31.3.05

Peça em um acto

A conversa decorre no gabinete do Vereador, situado no quinto andar da Câmara Municipal. A decoração da sala é asséptica e impessoal: estantes lisas onde se alinham pastas de arquivo e volumes encadernados, cadeiras metálicas com forro preto, duas serigrafias com motivos abstractos encaixilhadas a negro sobre o fundo branco da parede. Das amplas janelas avistam-se os altos prédios circundantes. Sentado à secretária, o Vereador folheia o catálogo da firma Soluções Verdes; à sua frente, o Empresário vasculha uma pasta de cabedal.

Vereador: «Muito interessante, a gama de produtos da sua empresa. Vem mesmo a calhar. A cidade há muito que pôs em marcha um ambicioso programa de requalificação urbana para se modernizar e reforçar a sua auto-estima. Não podíamos continuar agarrados a um conceito atávico de espaço público, indigno de uma cidade verdadeiramente europeia. Queremos espaços arejados, limpos e amplos, traçados com esquadria rigorosa... Mas porquê o nome Soluções Verdes?»

Empresário: «De facto, os nossos produtos têm vindo a diversificar-se, e o nome da empresa, Soluções Verdes SA, já não será o mais ajustado. Preocupamo-nos sempre em alargar o nosso leque de soluções, adaptando-o às exigências do mercado, e ainda bem que esse esforço é reconhecido. Não abandonámos o verde, que continua a vender bem, sobretudo com as árvores-de-Natal (que comercializamos em três tamanhos, com ou sem enfeites) e as alcatifas para cobrir terraços de prédios (que são importantes para assegurar as manchas verdes em imagens aéreas da cidade). Mas a verdade é que agora há outras cores com muito mais saída, como o sizento e o preto. O que de todo deixou de ter procura, como o senhor Vereador muito bem sabe, foram as cores vivas: vermelho, amarelo, azul, rosa, etc. Até acabámos com o fabrico de flores artificiais, e isso entristeceu-nos porque esse foi o nosso primeiro negócio. Que ninguém quisesse flores de verdade, entendia-se, por causa daqueles senhores arquitectos a troçar dos canteiros e canteirinhos, mas não foi correcto desprezarem também as nossas flores, muito mais bonitas e resistentes. No fim já só se vendiam para cemitérios.»

Vereador: «Águas passadas, amigo, águas passadas. A guerra das flores já lá vai, e agora a cidade, felizmente, já não tem que se envergonhar desses efeitos decorativos fáceis que repugnavam às sensibilidades mais apuradas. Em boa hora optámos pelo sizentismo nos nossos espaços públicos. A sua empresa soube adaptar-se à mudança dos tempos, e é para a frente que se deve olhar. Esta sua árvore de granito, por exemplo, é uma excelente base de trabalho para o novo perfil da Avenida, e só é pena que seja redonda. Não fabricam outros modelos? Preferia um mais geométrico e anguloso, com as arestas bem vincadas.»

Empresário: «Gostou, foi? É coisa de um nosso recém-colaborador, rapaz cheio de talento. É como inventar a roda: agora parece muito natural, mas foi preciso alguém ter a ideia. Esta árvore de pedra tem todas as qualidades da árvore viva e nenhum dos seus defeitos. É resistente ao vandalismo e facílima de transplantar. E nem calcula o que a sua Câmara vai poupar só em podas e limpezas. Este modelo (Araucaria petrea) ainda é inspirado numa árvore de verdade, porque alguns municípios do interior, nossos clientes, mantêm o saudosismo das velhas formas. Mas veja aí no catálogo como temos modelos de linhas mais modernas, ideais para uma cidade progressista como esta.»

Vereador: «Estou a ver... Sim senhor, muito bem. Gosto especialmente desta árvore com os quatros ramos em ângulo recto. E diga-me: a iluminação está incluída no preço?»

30.3.05

Arboricultura moderna - livro

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Intitulado Arboricultura Moderna e editado pela Sociedade Portuguesa de Arboricultura (SPA) em 2002, este "manual" da autoria de Alex L. Shigo oferece, tanto para o profissional como para o amador curioso, um manancial de informação preciosa sobre o "sistema-árvore".

Carácter distintivo da obra (que na sua edição original vem aliás acompanhada de diapositivos) são as opções gráficas e de exposição : 161 diagramas (da autoria de David Carroll) extremamente expressivos ilustrando um texto com explicações claras, em que é patente a abordagem sistémica privilegiada pelo autor: os aspectos biológicos, químicos e mecânicos da árvore indissociáveis entre si e interdependentes com o meio.

No início do livro encontra-se um índice com o título de cada diagrama e pode ver-se pela transcrição de alguns como é basilar o seu carácter prático e pedagógico: "13- Luz na cidade e no campo", "29- Umas primeiras noções sobre compartimentação", "45-Pontos chave para podar como deve ser" , "67-Problemas com plátanos e tílias", "68-Rolagem um crime contra a natureza", "120-Danos causados por flores junto aos colos" ...

Agora na casa dos 70, o autor Alex Shigo, considerado "o pai da arboricultura moderna", começou a "serrar" literalmente algumas das "leis" da profissão quando, no ínício da sua carreira nos serviços Florestais dos US, entendeu que a prática comum de se serrarem transversalmente os troncos (para diagnóstico de patologias) era inadequada na medida em que desse modo apenas se poderiam obter informações parciais sobre a vida da árvore, tendo então optado também pelo corte longitudinal. A consequência desta teimosia em pensar pela sua própria cabeça foi a verificação da erroneidade de muitos conceitos e teorias vigentes, como podemos ler no seu resumo biográfico (em Shigo and Trees, Associates):
«As a result, he learned that many commonly-held concepts about heart rot and decomposition and other theories were wrong. "I could either go with the book (theories) or go with what I saw in the tree. Either the books were wrong or the trees were wrong. I chose to go with the trees," Shigo says.»
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O resultado é um vasto trabalho educacional e uma obra extensa publicada em vários países, e que no nosso se começou a tornar acessível ao grande público graças a esta iniciativa da Sociedade Portuguesa de Arboricultura em cujo site, na secção dedicada às publicações, se pode ler o seguinte:
«Arboricultura Moderna é um livro que esquematiza de uma forma simples e de fácil compreensão os vários processos de desenvolvimento e crescimento da árvore e de que forma estes condicionam o tratamento que lhes devemos dispensar para as melhor preservar ou obter delas as produções pretendidas.
A sua forma esquemática apresentada em diagramas que se interligam e que são interdependentes, são também a forma de Alex Shigo expressar a sua filosofia de vida assente nos princípios básicos do funcionamento dos sistemas naturais: "Admita os diagramas das páginas que se seguem como mapas de tesouro escondidos. Embora os mapas nunca nos ofereçam o tesouro podem conduzir-nos até ele".
A sua edição em português, traduzida pelo Prof. Dr. Carlos Abreu, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, vem contribuir para uma maior divulgação da obra deste investigador que tem dedicado a sua vida ao lema de "Touch Trees". »

On line podem encontrar-se alguns artigos do autor em Shigo on Tree Systems e a versão digital de 100 Tree Myths (ver versão abreviada)
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29.3.05

Poda inadmissível

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Mais uma... podemos acrescentar.
Neste caso também não se trata de velhas árvores (plátanos, tílias, choupos...) a que anualmente se cortam os novos ramos e cuja primeira rolagem ocorreu numa época em que as "ideias" sobre arboricultura moderna só existiam na mente visonária (e nos livros) de alguns.
As árvores são jovens, a cidade é o Porto no início do século XXI e as equipas de poda são constituídas -assim foi o cidadão comum informado pelos jornais - por jardineiros formados e supervisionados por especialistas. Ou não? Talvez neste dia estivessem todos de folga e o inadmissível aconteceu. Mais uma vez.


