28.2.05

Choupalma



Foi com deleite que lemos a cândida notícia da adopção maternal por uma árvore de outra de género distinto. Pena que ao cronista tenham de ser feitos alguns reparos.

1) A árvore-mãe-adoptiva não é um plátano. Conhecendo-se bem os plátanos, obrigação de quem escreve sobre jardins urbanos onde este género é muito comum e de fácil identificação pelo tronco marmoreado, dir-se-ia mesmo mãe improvável dado que o tronco dos plátanos é liso e se descasca facilmente, regaço demasiado instável para uma semente. Como desculpa do cronista só o facto deste conjunto curioso de mãe e filha estarem em terreno do Passeio Alegre ocupado por um campo de mini-golfe com entrada paga. A árvore mãe é um choupo de pequeno porte, com ritidoma tipicamente rugoso e escuro e copa elegante.

2) O cronista entendeu por bem enriquecer o seu texto com o neologismo plataneira, que supomos inspirado por plátano e palmeira. Mas "eira" não caracteriza a palmeira, "palma" sim; dadas as circunstâncias, a nossa proposta é que a esta inédita associação se chame choupalma.

27.2.05

Fascínio por a(r)v(or)es

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fotos: mdlramos 0502
A fala grosseira dos humanos que discutiam à porta do café não me deixou distinguir os pipilados e chilreados dos pardais, e não pude por isso confirmar se eram uns simples "chilp chev chilp chelp churp" (caso do pardal~Passer domesticus), ou se variantes com "chili-chili-chili" (pardal-espanhol ~ Passer hispanoliensis), "tsu-witt" (pardal-montês~ Passer montanus) ou "trirp-trirp-trirp-trirp" e "chilp chilp chrirp chilp" (pardal do Levante~Passer moabiticus); palpita-me no entanto que se tratam de pardais "tout-court" pois a certa altura pareceu-me ouvir um irritado "matraqueado típico "cher'r'r'r'r " (sic* ;-)
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Do que não resta a menor dúvida é que os liquidâmbares estão todos a abotoar.
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* Cf. Guia de Aves ; SPEA
...Ouvir Passer domesticus in Animal Diversity Web (ADW) (University of Michigan)

26.2.05

Dos Jornais - Intervenção nas árvores do Porto

No Público de hoje: «Câmara do Porto intervém em sete mil árvores até Abril e abate duas dezenas por motivos sanitários (Por Jorge Marmelo) Intervenção está a ser feita com base num estudo realizado pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Maioria das árvores a abater são tílias
Uma equipa municipal especializada em intervenção em árvores, composta por sete jardineiros e coordenada por uma engenheira florestal, está a realizar, até ao próximo mês de Abril, uma gigantesca operação de poda e tratamento em sete mil árvores, das cerca de 40 mil que existem no espaço público da cidade do Porto. A intervenção vem na sequência de um diagnóstico realizado pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e do qual resultou já o abate de 14 árvores, cujas condições sanitárias constituíam um perigo para a segurança pública. De acordo com um comunicado da Câmara Municipal do Porto, o acompanhamento do estado das árvores da cidade ditou ainda a necessidade de derrubar outros 20 espécimes, tílias na sua maioria, prevendo-se que este número possa aumentar com o avanço dos trabalhos.
Segundo o comunicado, as podas que estão a ser realizadas visam melhorar o estado fitossanitário das árvores, corrigir o seu crescimento e desenvolvimento e beneficiar a sua intervenção harmoniosa no território urbano.
O vereador do Ambiente da autarquia, Rui Sá, garantiu, porém, que todas as intervenções estão ser feitas "com regras e por pessoas com formação adequada". "Não se trata de podas assassinas. Aliás, muitos dos problemas de quedas de árvores resultam de podas mal feitas no passado", disse o vereador ao PÚBLICO.
Rui Sá esclareceu que as árvores já abatidas foram aquelas que o estudo da universidade transmontana identificara como sendo os casos mais graves. Todavia, a queda recente de duas tílias na Praça da República, que não estavam entre os casos graves diagnosticados, obrigou a autarquia a analisar mais demoradamente o estado das árvores daquela praça, do que resultou, entretanto, a necessidade de abater outras cinco árvores. Pelo mesmo motivo, mas na Rua de D. Manuel II, junto ao Palácio de Cristal, houve ainda a necessidade de derrubar mais quatro tílias.

Abates e transplantes em várias zonas da cidade
Por força das obras de construção do túnel entre as ruas de Ceuta e de D. Manuel II, o pelouro do Ambiente procedeu ainda ao transplante de oito árvores, que foram entretanto colocadas na Praça da República, substituindo as que ali foram abatidas.

A requalificação do troço terminal da Avenida da Boavista motivou também o abate de 137 choupos e prevê-se ainda a necessidade de transplantar 80 tílias para vários locais da cidade. Futuramente, os passeios laterais da avenida contarão com 212 novas árvores.

A cidade do Porto tem, desde o passado mês de Janeiro, 238 novas árvores classificadas (antes eram apenas quatro, agora são 242). Entre os espécimes actualmente protegidos por iniciativa de um grupo de cidadãos estão os metrosíderos da Avenida de Montevideu, as palmeiras e araucárias do Passeio Alegre, as magnólias de S. Lázaro, a ginkgo das Virtudes, o belíssimo jacarandá do Largo do Viriato e a araucária e os plátanos da Cordoaria.

Não classificado ainda, mas já merecedor de uma atenção especial, foi detectado pelo estudo da UTAD um caso raro e algo insólito: segundo Rui Sá, de um dos plátanos do Passeio Alegre, localizado nas instalações do Clube de Minigolfe do Porto, brotou uma palmeira. Esta "plataneira", chamemos-lhe assim, não resultou, segundo o vereador, de nenhum enxerto artificial, devendo antes ter sido causada pelo arrastamento de sementes de palmeira pelo vento ou pelo transporte das mesmas por algum pássaro.»

