31.1.07

O aceno das couves pela manhã

Mesmo sem a ajuda da SRU, a minha rua tem-se reabilitado. Não chegará a cem metros de extensão, e já foi uma humilde travessa; ascendeu a rua quando, pela mudança de nome, se quis homenagear um obscuro professor universitário. Um único prédio ocupa todo um lado da rua; do outro lado, casas de três ou quatro pisos, decrépitas quando as conheci, têm vindo a ser metodicamente reconstruídas. Numa delas, com a tinta amarela ainda brilhante, há no último piso uma varanda com floreiras, mas não são flores nem arbustos ornamentais que lá de cima nos acenam; são antes taludas couves que, além de fornecerem a sopa de cada dia, terão já guarnecido o bacalhau da última consoada. Ainda que eu seja também um praticante diário da sopa - mas não da sopa do vizinho, que não conheço e nunca me convidou para a sua mesa -, confesso que preferia, pela manhã, ver outra coisa a saudar-me da varanda em frente que não essas ramalhudas pencas. Ao lado das couves, a figura em cerâmica vermelha, de um puto rechonchudo carregando um peixe ao ombro, não é alegria que baste para os meus olhos.

As couves na varanda poderão ser uma reminiscência aldeã na cidade, o quintal possível de alguém que pôde outrora amanhar o seu quinhão de terreno. Fantasiando um pouco, poderiam também ser o resultado de uma prática já com vários anos mas cada vez mais em voga: refiro-me às hortas pedagógicas. Na Quinta do Covelo, por exemplo, e se forem por diante os projectos divulgados há quinze dias na imprensa, haverá hortas pedagógicas capazes de alimentar bairros inteiros. Não quero mal-entendidos: defendo a existência de tais hortas, e sei bem que a desgraciosa couve não é o único vegetal que as crianças cultivam nos seus talhões. O que contesto é que se queira despertar as crianças para o fascínio das plantas pela via única do utilitarismo alimentar, ignorando a estética e a beleza. Por que não se ensina jardinagem às crianças? Não seria, para grande parte delas, mais atraente, e até mais útil na vida adulta que vai ser a sua, compor um canteiro e ver brotar as flores do que cultivar tomates e rabanetes? Talvez falte só um nome chamativo para motivar políticos, professores e projectistas: que floresçam então muitos jardins didácticos para proveito de crianças e adultos.

Fotos: castanheiros da Quinta do Covelo em Dezembro de 2006; Narcissus tazetta

30.1.07

Apelo

«(...) É por isso que, sem sobrancerias mas com humildade, apelo aos meus colegas, sobretudo aos professores de ciências, para evitarem a mutilação das árvores nas escolas portuguesas. Não se pode pregar a defesa das árvores dentro da sala de aula, inclusive comemorar o Dia da Árvore, e depois permitir que se faça, fora da sala, o que a seguir retrato com fotografias. (...)» Pedro Santos in Pedagogias
Publicado tambem no Dias sem árvores

Arbusto do Capitão Gancho



O género Chamelaucium abriga cerca de 30 espécies endémicas apenas no oeste da Austrália entre Perth e Geraldton. A espécie C. uncinatum, conhecida como Geraldton-wax-plant por ter flores que parecem moldadas em cera, é ali amplamente usada para revestir solos junto ao mar uma vez que resiste bem a condições semi-áridas, a ventos e à maresia. O exemplar da foto vegeta num canteiro soalheiro junto à rua Ruy Luís Gomes em Gaia. Se bem cuidado, poderá chegar aos cinco metros de altura e dará flores do Inverno ao Verão.

Por ser uma mirtácea esperávamos que exibisse uma profusão de estames, como nos géneros Acca, Callistemon ou Metrosideros. Nestas flores, de cinco pétalas, eles são rosados e estão unidos formando uma taça central que lembra o efeito de uma gota de leite quando salpica a mesa. As folhas são agulhas encurvadas no ápice, como se na ponta de cada uma estivesse um pequeno gancho (daí o epíteto específico uncinatum).