Podas em áceres (Acer sp.) na rua do Beato Tiago Azevedo - Março 2005

«Qualquer supressão de que resulta um aspecto definitivamente mutilado da árvore deve considerar-se inadmissível visto comprometer definitivamente a finalidade estética da planta ornamental. É preferível nesse caso a supressão pura e simples do indivíduo. Apenas se exceptuarão os casos raros de indivíduos ligados a factos históricos ou quando se pense que seja possível uma reconstituição aceitável da planta.
Normalmente os cortes devem fazer-se de modo a não se notarem. O maior elogio que se pode fazer a um podador de árvores ornamentais é que não se perceba que a árvore foi podada. A forma da árvore é perfeita e portanto não é necessário corrigi-la no sentido estético nem fisiológico.»

«Se não há espaço para a árvore é preferível plantar só o arbusto, ou mesmo só a flor e não contar depois com a tesoura para manter com proporções de criança o gigante que se escolheu impensadamente»

in A Árvore em Portugal de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles (Assírio & Alvim, 1999. 2ª ed.) p. 161

Adenda (30-03-05)
A Árvore em Portugal é a 2ª edição do livro que nos catálogos bibliográficos aparece com o título de A Árvore, publicado em Lisboa pelo Centro de Estudos de Urbanismo, em 1960.

Matosinhos celebra o dia da árvore


Foto: pva 0503 - Populus sp. - Matosinhos

Embora em certos casos se compreenda, não é boa conduta mentir às crianças. Mas o que é mesmo feio e indesculpável é a mentira institucional que o calendário das efemérides renova cada ano. Exemplo máximo é o dia da árvore, em que os adultos (sobretudo os que detêm o poder autárquico) encenam pelo arvoredo um apreço que não sentem nem praticam, encorajando cada criança a plantar a sua árvore. Descontando que esta altura do ano, com as árvores a emergirem do repouso vegetativo, não é a indicada para plantações, e dando de barato que algumas delas até sobrevivem, não seria preferível revelar às crianças o mais que provável destino das suas árvores? Tragam-nas, por exemplo, a visitar, para seu espanto e edificação, estes 48 choupos à frente da Câmara Municipal de Matosinhos:

- Oh senhor presidente, mas estes paus são mesmo árvores? Por que é que não têm folhas nem ramos?

- Não têm ramos por enquanto, mas vão ganhar muitos ramos quando as folhas rebentarem.

- Nunca tiveram ramos, é? Só agora é que vão ter? A professora nunca nos falou de árvores a crescerem a direito assim sem ramos.

- Já tiveram ramos, mas foi preciso cortá-los. É que senão as árvores cresciam de mais, tapavam o sol, e sujavam tudo.

- Mas se afinal as árvores são tão más, por que é que nos mandam plantá-las?

28.3.05

O homem que planta árvores

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«...Equipamento de jardinagem na mão, tá na hora de partir para ritual que se repete três vezes por semana. Seu Dino vai a pé até o local que escolheu para plantar as árvores. O plantio de árvores é feito às margens da via Anchieta, que liga São Paulo ao litoral sul, ao longo de dois quilômetros. De 95 para cá, ele plantou mais de mil árvores. Cuida do espaço como se fosse o jardim da casa dele...»
Continuar a ler (e ver) reportagem na página do Reporter Eco (da TV Cultura de São Paulo -o primeiro telelejornal da televisão brasileira especializado em meio ambiente criado em 1992)

Por sugestão de Alexandre Leite, um nosso leitor de Fafe ;-)
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Conferência e visita guiada por Teresa Andresen



Fotos: pva 0412 - Fund. Eng. António de Almeida: liquidâmbar, azáleas, fonte e camélias

Ciclo Jardins 2005

Sábado 2 de Abril às 14h30

OLHAR UM JARDIM - Conferência no auditório da Casa-Jardim da Fundação Eng. António de Almeida (rua Tenente Valadim, 231/325 - Porto) pela Arq.ª Teresa Andresen, que guiará em seguida uma visita ao jardim da Fundação.

ENTRADA LIVRE (não é preciso inscrição)

O JARDIM
A Casa Nova, que hoje alberga a Fundação Engenheiro António de Almeida, foi construída nos anos trinta do século XX para o banqueiro António Manuel de Almeida (1891-1968), tendo o seus jardim sido desenhado pelo horticultor e paisagista portuense Jacinto de Matos (falecido em 1947), a quem se devem, na primeira metade de novecentos, numerosos jardins e parques um pouco por todo o país - como por exemplo os parques da Curia e de Pedras Salgadas e, ainda existentes no Porto, a Quinta de S. Roque da Lameira e o jardim da Casa Allen (Casa das Artes). Segundo o livro Jardins Históricos do Porto, o jardim da Casa Nova, um dos últimos da grande tradição dos jardins portuenses, não é de «concepção arrojada. É, acima de tudo, um jardim para a disposição de plantas e, ainda hoje, é notável a diversidade arbórea e arbustiva.» Entre os arbustos, cabe destacar as azáleas, os rododendros e a variada colecção de camélias; e, entre as numerosas árvores hoje adultas, de assinalar a alameda de tulipeiros e várias faias, liquidâmbares e carvalhos de avantajado porte.

A CONFERENCISTA
Teresa Andresen, que colaborou também no nosso Ciclo Jardins 2004, é Arquitecta Paisagista, actualmente Professora Associada do Departamento de Botânica da Faculdade de Ciências do Porto, onde é responsável pela Licenciatura em Arquitectura Paisagista. Dirigiu, entre 1986 e 1988, a recuperação do Parque de Serralves, e coordenou recentemente, a pedido da CCDRN, o estudo Estrutura Ecológica da Área Metropolitana do Porto. É co-autora, com Teresa Portela Marques, do livro Jardins Históricos do Porto (Edições Inapa, 2001).

Organização: Campo Aberto

27.3.05

"Hanami"?

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Estou com uma dúvida desde a visita, na semana passada, à Quinta da Aveleda -onde as japoneiras continuam em flor e as cerejeiras resplandecem. (As fotografias -o dia estava com uma luz triste como a de hoje-não fazem justiça à sua beleza.)


Em japonês há uma expressão, "hanami", que significa "ver flor(es)" -aliás já aqui falámos dessa loucura poética que sazonalmente acomete a população do império do sol nascente- e a minha dúvida, DK, é a seguinte: pode usar-se para todas as flores ou apenas para a contemplação das cerejeiras em flor?

Adenda-resposta (28-03-05)

«Antes de responder à pergunta em concreto, convém dizer que o termo "hanami" tem uma longa história na cultura japonesa (ver, por ex., aqui).

"Hanami" começou por ser um hábito da aristocracia e referia-se essencialmente à contemplação das ameixoeiras em flor (o termo japonês genérico é "ume"; mas atenção: a "ume-no-ki" japonesa, e o respectivo fruto, "ume-no-mi", que é muito ácido, são muito diferentes das nossas ameixoeiras / ameixas!). A partir do período Heian (sécs. 8-12), o termo passou a designar a contemplação das cerejeiras ("sakura") em flor.

Mas o hábito mais generalizado e "democrático" de "hanami" tal como é praticado hoje pela população japonesa só começou por volta de finais do séc. 18, no período Edo.

