31.7.09

Traços de família


Convolvulus althaeoides L.

Com possível excepção de Jesus Cristo, ninguém escolhe a família em que nasce. Devemos, pois, lutar contra o preconceito, e julgar cada indivíduo pelas suas qualidades intrínsecas. Essa regra de conduta vale tanto para o mal como para o bem: o filho do ladrão só é criminoso se tiver cometido um crime, e o filho da nobreza só é excepcional se os seus feitos assim o comprovarem.

Está bem, está bem, mas é ou não verdade que quem sai aos seus não degenera e que filho de peixe sabe nadar? (Este povo é incorrigível, sempre de lugar-comum engatilhado para abortar qualquer embrião de pensamento.) Ou, adaptando o chavão ao reino vegetal, é ou não verdade que filha de invasora sabe invadir?

Saber, lá isso sabe, mas a verdade é que não invade muito, pois a Convolvulus althaeoides (ou corriola-rosada), ainda que espalhadiça como quase todas as convolvulácias, tem uma distribuição esparsa em território nacional. (Globalmente, é nativa da Península Ibérica e dos países da bacia mediterrânica.) Com vistosas flores cor-de-rosa de 4cm de diâmetro produzidas de Abril a Agosto, e folhas recortadas fazendo lembrar as da malva, a sua beleza valeu-lhe ser cultivada nos jardins do norte da Europa. Mas não sem cautelas: para evitar a propagação descontrolada, recomenda-se que seja plantada em vasos ou noutros recipientes enterrados no solo.

Encontrámos esta planta no final de Maio, à margem de uma das estradas que serpenteiam pela Serra dos Candeeiros. A experiência ensinara-nos que as plantas da serra (e de outros lugares semelhantes) se dividem em duas classes disjuntas: as que vegetam junto às estradas, e as que enfeitam os percursos pedestres recomendados para visitantes. Por isso, sabendo que não a reencontraríamos, não hesitámos em parar o carro. Às vezes dá pena que nas auto-estradas não dê para fazer o mesmo. Será para evitar atitudes como esta de algum botânico amador tresloucado que nas auto-estradas portuguesas se rapa à escovinha a vegetação dos taludes?

30.7.09

Fidalguinha azul


Centaurea cyanus L.

É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.

Uma flor azul é, desde Novalis (1772-1801) e a obra Henry Von Ofterdingen, símbolo literário do romantismo, premonição de amor e desejo, ou um vislumbre do que parece inalcançável. Recentemente, com a ajuda desta centáurea, a ciência abeirou-se da quimera.

A coloração das flores é obtida através de uma grande variedade de pigmentos feitos de moléculas que reflectem a luz de modo distinto. O azul é conferido por antocianinas, glicosídios solúveis em água e responsáveis por cerca de 30% do tecido das pétalas dessa cor, através de estratégias complexas de variação dos níveis de acidez e oxidação dentro das células. Biólogos e químicos rodearam-se de flores de Centaurea cyanus (e de Commelina communis, Ipomoea acuminata, Salvia patens e Hydrangea macrophylla) e decifraram o código das cores. A tecnologia e a manipulação genética fizeram o resto, e nasceu a primeira rosa azul.

Ficou, então, neste mundo de almas, a ruína visível, a desgraça patente, sem a treva que a cobrisse do seu carinho falso. As almas viram-se tais quais eram.

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

29.7.09

Gigantes da Beira



É o rio Côa que se vislumbra entre as ramagens deste cedro. Mais acima, na mesma ladeira, ficam o Museu e o Auditório municipais da cidade do Sabugal. Foi lá que decorreu, a 25 de Junho, a primeira parte do seminário Árvores monumentais - importância e conservação, de que o Pedro Santos publicou há dias na Sombra Verde uma reportagem em três partes (confira aqui, aqui e aqui).

A mascote não oficial do encontro foi a sequóia-gigante centenária que arrebita a sua elegante flecha no jardim contíguo ao auditório. Trata-se de uma árvore admirável, e foi graças às diligências do Pedro que esse carácter de excepção lhe foi reconhecido em Agosto de 2008, quando a Autoridade Florestal Nacional a declarou árvore de interesse público. É a segunda árvore do concelho do Sabugal que ostenta esse galardão; antes dela, em 2004, tinha sido classificado um dos veneráveis castanheiros que visitámos no passeio de 26 de Junho.


Sequoiadendron giganteum (Lindl) J. Buchholz

Já antes explicámos ao leitor as razões para nos sentirmos pequeninos face a estas sequóias, que são, no seu habitat natural (Sierra Nevada, na Califórnia), as mais volumosas árvores do mundo, e também das mais longevas. Em lugar de nos repetirmos, convidamo-lo a recapitular aqui a matéria dada. A sequóia do Sabugal, ainda longe de atingir o porte das suas irmãs mais velhas, vale como promessa. E é à conta dessa promessa (que a seu tempo cumprirá, se a tratarem bem) que vai tendo o ego bem afagado, como presença já habitual na blogosfera lusa.


Sequoiadendron giganteum - Parque do Hospital da Guarda

Há uma segunda espécie de sequóia (Sequoia sempervirens), também nativa da Califórnia, que, por se ter adaptado melhor ao nosso clima, se encontra em parques e jardins um pouco por todo o país. A Sequoiadendron giganteum, porém, originária de uma zona de montanha (entre os 1500 e os 2000 metros de altitude), prefere climas mais secos e frios. Em Portugal, as condições ideiais para o seu desenvolvimento parecem concentrar-se na Beira Interior, num triângulo com vértices na Guarda, no Trancoso e no Sabugal. Na cerca do Hospital da Guarda, antigo sanatório, há um conjunto de mais de cinquenta sequóias-gigantes plantadas na primeira década do século XX, num parque inaugurado pelo rei D. Carlos em 1907; a mais alta supera actualmente os 47 metros de altura. O parque será uma miniatura quase infantil das famosas florestas de sequóias na Califórnia; mas, por muito pequenas e poucas que sejam essas árvores na Guarda quando medidas por tão exigente bitola, são senhoras bem capazes de nos suscitar respeito e admiração.

28.7.09

Flor-de-mel


Cerinthe major L.

Aquilo que é importante, parece-me, não é tanto o defender a cultura, cuja existência nunca impediu um homem de passar fome, mas sim o extrair, daquilo que se chama cultura, ideias cuja força motivadora seja idêntica à da fome.
Antonin Artaud, Le Théâtre et son double (Gallimard, 1938; trad. Liliete Martins)

O género Cerinthe contém cerca de dez espécies que apreciam terrenos rochosos, soalheiros mas pobres da região mediterrânica. Reconhece-se pelas folhas verde-mar, pequenas colheres de margens ciliadas, manchadas de branco, abraçadas ao caule.

É em Abril-Maio que mais apraz encontrá-lo: as flores nascem em cimeiras espiraladas (dizem-se escorpióides) e cada flor tem direito a uma bráctea azulada e a cinco sépalas. O saiote castanho-arroxeado, de cinco pétalas fundidas em sino (contam-se elas pelas dentadinhas no friso recurvado), termina num espartilho amarelo, o pigmento que as abelhas parecem preferir; mas esses tons tendem para o azul com o amadurecer, numa gradação harmoniosa de cores que nenhum designer desdenharia.

Espreitámos o interior da flor, claro, e tivemos de nos contentar com uma expressão que não era para nós, que se destinava a outro tipo de visitante. É a arte do necessário, com uma estética meticulosa para agradar apenas a alguns: rubores e formas acomodam-se a certos gestos do polinizador, num desenrolar indistinguível da vida do artista que a outros é permitido apenas observar.

Cerinthe, do grego kerinos (cera) e anthos (flor), alude à grande quantidade de néctar que esta planta produz, e às nuvens de abelhas que assim logra seduzir. As sementes, de germinação rápida, são nozes escuras em forma de bala.

27.7.09

Corriola-campestre


Convolvulus arvensis L.

