26/10/2009

Pegadas ao sol



Heliotropium europaeum L.

Tornassol, nome de planta e do irascível cientista surdo das aventuras do Tintin, é tradução à letra de Heliotropium. Diz-nos tal nome que ela, a planta, se deixa guiar pelo sol, no pouco que lhe é possível mexer-se. O girassol (Helianthus annuus) tem idêntico comportamento, mas nesse caso são as «flores» que se viram para a luz - e não as folhas, como sucede com o tornassol.

O exemplar da foto não pode queixar-se de falta de oportunidade para exercitar os seus tropismos: nada lhe faz sombra e o sol bate-lhe em cheio durante todo o santo dia. Vive ao lado do larguíssimo estradão que foi rasgado quando transformaram a serra em parque eólico. Aos sons da natureza - insectos, pássaros, vento - juntou-se o incessante zumbido das ventoinhas. Os automóveis, agora frequentes, levantam espessas nuvens de pó que, assentando, recobrem toda a vegetação que margina a via.

Fazia falta estrada assim tão larga? Em muitos dos lugares de Portugal que, nominalmente, são reservas naturais e deveriam estar a salvo de invasões desregradas, as eólicas foram o pretexto para franquear o acesso a todo o tipo de veículos. Aqui perto, ainda na aldeia de Bairro mas do outro lado da EN357, fica o Monumento Natural das Pegadas dos Dinossáurios da Serra de Aire. O bicho-homem, fisicamente insignificante face aos monstros jurássicos, não pode competir com eles imprimindo no chão a marca do seu pé. Mas traz a sua maquinaria e deixa um rasto de paisagem destruída: é esse o seu monumento para a posteridade.

24/10/2009

Madorneira-bastarda



Inula crithmoides L. - Murtosa, Ria de Aveiro

Para treinar os músculos da paciência o senhor Calvino colocava uma colher de café, pequenina, ao lado de uma pá gigante, pá utilizada habitualmente em obras de engenharia. A seguir, impunha a si próprio um objectivo inegociável: um monte de terra (50 quilos de mundo) para ser transportado do ponto A para o ponto B - pontos colocados a 15 metros de distância um do outro.

A enorme pá ficava sempre no chão, parada, mas visível. E Calvino utilizava a minúscula colher de café para executar a tarefa de transportar o monte de terra de um ponto para outro, segurando-a com todos os músculos disponíveis. Com a colher pequenina cada bocado mínimo de terra era como que acariciado pela curiosidade atenta do senhor Calvino.

Paciente, cumprindo a tarefa, sem desistir ou utilizar a pá, Calvino sentia estar a aprender várias coisas grandes com uma pequenina colher.

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Calvino (2005)

23/10/2009

Tim Burton em Vila Real



Se estas figuras no largo da Igreja de São Pedro, em Vila Real, aspirassem a proezas olímpicas, a androginia de que dão mostras seria obstáculo sério, a julgar por notícias recentes. Vistas ao longe e de costas, parecem mulheres muçulmanas embrulhadas em xailes e mantos, com uma incongruente rodela de pano à cabeça para equilibrar a bilha de água ou a canastra do peixe. Encaradas de frente, revelam-se desprovidas de cabeça e deixam à mostra um peito nu, raso e masculino. Não sabemos, por isso, do que falam nas suas conversas - ali, no largo da igreja, à sombra fugidia dos plátanos, com o arvoredo do Parque Florestal em fundo. Não sabemos se é conversa de mulheres ou de homens; se é conversa atinada ou desmiolada; se a cabeça afinal faz falta e se, por conseguinte, não há conversa possível.

22/10/2009

Terebinto



Pistacia terebinthus L. - vale do rio Tua em Abreiro

O Vale de Elah, a oeste de Jerusalém, foi o palco da luta entre David e Golias, e deve o nome a esta pistácia; crê-se que o termo hebraico elah usado no Velho Testamento designa também os carvalhos, destacando o vigor e a durabilidade comum a estas árvores. O terebinto é abundante na região mediterrânica, no norte de África e sudoeste da Ásia; e, como é tolerante a regimes de seca e ao frio, dá-se bem em áreas de solo quase desértico até 1500m de altitude. No Médio Oriente, onde partilha o território com a Pistacia palaestina, exemplares de grande porte estão associados a figuras bíblicas eminentes ou a teofanias.

O terebinto pode chegar aos 5 metros de altura e tem folhas compostas que caem no Inverno - com um folíolo terminal que está ausente no lentisco. Incisões no tronco fazem-no ressumar uma resina perfumada, a terebintina-de-Quio, com vasto uso em vernizes, vinhos e molhos; também pelo aroma, a madeira é preferida para caixas de charutos. As flores, sem pétalas, são púrpura e dispostas em panículas nas axilas das folhas, nascendo com a folhagem nova em Abril-Maio: as das plantas masculinas têm um cálice pentalobado, cinco estames, anteras gigantes e um nectário; as das femininas são feitas de um cálice fendido em três ou quatro lóbulos e um estilete curto rematado por três chifrinhos. Os frutos são drupas diminutas da cor do coral, usadas para condimentar pão ou, tostadas, numa bebida quente com o aspecto de café (e pistacia deriva do grego pistake, noz). E então, pergunta o leitor desconfiado, o que é aquela vagem que se vê na foto? É um bugalho, como os dos carvalhos, excrescência produzida pela picada de insectos que usam este «feijão» como uma barriga de aluguer - negócio naturalmente vantajoso para a árvore, que assim se protege das malfeitorias do bicho.

