31.5.05

O nosso licor


Foto: pva 0505 - Crataegus laevigata "Rosea Flore Pleno" no Parque da Cidade

Em Setembro do ano passado, e seguindo a sugestão de Mrs. Grave no seu Modern Herbal (1ª ed. de 1931) de que um excelente licor se fabrica a partir de frutos de pilriteiro embebidos em aguardente e açucar, uma das autoras deste blogue reservou tempo para, cantarolando Bem cantados meus pilritos/Vermelhinhos a brilhar/Se só vieres em Outubro/Podes não l'os encontrar, fazer uma colheita abundante destes frutos nos exemplares de Crataegus monogyna do Parque da Cidade. Assim se iniciou a produção de um já muito esperado Licor de Pilritos DcA, cuja primeira prova não está ainda agendada. Este ano, e impelidos apenas pela curiosidade científica, tentaremos o licor de pilritos de Crataegus laevigata, que exibe nesta altura promissoras flores dobradas cor-de-rosa. A produção será diminuta pois só conhecemos quatro exemplares deste arbusto, todos jovens e escassamente ramificados, o que não permitirá preços amenos. Mas, com a qualidade que a experiência assegura, o negócio irá certamente prosperar.

30.5.05

Le temps des cerises

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«Quand nous chanterons le temps des cerises,
Et gai rossignol, et merle moqueur
Seront tous en fête !
Les belles auront la folie en tête
Et les amoureux, du soleil au coeur !
Quand nous chanterons le temps des cerises,
Sifflera bien mieux le merle moqueur !

Mais il est bien court, le temps des cerises

Où l'on s'en va deux, cueillir en rêvant
Des pendants d'oreilles...
Cerises d'amour aux robes pareilles,
Tombant sous la feuille en gouttes de sang...
Mais il est bien court le temps des cerises,
Pendants de corail qu'on cueille en rêvant !

Quand vous en serez au temps des cerises,

Si vous avez peur des chagrins d'amour,
Evitez les belles !
Moi qui ne crains pas les peines cruelles,
Je ne vivrai point sans souffrir un jour...
Quand vous en serez au temps des cerises,
Vous aurez aussi des peines d'amour !

-J'aimerai toujours le temps des cerises :
C'est de ce temps-là que je garde au coeur
Une plaie ouverte !
Et dame Fortune en m'étant offerte
Ne pourra jamais fermer ma douleur...
J'aimerai toujours le temps des cerises
Et le souvenir que je garde au coeur!»

Le temps des cerises (história)
Palavras: Jean-Baptiste Clément (1866)
Música: A. Renard
Outros intérpretes: Fred Gouin, André Dassary, Suzy Delair, Jean Lumière, Tino Rossi, Yves Montand, Nana Mouskouri, Demis Roussos, Colette Renard, Patrick Bruel, etc.

Pequeno-almoço

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29.5.05

Goiaba-serrana



Foto: pva 0505 - Acca sellowiana no Palácio de Cristal (Porto)

Esta mirtácea (a terceira da semana), também conhecida por feijoa, é uma árvore sul-americana muito semelhante à goiabeira, tanto na flor como no fruto, que é também usado para compotas. Infelizmente parece não frutificar em Portugal, conforme a experiência aqui relatada na primeira pessoa; mas as pétalas são uma delícia.

28.5.05

Furto de flor

«Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.

Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida. Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.

Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la ao jardim, nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.

Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me:

- Que idéia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!»

Carlos Drummond de Andrade, Contos plausíveis (s/ data)

Foto: pva 0505 - Ixia flexuosa

27.5.05

Apêndice: eis a flor


Foto: pva 0505 - flor de Metrosideros robusta

Metrosídero florido

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Chamaecyparis sp. e Metrosideros robusta
Admirou-se o nosso amigo OLima por apenas um metrosídero estar em flor em certa zona de Espinho. Também cá no Porto os metrosíderos da espécie Metrosideros excelsa, agora muito utilizada em arruamentos, ainda não estão floridos. Mas o mesmo não se passa com os menos comuns Metrosideros robusta (aliás designados anteriormente por M. florida!) que estão a florir abundantemente desde há já pelo menos duas semanas.
A árvore aqui retratada quase que me fez travar a fundo em plena Avenida da Boavista: encontra-se no Jardim da Embaixada da África do Sul (onde muito gentilmente me deixaram entrar). Uma multitude de abelhas e outros insectos zumbiam atarefadíssimos deleitando-se com o nectar (edível) produzido pelas flores de vistosos estames (característica de todas as Mirtáceas *) .
Originários da Nova-Zelândia tal como os seus congéneres "pohutukawa" (nome que significa "salpicado pelo mar" em linguagem maori), os "rata" têm as folhas, de um verde escuro e brilhante, oblongas, mais miúdas e estreitas e sem a lanugem esbranquiçada dos M. excelsa.
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*Mirtáceas:
A árvore de Natal da Nova-Zelândia (Metrosideros excelsa); Red flowering gum, Eucaliptos vermelhos , Verde e vermelho (Eucalyptus ficifolia); Eucaliptos om aroma de Limão (Eucalyptus citriodora ); Eucaliptos monumentais na Quinta de Fiães (Gaia) (Eucalyptus amygdalina e Eucalyptus obliqua); Alternativa -Colar aromático (Eucaliptus globulus) ; Companhia da canela (Syzygium aromaticum); As mirtáceas acordaram (Callistemon sp.)

