25/01/2010

A companhia dos mortos


Cemitério de Brompton — Londres


.....Mas se paro um momento, se consigo
.....Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
.....De novo, esses que amei vivem comigo
.........Antero de Quental, Com os Mortos


Em Earl's Court e Chelsea, dois bairros londrinos perto do Tamisa, abundam as praças ajardinadas, mas quase todas elas, por serem privadas, estão interditas ao público em geral. Há contudo, no limite dos dois bairros, um espaço de 16 hectares fartamente arborizado em que toda a gente pode entrar. Vêem-se lá pais e mães com crianças em carrinhos ou pela mão, gente que vem passear os cães, outros em trajes desportivos que correm disciplinadamente a sua quota diária de milhas, uns tantos menos enérgicos que se deixam ficar sentados a ler (não há falta de bancos nem de sombras). No intervalo do almoço muitos aqui vêm engolir a refeição ligeira comprada no take-away da esquina; esquilos, pombas e gralhas ficam à espreita para devorar os restos de comida. Excepcionalmente, lá aparece algum turista de máquina a tiracolo fotografando árvores e monumentos funerários.

Pois esse parque tão popular é afinal um dos históricos cemitérios de Londres, inagurado no mesmo ano (1840) em que foi aberto o cemitério de Highgate. Com um plano rigorosamente rectangular e entradas pelas duas extremidades, em Old Bromptom Road e em Fulham Road, o cemitério de Brompton, é esse o seu nome, não tem o encanto de Kensal Green, mas é de mais fácil acesso e, tal como o seu colega, tem muitas árvores (nas fotos vemos, por esta ordem, um castanheiro-da-Índia, um choupo e um plátano, mas também há tílias, áceres, carvalhos e azinheiras) e muitas flores silvestres. E, beneficiando dessa gestão inteligente que não elimina o que é espontâneo na natureza, são inúmeros os pássaros que fazem deste espaço a sua casa.

Seria sinal de sobranceiro desprezo pela actualidade desportiva não assinalar que o estádio aí em cima, mesmo encostado ao cemitério, é Stamford Bridge, morada do Chelsea Football Club. A verdade é que tal proximidade não ajuda à beleza da envolvente, mas regista a história que os dois, estádio e cemitério, separados apenas por uma linha férrea, são vizinhos um do outro há mais de cento e trinta anos. Ao longo desse período, o primeiro foi-se modernizando, enquanto o segundo regredia para um estado semi-natural. Para quem vem do norte da cidade, a necrópole serve de atalho para chegar à única entrada de Stamford Bridge, em Fulham Road. Ou pelo menos é isso que sugere o filme Eastern Promises (2007) de David Cronenberg, em que um adepto de gorro, cachecol e bandeira é lá esfaqueado quando segue num magote ululante em dia de jogo.

Uma palavra sobre o «malmequer» ou «margarida» que se vê numa das fotos. Trata-se do Leucanthemum vulgare (Vaill.) Lam., planta ruderal muito frequente em toda a Europa e também em Portugal. Antes de o leitor se regozijar por finalmente saber o nome de uma planta tão ubíqua nos nossos campos, é melhor acautelar-se. São muitas as asteráceas, pertencentes por exemplo aos géneros Bellis, Anthemis, Anacyclus, Chamaemelum e Matricaria, que dão inflorescências brancas com centro amarelo, e algumas delas estão ainda mais disseminadas do que o Leucanthemum vulgare. Então como se distinguem os «malmequeres» uns dos outros? Não existe uma regra geral simples, mas, no caso do Leucanthemum vulgare, além do formato e disposição das folhas (alternadas, com margens dentadas — clique na foto para ver melhor), há a peculiaridade de cada haste ser encimada por uma única inflorescência.

23/01/2010

Rio Homem


      A nossa terra encolherá
e antípoda contra antípoda
se encostará.
Então, de pés unidos,
o planeta já sumido,
enfim conheceremos
o terreno que pisamos.

Piet Hein, Gruks (Moraes Editores, 1973, trad. David Glyn Evans)

22/01/2010

Vila do Gerês

Rio Gerês
Fui algumas vezes ao Gerês quando era criança. Mas, para a minha família, «Gerês» significava esta pequena vila: um par de ruas, um largo ajardinado com tanque ao centro e colunata em volta, os edifícios termais, o parque atravessado por uma amostra de rio onde se podiam alugar botes e gaivotas. Nunca avançámos para norte para admirar a mata de Albergaria, cuja existência aliás desconhecíamos, nem a curiosidade nos levou a espreitar Espanha aqui tão perto. Para fronteira bastava-nos Valença, e o mundo natural não tinha para nós qualquer interesse. Julgo que os meus pais são uma amostra típica de toda uma geração que migrou das pequenas vilas do interior para a metrópole: o corte com a natureza, representativa do atraso de vida de que fugiram, foi radical e completo. Aos poucos, as novas gerações regressam aos lugares antigos, mas como turistas, e sabendo-se impotentes para salvar aquilo de que só agora compreendem o valor.

E a vila, tantos anos depois, está objectivamente mais pequena, embora tenham surgido alguns arremedos de galerias comerciais. Não é só efeito da mudança de escala do olhar infantil para o adulto. É que entre 1 de Novembro e 30 de Abril quase tudo está fechado: as termas e o parque, por assim mandar o calendário; e a informação turística, talvez por acidente. Ficamos o tempo de almoçar e, batida uma meia dúzia de fotos, ala que se faz tarde, pois a vila nada tem que nos prenda e há tantas árvores e rios à nossa espera. Não que aqui não haja árvores, mas as do parque estão inacessíveis e os plátanos em volta do largo sofreram uma poda de apertar o coração. Por deferência para com a localidade, que até me é simpática e onde não almoçámos mal, publico uma foto mentirosa, em que quase não se distinguem as árvores mutiladas.

21/01/2010

Trapezistas

Arum italicum Mill.


