28.2.07

Camellia japonica "Portuense"



São as folhas, e não as flores, o que mais nos atrai nesta japoneira do jardim da Faculdade de Arquitectura do Porto. As flores são um bónus temporário, mas a folhagem verde e amarela garante que o valor ornamental da árvore não diminui ao longo do ano. Camélias com uma tal folhagem (dita variegada) são raras mesmo no Porto - onde não o deveriam ser, pois, de acordo com o livro O Mundo da Camélia, o nome desta variedade é precisamente "Portuense". Mas, além de asseverar a sua origem portuguesa, o livro, que não menciona outra C. japonica de folhagem bicolor, nada acrescenta sobre a data ou local da sua criação.

Por falar em camélias no Porto, aqui vai uma grande notícia: nos dias 10 e 11 de Março (sábado e domingo) decorrerá, no Palácio do Freixo, uma exposição de camélias organizada pela Câmara Municipal do Porto e pela Sociedade Internacional de Camélias. Uma óptima ocasião para visitarmos um local que tem estado encerrado ao público enquanto vamos espreitando as nossas flores favoritas. Atenção: seguindo a ordem usual nestes eventos, o recinto só está aberto aos visitantes a partir das 14h00 de sábado. Em paralelo à exposição, haverá actividades para crianças, uma amostra bibliográfica e filatélica, venda de camélias envasadas, e demonstrações práticas sobre cultivo de camélias por jardineiros da Câmara.

27.2.07

II Ancient Camellias International Meeting


De 1 a 7 de Março na Ilha de S. Miguel - Açores

Freixo de Vermoim


Fotos de Juan Pombriego enviadas por Inês Ramos Neto (um autêntico trabalho de equipa! obrigadinha Tiné ;-)
Hoje publicam-se as imagens do velhinho freixo de Vermoim, na Maia, árvore que terá sido plantada há mais de meio milénio pelos monges do mosteiro local, e que foi há cerca de um mês alvo da atenção dos media. Entre outras coisas, ficou então a saber-se que estaria a ser elaborado um pedido para a sua classificação como árvore de interesse público. Mais vale tarde do que nunca! Mas não deveriam as árvores monumentais (ou suas descendentes) que figuram nas armas das localidades ou que estão de algum modo ligadas às tradições locais, ficar "automaticamente" abrangidas por este diploma legal?

Ver outras árvores monumentais

"Videoteca inaugurada"

Interessante a ideia, e os primeiros vídeos escolhidos para uma videoteca que reunirá "documentos vídeo de alguma forma relacionados com o planeamento e a gestão dos espaços verdes das grandes cidades" > ver Jardinar com vídeo no jardinando sem parar

Gostei especialmente de descobrir os Friends of the High Line

26.2.07

Leucojum aestivum



Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...

É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.


Alberto Caeiro

24.2.07

Manhattan nas Antas


Torre das Antas

Empurrado pelo Euro 2004 e pelos superiores interesses do nacional-futebolismo, o Plano de Pormenor das Antas (PPA) quis converter uma zona de moradias, aqui e ali pincelada com o verde de antigas matas, numa miniatura portuense de Manhattan. Anterior ao próprio PPA, a guarda-avançada dessa brutal transformação foi a famosa torre das Antas, construção de duvidosa legalidade amplamente acarinhada pelos poderes públicos: além de ser sede da Metro do Porto, é lá que funciona a única Loja do Cidadão da cidade.

Do que o PPA previa já se construíram o estádio, o centro comercial e algumas das torres habitacionais; esperam-se 8000 novos moradores quando a urbanização estiver concluída. Para servir tais moradores e os restantes utentes da zona - 5000 trabalhadores do comércio e serviços, a que acrescem os frequentadores do centro comercial e do estádio -, o PPA prometia um espaço verde público de 10 hectares, o chamado Parque Verde das Antas. Isto dá 12,5 m2 por habitante, o que, não sendo generoso, é todavia razoável para os padrões nacionais. Tal como Manhattan tem o seu Central Park de 340 hectares, também a nova cidade das Antas teria um parque à correspondente escala miniatural.