29.1.07

Freixo multicentenário em Vermoim (Maia)

Reportagem de Hugo Silva com foto de Adelino Meireles no JN
Vermoim venera árvore que tem mais de 600 anos
«Aloíso Nogueira, presidente da Junta, recorda estudos da Faculdade de Ciências do Porto que lhe dão mais de 600 anos. Mas há documentos que, segundo o Diagnóstico Social da Maia, permitem atribuir mais de oito séculos de vida ao freixo. "A árvore terá sido plantada pelos monges do mosteiro de Vermoim, fundado no século X e ligado ao mosteiro de Leça do Balio [monumento milenar ainda em perfeitas condições, naquela freguesia do concelho de Matosinhos]. É a única lembrança que os monges nos deixaram, já que do mosteiro não há vestígios", explica Aloísio Nogueira.
A Junta, com a colaboração da Câmara, está a desenvolver o processo para classificar a árvore como património. No brasão da freguesia, que também tem uma forte tradição ligada aos tamanqueiros, o freixo já é a figura central. »

«Armas - Escudo de verde, um freixo de dois troncos de ouro, entre dois báculos com velocino de prata, postos em pala, o da dextra volvido; em ponta, três coticas ondeadas de prata e azul. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: "VERMOIM - MAIA ". » (Imagem e descrição do brasão in fisicohomepage )

Memorando

26.1.07

À sombra de árvores com história: reedição


(clique para aumentar)

Esgotado desde 2005, o nosso livro À sombra de árvores com história acaba de ser reeditado pela Gradiva em parceria com a Fundação Porto Social e com o apoio da Câmara Municipal do Porto. Além de se ter acrescentado ao livro um novo capítulo, quase todos os restantes capítulos foram enriquecidos com mais histórias, mais árvores e mais fotos.

Ficam todos os nossos leitores convidados para a sessão de lançamento na quinta-feira (1 de Fevereiro), às 21h15, no auditório da Quinta de Bonjóia. A apresentação será feita pela cientista Maria de Sousa, e estarão também presentes Álvaro Castello-Branco (Vice-Presidente da Câmara do Porto) e Guilherme Valente (editor da Gradiva). A concluir a sessão, faremos uma viagem fotográfica comentada por algumas árvores e jardins do Porto.

25.1.07

Alfinetes de feltro...

é o que parecem as flores de Buddleja madagascariensis quando começam a abotoar. Depois cada inflorescência transforma-se num perfumado cacho de tubos vistosos - encimados por quatro lóbulos laranja - pendente da ramagem longa, arqueada e graciosa. Como é usual nas budléias, as folhas são verde-escuro mas quase brancas e peludinhas na face inferior, lembrando na textura e tamanho as da nespereira.



Ao contrário da B. davidii, que está nesta altura quase sem folhagem e sem flores, esta espécie de Madagascar floresce no Inverno e é de folha perene. Os frutos são bagas vermelhas, aspecto também raro neste género.

24.1.07

A poda das árvores ornamentais- livro

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«Árvore, desde há muito deixaste a floresta e conquistaste as nossas cidades.

Jardins, parques, praças, ruas, estradas, sebes, tu lá estás por todo o lado, companheira de todos os dias. Mil formas, mil rostos, mil cores, combinas com o espaço e a arquitectura.

És paisagem, paisagem viva. Murmuras à mínima carícia do vento, divertes-te com a sombra e luz, repleta de cantos de pássaros, mudas com as estações, os anos, tu animas, tu és vida, presença e símbolo.

Mas tal como ao amigo muito próximo, habituamo-nos a ti, frequentemente nos esquecemos de ti. É necessário que adoeças, te destruam ou morras para que te vejamos de novo, que apreciemos a tua presença e o quanto de ti necessitamos.

Árvore, não pude mais ver-te mártir, doente, diminuída pela poda a vergonhoso candelabro encimado por ridículo panacho. Que procuramos? A que lógica obedecemos? Como podemos plantar-te, tratar-te durante anos, para proceder a tais massacres? E como ousamos repetir estas bárbaras operações? Que fica de ti, da tua harmonia passada, que fica da nossa paisagem? (...)»
Emmanuel Michau, na "Introdução" de A poda das árvores ornamentais , p.8-12.