Hoje em dia, a expressão "hanami", quando usada sem outros qualificativos, continua a referir-se aos festejos em redor da floração das cerejeiras. "Hanami" pode, todavia, usar-se a propósito da contemplação de outras florações - nomeadamente a da "ume" (que ocorre um pouco antes da das cerejeiras). Nesse caso, os japoneses costumam especificar: "ume-no-hanami"... :o) »

Obrigada DK!

Ressurreição

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«Volto a cantar, e voltam-me à memória
As rústicas imagens,
Que guardei na retina
De menino:
O repique do sino
Depois das negras horas da Paixão,
E a brejeira
Canção
Que num toco
Já oco
De cerdeira
- Flauta que um pica-pau lhe dera -
A seiva assobiava à Primavera...»

Miguel Torga in Diário VIII (1959)
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Definição - Árvore da redenção

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Foto: mdlramos 0302 - Convento da Arrábida
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«Árvore da redenção- nome poético com que os teólogos designam a cruz; e tambem árvore da cruz, árvore sagrada.» ( in Grande diccionario português ou thesouro da lingua portuguesa, Frei Domingos Vieira, 1871)
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26.3.05

Soneto com árvores


Foto da maquete incluída na revista Visão de 24/III/2005

Duas quadras e dois tercetos, com versos de cinco árvores cada, compõem um soneto escrito com árvores por Fernando Aguiar no Bairro da Seara em Matosinhos. A rima é feita da alternância de exemplares, de porte variado, de 10 espécies nacionais: amieiros, azevinhos, bétulas, carvalhos, cerejeiras, ciprestes, juníperos, pinheiros, sobreiros e ulmeiros. Quando os arranjos estiverem concluídos, com o arrelvamento e caminhos de pedra para os visitantes, as 70 árvores já plantadas embelezarão um terreno rectangular, inclinado para melhor se ler o soneto. Quem diria que nos viríamos ainda a maravilhar com um poema vegetal...


Foto: pva 0503 - Soneto visto da última linha

25.3.05

Flores da Páscoa


Tibouchina sp.

As amendoeiras, inspiração do doce típico desta quadra, estão ainda em flor. O que significa que as amêndoas consumidas nesta Páscoa são da safra de anos anteriores. Outras plantas, mais anónimas, cumprem o calendário e associam-se tradicionalmente aos rituais desta quadra.

A flor-da-Quaresma nasce numa árvore brasileira de pequeno a médio porte, da família Melastomataceae e género Tibouchina. A floração é abundante em Fevereiro-Março e as flores são roxas, a cor da penitência que veste a alma de quem revive o episódio culminante dos Evangelhos. As pétalas são sedosas e os estames compridos da mesma cor das pétalas, acentuando o tom violeta intenso. As folhas são cordiformes alongadas, tomentosas e com três veios longitudinais bem vincados na face superior. Há exemplares dignos de uma visita em Serralves e no Jardim Botânico do Porto.

A flor-da-Paixão é de uma trepadeira tropical da família Passifloreacea, conhecida como maracujá (embora só uma das espécies do género Passiflora dê o vulgar fruto comestível com este nome, a Passiflora edulis). As flores são muito vistosas e o nome alude à curiosa correspondência entre vários segmentos da flor e a paixão de Cristo: os estaminóides associam-se à coroa de espinhos; os 5 estames às cinco chagas; os 3 estigmas claviformes aos três pregos; e as 10 pétalas aos apóstolos, com excepção dos traidores Judas e Pedro. Uma espreitadela em alguns jardins da cidade (por exemplo na Quinta da Bonjóia) darão ampla oportunidade ao leitor de, a partir de Junho, conferir estes detalhes.


Passiflora spp. (fotos pva 2003-2005)

24.3.05

Madeira certificada?

Na sequência da acção da Greenpeace e da Quercus tentando impedir, na passada 3ª feira, a entrada no porto de Leixões de um barco com um "carregamento de madeira proveniente de empresas envolvidas em abate ilegal e destrutivo na Amazónia", e do seu apelo "lançado aos consumidores portugueses para comprarem apenas madeira certificada, contribuindo assim para travar a importação de madeira abatida ilegalmente." (Ler notícia no Público e actualização no Ondas 2) tomei consciência que pouco ou nada sei sobre este problema.

Madeira certificada? O que é?

Segundo uma página da Quercus em que se denunciava outro caso relacionado com madeira ilegal (em Maio de 2004) : «FSC é o sistema de certificação Forest Stewardship Council. O rótulo FSC é a única garantia de que a madeira é proveniente de florestas bem geridas. É o único sistema internacional de certificação a oferecer um mecanismo transparente de monitorização desde a floresta até ao consumidor final, uma característica fulcral para prevenir produtos florestais ilegais.»

«Forest Stewardship Council -a non-profit organization devoted to encouraging the responsible management of the world's forests. FSC sets high standards that ensure forestry is practiced in an environmentally responsible, socially beneficial, and economically viable way.»

Realmente, quem não sabe é como quem não vê! Alguns sítios para saber um pouco mais:

Março na Rotunda

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Fotos: mdlramos 0403 - Tília a folhar* e canteiro colorido com azálea, camélia e miosótis na Rotunda da Boavista.

Não tenho tido oportunidade de passar na Rotunda e dou por mim por vezes a pensar se as azáleas estarão floridas e se já terão disposto os miosótis. Claro que imediatamente"caio na real": «Então não te lembras que já não há canteiros ?!» Pois é... ;-( As camélias ficaram mas não me recordo se tiraram as azáleas. Tenho que ir ver.

Entretanto hoje, nem a propósito, um outro texto de Teresa Andresen saído no Público-Local (e que também não está on line na versão do jornal em html) sobre a "obra da Rotunda" leva-me a publicar aqui estas fotos de como o jardim era antes. (Logo que possível publicarei as fotos de depois - ou seja de agora)

*No dicionário- "folhar: v. intr. cobrir-se de folhas."
É a primeira vez que uso este verbo e pergunto a mim mesma se a sua aplicação estará correcta. Deve ser o mesmo que "deitar folha".
Há muitas palavras em desuso - relacionadas com a temática que aqui nos ocupa- que não só adquirem, pela sua estranheza, um encanto especial, como também levam a que o leigo, neste caso, a leiga se interrogue sobre a sua adequação.
Já aqui se publicou uma série de epítetos aplicados às árvores- alguns verdadeiramente surpreendentes, e uma outra série de termos relacionados com frutos.
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23.3.05

Sem passado

«Tem seus 23 anos, e eu a conheço desde os oito ou nove, sempre assim, meio gordinha, engraçada, de cabelos ruivos. Foi criada, a bem dizer, na areia do Arpoador; nasceu e viveu em uma daquelas ruas que vão de Copacabana a Ipanema, de praia a praia. A família mudou-se quando a casa foi comprada para construção de edifício.
Certa vez me contou:

- Em meu quarteirão não há uma só casa de meu tempo de menina. Se eu tivesse passado anos fora do Rio e voltasse agora, acho que não acertaria nem com a minha rua. Tudo acabou: as casas, os jardins, as árvores. É como se eu não tivesse tido infância...

Falta-lhe uma base física para a saudade. Tudo o que parecia eterno sumiu.»

Rubem Braga, As pitangueiras d'antanho (in A traição das elegantes, 1957)

"Será de ficarmos calados?"