A floração do jarro-bravo, planta vivaz comum em solos húmidos e ensombrados do sul da Europa e norte de África, começa em Abril e dura cerca de três meses. Tal intervalo de tempo parece curto quando se analisa o elaborado esquema de polinização que esta aracea adoptou e cujo sucesso reprodutivo, como num duo de trapezistas, exige rigorosa sincronia.

Na inflorescência consegue-se ver uma espiga (ou espadiz) envolvida por uma bráctea lisa (a espata amarela na foto). Depois de a espata desabrochar, sem contudo comprometer a câmara onde esconde as flores férteis, o apêndice no topo do espadiz inicia a sua função de minarete: na noite em que as (cerca de 60) flores femininas estão receptivas, chama os insectos, ressumando um aroma que os atrai, intenso porque o apêndice aquece bastante acima da temperatura ambiente: se lhe pudesse tocar através da foto, sentiria uma diferença superior a 6ºC.

Há flores dos dois sexos, mas coexistem na mesma planta — que por isso em inglês se designa Italian lords-and-ladies. Nascem em volutas na base da espiga, as femininas no fundo, as masculinas mais acima, separadas das primeiras por flores estéreis. Estas últimas, entrelaçadas em posição horizonal, formam uma rede que, permitindo aos polinizadores aceder às flores femininas, impede porém a sua saída. Iludidos, sem qualquer recompensa, os insectos (sobretudo fêmeas de mosca, pois o odor simula o dos pântanos ou da matéria orgânica deteriorada onde elas gostam de depositar os ovos) ficam ali presos durante um dia.

O calor retorna na manhã seguinte para se iniciar a fase masculina da reprodução: o pólen amadurece, as anteras atrofiam-se e libertam-no, e a agitação dos insectos dispersa-o. Um novo pico de calor ocorre nessa tarde para que a porta de flores estéreis murche e a espata fique rugosa para ajudar à escalada dos insectos — os quais, soltando-se, caem de imediato em logro idêntico numa outra flor, que deverá estar na fase feminina para que a possam fertilizar e reiniciar o processo. Desse modo se garante que a polinização é cruzada, um aspecto muito caro a esta candeia, que aborta avisadamente a maioria dos frutos produzidos por auto-polinização.

Finalmente, no Outono, o anel de flores femininas transforma-se numa cabecinha de bagas vermelhas brilhantes (e venenosas), a única componente da planta que resta à superfície nessa altura.

20/01/2010

Valha-nos São Tomilho

Thymus vulgaris L.
Na anterior divagação sobre tomilhos e afins, falámos de alhos e mostrámos bugalhos: o Thymus caespititius, que ilustra essa prosa, não existe nos terrenos calcários do centro e sul do país. A espécie mais comum nesse habitat é o Thymus zygis L., conhecido como erva-de-Santa-Maria ou tomilhinho, e componente importante na dieta do gado de cujo leite se faz o afamado queijo Rabaçal. Fica a promessa de que ele (o tomilhinho, não o queijo) há-de aqui aparecer um dia, mas ainda não hoje. Vem a propósito comentar que, assim como cada dia tem o seu santo no calendário devoto, também a nossa flora espontânea parece ter sido repartida, com maior ou menor grau de arbitrariedade, por esses ilustres inquilinos do paraíso celeste. Existem a erva-de-São-Roberto, a erva-de-São-Roque, a erva-de-Santo-Estevão, a erva-de-Santa-Ana, a erva-de-São-Guilherme, a erva-de-São-Cristovão, a erva-de-Santa-Bárbara, a erva-de-São-João, e sabe-se lá quantas mais plantas a que poderíamos chamar hagiófitas. Tal profusão de nomes populares-devocionistas denuncia uma relação remota, hoje em grande parte perdida, entre pessoas e plantas, e reforça a ideia de que somos (ou fomos) um país beato, mas também nos leva a confundir plantas que não têm entre si qualquer semelhança ou parentesco.

O Thymus vulgaris, ou tomilho-vulgar, é o mais cultivado do seu género e o mais versátil para usos culinários: faz toda a diferença ao paladar juntá-lo como tempero a molhos, saladas, estufados e assados — sobretudo de borrego. É espontâneo em terrenos áridos e pedregosos da região mediterrânica, e ocorre na Península Ibérica mas não em Portugal. Subarbusto compacto, rasteiro (até 30 cm), muito ramificado, tem raminhos sedosos e esbranquiçados, folhas estreitas com margens recurvadas para dentro, e flores brancas ou rosadas, pequeninas (até 5 mm) e penugentas.

19/01/2010

Estrelamim

Aristolochia paucinervis Pomel
Este nariz da terra, que muitos encaram cautelosamente como orelhinhas-do-diabo, é planta vivaz rizomatosa da região Mediterrânica e Macaronésia, abundante por cá em matagais soalheiros e terrenos incultos, onde aprecia a companhia de carvalhos. Os caules chegam aos 40 cm de comprimento, parecendo crescer em ziguezague. As folhas são cordiformes e alternas, com pecíolo longo; servem de gola isabelina às flores que nascem solitárias, entre Março e Julho, nas axilas das folhas. Não têm pétalas, estão contidas num cálice tubular, inchado na base, que molda uma "espata" de cor amarelo-pardo com um capuz púrpura de interior penugento. O fruto é uma cápsula ovóide que demora cerca de três meses a amadurecer e contém numerosas sementes triangulares achatadas.

O termo latino paucinervis indica que esta planta tem poucos nervos. Não se trata aqui de uma apreciação do carácter — que, numa herbácea cujas raízes contêm um alcalóide venenoso, usado como antídoto para picadas de cobras ou de escorpiões, é certamente calmo e lúcido —, mas uma referência aos poucos canais de seiva salientes a irrigar as várias partes da planta. Aristolochia deriva do grego aristos, o melhor, e lokhía, parto. Estranho nome este, dado a uma planta que adoptou um esquema de polinização sofisticado mas revela com frequência um descaso maternal que beira o desastre. Senão vejamos.