A poda das árvores ornamentais /Emmanuel Michau; trad. e adapt. Sérgio Gaspar, Helena Ramos Gaspar. - Porto : FAPAS D.L. 1998. - 311, [2] p. : il. ; 24 cm. - (Manual FAPAS). - Tít. orig.: L'élagage - la taille des arbres d'ornement > . - ISBN 972-95951-4-3

Disponível!
De leitura obrigatória para os responsáveis pelas podas camarárias- para que se ponha cobro à ignomínia! Publicado tambem no Dias sem árvores (dias tristes )

23.1.07

Orquídeas de Inverno

No sábado rumámos a Coimbra para visitar (se possível) a exposição Transnatural no Museu Botânico da Universidade de Coimbra. Tocámos repetidamente à campaínha do Museu; encostámos depois a orelha à porta para verificar se sentíamos passos no interior; de seguida interrogámos o vigilante do Jardim Botânico sobre o horário da exposição. Nada resultou. Pelos vistos, e apesar de a inauguração ter sido num sábado, ela só se pode visitar de 2.ª a 6.ª às horas normais de abertura do Museu.



Aproveitando o dia soalheiro, entrámos no Jardim Botânico, que tinha duas magníficas surpresas à nossa espera: um dos terraços usualmente vedados ao público estava de portão aberto; e dentro dele dois belíssimos exemplares do género Bauhinia, o das folhas com formato de pata de camelo, estavam em flor.

A flor com três estames é da espécie B. purpurea (embora a etiqueta indique tratar-se de uma B. acuminata, que dá flores brancas); a de cinco estames, e pétalas que se sobrepõem, é da espécie B. variegata. Para compor o cenário de Oh!s e Ah!s só faltou um colibri, que tanto aprecia estas flores; mas veio olhar-nos um esquilinho castanho, magrito mas sem medo, admirado com a nossa alegria.

22.1.07

Camélia Higo


Camélia Higo no bosquete da Casa Tait - Janeiro de 2006

Entre as inúmeras metamorfoses da Camellia japonica contam-se as camélias Higo, originárias da província japonesa com o mesmo nome, de flores singelas com cinco a nove largas pétalas e uma grande coroa aberta formada por estames amarelos, ligeiramente recurvados. Segundo o livro O mundo da camélia, as camélias Higo, embora consideradas como pertencendo à espécie Camellia japonica, resultariam de uma hibridação natural entre esta espécie e a C. rusticana. Estão registadas dezenas de variedades da Higo, que é uma das camélias mais populares no Japão; 25 dessas variedades, incluindo algumas de pétalas imaculadamente brancas, aparecem por ordem alfabética nesta página japonesa [procure os nomes começados por Higo e, para ver as fotos, clique nos atalhos em japonês]; e também pode admirar aqui outras fotos de camélias Higo.

20.1.07

Todas as árvores apaziguam o espírito

«Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.
Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.

Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo de flores que o envolve.
Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.»


"Infância", in Três Rostos,1989
Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

19.1.07

Freixo de flores à cinta


Fraxinus ornus - Abril de 2006

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.


Fraxinus pennsylvanica - Janeiro de 2007

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu.


Fraxinus angustifolia - Setembro de 2005

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, - por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade.

Cecília Meireles, Primavera (1957) - Obra em Prosa, vol. 1

18.1.07

Super-bonsai



Banksia spinulosa var. collina

Há uns anos, numa conversa ocasional na Casa do Vinho Verde, à rua da Restauração, um responsável pelas obras de recuperação desse esplendoroso edifício oitocentista afiançou-nos que a estranha árvore ao fundo do pátio era um bonsai. Tentámos corrigi-lo, mas ele mantinha-se firme na sua opinião. Bonsai, segundo ele, seria uma espécie bem determinada de árvore, como o pinheiro ou a macieira, com a diferença de ser geralmente cultivada em ponto pequeno; mas, como exemplificava aquela mesma árvore, haveria também bonsais em escala mais avantajada. A ignorância presunçosa é difícil de desculpar; mas deve reconhecer-se que, no retorcido quase artificial do tronco e das grossas ramadas, e na copa larga e atarracada, desproporcionada em relação à altura, a árvore parece de facto um bonsai gigante, minuciosamente recriado a uma escala improvável para melhor se admirar. Se os habitantes de Brobdingnag, que Gulliver visitou na sua segunda viagem, se dedicassem à arte da miniaturização de árvores, sem dúvida que os seus «bonsais» seriam, no tamanho e na forma, muito parecidos com este.