O género Pistacia contém nove espécies da América, Europa e Ásia. As sementes da iraniana P. vera são os saborosos pistácios dos sorvetes verdes. No Porto há um exemplar famoso de Pistacia atlantica que lhe apresentaremos num dia com mais vagar.

21/10/2009

À sombra duma azinheira



Quercus rotundifolia Lam. - Santuário de Fátima

Duzentos quilómetros para sul na A1 e ainda estamos aquém Tejo, mas Fátima é terra de azinheiras, tanto como as planícies do além (Tejo). E muito mais gente se senta à sombra delas neste centro de peregrinação do que em Grândola, vila morena da cantiga revolucionária. A lição a reter é que a árvore não tem cor política nem credo religioso: comunista ou latifundiário, ateu ou devoto, a todos abriga a azinheira que já nem sabia a idade.

A azinheira grande, testemunha das aparições de 1917, ocupa, no recinto do santuário, o centro de um grande canteiro circular, delimitado por um muro com sebe e gradeamento. Não lhe falta terra viva para o sustento, e a impossibilidade de os peregrinos lhe tocarem salvou-a de ser depenada por caçadores de relíquias, como sucedeu à azinheira em que Nossa Senhora teria pousado. Essa distância de segurança talvez impeça que, em sentido estrito, as pessoas se sentem à sua sombra: é preciso escolher o lado certo e esperar que o sol esteja baixo. Mas a árvore, que foi classificada de interesse público em 2007, ressuma história, e a sua simples proximidade já é acolhedora.

Na envolvência do santuário há muitas mais azinheiras - e dessas, por não terem tido comércio com o sagrado, toda a gente pode chegar perto. É lá que famílias inteiras, desempacotando os farnéis, abancam para os piqueniques. As oliveiras, árvores de prestígio bíblico mas de mais escassa sombra, alinham-se em extensas plantações. Duas grandes alamedas de ciprestes-do-Buçaco ladeiam o recinto. Por todo o lado há lugares sentados protegidos pelas copas das árvores.

Mesmo para quem, como eu, não partilha a religiosidade que atrai multidões a Fátima, é impossível não reconhecer a grandiosidade e a excelência arquitectónica deste lugar. Uma grandiosidade onde a brancura da pedra é atenuada pelo verde, e que não é fria nem inóspita, pois foi pensada para confortar, e não apenas para impressionar, quem a ela se acolhe.

P.S. Pode ler aqui excertos dum texto de Fernando Catarino sobre a azinheira grande.

20/10/2009

Rosa de neve


Serissa foetida (L.f.) Lam.

Serissa é género de uma só espécie, S. foetida (antes S. japonica Thunb.), de folhagem perene que exala um aroma acre quando esmagada - o que ninguém faz, logo não vem daí mal aos narizes do mundo. A tree of a thousand stars, na verdade um arbusto que pode atingir 1m de altura, é originária de bosques subtropicais da Índia, China e Japão. Os botões são cor-de-rosa, abrindo-se numa profusão de flores brancas com cálice em funil de cerca de 1cm.

Caprichosa, irrita-se, amarelecendo as folhas ou livrando-se de todas elas num ápice para grande pânico do jardineiro, se recebe rega a mais ou a menos, se se expôe ao frio, se apanha sol em excesso, se é transferida de lugar. Cuidados difíceis de conjugar a não ser que se tenha o desvelo e a paciência de um criador de bonsais. E de facto esta planta (sobretudo o cultivar de folhas variegadas e/ou flores dobradas) é uma das preferidas nessa forma anã-tosquiada, por exibir crescimento rápido, ramagem densa e floração abundante várias vezes ao ano.

A serissa é da família do café, da cinchona (a fonte de quinino), das gardénias e da coprosma, mas - aqui lhe deixamos a fórmula - foi pela semelhança com a Sherardia arvensis, herbácea baixinha frequente nos nossos baldios, que a identificámos.

«Agora só falta aqui é... cimento!»


Apeadeiro de Brunheda - Linha do Tua

Não é por certo essa a primeira ideia que ocorre a quem contempla uma paisagem destas. Mas há gente estranha, a julgar pelo breve diálogo transcrito no blogue A Baixa do Porto. Trata-se de um excerto do vídeo de apresentação de Pare, Escute, Olhe, documentário sobre a ameaçada linha do Tua exibido no doclisboa 2009.

19/10/2009

Púcaros com franja


Tellima grandiflora (Pursh) Dougl. ex Lindl. - Kew Gardens

Para começar, expliquemos o título: fringecups é o nome dado nos EUA a esta nativa dos bosques e florestas da costa oeste da América do Norte, obviamente sugerido pelo aspecto das flores, com o cálice em forma de púcaro bordejado pelas franjas das pétalas. Antes de irmos à batata quente taxonómica, aqui vão de corrida alguns dados sobre a Tellima grandiflora: é uma herbácea perene com 80cm de altura máxima e folhas em roseta basal coroada por longas hastes floridas; prefere lugares húmidos e está naturalizada na Grã-Bretanha e noutros países europeus.