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A opinião de Teresa Andresen, arquitecta paisagista, sobre o projecto para a Avenida dos Aliados:
«(...) No domínio de novos espaços públicos, ditos verdes, se exceptuarmos o Parque da Cidade, Sobreiras, Pasteleira (recuso-me a incluir a alameda de Cartes, a negação do desenho urbano e da compreensão da vivência do espaço público!) pouco mais se terá feito nos tempos recentes. Privilegiou-se "redesenhar" espaços estabilizados na malha urbana com carga patrimonial -cultural/natural - apropriados pelo imaginário colectivo, ignorando que a defesa do património diz respeito a todos.

Será de ficarmos calados? Mesmo quando, como no caso da Praça e da Avenida, a Câmara do Porto usa a autoridade de dois consagrados nomes da arquitectura para manter-nos calados? Ora isto não pode estar bem! Eis a minha mágoa e a minha indignação!»

Ler texto completo nos comentários de "Sizentismo"
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22.3.05

"...a mais bonita árvore de Lisboa"

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«(...) No largo do Outeirinho da Amendoeira há uma amendoeira em flor (é a pura verdade). Alguém disse que todos os corpos são bonitos, mas esta é de certeza, por estes dias, a mais bonita árvore de Lisboa. Emparedada entre muros e empenas, o esplendor de frágeis flores brancas saindo do escuro.»
Ler texto completo- sugestão de leitura enviada por PG, um nosso leitor de Lisboa.
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Folhas novas #2



Foto: pva 0503 - folhas e flores do Quercus robur

O verde fresco e vibrante das folhas novas do carvalho-alvarinho (Quercus robur) é a mais promissora das cores iniciais da Primavera: árvore emblemática do norte e centro do país, o carvalho é vida pujante pela sua longevidade e resistência, e firme sustento de vida pela abundância das suas sementes.

No Porto não há muitos dos nossos carvalhos, mas os poucos que há bem merecem uma visita:

1) O Largo Abel Salazar (ao Hospital de Santo António) viu terminar em Outubro passado, com três anos e dez meses de atraso, a odisseia da sua requalificação. Apesar de o arranjo do Largo, na continuidade do novo Jardim da Cordoaria, ser um desgosto, quase todos os carvalhos sobreviveram às obras e aos maus tratos, e quatro jovens exemplares foram acrescentados ao conjunto. Tirando estes últimos, já todos os carvalhos do largo exibem folhagem nova.

2) Ainda na cidade, há bonitos carvalhais no Parque de Serralves e na Quinta do Covelo. Aliás, um dos propósitos das obras em curso em Serralves é o reforço da flora autóctone, com natural destaque para os carvalhos. Quanto à Quinta do Covelo, é deplorável que em anos recentes tenham sido plantados na mata vários carvalhos americanos (Quercus rubra): ora essa mata é um dos últimos resíduos de vegetação natural em todo o Grande Porto, e é óbvio que a sua renovação se deve fazer com plantas autóctones (carvalho-alvarinho, sobreiro, pinheiro-manso, etc.) criadas a partir de sementes colhidas no local.

3) É preciso sair do Porto para encontrar carvalhos centenários que encham as medidas da nossa admiração. Os nossos favoritos são os de Viseu (Quinta do Fontelo e Parque Aquilino Ribeiro) e os da Quinta da Aveleda, em Penafiel.

21.3.05

Dia Mundial da Poesia

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Poesias no Dias com Árvores
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Dia Mundial da Floresta

  • .Árvores, Florestas e Homens (J.Neves Vieira) no Naturlink «O Engenheiro José Neiva Vieira apresenta-nos a origem das comemorações do Dia da Floresta, dos cultos ancestrais da árvore e da floresta à história das comemorações, que em Portugal se realizam desde 1907.»

Árvores do Jardim do Carregal #8



Fotos: pva 0411/0502 - Chamaecyparis lawsoniana - Jardim do Carregal e Palácio de Cristal (Porto)

(...)«salsinha» é só salsa picada ou um nome genérico para tudo que num prato é puro adorno. (...) Os defensores da salsinha dizem que ela só existe para bonito, o que só confirma nossa posição: o enfeite não serve para nada e rouba espaço da comida. Mas na cozinha mais preocupada com estética do mundo, a japonesa, é raro se ver salsinha. Você encontra pássaros diáfanos feitos de nabo ou pagodes de gengibre na beira dos pratos, é verdade, mas aí não é mais salsinha. Aí é filosofia.
Luis Fernando Verissimo

A folhagem da Chamaecyparis lawsoniana, perene, escamiforme, disposta em ramagem achatada e rendada como a das avencas, e os cones que parecem novelos pequeninos e se agrupam nas pontas dos ramos, fazem esta conífera assemelhar-se aos ciprestes (cyparis) e às tuias, que são de facto da mesma família (Cupressaceae). Mas a copa densa é piramidal, o hábito é pendente e este género pode atingir 50 metros de altura. O ritidoma descasca-se em tiras, deixando ver o tronco avermelhado, que frequentemente se ramifica desde a base, formando apêndices colunares que rastejam (a palavra grega chamai significa justamente deitado no solo) antes de ascender e lhe dão aspecto de âncora (ou candelabro ou tromba de elefante, as opiniões aqui dividem-se).

No Porto esta espécie frondosa ornamenta muitas praças e jardins. Os exemplares da primeira foto, com cerca de 20 metros de altura, vegetam no Jardim do Carregal e apresentam um porte notável, o que confirma o apreço deste género por climas amenos e solos húmidos mas bem drenados como foi o da zona do Carregal até o caudal do rio Frio ser desviado.

Esta espécie é conhecida como cedro-branco (mas não é um cedro) e é originária da América do Norte. Crê-se que chegou à Europa em 1854 e que as primeiras sementes bem sucedidas foram plantadas por Charles Lawson, que lhe dá o nome.

Diz quem entende de perfumes que as folhas desta resinosa têm aroma de salsa.

Anteriores na mesma série: #1, #2, #3, #4, #5, #6, #7

20.3.05

Domingo de Ramos - tradições

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Enquanto que o Natal é uma festa fixa, a da Páscoa é móvel, tendo a sua data sido determinada pelo Concílio de Nicéia (325), para o domingo que se segue à lua cheia do equinócio da Primavera. Uma semana antes celebra-se o Domingo de Ramos, que este ano coincide pois com o início da Primavera (hoje, precisamente às 12,30 ;-)
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Por todo o país multiplicam-se as cerimónias litúrgicas que marcam o início da Semana Santa e comemoram a entrada de Jesus em Jerusalém onde foi acolhido pela população que entoava cânticos e acenava com ramos de palmeiras e oliveiras, segundo relatos da Bíblia e de outros textos. Ponto alto das celebrações é a benção dos ramos seguida (ou não) das chamadas procissões dos ramos, que por vezes têm designações específicas em algumas regiões (como por exemplo em Tavira onde se chama "Procissão do Triunfo").

Tradicionalmente, os "ramos" podem ser simples, de palmas ou de oliveira, ou formados também por outras espécies como loureiro, alecrim e rosmaninho. Também ocorrem enfeitados com flores, frutos, laços; em algumas localidades, distinguem-se o ramo simples, o" ramo de andor" e o "palmito", sendo estes últimos elaboradas peças de artesanato (como acontece por exemplo em Ribeira Lima, em Caminha e em Porto Santo, só para referir três sítios com informação na WWW).

Nas procissões desfilam os ramos que previamente foram benzidos na igreja e que depois, são levados para casa para protegerem e darem sorte (ver como é em Tortosendo, Beira-Baixa, por exemplo); outros ramos são destinados aos padrinhos que em troca oferecem o folar ou dão "as amêndoas" (termo que no plural pode significar, neste contexto, "qualquer oferta que se faz pela Páscoa".)

