30.11.05

"A Árvore entre as Árvores"

Aviso à navegação enviado por um leitor amigo:
«Hoje às 21, no canal Odisseia é transmitido um programa sobre o carvalho e todo o simbolismo que carrega: "A Árvore entre as Árvores"».

Escrita da água


Foto: pva 0509 - Cordyline australis e Cyperus papyrus no Jardim Duque da Terceira, Angra do Heroísmo

No terraço superior do Jardim Duque da Terceira, em Angra do Heroísmo, há um pequeno tanque rectangular desenhado a pedra de lava. Rodeiam-no fiteiras (Cordyline australis), árvores neo-zelandezas semelhantes ao dragoeiro, e alguns arranjos de flores; e, entre a vegetação aquática, sobressai uma espécie de juncal coroado por numerosos tufos em forma de leque. Poucos nomes botânicos terão uma ressonância tão lendária como o desta planta: trata-se do papiro, nome que de imediato evoca o antigo Egipto. A planta, entretanto baptizada como Cyperus papyrus, é endémica das zonas alagadas pelo Nilo, onde atinge alturas de até cinco metros; e era justamente das suas fibras que se fabricava o material onde então se escrevia. Tem ainda a glória de figurar numa das mais importantes histórias do Antigo Testamento: apesar de nas traduções bíblicas para português se falar de canavial, foi de facto entre papiros, nas margens do Nilo, que o bebé Moisés, aconchegado num cesto, foi escondido para escapar à morte decretada pelo Faraó para toda a prole masculina das mulheres hebraicas (Livro do Êxodo, caps. 1 e 2).

29.11.05

Corta-vento



Fotos: pva 0509 - Myoporum acuminatum na Calçada das Virtudes, Porto

Junto à saída do lado sul do Jardim das Virtudes vegetam dois arbustos de copa lustrosa, densa e arredondada; da mesma espécie, no Porto, só avistámos outro exemplar na Avenida da Boapista (ex-Boavista), perto do Castelo do Queijo. Trata-se da australiana Myoporum acuminatum, espécie com folhas persistentes, pontiagudas (= acuminadas), glabras, de margens lisas ou com alguns dentinhos no ápice. O nome grego do género alude às glândulas existentes nas folhas, que são punctiformes e translúcidas, parecendo pequeninos poros. As flores são diminutas e numerosas, cálices brancos com sardas arroxeadas na corola. Ainda não vimos os frutos deste arbusto, mas os manuais prometem drupas globosas de cor púrpura, com 8 milímetros de diâmetro.

Esta é uma planta resistente ao vento, muito usada em zonas costeiras de lugares onde o mar não tem janelas de vidro.

28.11.05

O cedro momumental do Hotel Grão Vasco (Viseu)

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Cedro-do-Atlas (Cedrus atlantica) classificado de interesse público em 1965, no jardim do Hotel Grão Vasco em Viseu.

Ernesto Goes no seu livro sobre Árvores Monumentais de Portugal diz que este cedro-do-Atlas centenário "deve ser o maior do País". Será?
Salvou-se graças ao arquitecto António Viana Barreto como se transcreve na Gazeta Rural (Viseu-1.08.2004) : «"O cedro atlântico que se mantém junto ao Hotel Grão Vasco estava previsto ser sacrificado pela abertura de nova avenida de acesso ao Rossio". Ora o que este fazedor de paisagem acabou por propor foi o desvio da dita avenida e a manutenção do cedro hoje considerado imóvel de interesse público.»
Na publicação do Instituto Florestal sobre árvores classificadas as informações sobre esta árvore monumental são as seguintes: altura total- 34,oo m; circunferência a 1,30 m- 4,80 m; diâmetro médio da copa- 29,00 m; idade provável- centenária.

27.11.05

Mãe e filha



Fotos: pva - Maio de 2005

O castanheiro-da-Índia, nome que se dá em Portugal às árvores do género Aesculus, é bastante comum, por toda a Europa, em jardins e arruamentos, enfeitando-se no início da Primavera com vistosas pirâmides de flores brancas ou rosadas. As únicas espécies do género vulgares entre nós são a Aesculus hippocastanum, de flores brancas, e a híbrida Aesculus x carnea, de flores rosadas, ambas muito bem representadas em Serralves; mas também já aqui falámos de um exemplar de uma outra espécie, Aesculus indica, que admirámos nos Kew Gardens, em Londres.