After rain...

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After rain, the trees seem to breathe more easily, to declare their own shapes more clearly, to be committed even more to the vertical.
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Intelligence is not a competence but a brightness.
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The knowledge that we possess is leaden and useless when compared with the knowledge that suddenly arrives, with an energy that burns up every complacency.
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As the shape of the winter sun is held in mist and cloud, so joy may be veiled or contained.
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From values, shadows, tones, we may learn a tenderness, a fineness of concern, which we can lend in turn to values, shadows, tones.
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Thomas A. Clark, Distance & Proximity
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(Transcrito d' aqui ;-)

País sem memória


Fotos: mdlramos 0502

Na nossa recente ida a Arcos de Valdevez conversámos com uma senhora a quem um vizinho exige que derrube uma oliveira multicentenária, para que certo veículo possa circular no estreito caminho que divide a propriedade da senhora da do vizinho. No caminho passam sem dificuldade automóveis, tractores e ambulâncias - mas não aquele preciso veículo que o vizinho insiste em fazer lá passar. A senhora, amiga e proprietária da oliveira, opõe-se firmememente ao capricho do vizinho e não abdica do seu direito em manter a árvore de pé; o vizinho, apoiado pela junta de freguesia, move influências, insinua ameaças, barafusta nos jornais. A imprensa local, já se sabe, é defensora do «progresso»: um parágrafo venenoso num jornal concelhio apela à compreensão da proprietária, apresentando o derrube da árvore, e consequente embelezamento (?) do caminho, como um dos melhoramentos em que a junta está empenhada.

Resta acrescentar que esta heróica opositora do «progresso» - entendido no seu significado português de fazer obra, importante ou não, desprezando património e ambiente - é uma viúva de oitenta anos. Apesar de viver sozinha, não é de modo nenhum uma velha senhora indefesa, pois a família, toda ela emigrada, com quem mantém assíduo contacto, é unânime em secundar a sua posição; e o seu advogado assevera-lhe que, num caso como este, a razão e o direito estão do seu lado. Acima de tudo, é uma senhora lúcida, com uma vitalidade física e mental admirável, que não se deixa vergar nem confundir pelo coro daqueles que, querendo mal à oliveira, é também a ela que querem mal.

As árvores antigas, como esta oliveira, são um símbolo de permanência atravessando épocas: representam a memória e o respeito pelo passado; a cada geração que com elas convive é dado o privilégio de as legar como herança. Em Portugal, onde se derrubam árvores pelos mais fúteis motivos, poucas são as que nos ligam ao passado. Somos cada vez mais um país desmemoriado e postiço, que varre a sua identidade para debaixo de tapetes de asfalto ou a esmaga com toneladas de betão.



P.S. Não incluímos fotos da oliveira porque preferimos que o seu local exacto não seja conhecido. Em lugar dela, vemos na primeira das fotos o que resta da Magnolia grandiflora aqui referida; e, nas outras duas, mostramos dois panoramas do rio Vez, com o solar da Quinta do Requeijo em fundo à direita.

25.2.05

Homenagem

Responso VI

De dia, entre os veludos e entre as sedas,
Murmurando palavras aflitivas,
Vagueia nas umbrosas alamedas
E acarinha, de leve, as sensitivas.

Fosse eu aquelas árvores frondosas,
E prendera-lhe as roupas vaporosas!

Cesário Verde
150 anos

Uma árvore corada



Fotos: pva 04/05

Esta é uma Rosaceae que merece destaque entre as plantas ornamentais pela formosura do porte e a coloração da folhagem e de que há, por isso, muitas variedades e cultivares. De folha perene, o vermelho rubro das folhas jovens dá-lhe, no inverno, um ar corado de saúde que muitos olhares confundem com a sua primeira floração do ano. No início da Primavera a copa enche-se de flores brancas, que nascem em umbelas achatadas e se combinam harmoniosamente com as folhas adultas, que são agora de um verde luzidio. O nome científico Photinia, palavra grega que significa reluzente, celebra precisamente este brilho excepcional da folhagem.

A maioria dos exemplares que conhecemos são híbridos da japonesa Photinia glabra e da chinesa Photinia serrulata. Há-os com bom desenvolvimento por toda a cidade, que parece ter clima que lhes é propício. Realce para a fotinia do jardim central de Serralves (foto à direita), a da quinta Vilar d'Allen e as cinco da rotunda da Boavista (foto à esquerda).

24.2.05

Nas margens do Vez


Foto: pva 0502 - Arcos de Valdevez

Será que o castanheiro, fotografado no remanso do passado domingo, se lembrava de outros invernos como este, com o pó suspenso no ar arranhando a garganta seca? Talvez as suas ramadas se erguessem a pedir chuva, mas sem o dramatismo das árvores de Florbela Espanca: afinal estamos no verde Minho, a uma dezena de metros do caudaloso rio Vez. Talvez recordasse o tempo em que a sua Quinta do Requeijo (Arcos de Valdevez) ostentava um palacete enfaticamente minhoto ainda não tocado pelo abandono. Entretanto chegou a chuva que lhe há-de renovar a seiva e a vida; uma vida de árvore entre ruínas e mato rasteiro, preferível à morte quase certa que lhe traria o habitual receituário das empreitadas à portuguesa.

(Havia no mesmo local uma das maiores magnólias do país, mencionada por Ernesto Goes, que obras desde então interrompidas não hesitaram em sacrificar; e grande parte da quinta foi há poucos anos terraplenada para se construir um complexo de piscinas, rodeado por um vasto parque de estacionamento pontuado aqui e ali por árvores enfezadas.)