A corriola-campestre, pequena herbácea trepadeira ou rastejante do género Convolvulus, é a terceira convolvulácia malcomportada, europeia como a Calystegia silvatica, que aqui apresentamos por ordem decrescente de malignidade. Esta hierarquia de danos vale em território português, mas não noutras paragens: nos Estados Unidos, por exemplo, a corriola é uma invasora de campos agrícolas que provoca enormes prejuízos. Em Portugal, porém, como planta nativa que é, ela tem todo o direito de existir, e não é raro encontrá-la em jardins sem ter sido convidada. Porque é bonita, não fica deslocada nem se deixa intimidar pelas plantas com pedigree; até lhes acrescenta alguma graça, como sucedeu no jardim da praça da Galiza, onde resolveu enredar-se numa bordadura de alfazemas. E, apesar de vadia, dá-se ares de aristocrata: em dias em que o sol não aparece, fecha-se em casa e recusa-se a mostrar as flores (que são pequenas e delicadas, com não mais que 2,5 cm de diâmetro).

Em suma, uma vadia com estilo, que é um gosto receber em casa. Se ela quisesse, bem que podia instalar-se na floreira que temos à janela, desocupada desde que os últimos inquilinos, débeis plantas de viveiro, sucumbiram a um ataque de afídios.

26.7.09

Em defesa dos jardins do Palácio


Cedrus deodara (Roxb.) G. Don [três dos cedros-dos-Himalaias que estão ameaçados pelas obras]

O projecto de remodelação do Pavilhão Rosa Mota, que prevê a construção de edifícios anexos que destruiriam o lago e a esplanada do Palácio de Cristal e ocasionariam a perda de duas a três dezenas de árvores, levou à constituição de um movimento em defesa dos jardins do Palácio. Em sessão realizada ontem no local, esse movimento lançou um manifesto que foi hoje notícia no JN e no Público. O mesmo movimento criou um sítio na internet para anunciar as iniciativas que forem sendo tomadas para travar o desastre, e para acolher todas as notícias e informações pertinentes para o caso.

Se prefere um jardim com lago a um centro de congressos; se acha que um jardim se faz com árvores e não com betão; se entende que o executivo camarário não pode adulterar a seu bel-prazer aquilo que a todos pertence - então informe-se e faça também ouvir o seu protesto. É preciso que a Câmara do Porto perceba o nosso intenso repúdio por tão insensato projecto. Não é este o momento de estarmos calados.

25.7.09

Pompons


Ptilotus manglesii (Lindl.) F. Muell.

It's time you learned, Doc, the only thing in this life a man can earn is friendship. Everything else you can steal.
Once Upon a Horse (Dir: Hal Kanter, Universal International Pictures, 1958)

Tivessem os filmes de cowboys sido filmados nas regiões semi-desérticas da Austrália - onde também existiram colonos e indígenas desapossados de bens e sossego - e as sagas redentoras, as corridas ao ouro e a demanda das terras prometidas, com os inevitáveis duelos-ao-sol, teriam como alegoria não cactos espinhosos mas estas bolinhas (de cerca de 5cm de diâmetro) fofas e peludas. A lanugem branca destas inflorescências, onde se notam flores de cinco tépalas de cor violeta, finas como papel e com brácteas castanhas, lembra a longa cabeleira do cacto Cephalocereus senilis (Haw.) Pfeiff., e é essencial para proteger a planta de insolações.

O género Ptilotus, descrito formalmente pela primeira vez em 1810 pelo botânico Robert Brown na obra Prodromus Florae Novae Hollandiae, abriga mais de cem espécies, australianas com excepção de uma (Ptilotus conicus R.Br.) que é nativa de Timor. As plantas deste género são herbáceas perenes ou arbustos que se adaptaram a solos secos e pobres em nutrientes, tolerantes a excessos de fósforo, mas que, por essa escassez de meios, exibem alguma dificuldade em germinar.

Pela aparência cabeludinha, a planta das fotos já se chamou Trichinium manglesii (do grego trichos, cabelo). Mas o termo grego ptilon tem igual préstimo: significa pena, ou asa. Os dois i's adjacentes no epíteto específico manglesii remetem, por regra taxinómica, para o nome de personalidade que assim é preiteada. Neste caso trata-se de James Mangles (1786-1867), um entusiasta da horticultura que viajou pelo Médio Oriente, visitou o oeste da Austrália em 1831 e escreveu, com C. Irby, a obra Travels in Egypt and Nubia, Syria and Asia Minor during the years 1817 & 1818.

Porque é viciada em fome e formosura, a esta espécie têm estado atentos os horticultores. Contudo só os estóicos e empedernidos, como os heróis do faroeste, capazes de se esquecerem da planta no Inverno e depois a submeterem à sede e ao calor, é que terão a sua recompensa.

24.7.09

Bom dia, glória da manhã


Calystegia silvatica (Kit.) Griseb.

Eis uma versão com flores brancas da trepadeira que aqui denunciámos como perigosa invasora. As duas plantas, com folhas e flores semelhantes (8 a 9 cm de diâmetro), até são conhecidas em Portugal pelo mesmo nome: bons-dias. É sabido, porém, que os nomes vernáculos originam grandes confusões, sugerindo parentescos que na verdade não existem. Bons-dias é como nós chamamos à generalidade das plantas convolvuláceas, com flores em forma de funil ou de altifalante. Nos países de língua inglesa, os britânicos usam bindweed e os americanos preferem morning glory. O primeiro nome é pragmático: essas plantas exibem muitas vezes um comportamento desregrado (são weeds - ou plantas daninhas), e têm por hábito agarrar-se (bind) às outras. Morning glory, nome poético, explica-se por as flores (que são realmente bonitas, talvez gloriosas) abrirem de manhã e durarem poucas horas: a meio da tarde, em regra, já estão murchas. Os nossos bons-dias representam uma terceira via entre o pragmatismo e o embevecimento: observamos que as flores desabrocham de manhã, cumprimentamo-las educadamente, mas abstemo-nos por timidez de lhes comentar o aspecto.

Posto que em menor grau do que os bons-dias azuis, estes bons-dias brancos também podem ser infestantes e cobrir largas manchas de terreno; é isso que documenta a primeira foto em cima. Acontece que a Calystegia silvatica está praticamente a jogar em casa, e por isso lhe desculpamos estes desmandos: não sendo embora espontânea em Portugal, é originária do sul da Europa, da Espanha até à Turquia.

Dadas as semelhanças entre os dois géneros, como distinguir a Ipomoea da Calystegia? Se o leitor comparar as fotos de perfil, verifica como são diferentes os cálices de uma e de outra flor. Na Calystegia há duas brácteas (folhas modificadas) que envolvem e escondem as sépalas; na Ipomoea as sépalas estão bem visíveis. (Esquecendo termos técnicos, as flores da Calystegia têm um cálice reforçado, muito mais gordo que o da Ipomoea.)

Ainda que menos comum, existe também a Calystegia sepium, essa sim espontânea em Portugal e muito semelhante à C. silvatica. Contudo, dá flores um pouco mais pequenas (de 5 a 7 cm), e as brácteas que envolvem o cálice não têm a base inchada, como visivelmente têm na C. silvatica. (Pode ver a flor da Calystegia sepium aqui.) E, claro está, há a Calystegia soldanella, plantinha cosmopolita que dá cor e graça às dunas de todo o mundo.

23.7.09

Manhã de Verão


Ipomoea acuminata (Vahl) Roemer & Schultes [bons-dias, glória-da-manhã]

......Manhã, tão bonita manhã
......Na vida, uma nova canção

......Luís Bonfá, Manhã de Carnaval


Um dos poucos serviços públicos que em Portugal nunca desilude os utentes é aquele que tem por incumbência fornecer-nos estridências musicais quando circulamos a pé pelas ruas do nosso Verão. Quem não puder ter IPod (é favor ler «ai pode?», com ponto de interrogação e tudo, não vá escapar-lhe o trocadilho) nem por isso andará com os ouvidos desocupados, e é aí que reside a essência do serviço público: os que tiverem posses e pose para tanto adquirem no sector privado a sua fonte sonora para exclusivo ensurdecimento pessoal; os desabonados ou botas-de-elástico, por seu turno, têm para seu uso (mesmo que involuntário) o caudal sonoro gratuito e universal que a empresa pública Verões de Portugal faz chegar aos altifalantes instalados em todas as nossas ruas, do Minho até ao Algarve.