A espécie que hoje aqui trazemos, Aesculus californica, é, como sugere o nome, uma importação da costa oeste dos EUA, e partilha das características das suas congéneres: folhas compostas palmadas (neste caso com cinco folíolos), flores em panícula piramidal, semente que lembra uma verdadeira castanha. Mas, ao contrário das outras, é uma pequena árvore que não ultrapassa os 10 metros de altura; e, pelo menos na Península Ibérica, parece ser uma raridade, apenas cultivada em alguns jardins botânicos. No Jardim Botânico do Porto existe um único exemplar, que vemos nas fotos em cima.

Acontece que, numa das nossas últimas visitas ao local, comprovámos não só que a árvore frutificara como ainda deixara tombar uma castanha. O convite era irrecusável, até porque, vendo bem, se naquele jardim quase não há lugar para a árvore (por sorte ela é pequena), certamente não caberia a sua descendência.

O resultado da sementeira está à vista na foto de baixo: o crescimento da planta é vertiginoso, pois ela só germinou há duas semanas.


Foto: pva - Novembro de 2005

26.11.05

Há um ano...

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Mais links: Ciberia Quercus Fapas (via Terraforma)

Novembro

A respiração de Novembro verde e fria
Incha os cedros azuis e as trepadeiras
E o vento inquieta com longínquos desastres
A folhagem cerrada das roseiras

Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia (1967)


Foto: pva 05 - Cedrus atlantica "Glauca" em Agramonte, Porto

25.11.05

"ACABOU. Já não há jardins!"

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A destruição inqualificável do que restava da Avenida dos Aliados
24 de Novembro de 2005 -uma data "sizenta" que ficará nos anais da história da cidade

Fotos e mensagem recebidas nos ALIADOS a meio da noite:
«São 3 da manhã e não consigo ir dormir sem desabafar.
Como sou obrigado a passar a todo o tempo por a amada avenida, ao ver esventrá-la senti que de facto era a mim que o estavam a fazer; de máquina fotográfica em punho lá fui registando o prevísivel assassinato, tentando não me emocionar.
ACABOU. Já não há jardins.
Os portuenses do séc.XXI são masoquistas e sentem-se felizes a dizer mal. Estou mesmo a ver os partidos e figuras emblemáticas a criticar quando a obra estiver pronta, sem contudo nada terem feito antes.
Só o cromo do jornalista que escreveu uma crónica no JN em que dizia que daqui a 100 anos ninguém estará cá para criticar é que me fez rir. F.F.»

Podem ver mais fotos do crime aqui

Árvores da Casa do Passadiço

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Há dois anos, tive que "fazer horas" na zona mais antiga de Braga e deambulei como é meu costume nas cidades: procurando as árvores das quais avisto apenas o cimo da copa ou os ramos entre as casas. As descobertas são sempre agradáveis: casas antigas, jardins, pequenos largos.

Nessa tarde cinzenta de Novembro o resultado foi surpreendente e começou logo no pequeno Largo São João do Souto onde, em vez de castanheiros ou carvalhos, encontrei duas magníficas árvores na chamada Casa do Passadiço: um tulipeiro (Liriodendron tulipifera) no auge da sua beleza outonal e uma Ginkgo biloba com a folhagem ainda verde. (ver outra foto aqui)

Na Casa do Passadiço pode mesmo... passar-se e por isso não há entraves à fruição das árvores que aliás se avistam perfeitamente do Largo. (Esta casa senhorial do XVIII que deve o seu nome ao facto de nela existir uma passagem pública está actualmente transformada numa loja de decoração.)



Tulipeiro (Liriodendron tulipifera) Braga- 11.2003

De copa de árvore em copa de árvore fui dar a outro tulipeiro* de porte invulgar nos Jardins do Museu dos Biscainhos , árvore que deverá ter mais de 200 anos. Como já se aproximava a hora de encerramento ao público não tive tempo de visitar o Jardim mas simpaticamente deixaram-me ir espreitar o tulipeiro, não sem antes me advertirem que não poderia tirar fotografias. Nem à árvore? Nem à árvore. Só com autorização. A minha reacção actual para estas directivas provincianas dos nossos ciosos zeladores do património é um grandessíssimo encolher de ombros e só não publico a foto que tirei porque realmente a luz já estava fraquíssima (e entretanto ainda n. lá voltei). .

* Ver algumas fotos desse magnífico tulipeiro e do Jardim (da autoria dum nosso amigo também do Norte).

24.11.05

Não cai o pano, ou o teatro infinito

Reconheço que o título é aflitivamente pretensioso; passaria logo adiante se o lesse na capa de um livro. Mas o que quero dizer é simples: a natureza, mesmo aquela domesticada dos jardins, não tem descanso, e quando um espectáculo termina já outro começou.