As flores da jarrinha são hermafroditas e atraem, pelo aroma ou pelo ar aquecido do tubo, insectos polinizadores que aprisionam — com outros distraídos que atrapalham o processo — e que só libertam quando as anteras se abrem sujando-os de pólen. Elas sabem de cor a receita —

50 grãos de pólen por cada óvulo para se gerar um fruto
11 sementes por cada fruto


- e portanto estão conscientes de que são precisos cerca de 4,5 grãos de pólen para produzir uma semente. Mas, em épocas em que os tubérculos armazenaram poucos nutrientes para o ano seguinte (a planta perde a componente aérea no Verão), são altas as taxas de flores não polinizadas, por notória falta de pólen, ou de frutos abortados. Os cientistas atribuem esta baixa natalidade à opção de minimizar riscos: em anos de parcos recursos, as plantas produzem menos pólen que óvulos e, por isso, poucos frutos. A fartura de flores mantém a clientela de insectos visitantes satisfeita, mas a planta reserva-se o direito de, criticamente, eliminar rebentos de viabilidade menos provável ou restringir a reprodução, antevendo com justa preocupação o sucesso da filharada num mundo que nem os pais consegue sustentar devidamente. Esta estratégia, egoísta é certo, é útil em ecossistemas com condições ambientais variáveis, como é a região mediterrânica, e favorável a espécies que dependem de polinizadores muito especializados — ou que compram néctar noutras lojas —, cuja abundância flutua de ano para ano, como são as do género Aristolochia. Deste modo, a planta evolui para um regime mais autónomo de auto-polinização, compensando alguma ineficiência recorrente no esquema ardiloso de fecundação.

Num momento em que o país se aflige com a baixa natalidade, atenua a angústia saber que noutros mundos há iguais reacções à crise: de vez em quando, é possível sentir-se venturoso sem se precisar de um futuro.

18/01/2010

Golfão ou golfinho?

Nymphoides peltata (S. G. Gmel.) Kuntze / Lemna gibba L.
O Portugal Botânico de A a Z chama golfão ao vulgar nenúfar (Nymphaea alba), no que é corroborado pela Flora Digital de Portugal. São aliás várias as plantas aquáticas dos géneros Nymphaea e Nuphar que as mesmas fontes apelidam de golfões, diferenciando-as umas das outras por um adjectivo adicional: há assim o golfão-branco, o golfão-amarelo e o golfão-vermelho. E também o golfão-pequeno, nome que calhou à Nymphoides peltata e que pode muito bem, em benefício da brevidade e da eufonia, ser encurtado para golfinho — até porque, cremos nós, até agora não existia nada com esse nome.

O sufixo latino oides em nomes botânicos como platanoides ou Nymphoides deve ler-se como «semelhante a»: o bordo-da-Noruega (Acer platanoides) é semelhante ao plátano, e o golfinho (Nymphoides peltata) é semelhante ao golfão (Nympahea sp.). Essa semelhança, contudo, é simplesmente a opinião de quem baptizou a planta, e pode parecer forçada a outros olhos. Apesar de haver livros que afirmam o contrário, as flores da Nymphoides e da Nymphaea têm de facto pouquíssimas parecenças, e tanto assim é que as duas pertencem a famílias botânicas evolutivamente muito afastadas. Afinidade há é nas folhas arredondadas que, em ambas as plantas, formam extensos tapetes flutuantes.

O género Nymphoides tem uma distribuição cosmopolita, e é formado por vinte espécies que vivem em águas paradas e pouco profundas. São plantas rizomatosas, com caules submersos que podem ultrapassar os dois metros de comprimento, e flores pequenas (2 cm), brancas ou amarelas, de pétalas franjadas, em hastes que se erguem acima da superfície da água.

Asseveram os manuais que a Nymphoides peltata, planta perene euro-asiática tida nos E.U.A. como invasora indesejável, é também nativa do norte e centro do nosso território. Nunca nos aconteceu encontrá-la nos nossos espaços naturais, mas, como planta cultivada e vendida em hortos, não deverá ser assim tão rara em jardins. A acompanhá-la, na foto em cima, tirada em Inglaterra no Verão passado, vemos lentilhas-de-água (Lemna gibba), uma planta curiosa que faz com que todo o lago pareça uma sopa bem nutritiva. Coisa que ela até é, embora mais para peixes do que para pessoas.

16/01/2010

Peónia do mar Egeu

Paeonia clusii F. C. Stern
Carolus Clusius (1526-1609) foi um naturalista e horticultor flamengo, autor de várias traduções de obras naturalistas contemporâneas, de um texto sobre flora espanhola e de dois compêndios sobre plantas exóticas e dezenas de espécies novas: Rariorum plantarum historia, em 1601, e Exoticorum libri decem de 1605. O seu contributo para o estudo de plantas alpinas valeu-lhe ser homenageado no nome científico de muitas delas e na criação do género Clusia e da família Clusiaceae.

Nomeado, a meio do século XVI, por Maximilian II — o imperador do Sacro Império Romano-Germânico que recebeu de presente, em 1551, do rei D. João III, o elefante Solimão, personagem do livro A viagem do elefante, de Saramago — como director de um jardim de plantas medicinais em Viena, mudou-se pouco tempo depois para Leiden (no sul da Holanda), onde foi professor e protagonista de um dos capítulos mais famosos da horticultura europeia.

Figura importante na criação de um dos primeiros jardins botânicos da Europa (o Hortus Academicus, em Leiden), deve o seu prestígio na história da botânica à observação atenta e paciente das plantas. A curiosidade, tão cara à ciência, levou-o a reparar numa alteração na coloração das tulipas, fenómeno que descreveu em 1576 e atribuiu então às condições ambientais, à natureza do solo e ao modo de preservar os bolbos, mas que se sabe hoje ser causado por um vírus. O fascínio pelas plantas afectadas residia na mudança de pigmentação das pétalas, que nasciam variegadas, com o bordo ou o centro pintalgados com cores distintas da cor normal (rosa, vermelho, púrpura, amarelo ou branco). Sendo produto de beleza apreciada, tornaram-se caras, até porque, em comparação com as tulipas vulgares, cresciam pouco, floresciam mais escassamente e produziam bolbos menos vigorosos. Foram tema favorito entre os mestres da pintura holandesa, que registaram na tela flores que desde então se extinguiram e que nem mesmo a manipulação genética de hoje consegue ressuscitar.