Pertencendo, como a Protea, a Grevillea e o Leucospermum, à família Proteacea, a Banksia é um género australiano que compreende cerca de 80 espécies, e que é reconhecível pelas inflorescências cilíndricas, formadas por centenas ou milhares de pequeninas flores espetadas perpendicularmente, à laia de alfinetes, num eixo central. As Banksias variam de arbustos rasteiros, com cerca de meio metro, até árvores de quinze metros como a Banksia integrifolia, de que há dois ou três exemplares em Serralves. Com os seus três metros de altura, a Banksia spinulosa var. collina, que hoje aqui trazemos, está a meio caminho entre os dois extremos. As suas folhas de margem serradas, compridas e muito estreitas, podem ao longe confundir-se com agulhas de um pinheiro.

No Porto secou há dois anos um perfeito exemplar desta espécie no Parque de Serralves; e, além do exemplar da foto, sobrevivem dois outros no Largo do Calém, e um quarto num jardim particular à rua de Gondarém.

17.1.07

A ler

A propósito desta selvajaria e de todas as outras!
Os miseráveis (carta aberta em forma de desabafo)
por Pedro Nuno Teixeira Santos
«(...) Escrevo esta carta aberta porque estou cansado; cansado de escrever em jornais e em blogues; cansado de um país e de um povo que não tem a sensibilidade e a inteligência para defender o que é seu, isto é, o pouco património construído e natural que ainda nos resta...pobre povo, pobre país!
Estou cansado de ver crimes por punir e de ver a passividade de quem não protesta. (...)»

Selvajaria

Rolagem e abate de plátanos na Covilhã
É lastimável continuarem a abundar casos como este, prova de ignorância e insensibilidade -enquanto rareiam as boas práticas- como por exemplo o trabalho conduzido por técnicos habilitados, de diagnóstico e poda cirúrgica das árvores do monte da Penha!

Até quando se vai continuar a permitir este tipo de actuação?
Senhores arboricultores não estará na altura de se fazer mais alguma coisa? De se levar este assunto à Assembleia da República? Uma vez que parece não haver iniciativas partidárias, para quando uma recolha de assinaturas exigindo legislação que impeça e puna estes actos de vandalismo? Estamos à espera!

Fotos enviadas por Pedro Santos do Sombra Verde.
Ler os seus comentários sobre mais este caso de selvajaria
aqui e aqui.



Rolagem e abate de plátanos na estrada N230 entre a Covilhã e o Tortosendo

Mais fotografias no Dias sem árvores

Rezo, dobrado, aos Anjos da manhã.

O céu é fosco e o coração sonoro
Como a chuva que cai na telha vã
E o verbo com que imploro.

Terra de lume implanta
O meu corpo de velho
Enrolado na manta.
As minhas mãos estão postas ou podadas?
Sou gente ou vide?
O chão, com minhas folhas amontoadas,
Do Inferno me divide.


Mas rezo sempre, como o fio da fonte
Teima na rocha viva ao mar virada
Na esperança de que um cântaro desponte
E o apare ainda - ou a covinha breve
Que, tremendo o queimor da água salgada,
Ele próprio em pedra abriu
Como na terra leve,
Ajudado dos álamos, o rio.

Vitorino Nemésio
"Terra de Lume", in O Pão e a Culpa (1955 )

16.1.07

Origami

O xintoísmo é uma antiga religião politeísta do Japão, cujos seguidores acreditam que a terra japonesa, e os seus corajosos e honestos habitantes, foram a primeira e melhor criação divina. Os que a professam adoram seres superiores (os kami) que são espíritos das montanhas, das árvores, dos ribeiros, dos ventos, das nuvens, do céu e do mar. Sem escrituras sagradas, teologia, busca de salvação e salvadores, pecados e códigos de conduta, basta-lhe uma absoluta fidelidade à memória, ao passado, à tradição, a lugares familiares, e uma união harmoniosa com a natureza, que é sagrada: estar perto dela é estar ao pé dos deuses. Por respeito à arvore, em origami o papel nunca é «podado». E são enfeites de origami que embelezam os altares onde se adora a divindade mais poderosa - feminina e que representa o Sol -, se alimenta o orgulho pela proximidade aos deuses, e se tecem lendas, cultos e superstições.


