31.3.06

"A pátria das camélias"

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No Jornal de Notícias

«Em 1890, o escritor francês Georges de Saint-Victor (em "Souvenirs et Impressions de Voyage") inventou uma das mais belas - senão a mais bela - designações para esta cidade "O Porto é a pátria das camélias". E acrescentava: "Até nos cemitérios as há". A ideia seria, depois, retomada por Alberto Pimentel (1925): "Camélias ou rosas do Japão, o que é certo é que elas fizeram do Porto a sua pátria adoptiva". Poder-se-á dizer coisa mais emocionante sobre algum lugar? Sobretudo sobre um espaço que nos habituámos a olhar sem, muitas vezes, nos apercebermos dos pormenores significativos que definem uma cultura e afirmam uma identidade.
Disse cultura. E que outra palavra poderíamos utilizar englobando o amor, o jeito, a arte, a ciência, o convívio que enraizaram a tradição de cultivar a rosa japónica (conforme os românticos), japoneira (conforme o povo), a camélia (conforme todos nós), tão firmemente enraizada no burgo? Cultura, sim, desde - ao que sabemos - o século XVI, quando as primeiras camélias foram plantadas na Península, nos jardins ainda hoje esplendorosos do Paço de Campo Belo. (Já estou a ouvir alguns "Mas isso é Gaia. Não é Porto". Interessam-me pouco tais autarcias. É o mesmo rio, a mesma terra, o mesmo falar, a mesma gente, a mesma génese, a mesma história. As mesmas camélias).
Cultura, sim. Pois que outra aptidão, outro saber poderiam ter produzido uma colecção de espécimes que o Horto das Virtudes, à volta de 1900, catalogava em cerca de 606 variedades (184 das quais de criação portuguesa)? Cultura e, claro, chão. Chão de solos fundos, antigos, bem molhados e drenados sob céus chuvosos. Chãos musguentos. De húmus fértil. Invernos agrestes, morrinhas trespassantes, nevoeiros pesados, chuvas embirrentas. Tudo junto formando o ambiente perfeito para o crescimento da Alba-plena- (a minha camélia branca), da Reticulata, da Gouveia Pinto, da Saudade Martins Branco (que agora soube ter sido dedicada - honra de uma cidade insubmissa - à memória do estudante João Martins Branco, assassinado pela polícia nos confrontos da véspera de 1 de Maio de 1931), da Aunt Rosalie, da Perfeição de Vilar d'Allen, etc., etc.
Não consigo entender a razão porque, na pátria das camélias, não tem lugar, anualmente, no melhor recinto, um grande festival das camélias. Competente e rodeado de condições logísticas e promocionais de modo a atrair visitantes nacionais, galegos, espanhóis e, por aí fora. Um festival chamando ao burgo os apaixonados europeus das camélias? E não é isso que uma cidade economicamente deprimida exige? Acontecimentos relevantes, que a relancem, prestigiem e transformem em pólo de sedução, entretenimento e requinte, através da projecção do seu património? E mais estamos à espera de quê, para, em comum com a pátria-irmã galega, organizar um festival europeu da camélia, repartido anualmente entre o Porto e uma cidade daquele outro chão das japoneiras?
Estamos à espera de ver camélias transplantadas para o Terreiro do Paço, para depois nos queixarmos do centralismo?


Depois de uns anos de luto, em que a pátria das camélias se esqueceu que o era, graças à iniciativa de uns quantos amantes do "juvenil frescor" das rosas do Japão, de uns esforçados que não perderam o respeito por uma faceta essencial da personalidade portuense, as camélias vão regressar, este fim-de-semana, ao Mercado de Ferreira Borges. Retomando a tradição das exposições dedicadas à mais bela das flores, que pinta, nos invernos tripeiros, a beleza das "suas manchas alvas como a neve e rubras como o sangue" (Armando de Lucena) aí teremos as camélias, durante dois dias.
Faço votos para que a resposta do público - de todos os que ainda não se submeteram à civilização do plástico e à mentalidade do cimento - seja demonstrativa do apego da cidade à flor que, por excelência, a simboliza e torne evidente o absurdo desinteresse pela nossa própria alma, que a não realização destas exposições de camélias tem demonstrado.»

Rabiscos naturais para muros urbanos



Em alternativa às borratadas tipo carimbo, assinatura ou recado em mau português (ou em língua que só o borratador e os da sua tribo entendem) que sujam muitas das pedras da cidade, poderíamos forrar os muros com trepadeiras - como por exemplo esta Akebia quinata, que dá flores com perfume de baunilha. Deste modo, as ruas que agora são cadernos de rascunho converter-se-iam em aromáticos corredores de verdura e cor que iriam registando a passagem das estações.

Este arbusto da família Lardizabalaceae, originário da China e Japão, exibe flores de dois tipos, embora de igual formato, diferindo essencialmente no tamanho: as femininas têm pé longo; as masculinas, mais pequenas, podem ver-se ao centro na foto em baixo. Os cinco folíolos em cada folha dão o nome à espécie; Akebia deriva do japonês akebi.



P.S. Uma foto dos frutos da Akebia pode ser vista aqui.

30.3.06

"As Árvores Cortadas"

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Deceparam as árvores da rua!
Sem troncos hirtos na calçada fria,
a rua fica inexpressiva e nua;
fica uma rua sem fisionomia.

0 sol, com sua rústica bondade,
aquece até ferir, até matar.
E a rua, a rir sem personalidade,
não dá mais sombras aos que não têm lar.

As árvores, ao vento desgrenhadas,
não lastimam a peia das raízes:
Olvidam suas dores, concentradas
no sofrimento de outros infelizes.

Eu penso, quando à frente dos casais
vem sentar-se um mendigo meio-morto,
que uma fronde se inclina um pouco mais,
para lhe dar mais sombra e mais conforto.

Sem elas, fica a triste perspectiva
de uns muros esfolados, muito antigos,
que se unem na distância inexpressiva
como se unem dois trôpegos mendigos.

Quando vier com o seu farnel de lona,
arrimar-se à sua árvore querida,
o ceguinho de gaita e de sanfona
será capaz de maldizer a vida.

E aquela magra e tremula viúva
que anda a esmolar com filhos seminus,
quando o tempo mudar, chegando a chuva,
dirá que dela se esqueceu Jesus!...