Mas já vamos em 2007, e nas Antas o único novo espaço verde aberto ao público - ainda assim de acesso reservado - é o relvado do estádio do Dragão, que não tardará a soprar as velas do seu terceiro aniversário. Dos milhões investidos em betão, parecem não ter sobrado sequer uns trocos para o mirífico Parque Verde das Antas, designação entretanto caída no esquecimento. A mancha verde que se avista a norte da alameda das Antas - e que deixará de se avistar quando se erguer a cortina de prédios de que já se vão escavando os alicerces - deveria integrar o prometido parque: trata-se da Quinta dos Salgueiros, propriedade em estado de ruína actualmente na posse da Câmara Municipal do Porto.


Quinta dos Salgueiros

A Quinta dos Salgueiros já conheceu períodos de glória: foi residência de Jacinto de Matos, um dos maiores jardineiros-paisagistas portugueses da primeira metade do século XX, que aí teve as suas estufas e os seus viveiros ao ar livre. No livro Jardins Históricos do Porto (Ed. Inapa, 2001), Teresa Andresen e Teresa Portela Marques enumeram alguns dos jardins e parques projectados por Jacinto de Matos em todo o país: Parque de S. Roque, Casa das Artes, jardim da Ordem dos Médicos (à Arca d'Água), Parque da Curia, Parque das Pedras Salgadas, espelhos de água dos jardins da Presidência do Conselho de Ministros, etc.

Os muros escalavrados e a mansão a cair de podre da actual quinta nada deixam adivinhar desta história. Do antigo arvoredo, sobrevivem ainda camélias, pinheiros, cedros, ciprestes-do-Buçaco, bétulas, Prunus, magnólias, grevíleas, carvalhos-americanos e uma imponente faia - mas, se não houver uma intervenção regeneradora, todas as árvores estão condenadas a prazo pelo avanço da vegetação daninha.


Quinta dos Salgueiros

23.2.07

Jardins de inferno

espaços onde custa respirar


"Poda" de plátanos em Lagoa, freguesia de Aboim, concelho de Fafe (fotos de Alexandre Leite)
.
Em 1875 (sim, leram bem: 1875!), José Duarte de Oliveira Júnior, a propósito do que apelidou "hecatombe de 23 de Fevereiro", escrevia:
«Supomos que não haverá ninguém que, por mero divertimento ou para matar o tédio, tome da pena como arma ofensiva e venha para a imprensa agredir um indivíduo ou ofender uma corporação. Quem tal fizesse teria dado provas da baixeza do seu carácter ou da perversidade do seu talento.
Esta é a nossa maneira de pensar, esta a nossa maneira de proceder. Censurar não é atacar violentamente e quando censuramos é com maior pesar e por vezes com a máxima repugnância, porque a nossa aspiração constante seria elogiar sem sair dos limites do justo.

Há todavia certos factos perante os quais é quase uma vergonha o silêncio. O que ultimamente tem sucedido com a jardinagem portuense* está clamando não diremos vingança, mas um protesto selene. É o que fazemos: protestamos. Julgamos isso um dever.
A jardinagem de uma cidade é um ramo importante do serviço público e deve merecer todo o cuidado da câmaras municipais. O vereador encarregado deste pelouro não deve ignorar tão completamente os rudimentos de horticultura que deixe praticar as maiores arbritariedades ao pessoal que lhes obedece. Quando o município não tem empregados peritos e suficientemente ilustrados, é necessário que o director do pelouro tenha o senso comum suficiente para consultar as pessoas entendidas e deixar-se guiar pelos seus conselhos. p. 97(...)
Veja-se quanto não pode a ignorância e os entendimentos de verdadeiros vândalos! Muito de propósito, para que os vindouros possam avaliar os actos de selvajaria que se praticavam nos fins do século XIX na ditosa pátria minha amada, mandamos fazer estes desenhos, que falam mais ao vivo do que qualquer minuciosa descrição. Em face deste vandalismo poderíamos realmente ficar silenciosos? p. 99
(...)»
José Duarte de Oliveira Júnior, “Crónica Hortícola-agrícola”, Jornal de Horticultura-Prática, Vol. VI, 1875 (ler versão on line > imagens 55 e 56 )