Cleyera fortunei

Entre os seres sagrados para o xintoísmo está a Cleyera fortunei, arbusto do Nepal, China e Japão, da família Theaceae como as camélias, mas de folhas variegadas que nascem cor-de-rosa. Os textos científicos indicam que as flores são minúsculas, parecendo grãos de arroz presos aos ramos, e os frutos são bagas vermelhas, pretas quando maduras. Mas nunca vimos nem umas nem outros nos exemplares que conhecemos, no Parque de S. Roque e em Serralves.

O nome homenageia Andreas Cleyer, médico alemão (1634-1697), que visitou o Japão nos anos 80 do século XVII e foi autor de Miscellanea Curiosa (1689), um conjunto de artigos sobre plantas japonesas com reproduções e aquela que é considerada a primeira descrição europeia da Camellia japonica.

15.1.07

Árvores da Penha (Guimarães)


Monte da Penha - Agosto de 2005

Uma vez por outra lá aparece uma boa notícia. Esta, vinda da cidade-berço pela mão de Alexandre Leite, é da autoria de Teresa Ferreira, foi publicada em 5 de Janeiro no Notícias de Guimarães, e garante-nos, agora que começou a terrível época das podas, que há pelo menos um lugar no norte do país que podemos visitar sem sermos confrontados com árvores mutiladas. A notícia refere-se ao monte da Penha, mas é de toda a justiça sublinhar como no próprio núcleo urbano de Guimarães o trato com as árvores é, se não exemplar, pelo menos incomparavelmente mais lúcido e competente do que em Braga.

A notícia informa que, a expensas da Irmandade da Penha, está em curso uma operação, prevista para durar dois meses e conduzida por técnicos habilitados, de diagnóstico e poda cirúrgica das árvores do monte da Penha. O responsável máximo pela intervenção, Viriato Oliveira, explica que o objectivo é remover «os ramos e folhagens secas que apenas provocam excesso de peso», mas realçando o «porte, perfil e personalidade própria» de cada árvore; bem a propósito, avisa que «uma poda mal feita pode mutilar irremediavelmente uma árvore, descaracterizando-a e ferindo-a de morte». Haverá também abates, perfeitamente justificados e até urgentes, de árvores invasoras como as austrálias (Acacia melanoxylon). Um projecto paralelo, igualmente iniciativa da Irmandade, chama-se árvores falantes e poderá já estar concluído no próximo Verão; consiste, pelo que depreendemos da notícia, na colocação de placas e textos informativos junto a árvores seleccionadas.

13.1.07

Ilha

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Avenida da Boavista- Porto, 11.01.2007

11.1.07

Capuchinho laranja

O mundo anda entediado, ou aflito com o ano ainda por cumprir. A herbácea Chasmanthe floribunda (iridácea sul-africana), contagiada pelo aborrecimento geral, não consegue conter nesta altura os embaraçosos e sonolentos bocejos das suas flores.



Conhecida em inglês como cornflag (ou Aunt Elisa por ter sido anteriormente classificada no género Antholyza), a C. floribunda é, das três espécies do género, a mais alta e vistosa. Um renque de pés dela está agora em flor junto ao prado de Serralves. A folhas têm formato de espada e dispõem-se em leque; nasceram no início do Outono de bolbos que estiveram adormecidos desde a Primavera. As inflorescências são espigas achatadas com flores cor-de-fogo (amarelas no cultivar albino C. floribunda duckittii) parecidas com pequenas trombetas inclinadas com a pétala superior mais longa.

Chasmanthe deriva dos termos gregos chasme, bocejante, e anthe, flor. Floribunda é um merecido piropo latino: significa profusamente florida.

