pela maquete, pelo design, pela foto na revista de arquitectura, pelo discurso laudatório reproduzido acriticamente na imprensa.

Por isso, nada melhor do que tentar corrigir com alguns toques de realismo esse retrato idealizado, seja passeando pela pétrea avenida dos Aliados, dando um relance ao desgostoso Campo 24 de Agosto, ou parando num Jardim do Marquês deslavado, imune às cores da Primavera. Aliás, neste último caso, o arquitecto e a sua equipa parecem empenhados em demonstrar exuberantemente, quiçá com intuitos pedagógicos, que a sua aptidão para planear jardins é comparável à de um comum sapateiro para desenhar edifícios. Ou talvez o sapateiro, tendo a noção mínima de que uma casa precisa de paredes, saiba mais de arquitectura do que sabe de jardins e das suas funções um arquitecto que não vê necessidade de neles existirem plantas diversificadas. Esse terrume acastanhado que se vê na foto em cima, e que ocupa, assim despido e sujo, uma grande parte do Jardim do Marquês, deveria, segundo o projecto, estar forrado com uma única espécie vegetal, a vinca (Vinca sp.): trata-se de uma planta espontânea da nossa flora e, embora sozinha tenha pouca graça, é uma boa escolha para jardins. Acontece que nem sozinha ela quis ficar: desde Junho de 2006, data em que o jardim foi reaberto ao público, que a vinca se recusa a vingar. Primeiro protegeram-na com uma manta branca, fazendo do jardim cadáver amortalhado; retirada a manta, estenderam no chão uma rede presa com estacas. Mas da vinca, que viceja alegremente em muitos parques e jardins do Porto e arredores, só sobraram no Marquês uns fiozitos secos. Ou a vinca ou nada, resmunga o arquitecto. Será nada, suspiramos nós.

Fotos: Jardim do Marquês em Abril de 2007; Vinca major no Palácio de Cristal

10.4.07

Doces bagas


Ribes sanguineum

O género Ribes, de arbustos silvestres bem disseminados no hemisfério norte, é, a par dos scones, o responsável pela fama do chá-das-cinco, servido num regalo de tartes - as de maçã ainda quentes ou as de groselha, seja ela escarlate ou negra - de compotas, geleias e natas. Estes frutos são pequeninos, redondos, suculentos, ricos em vitamina C, com uma pontinha aguçada herdada da flor seca. A espécie da foto, Ribes sanguineum, endémica no norte da Califórnia, é sobretudo ornamental. A folhagem é pendente, frondosa e aromática; as flores nascem em cachos e têm perfume insinuante.

À família Grossulariaceae pertencem também as escalónias, como a Escallonia rubra que é frequente nas nossas sebes, suporta estoicamente a poluição urbana e também está agora em floração.


Escallonia rubra

9.4.07

Novidade

ainda à experiência...
Álbuns- Dias com árvores
O primeiro álbum publicado reune algumas das fotografias tiradas há um ano durante uma visita à Quinta de S. Inácio em Avintes (Vila Nova de Gaia) organizada pela Associação Campo Aberto.

Rhododendron's season




Fotos tiradas em Abril de 2006 durante uma visita organizada pela Campo Aberto. Ver álbum de fotos aqui.
Rododendros e azáleas em flor num dos jardins da Quinta de Santo Inácio (Avintes,Vila-Nova de Gaia). Estes jardins e o bosque foram recentemente classificados de interesse público. Na foto da direita em baixo vê-se um Eucalyptus obliqua que deverá ser o maior de Portugal.

8.4.07

Aquietação

.
«Melro arisco e feliz
Que, na brancura
Pura
Das camélias,
Chocas ovos pascais
Galados de ressurreição,
Quem te contou da triste maldição
Dos poetas,
Sombras de inquietação
E de agoiro maninho?
Sossega e amadurece
O mistério da vida.
E deixa que eu espreite envergonhado
Do poema gorado
Que sai da minha inveja enternecida.»

Miguel Torga (1975), in Diário XII

Amêndoas

  • Uma tradição que hoje depende da importação- no Jornal de Notícias
  • Páscoa com doces tentações : «A grande maioria das amêndoas que se consomem na Páscoa é confeccionada a partir de máquinas de produção industrial, mas no Porto ainda resiste uma fábrica onde a confecção é artesanal. O mais fácil é entrar na cozinha onde tudo começa,o mais difícil é resistir às tentações. (...)»- n'O Primeiro de Janeiro
  • Amêndoas «à antiga» ainda resistem : «As amêndoas de Portalegre, confeccionadas artesanalmente por uma família há mais de 70 anos, continuam a tentar resistir à produção industrial, que na quadra da Páscoa coloca no mercado centenas de tipos de amêndoas. » - n'O Primeiro de Janeiro
  • As amêndoas da Páscoa por Nuno Velez do 4º ano da Escola da Urra

7.4.07

Pascoinhas


Coronilla valentina subsp. glauca - Parque de Serralves

6.4.07

Quedas de Fervença




Se as águas do rio Leça, aqui tão perto da nascente, soubessem das ignomínias que lhes estão reservadas nos mais de 40 quilómetros que lhes faltam percorrer até à foz, no porto de Leixões, por certo desistiriam do seu curso e, contrariando a gravidade, remontariam ao aconchego limpo de onde saíram. Mas ei-las vivas e fervilhantes de espuma, saltitando inocentemente de pedra em pedra, enquadradas pelos amieiros que já vão brotando folhagem nova neste começo de Abril, muito longe de imaginar que delas se vai fazer o rio mais poluído da Europa.

