31.3.08

Flor-de-alecrim


Rosmarinus officinalis

....Março voltou, esta
....ácida loucura de pássaros
....está outra vez à nossa porta,
....o ar

....de vidro vai direito ao coração.
....Também elas cantam, as montanhas:
....somente nenhum de nós
....as ouve, distraídos

....com o monótono silabar do vento
....ou doutros peregrinos.
....Já sabeis como temos ainda restos
....de pudor,

....e pelo mundo
....uma enorme, enorme indiferença.

Eugénio de Andrade, Branco no branco (1984)

30.3.08

Festa de Camélias em Celorico de Basto

Durante três dias, com início nesta sexta-feira, dia 4 de Abril, Celorico de Basto celebra a sua V Festa Internacional da Camélia.

O primeiro dia é preenchido com o colóquio A paisagem, os jardins de camélias e o turismo, que tem abertura às 9h30 e se prolonga até às 18h30. Destaca-se a intervenção de Aurora Carapinha, que de manhã, às 10h30, falará sobre O jardim na cultura portuguesa.

É no sábado, às 15h00, que abre ao público a exposição-concurso de camélias. Em paralelo, há uma exposição de fotografias e um mercado de venda de camélias envasadas. A tradicional tertúlia começa às 17h30: inclui a projecção de um filme sobre os jardins de camélias de Celorico de Basto e intervenções de Ilídio de Araújo, Fernando Mangas Catarino e Clara Gil de Seabra, entre outros.

No domingo, dia em que a exposição permanece aberta ao público, há visita guiada aos jardins de camélias do concelho, seguida de um almoço (a 25 euros por pessoa) no Solar do Souto. Tanto o passeio como o almoço exigem inscrição prévia (tel. 255320250 ou 255323100).

O programa completo da festa pode ser consultado aqui.

29.3.08

Soror Mariana


Stauntonia hexaphylla

A estufa menor do Jardim Botânico do Porto é um recanto a que só os jardineiros têm acesso, apinhado com pequenas plantas envasadas e de onde arbustos mais ousados se esgueiram por rombos ou algerozes para ver o mundo para lá da clausura. Esta trepadeira graciosa e frágil, exemplar feminino de Stauntonia hexaphylla, acenou-nos há dias do seu convento com umas flores brancas tingidas de violeta e um intenso aroma doce. É uma espécie dióica (flores masculinas e femininas em plantas distintas), diferindo as flores essencialmente no centro: as femininas exibem três ovários, as masculinas têm 6 estames unidos numa coluna (para ver cada imagem na nova página, faça enter na barra de endereços). As folhas palmadas, com 3 a 7 folíolos, assemelham-se às da Akebia quinata e foi esse detalhe que nos permitiu identificá-la. Se algum exemplar masculino vier inquietá-la no seu retiro, esta planta do Botânico produzirá frutos ovais com sabor a mel, carnudos, de casca roxa quando maduros e com cerca de 5 cm de comprimento.

O género Stauntonia abriga cerca de 20 espécies de trepadeiras lenhosas de folha perene, nativas da Ásia oriental, maioritariamente da Coreia do Sul, China e Japão. O nome refere-se a Sir George Leonard Staunton (1737-1801), médico e naturalista irlandês. O espanhol Miguel Lardizábal foi mecenas da botânica no século XVIII.

28.3.08

Pode sentar-se



Desde que foi adquirido pelo Estado português e aberto ao público, o Parque de Serralves sempre foi avaro em bancos, situação que ainda se agravara com as últimas obras de recuperação. Lugar para nos sentarmos, só fazendo despesa no salão de chá ou, ao jeito nórdico - difícil de adoptar por meridionais já entradotes como nós -, abandonando a compostura e espolinhando-nos nos relvados. E mesmo essa solução juvenil não resolvia tudo: onde se sentaria, por exemplo, quem quisesse gozar um fim-de-tarde no roseiral? Sobre a gravilha, com a cabeça recostada nas sebes de buxo?

