31.8.04

Cancioneiro popular - oliveira

«Não cortes a oliveira
Nem l'assentes o podão;
À sombra da oliveira
Descansa o meu coração.»

'Oliveiras-lulu' em 'espaço verde' (Silves)


Foto: manueladlramos 0408
Os 'espaços verdes' de Silves são em geral aprazíveis. Interessantes também: gosto por exemplo da não uniformidade de espécies na via que ladeia o rio, local onde se podem encontrar jacarandás, albizias, choupos e pimenteiras bastardas; perto do castelo os ailantos atingem um porte notável (ver adenda), crescendo no seu interior, entre outras árvores, tílias e de novo jacarandás. Por todo o lado se encontram espécies autóctones como sobreiros e oliveiras...
Entretanto surgiu uma nova moda no trato destas últimas: é a poda à lulu!
Quando, ao dobrar da esquina, deparei com o espectáculo, só não desatei a rir porque prevaleceu o sentimento que esta ridícula poda é atentatória à dignidade das oliveiras!
Realmente há gostos para tudo: tanto para rodriguinhos a menos como para rodriguinhos a mais...
Post scriptum:
No dicionário-«Rodriguinho: efeito fácil e convencional, sem valor artístico, empregado pelo actor para provocar facilmente o riso ou o choro do espectador ...»
Adenda: Estes ailantos já não existem. Ver aqui mais detalhes.

30.8.04

Espaços verdes de papel

«Há palavrões modernos, que são espantalhos. Inventam-se para espantar, fazer fugir ou pôr de boca aberta as criaturas simples. Levam a palma aos figurões de cartola, postos de sentinela no topo das figueiras para amedrontar a pardalada. Levam-lhes a palma, porque não guardam coisíssima nenhuma. Se há figos a defender, justifica-se o espantalho no alto da figueira. Mas, os palavrões que se inventam para impor respeito ou meter medo não correspondem à realidade. Correspondem a mitos, poeticamente inventados para iludir pategos.

Zona Verde, mais que palavrão, é um desses espantalhos. Não há zonas verdes num país que jurou guerra de morte ao arvoredo. Mas, inventaram-se, como flores de retórica, para se dizer que são indispensáveis em terra esperta, conhecedora dos segredos do oxigénio, coisa muito fina e que faz bem à saúde.

Não há terra nem terrinha que não tenha destruído árvores para se civilizar. Todas entendem que o ideal da civilização é a eira varrida, limpa de praganas. Mas, por sábio respeito às magias do oxigénio, concordam com as zonas verdes, sob condição de nunca reverdecerem. (...)

Também a nossa vila tem zona verde. Por ser nossa, é a mais bonita de quantas luzem, no papel, por esse país fora. (...)

O Turismo é fonte de receita. Mas, sem fontes de água e sem árvores, sem agasalho doce, o Turismo não pega. Para haver Turismo, são indispensáveis os requisitos de hospitalidade. No pino do Verão, à parte a mesa bem servida e cama limpa, um dos requisitos é a água, a sombra, a frescura, o canto dos passarinhos, uma boa migalha de natureza.»

João de Araújo Correia, Pátria Pequena (1977)

29.8.04

Leça outra vez

Já antes, acompanhando Raul Brandão, passeámos nas margens do rio Leça. Ao passeio literário e virtual juntámos um destes dias o passeio real: fomos a Leça do Balio, terra do antiquíssimo mosteiro. E lá está ele, como novo, ao fundo de um declive relvado. O enquadramento verde, com umas magras árvores e os avisos para não pisar, ainda que nada acrescente à beleza do edifício, também não a agride. Ao lado e abaixo do mosteiro, acompanhando a margem do rio, foi construída uma discreta zona de lazer, com restaurante, cafetaria, esplanada, equipamento infantil, algum cimento, muita relva e poucas árvores. Nada que entusiasme: não há canteiros floridos; os percursos foram traçados a régua; as árvores que foram poupadas na margem do rio, incluindo alguns carvalhos de bom porte, não foram limpas da hera que as ameaça sufocar. Mas a esplanada é sossegada, sem que a perturbe o ruído do trânsito, e está à distância ideal do rio Leça: adivinhamos-lhe a presença mas não lhe sentimos o cheiro. E talvez não devamos ser muito exigentes em matéria de espaços verdes: já é muito bom que existam e sejam preponderantemente verdes.

No entanto, a manutenção daqueles relvados não sai barata em "jardineiros" (i.e., operadores de corta-relva) e água. Pelo mesmo preço não seria possível compor e manter algo que revelasse arte e gosto?