Mas - e aquele grandiflora? O leitor, ainda fresco da sua lição de latim, esfrega os olhos e pergunta-se: será que estou a ver mal? Não, leitor, não está: aquelas flores, em flagrante desobediência ao epíteto específico, são mesmo diminutas; têm 8mm de comprimento. Ah, então quem baptizou a planta devia estar c'os copos. Calma, leitor, as coisas não se passavam de modo tão repentino, e um erro grosseiro como esse seria prontamente corrigido quando se dissipasse a embriaguês. O termo grandiflora não deve ser tomado como qualificativo absoluto: limita-se a comparar a planta com as restantes do mesmo género, que terão flores ainda mais pequenas. Esta explicação, porém, esbarra no óbice de não haver outras plantas no género Tellima. Mas eis a estocada final: esta planta já esteve incluída noutro género. Na primeira descrição que dela foi publicada (em 1813, no livro Flora Americae Septentrionalis - or, a Systematic Arrangement and Description of the Plants of North America, de Frederick Traugott Pursh), apareceu com o nome Mitella grandiflora. Dentro do género Mitella, também ele norte-americano, o nome grandiflora justificava-se pela existência de espécies com flores de 5mm ou menos. Quando John Lindley, em 1828, oficializou a transferência, já antes proposta por David Douglas, para o género mono-específico Tellima, as regras de conduta da taxonomia obrigaram-no a reter o epíteto grandiflora, por muito absurdo que o resultado lhe tenha parecido.

Em adenda, um pequeno segredo do ofício: a migração entre géneros é denunciada pela listagem de autores que se segue ao nome científico da planta (ver legenda das fotos). Os parênteses à volta de Pursh indicam que foi ele quem primeiro descreveu a planta, mas que o nome hoje em dia aceite se deve a Douglas e a Lindley.

18/10/2009

Palácio de Cristal no Programa Biosfera

No dia 14 de Outubro, o programa televisivo Biosfera (RTP 2) incluiu uma desenvolvida reportagem sobre o centro de congressos para 6000 pessoas que a Câmara do Porto, em parceria com a AEP e outras entidades, pretende instalar nos jardins do Palácio de Cristal. Além de contemplar a remodelação do Pavilhão Rosa Mota (objectivo que ninguém contesta), o projecto prevê a construção de vários edifícios anexos que vão invadir o lago (convertido em «espelho de água» e amputado para metade) e ocasionar o derrube de várias árvores adultas. Mais do que a perda das árvores (aliás em número muito maior do que aquele admitido pela Câmara e pelo arquitecto), os opositores ao projecto lamentam o abastardamento do mais emblemático jardim histórico da cidade do Porto.


Se não viu o programa, pode aproveitar para fazê-lo agora. Foram entrevistados Rui Rio (Presidente da Câmara do Porto), o arquitecto José Carlos Loureiro, dois membros do Movimento em Defesa dos Jardins do Palácio, e eu próprio.

17/10/2009

Black lily


Fritillaria camschatcensis (L.) Ker-Gawl.

.....Nestas ervas, não em outras, gostaria
.....de deixar cair os punhos, esquecer como se reza.

.....José Miguel Silva (Ulisses já não mora aqui, 2002)

16/10/2009

A alegria das pequenas flores


Impatiens parviflora DC. - Hampstead Heath, Londres

E que tal começar o dia (ou terminar, dependendo de os seus hábitos serem mais ou menos noctívagos) com uma aula de latim? Garanto-lhe que é coisa pouca, não só porque o saber do mestre é de curto alcance, mas também porque uma lição prolixa e densa de assuntos se esvai da memória à velocidade a que a água escorre pelo ralo. Uma única e reluzente pérola de erudição: eis o que mais hipóteses tem de conquistar lugar permanente no armazém mental do leitor.

Parviflora é termo latino composto por duas partes: o prefixo parvi (de parva, parvus ou parvum), que significa pequena; e flora, indicativo de flor. O epíteto parviflora informa-nos pois de que a planta em causa tem flores pequenas (o que é exacto: cerca de 13 mm); grandiflora, epíteto da magnólia-sempre-verde, tem precisamente o significado oposto.

Alegria é o nome que se dá em Portugal à Impatiens walleriana, herbácea com flores de cores diversas (brancas, rosas, vermelhas) muito usada para forrar canteiros. Um nome tão... enfim... alegre, tão capaz de inspirar títulos chamativos (como o de hoje), não é para ser usado com parcimónia, e por isso decidi atribuí-lo a todas as plantas do género Impatiens. Que são mais de 850, distribuídas pelo hemisfério norte e pelos trópicos. Em inglês, levam elas os nomes de jewelweed e touch-me-not; o segundo é mais sugestivo, e refere-se à mesma impaciência de que o nome científico as acusa: quando são tocadas, ou mesmo quando não são, as cápsulas dos frutos explodem, dispersando as sementes.

Uma única espécie do género, I. noli-tangere, é nativa da Europa, mas outras há que por cá se naturalizaram. A que o fez com maior sucesso, a ponto de ser considerada praga em vários países do norte da Europa, foi a I. glandulifera, dos Himalaias. A I. parviflora, que trago aqui hoje, é originária da Ásia Central (Rússia, Mongólia, Quirguistão, Cazaquistão e Xinjiang) e também estabeleceu residência na Europa, embora o tenha feito com moderação. É uma planta ruderal que aprecia lugares com sombra, como a orla do bosque em Hampstead Heath onde a fotografei.

Nota. Pode ver outras Impatiens clicando na etiqueta Balsaminaceae já aí em baixo.

15/10/2009

Fritilária portuguesa


Fritillaria lusitanica Wikstr.

As fritilárias têm sido motivo de discussão interessante entre taxonomistas que, enquanto tentam entender-se sobre o que é uma liliácea, se questionam se as espécies de Fritillaria europeias e asiáticas devem estar em género diferente do das americanas - e talvez em breve tenhamos de adoptar para estas a etiqueta Amblirion Raf.. Apesar das revisões recentes, que se baseiam em traços moleculares e não apenas na morfologia exterior, a família Liliaceae é ainda demasiado heterogénea. Porém, é possível destacar características comuns, algumas salutares como gostarem de um período de dormência (leia-se sesta prolongada enquanto o frio aperta) em que a herbácea vivaz descansa reduzida às componentes subterrâneas (bolbos, rizomas ou raízes tuberosas). Além disso, as flores são solitárias, ou dispostas em cachos pequenos, com 6 tépalas, 6 estames, 3 carpelos unidos e 1 estilete com um estigma eventualmente trífido.