É por isso que regresso continuamente aos jardins do Palácio de Cristal: para acompanhar a evolução dos inúmeros teatrinhos e workshops criativos em que se afadigam as plantas nos seus canteiros. Devia dedicar-lhes crónica diária, mas, além da preguiça, tolhe-me a ideia de que crítico que só diz bem dos espectáculos a que assiste nunca é respeitado pelo público e muito menos pelos seus pares.

Mas poderia ensaiar algum distanciamento crítico. Não digo que já cansa (nunca poderia dizer que já cansa), mas reparem que é sempre a mesma coisa: lembro-me do Acer japonicum há um ano, há dois, há três... infalivelmente flamejante em cada mês de Novembro. Não haverá neste caso aquilo que os críticos, bocejando de enfado, denunciam como repetição de uma receita de sucesso?



Agora que o Acer despe o traje de gala, ao palco do jardim sobem as camélias para lá actuarem por uns meses. E resmunga o crítico: é verdade que são bonitas (são mesmo perfeitas), mas porquê outra vez as camélias?

Não, para crítico não sirvo, porque o que me sustenta é justamente saber que haverá sempre outra vez.


Fotos: pva - 19 de Novembro de 2005

23.11.05

ALIADOS - actualização

Clematis



O género Clematis, da família Ranunculaceae, contém mais de 200 espécies de trepadeiras ou herbáceas, a maioria de folha caduca, originárias da Europa, China (que abriga a maior diversidade), Japão e América do Norte. Algumas espécies exibem flores grandes com caprichosas modulações de cor, por isso os numerosos cultivares são especialmente interessantes para os bioquímicos e floricultores. As sépalas têm formato estrelado e muitas vezes, como na foto, parecem formar duas flores sobrepostas.

Nas espécies escandentes, de uso frequente como sebes ou para ornamentar muretes, treliças e pórticos, as gavinhas enrolam-se em hélice como nas videiras, habilidade associada ao termo grego klema. As sementes são outro atractivo desta planta pois amadurecem em estruturas brancas, sedosas e penugentas que em língua inglesa se conhecem como old man´s beard. A designação travellers´ joy, também comum, dispensa explicações.


Fotos: pva 0510

22.11.05

Ausentou-se a flor em parte incerta



Fotos: pva - Novembro de 2004 / Novembro de 2005 - rua do Rosário, Porto

Extremosa (Lagerstroemia indica), tagetes, miosótis, amores-perfeitos e camélias: em 2004, tudo isso existia e dava flor no pequeno largo onde a rua do Rosário faz esquina com a rua D. Manuel II. O pavimento à volta do canteiro triangular era em calcário, igual ao que ainda hoje se vê na rua do Rosário; e, bordejando o passeio, havia uma pequena sebe pontuada por três ou quatro jovens camélias de que então fotografámos as flores.

Este ano o ciclo das estações não foi marcado no largo pelo regresso das flores, cada qual na sua época própria. A modernização acéfala em que a cidade se vai perdendo obriga à abolição dos canteiros e à progressiva petrificação do espaço público. Por isso, onde antes havia terra vivificada pelo colorido das flores, temos hoje o cinzento sujo e mortiço do granito.

21.11.05

«It is not so much for its beauty that the forest makes a claim upon men's hearts, as for that subtle something, that quality of air that emanates from old trees, that so wonderfully changes and renews a weary spirit.» - Robert Louis Stevenson
(Fonte: The Spirit of Gardening )
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20.11.05

Feira Ecológica- Leça da Palmeira

Iniciativa organizada pelo Centro de Educação Ambiental de Matosinhos com o apoio do Núcleo do Porto da Quercus, da Escola Secundária da Boa Nova e da Câmara Municipal de Matosinhos.

«Poderá encontrar nesta feira os seguintes produtos e serviços:
Produtos provenientes de Agricultura Biológica: Biorigem; Naturocoop
Jardim: Centro de Demonstração de Compostagem (adubo natural); O Cantinho das Aromáticas (plantas aromáticas); plantas produzidas pelos alunos do curso de Jardinagem da Escola Secundária da Boa Nova
Artesanato: Nuno Moutinho (Vassouras tradicionais)Associação Reviravolta (Comércio Justo); Mão Livre (artesanato com produtos naturais); Eugenia Santos ( reutilização de materiais); Diana Dias (reutilização de embalagens); António Manuel (reutilização de madeiras)
Têxteis: Cores Naturais (seda, lã e algodão tingidos com produtos naturais); Ecolã (têxteis biológicos); Vera Martins (patchwork)
Serviços: Ecóleo (Filtaporto -reciclagem de óleos alimentares); Supertech (redução das emissões de gases de escapes)
Trabalhos com materiais reutilizados e reciclados dos alunos da Escola Secundária da Boa Nova- Leça da Palmeira, tapetes de Arraiolos e exposição de minerais.
E Ainda -Refeições vegetarianas e Sessões de música ao vivo»
Mais informações
aqui