Nesta floração sensacional esteve a origem da febre de comércio de tulipas que, durante o século XVII, quase levou à bancarrota a economia holandesa: as tulipas passaram a ter valor de moeda e muitos holandeses, como numa corrida ao ouro, abandonaram a agricultura, o fabrico de queijos e outras ocupações para se dedicarem exclusivamente à produção destas flores bizarras. Ficou, como herança desses tempos, a indústria holandesa de bolbos e plantas de viveiro cuja imensa produção monopoliza hoje os nossos «centros de jardinagem».

O vírus e o modo como se dissemina foram identificados por Dorothy Cayley no John Innes Horticultural Institution nos anos 30 do século passado. Felizmente os horticultores conseguiram entretanto criar variedades de tulipas com este tipo de flores mas livres da doença.

15/01/2010

Malmequer-dos-brejos

Caltha palustris L.
Não muito longe do charco onde mora a lavanda-do-mar, mas do outro lado da estrada, a descida da maré deixa a descoberto um espectáculo de morte. Centenas de jacintos-de-água, empurrados para a ria pelo caudal do Vouga, que nela desagua, espalham-se ao longo do estreito areal cinzento. A água salgada foi-lhes fatal, e por isso a viagem deles terminou aqui. Quem quiser aproveitá-los como fertilizante, ao que parece muito bom, só tem de trazer umas cestas e começar a enchê-las. Ou então pode deixá-los secar para servirem de combustível nas lareiras.

O ingrediente que tempera a água da ria, e também a do mar, é sal da vida para umas plantas e veneno fatal para outras — que preferem a chamada água doce (mas sem açucar). Em reconhecimento dessa distinção fundamental entre plantas hidrófilas, trazemos hoje aqui uma planta perene de floração temporã (início da Primavera) que vive em margens de rios, prados húmidos e terrenos alagadiços. Apesar do seu nome comum (malmequer-dos-brejos), a Caltha palustris não é uma asterácea, pertencendo em vez disso à família das ranunculáceas, que inclui várias espécies aquáticas frequentes nos nossos rios e lagos. As diferenças mais assinaláveis entre os ranúnuculos e o malmequer-dos-brejos são que este último tem o caule oco, é um pouco mais espigado (pode chegar aos 35 cm) e, ainda que as imagens pareçam desmenti-lo, as suas flores não têm pétalas: o que vemos em volta da coroa de estames são na verdade cinco sépalas. São as sépalas que protegem o botão floral antes da abertura; sépalas que, na maioria das plantas, têm cor verde e são semelhantes a folhas, embora haja numerosas excepções.

A Caltha palustris distribui-se por boa parte das regiões temperadas do hemisfério setentrional, incluindo Europa, Ásia e América do Norte. Está referenciada em Portugal, embora nunca a tenhamos encontrado por cá. A da foto é inglesa e vive em Londres, num dos muitos lagos que pontuam os 320 hectares de Hampstead Heath.

Esplanada em xeque

Depois do alerta aqui lançado, com eco no blogue A Baixa do Porto, houve mais gente a manifestar espanto e repúdio pela «esplanada» que está a ser construída na praça Parada Leitão. Por iniciativa de Manuel Correia Fernandes, vereador da oposição e arquitecto, o assunto foi mesmo discutido na reunião de 12 de Janeiro (terça-feira) da Câmara do Porto. Correia Fernandes considera a obra «uma intrusão num espaço público quase sagrado da cidade» e acha que a única solução aceitável é desmontar tudo e «voltar ao princípio». Oxalá o executivo camarário lhe dê ouvidos.

Mais detalhes sobre o assunto aqui, aqui e aqui.

14/01/2010

Amarela do Tibete

Paeonia ludlowii (Stern & G.Taylor) D. Y. Hong


As espécies arbustivas do género Paeonia vêm da China ou dos Himalaias. Uma das mais altas mas de flores menores é a tibetana P. lutea Delavay ex Franch. São plantas que fazem parte dos florilégios tradicionais chineses (simbolizam a beleza feminina), sendo celebradas em festivais anuais em Maio. O cultivo de peónias na China ter-se-á iniciado no século IV d.C. em Chekiang, e três séculos mais tarde eram já conhecidas centenas de variedades. As de flores amarelas foram primeiramente descobertas no século XI em Sichuan, mas a da foto é originária de bosques esparsos entre os 2900 e os 3500 m de altitude no sudeste de Xizang, no Tibete. Considerada uma subspécie da P. lutea por Frederick Claude Stern e George Taylor, chamou-se Paeonia lutea var. ludlowii Stern & Taylor e depois Paeonia delavayi subsp. ludlowii (Stern & Taylor) B. A. Shen; em 1997 ganhou estatuto de espécie. É um arbusto vigoroso que pode atingir os três metros de altura, com folhagem verde-brilhante e flores brancas, amarelas ou castanhas com uns 12 cm de diâmetro e filamentos dos estames vermelhos. Frutifica abundantemente e é fácil de propagar por semente, mas está em perigo no seu restrito habitat natural por causa do uso medicinal da casca das raízes. O epíteto específico comemora a pesquisa do ornitólogo e botânico Frank Ludlow (1885-1972) durante as expedições ao sudeste do Tibete entre 1933 e 1949.

As peónias arbustivas requerem solo fértil e permeável, franca exposição ao sol, e amuam com frio excessivo ou ventos secos. Por isso alguns cultivares, sobretudo os da P. suffruticosa Haw. (da China), desenvolvem-se bem naquelas partes da Europa onde encontram invernos frios mas verões quentinhos para compensar. Como prémio pela boa adaptação, receberam nomes de fantasia (Bowl of Beauty, Dayspring, Chedddar Cheese, Chocolate Soldier) ou gentis antropónimos de gente talentosa, como Sarah Bernhardt ou Edward Elgar.