Meu Deus, seja qual for o meu destino,
mesmo que a dor meu coração destrua,
não me faças traidor, nem assassino,
nem cortador de árvores da rua!»
por Guiuseppe Artidoro Ghiaroni
(in Antologia da Nova Poesia Brasileira J. G. de Araujo Jorge - 1a ed. 1948
via Blog da Sabedoria)

Dedicado a A.F. e A.M. testemunhas impotentes de um abate a frio destroçador!
«Estas eram as árvores que periodicamente frequentavam este blog. Davam sombra, traziam o canto de alguns pássaros urbanos, serviam de poleiro para certos melros. Observava-as regularmente, fotografava-as, via como mudavam, via nelas a minha própria mudança. ... »
«Eram só choupos, mas eram os choupos da nosssa casa»

29.3.06

Magnolia cedofeita


No princípio do mês de Março tirei estas fotografias de uma magnólia arbustiva ao lado da Igreja de Cedofeita. (Será uma Magnolia liliflora?)
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De Coimbra vêm flores (2.ª parte)




É outra vez ao Eduardo que devemos estas notáveis fotos tiradas no Jardim Botânico de Coimbra. A magnólia agora em destaque é mesmo um caso especial, e vale uma ida urgente a Coimbra para admirar as suas maravilhosas flores: trata-se de uma Magnolia liliflora var. nigra, arbusto originário da China que, tendo o hábito de brotar rebentos das raízes, acaba por formar autênticas touceiras. A variedade nigra distingue-se da forma típica da espécie por as suas flores serem púrpura por fora e por dentro (na outra as flores têm essa mesma cor por fora mas são brancas por dentro). Mas qualquer das versões é uma raridade nos nossos jardins.

28.3.06

Imperdíveis...

............ as Sete fotos com a evolução de flor a amêndoa, por Annie Hall, no Outsider!

Andromeda de Lineu


Pieris japonica - Março de 2006

Pode dizer-se com justiça que alguns recantos no Jardim da Cordoaria e no Largo do Priorado foram ornamentados pelos jardineiros da Câmara num momento de inspiração: colocaram ali exemplares de Pieris, outro nome para musa; musas que, aliás, moram com a Primavera no Monte Pierus, mesmo ao lado do Monte Olimpo, a casa dos deuses gregos.

Da família Ericacea, que abriga também os géneros Rhododendron e Kalmia, estes arbustos exibem nesta altura bandarilhas de flores levemente perfumadas, brancas (cor-de-rosa ou vermelhas se forem cultivares recentes) tubulares, mais estreitas na ponta, semelhantes às dos géneros Enkianthus e Arbutus, a par da folhagem nova afogueada.

Os exemplares da foto são da espécie P. japonica que se distingue pelas folhas coriáceas e de margens serradas.

27.3.06

Camélias são notícia

«"O perfume delas é talvez a cor", escrevia o poeta Pedro Homem de Mello a propósito das camélias. Planta de origem distante, prefere a sombra à luz da manhã, que povoa os jardins públicos e privados do Porto desde há muitas décadas. Em largos períodos do século XX, marcado pela guerra, perdeu admiradores e o título de "rainha". Mas está de volta e recupera o prestígio perdido - a beleza, essa, nunca a perdeu. (...)
Na cidade do Porto, contrapunha o autor de Guia do Viajante , toda a gente conhecia estas flores. Toda a gente as oferecia. No Porto havia José Marques Loureiro, horticultor e jardineiro multiplicador, que na Quinta das Virtude, na Rua dos Fogueteiros, possuía uma imensa colecção de camélias. Num catálogo, Loureiro afirmava que no seu viveiro, além de outras espécies, podiam encontrar-se mais de 750 variedades de primeira ordem. "A nossa colecção não tem rival em Portugal e na Península", garantia, com orgulho, o horticultor e jardineiro multiplicador.
Além do viveiro na Quinta das Virtudes, no finais do século XIX, Alberto Pimenta aconselhava ao viajante de passagem pelo Porto que, se pretendesse contemplar outra colecção de assinalável qualidade, visitasse a quinta do "senhor visconde de Vilar Allen".
Mais de um século depois, a Quinta de Villar d'Allen - porque as camélias "preferem florir em sítio onde possam escutar o murmúrio do agreste e às vezes melancólico Douro - continua a ser uma referência para os admiradores dos arbustos e árvores que, como as magnólias, escolheram o fim do Inverno para exibirem as flores de diversas cores: desde a brancura plena ou mais rubro dos rubros.

E esse ressurgimento da imensa colecção de camélias, nos jardins e no bosque da quinta, junto ao Palácio do Freixo, deve-se à paciência de Isaura Allen. Tudo começou com uma dúvida: há sete anos, Isaura visitou uma exposição de camélias no Mercado Ferreira Borges, no Porto, e a dada altura o nome de uma das flores expostas era-lhe verdadeiramente familiar: "Camélia Alfredo Allen". De volta a casa, Isaura Allen percorreu o jardim e o bosque à procura da árvore. Aprofundou a pesquisa e descobriu que o nome Allen aparecia associado a outras camélias - variedades criadas e apuradas por familiares remotos. Isaura Allen, que ainda não conseguiu identificar todos os exemplares da colecção existentes na quinta, alargou agora a pesquisa e pretende fazer um levantamento das restantes camélias portuguesas.

"Há inúmeras camélias nascidas no Porto, criadas no Porto, são portanto um património da cidade que terá de ser preservado", (ver um exemplo) sublinha Isaura Allen, que insistiu com a autarquia portuense para voltar a expor as flores, como noutros tempos, no Mercado Ferreira Borges. O futuro da árvore de folha luzidia, acredita , parece agora garantido. "Há um reviver da jardinagem e do culto da camélia.
"Associada a critérios de elegância e aristocracia - como lembram Veiga Ferreira e Maria Celina, em O Mundo da Camélia -, perdeu muito da sua popularidade pelos fins século XIX . Mesmo assim, soube iludir a crise, o esquecimento: "Nada a fez desistir de florir entre as ruínas de castelos, casas solarengas e jardins de casas antigas." »



26.3.06

Dragoeiros no Porto


Dragoeiro no jardim da Viscondessa de Lobão - Agosto de 2005

No dia em que ouvimos a triste história de um dragoeiro que foi criado no Jardim Botânico da Universidade de Lisboa para acabar morto por afogamento no jardim de um político portuense, é oportuno mostrar como essa árvore se pode dar bem no nosso clima. Não temos, é certo, exemplares monumentais como os da Madeira ou das ilhas açorianas, mas alguns no Jardim Botânico e este no jardim da Viscondessa de Lobão, na Rua de Belos Ares, dão muito boa conta do recado, apesar de jovens.