9.1.07

Camélias nos jardins do Palácio



Desde a sua inauguração na década de 1860, os jardins do Palácio de Cristal têm sido o melhor mostruário da tradição portuense no cultivo da camélia. Além das veneráveis japoneiras que ladeiam o jardim de entrada, existem muitas outras, algumas plantadas em anos recentes, espalhadas por todo o recinto. Mesmo se nos limitarmos a seguir o gradeamento que confina com a rua D. Manuel II, encontramos camélias singelas, dobradas, rosas, brancas, vermelhas, raiadas - numa profusão de cores e formas em todas as combinações imagináveis. Uma das camélias desse alinhamento, a terceira no painel em cima, é das mais bonitas que conheço: parece-me ser uma "Carlotta Papudoff", variedade italiana criada em 1851. A flor na primeira foto, de uma japoneira de floração tardia existente junto ao portão principal, é de identificação mais problemática, embora tenha, de comum com a japonesa "Orandakô", as pétalas bissectadas longitudinalmente por sulcos brancos. Da segunda flor não arrisco qualquer identificação.

É sempre bom nestes dias de Inverno ir ao Palácio admirar camélias. O que já não é bom é ter o sossego do jardim perturbado pela estridência musicante da gigantesca tenda onde, durante um mês inteiro, a Câmara instalou ou deixou instalar um sucedâneo da feira popular de má memória. A tenda é desmontada no final desta semana, e oxalá tal poluição visual e sonora não regresse em anos futuros ao mais valioso jardim público do Porto.

8.1.07

Roca bela



Euonymus japonicus - Parque de Serralves - Porto

Quando a princesa Aurora nasceu, não sabia que viria a ser a Bela Adormecida*, enfeitiçada pela fada má que não foi convidada para a festa do baptizado: «Um dia picarás a tua mão numa roca e morrerás!» Maldição atenuada pela fada madrinha, que a transformou num longo sono de toda a família real, até ser salva pelo príncipe encantado. As rocas eram outrora feitas com a madeira clara e dura de Euonymus europaeus (da família Celastraceae). A designação portuguesa deste género, barrete-de-padre, tem certamente em conta o formato das flores; a inglesa (spindle-tree) e a francesa (fusain) referem explicitamente este uso da madeira, que ainda hoje se utiliza nas agulhas de crochê e nos lápis de carvão para desenho.

O género Euonymus contém mais de uma centena de espécies asiáticas de arbustos de textura lenhosa que podem atingir três metros de altura. Os frutos do exemplar das fotos começaram a abrir agora e são cápsulas cor bege, pintalgadas, com concavidades onde se aninham as sementes; estas são brancas mas cobertas por arilo carnudo vermelho-coral, apreciado por pássaros apesar de tóxico (tal como o resto da planta) por conter o alcalóide evonimina (por isso as sementes pulverizadas dão bom insecticida). O termo grego euonumos significa que é repeitado, aludindo a este carácter venenoso que afasta os predadores. Muito resistente ao frio e à poluição, é frequente nos nossos jardins urbanos, sobretudo como sebe.

* fábula de Charles Perraul, in Histoires ou Contes du temps passé. Avec des Moralitez (1697)

6.1.07

Agenda: "Transnatural"- até 4 de Fevereiro

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«Reunindo obras de 25 autores das áreas da literatura, ensaística, artes plásticas, vídeo e fotografia, que têm como tema ou fonte de inspiração este es paço verde emblemático de Coimbra, "Transnatural" é também o título do projecto pluridisciplinar iniciado em 2004, no Jardim Botânico. Numa edição bilingue da Artez , o livro reúne, entre outras obras, ensaios nos domínios da história, arquitectura, filosofia e ciência. Inclui ainda textos literários e poemas de, entre outros, Hans Christian Andersen ("Uma Visita a Portugal"), Almeida Garrett("Madrugada no Jardim Botânico de Coimbra") ou Luís Quintais ("Tílias"), inspirados neste espaço. (...)»
> Livro e exposição "Transnatural" homenageiam Jardim Botânico de Coimbra (rtp.pt)


Jardim Botânico de Coimbra- Av. das Tílias em Novembro 2006 (e em 2005)