Foram as flores desta Ipomoea, reminiscentes, como todas as da família Convolvulaceae, das velhas grafonolas, que me suscitaram este devaneio para-musical. Mas outros paralelismos podem ser invocados: à semelhança dos altifalantes nas ruas, estas flores aparecem sobretudo no Verão; tanto eles como elas estão por todo o lado; e, tal como a música na via pública se cala pelo final da tarde, também as flores só estão abertas durante o dia.

A Ipomoea acuminata, originária da América tropical e do Havai e introduzida no nosso país como ornamental, é uma das 30 espécies classificadas como invasoras em território nacional pelo Decreto Lei 565/99. Planta herbácea trepadeira, multiplica-se vegetativamente (qualquer fragmento de caule pode dar origem a uma infestação) e forma espessas mantas em jardins abandonados: cobre muros, riachos e taludes, e é mesmo capaz de sufocar árvores. Essa vocação expansionista é partilhada por muitas plantas convolvuláceas; mesmo em Portugal outras há, de origem europeia, que merecem ser denunciadas pelo seu mau comportamento (coisa que faremos oportunamente).

A agravar o currículo desta planta, há, entre as mais de quinhentas congéneres suas, várias delas (Ipomoea tricolor, I. violacea e I. purpurea, por exemplo) que produzem sementes de onde se extrai o ácido lisérgico, base do famoso psicotrópico LSD, que tanta música pop alucinada deu ao mundo. Música que você, amigo leitor, não escapará de ouvir este Verão, como em todos os verões anteriores, num altifalante demasiado perto de si.

22.7.09

Ruínas azuis


Wahlenbergia hederacea (L.) Rchb.

Ruínas, com a crueza do plural, é a designação vernácula deste ser tão miudinho e mimoso. Talvez se queira chamar a atenção para a pequenez de folhas e flores, a rondar os 15mm, que contribui para um certo aspecto geral de desmoronamento; ou, quem sabe, se castigue a aparente desarrumação em que mora, formando manchas confusas de verde, com narizes quase translúcidos de flores azuis, a rastejar no solo enquanto enraíza os cotovelos. Certo é que, sendo espécie anual, morre em poucas semanas depois de assim se alindar. Adiante: como disse o Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal, Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

As folhas, alternadas e glabras, são versões homotéticas das da hera; as flores, de longo pedúnculo, são cópias quase perfeitas de campânulas. Mas, para que a botânica não se resuma às conclusões ingénuas do nosso olhar amador, o fruto não se assemelha ao usual no género Campanula: tem três válvulas no topo para verter as sementes em vez de poros laterais. Por isso, apesar de ter sido primeiro registada por Bauhin, em 1596, como Campanula Cymbalariae foliis, a partir de exemplares de Paris e Toulouse, e de Lineu a ter renomeado como Campanula hederaceae, o nome do género mudou em 1821 para Wahlenbergia, por semelhança com a sul-africana W. capensis. Georg Wahlenberg (1780-1851) foi botânico e professor em Uppsala, sucessor nesse cargo de C. P. Thunberg.

A Wahlenbergia gosta da terra húmida de paul e do ar frio das montanhas do oeste europeu, mas na Europa há essencialmente duas espécies silvestres. O género tem representantes perenes em regiões menos quentes de África (de facto, das cerca de 150 espécies, 60 estão na vizinhança do Cabo), Nova Zelândia e Austrália. Crê-se que, como sucedeu noutros reinos, a W. hederacea descenda de espécie africana que migrou para norte.

21.7.09

Carvalho de Calvos


Quercus robur L. - Calvos, Póvoa de Lanhoso

Pode alguém ser dono da Grande Pirâmide? A arte é eterna e não se deixa possuir; nós é que somos possuídos por ela. Era isto que concluíam em uníssono o professor David Kapesh (ou seria Ben Kingsley?) e a jovem autora por ele entrevistada em programa radiofónico sobre literatura. Tratava-se de um filme (Elegia, de Isabel Coixet) ou, para quem prefira dar-se ares de erudito, de um livro (The Dying Animal, de Philip Roth), mas a ideia da perenidade da arte face à curteza da vida humana nada tem de original. O professor / entrevistador enunciava-a com a segurança de uma verdade há muito consabida; como quem recita uma oração, as palavras fluíam-lhe sem peso. Talvez nem as sentisse - elas apenas cumpriam uma função utilitária no jogo de sedução a que Kapesh, incorrigível sátiro, se entregava.

Em suma, a ideia é tão banal que até a publicidade se apropriou dela: o pai de família não é dono do valioso relógio suíço, apenas cuida dele para a geração seguinte, etc. etc. Mas um relógio, ou mesmo uma pintura, podem-se esconder da vista de todos. Se forem destruídos ou, como era hábito fazer com os tesouros dos faraós, sepultados com os donos, poucos lhes darão pela falta. O que nos impressiona são as coisas realmente grandes, impossíveis de ignorar ou de esconder, que estabelecem um elo entre gerações muito afastadas. As pirâmides, claro. Todos os nossos grandes monumentos em pedra. E por que não também as árvores?

O carvalho de Calvos já teve muitos proprietários; mas eles passaram, como passaremos nós, e o carvalho lá continua. Afinal talvez não tenha tido nenhum dono; teve, simplesmente, admiradores agradecidos, como nós somos hoje. Alguns tão agradecidos e admirados que lhe exageram a idade e engrandecem as medidas. No folheto que é fornecido no Centro Interpretativo do carvalho de Calvos atribuem-lhe um perímetro à altura do peito (PAP) de 10 metros; mais sóbria, a Autoridade Florestal Nacional, que o classificou em 1997 como árvore de interesse público, achou-lhe um PAP de apenas 7,4 m quando o mediu em 2006. E, enquanto os seus íntimos o dizem milenar, esses desmancha-prazeres de fita métrica em punho lhe dão quinhentos anos de vida.

(Para impor de vez a verdade subjectiva só ao alcance do amor deslumbrado, alguém fez cravar, num dos castanheiros que visitámos no Sabugal - nem sequer o de maior envergadura -, uma placa informando que ele foi ali plantado no ano de novecentos e tal. Mais de mil anos de vida bem contados é pois o que atesta a legenda. Quem se atreverá a negar ao castanheiro os anos gravados na pedra?)

Controvérsias à parte, o carvalho de Calvos é de longe o maior da sua espécie na Península Ibérica, e talvez o mais antigo. Ao contrário de outras árvores multisseculares, exibe uma copa frondosa e pujante (35,5 metros de diâmetro), e promete ultrapassar este vigésimo-primeiro século DC com a mesma facilidade com que atravessou os cinco (ou dez) anteriores. Observá-lo de perto é uma experiência incomparável, uma vertigem que nos deixa emudecidos. A Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, além de ter feito dele o centro de um projecto de educação ambiental, guardou-lhe um generoso perímetro de protecção, escorou-lhe as ramadas, e vigia-lhe ciosamente a saúde. Bem haja a Câmara pelo carinho com que protege este monumento vivo.

P.S. O Pedro Santos, da Sombra Verde, também se enamorou por este carvalho, e já por duas vezes escreveu sobre ele: confira aqui e aqui.

20.7.09

Os pés na Lua


Dodecatheon pauciflorum Greene

The day of the first moonwalk, my father's college literature professor told his class: "Someday they will send a poet, and we will find out what it is really like."

Joel Brouwer, The New York Times

19.7.09

Clematites em flor

DSCN5015

Desde que comecei a apreciar (e coleccionar) Clematis, encontrar uma nova variedade é razão de sobra para boa disposição: foi o que aconteceu ontem ao fim da tarde, com uma ida ao Horto da Circunvalação, onde comprei uma Clematis viticella "Julia Correvon".

Com uma belíssima cor "fuchsia (red-purple)"-como é definida num dos meus sítios favoritos na net, o Dave's garden -tem a vantagem de florir entre Julho e Setembro. Plantei-a ao pé de uma das Clematis armandii, a "enthusiastic climber" que já trepou acima dos 5 metros (mas ainda não nos brindou com nenhuma das suas florzinhas perfumadas).