O conjunto da casa e jardins da Viscondessa de Lobão, incluindo a airosa estufa em estilo arte nova que se entrevê na foto e os vários edifícios anexos, está classificado desde 1982 pelo IPPAR como imóvel de interesse público. Actualmente propriedade do Instituto de Segurança Social, funciona lá o Centro Condessa de Lobão, que conduz um valioso trabalho de integração de pessoas com deficiência. São essas pessoas que, coordenadas por profissionais, cuidam dos primorosos jardins e cultivam uma extensa horta.

(Só não sabemos ao certo se a antiga proprietária foi condessa ou viscondessa ou ambas as coisas.)

25.3.06

Boa notícia -Parque de Nova Sintra aberto ao público

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No Jornal de Notícias e n' O Primeiro de Janeiro
«Os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) do Porto assinalaram (...) o Dia Mundial da Água com a abertura ao público do Parque de Nova Sintra, espaço verde de cerca de sete hectares com 19 fontes.
O parque junto à sede dos SMAS, em Campanhã, é constituído por 22 canteiros, onde vivem cerca de 40 espécies de árvores, algumas das quais raras, como uma criptoméria-do-Japão e uma acácia da Austrália, referiu fonte da empresa.
Nos seus 68.500 metros quadrados (equivalentes a sete campos de futebol) de extensão total, o Parque de Nova Sintra alberga também 19 fontes e chafarizes que serviam várias zonas do Porto e que constituem agora marcos da história do abastecimento de água à cidade. O Chafariz de S. Bento da Avé Maria (1528), Fonte do Ribeirinho ou dos Ablativos (1790) e Fonte de Cedofeita (1826) são os exemplares mais antigos. O Parque de Nova Sintra, adquirido em 1932 pela Câmara do Porto à família Wright, pode ser visitado, desde ontem, nos dias úteis, entre as 9h00 e as 17h30.(...)»

Ver mais fotografias do local e ler a história das velhas fontes em S.M.A.S. - Jardins e Fontes
(in O Porto em fotografia de António Amen)
Ver tb Jardim-museu de fontes e chafarizes -Águas passadas

24.3.06

Eucaliptos monumentais- Monchique

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foto: agosto de 2003
Eucaliptos monumentais em Monchique (por trás do Hospital) na estrada que vai para o Barranco dos Pisões
(onde existe o célebre plátano- ver aqui e aqui )

A altura da primeira destas árvores ultrapassa os 30 metros (a pessoa que mal se vê encostada ao tronco mede 1.60 m). São muitíssimo maiores do que os eucaliptos abatidos na estrada para a Fóia e os assinalados na estrada para o Alferce , mas lembrei-me deles ao ler os comentários aqui trocados.
Terá razão o Parente da Refóias que, não deixando de lamentar a "desfortuna" que fizeram à serra de Monchique, acha que todos os "calitros" se valem, apenas importando pelo lucro que deles se possa obter?
Claro que não penso que cortar eucaliptos "ê o méme que fazer mal ôs carvalhêros ó ôtras arv'es assim" (nem tenho nada contra a exploração comercial da floresta) mas francamente, custa-me aceitar que se cortem árvores de grande porte. Mesmo eucaliptos. Talvez esteja errada. Não sei.
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Aditamento specioso



Magnolia x soulangiana var. speciosa no Jardim Botânico de Coimbra (Quadrado Central). Fotos de Eduardo.
(PS. A folhagem e as bagas vermelhas talvez não sejam da mesma árvore, mas de uma outra magnólia no mesmo local.)

23.3.06

magnolia variations

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(we are crazy about magnolias!)
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Moda Primavera-Verão



As flores da Magnolia x soulangeana, parisiense criada por Soulange-Bodin em 1820, poderão ter inspirado a moda juvenil das camisolas de duas cores, direito e avesso, como se fossem duas numa só, e os penteados com nuances. Filha da chinesa Magnolia denudata e da sino-japónica Magnolia liliflora, herdou desta a surpreendente dupla cor das flores - rubras no exterior, brancas por dentro - e o seu formato em cálice; da M. denudata recebeu a forma arredondada das tépalas e o perfume. Da mistura, as flores ganharam laivos de carmim em fundo rosé.

Étienne Soulange-Bodin (1774-1846), agrónomo, ex-soldado de Napoleão e sobrevivente da batalha de Waterloo, fundou o Instituto (e a Sociedade) de Horticultura de Paris, onde o seu híbrido floriu pela primeira vez em 1827, e organizou a primeira exposição de flores no Louvre em 1832.

Pierre Magnol (1638-1715), que deu nome ao género, foi naturalista francês, docente em Montpelier.

22.3.06

Exposição de camélias no Porto

- o regresso seis anos depois

A Sociedade Internacional das Camélias em Portugal informa que, nos próximos dias 1 e 2 de Abril, irá realizar-se a muito esperada Exposição de Camélias no Mercado Ferreira Borges, na cidade do Porto. Com o objectivo de preservar o nosso património, haverá, pela primeira vez, um reconhecimento especial para a melhor camélia de origem portuguesa.

A todos os que queiram expor as suas flores, pede-se o favor de enviar a inscrição para:

Câmara Municipal do Porto - Divisão de Parques e Jardins
a/c de Sr. Eng. Leandro Cardoso
R. de S. Roque da Lameira, 2040
4300-306 Porto

Tel: 22 5193530 Fax: 22 5193537 E-mail: dmpj@cm-porto.pt

Horário da exposição:
Dia 1 de Abril:
8.30h-12.30h: Montagem dos expositores
14.30h- Abertura oficial e entrega de diplomas
24.00h- Fecho

Dia 2 de Abril:
10.00h- Abertura
19.00h- Fecho



SOCIEDADE INTERNACIONAL DAS CAMÉLIAS
(THE INTERNATIONAL CAMELLIA SOCIETY)

A Sociedade Internacional das Camélias (ICS), fundada na Austrália pelo Professor E.G. Waterhouse em 1962, é uma organização sem fins lucrativos que se dedica ao estudo e divulgação desta planta. É uma Sociedade com membros espalhados por todo o mundo e organiza um congresso bienal, além de passeios e visitas propostos pelas secções regionais. Os seus membros recebem uma revista anual que fornece informações gerais, estudos científicos e actualização das variedades de camélias. A Delegação da ICS em Portugal existe desde 1981 devido à iniciativa do Eng. José Gil, contando actualmente com cerca de 130 membros.