23.2.05

Gota de chuva em ramo de lódão

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Fotos: mdlramos 0502
Poderia bem ser o programa ideal para os próximos dias: procurar arvorezinhas nas gotas de chuva.
Mas amanhã já prevêem "céu pouco nublado", pelo menos no Norte! "So sad!"
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(Será que é preciso ter espírito índio para que resulte a dança da chuva?)
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Viveiro Municipal na antiga Qtª das Areias

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. Fotos mdlramos: 0403 ...................Viveiro Municipal do Porto- Campanhã

Aspecto de uma das ruas dos jardins com alguns exemplares da magnífica colecção de camélias

O Viveiro Municipal da cidade do Porto encontra-se sediado no lugar de Azevedo, em Campanhã, na antiga Quinta das Areias, propriedade que veio substituir a chamada Quinta de Furamontes ou Casal da Capela cuja referência mais antiga conhecida é do séc. XVII. Esta propriedade com uma área de cerca de 6,7 hectares encontra-se desde 1937 na posse da Câmara Municipal do Porto que, para além do viveiro, aí vem desenvolvendo uma importante acção na área da educação ambiental.

Fontes: Qtª das Areias e Horto Municipal (EB23 Nicolau Nasoni) ; Viveiro Municipal (in Visitar Porto, site do Turismo da CMdo Porto)
Ver mais fotografias do
Horto Municipal (página de O Porto em Fotografia)
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22.2.05

Camélias em flor - visita ao Viveiro Municipal do Porto




Fotos: pva 04/05

NO DIA 26 DE FEVEREIRO (sábado), a associação Campo Aberto convida a conhecer a colecção de camélias do Viveiro Municipal, na Rua das Areias, em Campanhã. A visita, que inaugura o Ciclo de Visitas a Jardins que a associação organiza em 2005 à semelhança do que fez em 2004, tem início às 14h30 e é guiada pelo Dr. João Gonçalves da Costa, colaborador do Jardim Botânico do Porto, estudioso de Botânica e cronista d'O Primeiro de Janeiro.

A camélia no Porto é uma tradição com dois séculos. Foi no Porto que esta planta asiática fez, no início do século XIX, a sua entrada oficial no nosso país; e foi do Porto que partiu para conquistar todo o norte de Portugal e mesmo a Galiza. Hoje em dia a camélia é uma presença abundante nos nosso jardins e um dos traços mais característicos da fisionomia urbana do Porto. O acervo de camélias do Viveiro Municipal do Porto, enriquecido há poucos anos com a aquisição de uma importante colecção particular, conta com mais de trezentas variedades (a maioria em flor nesta altura do ano), e é a melhor garantia de que essa grande tradição portuense é hoje dignamente perpetuada.

A participação na visita é gratuita mas sujeita a inscrição prévia pelo endereço electrónico contacto@campoaberto.pt

21.2.05

"Summary of plum painting phrased for memorizing by chanting"

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«There are certains secrets in painting the plum tree. First, establish the idea (i). Brush should be nimble, inspired with a certain madness. The hand should move like lightning, without hesitation. Branches should spread, some straight, some crooked. Ink tones should be varied, light and dark, and never retraced. (...)
Space should be left on branches for adding the blossoms. When they are added, the soul of the flower should seem to be intact. On young branches, blossoms are single and separate. On old branches, blossoms are few. On branches that are neither young nor old, the idea (i) transmitted through the blossoms should be one of luxuriant abundance. (...)
The flowers of the plum tree have eight "faces": straight, side view, facing upward, inclined, open, droppig, half-opened, and about to shed its petals. When the petals are awry and the flowers are bending over, the wind is blowing through the branches. When there are many blossoms, they should not be crowded; few, they should not be sparse. Plum blossoms are subtly fragrant, their complexion pure as jade. (...)
With these basic rules and principles in mind, one should be able to produce strange and wonderful forms. Invention does not stop the idea, although one should always keep in mind the dignity of the plum tree and what is appropriate to it.»

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in Mai-Mai Sze -"Book of the Plum", The Way of Chinese Painting - Its Ideas and Techniques with Selections from the Seventeenth-Century Mustard Seed Garden Manual of Painting (New York: Random House, 1959. pg. 329, 330)
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20.2.05

Exposição a não perder (primeiros e últimos dias)




Fotos: pva 0502 - Prunus sp. no Jardim da Casa das Artes (Porto)

19.2.05

As Árvores e a Machada - Fábula

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«Um machado de aço bem forjado, faltando-lhe o cabo, sem ele não podia cortar.
Disseram as Árvores ao Zambujeiro, que lhe desse o cabo. E como o machado esteve encavado, um homem com ele começou a fazer madeira, e destruir o arvoredo.
Disse então o Sobreiro ao Freixo:
- Nós temos a culpa, que demos cabo ao Machado para nosso mal; porque a não lho darmos, seguras pudéramos estar dele.
-Fábulas de Esopo Vertidas do grego por Manuel Mendes, da Vidigueira»
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in Teófilo Braga-Contos Tradicionais do Povo Português (1883). Lisboa: Pub. Dom Quixote, 1987 (3ª ed.), vol. II
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(Entrada inspirada pelo provérbio árabe publicado por um amador da Natureza)
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18.2.05