Vale mesmo a pena ir! Gostei imenso e só tenho pena de não ter tempo para lá voltar hoje. Ontem adorei os queques de musli e o chá verde por preço justo ;-). Gostei de saber a história das vassouras tradicionais do Nuno Moutinho; encantei-me de novo com os bonequinhos amorosos feitos pelas mãos livres da Vera; aprendi como se faz uma porta-moedas a partir de uma embalagem de leite graças à habilidade da Diana Dias; comprei imensos vasos aos simpáticos alunos do curso de Jardinagem da Escola (bravo pelo vosso trabalho!); fiquei a saber quem contactar para passar a reciclar óleos alimentares e muito mais!

Não percam! Hoje, Domingo: das 10h30 às 20h.

O rei de Ítaca

A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado

Sophia de Mello Breyner Andresen, O nome das coisas (1977)


Foto: pva 0511 - frutos e folhas de Ginkgo biloba

19.11.05

Calçadas no Outono

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Responda se souber: Qual é a calçada mais "amiga do ambiente"?

Publicado também nos ALIADOS

Praça dos Leões- anos 60

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Praça dos Leões - postal anos 60
Para quem tem saudades da velha praça e não pode ir "à Alameda de Fernão de Magalhães conversar sobre os tempos idos com as palmeiras exiladas..."

As Palmeiras dos Leões- Postal antigo

18.11.05

Refugiadas


Foto: pva 0509 - jardim da Alameda Fernão de Magalhães: palmeiras (Phoenix canariensis) e, ao fundo, uma alameda de bordos (Acer negundo)

Até migrarem em Setembro de 2003 para o local onde hoje as vemos, estas palmeiras tinham vivido desde 1888 numa das praças mais simbólicas da identidade portuense: designada na toponímia oficial por Praça de Gomes Teixeira, e antes por Praça dos Voluntários da Rainha e Praça da Universidade, todos a conhecem, há mais de um século, por Praça dos Leões. Ela é, sem exagero, a praça da minha vida, como o é de muitos outros que frequentaram, anos a fio, o velho edifício da Faculdade de Ciências. É... ou era, porque hoje não a reconheço: a minha praça fervilhava de gente, tinha flores, arbustos e desenhos na calçada; não era esta plataforma cinzenta friamente traçada a régua e esquadro.

Desde 2001, ano em que começou a destruição da praça com as escavações para o estacionamento subterrâneo, e até 2003, quando foram retiradas, as palmeiras não tiveram vida fácil. Envasadas em betão, sustentadas por muletas de ferro, a sua sobrevivência era incerta, e o transplante acabou por ser inevitável. Meses depois, quando tive coragem de as visitar na sua nova morada, os sinais eram promissores; e em 2005 estão sem dúvida de boa saúde.

Quem tiver saudades da velha praça que venha à Alameda de Fernão de Magalhães conversar sobre os tempos idos com as palmeiras exiladas. E, se vier por estes dias de Novembro, aproveite para admirar as cores outonais dos liquidâmbares que lhes fazem companhia.

17.11.05

Carvalhal no Outono- Tibães

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Quercus robur na cerca do Mosteiro deTibães - Novembro 2003

«No idioma usual e moderno "mata de carvalhos" diz-se carvalhal, e às vezes souto; mas no Minho usa-se em algumas terras devesa, como lá tenho ouvido, e já no foral de Pedroso (Gaia), de 1271, se lê: "nulllus homo amputett quercum in nulla defessa(m)" (Leges , p. 724); na mesma província do Minho ouvi carvalheira (Melgaço, V. N. da Cerveira) por "souto de carvalhos", e diz-se também, ou deve-se ter dito, carvalhal, que é corrente na toponímia minhota. Em Seia, a par de carvalhal, diz-se moita, como sinónimo. (...)»
José Leite de Vasconcelos, Etnografia portuguesa: tentame de sistematização. Lisboa : IN-CM, 1958-1988, vol. II, p.66

16.11.05

Águas passadas



Fotos: pva 0511 - Arca do Anjo e Fonte da Fontinha - jardins dos SMAS, Porto

Depois do evento cívico da manhã, eis-nos, na tarde do passado sábado (12 de Novembro), a deambular entre eucaliptos e loureiros para conhecer as fontes, chafarizes e arcas que protagonizaram, no Porto, a grande aventura da distribuição pública da água. Éramos umas trinta a quarenta pessoas na visita promovida pela Campo Aberto, entre velhos conhecidos e algumas caras novas, e todos aprendemos muito, graças às explicações claras e informadas da nossa guia, Dra. Maria José Macieira - que é também desde há três anos a principal responsável, nos SMAS, pela manutenção e recuperação das históricas fontes que visitámos.

