05/09/2007

Na horta e no jardim

Cardos há muitos e estes, para além dos burros, comêmo-los nós também.

Alcachofras ( Cynara scolymus) no Jardim das Aromáticas de Serralves- Junho 2006

«Le mot [artichaut ], apparu à la Renaissance, est emprunté à son ancien nom arabe (ارضي شوكي Ardhi chaouki aujourdhui الخرشف al-kharshûf) épines de la terre par l'intermédiaire du lombard articioc.» (in Wikipedia fr)

«Not known in the wild, it probably arose from a form of C. cardunculus» (in Plants For A Future )

«It is one of the world's oldest cultivated vegetables, grown by the Greeks and the Romans in the heyday of their power. It was introduced into this country in the early sixteenth century both as a vegetable and an ornamental plant in monastery gardens. » (in A Modern Herbal Artichoke, Globe - Herb Profile and Information )

04/09/2007

Cardos há muitos


Carlina corymbosa / Galactites tomentosa

Os livros sobre plantas que tenho à mão quase não falam de cardos (em inglês thistles): a excepção é um livro sobre flora açoriana escrito em inglês por um alemão. No entanto, o Portugal Botânico de A a Z lista mais de 20 espécies de cardos, desde o cardo tout-court (Galactites tomentosa) ao cardo-santo, passando pelo cardo-amarelo (Carlina corymbosa) e pelo cardo-roxo. O que estas plantas têm em comum são as folhas espinhentas, mas nem sequer pertencem todas à mesma família botânica. Por exemplo, o cardo-marítimo é uma umbelífera, e os dois cardos de hoje são da família Asteraceae, a mesma que inclui margaridas e girassóis. O ostracismo a que os cardos estão sujeitos é outro traço unificador dessa classe heterogénea: ninguém os quer cultivar no jardim, e por isso os livros de jardinagem só os mencionam, quando o fazem, para explicar a melhor maneira de nos livrarmos deles e de outras plantas daninhas. Um cardo pode ser tolerado na natureza - mas mesmo aí não muito, como parte que é daquela massa indiferenciada de plantas a que chamamos mato e que é costume limpar para prevenir incêndios. Em suma, os cardos são plantas que ninguém quer acarinhar, e se eles noutros tempos - quando havia aldeias e tradições rurais - tiveram para nós alguma utilidade, hoje poucos saberão o que fazer com eles. Bom, talvez sirvam de alimento às abelhas. Mas a questão é que não precisamos de fazer nada com eles, pois nem tudo no equilíbrio da natureza se tem que traduzir em nosso benefício imediato. Com jeito, um cardo até se põe bonito para a foto; e, na verdade, ele é bonito. Contudo, esse já é um modo deformado de ver as coisas: como qualquer outra planta no seu habitat natural, um cardo tem o seu lugar na cadeia de tudo quanto existe.

03/09/2007

De volta à cidade

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Fim de tarde no Parque (clicar para aumentar)

Brotero em Coimbra: 21 de Setembro

No próximo dia 21 de Setembro [sexta-feira], às 19h, vai ser apresentada no Botânico de Coimbra, pelo Prof Jorge Paiva, a biografia de Brotero, da Prof. Arquitecta Cristina Castel-Branco. Sou suspeito, mas acho que quem gosta de árvores e de botânica gostará de estar presente.

- informação enviada por José Miguel Júdice -

P.S. Faremos os possíveis para estar presentes, pois esta é sem dúvida uma ocasião a não perder.

01/09/2007

Escallonia «Iveyi»



São cerca de 40 as espécies do género Escallonia (de Escallon, um fidalgo espanhol que acompanhou expedições à América do Sul no século XVIII), nativas do Chile, Brasil, Argentina e Uruguai. São muito resistentes ao vento e há inúmeros cultivares europeus, criados como ornamentais ou para protecção costeira. Segundo o livro The Botanical Garden, de Roger Phillips e Martyn Rix (Macmillan, 2002), o da foto apareceu em Caerhays Castle, Cornwall, nos anos 20 do século passado. É notória a semelhança da folhagem e das flores com as da espécie E. rubra, e foi isso que nos permitiu identificá-la.

No Brasil as escalónias são popularmente conhecidas como esponjas-do-mato. Por que será?