A Flor da Azinheira

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A propósito da função mediadora da árvore na comunicação com o divino -azinheira de Fátima, parte dois:
«(...) Bordejam a Cova algumas velhas, tamanhonas azinheiras; ao centro, outra mais afeitada e maneirinha, menina e moça ainda, mas tão ramejante, folhenta e enovelada, que lembrará, em verde hipérbole, um enorme manjericão de Santo António.
(...) Entretanto, Lúcia vai descendo, vagarinho, a suave rampa da Cova. Entra sob a redonda e espessa capa da pequena azinheira que está ao centro. Acaricia, abraça-lhe o tronco pouco mais alto do que ela. Olha para o chão, dando sinais de surpresa. Espreita, ao alto, a emaranhada rama. Observa ao derredor. Depois, chamando os companheiros:
LÚCIA: Eh! vinde ver... Coisa assim!.../ Isto não é dos meus olhos:/ Nunca lhes senti refolhos/ De abusão ou de cegueira./ Ora, se não é de mim,/ Será, então, da azinheira?
JACINTA, acorrendo: Lúcia, que foi? o que vai?
FRANCISCO : Viste bruxa? lobishomem?
LÚCIA: Eu não quero que me tomem /De tonta, nem por um ai. (Aponta a árvore)./ Ora olhai-me para a copa.
FRANCISCO: Tão cerrada, que nem opa/ De veludo!
LÚCIA: Olhai, agora,/ Para o chão.../ - Esta Senhora/ Não dá sombra... Nem pontinha!
FRANCISCO, pasmado: Ele é verdade que não!
(...)
(Novo clarão. Este, mais doce, qual imenso pálio de oiro, descendo sobre a Cova da Iria.
É então que na azinheira, - maravilhoso gladíolo a desabrochar dum tufo verdejante,-é então que Nossa Senhora aparece. Espiritualmente mil vezes mais bela do que a "formosa entre as formosas". Divina pomba, toda em arroubo, toda em arrolos de formas mulheris: virginal estátua viva. Parecem de alvíssima penugem seus vestidos e manto. O cordão à cintura deverá ser de fios de sol, torcidos pelos Anjos. As contas do Rosário que traz na mão fina como espadela de espadelar o linho, seriam estrelas que, no Oceano Azul, cristalizassem no tamanho de pérolas. Coroa-lhe a fronte o íris dum diadema, florescido nas mais raras e variegadas pedras dos tesoiros de Salomão.
Ao vê-la, os pastorinhos estremecem de espanto, confusão, temor, ânsia de fugir, encantamento e curiosidade de ficar nem que para sempre fosse).
LUCIA: Ai que Senhora tão linda!
JACINTA: Outra assim não vi ainda.
A APARIÇÃO, em acolhedor aceno: Achegai. Não tenhais medo./ Embora eu seja O Segredo,/ Não vos quero nenhum mal.
LÚCIA, adiantando-se confiadamente: Desculpará. Mas, a gente,/ Assim rústega e temente.../ - Primeiro: Vossemecê/ Donde nos vem? e quem é?/ E que nos manda, afinal?/ Talvez que seja a Rainha?/ Ó que tonta ideia minha!/ Já não há em Portugal... (...) »
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"A Flor da Azinheira" (2º quadro) in Azinheira em Flor, O mistério de Fátima entrevisto, visionado e contado em alguns poemas por António Correia de Oliveira, ed. de C. d'Oliveira, Lda, 1954
Ler excerto de "Pastoral" (1º quadro)
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Ficus religiosa


Foto: pva 0412 - Ficus religiosa - Jardim Botânico do Porto

Por razões misteriosas, os seres divinos preferem contactar-nos, no nosso restrito vale-de-lágrimas, junto a árvores. A macieira do paraíso foi instrumento essencial na origem do pecado, momento oportunamente presenciado por uma cobra enroscada nos ramos perfumados de maçã madura; também haveria por perto uma figueira, que forneceu o primeiro pronto-a-vestir da história; por cá, a azinheira da Cova da Iria terá cumprido o seu papel de cenário para as revelações aos pastorinhos, servindo ainda de altar em capela improvisada ao ar livre. A Ficus religiosa faz parte deste clube de testemunhas privilegiadas: a sua presença e sombra terão inspirado sabedoria, sanidade perfeita e uma profunda consciência do universo, e é por isso árvore sagrada nos rituais da religião budista.

O género Ficus, da família Moraceae, conta com mais de 1000 espécies, em geral de folha perene, que apreciam climas amenos em regiões tropicais ou subtropicais e são muito usadas como árvores ornamentais. As flores são diminutas e estão ocultas em cápsulas polposas que depois se transformam nos frutos: um doce figo lampo é afinal um estojinho de flores.

A espécie religiosa, originária da China e Índia, é inconfundível pelas folhas de base larga, com nervuras bem marcadas, pecíolos compridos - que dão à copa um ar gaiato -, margens inteiras mas onduladas, e um ápice que se estreita abruptamente e se prolonga numa ponta pronunciada. Há notícia de árvores desta espécie, plantadas há centenas de anos em adros de templos budistas na Ásia, que exibem ainda hoje porte magnífico e são referências entre peregrinos. O exemplar mirrado da foto vegeta em lugar de solo pobre e pouco soalheiro no Jardim Botânico do Porto.

17.2.05

Significações das árvores e frutos de acordo com a Santa Escritura

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in Tratado das Significações das Plantas, Flores, e Frutos que se referem na Sagrada Escritura, Frei Isidoro de Barreira (Lisboa, 1622)
Anterior do mesmo autor: Árvore - Vida humana
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16.2.05

Subsídios para uma nova lei de conservação

A ciência, já se sabe, é um constante desafio ao senso comum, ao postular, com arrogante certeza, leis que contradizem toda a nossa experiência. Acreditar na ciência e desprezar os dados dos sentidos, ou sujeitá-los a uma interpretação tortuosa para que confirmem o que tão claramente desmentem, é uma das provas a ultrapassar para atingirmos a maioridade cultural. Aceitamos hoje piamente as leis físicas e demais paradoxos científicos, e calamos a voz interior que nos quer perturbar com antigas e ingénuas dúvidas.