Para visitar as quedas de Fervença, esse infantário onde um rio Leça menino aprende a brincar, comece por estudar num mapa de estradas o trajecto até Monte Córdova, freguesia do concelho de Santo Tirso onde Camilo Castelo Branco quis que vivesse uma bruxa. É lá que fica o carvalhal de Valinhas, de onde parte um caminho pedestre, algo acidentado e declivoso, que se estende por algumas centenas de metros entre matas de eucaliptos. O rio Leça, atencioso com os caminhantes, faz-se ouvir quando o caminho se bifurca, apontando a direcção a tomar. E ei-lo ao fundo da ribanceira, intervalo inesperado de vida e frescura no monótono eucaliptal.

5.4.07

"De magnólias e camélias"

JN de 5 de Abril
por Hélder Pacheco , Professor e escritor

«No seu belo livro de saudades, "Regressos", Manuel Teixeira-Gomes, no exílio em Bougie, escreveu "Que aroma me lembra o Porto? (...) O heliotropo, morno e lento." Nunca entendi tal evocação do grande prosador relativamente ao Burgo. Onde e como teria retido a imagem e o cheiro do girassol num espaço onde é tão pouco comum? Mas como as recordações são livres, respeitemos a escolha.

Confesso que, desde os tempos do calção, os cheiros que me vêm à lembrança são os das tílias, no Palácio, o das magnólias, em Santa Clara. Sobretudo estas, pintando o largo de flocos de neve, no ar, no céu, nos milhares de pétalas caídas no chão. Apesar da vizinhança do Aljube, mal a Primavera despontava, o ambiente tornava-se inebriante. Também a magnólia da Praça, nos Congregados, além de espantar os olhos, cheirava bem.

Digo cheirava - particípio passado - pois não sei se tal acontece agora da mesma maneira. Quando passo debaixo das magnólias, ponho-me a sorver o ar imaginando que sim, que ainda cheira. Mas não tenho a certeza. Ou é da globalização, do efeito de estufa, do monóxido de carbono ou do meu olfacto que já não é o que era. Nem a Avenida das Tílias odora, como dantes, aquele perfume subtil que impregnava o sítio. Culpa minha, certamente.

Mas que certas ruas se tornam, com as magnólias floridas, ainda mais bonitas quando a Primavera começa a dar sinais é evidente. Sobretudo para quem andar por aí, com olhos de caçador não da sordidez urbana mas daquilo que ainda vai tornando a cidade habitável e poética. E não posso deixar de elogiar o esforço dos Serviços de Ambiente na plantação dessas magnólias brancas ou vagamente púrpuras, a pender para o roxo, que nos enfeitiçam pelo tom de alacridade que transmitem à urbe.

E, no alvoroço de Verão antecipado com que, este ano, o malfadado Inverno se despediu, foi a cidade brindada com a Exposição de Camélias que, após anos de vil apagamento, parece ter regressado, espero que definitivamente. Não podia ser de outro modo na terra proclamada "a "pátria delas" e tornara-se incompreensível o desleixo, desinteresse e menosprezo por tão brilhantes tradições portuenses - a flor e a sua exposição anual.

Aliás, por não ser, talvez, cosmopolita conforme os padrões pós-provincianos que nos regem, a camélia não teve lugar nessa cintilante manifestação de eruditismo chamada Porto 2001. E arriscou-se a cair em tanto esquecimento que os nossos vizinhos do lado já andavam a fazer mais, num par de anos, pela divulgação e protecção da "rosa japónica", do que a sua pátria adoptiva, em muitos.

Desmentindo as vozes catastróficas e cemiteriais sobre a abulia, o deserto e o quase zero de energia com que ornamentam os discursos sobre a cidade, a Exposição valeu como referendo sobre o que atrai, interessa e motiva o público. De facto, associando as camélias ao Palácio do Freixo, há muito que não se juntavam multidões assim, para visitar um local soberbo e contemplar a flor irresistível. O que significa a apetência e a disponibilidade de milhares de pessoas para manifestações para elas atractivas. E também que os comissários para as minorias activas e subsidiadas nada entendem sobre os gostos do público nem sobre o que se entende por oferta cultural para a democracia (quero dizer, para a maioria).»

Sinos-dourados


Forsythia X intermedia

Por muito desarrumado que ande o mundo, há associações que continuam a assegurar uma sincronia notável na natureza. São amizades à distância, sem confidências nem diálogo, escritas nos genes que se encarregam metodicamente de informar os associados da hora de acordar, de brotar as folhas, de abotoar, de revelar os segredos. Por isso a oleácea Forsythia X intermedia, híbrido europeu de 1880 cujos progenitores são as chinesas F. suspensa e F. viridissima, está também agora com os ramos arqueados de cachos de flores amarelas. Estas nascem nas axilas das folhas do ano anterior, entretanto caídas, numa solidária subordinação do futuro ao passado.

A designação do género refere-se a William Forsyth (1737-1804), horticultor escocês que foi jardineiro no Chelsea Physic Garden, depois nos palácios de St James e Kensington, e um dos fundadores da que veio a ser a Royal Horticultural Society.

O arbusto da foto e os seus companheiros formam um maciço dourado na Quinta de Sto. Inácio.