A mata dos SMAS, onde as fontes surgem com uma naturalidade desarmante, forma um mundo à parte: em vez do ruído do trânsito, ouve-se o chilrear dos pássaros, a que se sobrepõe periodicamente o pouca-terra cadenciado dos comboios que ligam S. Bento a Campanhã; a paisagem é cerrada, densa e húmida, com dois ou três miradouros rasgados sobre o rio.

Para evitar desperdícios, e por ainda não estar operacional um sistema de reaproveitamento de águas, previsto para um futuro próximo, a maioria das fontes não tem água corrente. Mas outras águas correram do céu em abundância para assinalar, do modo mais apropriado, o final da visita.

A terminar, dois apontamentos. Quem não nos acompanhou no sábado, ou quem o fez mas quer voltar ao local, pode visitar os jardins dos SMAS em qualquer dia útil, entre as 9h00 e as 17h30. E, quando lá estiver, talvez lhe interesse comprar, mais barato do que nas livrarias, dois excelentes livros sobre a história de que todo este local é herdeiro e testemunha: Fontes e Chafarizes do Porto, de Germano Silva, e Porto d'agoa, de Alexandra Agra Amorim e João Neves Pinto.

14.11.05

Açaflor


Foto: pva 0511 - pé de Crocus serotinus entre folhas secas de Quercus rubra

A flor lilás do açafrão, uma planta bolbosa de aroma requintado, está a despontar agora em terrenos montanhosos, bem drenados e em meia-sombra. Dos seus estigmas e estiletes, filamentos de cor vermelha que quando secos amarelecem, faz-se a especiaria mais cara no mercado: para um quilo deste saboroso condimento amarelo são usadas mais de cem mil flores, colhidas à mão entre Outubro e Novembro, o que se traduz em cerca de 3 euros por cada meio grama de açafrão. Os cozinheiros exigentes, que o usam em molhos, paellas - prato típico do primeiro produtor mundial -, bolos ou sopas de peixe, denunciam a sua frequente substituição pelo açafrão-da-Índia (Curcuma longa), de preço irrisório. Por isso não é certo que alguma vez o tenha provado.

Da família das Iridaceas, a espécie Crocus (a que a mitologia grega se refere como um pastor que o deus Hermes imortalizou numa flor) sativus (porque se semeia) é endémica na Península Ibérica, Ásia Menor e China. O interesse no seu cultivo parece ter chegado até nós acompanhado pelo termo árabe az-zaHafran.

13.11.05

Trombeta-de-anjos


Foto: pva 0510 - Brugmansia aurea

Ontem, na Praça, soaram tambores, gaitas-de-foles e trombetas, se nos é permitido chamar trombeta a um modesto megafone. Não foi música de anjos, nem esperávamos ser ouvidos no Além: já seria bom se a surdez inflexível que tem afligido uns tantos humanos desse mostras de se atenuar.

12.11.05

Cancioneiro popular -castanheiro

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A folha do castinheiro
Rendilhada como a renda...
Diga-me, ó minha menina,
P'ra quem anda de encomenda?
(S. Tomé de Covelas, c. de Baião) II-339

Prometi-te uma castanha,
Se a der o castinheiro;
Prometi-te de ser tua,
Não vindo outro primeiro.
(Lajeosa do Mondego, c. de Celorico da Beira) II-367

(in José Leite de Vasconcelos, Cancioneiro Popular Português. Coimbra : Universidade, 1975)

11.11.05

Encontro no castanheiro

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Um S. Martinho com muitas castanhas, alegria e solinho para todos os meninos e meninas ;-)

A ler - Um monumento à autocracia

Palavras - Manuel António Pina (No JN)

«Siza Vieira e Souto Moura estão a fazer nos Aliados um monumento à autocracia. A autocracia já merecia um monumento no Porto!