Por isso as visitas a Serralves eram necessariamente peripatéticas, frustrando a vocação do Parque como lugar de repouso e contemplação. Mas tudo mudou recentemente, pois por fim alguém teve a clarividência de suprir essa clamorosa falha. Não faltam agora bancos em todos os locais de Serralves onde apetece estar: debaixo dos castanheiros-da-Índia, com vista para o prado (foto em cima); no roseiral, sob a pérgula engalanada também ela com roseiras; no bosquete de faias, à sombra de veneráveis camélias... Fica a exortação ao leitor: regresse a Serralves e eleja o seu banco favorito; depois fique sentado sem fazer nada, pois é para isso que existem lugares assim.

27.3.08

Erva-prata


Paronychia argentea

Characters:
Francisco Pizarro, Commander of the Expedition
Fray Marcos de Nizza, Franciscan Friar

De Nizza. Look hard, you will find Satan here, because here is a country which denies the right to hunger.
Pizarro. You call hunger a right?
De Nizza. Of course. It gives life meaning. Look around you: happiness has no feel for men here, since they are forbidden unhappiness. They hold everything in common. So they have nothing to give one another. They are part of the seasons, no more; as indistinguishable as mules, as predictable as trees. All men are born unequal: this is a divine gift. And want is their birthright. Where you deny this and there is no hope of any new love, where tomorrow is abolished, and no man ever thinks "I can change myself", there you have the rule of Antichrist.
(...)
When I came here first I thought I had found Paradise. Now I know it is Hell. A country which castrastes its people. What are your Inca subjects? A population of eunuchs, living entirely without choice.
Pizarro. And what are your Christians? Unhappy hating men. Look: I am a peasant, I want value for money. If I go marketing for gods, who do I buy? Christ of Europe, with all its deaths and brooding, or Atahuallpa of Peru? His spirit keeps an Empire sweet and still as corn in the field.
De Nizza. And you're content to be a stalk of corn?
Pizarro. Yes, yes! They're no fools, these sun men. They know what cheats you sell on your barrow. Choice. Hunger. Tomorrow. Well, they've looked at your wares and passed on. They live here as part of nature, no hope and no despair.
De Nizza. And no life. Why must you be dishonest? You are not only part of nature, and you know it. There is something in you at war with nature; there is in all of us.

Peter Shaffer, The Royal Hunt of the Sun (Samuel French - London, 1964)

26.3.08

Cebolinho


Allium schoenoprasum

....«Os sorrisos abertos ficam mal nas fotografias,
....obrigam a verdade a refugiar-se nos olhos.»


José Miguel Silva, Treze (Vista Para um Pátio, Relógio d'Água, 2003)

25.3.08

Selo-de-Salomão



Polygonatum odoratum

O selo-de-Salomão vive escondido no subsolo durante o Inverno, mas agora que despertou é difícil não dar por ele. As suas hastes arqueiam de forma peculiar, com as folhas dispostas em dois renques paralelos; as flores, agrupadas em cachos de duas ou três, são pendentes e resguardam-se sob as folhas. Apesar do epíteto odoratum no nome científico, as flores não têm um cheiro muito intenso: aproximando o nariz, contudo, aspira-se uma fragrância agradável, reminiscente (informa quem sabe) de lavandaria bem asseada. Polinizadas por abelhas, as flores irão a seu tempo transformar-se em drupas esféricas azuis ou pretas que não são recomendadas para consumo humano.

A área de distribuição natural do selo-de-Salomão abrange toda a Europa e estende-se à Rússia e ao continente asiático. Mesmo em Portugal é fácil encontrá-lo sem ser preciso calcorrear montes e vales: vimo-lo já em Serralves, no Jardim Botânico do Porto e na Quinta da Aveleda, onde reveste muitos metros quadrados de terreno (primeira foto acima).

24.3.08

Primavera-do-Cabo


Lachenalia aloides

O acordo ortográfico dedica-lhe certamente um extenso capítulo por ser o idioma que mais cá se usa entre Março e Setembro. Trata-se do português-para-estrangeiros em que os nossos compatriotas, sobretudo empregados de mesa e lojistas, se exprimem para dar informações a turistas. É uma língua a duas velocidades, muito mais lenta se o estrangeiro é desatento e precisa que a mensagem seja repetida. Mas sempre deformada, soletrando ritmadamente as palavras incorrectas, esforço que a deve assemelhar ao espanhol com que se julga amaciar as nossas sílabas. Frequentemente o turista responde em português mais escorreito, o que é percebido com um jubiloso acenar de cabeça pelo informante português, vaidoso do alcance da sua comunicação.