Em Portugal há cerca de 80 espécies nativas de liliáceas (algumas terão já mudado de família) como a Fritillaria lusitanica Wikstr. e a Tulipa sylvestris L., mas a maioria é do género Allium, predominância a que não é alheio o tipo de solo seco e arenoso com que nos vamos desertificando. Várias delas são de distribuição restrita no nosso país e podem mesmo estar em perigo de extinção, nomeadamente a Bellevalia hackelii Freyn (do Algarve), o Asphodelus bento-rainhae P. Silva (da serra da Gardunha), o Lilium martagon L. (da Mata da Margaraça), o Hyacinthoides vicentina (Hoffmanns. & Link) Rothm. (do interior da região do Sado) e o Allium pruinatum Link ex Sprengel (do centro e sul).

A Fritillaria lusitanica, da Península Ibérica, habita matos e bosques, preferindo zonas altas com invernos secos e primaveras húmidas, solo rochoso e bem drenado, muito sol e a vizinhança de carvalhos. Nada caprichosa, portanto. As folhas são verde-claro, longas e lanceoladas, e a planta pode atingir os 50cm de altura. As flores, do início da Primavera (o fotógrafo resmungou bastante com o vento), que se inclinam como se cabeceassem de sono, nascem no topo de um talo delgado que os frutos empertigados ocupam mais tarde. Medem cerca de 3 cm de comprimento, contêm nectários brilhantes na base das tépalas, e exibem grande variedade de cores e enfeites em resposta aos distintos polinizadores (abelhas, moscardos, moscas ou pássaros); as tépalas são, em geral, castanhas/avermelhadas com franjas alternadas mais claras no exterior e de interior amarelo. Os bolbos distinguem-se de outras liliáceas por se cobrirem de bolbinhos menores, uns grãos-de-arroz importantes em medicina chinesa (o famoso bei mu).

14/10/2009

Aprendendo a ser pássaro


Castanheiros (Castanea sativa Mill.) vistos do Treetop Walkway - Kew Gardens

Uma das frustrações de quem vai à cata de castanhas, agora que é quase chegado o tempo delas, é a safra depender da boa vontade da árvore. Se ela não nos quiser presentear com os seus frutos, não há como demovê-la a deixá-los cair. Conformados com tais caprichos, voltamos uns dias depois - altura em que constatamos, com mal contida fúria, que alguém se nos antecipou, colhendo tudo aquilo que por direito de prioridade nos pertencia. É deplorável o ponto a que chegou a falta de civismo neste nosso desgraçado país.

Foi decerto para resolver este problema que, na esclarecida e cívica Inglaterra, se inaugurou em Maio de 2008, nos Kew Gardens, esta estrutura metálica com 18 metros de altura, que proporciona aos colectores de castanhas um circuito de 200 metros bem ao nível da copa das árvores. Árvores essas que são, quase todas elas, castanheiros carregadinhos com a promessa de deliciosos magustos. Basta o visitante esticar os braços - com as mãos de preferência protegidas por grossas luvas de cabedal - e ir enchendo com ouriços o balde que teve a previdência de trazer consigo.

Acontece que em Agosto, quando visitámos os Kew Gardens, ainda era cedo para a colheita. Voltarmos lá agora com esse único fito seria algo extravagante, mas fica a sugestão para quem puder aproveitá-la. Quanto a nós, estamos de olho nuns tantos castanheiros em várias localidades do norte do país; seria porém de uma generosidade inaudita, própria de uma santidade a que não aspiramos, revelar ao leitor o paradeiro dessas árvores.

13/10/2009

Cravinhos siameses


Petrorhagia nanteuilii (Burnat) P. W. Ball et Heywood

Cassandra recebeu de Apolo (deus do Sol, irmão gémeo de Artemis, divindade associada à Lua) o poder da profecia, de quem nunca se engana. Legou o dom ao irmão gémeo, Helenus, que se tornou oráculo decisivo na guerra de Tróia. Por resistir à sedução de Apolo, Cassandra foi amaldiçoada e ninguém alguma vez deu crédito às suas previsões.

A mitologia grega tem inúmeros exemplos como este, de irmãos gémeos que têm à nascença destinos idênticos mas que um acidente, em geral dramático, acaba por diferenciar. Não é o caso destes cravinhos siameses dos terrenos incultos do vale do Tua, que têm a ventura de partilhar, como um ninho, um invólucro embainhado de brácteas com textura e cor de papel, como o que se vê na foto, que lhes assegura cerca de meio ano de união de facto e, ido o Verão, um fim simultâneo que não quebra este pacto harmonioso.

Petrorhagia é um género de cerca de 25 espécies da Europa, Ásia e norte de África. A P. nanteuilii é herbácea anual, atinge cerca de 60cm de altura e tem folhagem linear, como a relva. A floração decorre em Maio-Julho. As flores são semelhantes a cravos (Dianthus sps.): distinguem-se destes pelos dois estiletes longos que parecem arames de prata e pelas bandas claras no cálice venado de sépalas.

Petrorhagia deriva do grego petros, rocha, e rhagas, fissura, aludindo por certo ao habitat de rochas e areia, e em pleno sol, que as plantas deste género apreciam. Diz-se que nanteuilii é homenagem de Burnat ao Barão Edmond Jules Marie Roger de Nanteuil (1857-1951).

12/10/2009

Enleia-me nos teus cabelos


Cuscuta campestris Yunck.