13/01/2010

Lavanda-do-mar

Limonium vulgare Mill.
Em jeito de celebração da muita chuva que tem caído nesta transição de ano, iniciamos uma mini-série com aquelas plantas que se dão bem com a água, e por isso não temem a erosão costeira nem a subida do nível do mar. (Talvez devessem temer, mas algumas plantas, para seu mal, não são mais inteligentes do que o homem.) E a primeira é uma lavanda-do-mar, pertencente ao género Limonium, que já antes foi aqui pretexto para uma lição sobre maternidades alternativas. Impõe-se, contudo, uma ressalva a esse texto, que tem a ver com a contagem do número de espécies. Tal como sucedeu com outros géneros e famílias botânicas, uma operação de limpeza tem vindo a estabelecer sinonímias e a eliminar duplicações, com o resultado de o número de espécies de Limonium ter sido reduzido a metade, de 300 para 150.

O Limonium vulgare — herbácea perene, glabra, com base lenhosa, altura até 60 cm, florindo de Julho a Setembro — ocorre em quase toda a costa europeia atlântica e mediterrânica, e ainda no norte de África e nos Açores. É, no continente, uma planta exclusiva dos sapais (terrenos lodosos confinantes com o mar em estuários ou rias, periodicamente inundados por água salgada), aparecendo nuns tantos locais no centro e no sul. Nas ilhas açorianas, porém, onde não existem sapais, a planta escolhe como habitat as rochas e falésias costeiras, em altitudes inferiores a 80 metros — e por isso há algumas dúvidas de que se trate exactamente da mesma espécie.

A planta aí em cima foi fotografada em São Jacinto, na ria de Aveiro, num charco junto à EN 327. Apesar do seu epíteto científico, não parece ser excessivamente vulgar nas margens da ria, muito embora estas cumpram todos os requisitos para ela se sentir em casa. De facto, o charco que lhe serve de refúgio está do lado errado da estrada, e não é atingido pela subida das marés a menos que toda a faixa de rodagem fique submersa — coisa que, julgo eu, nunca acontece. Mas talvez existam condutas para escoar as águas da ria por debaixo da estrada, assegurando assim ao terreno um grau de salinidade que permite a sobrevivência da planta.

1000 árvores

No dia 16 de Janeiro, sábado, a partir das 10h00, irão ser plantados mil sobreiros no Parque Natural de Sintra-Cascais. A inscrição prévia é obrigatória, e o número de participantes está limitado a 500. Para informações mais detalhadas consulte a página Plantar uma árvore.

12/01/2010

Rosas de albardeiro

Paeonia broteroi Boiss. et Reut.


Conta o mito que, ao nascer Zeus, a mãe, Rhea, fincou as mãos no solo, e desse gesto quase humano brotaram dez seres ardilosos: cinco femininos da mão esquerda, com poderes mágicos, cujos nomes estão ainda hoje no segredo dos deuses; e cinco masculinos da direita, hábeis artesãos do ferro. Um deles é Paeonius, que nesta narrativa se enreda com Paeon, sábio médico do Olimpo que teria descoberto algum uso medicinal na planta que veio a receber o seu nome.

Paeonia é o único género da família Peoniaceae, antes incluído na Ranunculaceae, com cerca de 30 espécies de herbáceas e arbustos, além de muitas variedades de jardim. Têm folhas alternas e divididas (três divisões principais e, por vezes, subdivisões), e flores perfumadas mas de curta duração que em certas espécies — como a P. suffruticosa Haw. — chegam aos 30 cm de diâmetro. São originárias de prados, bosques e solos rochosos da Europa, leste da Ásia (as de porte arbustivo são da China) e norte de África, e há ainda duas espécies da Califórnia. A polinização está entregue a besouros; os frutos são deiscentes e contêm numerosas sementes escuras com arilo carnudo e outras vermelhas inférteis.

As fotos acima mostram a rosa-albardeira (ou erva-casta, rosa-cuca, rosa-de-lobo), espécie do centro e sul de Portugal e sudoeste de Espanha. Atinge os 40 cm de altura, é perene e aprecia matagais de montanha, locais pedregosos e sombrios de barrocal e ribas de rios. As flores têm 8 a 10 cm de diâmetro, filamentos dos estames amarelos e dois a quatro carpelos penugentos. A floração ocorre de Abril a Junho. Distingue-se, na ausência de flores, da peónia-comum (Paeonia officinalis subsp. microcarpa) por ter folhas glaucas e glabras e pecíolo de secção redonda.

Paeonia officinalis subsp. microcarpa (Boiss. & Reuter) Nyman
As flores da Paeonia officinalis subsp. microcarpa são um pouco maiores (10-13 cm) e os filamentos dos seis estames são vermelhos. A face inferior das folhas é pubescente, a haste é sulcada e os folíolos têm lóbulos menores. O frutos não têm penugem, mas os pés das flores sim. Prefere matos do sudoeste da Europa, onde floresce de Abril a Julho. Como a espécie anterior, as suas flores têm cinco sépalas verdes desiguais, e cinco a nove pétalas de cor vistosa. Ao contrário do que anuncia a designação vernácula, é mais rara que a P. broteroi, e só fotografámos este exemplar solitário porque um leitor generoso nos disse onde o tinha encontrado: Casal Monizes, na serra de Candeeiros.

11/01/2010

Caminhos de Belém

Washingtonia filifera (Lindl.) H. Wendl. / Phoenix canariensis Chabaud
Em Portugal, o caminho de Belém é uma metáfora do percurso político — alimentado durante anos por «tabus» postos a cozinhar em lume brando nos títulos especulativos dos jornais — que pode guindar alguém ao mais alto cargo da nação. Quem não tiver sido eleito para nada de especial, nem for político ou personalidade pública de relevo bastante para ser recebido em audiência, pode apenas visitar os jardins do Palácio de Belém em cada dia 5 de Outubro ou em alguma outra rara ocasião em que os portões sejam franqueados ao povo. Mas é possível, em qualquer altura do ano, espreitá-los sem grande despesa pagando uma entrada de dois euros no vizinho Jardim Botânico Tropical, aberto todos os dias (excepto feriados) até às 17:00. Os dois jardins partilham um gradeamento de algumas dezenas de metros, e dá para ver, do lado de lá, dois ou três pinheiros-mansos, um lago rodeado por laranjeiras para onde se desce por uma dupla escadaria, e, nas traseiras do palácio, uma araucária-de-Norfolk entristecida por falta de companhia. Um gato digno e anafado, de pelagem cinzenta e porte inconfundivelmente presidencial, atravessa amiúde o gradeamento para vir ao lado de cá mordiscar as ervitas que lhe lubrificam o trânsito digestivo.