Em mais nenhum país se vê este desvelo com o visitante: em vez de aprender outros idiomas para poder falar com os turistas, o português prefere adulterar o seu, alterando-lhe a fonética e apimentando-o com erros para que melhor se entenda. Não admira que nos lugares onde os nossos marinheiros quinhentistas semearam palavras portuguesas se falem hoje línguas diversas, que agora a lei tenta uniformizar.

Tal simpatia é conhecida no mundo e os turistas mais uma vez invadiram as nossas ruas - único lugar não fechado ao público nestes dias santos que encerram museus e jardins. São estrangeiros que não entendem as nossas indicações e, por isso, carregam mapas e dicionários, e reclamam da chuva e do vento frio com que são recebidos no país que tem sol todo o ano e muito preza os seus poetas.

Visita notada foi a desta exótica Lachenalia aloides, quase-aloé sul-africano cuja designação alude a Werner de la Chenal (1736-1800), professor de botânica suíço. É uma planta bolbosa, como é grande parte da flora do Cabo, onde os invernos são inclementes (aviso do Adamastor) e os verões secos. Estenderam a toalha de apenas duas folhas largas na duna protegida da Aguda e as inflorescências-semáforo, que já justificaram o nome L. tricolor, durarão mais algumas semanas.

23.3.08

Blue pimpernel


Anagallis arvensis

....Em vez de morte, que teremos no paraíso?

Eugénio de Andrade, Ofício de paciência (1994)

22.3.08

Duplo refúgio


Araucaria heterophylla

Encravadas numa língua de areia entre a ria e o mar, Torreira e São Jacinto - as duas localidades que confinam com a reserva natural do mesmo nome - têm isto mais em comum: gostam pouco de árvores. Plantam choupos e plátanos nas ruas como quem cumpre a contragosto uma obrigação de que não alcança o sentido; e todos os anos, com um zelo que não esmorece, os mandam mutilar e os deixam reduzidos a pouco mais que os troncos. As árvores assim tratadas têm em geral vida curta; e, na verdade, nunca chegam a ser árvores, pois nunca têm copa que nos abrigue do sol. Afinal, por que diabo haveria alguém de querer fugir da luz do sol em terra que vive do veraneio?

De modo que a reserva de São Jacinto não é só um refúgio para aves, escapadas aos caçadores que exercitam a pontaria pela banda da ria: é também um refúgio para árvores, que ali estão a salvo da motosserra do podador. É claro que uma reserva onde se tentam preservar os valores naturais de uma região não é o lugar indicado para o plantio em série de árvores ornamentais exóticas - além de que a pobreza do solo arenoso dificultaria o seu desenvolvimento. Mas esta Araucaria heterophylla junto à sede da reserva, que pouco mais terá que 20 metros de altura, deu-se bem com os ares da ria, avantajando-se já aos pinheiros-bravos - que são, eles sim, os legítimos ocupantes deste território. Outras árvores refugiadas se vêem na foto: à esquerda do caminho um par de elegantes laranjeiras e, à direita, a larga copa de uma amoreira com a folhagem nova acabada de estrear.


Salix atrocinerea (salgueiro-preto)

Se há coisa que o visitante a estas paragens nota é a falta de relevo: por isso, dentro da reserva, qualquer árvore, por pequena que seja (e elas em geral são pequenas), nos corta a perspectiva. Considerada como paisagem, a reserva é monótona e pouco tem para oferecer ao visitante: vale é como experiência botânica para quem se der à minúcia de esquadrinhar a vida vegetal, pequena ou grande. E também, como é óbvio, recompensa largamente o observador de aves aquáticas, se ele tiver a fortuna de encontrar o caminho para a pateira - a qual, apesar de se estender por vários hectares, está praticamente oculta do visitante. O único posto de observação é uma cabana de madeira com uma estreita ranhura à altura do peito aberta numa das paredes. Em vez das acácias e pinheiros que dominam o resto da reserva, a vegetação circundante do lago é sobretudo de salgueiros-pretos; e o recorte sinuoso mas aberto das suas margens forma um bem-vindo contraste com os caminhos em linha recta que cruzámos até ali.