26.5.05

Os jardins do Museu Soares dos Reis


Foto: pva 0501 - pátio do Museu Soares dos Reis, Porto

A rua D. Manuel II, no Porto, é um campo de batalha: trincheiras, barricadas, nuvens de poeira, peões metidos ao trânsito, cartazes vociferantes, manifestações espontâneas de protesto. Num passe de mágica a merecer estudo por parte dos aprendizes de demagogo, o responsável pelo pandemónio conseguiu fazer crer à populaça que a culpa era de outrem: ora da Oposição, ora do IPPAR do Porto, ora do IPPAR de Lisboa, ora de Lisboa, ora do Museu Soares dos Reis, ora da Ministra, ora da nova Ministra, ora do Primeiro-Ministro, ora dos tribunais. Todos juntos contra o Porto - contra ele que, sozinho e contra todos, defende o Porto.

Recuemos então para trás da barricada - toneladas de entulho a gritar bem alto em tom de escárnio toma lá que já aprendeste - e entremos no sitiado Palácio dos Carrancas. É aqui que mora o Museu Soares dos Reis, o segundo maior museu do país, mas desconhecido dos portugueses em geral e dos portuenses em particular: os nomes de Silva Porto ou Henrique Pousão não lhes dizem nada; nunca visitaram a exposição permanente de faiança e outras artes decorativas; as multidões que vão a Serralves admirar abstrusas exposições de arte moderna ignoram amostras temporárias como as de Carlos Relvas ou Guilherme Camarinha. A crise orçamental e a falta de funcionários agravam este panorama, obrigando por vezes ao fecho de várias salas de exposição.

Em 2001, após anos de encerramento, o Museu reabriu com novo edifício anexo contendo um auditório e uma galeria de exposições temporárias. Na inauguração, houve festa para crianças, com música e palhaços, no jardim das traseiras do Museu, alvo também de beneficiações. Foi essa a única vez que visitámos esse tesouro escondido atrás dos muros, onde tílias enormes alteiam as copas por entre enigmáticos blocos de pedra talhada. Desde então o jardim não voltou a abrir ao público: por não haver jardineiro, todo o espaço está ao abandono.

Um outro bonito jardim, este de camélias, ocupa o pátio interior do Palácio dos Carrancas. Nesse recinto, mais pequeno, não se notam sinais de desleixo. Há de facto quem cuide do jardim, mas não um jardineiro: é uma funcionária que, embora com outras atribuições, tem o brio de lhe fazer a manutenção regular.

Se a Câmara, em vez de fazer guerra ao Museu, estivesse preocupada com a imagem da cidade, bem poderia ceder os seus jardineiros para tratar desses jardins. Até porque, como alguém já aqui observou, a progressiva abolição dos canteiros de flores na cidade poderá deixar muitos desses profissionais sem ter que fazer.

25.5.05

Faia- folhagem

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Foto: mdlramos 0505- Fagus sylvatica "purpurea" na Casa das Artes
Hoje consegui finalmente ir ao jardim da Casa das Artes. As minhas tentativas aos sábados de manhã têm sido em vão, pois tenho deparado com os portões fechados. Falhei por isso a floração dos tulipeiros! Segundo me informaram hoje, agora o "segurança" só vem depois das duas da tarde (durante a semana) pois a Casa das Artes está em obras. No penúltimo sábado não era a única a "rondar" a porta. Não poderiam pôr um aviso a informar as pessoas? Que obras estão lá fazer-se? E porque é que os jardins da casa antiga, com entrada pela rua António Cardoso, onde está agora a CCRN se tornaram "privados"? De acesso restrito ainda se entenderia, mas "privados"!?
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As mirtáceas acordaram



Foto: pva 0505 - Callistemon sp. - Quinta de Santo Inácio (Gaia)

O arbusto bem desperto da foto é do género Callistemon e da vasta família Myrtaceae - que inclui ainda os géneros Eucalyptus, Leptospermum, Melaleuca, Metrosideros e Syzygium, entre muitos outros. As folhas do Callistemon são lanceoladas, inteiras, sésseis, aromáticas e espiralam nos ramos claros e fissurados, de hábito pendente. Mas são as inflorescências que nos atraem: em formato de espiga (ou de limpa-garrafas), são compostas de flores com numerosos estames vermelhos inseridas num talo que termina com um penacho de folhas; à medida que estas brotam, o cilindro de flores vai ficando no ramo como num espeto. Caídas as flores, no eixo das inflorescências restam frutos lenhosos, cápsulas castanhas que lembram botões e podem permanecer fechadas durante anos até que um incêndio as faça largar as sementes.

Há mais de trinta espécies de Callistemon, todas nativas da Austrália. Recolhidos os primeiros exemplares - por Joseph Banks e Daniel Solander em 1770 durante a descoberta da costa este da Austrália -, foram introduzidas na horticultura europeia em 1788, numa altura em que botânicos e coleccionadores mostravam considerável interesse pelas plantas das zonas remotas do Pacífico.

A designação Callistemon significa estames bonitos, dos termos gregos kalli e stemon.