A camélia é originária do sudeste asiático, a data da sua introdução no ocidente ainda não está determinada e permanece um mistério. Há grandes probabilidades de terem sido inicialmente trazidas por botânicos, representantes da coroa ou missionários portugueses na época dos Descobrimentos, mas apesar dos enormes exemplares que possuímos e da existência de faianças e azulejos portugueses do séc. XVII com o motivo "camélia", para já ainda não se encontraram provas concretas. Sabe-se que um botânico holandês do séc. XVII já mencionava a camélia com o nome de "Tzumaki", que corresponde ao japonês "Tsubaki" (árvore das folhas luzidias), e que a primeira planta viva de que há registo na Europa foi trazida por missionários antes de 1739, data em que já se encontrava uma camélia talvez proveniente da China na estufa de Lord Petre, em Inglaterra - era a chamada "Rosa Chinesa" ou rosa sinensis, uma camélia japónica semi-dobrada de cor vermelha. No início do séc. XIX as camélias atingem uma enorme popularidade no ocidente, e as primeiras de que há registo em Portugal foram encomendadas por volta de 1809-1810 por ilustres portuenses como Francisco Van-Zeller ou Alberto Allen, encontrando o seu expoente máximo no Horto das Virtudes, do célebre José Marques Loureiro - Horticultor e Jardineiro Multiplicador.

O Porto é a Cidade das Camélias por excelência, com uma riquíssima tradição de cultivo e criação de inúmeras variedades reconhecidas internacionalmente, incluídas e descritas no International Camellia Register - o registo oficial da ICS. Durante vários anos a Câmara do Porto organizou Exposições/Concursos de Camélias, uma actividade interrompida há seis anos. As camélias constituem um património natural e cultural de que o Porto se orgulha e que deverá manter, preservar e divulgar.

Para mais informações é favor contactar:
- Clara Gil de Seabra (Directora da ICS - Portugal), tel/fax 226170428

E-mail: claragildeseabra@tvtel.pt
- Maria Augusta d'Alpuim (Representante dos Membros da ICS - Portugal), tel.229384740
E-mail: calpuim@netcabo.pt
- Joana Andresen Guedes (Membro da ICS - Portugal), tel/fax 226173204
E-mail: jandresenguedes@gmail.com


Fotos: camélias do Parque de S. Roque, Porto

21.3.06

Poesias com árvores

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Poemas com árvores (aqui no Dias com Árvores)

Poesia da Árvore - Naturlink
Árvores em verso - Árvores e arbustos de Portugal

Versos i cançons d'arbres - Amics arbres · Arbres amics

Poetry: Tree Poems - Spirit of Trees
Poems On / About: trees -Poemhunter

Poésie- Le site en bois
arbre- arbres- Poésie Française
arbre - Toute la poésie
(em construção ;-)

Árvores com histórias: a "árvore grande" de Alijó

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«A "Árvore Grande" é um pedaço da alma de Alijó»
Por Nuno Amaral (textos) e Nelson Garrido (fotos) no Público de hoje

«O orgulho no plátano, mandado plantar há 150 anos, está espelhado no mais ínfimo pormenor da comunidade. No Dia Mundial da Floresta, câmara e freguesia convidam as crianças do concelho a plantarem 150 plátanos.

Sentada na borda da lareira, Maria Laura Rodrigues vai desfiando as memórias da "Árvore Grande". Conta a "balbúrdia" que Alijó viveu há pouco mais de 50 anos, quando o boato que corria anunciava o fim do plátano. "Dizam que o iam cortar para fazer socos", solta, por entre sorrisos. O povo não gostou. E o rumor deu mesmo azo a uma peça de teatro, como que para afastar os demónios. Maria Laura teria uns 16 ou 17 anos. A mãe, enfatiza, ainda serviu na casa do visconde de Alijó, o homem que mandou um servente, António Pela-Gatos, deitar a semente à terra. Agora, aos 70 anos, recorda os tempos em que as "notícias" circulavam debaixo dos ramos do plátano. "Aquilo sempre foi um ponto de encontro, era o centro da vila", afina.
Na véspera do Dia Mundial da Árvore, Graciano Ferreira olha para a escultura que a câmara e a junta de freguesia hão-de descerrar hoje. A lápide ainda está tapada. Há um novo banco de madeira debaixo das ramadas. Um feixe de luz há-de iluminar-lhe o tronco.

"Então não namorei? Eu e todos. Houve aqui muitas declarações de amor", esclarece. Hoje, aos 65 anos, é menos "maroto". "Ah, mas naquela altura, era, lá isso era."
O simbolismo do ancestral plátano está em cada pedaço de Alijó, no coração do Alto Douro vinhateiro. Todos lhe conhecem a história. Todos lá viveram um pedaço da infância. À entrada da vila, pelo sul, quem vem de Pinhão, está a Escola de Condução Plátano. Na avenida central, o Café Plátano. A árvore ilustra porta-chaves, faz parte dos panfletos de promoção turística. Criou uma rota própria. A "Árvore Grande", no léxico local, é mesmo o símbolo da Junta da Freguesia de Alijó. "É um pedaço da alma desta vila", classifica o autarca Alípio Alves. Tanto assim é que a comemoração dos 150 anos do plátano era um dos pontos do manifesto eleitoral do socialista. "E, se o tempo ajudar, amanhã [hoje] é cumprido", regozija-se.

Festa para todos ao final da tarde
Para que a homenagem também singre na terra, os alunos das escolas do concelho plantam 150 plátanos a poucos quilómetros do centro da vila. "Ao final da tarde, teremos um momento de poesia e um lanche aberto a toda a população, porque a "Árvore Grande" é de todos", sublinha o presidente de câmara, Artur Cascarejo.
Foi junto ao local onde havia de nascer a árvore que a mãe da Maria de Laura conheceu o visconde de Alijó. Uns anos depois, já a mãe de Laura trabalhava na casa senhorial, o visconde mandou plantar a árvore. Porquê, nunca se soube. Mais tarde, o local onde o plátano já ganhava corpo, e um simbolismo próprio, deixou de integrar a quinta dos "senhores". A passagem era estreita e o filho do visconde deu mais um pedaço de terra.
Hoje, ao final da tarde, Maria Laura há-de sentar-se nas imediações da árvore a ouvir poesia e a saborear uma vitela. "Já há 50 anos lá estive. Foi quando puseram a placa dos cem anos."