Ora, um monumento à autocracia tem que ser cinzento (e, se possível, "sizento"), que é a cor do posso, quero e mando. E tem que obedecer à regra da autocracia, a uniformidade. Por isso, Siza e Souto Moura conceberam os novos passeios, a nova placa central e as novas faixas de rodagem da Avenida, onde até aqui reinava uma perigosíssima diversidade (até flores havia na placa central!), do modo mais uniforme que puderam granito cinzento, granito cinzento e granito cinzento. Coexistiam por ali, diversamente, uma Praça do General Humberto Delgado, uma Avenida dos Aliados e uma Praça da Liberdade; Siza e Souto Moura tornaram tudo numa coisa só: assim a modos que um Rolex "made in Taiwan". Dessa maneira, os portuenses sempre poderão ir a Paris sem sair de casa. E como a calçada à portuguesa é também excessivamente diversa e excessivamente portuguesa, decidiram fazer-lhe o mesmo que às árvores e às flores, arrancá-la e uniformizá-la. O Porto terá uma Avenida de uniforme "signé Siza". Para tudo ficar uniformemente perfeito, só falta obrigar os portuenses a pôr fato cinzento quando vierem os fotógrafos das revistas de arquitectura.»

10.11.05

As árvores e os livros

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

Jorge Sousa Braga, Herbário (2002)


Foto: pva - bétula no Largo D. João III, Porto, em Dezembro de 2004

9.11.05

Liquidâmbares em Novembro

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Liquidâmbares em Serralves: their time has come, again!
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8.11.05

ALIADOS - actualização

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CONCENTRAÇÃO EM DEFESA da AVENIDA DOS ALIADOS e da PRAÇA DA LIBERDADE
Sábado, 12 de Novembro, às 11 H na Praça da Liberdade
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À conquista do Monte Brasil




Fotos: pva 0509 - Castelo de São Filipe; vista de Angra do Heroísmo; Podranea ricasoliana

A sequência das fotos ilustra o rotundo fracasso de quem tem por missão defender a integridade do território nacional contra invasores indesejáveis. Sobranceiro a Angra do Heroísmo, e avançando pelo mar como uma proa, ergue-se, todo forrado a verde, o Monte Brasil. Mais de metade do seu perímetro está protegido, à cota baixa, pela muralha do Castelo de São Filipe, começado a construir no final do século XVI por ordem de Filipe II de Espanha (I de Portugal). São 4 Kms de muralha - e, em tempos antigos, 400 peças de artilharia para uma guarnição de 1500 homens. Ainda hoje o castelo é defendido por tropas portuguesas. Inexpugnável por terra ou por mar parece ser a descrição justa deste monumento bélico.

Parece - mas não é. O Monte Brasil foi palco, por terra, de inúmeras invasões bem sucedidas; e hoje, nas suas encostas, os descendentes dos invasores crescem e multiplicam-se na mais santa tranquilidade. Falando só da flora (pois também há invasores de quatro patas), dominam as criptomérias (da China e do Japão), os pitósporos (Pittosporum undulatum, da Austrália) e as lantanas (América Central e do Sul); e, ainda que menos abundante, a planta da foto esforça-se valorosamente por merecer o estatuto de invasora: os brasileiros até lhe chamam sete-léguas, não por essa razão, mas sim - segundo Harri Lorenzi no livro Plantas Ornamentais no Brasil - pelos ramos longos que costuma emitir. Pertencente, como o jacarandá (de flores parecidas com as suas), à família Bignoniaceae, esta trepadeira, de nome Podranea ricasoliana, é também australiana de origem.

Não sei que Ministro da Defesa foi culpado desta ocupação vergonhosa: não terá sido o último, nem o outro imediatamente antes, nem ainda o outro; mas alguém teve culpa, e alguém tem que casar com a culpa antes que ela morra. É urgente uma nova política de Defesa Nacional.

7.11.05

Expressões idiomáticas - folha

(Para os folhinhas ;-)
Castanheiro (Castanea sativa) Parque de Serralves -03




A folhas tantas: a certa altura.
Ao cair da folha: no Outono.
De folha a folha: de ano a ano.
Dobrar folha: cessar a leitura; cessar de conversar, interromper o fio ao assunto, passando a outro diverso.
Estar novinho em folha: diz-se de algo que está a estrear
Folha de caça: pista ou rasto de caça.
Tremer como a folha: ter um grande medo; o m.q. tremer como varas verdes.
Virar folha, a fortuna a alguém: mudar

Muitas destas expressões caíram em desuso. Algumas foram até transcritas de um dicionário antigo. Gostaríamos de saber: qual a que conhecia e eventualmente ainda usa ou ouve utilizar? Conhece alguma outra expressão idiomática com "folha" ?