31/08/2007

Dunas de São Jacinto

Já aqui explicámos a peculiar situação geográfica de São Jacinto, freguesia de Aveiro separada pela ria da sua sede de concelho. Não pudemos visitar a Reserva Natural aquando da nossa imprevidente primeira viagem, e por isso voltámos lá algumas semanas mais tarde, dessa vez seguindo a EN 327 desde Ovar. Pouco depois da Torreira - que é a outra localidade, essa pertencente ao concelho da Murtosa, nesta península que se alonga de Ovar a São Jacinto - a reserva começa a acompanhar a estrada pelo lado poente, enquanto do outro lado a ria nunca nos sai da vista. É por isso impossível não dar pela reserva - mas, para que a visita seja compensadora, convém iniciá-la no posto informativo (que fecha aos domingos e feriados). É que, se não seguir o trilho certo, o mais provável é que o visitante não encontre nem o caminho para as dunas nem para a pateira. A reserva é cortada por uma rede de aceiros, amplos caminhos em linha recta que correm uns paralelos e outros perpendiculares à ria. Assim, o risco de alguém se perder é diminuto: basta tomar um aceiro na direcção da ria e em vinte ou trinta minutos reencontra a EN 327.

Serve isto para dizer que não começámos a visita por onde devíamos, mas a sorte ajudou-nos e encontrámos um guia prestável que nos pôs no rumo certo. Antes disso, chegámos a subir à torre de vigia, coisa que os visitantes bem comportados estão impedidos de fazer. Tivemos também ocasião de perceber a gravidade da infestação por acácias (Acacia longifolia), que obriga a desmatações frequentes numa guerra que dificilmente poderá ser vencida. Além das acácias, o coberto arbóreo, essencial para a fixação das areias, inclui muitos pinheiros-bravos, alguns medronheiros, salgueiros, choupos e amieiros, e uma população surpreendentemente abundante de faias-das-ilhas (Myrica faya). Seria interessante saber se a M. faya foi introduzida em São Jacinto, como os pinheiros e as acácias, na época em que a mata foi semeada (entre o final do século XIX e a década de 1930), ou se surgiu lá espontaneamente.



Encontrar o passadiço de acesso às dunas, depois de uma interminável caminhada na mata por um trilho perversamente coleante, é como chegar ao primeiro degrau da escadaria que leva ao paraíso. Começam ali as maravilhas que se vão refinando à medida que subimos, até que no miradouro se cumpre a promessa do mar aberto, rodeado de silêncio e de dunas sem mácula. De início, bordejando o passadiço, há pinheiros, camarinhas (2.ª foto), acácias e uma profusão de pequenas plantas dunares; à vista do Atlântico, na crista dunar (3.ª foto), a vegetação rarefaz-se e fica reduzida ao estorno (Ammophila arenaria). O regresso - inevitável porque o paraíso é para se tomar em pequenas doses - faz-se pelo mesmo viaduto de madeira suspenso por estacas sobre as dunas (1.ª e 4.ª fotos).

30/08/2007

Amor de passarinho


Geranium robertianum (erva-de-São-Roberto)

Desde que mandei colocar na minha janela uns vasos de gerânio, eles começaram a aparecer. Dependurei ali um bebedouro, desses para beija-flor, mas são de outra espécie os que aparecem todas as manhãs e se fartam de água açucarada, na maior algazarra. Pude observar então que um deles só vem quando os demais já se foram.

Vem todas as manhãs. Sei que é ele e não outro por um pormenor que o distingue dos demais: só tem uma perna. (...) Segundo o dicionário, trata-se de «uma ave passeriforme de coloração verde-azeitonada em cima e amarela embaixo». Na realidade, é uma graça, o meu passarinho perneta.

Ao pousar, equilibra-se sem dificuldade na única perna, batendo asas e deixando à mostra, em lugar da outra, apenas um cotozinho. É de se ver as suas passarinhices no peitoril da janela, ou a saltitar de galho em galho, entre os gerânios, como se estivesse fazendo bonito para mim. Às vezes se atreve a passar voando pelo meu nariz e vai-se embora pela outra janela. (...)

Enquanto escrevo, ele acaba de chegar. Paro um pouco e fico a olhá-lo. Acostumado a ser observado por mim, já está perdendo a cerimônia. Finge que não me vê, beberica um pouco a sua aguinha, dá um pulo para lá, outro para cá, esvoaça sobre um gerânio, volta ao bebedouro apoiando-se num galho. Mas agora acaba de chegar outro que, prevalecendo-se da superioridade que lhe conferem as duas pernas, em vez de confraternizar, expulsa o pernetinha a bicadas, e passa a beber da sua água. A um canto da janela, meio jururu, ele fica aguardando os acontecimentos, enquanto eu enxoto o seu atrevido semelhante. Quer dizer que até entre eles predomina a lei do mais forte! De novo senhor absoluto da janela, meu amiguinho volta a bebericar e depois vai embora, não sem me fazer uma reverência de agradecimento. (...)