A "Árvore Grande" cresceu e resistiu. A placa ainda hoje avisa o viajante. Ou "viandante", como escreveu o antigo inspector escolar Mira Saraiva. Na súplica que lavrou, o plátano faz um pedido aos visitantes: "Tu, que passas, olha-me bem e não me faças mal". »

Ler a propósito: Plátano de Alijó (17.10.05) ; PLÁTANO COMPLETA 150 ANOS

Da Festa da Árvore ao Dia da Árvore e ao Dia Mundial da Floresta

20.3.06

Anunciação


Muscari armeniacum - Serralves

A neve derreteu
Nos píncaros da serra;
O gado berra
Dentro dos currais,
A lembrar aos zagais
O fim do cativeiro;
Anda no ar um perfumado cheiro
A terra revolvida;
O vento emudeceu;
O sol desceu;
A primavera vai chegar, florida.

Miguel Torga, Diário XI (1969)

19.3.06

Feira de S. José - hoje em Leça

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Feira de S. José, vendedoras de vassouras de giestas (Março, 2004)
Realiza-se hoje em Leça do Balio, no Parque de Santana esta tradicional "feira dos agricultores", como há quem assim lhe chame.
(Se não fosse a Ferrel iria lá ;-)

Actividades de substituição



Diz quem viu e sabe que neste tanque circular, na Casa da Ínsua, «crescem nelumbos, planta aquática da família dos lótus vulgares, extremamente rara nos nossos jardins». No Inverno a planta ainda mais rara se faz, dela não sobrando qualquer amostra à tona da água. Fica assim meses a fio uma infra-estrutura valiosa à míngua de utilização, afligindo pelo mau exemplo quem tem por missão gerir e optimizar. O que vão fazer os peixes do tanque, que não hibernam nem cessam de rodopiar, para ocuparem proficuamente esse seu excesso de tempo livre? Convocadas de surpresa, as camélias estiveram à altura do desafio: ei-las já flutuando em actividades de substituição.

18.3.06

Dias sem árvores

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Desclassificações e justificações
«...Esta desclassificação resulta do facto de este exemplar ter sido podado de tal forma que perdeu as características que tinham levado à classificação de árvores de interesse público.»

"Sobreiro secular foi abatido em Évora"
«...A sombra da sua enorme copa acolheu, anos a fio, as pessoas nos dias de brasa, até que a câmara local resolveu abrir uma estrada mesmo junto à velha árvore, que até então se tinha mantido pujante e viçosa. ...»

Grandeza e graça


Casa da Ínsua, Março de 2006. Lago com jarros-de-jardim (Zantedeschia aethiopica) e rua do buxo

Na Casa da Ínsua há várias ruas que não são requalificadas há duas centenas de anos. Um «desleixo» que os poderosos-de-pequena-arte não deixariam medrar mas que muito apreciámos na nossa recente visita a esta quinta.

Numa carta de 1909, transcrita por Sousa Viterbo em A jardinagem em Portugal (1909), o então proprietário da Casa da Ínsua, Manuel de Albuquerque, descreve em detalhe alguns desses caminhos: «As principaes ruas têem 4m,40 (4 varas) de fórma que pódem ser percorridas facilmente de carruagem. Essas ruas são todas arborizadas, sendo as mais notáveis uma rua de buxo, formando abobada, plantada em 1775, com 300 metros de comprimento em linha recta, uma de Cedros do Bussaco, provavelmente da mesma data, uma de Palmeiras, uma de Avelleiras e outras de Carvalhas.»

E Ílidio Araújo, em Quintas de recreio (1974), acrescenta: «Os arruamentos das matas, formando extensas galerias de belíssimo efeito, são conhecidos por nomes diferentes, na sua maior parte nomes das senhoras da família e das relações do proprietário (...). Uma das mais belas ruas é a chamada Camila de Faria, numa extensão de 340 metros. É toda guarnecida de Cupressus glauca, cujos troncos apresentam uma altura de 50 metros, e uma circunferência na base de 3,70m.»

Juntemos-lhes a Rua Emília, a Rua Laura, a Rua Luísa e a Rua Maria, ornamentadas por monumentais exemplares de Laurus nobilis, Populus pyramidalis ou Eucalyptus globulus, sem uma rotunda para embalar o trânsito ou um viaduto para o fazer voar, e temos um cenário de pesadelo para os arautos do progresso cimentado e alcatroado. Que o Portão da Sereia da Casa da Ínsua nunca saúde tais convidados.

[Citações extraídas do livro Jardins com História, editado por Cristina Castel-Branco]

17.3.06

Atenção aos lódãos!

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Já começaram a abotoar! Flores, folhas, e em breve frutos minúsculos para acompanhar com emoção.
(It's show time again! A Ana também já deve ter reparado.)

Bem, atenção aos lódãos em particular, porque vivo na rua do Porto com o maior número de lódãos (e os mais bonitos até serem podados no ano passado) mas não só. Muitas outras estão por todo o lado a rebentar: liquidâmbares, áceres, carvalhos, choupos... "You name it."

(sem título)

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Não regressarei à terra
como uma folha que cai.
Condição de ser a hera
que no meu tronco se enlaça
sou a nascente da água
que me leva quando passa.

Não sou poeira que o vento
arrasta até encontrar
a florescência da flor.
Origem morte existência
sou a própria florescência
incontinente na flor.
Natália Correia (1955)
Poesia Completa. O Sol nas noites e o Luar nos Dias (Lisboa: Dom Quixote, 1999)

16.3.06

Rotundas no deserto

Viajar no país não apresenta dificuldades de maior: localizamos os pontos desejados num mapa de estradas actualizado (para isso, e dado o ritmo das inaugurações, ele não deverá ter sido editado há mais de três meses), e procuramos ligá-los por uma sucessão de linhas a traço grosso. Numa primeira fase só nos interessam as linhas marcadas com A; se elas não nos permitirem alcançar o destino, usamos os IPs e os ICs; e, se estes ainda não forem suficientes, resignamo-nos, para a etapa final, com as EN's, que de tão finas quase não se vêem no mapa.