24.5.05

As faias do Jardim do Passeio Alegre

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Fotos: mdlramos - Abril 2005
As duas faias (Fagus sylvatica L.) do Jardim do Passeio Alegre encontram-se lado a lado, o que realça ainda mais a diferença da sua bela folhagem: verde luminoso uma, e vermelho escuro, a outra, da variedade purpurea.
A primeira faia "purpurea" foi descoberta em1680 num cantão de Zurich, em Buch e tornou-se o antepassado de todas as faias de folhas de cor vermelha. A estas faias está associada uma lenda macabra: viviam nesse local 5 irmãos que se mataram uns aos outros; para perpetuar a memória deste fatricídio horrível, conta a lenda que Deus quis que todas as faias descendentes da que foi manchada pelo sangue dos irmãos conservassem reflexos vermelho-púrpura na sua folhagem. (Cf. Le hêtre, Robert Bourdu, "le nom de l'arbre", Actes du Sud)
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A faia em quatro novas lições
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23.5.05

Dos jornais- "Uma dor de alma"

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«Que mal fazia a árvore plantada no quintal? Fiquei privado da memória de uma vida... Todos os dias, chegado ao meu quarto de banho, abria a janela que dá para os quintais das traseiras e lá estava a árvore, verde de Março a Outubro; esquálida e sem folhas no Inverno. Tinha uma particularidade aquela árvore ela anunciava-me, sem falhas, a chegada da Primavera! Podia estar a chover ou um frio de rachar mas ela lá estava carregada de florzinhas brancas a dar-me a boa nova. Depois, no curto espaço de uma semana, essas flores caíam e lá ficava ela, a árvore, de folhas verdes a emoldurar um tronco já velho mas fecundo como se vê...
Há dias, abri, de manhã, a janela e descobri, horrorizado, que a árvore tinha sido abatida. Feita em pedaços, jazia a um canto do quintal, como coisa inútil, sacrificada aos custos da modernidade. Eu digo "custos da modernidade" porque é assim que os falsos arautos do progresso costumam assinalar as malfeitorias que praticam contra a Natureza. Em breve, os operários entraram pelo quintal dentro e começaram a erguer os tijolos da nova construção. (...) » Continuar a ler o texto de Jorge Vilas (jornalista)

É gritante a semelhança deste "caso pessoal" relatado no JN, com a entrada anterior: trata-se de idêntica ocupação dos quintais "das traseiras", com a consequente destruição de espaços verdes e "a substituição de solo vivo por revestimentos impermeáveis". Necessário? "Estratégico"? Legal? Ilegal? Fica por vezes a dúvida no ar. Agora que é irreversível, destrutivo, diminui a qualidade de vida, atenta contra o património arbóreo da cidade, disso temos a certeza. É uma autêntica dor de alma.
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Irreversível



Fotos: pva - Magnolia denudata na rua de Aníbal Cunha (Porto) em Fevereiro e Maio de 2005

Deram brado na imprensa, em 2004, as obras de adaptação, na rua do Rosário (Porto), de um antigo edifício à função hoteleira. O cartaz exposto no local informava que o edifício recuperado se destinaria a habitação e comércio - mas, para espanto dos vizinhos, começou a surgir no jardim das traseiras, de onde entretanto desapareceram muitas das antigas japoneiras, um volumoso acrescento ao edifício original. Soube-se depois que um aditamento ao projecto tinha dado entrada nos serviços camarários, solicitando a alteração do uso e o aumento em 50% da área de construção; e que, sem esperar pela autorização, as obras tinham avançado conforme o aditamento. O cidadão comum, acreditando tratar-se de uma obra ilegal, julgaria que a Câmara pusesse cobro ao abuso - mas nada disso sucedeu. A Câmara afinal só se tinha atrasado a despachar a autorização, mas gostava do projecto, por o considerar estratégico. Na boca de um edil, esta palavra estratégico soa como declaração de amor. E talvez não seja termo tão desajustado: podendo os visitantes das galerias da rua de Miguel Bombarda hospedar-se, em dia de inaugurações, num hotel da vizinhança, quem sabe se não deixarão de usar os passeios para estacionamento.

Mas, tirando o facto de nos desgostar o abate das japoneiras, que temos nós a ver com isto? É que, dispondo de janelas com vista para o interior arborizado de um amplo quarteirão, sabemos bem como, em vastas zonas da cidade (e particularmente em Cedofeita), a maior parte das árvores que purificam o ar que respiramos se esconde atrás das fachadas, nos pátios dos edifícios. É natural que, mesmo alegando-se considerações estratégicas, nos preocupe o desaparecimento gradual dessa vegetação e a substituição de solo vivo por revestimentos impermeáveis. O próprio executivo camarário, na sua proposta de PDM agora em fase final de aprovação, restringe a construção nos logradouros, impondo um limite de 70% à impermeabilização de cada lote. Essa será a regra, mas depois haverá as excepções - que, se o exemplo do hotel na rua do Rosário fizer escola, bem poderão passar a ser regra.

Perto da rua do Rosário, no n.º 98 da rua de Aníbal Cunha, desenvolve-se trama em tudo semelhante. As diferenças entre as duas fotos em cima, ambas deste ano, tiradas a 15 de Fevereiro e a 15 de Maio, não se resumem à cor branca ou verde da magnólia residente no n.º 94: as árvores junto ao muro que divide os dois pátios foram quase todas eliminadas (apenas sobrou uma japoneira, muito diminuída) e, no lugar da garagem térrea que ainda deixava algum terreno livre, cresce agora um avantajado edifício de vários andares. O edifício parece pertencer ao Estado - na antiga casa terá funcionado um Centro de Saúde - e é provável que desta vez a Câmara esteja inocente, pois as obras da Administração Central dispensam autorização camarária e não têm que respeitar PDM's.

Seja a culpa de quem for, o resultado é que ali não volta a crescer uma árvore.

21.5.05

Romeu e Julieta



Fotos: pva 0505 - Brunfelsia uniflora Quinta de Santo Inácio

É designação brasileira deste arbusto da América tropical, de folha perene, textura lenhosa e muito ramificado. As folhas são ovaladas e lisas, verde-escuras e ligeiramente dobradas. As flores, com formato de salva e perfume almiscarado intenso, nascem nas extremidades dos ramos, cobrindo nesta altura do ano quase toda a copa do arbusto. São de cor azul-violeta ao abrir, passando lentamente a brancas com a idade: esta mudança de cor caracteriza o género Brunfelsia, cujo nome homenageia o botânico alemão, do século XVI, Otto Brunfels.