NB *Substituir portuense pelo gentílico correspondente à localidade onde continuam a ser praticados impunemente os actos de selvajaria que este blogue, e este, e este , e este (entre outros) têm vindo a denunciar.

22.2.07

Magnólias no Dias com Árvores

Photobucket - Video and Image Hosting
Magnólia da praça da Liberdade -clique para aumentar (mais fotos)

Nota: estas são as de folha caduca; ver as outras aqui

21.2.07

Cebolinhos


Ornithogalum caudatum

As janelas dos que a tempo plantaram os seus bolbos estão agora coloridas por belos jacintos (Hyacinthus orientalis) cor-de-rosa, roxos ou brancos, plantas com folhas basais espessas e inflorescências cilindricas de numerosas flores perfumadas. De floração temporã e duradoura, muito apreciada na Europa, os jacintos vieram com as tulipas da Turquia no século XVI. Nas nossas hortas em descanso aparecem duas irmãs menos famosas, nativas da região mediterrânica e cuja folhagem suculenta é bom substituto dos aspargos: a Ornithogalum caudatum, herbácea rizomatosa que aprecia o frio e cujas flores brancas, com uma pincelada verde no dorso de cada pétala, se arranjam em espigas erectas como caudas de gato; e a Ornithogalum arabicum, conhecida como pérola negra ou estrela-de-Belém, de folhas ensiformes e inflorescências em corimbo de flores com um centro escuro.


Ornithogalum arabicum

Outra hyacinthaceae

20.2.07

Branco branco branco




Para não mudarmos de cor, são brancas também as magnólias de hoje: as de cima são vizinhas do Mosteiro de Leça do Balio, vivem numa propriedade que pertenceu ao notável e multifacetado engenheiro Ezequiel de Campos (1874-1965), e terão sido plantadas por ele mesmo; as de baixo compõem uma alameda à entrada do cemitério de Agramonte. Servem de alerta aos mais distraídos para a urgência de revisitar algumas das nossas árvores favoritas: na rua de Aníbal Cunha, no largo Primeiro de Dezembro, na praça da Liberdade.

19.2.07

Magnólia monumental - Casa da Ínsua

.





A julgar pelas do Porto, a magnólia monumental dos jardins da Casa da Ínsua deverá estar no auge da sua floração (e o mesmo será de esperar das camélias).
Agora, quem quiser, poderá ler on line (Fundo Antigo - FCUP> ) a descrição de José Marques Loureiro, publicada em 1890, no Jornal de Horticultura Prática, destes jardins e matas verdadeiramente notáveis pela beleza, porte e antiguidade dos seus espécimes. Esta magnólia - que curiosamente não é por ele referida - ostenta *uma placa com a data de 1842!

Ou pelo menos ostentava quando tirei estas fotografias no ano passado em Março, por ocasião da memorável visita às camélias da Beira Alta, organizada pela secção portuguesa da Sociedade Internacional das Camélias > .

Anterior no Dias com árvores: Grandeza e graça
Post dedicado

16.2.07

Umbilicus rupestris



Como grande barriga que é, a Terra tem naturalmente muitos umbigos a embelezá-la. Na zona mediterrânica, e apenas como moda de Outono/Inverno, ela usa estes umbigos-de-Vénus, plantas rasteiras da família Crassulaceae que entre nós se conhecem como sombreirinhos-dos-telhados. As folhas suculentas, em formato de roseta, exibem uma depressão central no ponto onde estão ligadas ao caule, e secam quando surgem as flores - que, claro, são estrelas verdes.