As nossas elites vão-se também dando conta de que a ciência não é um edifício acabado: pois se mesmo por cá ela tem ministros, laboratórios, projectos, financiamentos, avaliações, é porque há alguma azáfama e substância (ou seja, ciência nova) por trás disso. Embora nem sempre tenham a importância da lei da gravitação universal, todos os dias se juntam novas peças ao grande edifício da ciência. A descoberta que hoje aqui divulgamos não será comparável a um tijolo desse edifício, nem talvez mesmo a um azulejo. Se o fosse, procuraríamos dignificá-la, a bem da ciência e do nosso próprio currículo, publicando-a num peer-reviewed journal.

Seja como for, aqui vai, em pré-publicação, a lei Ficus de conservação da matéria: nas plantas do género Ficus, o volume dos frutos é inversamente proporcional à área das folhas. Os dados experimentais que fundamentam esta lei foram colhidos (termo singularmente apropriado, tratando-se de figos) em Janeiro de 2005, com boa luminosidade mas em condições climatéricas anormais para a época (a seca, lembram-se?), num muro do Jardim das Virtudes, no Porto, e no Jardim Botânico de Coimbra; consistem no seguinte:

- Ficus pumila [primeira foto] - folhas pequenas e frutos grandes

- Ficus macrophylla [segunda foto] - folhas grandes e frutos pequenos

Entenda-se que este é um work in progress, e muito há ainda a aprofundar. Por exemplo: a vulgar figueira, Ficus carica [terceira foto] - folhas grandes e frutos grandes -, parece constituir uma clamorosa excepção à lei atrás enunciada, mas não nos podemos deixar iludir pelo empirismo rasteiro. Há que passar os dados experimentais pelo filtro das elaborações teóricas. Tal como no caso da pedra e da folha de papel, que deveriam manter-se lado a lado durante a queda mas de facto não o fazem (porque além da gravidade há a resistência do ar), outros factores, por ora desconhecidos, podem determinar a anomalia da Ficus carica.



Fotos: pva / mdlramos

15.2.05

"São bugalhinhos de fogo!"

«Serra de Aire, ladeirando para os píncaros. Prega de rechã, entre dois pequenos oiteiros... A Cova da Iria não está longe; não avista ainda a Terra escalavrada e pedregosa, austera e sofredora, mas trejeitando de primavera nos sarçais e rosmanos floridos. Aquém e além, lumieiras de giestas em pleno resplendor de oiro e neve.
Ali, os três pastorinhos foram descansar os seus rebanhos, embora não haja respiro de fonte e abanar de árvore à aragem. Calor de estio vivo, o Sol também a subir ao planalto da Montanha-Azul. No entanto, os três zagais brincam, riem, tagarelam, ora sentados entre as estevas mais altas, ora no galreado, saltado irrequietismo das crianças saudáveis e alegres.

JACINTA, na ribalta dum fraguedo cantando: O mundo pertence a Deus,/Como ao Sol pertence o dia,/Ao jardim pertence a flor/E o Mês de Maio a Maria.
LÚCIA, a mais velha e acomodada dos três, tentando medir as alturas da manhã:Vamos para o meio-dia.../Que sol bravo! Quem diria?
JACINTA, descendo: Parece que, lá por cima/ (Muita pressa, muita estima!) /Em lugar de ser em Junho,/Já começou o rascunho/Temporão/Das fogueiras/Saltadeiras/A Santo António e João.
FRANCISCO: A Serra, neste reconco,/Lembra-me o forno do pão,/Quando a Mãe, forquilha em punho,/Já tem desfeito em braseira,/Desde a rama até ao tronco,/Toda uma velha azinheira.
LÚCIA, pensativa: Sim! não vai para brinquedos/ Calma assim... Tenho na minha/Que o Sol também tem segredos.
FRANCISCO: Para os dizer à Noitinha?...
JACINTA: E a Noitinha, ao Rouxinol.
(...)
LÚCIA, muito séria: Olhai que já é desmando! (Tira dum bolsilho, sobre o peito, o seu Terço, passando-o pelos dedos. Logo, estremecendo): Coisa assim! Eis senão quando.../O Sol apegou-lhe o lume?! /Minhas contas de vidrilho/Jamais tiveram tal brilho:/São bugalhinhos de fogo!
JACINTA, também impressionada: O Terço fica para logo,/Ao bater do meio-dia,/Conforme ao nosso costume.
LÚCIA, erguendo-se: Pois vamos por aí fora, /Até à Cova da Iria,/ Segundo o Pai recomenda.
FRANCISCO: Vai levar um quase de hora, /E já me tarda a merenda.
(Ajuntam e afoutam as ovelhas).
(...)
OS CHASCOS, galrando e saltitando na pontinha dos tojos: - «Chás, chás!/Por aí bem vás, /Por aí bem vás. »
OS PISCOS, nos ramos dum carrasqueiro, falando aos chascos: - «Pis! pis! /Inda bem que não mentis,/Inda bem,/Como fizestes outrora/A pobre Nossa Senhora/Fugidinha Egipto além.»
(Para os pastores): -«Pis ! pis!/Por aqui bem is.»
(E, chascos e piscos, revolteando, cantando, tomam a dianteira, servindo de alados guias. Francisco, na sua avena pastoril, tenta uns arremessos de marcha heróica e triunfal).
JACINTA, cantando: A Iria dizem que foi. /Linda moirinha encantada./Vou pedir-lhe que se mostre.../Prometo não dizer nada! (...)»