«A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (UC) inaugura hoje a exposição Transnatural, no Museu Botânico da UC. Será também lançado um livro que, à semelhança da mostra, reúne trabalhos em diversas áreas, da poesia ao ensaio, passando pela fotografia, pelas artes plásticas e pelo vídeo. Trata-se de um projecto pluridisciplinar sobre o Jardim Botânico que apresenta trabalhos de autor, inéditos, e obras de colecções particulares e de instituições ligadas à universidade. Todos os trabalhos são sobre o Jardim Botânico, enquanto espaço cultural, científico e que inspirou também artistas ao longo dos tempos. (...)
A "riqueza histórica e científica" do Jardim Botânico pode ser agora apreciada nesta exposição que reúne obras de 25 autores e que a partir de hoje estará patente no Museu Botânico da UC todos os dias até 4 de Fevereiro.»
> Botânico de Coimbra em exposição e em livro (Público)
Museu Botânico da Universidade de Coimbra

5.1.07

Insucesso escolar

Como é lamentável! Ano após ano, repete-se a mesma triste história: com a chegada do Inverno aos jardins, somos obrigados a verificar que apesar de todas as lições há quem continue sem aprender nadinha!
A quem atribuir as culpas deste fracasso?

Dendronudismo (2.ª lição)



Catalpa bignonioides - Jardim do Morro - Vila Nova de Gaia

Em contraste com o plátano, que não muda de personalidade conforme a estação do ano, a catalpa tem duas faces bem distintas, mas ambas perfeitamente reconhecíveis. Ela é talvez, de entre as árvores ornamentais comuns nos nossos jardins, a que apresenta folhas de maior tamanho: ovais e de ápice pronunciado, podem medir até 30 cm. As suas flores - brancas com manchas amarelas e roxas, delicadamente fragrantes, semelhantes na forma às do jacarandá (que pertence à mesma familia, a das Bignoniáceas) - ganham em ser vistas de perto, ao contrário das do seu primo tropical, que valem mais pelo conjunto. Os frutos da catalpa são falsas vagens, estreitas e muito compridas; levam um ano a amadurecer e atingem os 40 cm, permanecendo na árvore durante todo o Inverno. Essa profusão de «vagens» pendentes, lembrando pedaços de corda que algum brincalhão com infinita paciência se lembrou de pendurar nos galhos, permite-nos identificar sem hesitação a árvore despida. (Clique na foto da esquerda para ver melhor.)

A catalpa é originária dos EUA. É uma árvore de porte médio que desenvolve uma copa ampla, juntando assim ao valor ornamental a utilidade de uma boa sombra. Além dos exemplares no Jardim do Morro, em Gaia, encontramo-la do outro lado do rio bem representada no bairro Gomes da Costa, junto a Serralves, onde é usada na arborização de algumas ruas. No próprio Parque de Serralves há duas ou três bonitas catalpas; e, ainda no Porto, há outra, digna de realce pela sua envergadura, perto do largo do Padrão, na rua D. João IV.

4.1.07

Mudança


Tulipa linifolia

As águas não eram estas,
há um ano, há um mês, há um dia...
Nem as crianças, nem as flores,
nem o rosto dos amores...

Onde estão águas e festas anteriores?


Cecília Meireles, Domingo na praça (in Mar Absoluto e Outros Poemas - 1945)

3.1.07

Dias sem árvores- Castro Marim

No Sotavento algarvio: Novo empreendimento vai destruir única mancha verde de Castro Marim 02.01.2007 - 18h13 PUBLICO.PT > (alerta enviado por uma leitora do blogue)

«A associação Almargem denunciou hoje a destruição da única mancha verde da zona costeira do concelho de Castro Marim, para onde está prevista a construção do empreendimento Verdelago, classificado como Projecto de Interesse Nacional.

Estendendo-se desde a Estrada Nacional 125 até ao mar, o empreendimento ? com mais de duas mil camas (hotel, aldeamento, zona de comércio e serviços, estradas e campo de golfe) ? deverá abranger 90 hectares de floresta, dunas e charcos temporários. Parte tem a protecção europeia da Rede Natura 2000 > .


A Almargem alerta que o projecto "implicará a ocupação e inviabilização da totalidade da última das manchas de pinhal-manso do Sotavento, bem como a fragmentação irreversível de habitats" , alguns dos quais considerados prioritários pela União Europeia. A sua construção levará ainda "à desafectação de algumas dezenas de hectares da Reserva Ecológica Nacional", como zonas húmidas para a construção do campo de golfe e a ocupação de áreas agrícolas.
A Avaliação de Impacto Ambiental "limitou-se a reconhecer o projecto como inquestionável" e deu um "parecer favorável condicionado, que de nada valerá àquele troço único do litoral algarvio". Empreendimento prepara abate de mais de 90 sobreiros e azinheiras
A Almargem pede ao Ministério do Ambiente e à Direcção-Geral de Recursos Florestais para impedirem o abate de mais de 90 sobreiros e azinheiras, espécies protegidas, previsto pelo empreendimento. Segundo a associação, este tem "cerca de quatro vezes mais a capacidade máxima das 600 camas previstas para o sector turístico no Plano Director Municipal [PDM] de Castro Marim".