Saindo das tradições portuguesas, e porque já aqui se falou do seu célebre "Palmeral" , património da humanidade desde 2000, refira-se, para terminar, a "Procesión de las Palmas", ponto alto da celebração do Domingo de Ramos em Elche, município de Valencia (Espanha).

Adenda (21-03-05): Em certos lugares, nomeadamente na cidade, as pessoas não levam os seus ramos: nas próprias igrejas podem "colher" o seu ramalhete dos grandes ramos de oliveira (e de alecrim, etc..) postos à sua disposição.
(Depois em casa, o ramito ainda pode ser distribuído pelos membros da família, interessados. A mim calhou-me esta amostrinha. "Olha que está benzido!". Claro! É para dar sorte ;-)
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19.3.05

Conteiras - oportunidade única!

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É só para avisar (os aficionados ;-) que, como podaram as conteiras (Melia azedarach) de Antunes Guimarães, há muitos galhos no chão e podem colher-se os frutinhos à mão cheia! Para quem não sabe, os caroços das drupas da conteira, também chamada amargoseira, mélia e árvore-dos-rosários (ver aqui uma foto), serviam justamente para se fazer "rosários", devido à facilidade com que se podem enfiar.

Eu depois conto mais. Agora vou para a colheita!

P.S.: 1-Os frutos são tóxicos, por isso a apanha e a preparação (até o caroço ficar limpo) não é uma actividade para crianças que não consigam controlar a vontade de os meter à boca. De qualqer modo são intragáveis, daí o nome de amargoseira!

2- Aliás pode fazer-se com eles un insecticida de largo espectro para plantas.
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Árvores que dão pássaros

ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM PÁSSAROS E ÁRVORES QUE
O POETA REMATA COM UMA REFERÊNCIA AO CORAÇÃO

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem com a poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo, Homem de Palavra[s] (1970)

18.3.05

Que grandes podas!

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O dia até tinha começado bem, com uma certa qualidade... mas imagens como as que LFV publicou no Cabo Raso dão-me a volta à boa disposição e começo logo a trocar os pês pelos éfes.
Haveria mesmo necessidade de podar deste modo as tílias da Praça da República?

Já uma vez publicámos fotografias de tílias podadas e não podadas em Lamego em que se via a diferença; bem sei que nas da Praça da República a poda não foi tão radical, mas volto a repetir: haveria mesmo necessidade de as decotar assim?!
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Rua com qualidades



Fotos: pva 0503 - flores de loureiro e camélia na rua Miguel Bombarda (Porto)

No meu trajecto diário percorria de uma ponta à outra a rua D. Manuel II, com paragens para saudar as tílias (as jovens, à entrada da rua, e as veteranas, junto ao Palácio) e comprar o jornal na loja do gato preto. Mas agora que arrancaram as tílias, o gato se fez absentista, e os passeios foram convertidos em labirintos poeirentos, um tal percurso seria um mau começo de dia para quem não abdica de dar descanso à indignação.

Desvio-me então pela rua Miguel Bombarda. Os mais distraídos alegarão que a rua não tem árvores, que os prédios são feios, que os passeios são estreitos e, pelo menos de um lado, sempre ocupados por carros. Tudo isso é verdade, mas:

- como o trânsito é pouco, caminho à vontade (em contra-mão) pela faixa de rodagem;

- vejo na montra da Assírio & Alvim (que está fechada de manhã) os livros que poderei comprar ao fim da tarde, no regresso a casa (truque excelente para um dia positivo, o de saber que ele terminará com a posse do livro desejado);

- uma sebe de loureiros debruça-se, estridente de chilreios, do muro no troço final da rua, largando folhas estaladiças que dá gosto pisar e, agora que a floração está no auge, carregando o ar de perfume;

- logo a seguir, para terminar a rua em beleza, há as camélias ao cimo de um discreto lanço de escadas, incluindo a que dá a flor na foto e me parece muito rara (rara por si mesma e pela surpresa de estar onde está).

17.3.05

"A árvore e a cidade" - Joaquim Vieira Natividade

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«Uma das coisas que desfavoravelmente impressiona quem visita o nosso País é a incapacidade, aparente ou real, para, com inteligência e dignidade, aproveitarmos a árvore no urbanismo. Há quem fale, à boca pequena, de atávicos instintos arboricidas, o que é desprimoroso, antipático, quando não degradante e sinistro, porque pode levar a crer que, apesar de baptizados e de nos termos por bons cristãos, de todo nos não libertámos ainda dos vícios e das tendências ingénitas, da infiel moirama. Para se contornarem os melindres, recorramos, não já ao neologismo "arborifobia", porventura também cruel, mas a eufemismos suaves e eruditos, como a dendroclastia, para traduzir o desamor de muitos dos nossos municípios pela árvore ornamental.

Em boa verdade, por esse País fora, em tantas caricaturas de jardins a que se dá por vezes o nome de parques municipais, raro se nos depara uma árvore verdadeira, uma árvore autêntica, em todo o esplendor da majestosa arborescência; a árvore esbelta, digna, umbrosa e acolhedora, orgulho da Criação. Onde acaso existiu, poucas vezes escapou a brutais mutilações que a transformaram em grotesco Quasímodo, sem o mínimo respeito pela dignidade do mundo vegetal. Nos jardins, em lugar da árvore, plantou-se um reles ersatz, uns arbustozitos burlescos, quase bobos arbóreos, tão inúteis que nem dão sombra a uma pessoa crescida: as tais falsas acácias de importação, maneirinhas, embonecadas, dengosas, com o ar, não de fazerem parte do jardim, mas de terem ali ido, em passeio, exibir ramagem, com a sua "permanente" manipulada no salão de qualquer coiffeur arborícola municipal.

Compreende-se, num povo de fraca cultura, o desamor instintivo ao marmeleiro e ao castanheiro, árvores estas consideradas, desde remotos tempos, estimáveis ferramentas de educação e esteio dessa vida patriarcal, austera e digna, que os velhos, ao olharem o que vai pelo mundo, recordam com saudade e respeitoso enlevo.
Já se não compreende, todavia, que se mutilem ou suprimam sem piedade o ulmeiro, o plátano, o umbroso freixo, o álamo esbelto, os nobres e austeros ciprestes, os cedros, os carvalhos e tantos outros soberbos gigantes vegetais que, estranhos, embora, muitos deles à nossa flora, encontraram na Lusitânia como que a sua segunda pátria.


Num país castigado por uma ardente canícula, dir-se-ia que temos horror à sombra; onde se pediam arvoredos frondosos e acolhedores, o ninho de um oásis a suavizar as inclemências do estio, fizemos terreiros imensos, cruamente ensoalheirados e inóspitos; quando tantos dos nossos monumentos lucrariam com uma nobre moldura vegetal que acarinhasse e aquecesse a frieza da pedra ou por vezes quebrasse, com a cortina da folhagem, a monotonia das grandes massas arquitectónicas, e num ou noutro caso escondesse até a sua real pobreza; quando a presença da árvore exaltaria o poder evocador e o poético encanto que emana de tantas ruínas, como acontece aos templos perdidos nos bosques sagrados da Grécia nós, pela calada, metodicamente, cinicamente, fomos degolando, mutilando, rapando tudo o que tivesse jeito de árvore para não prejudicar as "vistas", tal como faria qualquer ricaço de letras gordas aos empecilhos que ofuscassem ou escondessem os arrebiques pelintras do seu chalet.