Agora estão a florir, pela segunda vez este ano (excepto a azul/lilás mais clara) :
DSCN4847DSCN5031DSCN4845DSCN5030DSCN4880DSCN5020
(legendarei as fotografias mais tarde, quando tiver tempo ;-)

18.7.09

Cana de outras índias


Canna limbata Roscoe [sin. Canna indica var. limbata Peters. / Canna patens (Roscoe) Tb. Tanaka]

Originária do continente americano, desde a Carolina do Sul ao norte da Argentina, a Canna é um género de plantas rizomatosas tropicais ou subtropicais, aparentadas com a bananeira, a estrelícia e a alpínia. Houve um tempo em que o género englobava quase cem espécies, mas, nas últimas décadas do século XX, esse número foi reduzido para cerca de vinte - não em resultado da extinção de espécies, mas por efeito de revisão taxionómica, que disciplinou a profusão de sinónimos. A planta na foto, vizinha no Jardim Botânico do Porto de um lago com nenúfares, é conhecida no Brasil, de onde é natural, como beri-silvestre ou bananeirinha. Canna limbata era a sua designação científica antes dessas convulsões na nomenclatura, mas o nome agora aceite é Canna patens.

No Brasil o beri-silvestre é uma planta de folhagem perene, mas em países mais frios passa anualmente por um período de dormência. Atinge um metro e vinte de altura, tem folhas brilhantes, e as flores, situadas nas extremidades das hastes erectas, surgem ao longo de vários meses na Primavera e no Verão - e são, ao que consta, atraentes para colibris, coisa que por cá não temos como comprovar.

Além das espécies silvestres, existem inúmeras variedades hortícolas de Canna adaptadas a climas temperados ou frios; chamadas popularmente canas-da-Índia, produzem vistosas flores vermelhas, amarelas ou alaranjadas. Em Portugal, onde os jardins são em regra pobres em cor e em variedade, essas plantas pouco se vêem, mas há uns anos era fácil encontrá-las no Porto. Antes das últimas obras de manutenção - as quais, apesar de terem tido aspectos muito positivos, alinharam pela cromofobia que tem prevalecido em jardins públicos -, as canas-da-Índia vermelhas, ladeando a sucessão de espelhos de água no jardim central, eram uma das imagens mais fortes do Parque de Serralves. Mas quem quiser ter um relance delas ainda as encontra, amarelas e vermelhas, na avenida de Sidónio Pais, à sombra de castanheiros-da-Índia que também não são da Índia, logo antes de o passeio para peões terminar abruptamente e a via se transformar em auto-estrada.

Adenda. Também há muitas canas-da-Índia vermelhas no Jardim do Passeio Alegre, à Foz.

17.7.09

Prairie gayfeather


Liatris spicata (L.) Willd.

E eu, que vinha vivendo o visto mas vivando estrelas, e tinha um lápis na algibeira, escrevi também (...). Só, só por causa dos nomes. Sim, que, à parte o sentido prisco, valia o ileso gume do vocábulo pouco visto e menos ainda ouvido, raramente usado, melhor fora se jamais usado. Porque, diante de um gravatá, selva moldada em jarro jônico, dizer-se apenas drimirim ou amormeuzinho é justo; e, ao descobrir, no meio da mata, um angelim que atira para cima cinqüenta metros de tronco e fronde, quem não terá ímpeto de criar um vocativo absurdo e bradá-lo - ó colossalidade! - na direção da altura? E não é sem assim que as palavras têm canto e plumagem.

João Guimarães Rosa, Sagarana (1946)

Alegre pluma da pradaria: é a tradução do nome comum desta herbácea perene norte-americana, e não, caro leitor, a que talvez tenha cruzado a sua mente. Mas tem razão: não é a espiga de flores arroxeadas que se sente jovial ao ver-se linda, de cabeleira rosa-púrpura ao léu, a cavalgar numa crina de verde. Consintamos, porém, estes adornos da linguagem.

Dissequemos a pluma. A haste tem base de folhas alternadas e sésseis, estreitas como as da erva, com cerca de 30cm de comprimento, sendo mais pequenas as mais elevadas no caule. A inflorescência, com cerca de 70cm de altura, raramente múltipla, é feita de capítulos que são discos com 8 a 13 florículos tubulares, dos quais, como é usual na família Asteracea, só alguns são verdadeiras flores (como as do centro amarelo das margaridas) e os outros, que na liatris formam o penacho vistoso de fitinhas sesgas (e constituem as «pétalas» brancas nas margaridas, as que servem ao mal-me-quer-bem-me-quer), são estéreis. Cada flor apoia-se num invólucro de brácteas curvas e pubescentes, e a floração começa no topo da espiga, descendo para níveis onde abelhas e borboletas, enfeitiçadas por aroma sedutor, podem pôr-se de pé a lambuzar-se de néctar.

Aqui temos, pois, um prado de Riobaldos e Diadorins, orgulhosos como convém à espécie, mas sem os disfarces carnavalescos de outros arraiais. E, reconheçamos, é bem urdida a estratégia da liatris para garantir companhia enquanto o tempo, que a amadurece, não a obriga a alegrar-se sozinha.

16.7.09

Erva-borboleta


Orchis papilionacea L.

It is currently said that hope goes with youth, and lends to youth its wings of a butterfly; but I fancy that hope is the last gift given to man, and the only gift not given to youth. Youth is pre-eminently the period in which a man can be lyric, fanatical, poetic; but youth is the period in which a man can be hopeless.

G.K. Chesterton, Chesterton on Dickens, Ignatius Press (1989)

15.7.09

Da Califórnia para o charco


Pinus radiata D. Don; à direita dois Cedrus deodara (Roxb.) G. Don

Imaginem uma Carmen de Miranda com uma vida às avessas: de Hollywood para o Marco de Canavezes. Pois é essa, sem tirar nem pôr, a biografia deste pinheiro: originário das alegres plagas por onde surfaram os Beach Boys, rumou à cauda da Europa e aí se radicou numa ilhota artificial rodeada por um charco (José Carlos Loureiro dixit). Que o charco vá ser convertido em espelho talvez conforte o machucado amor-próprio de estrela-que-não-chegou-a-brilhar, apanhada que foi em contramão pela vida; mas esse tributo à vaidade envolve uma operação do mais alto risco. Só se sobreviver a ela é que o pinheiro poderá mirar-se em águas finalmente límpidas, desacompanhadas pelo quá quá irritante dos patos. A vida em troca do espelho: valerá a pena?

[Este Pinus radiata, ou pinheiro-de-Monterey, é uma das dezassete árvores ameaçadas pelos edifícios anexos que, a pretexto da conversão do Pavilhão Rosa Mota em centro de congressos, irão ocupar a esplanada e reduzir o lago a menos de metade. E, à cota da entrada principal do pavilhão, há outras treze árvores garantidamente para abater. São trinta as árvores em risco de se perderem com esta requalificação, apesar de o arquitecto ter asseverado que nenhuma iria abaixo. Sobre este assunto a associação Campo Aberto emitiu um comunicado que pode ser lido aqui.]


Pinus radiata: tronco, ramagens e folhas

Embora os pinheiros sejam das árvores mais fáceis de reconhecer, a tarefa de distinguir as diferentes espécies pode ser problemática. Não precisamos de grande erudição botânica para identificar o pinheiro-bravo (Pinus pinaster) e o pinheiro-manso (P. pinea), muito abundantes no nosso país, mas a coisa complica-se quando deparamos com algum pinheiro que escapa ao figurino habitual. É que existem mais de cem espécies de Pinus; mas, felizmente para quem procura identificá-las, só cerca de dez são cultivadas por cá.

As folhas do pinheiro, compridas e finas, popularmente chamadas agulhas, são a chave mais segura para a identificação: organizando-se em molhos de duas a cinco, variam em comprimento, espessura e grau de flexibilidade. Tanto no pinheiro-manso como no pinheiro-bravo, por exemplo, as agulhas vêm aos pares e atingem os 20 cm de comprimento, mas as do segundo são mais espessas e rígidas. No caso do pinheiro-de-Monterey, as agulhas estão dispostas em trios, são finas e flexíveis, e não ultrapassam os 15 cm (as que pudemos medir andavam pelos 12); além disso, aglomeram-se na ponta dos galhos em conjuntos que fazem lembrar piaçabas (foto acima). Também característico deste pinheiro é o ritidoma profundamente sulcado, de um tom entre o cinzento e o castanho.