Ao contrário de outras parasitas, que, apesar de causarem estranheza a olhares mais atentos, ainda se conseguem disfarçar de plantas convencionais, a Cuscuta tem uma aparência decididamente extra-terrestre. A sua vocação é protagonizar filmes catastrofistas em que alienígenas malignos invadem a Terra para saquear e destruir. Uma vez definido o alvo, a Cuscuta lança os seus tentáculos sobre as vítimas, enredando-se nelas como se quisesse estrangulá-las, ao mesmo tempo que as penetra com orgãos sugadores (chamados haustórios) para lhes chupar a seiva. Não produz clorofila, e por isso o seu sustento depende inteiramente da planta hospedeira; e, como cedo se livra das raízes, por elas de pouco lhe servirem, nem sequer vive agarrada à terra. Leva uma existência aérea, como peruca mal-amanhada que o bom senso e o bom gosto são impotentes para descartar.

Apesar de amaldiçoada pelos agricultores, a Cuscuta (género cosmopolita, com mais de 150 espécies, presente nos cinco continentes) já gozou de algum prestígio medicinal: a C. epythimum, uma das espécies europeias mais comuns, era usada, não se sabe com que eficácia, para combater maleitas da vesícula, baço e fígado, e em especial para tratar a icterícia. E em Portugal, há que reconhecê-lo, a Cuscuta não constitui problema: é uma planta pouco comum e, tendo um ciclo de vida anual, não chega a incomodar seriamente as suas hospedeiras. Por contraste, há espécies de climas quentes que, crescendo continuamente durante anos a fio, conseguem revestir as copas das árvores com amplas cabeleiras rosadas ou cor de palha.

É algo problemático distinguir entre si as três ou quatro espécies de Cuscuta espontâneas em Portugal. A planta da foto não é certamente a C. epythimum, que tem galhos avermelhados e flores cor-de-rosa. Por exclusão de partes, e atendendo às melenas alaranjadas e às flores brancas com um toque esverdeado, julgamos tratar-se da C. campestris. Encontrámo-la nas cercanias da Pateira de Fermentelos, parasitando duas espécies de asteráceas: Bidens tripartita e Xanthium strumarium.

10/10/2009

A inteligência das flores


Cypripedium parviflorum var. pubescens (Willd.) Knight (Pantufas de senhora)

The position of Maeterlinck* in modern life is a thing too obvious to be easily determined in words. It is, perhaps, best expressed by saying that it is the great glorification of the inside of things at the expense of the outside. There is one great evil in modern life for which nobody has found even approximately a tolerable description: I can only invent a word and call it "remotism". It is the tendency to think first of things which, as a matter of fact, lie far away from the actual centre of human experience. Thus people say, "All our knowledge of life begins with the amoeba". It is false; our knowledge of life begins with ourselves. Thus they say that the British Empire is glorious, and at the very word Empire they think at once of Australia and New Zealand, and Canada, and Polar bears, and parrots and kangaroos, and it never occurs to any one of them to think of the Surrey Hills.

The one real struggle in modern life is the struggle between the man like Maeterlinck, who sees the inside as the truth, and the man like Zola, who sees the outside as the truth. A hundred cases might be given. We may take, for the sake of argument, the case of what is called falling in love. The sincere realist, the man who believes in a certain finality in physical science, says, "(...) what it is, is an animal and sexual instinct designed for certain natural purposes". The man on the other side, the idealist, replies, with quite equal confidence, that this is the very reverse of the truth. I put it as it has always struck me; he replies, "Not at all.(...) What it is, beyond all doubt of any kind, is a divine and sacred and incredible vision". The fact that it is an animal necessity only comes to the naturalistic philosopher after looking abroad, studying its origins and results, constructing an explanation of its existence, more or less natural and conclusive. The fact that it is a spiritual triumph comes to the first errand boy who happens to feel it.

Maeterlinck's appearance in Europe means primarily this subjective intensity; by this the materialism is not overthrown: materialism is undermined. He brings, not something which is more poetic than realism, not something which is more spiritual than realism, not something which is more right than realism, but something which is more real than realism. He discovers the one indestructible thing. This material world on which such vast systems have been superimposed - this may mean anything. It may be a dream, it may be a joke, it may be a trap or temptation, it may be a charade, it may be the beatific vision: the only thing of which we are certain is this human soul.


This human soul finds itself alone in a terrible world, afraid of the grass. It has brought forth poetry and religion in order to explain matters; it will bring them forth again. It matters not one atom how often the lulls of materialism and scepticism occur; they are always broken by the reappearance of a fanatic. They have come in our time: they have been broken by Maeterlinck.

G. K. Chesterton, Varied types (1903)

* Maurice Maeterlinck (1862-1949), Prémio Nobel da Literatura em 1911, autor do ensaio L’Intelligence des fleurs (1907) e, entre muitos outros títulos, de Serres chaudes (1889, poemas musicados por Ernest Chausson), Pelléas et Mélisande (1892, peça adaptada a ópera com a música de Claude Debussy) e Ariane et Barbe-Bleue (1901, libreto da ópera com o mesmo nome e música de Paul Dukas).

09/10/2009

A prima boazinha


Pontederia cordata L.

É o que consta das cartas de recomendação reproduzidas nos manuais de botânica: embora sem esconder o parentesco com o jacinto-de-água, reflectido tanto no aspecto geral da planta como na preferência por habitats aquáticos, a Pontederia cordata tem uma índole completamente diferente, muito mais benigna e recatada. Mais alta e empertigada (1 metro contra 50 cm), com flores mais miúdas e dispostas em espiga, é também nada e criada no novo mundo, numa faixa que vai do sul dos EUA à América tropical. O que mais diferencia estes dois primos é que a Pontederia, receosa de ser deixada à deriva, prefere agarrar-se ao chão pelas raízes, enquanto que o jacinto-de-água flutua sem medo para onde o vento ou a corrente o empurrarem.