(...) Nos últimos anos, a faixa marítima do concelho de Castro Marim, que se estende por 3,5 quilómetros, tem vindo a ser ocupada por empreendimentos urbano-turísticos que "ocuparam e fragmentaram uma área considerável da mancha florestal conhecida como Pinhal do Gancho e que constitui o prolongamento ocidental da Mata Nacional das Dunas de Vila Real de Santo António (Mata de Monte Gordo)". "Do pouco que resta, a área do empreendimento VerdeLago constitui a última grande mancha verde contínua de toda esta região litoral e, como tal, a prioridade deveria ser a sua preservação e não o contrário", conclui. »

"Não me posso conformar..."

Ao ler (via PJ ) na página da Associação dos Amigos do Mindelo a relação da incrível quantidade de detritos que encontraram ao longo do areal, lembrei-me com nostalgia do belo poema de José Régio. Será que ele se conformaria? E que diria deste megaprojecto?

«Vila de Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar...
- Lembra-me Vila do Conde,
Já me ponho a suspirar.

Vento norte, ai vento norte,
Ventinho da beira-mar,
Vento de Vila do Conde,
Que é minha terra natal!,
Nenhum remédio me vale
Se me não vens cá buscar,
Venta norte, ai vento norte,
Que em sonhos sinto assoprar...

Bom cheirinho dos pinheiros,
A que não sei outro igual,
Do pinheiral de Mindelo,
Que é um belo pinheiral
que em Azurara começa
E ao Porto vai acabar...,
Se me não vens cá buscar,
Nenhum remédio me vale!
Nenhum remédio me vale,
Se te não posso cheirar...

Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar!
- Lembra-me Vila do Conde,
Mais nada posso lembrar.

Bom cheirinho dos pinheiros..
Sei de um que quase te vale:
É o cheiro da maresia,
- Sargaços, névoas e sal -
A que cheira toda a vila
Nas manhãs de temporal.
Ai mar de Vila do Conde~,
Ai mar dos mares, meu mar!,
Se me não vens cá buscar,
Nenhum remédio me vale.
Nenhum remédio me vale,
Nem chega a remediar...

Abria de manhãzinha
As vidraças par em par.
Entrava o mar no meu quarto
Só pelo cheiro do ar.
Ia à praia, e via a espuma
Rolando pelo areal,
Espuma verde e amarela
Da noite de temporal!
Empurrada pelo vento,
Que em sonhos ouço ventar,
Ia à praia, e via a espuma
Pelo areal a rolar...

(...)
Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar!
- Lembra-me Vila do Conde,
Não me posso conformar... »


José Régio>
"Romance do Vila de Conde", in Fado (1941)

2.1.07

Plata-nus



Plátanos no Parque da Cidade: Novembro de 2006 / Janeiro de 2007

Para observadores menos treinados, esta é a época em que quase todas as árvores caducifólias se remetem ao anonimato, deixando tombar as últimas folhas como quem descarta o bilhete de identidade. Passar-se-ão meses até que, com o rebentar das novas folhas, lhes possamos restituir os nomes perdidos. Mas nem todas as árvores troçam da nossa ignorância: o plátano, com a franqueza rude que lhe é própria, é tão assumidamente ele mesmo quando despido como quando coberto de folhagem. É que a sua casca (ou ritidoma, para sermos precisos) vai-se continuamente soltando em pequenas lascas, imprimindo-lhe no tronco um inconfundível padrão marmoreado. Verdade esta que pode também ser comprovada nos plátanos jovens que compõem a mais bonita e panorâmica alameda do Parque da Cidade.

1.1.07

Ano Novo


Nandina domestica





Dia de Ano Novo, Chen Shu (1660-1736)