Evocativas do sul e dos trópicos, palmeiras em dupla procissão ladeiam os caminhos que, dentro do Jardim Botânico Tropical, conduzem ao Palácio de Belém atrás das grades. Não um sul muito exacerbado, pois tanto a palmeira-das-Canárias (Phoenix canariensis) como a palmeira-de-leque-da-Califórnia (Washingtonia filifera) resistem bem ao frio e são comuns — muito mais a primeira do que a segunda — em todo o litoral norte do país. Alamedas com o efeito cénico destas duas, com centenas de metros de extensão, não são, porém, nada comuns, e valem, por si só, uma visita ao jardim.

Inaugurado em 1912, com uma área ajardinada de cinco hectares, este espaço já se chamou Jardim Colonial e, depois de 1951, Jardim do Ultramar. Integrando o Instituto de Investigação Científica Tropical, não consegue disfarçar um certo desmazelo, ainda que menos chocante do que noutros jardins botânicos portugueses. Será esse o resultado da falta de pessoal? Segundo esta página, dos 25 funcionários do jardim no activo, incluindo investigadores, técnicos e bolseiros, só dois são jardineiros. Também o dinheiro não parece por aqui existir às mãos-cheias: a estufa, fechada há dois anos para obras de recuperação que nem sequer se iniciaram, está a caminho da ruína completa.

09/01/2010

Um linho às direitas

Linum strictum L.

.....Life really is much bigger than loving a person.

.....Kazuo Ishiguro, Nocturnes (Faber and Faber, 2009)

08/01/2010

Da brancura vegetal

Borago officinalis (A. Murray) Parl.
O branco, tantas vezes tomado como ausência de cor, é afinal a soma de todas as cores, e a verdadeira anulação cromática só acontece quando se neutralizam todas as fontes de luz. Mas, nos seres vivos, a brancura ou a palidez são muitas vezes sinal de um défice: o albinismo, tanto no homem como em animais e plantas, resulta simplesmente da falta de certos pigmentos.

Se o caule e as folhas forem verdes, pode ser um abuso de linguagem chamar albina a uma planta só por as suas flores serem brancas. Há-de ter porém algum significado que a borragem, planta que normalmente dá flores azuis, decida dá-las brancas. E, se levarmos em conta a mudança de vermelho para verde das hastes, pedúnculos e sépalas, talvez esta borragem cumpra os mínimos para ser declarada albina à luz da ciência. Aliás, as mesmas mutações tonais se verificaram na cila a que afoitamente chamámos albina, e é de crer que nas duas plantas o fenómeno tenha idênticas causas.

Já se sabe que o branco, cor da pureza, simboliza a morte para os povos do Oriente. Nada disso interessa às flores silvestres que ninguém colhe para enfeitar vestidos de noiva ou túmulos de defuntos. O branco das flores é apenas um acidente, uma dessas variações arbitrárias que tornam tão compensadora a observação atenta da natureza.

07/01/2010

Papaia em flor

Carica papaya L.


Carica é termo latino que deriva do grego karike, figo. O mamoeiro recebeu este nome de Lineu pela semelhança das suas folhas (e da sua seiva leitosa) com as da Ficus carica L. — uso da palavra neste caso, segundo se crê, em alusão a Caria, região da Ásia Menor onde as figueiras foram (e talvez ainda sejam) abundantes. Lineu preferia designações de natureza erudita (grega ou latina), preterindo frequentemente as de origem indígena. Tournefort tinha já atribuído ao mamoeiro o nome caribenho (papaya) e portanto Lineu poderia ter optado por Papaya edulis ou Papaya americana, digamos. Não senhor. Refugiou-se nas razões legais que lhe permitiam ignorar a etiqueta de Tournefort (por ser anterior a 1753) e tomou emprestado, promovendo-o a nome de género, o epíteto da planta do Velho Mundo que, no seu entender, mais parecenças exibia com o mamoeiro.

A família Caricacea é pequenina, com quatro géneros e uma trintena de espécies das regiões tropicais da África e da América. O mamoeiro, provavelmente originário da região entre o México e a Nicarágua, é um arbusto de tronco grosso, mas tenro e não ramificado, em cujo ápice as folhas (perfumadas, grandes, palmadas, lobadas, alternas, com um enorme pecíolo e nervuras salientes) se agrupam em penacho. É dióico, mas pode acontecer que uma planta, por razões ambientais ou internas, troque de sexo. As flores nascem todo o ano nas axilas das folhas, sendo as masculinas amarelas, pendentes e olorosas, com um cálice, de cinco pontas lanceoladas e torcidas, que cinge 10 estames desiguais; as femininas (na foto) são idênticas mas esbranquiçadas e, em vez dos estames, têm 5 estiletes; além disso, são curtas de pé para que o fruto, que amadurece grande, se segure e não caia antes do tempo. A papaia madura tem casca alaranjada, polpa comestível muito vitaminada e sementes que são grãos escuros. É também fonte de papaína, fermento proteolítico que fornece a pepsina — enzima que, em meio ácido, decompõe as proteínas (por isso, a carne amacia se for colocada durante algum tempo dentro da casca de um mamão).

É um arbusto peculiar: cresce rapidamente, mas paga a pressa com uma existência curta; e, arrojadamente, combina uma copa altaneira com um caule que expõe as cicatrizes do passado. Como se proclamasse que, ainda que o talento dê uma ajuda, só com esforço e sacrifício se sobe na vida. No reino vegetal, claro.