"Pastoral" (1º quadro), Azinheira em Flor- O mistério de Fátima entrevisto, visionado e contado em alguns poemas por António Correia de Oliveira, ed. de C. d'Oliveira, Lda, 1954

Ler excerto de "A Flor da Azinheira" (2º quadro)

Obituário

Está difícil a vida das tílias no Porto: desde que em meados de 2004 caiu uma na Praça da República, levando um vereador da Câmara a acusar outro de negligência, o abate de tílias na cidade atingiu níveis de massacre. Na Praça da República, quase todas as de grande porte foram já cortadas; da rua Dr. José de Figueiredo (bairro do Campo Alegre) desapareceram outras duas; e também as do largo da Lapa não escaparam à limpeza. A campanha prossegue agora na rua D. Manuel II, com o corte das tílias monumentais frente ao Palácio de Cristal.

Haverá por certo motivos de segurança, baseados em diagnósticos que não temos competência para discutir, a determinar tais abates. Mas seja-nos permitido estranhar que tantas árvores adoeçam irremediavelmente em tão poucos meses. Foram atingidas por alguma epidemia de que não temos notícia? Se o não foram, este massacre revela um preocupante excesso de zelo. Porque, bem vistas as coisas, o único modo de garantir que as árvores não caem é cortá-las todas: não há nada mais seguro do que um deserto.

Branco sobre azul

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foto: mdlramos 0402 - Magnólia em flor, rua do Gólgota (Porto)
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A thing of beauty is a joy for ever

«A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness; but still will keep
A bower quiet for us, and a sleep
Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.
Therefore, on every morrow, are we wreathing
A flowery band to bind us to the earth,
Spite of despondence, of the inhuman dearth
Of noble natures, of the gloomy days,
Of all the unhealthy and o'er-darkened ways
Made for our searching: yes, in spite of all,
Some shape of beauty moves away the pall
From our dark spirits.


Such the sun, the moon,
Trees old, and young, sprouting a shady boon
For simple sheep; and such are daffodils
With the green world they live in; and clear rills
That for themselves a cooling covert make
'Gainst the hot season; the mid-forest brake,
Rich with a sprinkling of fair musk-rose blooms:
And such too is the grandeur of the dooms
We have imagined for the mighty dead;
All lovely tales that we have heard or read:
An endless fountain of immortal drink,
Pouring unto us from the heaven's brink.


Nor do we merely feel these essences
For one short hour; no, even as the trees
That whisper round a temple become soon
Dear as the temple's self, so does the moon,
The passion poesy, glories infinite,
Haunt us till they become a cheering light
Unto our souls, and bound to us so fast
That, whether there be shine or gloom o'ercast,
They always must be with us, or we die.

(...)
John Keats- Endymion (1818)

14.2.05

Todos à Grande Manifestação



Fotos: pva 0502 - magnólias em flor no Largo Primeiro de Dezembro (Porto)

A magnólia

Nem sempre as folhas são
quem primeiro vê a luz.
Olhem esta magnólia,
que se cobriu de flores,
antes de se terem coberto
de folhas, os ramos nus...

Jorge Sousa Braga, Herbário (1999)

13.2.05

Escrito no muro

«Lembro-me, eram todos muito jovens, eu já o não era tanto, mas isso não impedia que, no branco extenuado dos mesmos muros, as minhas palavras encontrassem nas mãos dos meus amigos o natural contraponto, nesse desejo insensato de fazermos do olhar um bem comum.

Naquela primavera, entre lúcida e ácida, tínhamos na noite o rio onde mergulhávamos inteiros, e as árvores que alguns de nós, com amorosa paciência, haviam pintado nas paredes iam-se enchendo de pássaros.»

Eugénio de Andrade, Memória doutro rio (1978)

Mural


Foto: pva 0502 - muro no Jardim Botânico de Coimbra

Não gosto da hera, que rasteja furtivamente e abraça de morte as árvores. A hera é um parasita que vive do abandono. Aguarda a sua oportunidade para cobrir com um manto sufocante jardins que foram coloridos e opulentos. Rompe paredes e cresce mesmo dentro das casas, indiferente à penumbra: há hera a espreitar, qual babugem verde, por detrás das janelas de prédios arruinados.

A aguarela que as trepadeiras compõem neste muro é ameaçadora, porque nela se mistura a cor da hera (Hedera helix); mas outras cores amenizam o conjunto, como a da Ficus pumila no canto inferior direito e uma pincelada vermelha que não sei identificar.

12.2.05

Mimosa em flor (Serralves)

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Foto: mlramos 0502 - Serralves (Porto)
Mimosa em flor com eucaliptos ao fundo encimados por garça...
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Compreende-se perfeitamente o fascínio que as Acacias exerceram sobre os europeus quando começaram a ser conhecidas: a floração espectacular de algumas espécies aliada a um rápido crescimento criaram de imediato adeptos entusiastas tanto na área da horticultura como da silvicultura.
Actualmente são consideradas invasoras extremamente nefastas que suplantam e ameaçam a flora autóctone, e a sua erradicação e controle é muitíssimo difícil.
A propósito pode ler-se hoje na imprensa uma notícia sobre a possibilidade da utilização do "Trichilogaster acaciaelongifoliae", um insecto da Austrália, na luta contra uma determinada espécie de acácias.
Ver:Insecto da Austrália Pode Vir a Controlar Invasão de Acácias (in Público, por Teresa Firmino/12 -2- 2005)

As acácias nos Dias com árvores:
Fogo em Monchique (25-07-04); Acácias invasoras (28-09-04) ; Despedida do Outono - Tibães (28-11-04) ; Mimosas (16.1.05); Visita à Quinta de Marques Gomes (10-2-05)

11.2.05

Árvore metálica (actualização)

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Entrada actualizada com inclusão de link depois do contacto do escultor Aureliano Aguiar.