Desde então muita coisa aconteceu. Para começar, a comprovação de que não era amiguinho e sim amiguinha - segundo me informou o jardineiro: responsável pelos gerânios e pelo bebedouro, seu Lorival entende de muitas coisas, e também do sexo dos passarinhos. (...)

Só de uns dias para cá deixou de vir. Fiquei apreensivo, pois a última vez que veio foi num dia de chuva, estava toda molhada, as peninhas do peito arrepiadas. Talvez tivesse adoecido. Não sei se passarinho pega gripe ou pneumonia. Segundo me esclareceu Rubem Braga, o sádico, costuma morrer de gato. Ainda mais sendo perneta.

Fernando Sabino, As melhores crónicas (Ed. Record - 2000)

29/08/2007

Cores da Aveleda



Agosto de 2007

É em lugares como a Quinta da Aveleda que os olhos reencontram as cores que foram roubadas à cidade. Nas fotos de cima, os arranjos florais incluem Impatiens e Lobelias; na base do muro, há ainda begónias-tuberosas (Begonia x tuberhybrida). Mas na Aveleda podem também admirar-se árvores formidáveis, como as duas faias nas fotos de baixo: a primeira, fotografada há poucos dias com a sua folhagem cor-de-cobre contra o azul do céu, vive rodeada por um maciço de flores; a segunda, ainda despida nos primeiros dias de Abril, deixa entrever ao longe a vinha impecavelmente alinhada; em primeiro plano, vêem-se azáleas e carvalhos (Quercus robur) com a folhagem já a despontar.

A Quinta da Aveleda está aberta aos visitantes todos os dias úteis e também aos sábados de manhã; o ingresso custa 2,5 euros por pessoa, preço que inclui prova de vinhos e de queijos numa sala de estar aconchegante, decorada ao gosto novecentista.



Agosto de 2007 / Abril de 2007

28/08/2007

Saramago-das-areias

- Onde vamos hoje?
- Leva o boné.
- Onde vão os sete quilos de máquinas fotográficas?
- Vamos às dunas.
- Outra vez?... Esta sarda é da semana passada!
- Há sempre novidades. Desta vez leva também protector solar...
- Mas os leitores do blogue já não acreditam que haja mais plantas à beira-mar. Tanta areia...
- ...
- ... e hoje deveríamos ver o filme animado do rato cozinheiro, os jornais aconselham...
- Estas dunas protegidas são refúgio de muitas espécies endémicas; ir lá é como visitar o passado desta costa.
- ... ... ...
- Vem ver isto... Sabes o que é?
- Parece saramago, mas as folhas são carnudas...
- Vês? Eu não disse que haveria surpresa? E se não tivesse trazido a máquina?...
- Há ali outro exemplar, e tem etiqueta: «Coincya johnstonii (Samp.) Greuter & Burdet, falsa-mostarda, Cruciferae». A abreviatura refere-se a Gonçalo Sampaio.
- Vem ver como ficou a foto...
- Demorou dez minutos, deve estar óptima... Vêem-se os estames?
- Há aqui uma sombra... Vou repetir, tenho de ajustar melhor a velocidade...


Coincya johnstonii - Parque das Dunas da Aguda

- ...
- Agora tem uma mosquinha... Foi-se embora, não ficou na foto...
- Esta espécie está identificada unicamente no litoral norte do país, entre a Póvoa de Varzim e a Aguda.
- Eu não disse que encontraríamos algo importante? E se não tivessemos vindo cá? Com a chuva de amanhã lá se iam estas últimas flores e a minha oportunidade de fazer um post fantástico sobre uma planta lusitana e raríssima!
- «Minha oportunidade»?! Sou eu que falo dela no blogue.
- Então não vais ver o filme do ratinho?
- Qual ratinho?