O que haveria a dizer sobre as grandezas e as misérias da árvore nas cidades e nas vilas de Portugal!»

Joaquim Vieira Natividade , "A árvore e a cidade", 1959
(republicado in O Culto da Natureza, 1976)

16.3.05

"Sizentismo"

Já se criaram partituras sem notas, quadros sem cor, livros sem palavras, filmes sem imagens - e os artistas que desse modo levaram a criação às fronteiras do nada ficaram na história como visionários. O problema é que, uma vez assimilada a presumível intenção irónica do gesto, a repetição está fora de causa: ou se desiste de criar, ou se regressa a formas mais convencionais de expressão.

Mas há uma arte (a arquitectura) e um país (Portugal) em que o nada continua a render, e onde os artistas que o praticam, quais alfaiates do rei-que-vai-nu, explicam com minucioso detalhe a uma plateia reverente todos os subtis cambiantes do vazio. E o nada, na versão do pronto-a-vestir arquitectónico para espaços públicos, é uma calçada lisa de granito, sem réstia de ornamento em que a vista possa repousar. Vai ser assim a nova Avenida dos Aliados, como já o são a Cordoaria, o Carmo e muitos outros locais da cidade.

É preciso dizer claramente que a arte que assim destrói o espaço público não presta: é irrisória, é arrogante, é desrespeitadora da cidade e da sua memória; é infinitamente inferior à arte dos calceteiros que compuseram os expressivos desenhos que serão imolados ao cinzento uniforme do granito, e à dos jardineiros que mantêm pacientemente os canteiros agora proscritos.

P.S. 1) A crer na maquete do projecto, as duas magnólias junto à Igreja dos Congregados, a branca que se vê na foto e outra rosa mais jovem, também estão condenadas. Mas quem as manda florir tão escandalosamente? Não sabem elas que os arquitectos do dream team (como lhes chamou o nosso Presidente da Câmara) abominam flores?

2) Até que a voz nos doa. Não é esta a primeira vez, nem será infelizmente a última, que escrevemos sobre o floricídio que vai avassalando a cidade: confira aqui e aqui.


Fotos: pva 0502

15.3.05

Suggia

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Busto de Guilhermina Suggia com araucária ao fundo nos jardins do Conservatório de Música do Porto.
(Entrada dedicada à Associação Guilhermina Suggia pela boa notícia ;-)

14.3.05

Dos jornais - ainda a Quinta de Marques Gomes

Com o título Palacete da Quinta Marques Gomes poderá ser restaurado ainda este ano, apareceu hoje no Comércio do Porto uma desenvolvida reportagem sobre este amplo espaço verde em Gaia. Já antes aqui alertámos para a importância da preservação desta quinta num concelho tão carecido de espaços verdes públicos, mas a notícia apresenta o projecto de urbanização (da responsabilidade do ESAF - Espírito Santo Fundos Imobiliários, SA) como irreversível. A recuperação do palacete é uma boa notícia, embora se receie que essa seja a moeda de troca para autorizar a destruição do que a quinta tem de mais valioso (que não é propriamente a mata, em grande parte invadida por acácias, mas sim os terrenos agrícolas e a vista sobre o estuário do Douro).

«It is difficult to realize how great a part of all that is cheerful and delightful in the recollections of our own life is associated with trees.» ~Wilson Flagg

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13.3.05

Folhas novas


Foto: pva 0503 - Acer japonicum

Fins de fevereiro. Saí para te esperar. Vi folhas novas num arbusto da alameda - isso mesmo, aquele que dá os copos, que à noite cheiram alto - e senti-me rejuvenescido. Voltei para casa e até me esqueci de ver o correio.

Ruy Belo, Imagens vindas dos dias (in Homem de palavra[s], 1970)

12.3.05

Descendo das alturas


Fotos: pva 0503 - Narcissus spp.

A consciência cívica não nos permite que obriguemos os nossos leitores a adoptar, em permanência, uma postura que lhes pode provocar maus jeitos e dores nas articulações. Não nos referimos ao modo como se sentam ao computador quando navegam pelo nosso e por outros sítios virtuais - pois sobre isso não nos cabe dar conselhos -, mas sim às 2+7 palmeiras Washingtonia robusta aqui divulgadas, tão absurdamente altas que não podem ser observadas, ao pé e de corpo inteiro, sem um esforçado contorcionismo que põe o nariz no prolongamento em linha recta do pescoço. Para não criar vício de postura, convém ver uma só palmeira de cada vez e não exceder um período moderado de observação; e, nos intervalos de se olhar o céu, deve-se olhar o chão. Com essa descida abrupta do ângulo de visão não se perde tempo, pois o chão, se bem escolhido, também é rico em possibilidades didácticas. Por exemplo, em Serralves, junto ao roseiral (de onde estas fotos não são), o chão debaixo do grande castanheiro está salpicado de narcisos brancos e amarelos. Rasteiros, efémeros, cada rebento deixando pender a sua flor com o saiote da corola sob o cálice estrelado, são uma dádiva para quem anda de olhos no chão. Os outros, distraídos e aéreos, além de não os verem ainda chegam a pisá-los.

11.3.05

Ao longe as magnólias em flor ...

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Fotos: mdlramos 0502 - Via Panorâmica (Porto)
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10.3.05

Ramada Alta

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Foto mdlramos: 0402

Pode ler-se num jornal da cidade que, no âmbito do processo de acompanhamento do estado sanitário do arvoredo, a Câmara do Porto decidiu abater um dos liquidâmbares localizados na Praça Coronel Pacheco e uma tília de grande porte, no Largo da Ramada Alta. Estas árvores, parte da memória da cidade, deveriam ser alvo de medidas que lhes melhorassem a saúde e evitassem a solução drástica do abate. Ficamos aturdidos com um tal desbarato do nosso património.

Sobre a tília, e o Largo da Ramada Alta, escreveu João de Araújo Correia em Pó levantado (1970):

Sempre que passo à Ramada Alta, nas minhas idas ao Porto, fico encantado com aquele recanto de província, miraculosamente conciliado com a passagem de tanto automóvel. Digo entre mim: qualquer dia, desaparecem a capela e aquelas duas árvores, aquelas duas tílias que lhe fazem sentinela. O largo, que ainda se chama largo e que até se chama da Ramada Alta, nome antigo, de arredor de cidade, morrerá ou se crismará em praceta, sem capela e sem árvores ou só com dois palitos, floridos de cimento, como homenagem à natureza extinta. É preciso que a Ramada Alta mude de nome, que não cante ali nenhum pássaro, nem ali se fabrique, em folha natural, o velho oxigénio, um anacronismo, e que o ar se polua e engrosse com as emanações de tanto automóvel. Só assim o larguinho, com o nome de praceta, merecerá o bilhete oficial, que o acredite como coisa citadina. (...)

Sempre que passo à Ramada Alta, fico encantado com aquele pedaço de coisa antiga ainda viva e até com o seu ar de vivedoira. (...) Começa hoje a pensar-se, lá fora, que o melhor processo de fixar boa gente, nas cidades, é não as desfigurar. Se o mau urbanismo as desfigura, substituindo por monstruosidades as coisas graciosas, o morador que trabalha foge para o campo. Se lhe falta ar respirável, ar de família, emanado de alguma coisa velha, com sua tradição, deserta. Entrega a cidade ao banditismo, que se apodera de bairros construídos, de um dia para o outro, por arquitectos sem alma.