Esta espécie pertence à família Solanaceae, como os plebeus tomateiro e batateira.

20.5.05

Quando for grande quero ser uma almofada



Resultado de fecunda colaboração inter-bloguística, eis como estavam há duas semanas as seis pequenas corísias amarelas nascidas no Porto de pais moradores no Largo Dr. Passos Vella, em Cascais. Embora minúsculas e frágeis, já ficam apertadas no berço - pois quem as semeou não esperava tamanho sucesso na germinação.

Procuram agora famílias de adopção que as queiram acolher em terreno amplo e fértil. Têm já projectos para o futuro: querem encher muitas almofadas com a paina macia dos seus frutos.

19.5.05

Vergonha (na estrada) nacional

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(Esta é a doer! E é também a primeira entrada comum a um blog -Dias sem árvores, há muito na forja- que pretende denunciar "casos" destes de todos os pontos do país! Se quiser colaborar é só dizer.)
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Num sábado do princípio de Abril tinha planeado juntar-me aos meus amigos da Campo Aberto num passeio guiado à serra do Marão. A minha falta de orientação fez com que saísse do IP 4 e entrasse na Estrada Nacional nº15 justamente pelo lado oposto ao que devia, ou seja "por baixo". Apesar de ser evidente que já não conseguiria chegar a tempo ao encontro marcado em plena serra, deliciei-me com a ideia de percorrer a antiga "estrada do Marão", aquela que todos fazíamos obrigatoriamente quando não havia a alternativa do chamado "Itinerário Pincipal": estava uma manhã de sol, o trânsito, por assim dizer, quase inexistente, e descobria a cada curva da estrada, recantos de paisagem verdadeiramente encantadores. Todavia o estado de encantamento foi de pouca dura: a partir de determinado momento do percurso entrei, por assim dizer, numa espécie de estado de choque!


Rolagem de plátanos na estrada nacional nº 15
O caso não era para menos e as imagens falam por si:a rolagem dos plátanos que ladeavam a estrada tinha sido a mais radical! E isto ao longo de largos quilómetros.
Numa das paragens que fiz, em Gondar, perguntei a um dos habitantes o que se passara, qual a razão para tal razia. Os plátanos tinham crescido demais, respondeu-me ele simplesmente, sem grande espanto ou emoção, e há quinze dias a mando da Câmara tinham sido cortados. Mas por quem? -perguntei eu- por madeireiros? Não sei se ele aproveitou ou não a deixa, mas o facto é que disse que sim, que tinha sido.


Rolagem de plátanos na estrada nacional nº 15
Como se vê na fotografia da direita, os últimos plátanos não foram decepados. Ignoro se por falta de tempo ou se por outra fantasia qualquer. Gostava aliás de saber, passado já mais de um mês sem ter lido nenhuma reacção ou comentário (nem sequer no site da SPA), o que terá acontecido às árvores. Tê-las-ão abatido completamente, num assomo de pudor, por recomendação dos profissionais da área, ou continuarão lá, símbolos vivos desta vergonha nacional?
Como é que é possível que actualmente ainda sejam permitidas tais rolagens e que não haja uma lei que puna, multe, impeça semelhante vandalismo? Francamente não se entende que ano após ano, década após década, continue a acontecer esta barbárie!

Como muitas vezes acontece o feitiço poderá recair sobre o feiticeiro...
Esta povoação, Gondar, por exemplo, encontra-se na Rota da Cerâmica, percurso turístico que atrai forasteiros, tal como a Pousada do Marão, alguns quilómetros mais acima, nesta estrada.
Que modo de valorizar os recursos e a beleza da região!
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18.5.05

Lilases-da-Índia


Foto: pva 0505 - conteira (Melia azedarach) no Largo da Maternidade - Porto

As conteiras estão em flor. Mesmo em praças que há muito não recebem a visita de um jardineiro. Como o Largo da Maternidade, que, por falta de flores e de cuidados, não é o jardim alegre que poderia ser. Ali as tílias são alvo infalível da equipa de podadores, que as deixam feias e debilitadas; mas os canteiros e alegretes permanecem caixas de terra pobre onde plantas raquíticas, com a poluição e a sujeira a pesar em cada folha, combatem pela sobrevivência com a hera diabólica sempre à espreita da sua oportunidade.

Supomos que a Divisão de Parques e Jardins da Câmara não tem verbas para acudir a todos os espaços verdes da cidade (e a lista de espera é longa e embaraçosa: Campo 24 de Agosto, Marquês, Horto das Virtudes, ...); infelizmente aqueles que poderiam complementar o magro orçamento da Câmara mais depressa contribuem para substituir calçadas portuguesas que não incomodam ninguém.

As conteiras estão perfumadas, de copa linda arroxeada, folhagem nova e algumas continhas do ano passado. Assim nos perdoam o descuido.

17.5.05

Pollens forever

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«As anyone who suffers hayfever knows, pollen travels through the air in massive clouds. Sometimes it is invisible and at other times it is so thick that yellow piles, billions of microscopic grains, can build up on street corners like mounds of sulphur powder. Unused pollen drops to the ground, sinks to the bottom of lakes and oceans or simply disappears. Unwanted pollen and spores have been landing on the ground for hundreds of millions of years and-with the right conditions-are indestructible. To survive, pollen cannot be exposed to oxygen. Nor can the grains be subjected to extremes of heat and pressure. When conditions are benign, pollen grains can be preserved in astronomical numbers­ -millions per cubic centimetre-and among palaeobotanists, palynologic field work is a comparative breeze. Pollen scien­tists need little more than a trowel and a matchbox-sized container to collect their fossils. The pollen is, however, visible only under a microscope and extracting the grains from the dirt requires the use of hydrofluoric acid-one of the most toxic reagents known and the best for isolating pollen.