Viajar não será o verbo apropriado para descrever este frenesim de nos deslocarmos entre dois pontos no menor intervalo de tempo possível, ignorando tudo quanto se encontre no caminho: planar é termo mais justo. Há um país uniforme de auto-estradas, feito de largas pistas de asfalto, estações de serviço, portagens, nós de acesso, que se sobrepõe, obliterando-o, a um país diferenciado de terras, paisagens e gentes. Por isso é educativo, seja por necessidade ou por opção, abandonar o suave tapete da auto-estrada para rodar durante uns quilómetros por uma EN.

Talvez o país assim redescoberto não seja bonito, mas é real, é nosso, e é bom que saibamos como ele é. No passado sábado, uma ida a Penalva do Castelo, com regresso por Mangualde, Nelas e Viseu, deu-nos a ver uma paisagem escalavrada pela eucaliptização e pelos incêndios, que nenhuma Primavera poderá redimir, e de que o solo exaurido e imprestável prenuncia o avanço do deserto.

A beleza que ainda subsiste neste pedaço da Beira Interior encontra-se nas quintas privadas (como a da Ínsua ) ou em povoações como a de Santar, no concelho de Nelas. E, na sede do concelho, olhamos com admiração respeitosa para a profusão e variedade de rotundas que pontuam o espaço público. Vê-se que há aqui uma escola de rotundas, uma exigência que não transige com a repetição e faz de cada rotunda, apesar da sua inescapável rotundez, uma composição única, decorada ora com arremedos de jardim, ora com esculturas diversas, ora com uma combinação das duas coisas. Não diremos taxativamente que haja beleza na rotunda em si - mas, se nela crescer uma árvore, há pelo menos a beleza dessa árvore, o que sempre é um alívio depois de tantos quilómetros de terra queimada.

15.3.06

Begónias-de-Inverno


Bergenia crassifolia

Estão agora em conjuntos bem desenhados por todos os passeios que foram bafejados com a sorte de um canteiro. São exemplares de Bergenia, género com muitos híbridos e cultivares, que aprecia o frio mas não desdenha de um nicho soalheiro. Homenageiam o início antecipado da Primavera e o botânico alemão Karl von Bergen (1704-59), autor de Flora Francofurtana (1750), um catálogo detalhado das plantas da região de Frankfurt, com índice remissivo (componente rara em compêndios portugueses actuais...)

Da família Saxifragaceae, esta herbácea é nativa dos Himalaias e Sibéria mas, apesar da neve, é vivaz e multiplica-se facilmente por divisão dos rizomas. As folhas da espécie crassifolia, a da foto, são de textura espessa como de couve, ovaladas e largas como orelhas de elefante; espraiam-se, atapetando o solo, mal o sol espreita. As inflorescências são erectas e têm pedúnculo longo elevando as panículas cima da folhagem quase rasteira.

A designação vernacular portuguesa é chá-da-Sibéria em alusão à tradição asiática de preparar infusão das folhas que são ricas em tanino.

14.3.06

Dias sem árvores

Actualização.
2- Confirma-se e ainda bem: o "eucalipto-de-jardim" mantem-se intacto e talvez, talvez floresça em Junho. Isto porque também lá continua anunciado o pedido de licenciamente de obras, o que não prenuncia nada de bom.
1-Recebemos um mail de alguém que lá se deslocou de propósito, informando que afinal a Corymbia ficifolia não estava cortada e que a árvore podada não tinha sido o "eucalipto vermelho" mas outra.
Mas as informações continuam a ser contraditórias por isso vou esperar e ser como S. Tomé: terei que ir ver para crer.

«Ergo-me revoltado, inconformado no desprezo com que energúmenos vários, deixam suplicantes os ramos trucidados dos restos da árvore desta outra fotografia, de hoje, que eu próprio recolhi. Não posso compreender muita coisa e definitivamente me recuso a aceitar pacificamente tantas outras. Não haverá Maio vermelho este ano Manuela!
E porque será que secaram a árvore da forca? Porque será que a arrancaram pela raiz e a cortaram à medida de cavacas para alimentar lareiras famintas de novos-ricos, pobres de espírito? Quando tão necessária era ainda para pendurar pelos cueiros as inteligências saloias dos que se julgam donos da cidade!» LFV

«Somos um povo pequeno, de mentalidade pequena, num país pequeno, com cidades pequenas e árvores pequenas.» JRF

13.3.06

Uma senhora camélia


Camellia reticulata - Serralves - Março de 2006

Um dos inconvenientes do regionalismo japoneira para designar a camélia é o de sugerir que todas as variedades ornamentais deste arbusto pertencem à espécie Camellia japonica. Pois é precisamente por esta altura do ano que uma vistosa camélia de outra espécie, a Camellia reticulata, inicia a sua floração, e seria injusto confundi-la com a sua congénere. Embora as flores da C. reticulata sejam peculiares, de grandes pétalas onduladas vermelhas ou róseas deixando entrever o núcleo de estames amarelos, a forma mais segura de a distinguir da C. japonica é pelas folhas: coriáceas, pontiagudas, de cor baça, contrastando com as folhas luzidias, comparativamente maleáveis da japoneira.

Menos resistente ao frio do que a C. japonica, a C. reticulata é muito apreciada pelas suas grandes flores, as maiores e, para alguns, as mais belas de todas as camélias. A sua introdução na Europa ocorreu em 1820, constando já em 1865 do primeiro catálogo do horticultor portuense Marques Loureiro. O epíteto reticulata refere-se à fina rede de veias que marca a superfície das folhas.


Camellia reticulata - rua de Vilar (Porto) - Março de 2005

12.3.06

Carvalho-de-Monchique (Quercus canariensis)

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Há uns dias surgiu na blogosfera um apelo veemente no sentido de se salvarem os eucaliptos de grande porte que estão a ser abatidos na "estrada da Fóia" em Monchique, as últimas grandes árvores que teriam sobrado- (presumo que) nessa parte da estrada- do grande incêndio de 2004.
Também se interrogava Manuela Rocha sobre o destino das árvores que na estrada de Monchique para o Alferce se encontram assinaladas por marcas vermelhas. Provavelmente o legítimo proprietário já as destinou para o abate, contando com o provento que delas poderá obter.
Mas repito aqui o que já escrevi no Dias sem árvores: será que se justifica o abate de árvores de grande porte mesmo que em propriedade particular, quando de certo modo elas se tornaram parte integrante da paisagem de um local e por isso "pertença" de todos? Qual o papel das autarquias nestes casos? Não "deveriam" adquirir essas árvores e zelar assim pelo património natural das localidades? Muitas delas mereciam ser classificadas de interesse público como foi o caso desta de que hoje se publicam alguns "instantâneos", obtidos justamente no Verão 2004 (antes da segunda leva de incêndios).