6.11.05

Sintonia


Foto: pva 0510 - Jardim Botânico de Coimbra

Tarde triste.
É o Outono doente que começa.
Cada folha parece que tem pressa
De morrer.
Madura e fatigada, a natureza,
Roída por não sei que súbita incerteza,
Até nos frutos quer apodrecer.

E há um desalento igual dentro de mim.
Uma renúncia assim
Calada e conformada.
Perdi o gosto verde de cantar,
A emoção vem à tona e degenera,
Infecunda, a negar
As muitas flores que dei na Primavera.

Miguel Torga, Diário XIV, 1984

5.11.05

O jardim proibido


Foto: pva 0511 - Jardim Botânico de Coimbra: alameda de tílias com Araucaria bidwillii ao fundo

Em Agosto de 2002 escrevi ao Público a carta de que transcrevo em seguida o início:

«De há uns anos para cá, sempre que vou a Coimbra costumo visitar o seu jardim botânico. Não sei por que ainda o faço: na verdade nunca o vi, porque não me deixaram. Ao contrário do que pode parecer, o jardim botânico está (e, tanto quanto me lembro, sempre esteve) fechado ao público. Há um horário de abertura, até generoso, fixado à entrada, e os portões costumam estar abertos; mas a parte acessível do jardim não deve ultrapassar um sexto da área total. Além do quadrado central e da alameda que percorre a zona nascente do jardim, tudo o resto nos está vedado, incluindo os canteiros que ladeiam a alameda e a mata que ocupa a maior extensão do jardim (e que, presumivelmente, alberga o que de mais interessante nele se poderia visitar). Não lhe bastando ser exígua, a parte aberta ao público ainda peca por falta de informação: são poucos os espécimes identificados, e algumas das raras placas identificativas estão gastas a ponto de serem ilegíveis.»

A carta motivou uma resposta zangada do então director do jardim, confirmando no essencial as minhas observações mas atribuindo culpas à falta de pessoal e ao magro orçamento, e concluindo que «certamente não será preciso acrescentar mais nada para que qualquer visitante sensato compreenda e aceite o presente condicionamento». O problema, claro está, é que o visitante ocasional depara com um jardim onde quase tudo lhe está vedado - e, a menos que tenha dons divinatórios, não pode aceitar como boas as razões que ninguém lhe explicou. E o outro visitante, o que conhece a história do jardim e sabe que o presente condicionamento dura há décadas, não será assim tão magnânimo para compreender e aceitar.

Mais de três anos passados sobre a carta, que mudou no Botânico de Coimbra? Muito pouco, apesar de haver nova directora. A maioria das plantas ainda não está etiquetada. O visitante desprevenido ainda esbarra, estupefacto, com os portões trancados; e, se vier ao fim-de-semana, nem às estufas tem acesso. (Haverá razões ponderosas, mesmo que dúbias, para fechar a mata, mas nunca entendi por que hão-de estar inacessíveis todos os canteiros da parte nascente, incluindo o recanto tropical.) Houve promessas de, em colaboração com a Câmara Municipal, franquear ao público o acesso à mata, mas o tempo vai passando e nada acontece.

Tudo isto é uma tristeza. O Jardim Botânico de Coimbra é um tesouro de que muito poucos usufruem - um lugar onde, em vez de serem exibidas aos visitantes, as colecções de plantas se fecham avaramente como em cofre-forte.

É justo referir que há ao longo do ano visitas guiadas à mata - mas, realizando-se só aos dias úteis, exigindo marcação prévia por ofício e um mínimo de 25 participantes, destinam-se exlusivamente às escolas. Para outros públicos, decorrem este ano, em Outubro e Novembro, os passeios de Outono na mata do Botânico. Se morar em Coimbra, puder tirar um dia de folga no emprego, e conseguir juntar um grupo de 10 amigos nas mesmas circunstâncias, não deixe fugir a oportunidade!

4.11.05

Tintureira -Phytolacca americana

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Há já uma semana que passo por elas e lhes chamo contente: ai, suas "fitolacas"!