21.3.08

Dia da árvore


Trachycarpus fortunei

Da janela do automóvel vejo uma espécie de palmeira plana como um leque. Digo sabem o que aconteceu àquela árvore um gigante esqueceu-se dela dentro de um livro. Cortesmente todos riem.

Ana Hatherly, Tisana 143

20.3.08

Rua de Ruben A.


Prunus sp.

«Não é nos largos campos ou nos jardins grandes que vejo chegar a primavera. É nas poucas árvores pobres de um largo pequeno da cidade. Ali a verdura destaca como uma dádiva e é alegre como uma boa tristeza.

Amo esses largos solitários, intercalados entre ruas de pouco trânsito, e eles mesmos sem mais trânsito que as ruas. São clareiras inúteis, coisas que esperam, entre tumultos longínquos. São de aldeia na cidade.

Passo por eles, subo qualquer das ruas suas afluentes, depois desço de novo essa rua, para a eles regressar. Visto do outro lado é diferente, mas a mesma paz deixa dourar de saudade súbita - sol no ocaso - o lado que não vira na ida. (...)

Um ocaso de mágoa leve paira vago em meu torno. Tudo esfria, não porque esfrie, mas porque entrei numa rua estreita e o largo cessou.»


Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

19.3.08

Petição pelo regresso dos goivos


Metrosideros excelsa - avenida de Montevideu, Porto

Até 2001 havia flores e canteiros à sombra destes metrosíderos; havia o som e o cheiro do mar que uma sebe ocultava; havia uma fonte circular jorrando água por muitas bicas. Mantêm-se as árvores e o mar, agora à vista de todos pelo derrube da sebe, mas de resto tudo se foi. A fonte, em estado de ruína, já não sabe fazer cantar a água.

Sob os metrosíderos, em vez de flores, espalharam tapetes de conchas: escuras, frágeis, todas iguais, nem aos coleccionadores poderiam interessar. Tê-las-ão trazido como oferenda, já que as árvores não podiam descer à praia para recolhê-las? Teriam função decorativa? Ou, quem sabe, talvez desse modo se fornecesse às árvores a dose diária de cálcio recomendada pela UE e pela indústria de laticínios. Isto admitindo que as conchas têm cálcio na sua composição (palpita-me que sim) e que as árvores, como as crianças e os idosos, precisam dele para fortalecer os ossos. Ainda assim, custa-me imaginar o mesmo arquitecto que as quis abater no papel da figura maternal que lhes leva à boca (ou à raiz) a colher de iogurte.


Erysimum cheiri (goivos)

As flores têm feito um tímido regresso: nesses tanques secos, geométricos, vão surgindo Gazanias e Lampranthus; mas, apesar de vistosas, essas são flores burocráticas, que em cada dia não trabalham mais do que xis horas, não chegando sequer a abrir o expediente em dias foscos. Pior do que tudo, não deitam cheiro que possa temperar a maresia. Por isso é imperativo o regresso dos goivos que até 2001 perfumavam a avenida de Montevideu, logo antes do Castelo do Queijo. E há outra razão de peso que tem a ver com a defesa e preservação da língua de Camões: como podemos desprezar uma flor com um nome tão eufónico como goivo? Nenhum outro idioma lhe reservou palavra tão bonita: os franceses chamam-lhe giroflée, os ingleses wallflower, e os alemães sabe-se lá o quê. É certo que já falámos várias vezes de goivinhos, mas o diminutivo perde ressonância e poder evocativo se não conhecermos os goivos genuínos. Seria como lembrarmo-nos apenas do santinho dos espirros, tendo esquecido o que é um santo devidamente canonizado: em vez do mártir ou asceta de vida heróica e pose arrebatada, só nos viria à lembrança um sujeito de nariz pinguço, sempre a puxar do lenço.