«The best place to seek God is in a garden. You can dig for him there. »
George Bernard Shaw, The Adventures of the Black Girl in Her Search for God, 1932

A sossegada convivência com a doce mãe Natureza

«Temos tido alguns problemas ecológicos graves. (...) A mangueira daqui de casa é um pouco exibida, gosta de aparecer, de maneira que dá duas safras descomunais (quatrocentas mangas em cada, mais ou menos - todo o mundo aqui enjoa de manga e os amigos me evitam, para não ganharem mais mangas de presente) por ano, em épocas que nem passariam pela cabeça de uma mangueira normal. (...) No jardim a situação também é séria e, o que é pior, por culpa minha. Resolvi plantar, junto de uma absurda estátua, cuja origem ninguém da família lembra, intitulada "Verão" embora de aparência feminina e frágil, uma árvore que nem tem nome popular no Brasil. Li não sei onde que essa tal árvore é uma verdadeira maravilha, cresce em qualquer lugar, resiste a tudo e serve para tudo, inclusive para lenha, porque, se for cortada no tronco, cresce de novo ad infinitum. Chama-se Leucena leucocephala e está sendo usada por alguns plantadores de cacau para fazer sombra aos cacaueiros, pois cacaueiro não gosta de sol. (...) Mal acaba de florar uma vez, começa a florar de novo. Não tem senso de decência. Faz brotos novos, produz vagens e sementes, produz flores e solta folhas velhas simultaneamente, num furor quase visível, coisa impensável entre plantas, pois se existem entes discretos e recatados, estes são as plantas, apesar de certas mangueiras, e, indiscutivelmente, algumas bromélias e girassóis.» (*)

João Ubaldo Ribeiro, Arte e ciência de roubar galinha (1998)

(*) E acácias.

10.2.05

Visita à Quinta de Marques Gomes



Fotos: pva 0501 - Quinta de Marques Gomes - Gaia

A Quinta de Marques Gomes, também chamada Quinta do Montado, em Gaia, foi aqui assunto há umas semanas, quando trouxemos um texto de opinião no JN do nosso amigo Bernardino Guimarães. O caso pode assim resumir-se: a Câmara de Gaia abdica da oportunidade de construir um valiosíssimo parque urbano com cerca de 30 hectares, integrando zonas húmidas ribeirinhas, campos agrícolas fertéis e uma vasta mata, em troca de mais uma urbanização megalómana. É a história do costume, com a agravante de Gaia, um dos concelhos mais extensos e populosos do país, ser também um dos mais pobres em espaços verdes: no seu miolo urbano há dois únicos e pequenos jardins públicos, o do Morro e o Soares dos Reis. O Parque Biológico de Gaia e a Estação Litoral da Aguda, duas notáveis realizações no domínio ambiental, não podem servir de eterno álibi a esta despreocupação camarária com a qualidade do espaço público concelhio.

Uma longa alameda, sombreada por alinhamentos de tílias afogadas em vegetação daninha, conduz do portão de entrada da quinta, na zona alta do Canidelo, à grande mansão abandonada, a que altivas palmeiras-das-Canárias ainda fazem guarda de honra. O palacete foi usado, entre 1975 e 1991, por uma cooperativa de ensino e como sede de uma associação popular, e terá sido nesse período que os canteiros ajardinados em seu redor foram substituídos por placas de cimento. Em volta do pátio, grandes árvores ornamentais recordam a antiga opulência: tílias de porte formidável, uma melaleuca, araucárias, um metrosídero monumental enfeitado com cachos de raízes aéreas. E pela encosta abaixo, descendo suavemente em direcção ao Douro, mas tão densa que dele não permite o menor vislumbre, estende-se a mata... de acácias, numa demonstração conclusiva da ameaça que esta árvore, capaz de obliterar em poucos anos toda a concorrência, representa para a floresta portuguesa. A dada altura o caminho desemboca em campos agrícolas cultivados, e a vista alarga-se até ao rio. Adivinham-se já os folhetos promocionais anunciando as vistas privilegiadas... para quem as puder pagar, quando este panorama único, embalado num silêncio raro, for tapado pela cortina de prédios que requalificará a zona baixa da quinta.

9.2.05

E Deus disse: "Ponha-se a mesa!"...

À falta de um, já que hoje é o primeiro dia do ano do Galo -e estamos na Primavera segundo o calendário chinês- aqui vão umas... pombas ;-)

Fotos: mdlramos 0402 ............comendo bagas dos ligustros (Ligustrum sp.)



Depois das flores em Junho, os frutos ...
As bagas violáceas dos ligustros fazem as delícias dos pássaros nos meses mais frios.

Ver Os nomes das árvores -Ligustro

8.2.05

Dos Jornais - Árvores classificadas (actualização)

Afinal é branca...


Foto: pva 0502 - Magnolia denudata - Rua de Aníbal Cunha (Porto)

... e é também a primeira parte de uma dedicatória a dois tempos (a segunda parte terá de esperar pela floração das magnólias cor-de-rosa, em geral mais tardia).

7.2.05

Vista para o Jardim da Cordoaria

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foto: mdlramos 0402
Obviamente mais virados para os jardins que alguns dos nossos amigos, aqui fica esta vista (complementar) do alto da velha Torre dos Clérigos, em que está bem patente a destruição do jardim histórico.