27/08/2007

Portuguese watercress


Agrião (Rorippa nasturtium aquaticum)

Ainda que muito levemente, esta plantinha já fez latejar em mim o peito patriótico. No final da década de 1980 e princípio da seguinte, era eu estudante em Inglaterra (nas Midlands, não em Londres), a necessidade obrigou-me a cozinhar as minhas próprias refeições. Abastecia-me num Sainsbury's, rede de supermercados que cobre o Reino Unido de norte a sul, presente nas High Streets e centros comerciais de todas as pequenas ou grandes localidades. As visitas ao Sainsbury's eram não só necessárias, mas educativas: com tudo cuidadosamente etiquetado, fui aprendendo os nomes dos produtos no vernáculo local sem passar pela vergonha de os apontar com o dedo. Para lá dos nomes, havia outras indicações úteis. Por exemplo, na altura da paranóia alimentar causada por um surto de salmonela, o supermercado sossegava os seus clientes afiançando-lhes que só vendia salmonella-free eggs; e, a somar a essa reconfortante qualidade, os ovos eram British, coisa que as donas de casa muito prezavam. Mas, ou porque a ilha não produzia tudo, ou porque a globalização começava então a impor-se, também se vendiam muitos produtos importados: laranjas espanholas ou israelitas, manteiga neo-zelandesa, mel australiano, bananas sul-americanas... e agrião português. Tirando os vinhos, o agrião foi o único produto nosso que alguma vez encontrei num supermercado inglês. Era o representante solitário da agricultura nacional. Contra a fruta, a hortaliça e os lacticínios exportados por outros países, nós respondíamos com o agrião. Fosse pela qualidade ou pelo preço, esse era um monopólio nosso: nunca vi, nas bancas de verduras do Sainsbury's, outro agrião que não fosse o português. Mas a terrível verdade é que nunca o comprei, pois não saberia o que fazer com ele. O sabor acre do agrião não me entusiasma em saladas ou sanduíches, e usá-lo para fazer sopa (a sopa de agrião pode ser deliciosa) transcendia a minha habilidade. Porém, a fidelidade dos consumidores britânicos ao agrião luso dispensava e dispensa a minha modesta ajuda; por isso acredito que ele continue ainda hoje, e não obstante a sua natural leveza, a ter um peso decisivo na balança comercial luso-britânica.

25/08/2007

A figueira



Não tenho mãos para o azul.
Sonho com o mar
que não está longe mas não vejo
arder.
Só a sombra parece estar em casa
debaixo dos meus ramos:
canta baixinho enquanto se descalça.


Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1988)

24/08/2007

Albarrã-do-Peru


Scilla peruviana

Como se refere aqui, o Cupressus lusitanica Mill. não é, ao contrário do que o nome sugere, uma espécie da flora portuguesa. O autor da designação é Philip Miller (1691-1771) e o engano deve-se ao facto de esta espécie ter sido primeiro identificada na mata do Buçaco, para onde terá sido trazida no século XVII do México ou América Central por colonizadores portugueses (segundo A. López Lillo e J.M.Sánchez de Lorenzo Cáceres em Àrboles en España, ed. Mundi-Prensa, 2001).

Para compensar este erro de taxonomia nada melhor que outro em sentido oposto. E cá está ele: a espécie Scilla peruviana L., a que os espanhóis chamam jacinto-do-Perú e os ingleses star of Peru, não é peruana, embora exista na América do Sul por ter sido ali introduzida e naturalizada por colonizadores europeus. Na verdade o género Scilla, da família Hyacinthaceae, abriga cerca de 40 espécies do Mediterrâneo, e continha algumas poucas da África do Sul que os botânicos transferiram para o género Ledebouria.

A S. peruviana, bolbosa que pode atingir os 40cm de altura, é da região oeste do Mediterrâneo e em Maio-Junho terá recebido em flor os primeiros veraneantes que aportaram ao Algarve; que, de volta a casa, bronzeados e descansados, poderão trazer frutos com numerosas sementes triangulares como lembrança de férias.

23/08/2007

Uma flor ao fundo do túnel



Túnel da Trindade / Papaver sp.

Não se sabe em que data ou em que circunstâncias se começou a manifestar a doença da cromofobia. Certo é que, quando a patologia foi reconhecida como tal, já ela tomara proporções epidémicas, não apenas no Porto, onde se situa o principal foco infeccioso, mas um pouco por todo o país. Esse reconhecimento é, infelizmente, ainda parcial: a corrente ortodoxa do pensamento médico recusa-se a admitir que tal doença exista; ou, aceitando embora a presença da sintomatologia num número crescente de indivíduos, não considera que ela configure um estado patológico. A esse diagnóstico conservador não será alheio o facto de grande número de portadores da doença (que nunca se assumem como tal) serem pessoas de grande influência e prestígio.