18.3.08

A importância de ser simples


Silene nicaeensis - escola primária da Torreira

É uma ilha num mar de areia, uma construção sisuda em cuja fachada branca sobressai o mastro da bandeira e se disfarçam janelas acanhadas e uma porta baixa, com aldraba para crianças e ondas. Vem do tempo em que só meia dúzia de meninos podia ir à escola, num lugar em que o mar era o mestre poderoso e cruel que ensinava a sobreviver. O acesso ao edifício não tem portão, é um passadiço estreito entre dois muretes baixos, altos para as crianças que por ali circulam. Segue a direito, da rua até à porta da escola primária, e impõe-se como a primeira lição: caminhe a eito, não tente emendar o seu destino, lembre-se que é pecado deixar-se seduzir pelo que o rodeia. Aprendizagem difícil porque o jardim da escola é encantador: um enorme quadrado de areia que parece descansar o ano inteiro; para recreio, há por perto outras praias, mais vastas e livres, onde a espuma também brinca e traz búzios para entreter os amigos.

Este jardim, inteiramente natural, abriga inúmeros exemplares da flora dunar, em quantidade e diversidade que por vezes não encontramos em zonas protegidas, como as "escolas privadas" da Aguda ou de S. Jacinto. Caso desta silene, pequenina e fotogénica, de folhagem rubra, cálice-pijama peludinho e pétalas encaracoladas. Já se chamou Nicaea maritima, em alusão a Nice, no sul de França, ou talvez a Iznik (antes Nicaea) na Turquia.

Deveríamos estar felizes por ainda haver destes exemplos de harmonia do saber com o mundo. Mas invade-nos o temor de que algo tão perfeito e diferente possa ser substituído por um moderno relvado ou piso sintético, ou desaparecer soterrado por um tapete de plantas turistas que alugam o recinto até se entediarem com o sol e as férias.

17.3.08

Papoila-das-praias



Glaucium flavum

A papoila-das-praias, amplamente distribuída nos países mediterrânicos e também no centro e oeste da Europa, não parece estar em risco de extinção, mas em Portugal, onde prefere habitats costeiros, é cada vez mais difícil de encontrar. No lado gaiense da foz do Douro, na baía de S. Paio, existia uma população desta planta que obras e movimentações de terras imprevidentes fizeram desaparecer. Mais a sul, já perto da Aguda, nas dunas que delimitam o campo de golfe de Miramar, encontrámos em Junho passado o exemplar da foto. Era o único da sua espécie num local infestado de chorões (Carpobrotus edulis), onde a custo sobrevivia alguma vegetação dunar autóctone (em cima vêem-se, além desta papoila, cordeirinhos-das-praias, cardos-marítimos e morganheiras). A área foi desde então alvo de uma limpeza nada selectiva, quiçá para facilitar a busca de bolas perdidas lançadas por golfistas menos atinados: arrancaram chorões e acácias, é verdade, mas também tudo o resto. Aquelas plantas que estão presentes nas dunas vizinhas irão ressurgir sem dificuldade, mas para o Glaucium flavum a limpeza representou uma erradicação. Talvez não seja notícia, mas é um empobrecimento: a papoila-das-praias está extinta pelo menos na faixa litoral que vai da foz do Douro até Espinho.

15.3.08

Flor-do-vento

Hoje o valkirio faz um ano. Já usa borzeguins e risca ao lado, chega às flores mais altas e passeia pelos jardins sem se segurar à nossa mão. Parabéns.


Anemone coronaria

....Antes do teu olhar, não era,
....nem será depois - primavera.

Cecília Meireles, Mar absoluto e outros poemas (1945)

«Flora e Vegetação Mediterrânica»



Este curso de actualização botânica, destinado sobretudo a estudantes de pós-graduação, técnicos da área do ambiente e professores do ensino secundário, é organizado pelo Centro de Ecologia e Biologia Vegetal e decorrerá de 25 de Abril a 1 de Maio na Faculdade de Ciências de Lisboa. Incluirá aulas teóricas e práticas, duas saídas de campo - à Reserva Natural das Lagoas de Santo André e Sancha e ao Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros - e ainda uma visita guiada ao Jardim Botânico da Universidade de Lisboa.