15.2.07

A florir num semáforo perto de si


Teucrium fruticans

- O senhor quer então fotografar esse arbusto, e por isso continua agachado na passadeira apesar de o semáforo já ter mudado de cor umas quatro vezes. Admito que queira procurar o melhor ângulo, sob pena de a foto não fazer jus ao seu objecto - e sem dúvida que bem a meio da faixa de rodagem é o local mais apropriado para o fazer. Mas não acha que já demorou demasiado?

- Ora bem, sabe como são estas máquinas
reflex
. Se quisermos aproveitar todas as suas potencialidades, temos que regular manualmente a profundidade de campo, o tempo de exposição, essas coisas. E agora que o senhor me distraiu vou ter que recomeçar tudo do princípio.

- Peço muita desculpa por o incomodar; faça de conta que não estou cá. Entretanto, já que tão cedo não poderei avançar, aproveito a oportunidade e saio do carro para admirar de perto este belo canteiro.


Este um diálogo que, imagino, seja frequente na mítica Europa do Civismo lá para as bandas do círculo polar árctico. Isto se por lá houver, como no Porto, canteiros floridos a enfeitar semáforos e separadores centrais, que é onde se refugiaram as flores na cidade depois de terem sido expulsas dos jardins. Como se sabe, em Portugal em vez de civismo o que temos é pressa: os peões correm para fugir dos automóveis; os automobilistas, sempre atrasados, correm para apanhar o vermelho ainda fresco (um vermelho com menos de cinco segundos é moralmente verde).


Teucrium fruticans

Assim, e uma vez que também o encontrei nos jardins do Palácio de Cristal, não foi junto aos semáforos do Campo Alegre que fotografei, com risco da própria vida, o arbusto que aqui trago hoje. Sobre ele não tenho muito a dizer: o nome científico é Teucrium fruticans, pertence à família Labiatae (como deixam adivinhar as flores semelhantes às da Salvia, outro género da mesma família), e é nativo do sul da península Ibérica; as folhas são penugentas, verdes-esbranquiçadas por cima e brancas por baixo, o que confere ao arbusto uma bonita cor pálida e justifica o nome comum de mato-branco.

14.2.07

Corações leves

...
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

Eugénio de Andrade, Escrita da Terra (in Ostinato Rigore, 1964)



Koelreuteria paniculata - Jardim Botânico de Coimbra

Os corações da foto, que parecem feitos de papel, vão enrubescendo e ganhando brilho até se abrirem em três abas, cada uma com sua semente redondinha e escura. As flores desta sapindaceae, masculinas e femininas juntas, são amarelas com um centro vermelho e formam panículas piramidais muito vistosas. Chegam no Verão, tempo propício às paixões. Como estas, a folhagem nova, primaveril, é cor-de-rosa, passando depois por um verde lustroso e amarelecendo no Outono - a designação em inglês para esta espécie é apropriadamente golden rain tree. O nome deste género originário da China é dedicado a Joseph Gottlieb Koelreuter (1733-1806), naturalista alemão que fez numerosos testes com híbridos da planta do tabaco, atento aos mecanismos de fertilização e polinização, para confirmar experimentalmente a sua teoria sobre a sexualidade das plantas.

Publicidade cordial


© FPC .............clicar para aumentar
.

12.2.07

Maiores não se fazem



Alberto Rocha, que conhecemos na noite de lançamento do livro, bem nos tinha dito, abrangendo com um gesto a ampla sala onde tinha decorrido a sessão: ela não cabe aqui dentro. E no passado sábado, quando visitámos o jardim da Sra. Joaquina Moreira, no lugar de Crasto, em Perosinho (Gaia), as expectativas ainda foram ultrapassadas: esta Camellia japonica é de facto um portento, levando de vencida, na amplitude da copa e na espessura do tronco, outras japoneiras descomunais como as da Quinta da Aveleda e do Prado do Repouso aqui apresentadas. Para nosso embaraço, e como esta campeã dá flores de uma variedade diferente, a descoberta obriga-nos a emendar a teoria então formulada, que fica agora assim: as pompónias são vice-campeãs.