Cuidado com as etiquetas # 2

Embora, tal como as coníferas e as cicas, a Ginkgo seja uma gimnospérmica (plantas cujas sementes não estão envolvidas por um fruto polposo), e tivesse sido até final do século XIX considerada uma conífera, as suas peculiaridades fizeram com que fosse incluída num grupo à parte, o das Ginkgophytas (que consiste numa única ordem, a das Ginkgoales, com uma só família, Ginkgoaceae, formada por uma único género vivo, Ginkgo). Em suma: ao contrário do que nos ensina esta placa nos jardins do Palácio de Cristal, há mais de cem anos que não se considera a Ginkgo uma conífera. É bom que haja placas identificativas, como defende Duarte de Oliveira no texto de 1882 que a seguir transcrevemos - mas melhor seria se estivessem correctas.

«É motivo de forte gargalhada, e, ao mesmo tempo, de justo sentimento, ouvir os nomes esquisitos que muitas pessoas, aliás ilustradas dão às plantas. Há pouco tempo ainda, estando o signatário destas linhas com um seu amigo e sentados num dos bancos colocados em frente ao edifício do Palácio de Cristal, ouviram dizer a um sujeito que com outro passeava:

- Não achas de péssimo efeito estes pinheiros e cedros plantados aqui no jardim?

Ao ouvir isto, olhamos para o nosso amigo, que não pode reprimir o riso provocado pelos nomes que aqueles senhores davam às Araucárias. O gosto pela floricultura tem-se desenvolvido muito; mas para progredir, é necessário saber o verdadeiro nome das plantas. A colocação das etiquetas nas plantas dos jardins públicos são lições práticas de botânica e o melhor método para vulgarizar os seus nomes.»

(Jornal de Horticultura Prática, Vol. XIII, Abril 1882, p. 79)

6.2.05

Dos jornais- Derrubado o eucalipto de S. Pedro de Arreigada

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«Eucaliptus globulus (...)
Eucalipto da Arreigada, que fica no lugar da Arreigada na freguesia de Lordelo, do concelho de Paços de Ferreira. É um eucalipto majestoso que tem as seguintes dimensões: altura- 52 m.; perímetro do tronco (P.A.P)- 7,10 m.; altura do tronco até às primeiras pernadas- 13, 5 m.; volume do tronco- 40,30 m3 » p. 71
É nestes termos que Ernesto Goes no seu livro Árvores monumentais de Portugal, se refere ao chamado eucalipto de S. Pedro ou da Arreigada que foi ontem foi derrubado.

Em 21 de Março de 2003, o possível abate desta árvore foi notícia de primeira página na edição nº 221 do "Imediato", jornal regional de Paços de Ferreira: «Não deixa de ser irónico que no "Dia Mundial da Árvore" que se torne pública a manifesta vontade de abater uma árvore que é já símbolo da Freguesia de Arreigada. Quem não conhece o majestoso Eucalipto de S. Pedro, com as suas anormais dimensões, e enormes braços ramificados. É certo que não é uma árvore autóctone, não está em local privilegiado, nem prima propriamente pela beleza estética, mas há valores que são superiores a tudo isso. S. Pedro de Arreigada não será o mesmo sem o seu "Calitre" como os mais idosos o recordam na linguagem popular.» (ler)
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Pelos vistos ninguém acudiu à árvore pois na edição nº262 (8/6/2004) deste jornal confirmava-se o perigo previsto: «um tronco de grandes dimensões cedeu da árvore e caiu sobre um poste de electricidade e outro dos telefones, destruindo-os» (ler notícia: Maior árvore do Concelho está a cair )
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Ontem foi finalmente derrubado este enorme eucalipto que decerto vai deixar imensas saudades nos habitantes locais : «Dezenas de populares da freguesia de Arreigada, Paços de Ferreira, assistiram ontem de manhã ao derrube de um eucalipto com cerca de 50 metros de altura e mais de cem anos de vida, que já constituía uma espécie de ex-libris da localidade. » (ler no Comércio do Porto)

O Mundo da Camélia - rectificação

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«Fimbriata Alba (C. japonica)
Cor branca, forma de rosa a dobrada formal com o bordo das pétalas recortado ou fimbriado, tamanho médio, floração meia estação. É uma mutação da Alba Plena. Introduzida na Inglaterra vinda da China em princípios do séc. XIX.»
in O Mundo da Camélia, p. 83

Em finais de Dezembro noticiámos a descoberta (por nós inesperada) de um belíssimo livro infelizmente pouco divulgado: O Mundo da Camélia da autoria de Veiga Ferreira e Maria Celina.
Entretanto os autores solicitaram-nos que rectificássemos o contacto para aquisição da obra, o que fazemos com todo o gosto:
José Alberto Ferraz da Veiga Ferreira
Rua Manuel Bandeira 147-93 -Porto
Fax 226090036 Telemóvel: 968019684

Foto: mdlramos 0412 - Quinta Vilar de Matos, Junqueira, Vila do Conde

5.2.05

Cuidado com as etiquetas


Fotos: mdlramos 0011 / pva 0501

Este arbusto de porte saudável mora num dos socalcos dos jardins do Palácio de Cristal, rodeado por magníficas camélias; em 1999, foi-lhe atribuída uma placa de identificação onde se lê Cyca circinalis. A foto mais antiga (de 2000) exibe os cones da planta, que sugerem que ela é feminina; as mais recentes mostram as folhas pinadas, coreáceas, de tom verde encerado, dispostas em coroa no topo do tronco curto formado por bases de folhas que entretanto caíram; cada folíolo é duro, sem nervura central, e exibe 2 a 5 dentinhos em cada margem. Aos nossos leitores atentos não passou despercebida a semelhança com a descrição que aqui deixámos há poucos dias, e realmente este arbusto não é do género Cyca, mas sim Encephalartos. As Cycas, apesar de aparentadas com os encefalartos, exibem folíolos fininhos e longos, com penugem nas faces anteriores enquanto novos, nervura central e sem sulcos nas margens. Quem cuida das placas deste jardim?