O Pinus radiata é originário de uma pequena faixa costeira na Califórnia. Apesar de as populações naturais da espécie estarem ameaçadas, é um pinheiro muito cultivado em regiões temperadas para produção de madeira e de resina. Na Nova Zelândia e na Austrália, por exemplo, ele forma extensíssimas monoculturas, e mesmo em Portugal surge nalgumas plantações florestais do norte e centro. De crescimento rápido, aos quarenta anos atingiu já a plena maturidade. O seu valor ornamental é sobejamente comprovado pelo exemplar cinquentenário no Palácio de Cristal, um dos raros que conhecemos em jardins portugueses.

14.7.09

Cornucópia


Fedia cornucopiae (L.) Gaertn.

Uma semente é uma planta em projecto equipada com farnel e casaco. Por vezes há ainda uma polpa, mais ou menos carnuda e apetecível, a envolver o conjunto. Para a germinação, contudo, não basta esta estrutura esmerada: a dispersão da semente, essencial para a manutenção da espécie e para se evitar a competição, por território e nutrientes, com a planta mãe, depende em geral de colaboradores que podem ser esquivos ou difíceis de contentar. O tamanho, a forma, o peso, a robustez quando ingerida, o período de dormência e a longevidade da semente - além da cor, aroma e sabor do fruto - são determinantes para a preservação da espécie: depois de uma infância calma, sem a aventura perigosa de amadurecer demasiado cedo, há que seduzir o mundo para garantir a viagem até local propício onde nasça o rebento.

O ajuste destas características assegura o transporte eficiente pelo vento (que guia até mais longe sementes mais leves, ou que têm asas que lhes permitem aproveitar as correntes de ar), pela água (que não pode corromper a semente, a quem não convém afundar-se, por isso a casca tem de ser feita de material flutuante e impermeável) ou por animais (que as consomem ou transportam no bico ou no pêlo, se a semente tiver apêndices ou gomas que a segurem). Algumas plantas, contudo, confiam apenas na auto-dispersão, disparando elas as sementes para ambientes favoráveis ou dotando-as de mecanismo engenhoso que lhes permite moverem-se. Outras espécies há que investem num seguro de vida: criam várias configurações da semente/fruto para agradar a diferentes tipos de propagadores, ficando assim precavidas contra algum evento que possa ser desastroso para a sua sobrevivência.

Vem isto a propósito da Fedia cornucopiae, herbácea endémica da região mediterrânica que atinge uns 15cm de altura, e que representa o caso mais notável de polimorfismo. Os seus frutos são dispersos pela água, vento, formigas ou outros animais de maior porte e, como estes três agentes têm exigências distintas, a horn-of-plenty produz, numa mesma planta, frutos com a morfologia que melhor se adequa a quem os propaga:

  1. estreitos e com uma bainha num dos topos da semente para permitir o transporte pelas formigas - que, como recompensa, se banqueteiam com uma guloseima que ali lhes é oferecida, deixando o resto da semente intacta e viável;

  2. insuflados como balões para serem transportados pela água ou vento, mas sem o agrado-de-boca;

  3. com uma coroa de dois dentinhos triangulares que se agarra a qualquer bicho peludo que se acerque.
Os frutos são caducos, não precisando a Fedia de recorrer à solução do género Cyclamen que enrola os caules em hélice para descer as sementes até ao alcance dos clientes baixinhos.

13.7.09

Sargaço-branco


Halimium lasianthum subsp. alyssoides Greuter

O nome parece absurdo para um arbusto que dá flores amarelas, mas o adjectivo branco refere-se ao tom prateado da folhagem; o termo sargaço, por seu turno, é usado para designar várias plantas arbustivas dos géneros Cistus e Halimium. Este (seja então) sargaço-branco, arbusto rasteiro e penugento com flores de 3 a 4 cm de diâmetro, foi fotografado no princípio de Abril numa escarpa na margem esquerda do rio Ferreira, em Valongo, local onde, apesar dos eucaliptos, existe uma população ainda numerosa da espécie.

Se o leitor estudou com a devida atenção o fascículo (gratuito e à distância de um clique) que distribuímos no passado sábado, talvez reconheça alguns traços de parentesco entre os géneros Cistus, de que então falámos, e Halimium, que ora aqui trazemos. Ambos integram a família Cistaceae, e a semelhança das flores é evidente: cinco pétalas indiferenciadas rodeando profusa coroa de estames. E, coisa que as fotos não mostram, tanto num género como no outro cada flor é de curta duração, deixando em regra cair as pétalas no mesmo dia em que as abre.

Há cerca de 12 espécies de Halimium, com flores que podem ser brancas ou amarelas; cinco dessas espécies (ou oito, se contarmos com subespécies) estão referenciadas em Portugal. A distribuição natural do género na Europa fica quase confinada à Península Ibérica, mas de resto ele também ocorre no norte de África e na Turquia. Eis pois mais uma planta que gostaríamos de ver nos nossos jardins, mas que nenhum garden center (como dizemos em português) tem o bom gosto de pôr à venda.

12.7.09

Buganvílias

Bougainvillea-Braga-0607
Em cima- uma das buganvílias do Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga
Em baixo- exemplar de cor pouco comum, na Rua Vieira Portuense,em Lisboa
Bougainvillea Bougainvillea
Fotos © manueladlramos

O nome desta viçosa trepadeira deve-se ao explorador e naturalista francês Philibert Commerson (1727-1773) > que, em 1766, embarca -com a sua companheira Jeanne Barret disfarçada de criado- na viagem de circum-navegação comandada por Louis Antoine de Bougainville > .

Sobre Commerson, o modo como partilhava as novíssimas plantas que ia encontrando e o baptismo da buganvília, Lucille Alorge > e Olivier Ikor escrevem no livro La fabuleuse odyssée des plantes (2003):
«Toute l'humanité du personnage, sa générosité, son désir fervent de faire partager aux autres sa passion pour sa science se lisent dans la manière, on pourrait dire "dans le style", de Commerson herborisant. De ses récoltes il fait systématiquement plusieurs parts de chaque plante. jusqu'à vingt, afin de les distribuer non seulement au Jardin du Roi, mais aussi à tous les grands herbiers européens. Ces plantes il ne les nomme pas au hasard des hommages obligés à faire aux membres de l'expédition, aux ministres ou à ses amis, mais en cherchant des correspndences poétiques ou amusantes entre le végétal découvert et la personnalité de son dédicataire. Ainsi cet arbrisseau sarmenteux grimpant, à feuilles persistantes découvert aux environs de Rio qui pousse à plusieurs mètres de haut et de large pour éclater en une masse de fleurs d'un violet délicat ou d'un intense carmin ne pouvait que convenir aux caractère chaleureux mais tenace, plein de panache mais aussi de finesse du chef de l'éxpédition. Commerson, par ce trait de génie, avait lié dans un même destin le marin des Lumières et la plus lumineuse des plantes ornamentales, la bougainvillée (Bougainvillea spectabilis). Bougainville ne s'y trompa pas et quand, de retour en France, on lui demanda quelle trace il voulait laisser dans l'Histoire, il répondit joyeusement: "Eh bien! Je mets l'espoir de ma renommée dans une fleur."» (p.355)

11.7.09

Sanganho


Cistus psilosepalus Sweet

Os arbustos do género Cistus deveriam ser obrigatórios em qualquer jardim no continente português: sendo plantas nativas, estão perfeitamente adaptadas ao nosso clima, não exigindo cuidados especiais e aguentando-se bem com pouca rega; além do mais, são bonitos e têm floração vistosa. Enquanto não for promulgada a lei que consagre essa obrigatoriedade e proíba os relvados-com-palmeiras característicos das «vivendas» dos subúrbios (já se fizeram leis mais descabidas), o modo de encontrar os Cistus é passear por aqueles pedaços de território ainda livres de construções. São plantas tenazes, que persistem mesmo em lugares onde a natureza foi reduzida à caricatura, como os eucaliptais. Não surpreende, por isso, que sejam abundantes na Serra de Valongo.