Uma particularidade da árvore é que a sua base está soterrada, fazendo-a parecer mais baixa do que na realidade é. Estando ela situada em terreno inclinado, o solo tinha tendência a deslizar, deixando-lhe as raízes a descoberto; construiu-se por isso à sua frente um muro de 76 cm de altura, formando uma espécie de caldeira que depois se encheu de terra.



Numa altura em que recrudesce a curiosidade internacional pelas monumentais camélias portuguesas, uma árvore como esta não poderia continuar indefinidamente no anonimato. Clara Gil de Seabra, directora da secção portuguesa da Sociedade Internacional das Camélias, visitou-a em 2003 e sobre ela publicou, no mesmo ano, um artigo no International Camellia Journal. Tendo em conta as medidas que encontrou (13,15 m de diâmetro da copa; 5,18 de perímetro na base do tronco; 3 m de PAP), Clara Gil «compara favoravelmente» esta camélia com outras consideradas muito antigas com base apenas no tamanho: as de Campo-Bello (em Gaia), a da Quinta da Aveleda, e uma outra já morta em Vila Boa de Quires (que tinha também 13 m de diâmetro de copa). Interpretamos este comparar favoravelmente como significando que esta é pelo menos do tamanho das outras, se não for maior. Apesar disso, Clara Gil atribui-lhe uma idade provável máxima de 200 anos, quando das camélias de Campo-Bello se chegou a escrever terem quase 500. O problema é que a entrada oficial das camélias no nosso país ocorreu apenas há dois séculos; e, na falta de documentos e de datações cientificamente rigorosas, não se pode tomar o tamanho destas árvores como prova indiscutível de antiguidade, pois é certo que as camélias no norte de Portugal crescem mais e mais depressa do que noutros países europeus e até do que na sua região de origem (China e Japão).



Seja qual for a sua verdadeira idade, foram já inúmeras as gerações que conviveram com esta árvore. A Sra. Joaquina Moreira, que sempre a conheceu deste tamanhão, conta que em 1930, por causa de um ciclone, o tronco pareceu inclinar-se e teve que ser escorado com um pilar de granito. Quando se quis remover o pilar, em 1993, não houve outra solução se não quebrá-lo, pois o seu topo tinha-se incrustado no tronco, onde ainda hoje se mantém. Há alguns anos, a vida da árvore voltou a correr perigo: sem se saber porquê, as folhas começaram a amarelecer e os ramos a secar. Lembrando-se do que lera num livro de jardinagem, a Sra. Joaquina atribuiu a moléstia à prática de regar a árvore com «água choca», como então se fazia às couves no quintal. Supensa a nefasta dieta, a árvore recuperou rapidamente a saúde. Mas a Sra. Joaquina não tem dúvidas, pela sua experiência, de que o que matou a árvore de Vila Boa de Quires foi terem construído uma vacaria mesmo ao lado.

9.2.07

Vidas curtas

Na caricatura corrente, uma vida em pleno define-se pela consumação de três actos: deixar descendência, publicar um livro e plantar uma árvore. Não se sabe se a repetição de um deles pode compensar a falta de algum dos outros dois. Cada um dos três actos traduz um modo, quiçá ingénuo, de nos irmos da lei da morte libertando: ou pela memória dos familiares, ou pela inscrição do nome na capa de um livro, ou pela árvore que atravessa gerações.

A realidade, como sempre, é mais complicada. No rodopio das novidades livreiras, a imortalidade da letra impressa, para o comum dos esperançosos autores, não vai além das três ou quatro semanas; enterrados em armazéns, os livros ressuscitarão esporadicamente por ocasião das feiras, até que o pó do esquecimento os cubra de vez. Para o autor, se a sua editora cumpriu o preceito do depósito legal, restará o consolo de encontrar o seu nome no catálogo da Biblioteca Nacional.