If the conditions for preservation are maintained through millennia there is no limit on how long a pollen grain can survive buried underground. Such pollen is not petrified. The carapace is still the same organic polymer that was buried up to 400 million years ago. In fact the pollen wall is probably the most resistant natural polymer on earth. This means that palynologists can look at the exact pollen grains of the first primitive vegetation that began colonising millions of square kilometres of empty earth, though the delicate DNA inside is long gone and the preserved pollen is no longer capable of reproducing. Palynologists can thus make a good fist of re­creating entire forests from the earliest days of the plant kingdom.

"These are extraordinarily stable compounds"-Macphail told me. "In the New York water supply there are 400-miIlion-year-old spores from the Devonian era that are pristine-they look like they have just dropped off a tree»


in The Wollemi Pine: The Incredible Discovery of a Living Fossil from the Age of the Dinosaurs by James Woodford (Text Publishing Melbourne Australia, 2002), pp.72/73
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(By the way... Join the the Wollemi Pine Conservation Club ;-)
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Árvores do algodão

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Há já uns largos dias que esvoaçam e se espalham por todo o lado, levadas pelo vento, por vezes bem para longe da árvore mãe. Presas a uma espécie de algodão, as minúsculas sementinhas - que volteiam como leves flocos de neve- este ano tiveram direito a notícia do Jornal.
Ficámos assim a saber de fonte segura que os principais responsáveis por esta "folheca" primaveril são os "choupos-do-Canadá" ou "choupos-americanos" (Populus deltoides).
Na notícia também se referem os eventuais problemas alérgicos provocados por estes fiapos de algodão. É evidente que se os respirarmos e esfregarmos na cara poderemos provocar reacções aborrecidas, no entanto, e contrariamente ao que a maioria das pessoas imagina (e que a peça jornalística não esclarece), a chamada "febre dos fenos" (rinite alérgica sazonal) é provocada pelo pólen de outras espécies e não por estas sementes voadoras. Estas, aliás, são o resultado da polinização ocorrida anteriormente, nos meses de Março/Abril, quando os amentilhos das árvores masculinas libertaram o pólen. O facto de ser agora a altura em que algumas pessoas têm mais problemas alérgicos é porque é também a época em que muitas outras espécies vegetais estão no auge da produção do pólen, mas não é devido aos choupos.( fonte)


Populus sp.
Os frutos são pequenas cápsulas que se abrem na maturação libertando as sementes milimétricas presas a uns filamentos semelhantes a algodão. Em língua inglesa, as espécies de Populus que largam com mais abundância esta espécie de algodão são generica e muito apropriadamente designadas por "cottonwood".
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16.5.05

Árvores do Parque do Inatel em Ramalde #4


As últimas notícias nos jornais fazem-nos suspirar de alívio: tudo indica que vai imperar o bom senso e que há intenções sérias de impedir que se "rasgue" o Parque Desportivo do Inatel em Ramalde destruindo a maior parte do equipamento e ocupando um terço da sua área.

Parece que não vai ser necessário ninguém atravessar-se à frente das retroescavadoras (pelo menos é o que se dispunha a fazer uma das moradoras do bairro, segundo me informou o igualmente"activista" marido, e estou convencida que não seria a única ;-).
Foto: Cupressus e Chamaecyparis na entrada do Inatel

Preservar o parque do Inatel ; CDU quer rever PDM para poupar INATEL ; CDU vai tentar consenso sobre PDM para evitar corte do estádio do Inatel ; CDU e PS deverão aliar-se na defesa do Inatel

Anteriores:
Árvores do Parque do Inatel em Ramalde #1 ; Árvores do Parque do Inatel em Ramalde #2 ; Árvores do Parque do Inatel em Ramalde # 3 (se quiser comentar, por favor comente em # 3)

Palestra: Árvores notáveis do Porto e de Gaia


Fotos: pva 0504 - Solar dos Condes de Resende - Canelas - Vila Nova de Gaia

No próximo sábado, dia 21 de Maio, às 15h, e a convite da Associação Cultural Amigos de Gaia, os autores deste blog irão apresentar, no Solar Condes de Resende, em Canelas, Gaia, uma viagem fotográfica comentada por algumas árvores notáveis do Porto e de Gaia. Enquanto que do Porto a ênfase vai para algumas das árvores que celebramos no nosso livro À sombra de árvores com história, de Gaia falamos sobretudo de lugares, tentando esboçar um roteiro de jardins e parques com património arbóreo assinalável.

O Solar Condes de Resende é desde 1982 propriedade de Câmara Municipal de Gaia, que aí instalou a Casa Municipal de Cultura. A propriedade senhorial, referenciada desde 1042, esteve ligada também a Eça de Queiroz, que em 1886 casou com Maria Emília de Castro Pamplona, irmã do 5.º Conde de Resende. No pequeno e cuidado jardim, situado ao nível do 1.º andar, destacam-se as camélias multicentenárias, as sebes de buxo cuidadosamente talhadas que delimitam canteiros de roseiras, e a estátua em bronze de Eça de Queiroz da autoria de Helder de Carvalho.