O Porto, que vai sacrificando a um progresso mal compreendido os seus velhos palácios, que arranca árvores por dá cá aquela palha progressista, vai perdendo, de ano para ano, o ar tripeiro. Começou a perdê-lo com a destruição do convento da
Avé Maria, o prolongamento da Praça da Liberdade e o suplício do palácio de Cristal. Substituiu-o por horroroso sapo-concho. A população do Porto aumentou muito nos últimos anos. Mas, se o Porto se envergonhar da fisionomia tripeira, verá o que lhe pode acontecer. Obrigará à deserção os que se não contentam com o funcional. (...)

O Largo da Ramada Alta, se não morrer (...), será um elo capaz de prender ao Porto uma ou duas almas incompatíveis com o banditismo.

9.3.05

As sete magníficas

......................................from above and from below.



Fotos: mdlramos 2004
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As sete palmeiras do Palácio de Cristal -a que gostamos de chamar "as sete magníficas"- são da espécie Washingtonia robusta, uma das duas únicas espécies da América do Norte que constituem o género criado em 1879 por H. Wendland para abrigar estas palmeiras anteriormente incluídas no género Pritchardia (de W.T. Pritchard, missionário protestante envolvido na colonização do Taiti). A designação do género pretendia homenagear G. Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos.
aqui falámos de dois belíssimos exemplares destas palmeiras, vulgarmente denominadas palmeiras-do-México ou palmeiras-de-leque mexicana (em língua inglesa Mexican fan palm e também Skyduster palm) consideradas por alguns botânicos uma variedade da Washingtonia filifera, a palmeira da Califórnia (de que no Porto também existem belos exemplares). Diferencia-se desta pelo seu espique mais esbelto e mais alto, e pela maior robustez do seu crescimento, daí o designativo da espécie. As suas folhas costapalmadas (em forma de abano) estão dispostas numa coroa mais estreita e apresentam muito poucos filamentos brancos ao contrário da sua congénere W. filifera.
A sua introdução na Europa foi mais tardia e deve-se ao intrépido botânico checo Benedikt Roezl *(1824-1885) que enviou as suas sementes depois de ter encontrado a espécie nas margens do rio Sacramento em 1869. Árvore ornamental de eleição é bastante rústica e muito resistente ao vento.

No Jornal de Horticultura Prática que amiúde mencionamos, e que constitui uma fonte preciosa para a história da Horticultura e da Jardinagem em Portugal, a referência à espécie Washingtonia robusta surge em 1888, num interessante artigo de Jules Daveau, na altura jardineiro chefe do Jardim Botânico da Escola Politécnica de Lisboa, cargo que ocupou de 1876 a 1892**. Nesse texto, intitulado simplesmente "Washingtonia", o autor que, vem a propósito lembrar, é o responsável pelo traçado da emblemática "rua das Palmeiras" desse jardim, depois de discorrer acerca da Washingtonia filifera, «introduzida no mercado em 1871», e informar sobre a constituição do novo género para acolher estas palmeiras anteriormente classificadas como Pritchardia, descreve detalhadamente a espécie tão bem representada no Palácio de Cristal.
Esta era então uma novidade que entusiasmava os amadores e profissionais por exceder «a sua congénere em elegância, vigor e rusticidade» segundo as palavras do distinto jardineiro que nos dá conta também das suas experiências: «Cultivando esta bela aquisição em Lisboa só há poucos meses, nada podemos dizer por experiência, a não ser que, em menos de oito meses, as nossas plantas se desenvolveram com um vigor que as tornou desconhecidas (sic).» (Ob. cit., p.117)

* Ler Benedikt Roezl - botánico y explorador ; Benedikt Roezl- Portrait d'un fou
**Ler por C.N. Tavares a História do Jardim Botânico da Faculdade de Ciências de Lisboa (in O Reino das Plantas, Triplov)

(Post-scriptum: estava desde Setembro para escrever sobre estas palmeiras ;-) após a leitura duma entrada publicada por Jorge Ricardo Pinto quando ainda animava o Avenida dos Aliados. Este apontamento é apenas um pretexto para fazer uma ligação para o referido texto e manifestar as nossas saudades.)

8.3.05

Parques em Revista- a ler

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A edição americana da National Geographic tem neste número de Março uma reportagem sobre Frederick Law Olmsted (1822-1903) e a sua paixão por parques. Trata-se do autor do Central Park, "America's best known landscape architect. Writer, engineer, and visionary, (who) became a driving force behind many of America's urban parks. ". "He was convinced that natural beauty could improve human nature." escreve a certa altura John G. Mitchell autor do artigo.

O número de Março da edição impressa portuguesa traz uma reportagem sobre o chamado pulmão de Lisboa : "Septuagenário, ameaçado, mas sempre activo, o Parque Florestal de Monsanto, em Lisboa, esconde mil e um segredos."

Interessante também (e apenas nos referimos à temática que nos ocupa no âmbito do blog) o artigo sobre as espécies invasoras .
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7.3.05

Índice de autores - actualizado

Ver (actualização anterior em Novembro 2004)

Palmeiras de auto-estrada



Fotos: pva 0503 - Washingtonia robusta - Vila Nova de Gaia

Desde 1963, ano da inauguração da Ponte da Arrábida, e até quase final da década de 80, a única auto-estrada do país, embrião da futura Porto-Lisboa, compunha-se de dois troços desconexos: do Porto, ela partia da Via Marechal Carmona e, atravessado o rio, ia terminar poucos quilómetros depois nos Carvalhos; quem continuasse viagem tomava a EN1 e só reencontrava a auto-estrada já com Lisboa à vista.

Nesse tempo que hoje parece tão recuado, «auto-estrada», aqui a norte, era pois um substantivo próprio, designando uma bem determinada pista de aceleração que não enchia as medidas dos nossos heróis do volante. Agora que a fome se fez fartura quase apopléctica, há ainda quem não esteja satisfeito - e, por querer «deixar obra feita», prossiga com denodo até ao completo asfaltamento do país.

Há mais de quarenta anos que estas palmeiras (Washingtonia robusta) numa quinta próxima dos Carvalhos são vizinhas da auto-estrada; e isso é muito tempo, mesmo para quem, como elas, ultrapassou um século de vida. Incrivelmente esguias e flexíveis, agitam o seu penacho de palmas a uma altura improvável, e até os aceleras mais ensimesmados lhes terão por vezes concedido um micro-instante de atenção.

A Washingtonia robusta é originária do México (daí o seu nome vulgar palmeira-de-leque-mexicana) e só foi introduzida na Europa no último quartel do século XIX. Estes dois exemplares parecem-nos ainda mais altos do que as sete famosas palmeiras da mesma espécie no Palácio de Cristal, das quais falaremos proximamente.

[A oportunidade de visitar e fotografar estas notáveis palmeiras deveu-se ao Eng. Paulo Almeida, a quem muito agradecemos.]

6.3.05

A "palmeira furtiva" ao longe

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Foto: 0404

Depois de ler a descrição do quintalito encravado lá no alto do paredão (e os comentários), procurei-o em algumas fotografias tiradas do cimo da Torre dos Clérigos, e encontrei esta. Será o que se avista no centro da fotografia (assinalado com uma seta) o tal «exíguo torrão» por detrás da Estação de S. Bento, na Rua da Madeira, onde «há um quintal com couves, uma palmeira e meia dúzia de arbustos»?