A árvore, embora mais duradoura, útil e memorável do que a maioria dos livros, está sujeita a contingências que muito lhe encurtam a esperança de vida. Uma delas, que nos últimos anos tem estado sobremaneira activa no Porto, chama-se requalificação urbana: caracteriza-se por uma instabilidade crónica do cenário citadino, causada por requalificadores com uma ânsia neurótica de mudança igual à que aflige donas de casa ricas e desocupadas. Árvores que não encaixem no mais recente figurino, quais peças de mobiliário démodées, entram na dança dos abates e transplantes. Veja-se o caso da praça da Batalha: em 2001, à frente da escadaria da Igreja de Santo Ildefonso, abriu-se amplo terreiro de granito; mitigando a monotonia estéril da pedra, foram plantados, em dois canteiros laterais, quatro liquidâmbares e uma variedade de pequenos arbustos. Insatisfeitos com o arranjo de há meia-dúzia de anos, eis que regressam à cena os afanosos requalificadores: um dos canteiros já não existe, e com ele sumiram duas das quatro jovens árvores; seis anos foi o prazo de vida que lhes foi concedido.



Dir-se-á então que, em Portugal, quem quiser «perpetuar-se» numa árvore deverá, se puder, fazê-lo num recanto privado e não em espaço público. Mas os jardins privados nos bairros mais acolhedores do Porto (Campo Alegre, Gomes da Costa) não têm sobrevivido à mudança de gerações. Os novos ocupantes, insensíveis ao privilégio de serem proprietários de árvores adultas, mandam de pronto cortá-las, com o aval da Câmara, para que elas não atrapalhem as obras de reconstrução. Para lá dos muros da rua D. João de Castro, mesmo em frente a Serralves, são cada vez mais esparsas as silhuetas de árvores: em poucos anos, vi desaparecerem araucárias, pinheiros, lodãos, salgueiros e magnólias. À lista de baixas na vizinhança junta-se agora um rododendro no largo de D. João III: tão alto como a casa que embelezava, vivia onde agora assenta o guindaste, e era dos mais bonitos que alguma vez vi.

8.2.07

Abelhudos

Foi com o coração palpitante que seguimos o exemplo das numerosas abelhas, atraídas como nós pela floração perfumada desta Dombeya. É que o acesso ao terraço onde ela vegeta é proibido, mas não conhecemos outro exemplar à mão de fotografar.


Dombeya wallichii ...ou... D. x cayeuxii

O género Dombeya inclui cerca de 250 espécies, sobretudo africanas. Mas não sabemos como classificar esta malvaceae uma vez que as espécies D. wallichii (de Madagascar) e D. x cayeuxii (de Lisboa) são muito semelhantes, tendo esta última brácteas menores e estames com penugem. Ambas sobrevivem a longos períodos de estiagem e podem atingir uns 7 metros de altura. As folhas são grandes e aveludadas, cordiformes, com as margens levemente dentadas e hábito pendente. As inflorescências são globosas, de longo pedúnculo, com flores cor-de-rosa de cinco pétalas.



Dombeya celebra o trabalho do naturalista francês Joseph Dombey (1742-1795), que nos anos setenta do século XVIII visitou a América do Sul com a intenção de colher plantas adaptáveis ao clima francês e aí acumulou informação valiosa sobre a flora peruana e chilena. Mas coleccionou também muitos dissabores, com ladrões e alfândegas, na expedição para a Europa das amostras por si recolhidas.

O epíteto wallichii homenageia o dinamarquês Nathaniel Wallich (1786-1854), que foi director do Jardim Botânico de Calcutá, onde coligiu um catálogo de mais de 20000 espécimens, e autor de Tentamen Flora Nepalensis Illustratae e Plantae Asiaticae Rariories; durante vários anos, foi ainda o responsável - muito bem sucedido - por empacotar e enviar sementes viáveis para Inglaterra.