Sábado - 21 de Maio - 15h00
Solar Condes de Resende, Travessa Condes de Resende, Canelas
Tel./Fax 227625622

Entrada livre

15.5.05

"...os jacarandás floriram..." (em Lisboa)

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«No meio desta ansiedade, uma notícia ajuda a dormir em paz. Uma só certeza: a de que os jacarandás voltaram! Esta semana, apesar da seca e mau grado o clima errático, que provocaram um estado vegetativo desequilibrado, os jacarandás floriram. Nas Trinas e nas Praças, na D. Carlos I e no Salitre, na Burra e em Belém, apareceram, tímidos e frágeis. Já não era sem tempo. Lisboa precisa de cor. Isto precisa de esperança.»
António Barreto (Publico, 15-05-05)

Adenda:
Ler a propósito O florir dos jacarandás
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Lanterna chinesa


Fotos: pva 0505 - Abutilon megapotamicum - jardins do Palácio de Cristal

DEVAGAR NO JARDIM

Devagar no jardim a noite poisa
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços,
Como se de novo fosse criada cada coisa.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar (1947)

14.5.05

Visita à Quinta do Alão

A Campo Aberto organiza no dia 28 de Maio, a partir das 14h30, uma visita à Quinta do Alão, em Leça do Balio, guiada pelo seu proprietário. A Casa de Recarei, na Quinta do Alão, está referenciada desde o século XV. Os actuais jardins, notavelmente bem mantidos, têm um cunho seiscentista - com os típicos bancos, alegretes, lago octogonal de desenho barroco, contrafortes e muros talhados em grandes blocos de granito - com alguns acrescentos recentes de bom gosto. São talvez os jardins antigos mais bem conservados de toda a região do Porto.

Destacam-se, pelo porte, várias japoneiras e rododendros, um salgueiro e alguns fetos arbóreos; e, pela sua raridade, um teixo multi-secular, de tronco tipicamente encordoado, que no Verão dá grande profusão de bagas vermelhas. A antiga horta e pomar foram transformados no século passado num bosquete com uma grande variedade botânica, exibindo exemplares bem desenvolvidos de Araucaria bidwillii, Araucaria angustifolia, Ginkgo biloba e Metasequoia glyptostroboides. Ladeia este jardim recente um caminho de buxo coberto por uma arcada de glicínias de flor roxa e perfume intenso.

Esta Quinta, que é pormenorizadamente referida nos livros Jardins com História (org. Cristina Castel-Branco - Edições Inapa, 2002) e Tratado da Grandeza dos Jardins em Portugal (Helder Carita / Homem Cardoso - 2.ª ed. Quetzal, 1998), está classificada como Imóvel de Interesse Público desde Fevereiro de 2002.

O número de participantes é limitado e é obrigatória a inscrição prévia pelo endereço paraujo(at)fc.up.pt

. «God has cared for these trees, saved them from drought, disease, avalanches, and a thousand tempests and floods. But he cannot save them from fools.» John Muir (1838-1914)
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John Muir (Wikipedia.en)
John Muir Writings
John Muir National Historic Site
John Muir Project
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13.5.05

"Flores para a cidade"

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«Uma das coisas que me impressionam nesta demorada remodelação a que tem sido sujeito o espaço público da nossa cidade desde há uma década, é a ausência de utilização de flores pelos arquitectos que têm intervindo.
Alguns são mesmo arquitectos estrangeiros de renome como os que fizeram os arranjos da Avenida Brasil e Castelo do Queijo ou a Casa da Música. Mas, no trabalho de todos eles, um facto sobressai: as flores não são mais um elemento de decoração e beleza, fomentadora de serenidade, tranquilidade e beleza da cidade e, para além de relva e algumas árvores, é a pedra e os grandes espaços vazios que dominam a paisagem urbana.Ainda poderíamos pensar que isso se deveria à falta de técnicos de manutenção da jardins ou de viveiros capazes de fornecerem a indispensável variedade de "matéria prima". Mas não é o que se passa, porque felizmente a cidade possui actualmente um muito bom serviço de jardins, cujo pessoal é competente e, sobretudo, extremamente diligente e atento à necessidade de alternância das flores segundo as épocas, aos efeitos cromáticos que os canteiros exigem e à sua rigorosa manutenção. (...)
Por favor expliquem-nos este amor ao granito e aos espaços vazios e este ódio, não, talvez desprezo, pelas flores! »
Ler a crónica completa de Paulo Mendo ( publicada n' O Primeiro de Janeiro em 12-05-05)

Ciência descobre a arma do crime


Foto: mdlramos 0504 - Cornus florida - Parque de Amarante

«O criminoso nunca escondeu as suas intenções, e chegou mesmo a publicitá-las em poema com o paradoxal título Carta de Amor. Se teve o desplante de nomear o local do crime (Jardim de S. Lázaro) e a vítima (Eugénio de Andrade), e ainda de assinar por baixo (Jorge de Sousa Braga), quem julgava ele enganar com um título assim? Os três últimos versos do poema não podiam ser mais explícitos:

Um dia destes vou-te matar...
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração


Até hoje, mais de vinte anos decorridos sobre este chocante anúncio, o criminoso tem escapado à justiça. Apesar de as autoridades alegarem não haver a certeza de ele ter alguma vez tentado cometer o crime, uma ameaça pública de morte nunca deveria ficar impune. São situações como esta que descredibilizam o sistema (...) [1] e é por isso necessário, agora mais do que nunca, agir com determinação. E não me venham com a história de que a poesia não é para ser tomada à letra, ou de que afinal a arma usada seria inofensiva. Tudo conversa fiada. Para desgraça dos malfeitores, a ciência forense não pára de evoluir. Pois que dizer da descoberta de que a flor da Cornus canadensis dispara pólen à velocidade de 1584 km/h? [2] Mortífero, sem dúvida. Era por certo com esta arma à cintura que o meliante rondava pelas sombras do Jardim de S. Lázaro nas manhãs de Primavera. Se nunca disparou, muitas vezes o quis fazer. Talvez a arma simplesmente não funcionasse das 9h às 19h, durante o horário de abertura do jardim.