As duas espécies de Cistus dominantes na Serra de Valongo são o sanganho (C. psilosepalus), de que acima exibimos fotos, e o sanganho-manso (C. salviifolius), duas plantas que facilmente se confundem, e que aliás costumam hibridar entre si. Ambas atingem uma altura máxima de um metro, e dão flores brancas com um diâmetro de 3 a 5 cm. Ao contrário de outras congéneres suas também de flores brancas (como o C. ladanifer e o C. monspeliensis), estas duas plantas não são pegajosas. As épocas de floração do C. psilosepalus e do C. salviifolius coincidem em parte, mas a do primeiro prolonga-se até mais tarde: quando tirei as fotos, no final de Junho, já o segundo perdera todas as flores. A distinção entre as duas espécies faz-se mais facilmente pelas folhas: as do sanganho são sésseis (ou seja, não têm pecíolo, agarrando-se directamente aos ramos) e alongadas (o termo técnico é oblongas); as do sanganho-manso dispõem já de um curto pecíolo e têm uma forma mais arredondada (dita ovada). [Estas características da folhagem do C. salviifolius podem ser conferidas nesta página.]

Ambas as espécies têm ampla distribuição nacional, mas o C. psilosepalus, a acreditar na Flora Digital de Portugal, está ausente do Algarve e do interior alentejano. Encontrei-o também no Sabugal, ainda em flor, atapetando o terreno à volta dos veneráveis castanheiros. Globalmente, o C. psilosepalus é um exclusivo ibérico; o C. salviifolius, mais viajado, está presente em toda a bacia mediterrânica, da França à Turquia e de Marrocos a Israel.

10.7.09

Petúnia-da-Patagónia


Petunia patagonica (Speg.) Millán

.....Et j'ai perdu tous mes paris
.....Il n'y a plus que la Patagonie, la Patagonie qui convienne à mon immense tristesse

.....Blaise Cendrars (Prose du Transsibérien et de la petite Jehanne de France, 1913)

9.7.09

Tudo corre pelo melhor no melhor dos mundos possíveis

[Este texto, aqui em versão retocada, apareceu há dois dias no blogue A Baixa do Porto, em resposta a dois textos lá surgidos que defendiam, com argumentos sui generis, as obras de remodelação da Escola Secundária Filipa de Vilhena (e o abate de árvores por elas provocado) e a prevista requalificação do Pavilhão Rosa Mota (e a consequente destruição do lago e da esplanada dos jardins do Palácio de Cristal).]

Quem se bate por utopias pode ser perigoso; mas os anti-utopistas, ou discípulos de Pangloss (cuja filosofia se encontra resumida no título), são deprimentes. Os leitores da Baixa do Porto foram há pouco brindados com dois textos impregnados dessa filosofia ultra-optimista: o de Manuela Monteiro e o de José Paulo Andrade. E que nos dizem esses textos? Que certas obras realizadas no Porto foram excelentes, por duas razões óbvias: as obras foram de facto feitas, e por isso a sua existência é boa e indiscutível (tudo quanto foi feito e existe é bom e indiscutível); e o nosso mundo, com o estilo de vida que tanto prezamos, seria inimaginável sem elas. Donde se deduz que os que se opuseram a tais obras não passavam de velhos do Restelo (ou, pior ainda, de velhos da horta) incapazes de acertar o passo com as mudanças do mundo.

Cândido aprendeu à própria custa que a filosofia do seu mestre Pangloss tinha sérias limitações. Não desejo que estes novos discípulos do mestre passem por infortúnios semelhantes, mas gostava de contrapor, a esse entusiasmo obreirista, um outro modo de ver as coisas. E, de passagem, aproveito para corrigir o excesso de ligeireza de algumas afirmações nesses textos.

Manuela Monteiro dá três exemplos de coisas boas que felizmente não foram travadas pela ortodoxia paralisante. Abstenho-me de discutir o caso do Museu Gulbenkian, por desconhecer os pormenores da história, mas os outros dois casos são de bradar aos céus (um deles, o da horta de Serralves, destruída para se construir o Museu de Arte Contemporânea, também foi referido por José Paulo Andrade). A Manuela Monteiro acha mesmo que o Jardim do Marquês ficou muito melhor depois de construída a estação de metro no subsolo? Olhe que a minha opinião (e a de muitas outras pessoas) é bastante diferente, como pode conferir aqui. Mas a sua opinião é tão taxativa, e tão radicalmente oposta à minha, que me parece perda de tempo discutirmos o assunto.


Jardim de aromáticas - Serralves - Agosto de 2006 (em fundo um pinheiro-manso)

A propósito da horta de Serralves, José Paulo Andrade cita um parágrafo de quem na altura se opôs à construção do museu:

«Quando um museu de arte moderna destrói a horta de Serralves, destruindo assim a unidade de uma das últimas quintas de recreio do Porto (fazendo perder sentido ao todo que lá existia) o edifício pode ser a oitava maravilha do mundo e criar um espaço magnífico, admita-se em tese que seja melhor até que o relevo cultural de uma das últimas quintas de recreio do Porto, mas será sempre sobre um acto de destruição patrimonial que se terá erguido o novo património.»

José Paulo Andrade conclui, triunfante, que o museu é hoje uma realidade indiscutível, e que já ninguém chora a perda da horta. Mas o que me parece igualmente indiscutível é que a destruição do património para o qual o parágrafo alertava se concretizou, e que a unidade patrimonial da Quinta de Serralves foi destruída. Hoje a horta não existe, nem existe nada de semelhante (o jardim de aromáticas, apresentado na altura como uma compensação pela perda da horta, é de facto outra coisa, e em todo o caso está praticamente ao abandono). Claro, dirá José Paulo Andrade, mas existe o museu, que é coisa muito melhor do que a horta e muito mais visitada.

Estes casos parecem reduzir-se ao mesmo princípio: se queremos progresso (mais cultura, melhor mobilidade, escolas com melhores condições), temos de sacrificar outros valores menores (como sejam a horta, o jardim, as árvores). Acontece que esses valores menores só são assim considerados porque os poderes que nos governam, e a própria mentalidade nacional, não os valorizam devidamente. Os dilemas apresentados (ou museu ou horta; ou jardim ou metro; ou árvores ou escolas) só o são porque as alternativas nunca chegam a ser seriamente estudadas. E não são estudadas porque no outro prato da balança estão coisas que, no entender do senso comum, valem pouco mais que um chavo.

Um exemplo de âmbito mais geral para ilustrar isso mesmo. Lendo os jornais, folheando revistas, ouvindo opiniões e entrevistas dos agentes culturais, depressa ficamos a saber que o ministro da Cultura é um desastre, como aliás já tinha sido a sua antecessora. Que eu saiba, porém, nem este ministro nem a sua antecessora têm tido como objectivo central da sua política a destruição sistemática dos museus e de todo o património cultural do país. Aquele ministro que de facto é um coveiro do património que lhe cabe gerir é o actual ministro do Ambiente, certamente o pior ministro (juntando todos os ministérios de todos os governos) de que há memória desde o fim do PREC. No entanto, tal ministro não é um escândalo público e os jornais não se enchem de artigos de opinião a denunciá-lo. Porquê? Porque a conservação da natureza não é importante, ao passo que a cultura já é.

Admito que as pessoas até gostem de jardins, parques e árvores. Têm é dificuldade em conceber que tais coisas tenham um valor próprio que possa sobrepor-se a outros valores. As árvores e os jardins, entendem elas, podem ser a cereja em cima do bolo, e tanto melhor se o bolo for um edifício desenhado por Siza Vieira ou uma estação de metro por Souto Moura. O que faz falta é entender que as árvores, a horta e os jardins podem constituir, por si só, o bolo e a cereja.