Cayeuxii refere-se a Henri Cayeux, horticultor francês que foi jardineiro-chefe do Jardim Botânico de Lisboa de 1892 a 1909 em substituição de Jules Daveau, que o recomendou. São de sua lavra vários híbridos de grande valor ornamental, incluindo a Dombeya x cayeuxii que se crê ser cruzamento entre D. wallichii e D. burgessiae. Oficialmente a floração da D. wallichii começa no Inverno (daí o seu nome vulgar Christmas roses), a da D. burgessiae na Primavera e a do híbrido D. x cayeuxii na época intermédia, o Outono.

Ironicamente o híbrido mais famoso é a Dombeya burgessiae 'Rosemound', que nunca foi distribuída e desapareceu com o furacão Andrew em 1992.

7.2.07

Vida

.

bolota de Quercus coccifera (Arrábida 2001)

Do que a vida é capaz!
A força de um alento verdadeiro!
O que um dedal de seiva faz
A rasgar o seu negro cativeiro!

Ser!
Parece uma renúncia que ali vai,
É um carvalho a nascer
Da bolota que cai!


Miguel Torga Diário II

立春 lìchūn

De acordo com o calendário tradicional agrícola chinês > a Primavera começou no dia 4 ;-)

5.2.07

A oliveira da discórdia

A milagrosa e bem amada Oliveira da Praça tornou-se num pomo de discórdia entre o Presidente da Câmara Municipal, que quis arrumá-la para um canto, junto à Rua de S. Maria («tornando-se indispensável ao acabamento do calcetamento a remoção desta árvore e sua cercadura»), e o Prior da Colegiada, que insistia que o «Cabido não pode, nem deve consentir na intentada remoção». Para impor a sua vontade, a Câmara teve que recorrer ao último recurso: a expropriação pública, que deu entrada na Secretaria do Reino em Junho de 1871.

Na sua representação, a Câmara argumentava que a Oliveira só tinha estado lá 45 anos, sendo ela estaca da grande e levantada oliveira que vinha documentada desde 1662, mas cujas origens remontavam a tempos mais remotos.
«Diz que a oliveira é um obstáculo ao trânsito mas falta-se aqui à verdade porque de um e de outro lado dela há um espaço suficiente para o trânsito tanto a pé como em carros, e com efeito, existindo sempre ali a oliveira desde a mais remota antiguidade, nunca ninguém se queixou.» O Cabido apelou ao Rei, advertindo «que o público muito há-de sentir se vir arrancar a Oliveira que a Câmara quer expropriar. É tal a veneração por ela que as pessoas da cidade e seus subúrbios, quando vão para o Brasil, cortam um ramo da Oliveira e levam-no consigo; e, no dia 15 de Agosto, dia em que se festeja Nossa Senhora, os mesários e irmãos assistem à festa tendo cortado um ramo da sobredita oliveira.» O inquérito denegou a expropriação por não ter provado «concludentemente a utilidade de expropriação ou dificuldade de trânsito, que se tomou como fundamento dela, e são desmentidos pelos documentos juntos aos autos».

O que não se conseguia fazer por meios legais tentou-se fazer por traiçoeiro golpe de machado. «No dia 09-02-1870, às duas horas da madrugada, foi derrubado o polígono que circundava a oliveira»; tentativa frustrada pelo ajudante de sacristia, que, «ao ouvir o bater das alavancas, disse "lá vai a oliveira c'os diabos" e foi tocar o sino a moribundo. Os pedreiros, logo à primeira badalada, cuidando que iam tocar a rebate, fugiram e alguns deles adoeceram com o susto». O autor moral do crime, o Presidente da Câmara, teve de se recolher na casa do escrivão, sendo vaiado pelo mulherio. A segunda tentativa de arboricídio resultou. «A célebre oliveira da Praça que andava nas asas da fama em razão do conflito que se havia levantado entre o Cabido e a Câmara de Guimarães, apareceu na madrugada de quarta-feira separada do tronco» [O Vimaranense, 13-11-1872]. Mais tarde, com licença camarária, tentou-se reimplantar outra oliveira, no lugar indicado.
«A nova árvore já não encontrava no humo da terra aquela seiva espiritual que fez, durante séculos, venerável e sagrada a Oliveira da Praça. Razão porque a nova oliveira não pegara.»