Palmeira de sete cabeças


Foto: pva 0502 - Phoenix reclinata na Rotunda da Boavista (Porto)

Congénere da palmeira-das-Canárias, a tamareira-do-Senegal (Phoenix reclinata) é uma palmeira que em geral brota em múltiplos espiques, que inclinam graciosamente as coroas de palmas que os encimam. A formação destas touceiras de caules recurvados permite distingui-la da verdadeira tamareira (Phoenix dactylifera) que tem folhas de um verde azulado e é usualmente solitária. As folhas são pinadas, de 2-3 metros de comprimento, com espinhos em vez de folíolos na base; as drupas alaranjadas, comestíveis e parecidas com tâmaras, pendem de cachos que lembram vassourinhas de contas. Como todas as palmeiras do género Phoenix, é uma espécie dióica, exibindo inflorescências femininas amarelas muito vistosas que nascem nas axilas das folhas.

O conjunto da foto mora no jardim da rotunda da Boavista. Tem tolerado o frio da cidade, de que naturalmente não gosta, sobreviveu à invasão da rotunda por automóveis, que perturbou por alguns meses a sua calma existência, e foi poupada durante a recente requalificação do jardim, que porém despiu de flores o canteiro onde vegeta.

A foto mostra também parte do alinhamento de liquidâmbares, aqui ainda sem as folhas do ano, que circunda o jardim; e, ao fundo, uma rampa novinha bastante reclinata. Não servindo, pela inclinação tão acentuada, para peões normais, este apêndice da Casa da Música tem porém uso assegurado. Com a progressiva mineralização de muitas praças na cidade, antes ajardinadas e agora, graças ao progresso, transformadas em vastas eiras de pedra, o gosto pelas várias formas de patinagem tem-se acentuado entre os jovens portuenses, que adoptam estes desertos como amplo espaço de treino. A prova maior da modalidade poderá fazer-se nesta rampa de luxo, disputando a internacionalização com a corrida de donas elviras e o afamado desfile de Pais Natais.

5.3.05

Saudades do Sul...

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Foto mdlramos: 0408- Phoenix canariensis na Guia (Albufeira)
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Os nomes das árvores: Palmeira-das-Canárias

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Se bem que vulgarmente sejam chamadas árvores, as palmeiras não o são e distinguem-se destas, entre outras razões, por não terem ramos e pelas características do seu caule (que se denomina espique e não tronco) sem anéis de crescimento, nem ritidoma, e constituído pela sucessão das bases foliculares.
Na altura em que Lineu as designou como "Principes plantarum", o mundo ocidental apenas conhecia cerca de 15 espécies. Actualmente estão classificadas na ordem das Palmales limitada à família denominada Arecaceae (também conhecida por Palmaceae e Palmae) que contem cerca de 200 géneros e mais de 2500 espécies.

A Palmeira-das-Canárias (Phoenix canariensis) é a espécie do género Phoenix mais plantada para fins ornamentais no nosso país devido à sua beleza e robustez. Pode confundir-se por vezes com a sua congénere, a tamareira (Phoenix dactylifera), mas os frutos são insípidos, tem um espique mais espesso e menos alto, e as características folhas pinadas (em forma de pena) são de um verde mais intenso e brilhante.
A designação do género é aliás o termo grego para a palmeira-tamareira e está relacionado não com a ave mítica renascida das cinzas mas com a Fenícia donde os gregos pensavam que era originária.
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Nas Ilhas Canárias de onde é oriunda esta espécie e onde pela primeira vez foi identificada pelo botânico inglês Philip Parker-Webb em 1840 (Cf. Brosse,2000), faz-se a extracção da seiva das palmas que depois de tratada fica reduzida a uma espécie de mel.

Ler Phoenix canariensis in the Wild (artigo originalmente publicado em Abril de 1998 na revista da International Palm Society)

4.3.05

Palmeira furtiva


Foto: pva 0501 - Phoenix canariensis na Rua da Madeira (Porto)

A Rua da Madeira, que vai da estação de São Bento à Praça da Batalha, é um lugar quase secreto no Porto: evitada pelos transeuntes usuais, corresponde, numa cota inferior, ao logradouro da Rua 31 de Janeiro; e, como as traseiras não se mostram às visitas, foi-se nela cristalizando, muito anos antes de se falar da crise da Baixa, um ar de abandono e marginalidade. A ironia é que agora a degradação alastrou à sala de visitas: na Rua 31 de Janeiro fecharam a livraria Bertrand e a discoteca Santo António, multiplicaram-se bazares de quinquilharias, e várias montras foram entaipadas. Visíveis intermitentemente entre os automóveis estacionados no passeio, uns inexplicáveis carris, onde nunca passaram nem hão-de passar eléctricos, descem da Batalha para falecer subitamente ao fundo da rua.

Subindo a Rua da Madeira desde S. Bento não a desvendamos por completo, pois o segredo que ela é oculta outros segredos: do lado esquerdo vigiam-nos prédios escalavrados em equilíbrio duvidoso; do direito acompanha-nos o alto paredão sobre o terminal ferroviário até que, acima da bocarra do túnel, outros prédios se interpõem na nossa vista. Que esconderão estes prédios? Que haverá nas traseiras das traseiras? Esta coisa precária e ternurenta: num exíguo torrão cravado no granito que forra o túnel, há um quintal com couves, uma palmeira e meia dúzia de arbustos. Ficar aqui, neste posto de vigia debruçado vertiginosamente sobre a estação e coroado por uma palmeira intemporal, a ver os comboios chegar e partir: que melhor imagem de uma nostalgia sem remédio?

3.3.05

As Palmeiras dos Leões- Postal antigo

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Bilhete postal sem data (colecção particular) ; fotógrafo desconhecido.
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«Quando a jardinagem florista se afasta das culturas vulgares, torna-se uma especialidade e imprime um certo cunho particular, que na linguagem hortícola se chama estilo.
Este estilo pode determinar-se pela moda, pela natureza dos lugares ou simplesmente pelo capricho do jardineiro, embora sujeito a certas e determinadas regras.
A sua invenção ou aplicação, apropriada às circunstâncias, é uma de gosto e imaginação.
É isto que notamos no jardim ultimamente traçado na Praça dos Voluntários da Rainha*, e elegantemente delineado pelo bem conhecido jardineiro-paisagista Jerónimo Monteiro da Costa.

O passeio é formado por dois grandes arrelvados, aos lados da taça, tendo no centro um forte exemplar da esbelta Palmeira Phoenix canariensis, e, fazendo cortejo a estes príncipes do reino vegetal, algumas Azaleas, Thuyas aureas, Roseiras e outras plantas de ornamento.
A taça que existe na praça quase que perde a sua mesquinhez, pois é realçada pelo arrelvado de forma oval que a circunda, e que é guarnecido de maciços compostos de Iresines diversas e de Gnaphalium, desenhando os mais bem combinados mosaicos e produzindo os efeitos mais surpreendentes.»

Joaquim Casimiro Barbosa, in Jornal de Horticultura Prática", 1888 (vol. XIX, p. 162).

*Actual praça de Gomes Teixeira, também conhecida por praça da Universidade ou dos Leões, que na altura e desde 1832, apesar de ostentar havia já dez anos o chafariz com leões alados, se chamava Praça dos Voluntários da Rainha (por ser o local onde se exercitavam os militares desse batalhão).

A Praça dos Leões hoje em dia: Descubra as diferenças !!!

A propósito de Jerónimo Monteiro da Costa e do seu legado ler: Árvores do Jardim do Carregal #3 e O Parque de Vizela 120 anos depois .
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2.3.05

Forests Forever - um site

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«Your dream forest may lie within.
The forest you have entered in your dreams.
An irreplaceable treasure,
our's children inheritance.»

(Via Ondas2 ,-)
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