Esplanada do Palácio de Cristal - Julho de 2009 (castanheiro-da-Índia à esquerda e liquidâmbar à direita)

Adenda. José Paulo Andrade escreve que o Palácio é um «pequeno jardim local, actualmente não muito utilizado». Isso não é verdade: os jardins do Palácio são os mais frequentados da cidade (muito mais do que os de Serralves, onde à semana pouca gente vai). Além dos muitos turistas e utentes habituais, quase diariamente há visitas de escolas. Muita gente vai para a esplanada, muitos outros participam em sessões de ioga, muitos pais levam as crianças ao parque infantil, e é comum os lugares de estudo na biblioteca estarem todos ocupados. Não é para servir melhor estes muitos utilizadores do jardim que a Câmara quer destruir o lago e acabar com a esplanada.

[Se o leitor quiser manter-se a par desta discussão, é à Baixa do Porto que se deve dirigir. Recomendo ainda a leitura deste comentário de José Rui Fernandes ao texto de Manuela Monteiro.]

8.7.09

Vide-branca


Clematis campaniflora Brot.

O género Clematis aceita resignado ambientes semi-desérticos ou de floresta quente, mas redobra de viço em climas frios e quando tem uma treliça onde se enrolar. A China abriga a maior colecção, a Nova Zelândia ganha no número das de folha caduca. As clematites são presença comum nas colinas argilosas, de textura macia, dos caminhos dos peregrinos para Canterbury, florindo em época de peregrinação e recebendo por isso a designação traveller´s joy. Do tempo em que algumas espécies foram usadas como condimento, de efeito semelhante à pimenta (Piper nigrum) mas mais barato, vem-lhes o nome pepper vines.

Uma classificação recente identificou quase 300 espécies de clematites na Europa, Ásia e América do Norte; não admira por isso que, para arrumar as ciência, os taxinomistas tenham subdividido o género em subgéneros, secções e prateleiras. Apesar disso, a maioria das variedades que vemos em jardins são cultivares hortícolas obtidos a partir do subgénero Flammula, por cruzamento das espécies C. patens, C. lanuginosa e C. viticella. Exibem flores gigantes (12-15cm de diâmetro), cores inusitadas e nomes de fantasia. Enchem de júbilo ditosos possuidores de varandas e sócios da azafamada International Clematis Society.

Avistámos a vide-branca das fotos (trepadeira de folha caduca, semi-lenhosa, com folhas trifoliadas e flores solitárias muito perfumadas, em forma de sino e com pétalas com cerca de 2cm de diâmetro) numa das margens do Tua abraçada a uma rocha, e notoriamente a cabecear de sono. Naturalmente desaparecerá mal se construa a almejada e prometida barragem.

Esta clematite pequenina é espontânea em Portugal e no sul de Espanha. Na maioria das bases de dados de botânica chamam-lhe Portuguese clematis. Convirá notar que a família Ranunculaceae é quase cosmopolita mas se concentra no hemisfério norte, e que o género Clematis tem escassa representação na América do Sul, Brasil e Bahia incluídos. Tratemos portanto com desvelo a nossa clematite, não vá ela decidir mudar de nacio... hã?... está bem, não digo mais nada.

7.7.09

Negrilho sem saída


Ulmus minor Mill. - Carvalhos, Vila Nova de Gaia

Este magnífico negrilho faz aqui uma entrada de leão na nossa já abundante lista dos espécimes vegetais (árvores ou arbustos) encurralados pelo progresso. Por «progresso» deve entender-se a imparável progressão do asfalto, que se vem expandindo tentacularmente por todo o território nacional. (Esta ressalva, admito-o, é pleonástica e pedante, pois o vocábulo em causa há muito que para nós não significa outra coisa.)

Na verdade, viver encurralado não é destino assim tão ingrato. O negrilho está no centro de um triângulo arrelvado, num cruzamento de onde parte uma rua sem saída, cortada abruptamente pelos separadores da auto-estrada. O local é o nó dos Carvalhos da A1: quem, vindo dessa freguesia de Vila Nova de Gaia, acede à auto-estrada para se dirigir ao Porto, pode ver a árvore à sua direita, no meio de prédios e casas em desalinho, pouco antes da bifurcação onde tem de optar por uma das pontes sobre o Douro (Freixo ou Arrábida). Não é crível que o nó dos Carvalhos seja remodelado nos próximos anos, ou que alguma nova auto-estrada vá irromper pelo local. A pobre rua amputada onde mora o negrilho nunca terá forças para crescer e se virar contra ele. É pois de supor que a árvore ultrapassou com garbo a ameaça rodoviária que sobre ela chegou a pesar - e que a usou mesmo em proveito próprio, ganhando uma visibilidade como nunca teve e chegando mesmo (ó apogeu da fama!) ao estrelato no Dias com Árvores.

A ameaça maior que o negrilho enfrenta, como todos os da sua espécie e de espécies congéneres (género Ulmus), é a grafiose, que tem dizimado estas árvores pelo mundo inteiro. Agora que restam vivas poucas árvores adultas, talvez a intensidade da praga se tenha atenuado. Vinte e três anos depois de desaparecido o negrilho da Cordoaria, morto o negrilho de S. Martinho de Anta, mortas também as grandes árvores que existiam em Aveiro, o negrilho dos Carvalhos acaba por fazer figura de monumental. Oxalá dure muitos anos.

(Espontâneo na metade norte de Portugal, o Ulmus minor é a espécie do seu género mais comum no nosso país. Os ulmeiros distinguem-se por as folhas serem claramente assimétricas na base; as do negrilho exibem forma ovada-lanceolada, ápice pronunciado e margens grosseiramente dentadas - veja foto aqui.)

6.7.09

Elogio da espera



Toda espera é um pequeno exílio do desejo. A espera supõe paciência, e eis aí um ato exclusivamente humano.
Luiz Antonio de Assis Brasil, Ensaios íntimos e imperfeitos (2008)


É um prado esquinado e florido, rasgado por um carril de caminho de ferro, projecto de Eva Barcala Pérez e José Manuel Mouriño Lorenzo para o Festival de Jardins de Ponte de Lima. As cores fortes mas em plantas minúsculas (como as linárias), e a ausência de movimento, desenham de modo rigoroso uma pausa: um momento consciente de vagar que estranhamos, nós que ocupamos com afã todos os minutos da nossa vida.

Este jardim dá corpo ao conceito de terceira paisagem de Gilles Clément: um espaço indeciso, desprovido de função, ao qual se torna difícil atribuir um nome. Encontra-se em orlas de bosques, ao longo de estradas e rios, nos recantos mais esquecidos da cultura, lá onde as máquinas não conseguem chegar. Tirando partido da falta de decisão humana, as herbáceas nestes domínios crescem desempoeiradas, de malas prontas para o despejo.

Sem querer, esta designação empurra, com alguma aleivosia, este tipo de jardim para o «terceiro mundo». Alusão certeira: para os paisagistas defensores do valor dos jardins que lhes vem dos «equipamentos» e das «instalações», da área construída e não da biodiversidade e sustentabilidade, este é um espaço subdesenvolvido, não capitalista (o 1º mundo) nem socialista industrializado (o 2º). E talvez só desta terceira paisagem se possa genuinamente esperar o não-alinhamento e uma união que transforme o modo de (vi)ver a Terra.

4.7.09

Carqueja


Pterospartum tridentatum (L.) Willk.

A maioria das plantas que, chegando a Primavera, forram de amarelo as nossas serras são leguminosas (família Fabaceae) pertencentes à subfamília Papilionoideae: tojos, giestas, pascoinhas, carqueja. O que unifica esta diversidade botânica, além da afinidade cromática, é o formato característico da flor, com uma pétala superior destacada, chamada estandarte, que exibe um vinco central por vezes bem marcado, e duas pétalas adjacentes a essa (as asas) abraçando as duas pétalas inferiores - as quais, fundidas, formam a quilha.