Trinta é o número máximo de participantes; a data limite de inscrição é 31 de Março. Mais informações nesta página.

P.S. A planta na imagem acima é uma Aristolochia baetica.

14.3.08

Clivia miniata



Clivia miniata

Os narcisos são das primeiras flores a mostrarem-se em cada ano, mas a planta que dá nome à família a que eles pertencem é a sul-africana Amaryllis, que por cá só desperta no final do Verão e é especialmente abundante nas ilhas açorianas. Como plantas bolbosas que são, a maioria das amarilidáceas passa anualmente por um período de dormência, em que a parte aérea da planta desaparece por completo. Não é porém esse o caso da também sul-africana Clivia miniata: as folhas mantêm-se de ano para ano, e a planta só começa a florir ao terceiro ano de vida. Por ser delicada e não suportar temperaturas baixas, talvez só no sul do país e nas ilhas seja possível cultivá-la ao ar livre. Dando-se o caso de ela florir melhor quando mantida em vaso, é boa ideia guardá-la em local protegido durante o Inverno e trazê-la para o exterior nos meses amenos. Os cachos de flores cor-de-laranja encimando a folhagem em leque têm impacto visual garantido: o vaso em cima, fotografado sob o alpendre duma pequena casa rústica na Quinta da Aveleda, enche de cor todo o espaço à sua volta.

13.3.08

Picão-bravo


Galinsoga parviflora - em todos os canteiros livres

Galinsoga - Weeds, ironically and punningly named Gallant Soldier in England, commemorating Mariano Martinez Galinsoga, 18th-century Spanish doctor in Madrid, whose botanical accomplishments match the smallness of their flowers.

parviflora - with small flowers

William T. Stearn's Dictionary of Plant Names for Gardeners (1996)

12.3.08

Fuji


Wisteria floribunda

O prato da foto é uma porcelana Nabeshima, do período Edo (1700-1730), propriedade do Museu de Kyushu e que esteve em exibição no Museu Soares dos Reis, no âmbito da exposição temporária Obras-primas da cerâmica japonesa. Tem cerca de 30cm de diâmetro e está decorado com glicínias de flor branca penduradas numa pérgula e pintadas sobre nuvens azuis e brancas. A disposição do fundo e o desenho requintado e perfeito reforçam a tradicional associação desta planta à nobreza. E nota-se grande cuidado nos pormenores: as glicínias estão sublinhadas com linhas finas vermelhas, mas as flores brancas resultam da não aplicação de cor; as gavinhas enrolam-se em volta da grade em sentido horário, o que nos permite identificar a espécie, Wisteria floribunda; além disso, a cor nas folhas não é apenas verde, há algumas a amarelecer, detalhe que ainda mais aproxima a representação da realidade.

Fora do prato, as glicínias de flor lilás (Wisteria sinensis) já estão a florir, cobrindo o negrume dos muros e alterando os aromas na cidade. Até Abril, seguir-se-ão as de flores brancas, de cachos maiores mas de perfume mais ténue.

O género Wisteria tem quatro espécies da China e Japão, onde é uma das trepadeiras mais populares, e duas da América do Norte. Começou por se chamar Glycine (do grego glykys, doce), fonte da designação vernácula portuguesa e francesa, género a que pertence a soja (G. max). O nome actual, atribuído pelo botânico Thomas Nuttall, homenageia Caspar Wistar (1761-1818), um professor talentoso, inspirado e popular entre os seus alunos na Universidade da Pennsylvania.

11.3.08

Fava rica, fava pobre



Vicia faba / Vicia angustifolia / Vicia sativa

1 - Fábula sem moral que se perceba
«Já se sabe. A nossa vida são favas contadas. Tão certo como dois e dois serem quatro.» Quem assim perorava para edificação dos seus companheiros era o mais velho faveiro do quintal. Ou que como tal gostava de ser considerado, apesar de serem todos da mesma sementeira: era ele o mais alto do seu talhão, e também o que mais abundantemente florira e prometia dar mais e maiores favas.