Mas agora não escapa. Até porque, como é do conhecimento geral, um poema nunca prescreve.»
NOTAS
[1] Omitimos aqui o choradinho da praxe sobre a crise do sistema judicial.
[2] Segundo a última página do Público de ontem, o pólen desloca-se 22 cm em meio mili-segundo, o que é equivalente ao valor que indicamos e não aos 3 m/s que o jornal põe em título.

12.5.05

Port-wine magnolia



Fotos: pva 0504 - Michelia figo - Jardim Botânico do Porto

As flores da Michelia figo, que nascem nas axilas das folhas deste arbusto de copa densa e folhagem perene e luzidia, são uma deliciosa surpresa. As pétalas debruadas a vermelho lembram pequeninos cálices de vinho, mas do centro destes diminutos botões rescende, ao fim da tarde, um aroma intenso de banana.

Encontrámos o primeiro arbusto bananeiro no Solar dos Condes de Resende, em Gaia; depois outros dois ou três exemplares no auge da floração, de bom porte e exalando uma fragância que atrai mesmo quem por lá passe distraído, num pequeno jardim privado à face da rua de Vilar. O exemplar da foto é do Jardim Botânico do Porto; próximo dele vegeta também uma Michelia champaca, árvore rara que produz flores douradas e de cujas sementes se extrai um óleo perfumado (champak ou sabu em indiano); considerada sagrada na Índia, é frequente nos recintos de templos e a ninguém calçado é permitido aproximar-se da sua sombra.

O género Michelia, da família Magnoliaceae, é de origem tropical com espécies da China, Japão e Sudoeste da Ásia. A Michelia figo é endémica na China; o seu nome refere-se ao botânico italiano Pier Antonio Micheli (1679 - 1737), e por isso se pronuncia miquélia.

11.5.05

Árvores do Parque do Inatel em Ramalde #3

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No dia em que surgem mais algumas notícias de contestação ao projecto de destruição do Parque Desportivo do Inatel em Ramalde, aqui ficam mais algumas fotografias. Para que quem não o conhece, fique a saber do que se está a falar e a razão da nossa incredulidade e revolta.
E realize também a importância que têm, para certos planeadores da nossa cidade, os espaços verdes relativamente às vias para automóveis.

As notícias:
Inatel promete contestar solução do PDM do Porto (no Público)
INATEL pediu ao tribunal para ser esclarecido (no JN)


Ao lado: o ringue num sábado de manhã (toda esta zona inferior do Parque desaparecerá)


Em cima: Vista parcial do Estádio. Segundo o projecto da chamada Avenida Paralela, para além do bosquete de choupos que ladeia a bancada superior, desaparecerão também todas as coníferas (na sua maioria ciprestes-de-Lawson) e outras árvores que se vêem em frente, por detrás da cabine e do edifício da entrada.
As folhas em primeiro plano pertencem a acácias-robínias (ver em baixo)


Em frente vê-se o último prédio do chamado Bairro da Previdência, ao lado do qual está previsto passar a Avenida, mesmo na zona das árvores (na sua maioria robínias-acácias)


Vista para o interior do Parque desportivo de Ramalde na rua Aarão de Lacerda, na zona do ringue.
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Árvores do Parque do Inatel em Ramalde #1
Árvores do Parque do Inatel em Ramalde #2
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E o cócó, senhores?

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(desculpem mas não me ocorre mais nenhum título...)

Foto: mdlramos 0505

Enquanto que todas as árvores da cidade já se revestiram de folhas, os pobres Acer platanoides, que aqui se vêem por detrás da estátua da Menina Nua, ainda estão meio despidos. Os áceres desta variedade são os últimos a ficarem com folha (aqui e em todo o lado), parecendo sempre mal vestidos e tristonhos. Seria sem dúvida uma das coisas a mudar na Avenida dos Aliados, mas segundo quem apresentou o triste projecto, manter-se-ão!

O que já está a mudar é mesmo a calçada! No passeio do lado esquerdo da zona superior da Avenida, boa parte foi já substituída por cubos de granito. Ao observar aquele cinzento escuro não pude deixar de imaginar o efeito que sobre ele irá produzir o cócó das pombas. Será que faz parte do projecto, esse improvisado branco sujo sobre o cinza da pedra? Ou também prevêem erradicar as pombas?
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10.5.05

Destaque - Campo Aberto

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As obras na Avenida dos Aliados já começaram!
Claro que não é de ficarmos calados!
Junte a sua à nossa voz e comente no blog da Campo Aberto.

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A Avenida dos Aliados e o novo projecto no Dias com Árvores
Dos Jornais - Assembleia quer discutir projecto dos Aliados (20-04-05)
Descubra as diferenças (13-04-05)
"Será de ficarmos calados?" (23-03-05)
Sizentismo (16-03-05)

O último a florir



Fotos: pva - 0505 - Prunus lusitanica - Palácio de Cristal, Porto

A maioria das espécies do género Prunus é de folhagem caduca e floresce no início da Primavera: é o caso das amendoeiras e das cerejeiras, pretexto para excursões sazonais em muitos países do hemisfério norte. O azereiro (Prunus lusitanica) tem folha perene e a sua floração, não tão vistosa como a dos seus primos mais afamados, ocorre em Maio. Como já observou o amador da natureza, esta pequena árvore, afinal uma das poucas nativas do nosso território, é inexplicavelmente rara em jardins portugueses.