(Nada como passar da teoria à prática. Se o leitor clicar na etiqueta Fabaceae mais abaixo, encontra muitas flores, nem todas amarelas, que obedecem a esta descrição - trevos, favas, tremoceiros, etc -, mas também encontra algumas que dela divergem. Acontece que as outras subfamílias das leguminosas - Mimosoideae, que inclui as temíveis acácias, e Caesalpinioideae, que engloba, por exemplo, os géneros Ceratonia (alfarrobeira), Caesalpinia e Bauhinia - dão flores de morfologia bem distinta. Tirando a alfarrobeira, essas duas subfamílias não têm, suponho, representantes na flora espontânea portuguesa.)

Embora, visto ao longe, o tapete amarelo da carqueja (Pterospartum tridentatum) se possa confundir com o do tojo (género Ulex), as duas plantas são de facto muito diferentes. A carqueja não tem espinhos, e os seus ramos encontram-se envolvidos por duas membranas verdes e paralelas, que se substituem às folhas na função fotossintética; as folhas propriamente ditas são insignificantes e por vezes estão mesmo ausentes.

Garantem os livros que a carqueja (que é uma espécie essencialmente ibérica, embora haja notícia dela também em Marrocos) é uma planta útil na nossa culinária tradicional: os ramos floridos seriam usados em pratos de arroz e de caça, e as flores secas serviriam para infusões. Isto, suponho, no tempo em que o povo ia à serra e conhecia as plantas. Duvido que em Valongo, onde tirei as fotos, haja muita gente que reconheça a carqueja ou saiba os seus usos. É por isso reconfortante saber que se celebra uma Festa da Carqueja na freguesia da Malcata, no Sabugal. Quando a serra por lá foi florestada com pinheiros, e perdeu uso agrícola e pastoril, as pessoas deixaram de a frequentar. Tempos depois, alguém alvitrou que seria bom, nem que fosse uma só vez em cada ano, por altura da carqueja em flor, regressar à serra para retomar o convívio interrompido. De companheira diária, a serra passou a ser uma amiga distante que se visita de tempos a tempos com grande cerimónia. Mas pelo menos nem ela nem a carqueja ficaram esquecidas.

3.7.09

Falso pau-Brasil


Caesalpinia spinosa (Mol.) Kuntze

Caro leitor,

Como vai? Já em férias? Nós andamos enredados em caesalpinias, assunto espinhoso - e olhe que não é apenas porque algumas destas espécies têm tronco aculeado. As fotos que aqui lhe mandamos, e que fará o favor de analisar quando lhe sobrar tempo dos seus preciosos afazeres, são de mais um arbusto deste género que mora no Jardim Botânico do Porto e que, quem diria, conseguimos identificar correctamente.

Estará o leitor já de semblante desconfiado, mas, descanse, desta vez não há placa no Jardim a etiquetar a planta, não há risco de tombo. Observámos demoradamente o tronco (rugoso, cinzento, com espinhos de barriga gordinha), as folhas (alternas e bipinadas, como é característico no género Caesalpinia), os folíolos (sendo os secundários opostos, glabros e com base assimétrica), as inflorescências espiciformes, as flores a abotoar e as já abertas (com a sépala maior, canoa com um bordo de dentinhos-de-crocodilo, a envolver completamente os estames), os frutos do ano passado (vagens de cor de tijolo, já maduras) e até, pasme amável leitor, vimos as sementes à lupa, uns berlindes achatados de casca enrugada e cor castanho-cinza. Depois compulsámos bibliografia fiável e concluimos: trata-se de um exemplar de Caesalpinia spinosa. Assim, munidos de ciência e olho vivo, não há erro que nos deslustre.

O falso pau-Brasil, ou tara, é originário do Peru, mas vegeta com agrado noutros países da América Central e do Sul. É planta produtora de taninos e, diz-se, a infusão dos frutos é aconselhada em casos de amigdalite e excesso de mau colestrol.

Leitor atento, ainda aí está? Já não demoramos. Queremos deixar-lhe o desafio de identificar a outra espécie de Caesalpinia que julgámos, por aceitar ingenuamente como indubitável tudo o que os jardins botânicos nos contam, ser o pau-Brasil. É exercício meramente académico porque os «jardineiros» do Jardim Botânico do Porto reduziram, com uma poda histórica, um arbusto de 2m de altura e cerca de 3 de diâmetro de copa a um toco esquálido de 20cm que uma folhagem rala tenta a custo recobrir. Tão cedo não produzirá sementes que nos permitam decifrar o nome e a origem desta planta. Naturalmente, a placa que a identifica foi zelosamente renovada, mantendo-se contudo bem visível, talvez por apego à história ou o usual desvelo pela ignorância atrevida, a inscrição errada.

Conhece o viajado leitor outro jardim botânico que assim (des)cuide do seu acervo? Que detore as plantas para melhor as armazenar, e saiba tão pouco de taxinomia? Nós também não.

Com os melhores cumprimentos para si e para a família,

(assinatura ilegível)

2.7.09

Palácio de Cristal - lago

Palácio de Cristal -  lago  - 2004/01

Porto Palácio de Cristal lago 0401 Porto Palácio de Cristal lago 0401

Palácio de Cristal -  lago  - 2000/11
Fotos antigas (Inverno 2004 e Outono 2000)
Carregar nas fotos para ver outras do mesmo espaço.

Notas:
1- Intervenção no Palácio de Cristal: Campo Aberto quer explicações da CMP
2- Recebido por mail: marcação de encontro no café Ceuta, amanhã dia 3, pelas 18.30 para se trocarem impressões sobre as projectadas obras de "requalificação" desta zona dos jardins do Palácio.
3- Petição on-line

Há vida depois do fogo


Carvalhos-negrais (Quercus pyrenaica) mas também, à esquerda, um jovem castanheiro

A excursão de sexta-feira aos castanheiros monumentais do Sabugal permitiu-nos ter uma ideia, necessariamente incompleta, da paisagem do concelho. O percurso foi em grande parte por estradões de terra batida que nem devem constar dos mapas; e, como não anotei os lugares por onde passámos, dificilmente conseguirei reencontrá-los quando lá regressar. E trata-se de um concelho vasto: 827 km^2 - vinte vezes maior do que o Porto.

Este território da Beira raiana, que visitei agora pela primeira vez, é completamente diferente daquela outra Beira que se estende entre Viseu, Guarda e Coimbra. Os eucaliptos estão ausentes, as acácias pouco se vêem e, embora haja alguns pinhais, eles estão longe de ser dominantes. A ausência desta competição (que em geral é avassaladora) permite a existência de algo que julgava já extinto em Portugal: extensas matas de carvalhos surgidas por regeneração natural. Não se trata do carvalho-alvarinho (Quercus robur) com que estamos familiarizados na faixa noroeste do país, mas sim do carvalho-negral (Quercus pyrenaica), que se distingue facilmente pelas suas folhas penugentas, aveludadas ao tacto. Nenhum dos carvalhais de Q. robur que conheço em Portugal tem um futuro tão promissor como estas matas de carvalho-negral no território raiano. Matas tão exuberantes que permitiriam, sem o menor risco de esgotamento, a exploração florestal para produção de madeira.



Que não haja eucaliptos e sejam poucos os pinheiros não garante que os incêndios não aconteçam, embora lhes modere a intensidade. Pelo contrário, eles devem até ser frequentes, pois a maioria das matas que avistámos era formada por árvores muito jovens. Visitámos uma área recém-ardida (foto acima, mostrando um carvalho que sobreviveu ao fogo) onde se viam rebentos de carvalho a despontar da terra enegrecida. Quase não há barreiras para o fogo: em vez de campos de cultivo ou pastagens a separar as matas, predominam os giestais, também eles facilmente combustíveis. Como em quase todo o país rural, são estas as marcas deixadas no território pela depauperação populacional, pelo abandono dos campos e pela diminuição da pastorícia.

Nem o fogo nem os carvalhos vão desaparecer da região. O problema é que o ciclo de vida dos carvalhais parece ser muito curto (talvez uns 10 ou 20 anos), o que, além de trazer evidentes prejuízos ambientais, significa um grande desperdício económico. Há vida no Sabugal, mas tudo pode arder de um momento para o outro. A boa notícia é que a vida não acaba aí.

1.7.09

Flor-canhota


Scaevola aemula R. Br.

.....cómo reirían
.....los puntos cardinales
.....si fueran cinco

.....Mario Benedetti