«Isso é falar de vagem cheia. Quem te disse tal coisa? Sabes tanto ou tão pouco como nós, que nunca daqui saímos.» É um faveiro mirrado que desafia o faveiro-mor, mas este, desagradado com a interpelação, logo manda calar o atrevido. «Repito que são favas contadas. Quantas vezes já não ouviram isso à nossa dona? Ela é a mulher da fava rica, e é ela que nos vai contar as favas para saber quem merece continuar a viver no quintal.»

«E os outros, o que é que acontece aos outros?», perguntam vozes aflitas.

«Ora essa! Os outros não têm favas que cheguem, não é verdade? É claro que vão ser mandados à fava.»

2 - Favas e ervilhacas
A ervilhaca-miúda (Vicia angustifolia) e a ervilhaca-mansa (V. sativa) dão as favas pobres do título. Pequenas herbáceas trepadeiras, espontâneas na Europa, começam a florir agora que o Inverno rescende já a Primavera. Apesar de as ervilhitas semelhantes a lentilhas por elas produzidas serem comestíveis, não se lhes dá qualquer uso culinário. Em vez disso, toda a planta (em especial a V. sativa) é cultivada para forragem: cavalos e vacas disputam-lhe com avidez os tenros rebentos, incorrendo em sério risco de perturbações digestivas.

10.3.08

Manifestação de bravos


Lupinus luteus

Os manifestantes amarelos são espigas em flor de tremoceiro-bravo, que já despontam em dunas e não durarão até ao Verão. Herbácea anual, aceita partilhar esta designação com espécies de flores azuis (L. angustifolius) ou roxas (L. hispanicus), mas não quer ser confundida com o salgado tremoço-de-bar (L. albus). Incomoda-o a danosa acção da gravidade sobre as cascas dos tremoços, balõezinhos vazios com o peso a fugir-lhes, que formam tapetes instantâneos em torno das mesas das esplanadas mal se começam a empilhar cervejas e conversa. Tais pecados de cerimónia não podem ser assacados a todos os tremoceiros, que exigem das instituições que gerem a educação - ultimamente algo ocupadas em correr cortinas nas janelas - uma avaliação justa; que não pode ser conduzida por outros tremoceiros, tendencialmente parciais ao julgar quem planta vénias na ponta da língua ao menor sopro de um psiu.

Discussão à-toa, trinca pequena, dirão uns, enquanto dão de ombros. Há mesmo quem aceite ser cultivado para flor-de-corte em canteiros vitaminados. Para outros a vida apequena-se, cabe inteira na palma da mão. Entretanto os ministros burilam alvoroços e desenham hipóteses para o futuro - e é sabido como elas falham.

8.3.08

Pequena mulher a caminho



Centaurea sphaerocephala subesp. polyacantha

«- Os dias do calendário não são os dias do meu futuro nem foram os dias do meu passado. Os meus dias chegam pelo ar, tão pouco firmes como aquelas férias no campo, da gente da cidade que me dá serviço. Adiante está o mata-burro; mais adiante o sítio, ora com neblina, ora com sol, ora com negrume. No mata-burro me equilibro com o feixe de lenha na cabeça e sigo em frente, a pé; sem ajuda de menino ou motor. Mas, se quebrar as canelas como um burro, sei folgar no meio do caminho e me ajeitar, mesmo com os pés no cativeiro, entre os bichos pequenos da terra que se alegram na minha companhia.»

Zulmira Ribeiro Tavares, Cortejo em Abril (Companhia das Letras, 1998)

Centaurea - do grego kentauros (centauro)
sphaerocephala - de cabeça redonda, em alusão ao botão da flor
polyacantha - com muitos espinhos
mata-burro - pontilhão de traves sobre fosso à entrada de uma propriedade para impedir a passagem de equídeos e gado bovino
sítio - fazenda

7.3.08

Giesta-branca


Cytisus multiflorus - vale do Tua

Ainda não estamos no tempo das giestas, mas a que mostramos hoje, tendo-se enganado na cor, teve licença para florir mais cedo. Das seis ou sete espécies de giestas (género Cytisus) que são espontâneas em Portugal, só esta não tem floração amarela. E as suas flores, além de valerem pela beleza e originalidade, são muito melíferas.