Trata-se de um Quercus canariensis, classificado em 1993, que se encontra na E.N. 267 - a referida "estrada do Alferce"-ao Km. 32,820).


Este espécie de carvalho de folha semi persistente é originária da zona mediterrânica ocidental : Sul de Espanha, Portugal e África do Norte (onde se podem encontrar exemplares de porte excepcional, geralmente associados "a lugares sagrados") .
Conhecido entre nós por carvalho-de-Monchique, é, noutros idiomas, designado por uma grande variedade de nomes todos eles interessantes pela informação que transmitem: em árabe- zen; em francês- chêne zène, zéen ou zan, chêne de Kabylie, chêne des Canaries , chêne algérien, chêne de Mirbeck ; em inglês- algerian oak, canary oak, Mirbeck's oak ; em espanhol- quejigo moruno, quejigo andaluz, quejigo africano e roble andaluz. (fontes: aqui , aqui e aqui) .
A placa que assinala a classificação deste exemplar indica ser uma árvore centenária; já na publicação do Instituto Florestal, Árvores isoladas, maciços e alamedas Classificadas de Interesse Público (1995), pode ler-se que «é relativamente jovem, mas importante pela sua raridade». As suas dimensões, de acordo com o referido documento oficial, seriam então: 22.50 m. de altura, 2, 80 de circunferência a 1.30 m. e 21.00 de diâmetro médio da copa. Também aí se diz ser este carvalho propriedade da Junta Autónoma das Estradas. Na publicação homónima do mesmo Instituto (versão policopiada) de 2003, há dúvidas quanto aos proprietários, na medida em que aparece também como possível dono a C.M. de Monchique (para além da JAE).
Neste concelho, no lugar do Pomar Velho, foi classificado em 1997 outro Quercus canariensis.

Outras árvores classificadas de Monchique: Araucárias classificadas - Plátano- Sobreiro centenário

11.3.06

«Uma coisa sei hoje: não é possível ser feliz (nem infeliz, não é possível ser) sem árvores por perto.»
Manuel António Pina in "Uma crónica à janela", Visão (06.03.09)
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10.3.06

Das 9 às 5


Lampranthus aureus - Jardim Botânico do Porto - Fevereiro de 2006

Suculenta de folhas unidas pela base e espessas de água, traço que assegura a sobrevivência da planta em meios arenosos e períodos sem chuva, a espécie Lampranthus aureus anima os jardins rochosos formando nichos coloridos e brilhantes quando em flor. Como funcionários públicos diligentes, em cada dia as margaridas cor-de-laranja e de pé alto começam a abrir pelas 9h da manhã, estão completamente expostas ao meio dia solar e encerram o expediente a partir das 5h da tarde, acompanhando o declínio do sol. As sementes, que se mantêm viáveis por muitos meses, têm tratamento cuidadoso: quando chove, ou há água em abundância, as cápsulas que as guardam incham e só então as largam, garantindo-lhes um solo promissor para que não se desperdicem.

O género Lampranthus - nome que deriva das palavras gregas lampros (brilhante) e anthos (flor) -, é um dos mais recheados da família Aizoaceae, com mais de 200 espécies maioritariamente sul-africanas. São parentes próximos dos chorões (Carpobrotus edulis), que de tanto abundarem nas nossas praias são classificados como invasores; mas estes são funcionários que trabalham em local de veraneio.

9.3.06

Festa das Camélias

Vai decorrer, no último fim de semana deste mês (dias 25 e 26 de Março), em Celorico de Basto, na Praça Cardeal D. António Ribeiro, a III Festa Internacional das Camélias do concelho. O evento inclui:

1) uma exposição-concurso, aberta ao público no sábado das 15h30 às 22h00 e no domingo das 10h00 às 19h00, em que este ano a maior novidade é um prémio para a melhor camélia portuguesa;

2) uma pequena feira de produtores de camélias anexa à exposição;

3) um fórum sobre camélias, com início às 17h00 de sábado, onde intervêm, entre outros, a D. Isaura Allen (da Quinta de Villar d'Allen), a Dra. Carmen Salinero (da Associação Espanhola de Camélias) e o Prof. Fernando Catarino (ex-director do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa);

4) uma visita guiada aos famosos (e formosos) jardins de camélias do concelho de Celorico de Basto, com partida às 10h00 de domingo.

A participação em (3) e (4) é limitada e está sujeita a inscrição prévia, a efectuar até ao dia 17 de Março. Para mais informações, contacte a empresa municipal Qualidade de Basto através do tel. 255 320 250 ou do endereço electrónico geral@qualidadebasto.pt


Camélia «Anemoniflora» na Quinta de Santo Inácio
(uma das premiadas na Festa das Camélias de 2005 em Celorico)

8.3.06

Mulheres e árvores

A propósito da data de hoje

Vrikshaka

(foto manueladlramos)
"Divinité à l'arbre (vrikshaka ou salabhanjika)
Rajhastan, Harshajiri . X ème siècle
MG 18213"

Musée Guimet, Paris

7.3.06

Ofício de jardineiro

«Não há ofício mais lindo que o de jardineiro. O contacto diário com flores afina a sensibilidade, o gosto. O exercício suave, a luz do sol matutino e a sombra fresca ao pino do meio-dia retemperam o corpo. Adelgaçam-no, tonificam-no e revestem-lhe a pele de um doirado velho, que não só parece como cheira bem. Ser jardineiro é ser beneficiário de todas estas influências robustecedoras e afinadoras. Em contra-partida, é votar à terra e ao ar livre, como geradores de belezas múltiplas e variadas, um amor de raiz. O jardineiro é o único agricultor que ama a terra. Qualquer outro que nela esgravate derreado, mal alimentado, pèssimamente vestido, para auferir do trabalho bruto contra o cascalho uma côdea de centeio ou de milhão, olha para a terra com desdém, se é que a não odeia. O jardineiro é o cavador estilizado em príncipe do feno.»

João de Araújo Correia, Cinza do lar (1951)


Margarida-amarela (Rudbeckia hirta)

6.3.06

Parque Municipal II

A natureza é imóvel.
A natureza, tapeçaria
onde o verde silente se reparte
entre caminhos que não levam a lugar nenhum.
São caminhos parados. De propósito.
O lago, tranquilidade oferecida.
A pontezinha rústica de cimento
não é feita para ninguém passar
de um ponto a outro.
Feita para não passar.
A pontezinha sou eu ficar imóvel
por cima da água imóvel
na tapeçaria imóvel para sempre.
O barquinho da margem devia ser queimado.