06/01/2010

Portela de Leonte

Chamaecyparis lawsoniana (A. Murray) Parl.


Criado oficialmente em 1971, o Parque Nacional da Peneda-Gerês é o único espaço natural do país a merecer esse estatuto máximo de protecção. E também parece ser o único verdadeiramente a salvo da acção danosa de um primeiro-ministro que fez da destruição da natureza uma prioridade governativa. Quando tiverem desaparecido os vales do Tua e do Sabor, quando todos os rios tiverem sido transformados em obesos espelhos de água, quando os campos agrícolas estiverem semeados de eucaliptos, quando não houver cume sem ventoinhas nem serra não devassada por largas estradas poeirentas, quando os Projectos de Interesse Nacional tiverem feito tábua rasa dos planos de ordenamento — quando chegar esse tempo funesto que em larga medida é já aquele que vivemos, ainda vamos ter, mais ou menos intocados, os montes e vales do Gerês.

A estrada por vezes íngreme, cheia de curvas e contracurvas, que vai da pequena vila termal do Gerês até à fronteira da Portela do Homem proporciona a mais fácil introdução à variada ecologia do Parque. São tantos os cursos de água à nossa volta — rios, ribeiros, cachoeiras, escorrências, regos cavados na berma da estrada — que a serra parece ser, toda ela, um manancial inesgotável de água cristalina. Há os carvalhos e os medronheiros da Preguiça, um pouco adiante aparecem bétulas e, já perto de Espanha, rodeia-nos a frondosa e formosa mata de Albergaria. Da Portela de Leonte, junto à casa florestal, parte um trilho que, subindo pela serra, nos leva a visitar pinheiros-silvestres, azevinhos e carvalhos-negrais antes de nos conduzir a miradouros formados por grandes rochas empilhadas.

As casas florestais, como a da Portela de Leonte, são despojos de uma profissão que, em Portugal, já não existe: a de guarda-florestal. À volta dela vemos os ciprestes-de-Lawson que os serviços florestais de meados do século XX plantaram pela serra em companhia de outras coníferas exóticas: abetos-de-Douglas, sequóias, ciprestes-do-Buçaco. As suas copas pontiagudas, à maneira de fusos, emprestam um tom dissonante à paisagem, mas o Gerês não é floresta virgem, e outras alterações houve por mão humana que causaram estragos bem mais sérios. Não menos do que a casa a que fazem escolta, os empertigados ciprestes-de-Lawson são parte da história do nosso único Parque Nacional.

05/01/2010

A casquinha do pinheiro

Pinus sylvestris L.


O pinheiro-de-casquinha (Scots pine), com uma copa cónica que se achata com a idade, distingue-se sem custo das outras espécies de pinheiro que povoam o Gerês pelo tronco superior de ritidoma alaranjado — com alburno que se desprende revelando o cerne cor-de-raposa —, contrastando com o tronco inferior cinzento e estriado. As agulhas verde-azuladas são miúdas (3-7 cm de comprimento e 2 mm de largura), têm margens finamente dentadas, nascem aos pares e parecem torcidas; caem ao fim de 4 anos nos climas quentes, duram um pouco mais nos subárticos. Os cones masculinos de 6 a 8 cm de comprimento são amarelo-rosados e surgem, entre Maio e Junho, agrupados nas extremidades dos ramos mais jovens; os femininos, solitários ou em espirais de dois a seis, são ovóides, têm de 3 a 6 cm de comprimento e mudam da cor rubra, quando pequeninos, para o verde e depois para o castanho ao amadurecer, no que se gasta cerca de ano e meio. A polinização é assegurada pelo vento; e as sementes (pinhões) são elipsóides alados de 4-5 mm e cor acinzentada.

[Que diabo, resmunga o leitor, tantos números. Depois de vermos o tronco já sabemos que árvore é, não vamos medir as agulhas.]

É nativo de quase toda a Europa e Ásia, tendo-lhe sido atribuídos mais de cem nomes científicos e outras tantas designações vernáculas. Adapta-se a qualquer tipo de solo e suporta geadas, mas não secas prolongadas. O epíteto específico, sylvestris, sugestão de Lineu, explica-se por este ser o único pinheiro nativo da Suécia. Produz madeira famosa, de qualidade que alguns consideram excepcional para carpintaria e construção, o pinho-de-riga. É fonte de terebentina, resina, pez e creosoto. Cultiva-se ainda como planta ornamental e há variedades de folhagem dourada no Inverno, regredindo para um verde comum na Primavera. E — bom motivo para este ano andarmos de olhos nele bem atentos — é hospedeiro do visco-branco (Viscum album L.), um parasita com clorofila e bagas transparentes cujas sementes pegajosas os pássaros disseminam esfregando as patinhas nas gretas das árvores.

[Por falarem nisso está o texto também pegajoso, ou já me teria ido embora — opina o leitor entre dentes, não contendo uma risadinha.]

Pinus é o maior género da família Pinaceae, próximo dos cedros mas com pinhas que amadurecem na árvore, havendo registo de cerca de 100 espécies no hemisfério norte, classificadas pelo número de agulhas em cada bainha, e o tipo de cone e de semente. Desenvolvem-se em regiões montanhosas, na costa marítima e até em zonas semi-desérticas, apreciando particularmente o sul dos Estados Unidos e o México. O Pinus longaeva D.K. Bailey é a árvore conhecida com vida mais longa: estima-se que uma no Nevada tenha 5000 anos de idade. A biologia de algumas espécies dá-se bem com o fogo — e até depende dele, como no caso do P. radiata D. Don, cujas pinhas se mantêm fechadas e com as sementes viáveis até que sejam libertadas pelo calor de uma chama —, mas quase todas, incluindo o pinheiro-da-Noruega, são vulneráveis aos nemátodos que lhes têm movido guerra sem tréguas.

[Com tanta conversa já me esqueci do que li acima. Depois volto para rever o ... Pinus laranjum... não, viscosum, isso, tem tempo, vamos agora àquele outro blog...]