A giesta-branca distribui-se por toda a metade norte do país, com excepção do litoral. Com ela encerramos uma breve amostra da flora que encontrámos em Abreiro, no vale do Tua. Uma série que só terá prolongamento se pudermos lá voltar depois de mais plantas despertarem com a Primavera e antes da inundação definitiva.

6.3.08

Zimbro-galego


Juniperus oxycedrus - vale do Tua

O zimbro - nome vulgar que abrange as árvores e arbustos do género Juniperus - é uma das coníferas mais versáteis e com mais usos em jardinagem e em paisagismo: as formas prostradas ou rastejantes usam-se como cobertura do solo - preferível à relva e não só pela poupança de água -, ao passo que as formas arbóreas ou arbustivas se adaptam, pela morfologia variável, a um grande número de contextos, havendo-as com copas fusiformes, piramidais ou arredondadas. Coisa rara entre as coníferas, os frutos são bagas carnudas que servem de alimento a pássaros - embora se deva ressalvar que, sendo dióicos quase todos os Juniperus, tal maná para a fauna alada só é fornecido pelos indivíduos femininos.

Uma das quatro espécies do género Juniperus dadas como espontâneas em Portugal continental é o zimbro-galego (J. oxycedrus). Originário do sul da Europa, desde a Turquia à Península Ibérica, a sua presença no nosso país restringe-se a algumas áreas montanhosas no interior norte e centro. Tal como no zimbro-comum (J. communis), também espontâneo em Portugal, as folhas do zimbro-galego são aciculares, e a planta nunca chega a desenvolver a folhagem escamosa presente na maioria das suas congéneres. A distinção entre o zimbro-comum e o zimbro-galego poderia ser problemática, mas a dúvida resolve-se examinando as folhas: as do segundo têm na face superior duas faixas longitudinais brancas (pode vê-las melhor clicando na foto em cima), e as do primeiro têm uma só faixa.

P.S.
1) Veja
aqui as bagas do zimbro (não temos a certeza, mas, atendendo ao local onde as fotos foram tiradas, é de crer que também se trate de um J. oxycedrus).
2) Leia o informativo comentário aqui deixado por P. Faúlha.

5.3.08

Bolsa-de-pastor


Capsella bursa-pastoris (Capsella rubella) - vale do Tua

«Ao fundo do meu quintal, à mão esquerda, há um miradoiro ou, melhor dizendo, um coradoiro, um pedaço de terra livre de arvoredo, mas coberto de erva macia e sempre verde. Ali coravam a roupa, com maternal solicitude, as minhas rudes criadas, no tempo em que as havia e se corava roupa. Hoje, é apenas um logradoiro do meu quintal, mas logradoiro sem utilidade. Nem sequer o aproveito como vigia do panorama que me cerca. Deixei de o visitar.

Desse retalho de terra, sempre verde, avistava eu, ao desenfado e sempre que queria, um velho amigo, um trabalhador incansável, que me viu nascer e me abandonou de um dia para o outro. Quero referir-me a um rio arcaico, milenário, que me contava uma história, cheia de pavores e doçuras, quando me via sentado, num banco de pinho, ao fundo do meu quintal.

Esse rio morreu. Deixou de ser rio para ser um lago artificial imenso, parado ou pasmado a meus pés, como cadáver que a morte dilatasse. O dinheiro dos homens, para se multiplicar, a troco de dar luz e energia ao mundo, pega no meu rio, que era bravo e impetuoso como um toiro, e amansa-o em lago. Fez dele um boi no pasto ou uma choca no fim de uma toirada.

O meu rio, que era poeta heróico e poeta idílico, ao sabor das horas, que as contava de todos os feitios, era também artista. Com que paciência, durante séculos e séculos, não foi esculpindo, na rocha dura, maravilhas de arte... Hoje, lago empanturrado, mais rico do que um porco, já não tem força e até se envergonha de pegar no maço e no cinzel. Deixá-lo, que o progresso manda...»

João de Araújo Correia, Rio Morto (1973)