Carlos Drummond de Andrade, Boitempo (1968)


Cedros-dos-Himalias e ponte sobre o lago - Parque de S. Roque, Porto

5.3.06

Ameixoeiras na cidade

.

Depois da chuva a bonança e hoje, se me sobrar tempo, vou juntar à ronda das magnólias que
planeava fazer, a das ameixoeiras em flor.

Prunus cerasifera var. pissardii rua Beato Inácio de Azevedo (Porto)

O nome científico desta variedade ornamental extremamente comum nas nossas cidades, vulgarmente designada por ameixoeira-de-jardim (mas que bem se poderia chamar ameixoeira-de-cidade) despertou a minha curiosidade.
E mais intrigada fiquei com este Senhor Pissard, um francês que foi jardineiro chefe do Xá da Pérsia! A ele se deve a introdução desta arvorezinha deliciosa na Europa por, em 1880, a ter feito chegar "dos jardins imperiais de Tabriz capital do Azerbaijão"(cf. Brosse 2000) a Paillet viveirista em Sceaux.

O epíteto cerasifera deve-se ao facto de produzir uns frutos pequenos do tamanho de cerejas (em latim cerasus). Razão aliás pela qual, por exemplo em espanhol, se chama para além ciruelo pissardi (ameixoeira p.) cerezo de Pissard e cerezo de jardín (ver)
Ver também a ficha relativa a esta árvore no muito recomendável Arborium de Leiria .

Aviso: de novo, no jardim da Casa das Artes, Exposição a não perder (primeiros e últimos dias)
Pedido: e na sua rua também estão em flor? Diga-nos onde ;-)

4.3.06

Dias sem árvores em Serafão- Fafe

. «E, uma opção tão drástica e radical, com certeza que mereceu ponderação, conselhos, opiniões de experts na actividade de engenharia florestal, paisagística e até ambiental, para evitar que a coberto de boas intenções se pratiquem deslizes... »

(nanja dúvidas!)

3.3.06

Tepalina



O género Magnolia, o mais vasto da família Magnoliaceae, inclui uma centena de espécies nativas de zonas temperadas da Ásia e América que produzem flores grandes mas de estrutura muito simples. Para descrever o facto de a componente vistosa da flor não ser nem conjunto de pétalas nem de sépalas, mas estruturas onde cálice e corola não estão sequer diferenciados, os botânicos no século XX forjaram a palavra tépala, interferência não rara e bem-vinda da ciência na linguística. Caprichosamente, a maioria das espécies caducas asiáticas floresce quando as folhas novas ainda não nasceram, e as americanas quando a folhagem recente já forma copa densa.

A espécie na foto, M. stellata, é originária do Japão e tem folhas elípticas, reticuladas, com margens levemente onduladas e um veio central pronunciado; as flores são brancas ou cor-de-rosa, com 12 a 18 tépalas comestíveis, formato de estrela despenteada e um acentuado perfume de limão.

Na Quinta de Bonjóia, no jardim à entrada do palacete, há um exemplar de belo porte de M. stellata que costuma florir generosamente mais do que uma vez por ano. É que lhe fazem companhia outras magnólias, camélias, quaresmeiras, palmeiras, renques de brincos-de-princesa e margaridas-amarelas, uma passiflora que cobre uma pérgola de muitos metros e uma feijoa preciosa; e a stellata, como todas as estrelas, faz questão de ser notada.

2.3.06

As Quintas do Porto Oriental

Palestra por Manuel de Azevedo Graça
(Mestre em História da Arte; membro da Divisão do Património Cultural da Câmara Municipal do Porto)

Sábado, dia 4 de Março, às 14h30 no auditório da Quinta de Bonjóia (Porto)

Organização: Campo Aberto

Entrada livre

Nota: para chegar à Quinta de Bonjóia pode utilizar-se a rua Pinheiro de Campanhã, ao longo das traseiras da estação ferroviária, que dá acesso directo à pequena rua da Bonjóia onde se situa a entrada para a Quinta.


Foto: Quinta de Bonjóia, Julho de 2005

1.3.06

"Ramos entrelaçados de flores de ameixoeira de Pui-sane-ngá"

Assinalamos a efeméride -Camilo Pessanha faleceu a 1 de Março de 1926, em Macau- com a reprodução da capa do livro O Testamento de Camilo Pessanha de Danilo Barreiros, em que se podem admirar ramos com "mei hua"- termo que se traduz normalmente para "plum blossom" em inglês e "flor de ameixoeira" em português (conquanto alguns autores considerem que se trata de uma espécie de Prunus mais afim do pessegueiro do que da ameixoeira).

Pedro Barreiros, o autor da capa, terá muito provavelmente escolhido esta imagem devido ao facto da expressão "mei hua" surgir no ex-libris do poeta (descoberto por puro acaso em 1931 pelo Dr. Danilo Barreiros, da Academia Portuguesa de Ex-libris, e pelo filho de Pessanha quando "destruíam alguns livros e papéis"* do espólio particular de Camilo Pessanha, empregando os próprios termos do autor).

«Selo da Biblioteca "Ramos entrelaçados de flores de ameixoeira de Pui-sane-ngá"»*

Segundo a tradição chinesa, as ameixoeiras em flor são, juntamente com o bambu e o pinheiro, um dos três amigos do Inverno. Num interessante artigo de Julie Ardery sobre estas flores, as primeiras a florir no Norte da China, no final do Inverno, pode ler-se o seguinte: «"Plum blossom does not crowd the spring time with all the other flowers to catch people's attention but enjoys its own efflorescence lonely in the winter. The poets of old time took it as a symbol of pride, noble self-esteem, and perseverence for that cause." »

De acordo com The Japan Foundation Email Magazine, No. 34 (que a minha amiga DK me reenviou ;-) : «The plum blossom tree also symbolizes studying, and its other name, kobun boku, means "the tree that loves letters." It has been said that this name came from the words of an ancient Chinese emperor "When people love their studies, the plum trees blossom profusely. But when the people abandon their studies, they don't blossom."»

*In: "O ex-libris de Camilo Pessanha" , Boletim da Academia Portuguesa de Ex-Libris, nº19, Lisboa, Janeiro de 1962
Ver Camilo Pessanha - uma iconografia