Uma espécie congénere também de folhagem perene, Prunus laurocerasus, comummente chamado loureiro-cerejo, costuma florir em Março; e, apesar de exótica (nativa dos Balcãs), é muito vulgar nos nossos jardins. As suas folhas são grandes, de margens lisas, o que a distingue do azereiro, com folhas mais pequenas e de margens recortadas. Ambas as espécies têm flores brancas, pequenas, agrupadas em cachos ao longo de hastes mais ou menos verticais.


Fotos: pva - 0503 - Prunus laurocerasus

9.5.05

"Minha horta, meu tesouro"

ou "o outro lado" do bairro das Campinas


Na foto da esquerda vê-se o edífício abandonado "por falta de dinheiro" que hoje é notícia no jornal, e a horta bem tratada do Sr. Nogueira. À direita pode admirar-se a Dona Rosa a cuidar do seu faval. "Isto não é nosso! A Câmara pode vir e tirar-nos tudo!". Na horta da vizinha, pelos vistos mais inclinada para a arboricultura, espreitavam dois pessegueiros, um limoeiro e um loureiro.






O Sr. Nogueira-"sem noz"- olha embevecido os pimentos, os tomates e as couves que plantara na véspera. "Sabe, sou da aldeia!". Mas quem não tem uma costela da aldeia? Acrescento eu com convicção.
Queixou-se dos "grafitis" que lhe sujam as paredes da casa e da miséria da construção abandonada, mesmo ali ao ladinho.




Não há horta portuguesa sem rosas e em quase todo o jardim que se preze a couve ou a salsa têm o seu lugar de estimação. Este é o "outro lado" do Bairro das Campinas: todo o terrenito serve para os mais diligentes cultivarem o seu palmo de terra.

E já agora uma pergunta (sr. Vereador): porque é que os jardineiros só aparam a erva e cuidam dos canteiros que bordam as ruas principais e não tratam do interior do bairro?
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8.5.05

"Keep a green tree in your heart and perhaps a singing bird will come."
Chinese proverb
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7.5.05

A quimera do luxo



Fotos: pva 0504 - Hospital Santos Silva - Gaia: tílias (1.ª foto); sobreiro, castanheiro e tília (2.ª foto); tílias, veigelas, pinheiros e hortênsias (3.ª foto); carvalho-alvarinho (4.ª foto)

O Hospital Eduardo Santos Silva, no Monte da Virgem (Gaia), está situado num recinto amplo em terreno onduloso e densamente arborizado: inúmeras árvores de grande porte, sombras frondosas, recantos ajardinados e, como moldura de todo o complexo, uma mata de sobreiros e carvalhos forrando a encosta. Apesar do mau estado dos edifícios, o ambiente repousante é já meio caminho para a cura. Para compreender o privilégio que é para a população gaiense ter o seu hospital num local assim, basta recordar a história recente dos dois maiores hospitais do Porto: a ampliação do Santo António, há uma década, sacrificou todo o seu antigo jardim; no São João, os sucessivos acrescentos ao edifício original (incluindo centro comercial e hotel!), e mais recentemente as obras do Metro, fazem temer que a envolvente arbórea do hospital, que começou por ser generosa, desapareça quase por completo.

Se os edifícios fossem recuperados ou reconstruídos, poderia Gaia ter um dos mais acolhedores hospitais do país. A ideia de hospital acolhedor nada tem de contra-senso, e decorre até do humanismo mais básico: trata-se de apaziguar a tragédia da doença com um ambiente aconchegante, que não se assemelhe ao de uma prisão ou quartel. Como este modo de pensar é pouco correntio mesmo entre políticos ex-médicos, planeava-se, até há poucos dias, construir o Hospital de Gaia noutro local, destinando-se os terrenos no Monte da Virgem ao inevitável condomínio de luxo. O que sem dúvida tem a sua coerência: num concelho onde escasseiam os locais aprazíveis, é natural que eles sejam um luxo só acessível a meia-dúzia de afortunados. A urbanização do actual recinto hospitalar até poderia conservar todas as árvores, mas o comum dos cidadãos deixaria de usufruir delas; e a multiplicação de condomínios fechados, de vidas que se resguardam do contágio de outras vidas, é uma fractura que vai minando o próprio conceito de cidade.

E como não pôr em dúvida a razoabilidade económica da edificação galopante que vai avassalando Gaia? Mesmo em prédios novos e em zonas comparativamente apetecíveis, como a vizinhança do Jardim Soares do Reis, são muitos os apartamentos devolutos. A Câmara tarda em compreender que, não sendo cada português obrigado por lei a ter mais do que uma residência, só pela valorização do espaço público pode o negócio imobiliário ter futuro. Pois quem se deixa iludir pelo condomínio dito de luxo se tudo à volta é inóspito, sem jardins, sem espaços para crianças, tantas vezes sem passeios nas ruas?

O caso do Hospital de Gaia registou há poucos dias uma feliz evolução: o Ministro da Saúde, na passada segunda-feira, declarou que a decisão de se construir o hospital noutro local será reavaliada, ponderando-se a hipótese de ele se manter onde está com instalações remodeladas. Oxalá que, mesmo com a discordância do Presidente da Câmara, entusiasta defensor do condomínio de luxo, essa sábia decisão não seja revertida.