Não se conhece em Portugal qualquer nome vernáculo para a planta, e aliás ela pouco se vê por cá (as fotos são de um tanque no Parque da Cidade do Porto). Mas os brasileiros, sempre mais criativos do que nós no uso da língua comum, atribuiram-lhe pelo menos quatro designações: aguapé, rainha-dos-lagos, mururé e orelha-de-veado. Dessas, as três primeiras aplicam-se também ao jacinto-de-água - o qual, com uma avidez nomenclatural que lembra fidalgo da mais antiga estirpe, ainda se apropriou de mais seis nomes: camalote, mureré, baronesa, pareci, murumuru e pavoa.

08/10/2009

Trovisco



Daphne gnidium L.

Embora Apolo sempre tenha rejeitado os grilhões do casamento, não lhe faltaram descendentes de ninfas ou belas mortais de almas conformadas à obrigação de servir o sagrado. Seduziu deusas e musas, às vezes disfarçado de cria peludinha, a saltitar entre o tomilho, que elas levavam ao peito entre carinhos, para logo se revelar um jovem tumultuoso de falinhas ardentes. Contudo, apesar de divino, nem sempre foi bem sucedido. Quando se atreveu a perseguir a ninfa-das-montanhas, Daphne, uma sacerdotisa filha do rio Peneius em Tessália, o conselho dos deuses no Olimpo não apoiou a ousadia e metamorfoseou-a num loureiro para abreviar a fuga - e daphne é a designação grega para loureiro.

Porém, mesmo um olhar desatento nota que o arbusto da foto pouco se parece com um loureiro. Por isso, J. P.de Tournefort (1656-1708) recomendou para o trovisco - mas Lineu não aceitou - outro género, Thymelaea. Este e o género Daphne (com cerca de 50 espécies da Ásia, Europa e norte de África) partilham traços e aflições, como a de abrigar várias espécies em vias de extinção: a Thymelaea broteriana, endemismo do noroeste da Península Ibérica, serras do Gerês, de Alpedrinha e da Arrábida, está a precisar urgentemente de protecção; e a Daphne rodriguezii, que se restringe às ilhas Baleares, dá-se quase como desaparecida.

O trovisco tomou emprestado o apelido da cidade de Cnido (costa da Ásia Menor, hoje Turquia), de onde provém, sendo também abundante na região mediterrânica costeira, nas Canárias e no norte de África. É um arbusto sempre verde que pode atingir o metro e meio de altura, de folhagem clara com glândulas aromáticas nas faces inferiores, flores de Verão-Outono muito perfumadas, tubulares, hermafroditas, de haste pilosa, com 4-7mm de diâmetro e 4 sépalas (não têm pétalas). O fruto é uma drupa vermelhinha brilhante e tóxica, com uma só semente.

As plantas do género Daphne têm fama, consignada por Dioscórides, de antisépticas, cicatrizantes e insecticidas; mas o seu emprego nessa qualidade tem de ser comedido pois podem provocar queimaduras ou intoxicações graves. Certo é os frutos são apreciados por aves - bons portanto para atrair e caçar galináceos, num ardil cujos pormenores os leitores que estadiam no campo podem suprir; que o uso de pauzinhos de trovisco para acelerar a cicatrização dos furos nas orelhas é eficiente - mas pouco frequente porque nós preferimos a dor ao ridículo; que a D. papyraceae e a D. bholua, dos Himalaias, fornecem fibras para o fabrico de papel; e que a D. genkwa, do norte da China e com flores azuis, é usada em medicina chinesa como agente abortivo.

07/10/2009

Tanta água, Jacinto


Eichhornia crassipes (Mart.) Solms - Pateira de Fermentelos, Setembro de 2009

A Pateira de Fermentelos é um rio, o Cértima, atacado de elefantíase no troço final do seu percurso. Engorda e espraia-se desmesuradamente, mas a água que transporta, e que depois entrega ao Águeda e ao Vouga, nem por isso deixa de ser doce. Fosse a Pateira de água salgada, como é a Ria de Aveiro, a que a ligam os meandros do Vouga, e não teria sido quase sufocada pela proliferação dos jacintos-de-água. É que esta invasora temível tem um ponto vulnerável: não tolera a salinidade.

O jacinto-de-água (Eichhornia crassipes) é uma planta aquática flutuante, de 20 a 50 cm de altura, originária da bacia do Amazonas, mas presente hoje nas regiões tropicais, subtropicais e temperadas de todo o mundo. Reproduz-se a uma taxa avassaladora, tanto vegetativamente como por sementes, formando tapetes que revestem por completo rios, ribeiras, represas e lagos. As suas folhas rígidas, de pecíolos inchados (daí o epíteto crassipes), fazem de velas enfunadas, ajudando o vento a disseminar a planta.

Com início em Dezembro de 2006, e durante dois meses e meio, uma ceifeira-aquática laborou na Pateira de Fermentelos para remover os jacintos-de-água. A comparação entre o antes e o depois, em especial junto ao parque de lazer de Espinhel, não deixa dúvidas sobre a oportunidade e o mérito da intervenção: em vez dos hectares cobertos de jacintos-de-água, um espelho de água límpida estende-se agora até ao horizonte. Mas a planta não foi erradicada, e recomeça a acumular-se junto às margens. Sem uma limpeza periódica, assistiremos em poucos anos a uma reinfestação da Pateira.