Anthony Kinnon, Guimarães século XIX - de Vila a Cidade (ed. do autor, 2006)
[extracto enviado por Alexandre Leite]

Outra oliveira em Guimarães

3.2.07

Pão do deserto

Lê-se na Bíblia, no Livro do Êxodo, versículo 31, que «os filhos de Israel se alimentaram no deserto por quarenta anos» de uns bolinhos feitos com maná, substância branca que se parecia com a semente de coentro e tinha sabor a mel - ou, miraculosamente, o sabor que se desejasse. É controversa a identificação deste produto, mas parece certo que se trata de uma resina açucarada, que solidifica em torrões de um pó branco, libertada por folhas ou troncos de algumas plantas quando picadas por insectos ou feridas de qualquer outro modo. Entre elas o freixo, que a segrega naturalmente nos meses quentes, e a tamargueira (Tamarix mannifera), que abunda em regiões áridas ou semi-áridas do Egipto e do Irão. Colhido de madrugada, antes que o sol o derreta ou as formigas o devorem, é ainda hoje suplemento alimentar para tribos nómadas do deserto do Sinai (e mesmo ingrediente turístico vendido pelos beduínos). É possível que a famosa ambrosia que deliciou os deuses gregos seja também este maná, produzido por espécies mediterrânicas de tamariz.

Aparte esta lambarice, os pés de tamariz são também úteis para estabilizar solos arenosos e como abrigo junto ao mar - por isso são opção frequente na arborização dos bordos das nossas ventosas praias nortenhas. Mas a folhagem em filigrana e a atraente floração em espuma cor-de-rosa, feita de flores pequeninas de uma só bráctea e quatro a cinco pétalas, só se revelam harmoniosas se crescerem protegidas do vento. É que nesta espécie as extremidades dos ramos, e só elas, são de folha caduca e, com o vento, tendem a quebrar, deixando a copa despida e descabelada.

1.2.07

Parsifal

melrofoto e texto © MLR
Melro num tamariz

«Encontro-me com o melro às 7 e dez da manhã, na Avenida do Brasil. Desde há muitas semanas, espera-me sempre num galho descarnado que sobra, bem mais alto, dum arbusto, apontado ao mar. Ouço-o antes de o ver. Já tentei fotografá-lo, mas é ainda muito escuro. Trina como um profissional. Entremeia agudos e graves com toda a elegância e por vezes, como se lhe falhasse a voz, gorjeia como um meso-contralto. Mas está ali, mancha negra de bico amarelo, senhor do mar e das redondezas, cantando à beleza da vida, cabecita voltada para o céu como se apontasse uma estrela, no seu diálogo com o Criador. E eu julgo perceber o seu canto de alegria, de plenitude. Que está frio, muito frio e que ele só tem as penas negras do Inverno e o calor da sua voz. Que amanhã poderá estar mais frio ainda e que poderá partir para longe do mar em direcção à sua estrela, num começo de eternidade. Mas há-de continuar a gorjear o seu hino à beleza da vida, à alegria de estar vivo num dia belo como o de hoje sem se interrogar sobre esta banalidade do viver.

Isto foi há dias. Hoje ainda ia com esperança de voltar a encontrar-me com o meu Caruso pois tem falhado o nosso encontro. Temo que as últimas noites de zero graus lhe tenham calado o pio: penas negras em repouso com um traço amarelo num ninho escondido. Será a última fotografia dele que te envio ?»