O que distingue a cromofobia de outras anomalias do foro ocular é o seu carácter voluntário: um cromófobo escolheu sê-lo e, em teoria, pode deixar de o ser a qualquer momento. Os arquitectos são a classe mais atingida pela cromofobia, a ponto de haver quem queira declará-la doença profissional. Ela manifesta-se pela recusa horrorizada de qualquer cor que não seja o branco, o verde e o sizento. A natureza, na perspectiva mórbida de tais doentes, devia deixar-se de flores e limitar-se ao verde; por isso os jardins tocados pela cromofobia por interposto arquitecto são resignadamente verdes e apenas verdes.

Não existe tratamento conhecido para a cromofobia. Ou talvez exista, mas nunca pôde ser ensaiado. É que, dado o carácter heterodoxo da escola médica que primeiro descreveu a doença, nenhum doente aceitou ainda ser submetido a testes ou terapias experimentais. Contudo, talvez alguma forma de acção directa possa mitigar os efeitos nefastos da cromofobia. A estação da Trindade, a mais importante da rede do metro do Porto, desenhada por um dos primeiros e mais célebres cromófobos, é uma das obras emblemáticas dessa corrente patológica. A estação é toda ela composta por grandes superfícies lisas e monocromáticas; a tapá-la está uma placa com um imenso relvado; e é também um relvado que cobre o declive até à boca do túnel. Mas alguém, preocupado com tão extrema manifestação de cromofobia, semeou nessa rampa algumas dezenas de flores: papoilas, dentes-de-leão, consolidas, malvas e outras que não pude identificar. Ficou o pano verde todo rasgado por cores clandestinas, mas não se sabe que efeito teve nos doentes este tratamento de choque. Poucas semanas depois, uma brigada de cromófobos disfarçada de equipa de jardinagem trouxe o corta-relva e extirpou as cores rebeldes. É possível que a epidemia cromofóbica se continue a agravar. Mas - quem sabe? - talvez ela comece a regredir e este breve episódio seja uma primeira flor ao fundo do túnel.

22/08/2007

Borboleteando nas dunas


Helichrysum picardii

21/08/2007

Calados, a vassourar


Acer negundo - Serralves

Visto de baixo, o arvoredo
é renda verde de luar,
desmanchada ao vento crespo
que à noite regressa ao mar.

Vão passando os varredores;
vão passando e vão varrendo
a terra, a lembrança, o tempo.

E, de momento em momento,
varrem seu próprio passar...

Cecília Meireles, in Mar absoluto e outros poemas (1945)

20/08/2007

O esplendor do desleixo


Luma apiculata - Casa Tait (Porto)

Esta pequena árvore da família das mirtáceas não parece ter designação em português; na sua terra natal (Chile e sudeste da Argentina) chamam-lhe arrayán, palavra que é também um dos nomes comuns da murta (Myrtus communis) em castelhano. A Luma apiculata divide-se geralmente em troncos múltiplos e não sobe acima dos cinco metros. É muito ornamental o seu ritidoma marmoreado em tons de branco e vermelho, efeito causado, tal como nos plátanos, pelo contínuo descascamento do tronco. Alguns livros garantem-nos que ela é frequente em jardins na costa atlântica temperada europeia, mas a verdade é que por cá não conhecemos senão o exemplar da foto. E não foi fácil destrinçar esta árvore do matagal que quase a sufoca: glicínias, áceres, fiteira, fetos, buxo, ligustros - todos se acotovelando numa ânsia de espaço vital que reproduz a genuína lei da selva. Mas isto não é selva: é património municipal; é a mais triste prova do valor (próximo de zero) que a Câmara do Porto atribui aos jardins à sua guarda.

Há quem confunda tamanho desleixo com «romantismo» - e é talvez a ingenuidade de quem assim pensa que permite à Câmara manter os jardins da Casa Tait neste estado vergonhoso. O «abandono» que o verdadeiro romantismo prezava era resultado de uma encenação cuidada; era um «abandono» que nada devia ao acaso e nunca poderia sobreviver à negligência. O que vemos hoje, na Casa Tait e também em boa parte do Palácio de Cristal, é espelho de uma cidade que desistiu de ter brio.

18/08/2007

«There were times...