Não fosse ele culpado de expansionismo desenfreado, e o jacinto-de-água até teria virtudes apreciáveis: as suas raízes funcionam como infantário para peixes, beneficiando igualmente as aves aquáticas que dessa fauna se alimentam; absorve substâncias poluentes, como o chumbo e o mercúrio; dado o seu grau de proliferação, é um excelente produtor de biomassa, a qual, após secagem, pode ser usada directamente como combustível ou convertida em gás, e é também útil como fertilizante.

06/10/2009

Azevim


Ardisia crenata Sims

.....Também ele vai morrer, o verão.
.....Do verde ao vermelho
.....as maçãs ardem sobre a mesa.
.....Ardem de uma luz sua, mais madura.
.....E servem-me de espelho.
.....Eugénio de Andrade (As maçãs, 2002)

Antes que o leitor atarefado reclame que já aqui viu esta planta, que assim deixa de cá vir, permita-nos interrompê-lo para lhe dar toda a razão. Tome lá. Vai também um cafezinho? Não, não incomoda. Ah, desse não, as bagas do café-de-jardim são para os passarinhos. Ora oiça.

Há realmente poucas diferenças a assinalar entre a A. solanacea e este arbusto de copa densa, rizomatoso, entouceirado, originário do sudeste asiático, sul da China e do Japão. As folhas são de um verde mais escuro e brilhante, um pouco onduladas, e têm margens crenadas. As flores, de Verão, perfumadas e minúsculas, têm um tom rosa mais esbatido, quase branco, e nascem em ramalhetes em que os longos pedúnculos florais, crescendo a diversos níveis da haste, se elevam todos à mesma altura (corimbos). Os cachos pomposos são de bagas de um vermelho vivo...

- O que disse?... Sim, vermelho morto seria bizarro... quanta graça, a sua...

...como as do café, fonte importante de alimento para aves. E é de menor porte, não indo, em geral, além dos 6 pés. Fácil de cuidar, relativamente tolerante ao frio, capaz de germinar em condições ambientais adversas, pode tornar-se uma praga difícil de conter.

Um bonito sucedâneo do azevinho, não acha? Oh, adormeceu...

05/10/2009

Encenação de um rio



Choupos e salgueiros nas margens do rio Cértima, no concelho de Águeda

Ao mostrar estas bateiras no seu embarcadouro, no rio Cértima, o fotógrafo torna-se cúmplice de uma encenação. Encenação de uma vida passada, ao jeito dos museus etnográficos, mas com maior capacidade ilusória: como as bateiras permanecem no local onde estariam se ainda fossem usadas, fazem crer que a forma de vida a elas associada ainda persiste. Mas não: já ninguém faz uso delas, e só não se afundam porque o rio leva pouca água. Noutros tempos, e tal como os seus primos moliceiros da ria de Aveiro, elas serviam para recolher moliço, nome genérico dado às plantas aquáticas empregues como fertilizante na agricultura. Vieram os agroquímicos, veio o abandono das terras, e o moliço deixou de ter préstimo. A Pateira de Fermentelos, lagoa natural de 4 a 5 km^2 alimentada pelo rio Cértima e por vários outros cursos de água, chegou a estar em risco de se finar, sufocada pela vegetação espontânea que entretanto fora reforçada por um temível arrivista, o jacinto-de-água (Eichhornia crassipes). A Câmara de Águeda interveio e salvou a pateira, mas não debelou a ameaça. A faina dos moliceiros, que era parte da economia local e limpava a pateira sem gasto público, extinguiu-se de vez. Para as entidades públicas ficou a dispendiosa obrigação de não dar tréguas às plantas invasoras.

04/10/2009

Botânica das Lágrimas

Duas horas e quarenta e cinco minutos é a duração da visita botânica guiada pelo Professor Brotero a uma turma do sexto ano de escolaridade, a que se juntou um puto de sete anos e meio, quas'oito. O professor é personagem de ficção, mas nem tanto assim: pediu o nome emprestado ao mais célebre botânico português, e a sua exuberência de contador de histórias veio inteirinha de Fernando Catarino, antigo director do Jardim Botânico do Museu de História Natural da Universidade de Lisboa. Pois é essa a quilométrica designação oficial do jardim encantado que, durante a acção do romance, se transfigura no Jardim Botânico da Sétima Colina.

O miúdo de sete anos e meio, quas'oito é o líder da facção que, na escola, opõe resistência às humilhantes praxes infligidas aos alunos mais novos. O cabecilha dos praxantes e os seus lugares-tenentes também integram o grupo visitante. Tudo a postos, assim, para trepidantes episódios de guerrilha em que as árvores do jardim, tomando o partido dos mais fracos, jogam papel decisivo. Mostrar as plantas em acção, com as suas virtudes e peculiaridades, é um modo cativante de as dar a conhecer.

Este romance, com uma escrita cheia de ritmo e graça, é pois uma combinação de fábula com livro-guia - sem dúvida o mais original que já foi publicado sobre qualquer jardim botânico. Possui mesmo um índice final com os nomes científicos e vernáculos das plantas que intervêm na história.

Apenas um reparo à capa do livro, que é de um comercialismo infeliz. A frase promocional Bullying - o romance da realidade revela-se inteiramente desajustada ao conteúdo. É indiscutível que o bullying (nome para o assédio e perseguição de que são vítimas muitas crianças nas escolas) é um dos temas centrais do livro. Mas Botânica das Lágrimas é tão realista como O Principezinho, Alice no País das Maravilhas ou Sonho de uma Noite de Verão, obras que estabeleceram uma linhagem de fantasia em que o romance de Pedro Foyos claramente se filia.