04/01/2010

Açafate perfumado

Lobularia maritima (L.) Desv.
Açafate-de-prata é um dos nomes desta planta dunar, frequente no sul da Europa e no norte de África, que conquistou, graças ao doce aroma das suas flores, lugar de honra como planta anual na jardinagem dos países mais frios. Designa ainda açafate, segundo os dicionários, um cesto baixo, sem tampa e sem asa, feito de verga fina. E, apesar de os dicionários não abonarem tal uso, também é (ou era) costume, na literatura sobre jardinagem, chamar açafates aos maciços de plantas floridas dispostas com intenção mais ou mais geométrica.

Talvez por um acaso feliz, a planta parece reunir todos os atributos que a palavra açafate evoca: as flores agrupadas em esferas quase perfeitas parecem obra de jardineiro consciencioso, preocupado com a simetria dos seus arranjos; e o conjunto evoca aqueles cestos floridos com que se enfeitam as mesas em festas e congressos. Em suma, poucas plantas há, como esta, que revelam ainda na natureza um aprumo tão civilizado e uma tão decidida vocação ornamental.

Era pois inevitável que dela se desenvolvessem numerosos cultivares. Não que a planta precisasse de ser melhorada, mas os horticultores não resistem a brincar com essas coisas. Existem assim, hoje em dia, variedades para jardim com flores cor-de-rosa, púrpura e de outros cambiantes intermédios. Mas mantêm-se o perfume (esse não havia como mudar), as dimensões exíguas da planta (não mais que 30 cm de altura), e o bom hábito de, em climas amenos, florir quase o ano inteiro.

02/01/2010

O céu que nos aflige

Praça de Parada Leitão, Porto
Há usos que podem parecer convenções arbitrárias, mas que resultam de ajustes sucessivos à realidade. Dito de outro modo: já se fez de forma diferente, até se ter verificado que não funcionava. Aquilo que às vezes passa por inovação pode não ser mais do que ignorância da história e dos erros passados, que repetimos com alegre inconsciência. É por isso que a inteligência e o bom senso não progridem à mesma velocidade que a tecnologia, e chegam mesmo a registar retrocessos clamorosos.

Nesta época de discussões sobre as cidades e a sua função, em que os arquitectos de nomeada são escutados com a reverência devida aos oráculos ou aos deuses do Olimpo, a praça de Parada Leitão, transformada sucessivamente para pior ao abrigo das mais avançadas doutrinas, avulta como mostruário de inépcia urbanística. Até 2001, ano em que o título de capital europeia da cultura foi pretexto, no Porto, para operações mal-amanhadas de requalificação urbana, a praça tinha três alinhamentos de árvores: um central, formado por seis plátanos mais que cinquentenários, e dois nos passeios laterais, cada um deles com uma dezena de robínias. Com a supressão do trânsito na praça e na envolvente da Faculdade de Ciências (actual Reitoria da Universidade do Porto), abriu-se uma área pedonal que, alegou-se então, prolongaria o Jardim da Cordoaria até aos Leões. O que de facto se criou, uma vez arrancadas sem critério todas as árvores da praça, foi um amplo terreiro empedrado, desprovido de sombras, cenário dia e noite para o estacionamento caótico e ilegal. Com um preciosismo de escultor que doseia os seus efeitos, e uma pasmosa inconsciência do que é e para que serve uma árvore, o arquitecto fez plantar, no lado poente da praça, umas quantas tílias dispostas aos molhos de três em exíguas caldeiras rectangulares. Talvez não lhe tenha ocorrido que as árvores crescem, tão apertadas as deixou umas contra as outras; ou então espera que coalesçam, formando cada trio um monstro-árvore de três troncos e uma só cabeça.

Em qualquer caso, alguma sombra prometia ter esse canto quando as tílias, melhor ou pior, se desenvolvessem. E a companhia fresca da folhagem, mitigando o efeito do parque de estacionamento em que a praça se converteu, poderia tornar mais convidativas as esplanadas que lá acabaram por se instalar.

Embora as esplanadas com vista para ruas com trânsito nunca me tenham seduzido, entendo que quem se senta nelas goste de sentir a cidade à sua volta: em vez de se resguardar num salão, deixa-se impregnar pelas imagens, sons e cheiros que compõem a vida urbana; para lhe servir de tecto só precisa do céu, de um guarda-sol ou (melhor ainda) de uma árvore.

Incompreensível é gostar de esplanadas e temer o ar livre e o céu por cima da cabeça; é deixar-se ficar num contentor envidraçado, espécie de submarino para mergulhar na cidade sem por ela ser contaminado, acreditando estar numa esplanada; é substituir a proximidade das árvores pela frieza do vidro e do metal.

A esplanada-gaiola da praça de Parada Leitão, iniciativa privada autorizada pela Câmara do Porto, está a acabar de ser montada, e deve estrear ainda em Janeiro. Dizem os seus promotores que respeitaram as árvores, mas ainda assim aplicaram-lhes uma poda correctiva — para elas saberem que doravante, se não puderem evitar crescer, terão de fazê-lo só para cima. A tília aí em baixo está quase encostada às vigas de metal da estrutura: convém pois que o seu tronco delgado e juvenil não engrosse com a idade.

Imaginem, se puderem, como vai ficar a praça: metade estacionamento, e a outra metade ocupada com contentores por entre os quais acenam algumas copas enfezadas. Uma combinação tão indescritível que nem o mais assanhado pato bravo dos subúrbios se envergonharia dela. A diferença é que aqui, no coração do Porto, a dois passos da Torre dos Clérigos, houve arquitectos, urbanistas, comissários e planeadores que juntaram as suas (in)competências para chegarem a isto.

Tília engaiolada — Praça de Parada Leitão, Porto

01/01/2010

Por vezes são os homens que dormem

Rios Cávado, Gerês e Caldo
Nem sempre é Deus. Se no mundo existirem mais uniformes que saias curtas, é porque nesse ano a guerra tem mais venda do que as paixões. E perante isto, procurarás mudar de cidade ou de ano.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (Campo das Letras, 2004)

Albufeira da Caniçada