... when I could not afford to sacrifice the bloom of the present moment to any work, whether of the head or the hands. I love a broad margin to my life. Sometimes, in a summer morning, having taken my accustomed bath, I sat in my sunny doorway from sunrise till noon, rapt in a revery, amidst the pines and hickories and sumachs, in undisturbed solitude and stillness, while the birds sang around or flitted noiseless through the house, until by the sun falling in at my west window, or the noise of some traveller’s wagon on the distant highway, I was reminded of the lapse of time. I grew in those seasons like corn in the night, and they were far better than any work of the hands would have been. They were not time subtracted from my life, but so much over and above my usual allowance. I realized what the Orientals mean by contemplation and the forsaking of works. [... ]»
.
Henry D. Thoreau, in Walden: Or, Life in the Woods (4. Sounds, §2); Shambhala Publications, 150th Anniversary, 2003, p. 96

17/08/2007

Crisântemo-bordado


Spiraea salicifolia

São inconfundíveis os ramalhetes floridos, piramidais ou achatados, nas extremidades dos ramos novos das plantas do género Spiraea, populares como grinaldas-de-noiva. Trata-se de aglomerados de inúmeras flores de cinco pétalas, rosa ou brancas, pequeninas e enfeitadas com longos estames que lhes dão o característico ar farfalhudo. As flores e as folhas da S. salicifolia são perfumadas mas, curiosamente, os aromas de umas e outras são distintos. O exemplar da foto é da Quinta de Sto. Inácio.

Este género tem cerca de cem espécies do hemisfério Norte, com maior variedade na região asiática, todas de folha caduca (e de algumas faz-se saboroso chá), exigindo frio e terra fértil bem irrigada. São especialmente vistosas em maciços ou renques e multiplicam-se facilmente por estacas preparadas no Inverno.

15/08/2007

A ler- "Descansar os olhos na azinheira"

no Público de hoje, por Fernando Catarino

«(...) * Nome científico: Quercus rotundifolia Lam, família Fagaceae. A história de Fátima está indelevelmente ligada a esta árvore, que, ao tempo das aparições, era muito abundante na Cova da Iria.
Em plena paisagem cársica, junto ao rebordo norte do planalto de São Mamede, há uma sucessão de afundamentos no relevo, pequenas depressões fechadas, de fundo abaulado, de onde veio o nome "cova". Estas covas opõem-se a estruturas semelhantes mas mais extensas e aplanadas, os "covões", que se encontram junto de diversas povoações com a mesma denominação.
Não faltavam, na Cova da Iria, penedos e locais para as brincadeiras, havendo pasto fresco todo o ano, pelo que os pastorinhos gostavam de lá levar o gado. Apesar da aridez da serra, a Cova da Iria tem um clima mais húmido do que o restante Maciço Calcário, devido às chuvas e à humidade dos ventos tocados de norte.
(...)
Do ponto de vista botânico, as azinheiras pertencem a um grupo de árvores com uma vastíssima distribuição biogeográfica e grande diversidade, agrupadas sob o nome comum de "carvalhos". Trata-se de vegetais com grande interesse científico que caracterizam bem as peculiaridades edafo-climáticas e a ecologia de muitas paisagens no hemisfério norte.
De grandes longevidade e dimensões, dada a excelência da sua forma arbórea, a riqueza de utilizações e o valor económico, estas árvores são marcas notáveis dos locais e das paisagens em que ocorrem. Não admira, por isso, que façam parte integrante da memória e da história cultural dos povos que sempre lhes votaram destacado lugar nas lendas e na literatura.
Ricas de simbolismo, a ponto de, em várias civilizações antigas, terem tido o estatuto de árvores sagradas, as quercus, o nome que os romanos davam aos carvalhos, merecem, só por si, ser protegidas e ter a sustentabilidade dos habitats em que ocorrem assegurada.

Foi, decerto, uma bênção que, nas repetidas e vultuosas obras de adaptação e modernização do recinto do santuário, tenha sido possível poupar a belíssima
"azinheira grande" , junto à Capelinha, recentemente considerada de "interesse público". Com ou sem peregrinos à volta , faça o tempo que fizer, é sempre reconfortante descansar os olhos em tão formoso padrão vivo, testemunha e memória da harmonia ambiental do sítio e do tempo dos pastorinhos.

*Excertos da entrada "Azinheira", da Enciclopédia de Fátima, Ed. Principia; selecção de textos de António Marujo»
..................
Ler excertos de "Pastoral" (1º quadro) e "A Flor da Azinheira" (2º quadro) de O mistério de Fátima entrevisto, visionado e contado em alguns poemas por António Correia de Oliveira, 1954