Phytolacca americana - Beiriz (Póvoa de Varzim) Outubro 2005

Gosto de aportuguesar as designações científicas dos géneros, mas no caso destas interessantes plantas que espreitam em todos os valados e penduram os seus cachos vistosos pelos muros, são muitos os nomes que poderia escolher, e todos eles contam histórias:
Em português-Tintureira, Erva-da-América, Uva-da-América, Erva-dos-cachos-da-Índia, Uva dos-passarinhos, Vinagreira; em inglês- American nightshade, Inkberry, Pigeon berry, Pokeberry; em francês- Raisin d'Amérique ou Teinturier, Épinard de Cayenne ou Épinard des Indes ou Phytolaque américaine, Morelle en grappe, Phytolaque à 10 étamines; em italiano- Fitolacca, Uva da colorare, Vite di Spagna, Phytolacca americana, Uva turca, Cremesina uva-turca; em espanhol- Yerba carmen, Raïm de moro, Fitolaca.
(fonte: A Fleur de PAU e Portugal Botânico de A a Z)

Segundo o dicionário de Stearn : «Phytolacca (...) from Gr. phyton, a plant; modern Latin lacca, from Hindi lakh, referring to the dye extracted from the lac insect*. The allusion is to the staining qualities of the fruit which has been used to redden wine.» (*a cochonilha Laccifer lacca).

Acho especialmente bonito o português Uva dos-passarinhos e o italiano Cremesina, mas escolhi Tintureira para o título por ser realmente uma das características mais marcantes deste arbusto vivaz, sobretudo das suas bagas carmim escuro. Estas (e outras partes da planta) contêm elementos tóxicos para os mamíferos mas que não afectam os pássaros.
(A ler artigos da Wikipedia: Pokeweed ; Raisin d'Amérique )

3.11.05

Perplexidade

Aqui o cidadão comum começa a interrogar-se quem deixou, sem metafísicas culturais nem objecções legais, destruir e subverter o espírito do Jardim da Cordoaria (numa operação que ficará nos anais do desrespeito pelo Porto), consentiu a destruição da Praça dos Leões, aceitou o corte dos belos plátanos centenários de Parada Leitão e se calou perante a transformação do Jardim da Relação em eira de pedra? Quem não se perturbou com tais projectos e deixou arrasar a Praça de Gonçalves Zarco e colocar a estátua de D. João V em cima de uma tábua de passar a ferro? E quem aprova que, um dia destes, a Avenida dos Aliados e a Praça apareçam travestidas e desvirtuadas em mais uma requalificação contra o espírito da cidade?

Hélder Pacheco, no JN de hoje

Outono & amor-perfeito


Fotos: pva 0510 - Viola spp.

«Informa-se oficialmente que chegou o outono, tempo de anêmona, begônia, ervilha-de-cheiro, gerânio e, principalmente, amor-perfeito. (...) Continuo lamentando que nosso tempo abomine flores, a não ser a margarida padronizada que hoje se pinta nos automóveis. Esse desamor não será levado a seu crédito, no dia em que os tempos prestarem contas ao Eterno.

Os amores-perfeitos não falam só a linguagem dos corações, que é controvertida e feita mais de silêncios que de fonemas e sintagmas. São expressivos em si, e passo a palavra a Hermes Moreira de Sousa, que entende do riscado: Quando bem aberta e de tamanho regular, a flor do amor-perfeito se apresenta como se tivesse um rosto, concorrendo o colorido que possui para exercer um efeito apelativo sobre o observador. E continua: As flores estão sempre voltadas para a direcção de onde provém maior irradiação solar, e os rostos apresentam-se como que parados, atentos. (...)

Pensée, pansy, heart's-ease, como quer que se lhe chame, há sempre o reconhecimento de certa propriedade sensitiva ou reflexiva no amor-perfeito. Não é (não seria) mera flor para adorno, anódina, meio boba: tem atitude, comportamento de gente, entre delicado e nobre.»

Carlos Drummond de Andrade, in Correio da Manhã (1969)

2.11.05

Para que os cemitérios se convertam em bosques...

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(a propósito da data de hoje e de um artigo publicado no jornal Le Monde dia 30/10)
Imagens de INDEX: THE WORLD ARENA FOR FUTURE DESIGN AND INNOVATION
«Bios é uma urna funerária fabricada com materiais biodegradáveis: casca de coco, turba compactada e celulose. No seu interior encontra-se uma semente de uma árvore, que se pode substituir por outra semente, rebento ou planta adequada ao lugar eleito. Quando a urna se planta, a semente germina.
A urna Bios transforma o ritual do enterro numa regeneração e num retorno à vida através natureza. Os cemitérios convertem-se em bosques.
Floco de Neve* foi enterrado numa urna Bio em 23 de Abril de 2004 e está a transformar-se numa árvore africana Calodendrum capense no Zoo de Barcelona.
Desenhado em 2000 por Gerard de Moliné. (...) »
(in Azuamoline -site dos designers Martin Ruiz de Azua et Gerard Moliné- que vale a visita)

*Floco de neve ou melhor "Floquet de Neu, un dels símbols de la Ciutat de Barcelona..." era um gorila albino, único da sua espécie, que viveu durante 36 anos no zoo da capital catalã.