Título: Botânica das Lágrimas
Autor: Pedro Foyos
Edição: Editorial Hespéria
Data: Setembro de 2009

03/10/2009

Outono



Serra do Alvão: Barragem Cimeira e bosque de vidoeiros (Betula alba L.)

.....There was a man who found two leaves and came
.....indoors holding them out saying to his parents
.....that he was a tree.

.....To which they said then go into the yard and do
.....not grow in the living room as your roots may
.....ruin the carpet.

.....He said I was fooling I am not a tree and he
.....dropped his leaves.

.....But his parents said look it is fall.

.....Russell Edson

02/10/2009

Economia na Justiça


Eupatorium cannabinum L. - Land's End, Cornwall

Se a Justiça (com vénia e maiúscula) não é justa, que ao menos seja barata. Passaria a ser justiça (sem vénia e com minúscula inicial), mais no espírito desse danoso acordo ortográfico que tantas palavras quer descapitalizar, e menos onerosa para os chamados contribuintes, fartos de sustentar luxos e esbanjamentos. Com o fito de alcançarmos o desiderato expresso no título - inversão do slogan eleitoral de um conhecido partido político -, apresentamos uma primeira e necessariamente modesta proposta de (in)acção.

O epíteto desta planta, cannabinum, remete claramente para a Cannabis sativa, a famosa maconha, cujo cultivo e posse são penalizados judicialmente em todo o mundo, excepto na Holanda. A nossa proposta é que ninguém seja punido por possuir no seu jardim ou terreno baldio exemplares de Eupatorium cannabinum, planta de porte e folhagem semelhantes aos da maconha mas desprovida de qualidades psicotrópicas ou euforizantes. Mas então, pergunta o leitor em tom de espanto, se a planta é inofensiva e nada tem de inebriante, como se explica que ela seja perseguida pelas Forças da Ordem? Ora leitor, não seja ingénuo. Quantas toneladas de farinha, leite em pó ou farofa não foram já retidas nas alfândegas dos aeroportos, para grande vexame dos igualmente retidos passageiros? Não fosse o agente Bobi, cão-polícia de faro especializado, ser chamado para desfazer o equívoco, e sabe-se lá que tratos a Justiça não daria a tais infelizes. De igual modo, nada impede uma brigada antinarcóticos insuficientemente versada em morfologia vegetal de confundir uma Eupatorium cannabinum com uma Cannabis sativa. Até o imortal Lineu as achou parecidas. O que defendemos, em suma, é que ninguém fique sujeito a prisão preventiva ou a outras medidas de coacção enquanto aguarda que um especialista em botânica analise o material apreendido.

Se a adopção desta medida se traduzir, como é nosso desejo, em não despicienda poupança no orçamento da Justiça (ou da justiça), outras sugestões de mérito e alcance comparáveis serão a seu tempo aqui propaladas. Por agora, atentemos na planta em si, ressalvando que o que se segue tanto pode ser útil a polícias como a paisanos.

O género Eupatorium inclui hoje cerca de 40 espécies espalhadas pela Ásia, América do Norte e Europa, mas já foi muito mais populoso. Por exemplo, os géneros Ageratina, com mais de 250 espécies, e Bartlettina, com 37 espécies, resultaram de cisões do género Eupatorium. Todas estas plantas são asteráceas atípicas: as suas inflorescências, embora formadas por inúmeros florículos, não apresentam o aspecto de «malmequeres». São, porém, muito ricas em néctar e funcionam como pólo de atracção para abelhas e borboletas.

Em português a Eupatorium cannabium recebe o nome de trevo-cervino; em inglês chama-se hemp-agrimony. É uma herbácea perene, com altura máxima de um metro e meio, que floresce entre Julho e Setembro e mora em locais húmidos por toda a Europa. No norte de Portugal é presença assídua nas margens dos rios: já a avistámos no Tâmega, no Ôlo e no Corgo.

01/10/2009

Azevim batøteiro


Ardisia solanacea Roxb.

.....Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
.....transborda e escorre, já rio no chão,
.....e gosto de quem lhes segue o sonho
.....e lhes margina o rio com árvores de papel.

.....Alexandre O'Neill (Abandono vigiado, 1960)

A família Myrsinaceae é de tamanho médio, com 39 géneros e umas 1250 espécies que preferem regiões quentes ou temperadas, exibindo maior diversidade no Velho Mundo (expressão que nos faz andar à procura do Novo, que imaginamos ainda não mobilado e a cheirar a verniz, mas que de facto se refere ao território «conhecido» pelos europeus até ao século XV, ou seja, Europa, África e Ásia). Os seus arbustos gozam honesta fama de muito ornamentais: as flores são pequeninas mas vistosas, com simetria radial e tons de rosa-ou-branco-pérola; a folhagem é perene, coriácea e de um matiz de verde que contrasta com as drupas cor de coral, negras quando maduras, que se mantêm na planta por meses depois de amadurecerem. Características que as tornam concorrentes - sem mais adornos nem podas para caberem na sala - do azevinho e das coníferas na tarefa natalícia de alegrar os lares.

O género Ardisia é da Ásia e América tropicais; a designação provém do termo grego árdis, ponta de dardo, em alusão às anteras (extremidade dos estames onde mora o pólen) pontiagudas. A Ardisia solanacea, nativa da Índia, é um arbusto glabro que pode atingir uns 15 pés de altura. Floresce no Verão, com inflorescências em cimeira, e as bagas maduras são pretas. É exigente quanto à qualidade do solo, à sombra para a sesta e à rega regular, mas retribui o desvelo com um vasto uso medicinal. As flores são hermafroditas com os estames unidos, como já vimos no género Solanum.