Pois não foi o mosteiro o único monumento que visitámos em Leça do Balio. Com a desajuda de uma funcionária da Junta de Freguesia, incapaz até de interpretar o mapa local que tinha para distribuir, conseguimos, depois de várias voltas à pista (ou seja, às vias rápidas que rasgam a localidade e a tornam imprópria para peões), encontrar a Quinta do Alão. Tem esta quinta, propriedade particular, a fama de possuir os jardins seiscentistas mais bem conservados do país: a ela se referem, com elucidativas fotos, dois importantes livros recentes sobre jardins portugueses, o Tratado da Grandeza dos Jardins em Portugal (1998) de Helder Carita e Homem Cardoso, e Jardins com História (2002), editado por Cristina Castel-Branco. Tem a fama e tem o proveito, como pudemos testemunhar por nos ter sido facultada entrada pelo Sr. Abreu, jardineiro que há várias décadas cuida amorosamente dos jardins (coadjuvado em anos recentes por outro jardineiro). Que saber e paixão as daquele homem! Que contraste entre o colorido, a surpresa e a variedade das árvores, arbustos e flores daqueles canteiros e a jardinagem bisonha e ignorante que, cada vez mais, somos obrigados a tolerar nos nossos locais públicos!

Por imprevidência, do que lá vimos não guardámos registo fotográfico. Entre as muitas árvores que o Sr. Abreu plantou na antiga horta e pomar, hoje ajardinados, destacamos, pela sua raridade, uma Metasequoia, parente próxima das sequóias mas de folhagem caduca que foi descoberta na China em 1944: este bonito exemplar, de altura já respeitável, tem cerca de 40 anos.

28.8.04

Amanhã...

É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados
nelas.
Tudo volta ao princípio.

António Gedeão, Novos poemas póstumos (1990)

27.8.04

Árvores onde poisa o céu

Na nossa romaria ao Parque de Vizela, previmos encontrar exemplares de árvores que foram moda na horticultura europeia do final do século XIX: plátanos, em alamedas - e eles lá estão, enfileirados e soberbos; tílias prateadas - e um grupo delas, altaneiras e de copa frondosa, cerca-nos depois do primeiro repuxo; sequóias, porque aos criadores do Parque não teria passado despercebida a abundância de água que estas coníferas tanto apreciam; tulipeiros, sobre cuja floração o jardineiro das Virtudes escrevera sabiamente e que tão bem vegetam em espaços vastos; e, naturalmente, camélias.

Mas Marques Loureiro e Monteiro da Costa quiseram deixar-nos um cenário mágico. À entrada do Parque há flores, em "canteiros e canteirinhos" que hoje enfurecem prestigiados arquitectos mas encantam as pessoas comuns, ladeados por dois caramanchões em meia-lua de glicínias; os guardiões do Parque são áceres (negundo), nesta altura com mil e uma sâmaras a preparar o futuro, e carvalhos alvarinhos. Depois começa a mata de árvores majestosas, com troncos que escapam aos abraços, de folhagem saudável em ramos enormes, sem podas que lhes desfigurem o porte: seguindo um guião minucioso de surpresas para o visitante, Marques Loureiro oferece-nos liquidâmbares, faias, cedros, magnólias, araucárias (angustifolia), eucaliptos, ciprestes-dos-pântanos e dois raros Podocarpus totara.

O conselho de Duarte de Oliveira foi seguido: é uma comporta que regula a cedência de água do rio Vizela ao lago por onde hoje, abandonados os barquinhos de recreio, vogam patos e cisnes.

26.8.04

Essa alegria só prometida às aves (*)



A natureza modificada, de que nos fala Duarte de Oliveira, acabou por ser a única que, em Vizela e nas imediações, sobreviveu ao progresso. O rio Vizela está intoleravelmente poluído, e as novas estradas e as construções desordenadas acabaram com o encanto da paisagem. Sobram aqui e ali, ao longo do rio, algumas manchas de arvoredo de que sobressaem bonitos carvalhais; mas é preciso procurar os recantos e treinar os sentidos a ignorarem o panorama mais vasto.

São as ironias desta vida automobilizada: agora que é tão fácil e rápido chegar a tantos lugares, há cada vez menos motivos para os visitar; as próprias estradas que a eles nos conduzem contribuíram para a sua degradação. E, mesmo quando vale a pena, à facilidade em chegar contrapõe-se a facilidade em partir: há um nervosismo miúdo que não nos deixa simplesmente permanecer.

Vale a pena permanecer no Parque das Termas de Vizela durante uma longa tarde de Verão, admirando o gigantismo do arvoredo. Por que subiram as árvores tão alto? Terreno fértil, água abundante e a competição pela luz são três das razões mais evidentes.

Ficamos com imagens de duas dessas gigantes que se recusam a caber na fotografia: à esquerda um liquidâmbar e à direita uma sequóia.

(*) verso de Eugénio de Andrade

25.8.04

Vizela em 1886

«Tem-se falado já muitas vezes das obras do parque de Vizela, e, com efeito, é um dos trabalhos de jardinagem mais importantes que ultimamente se têm empreendido no nosso país.
Muitos dos que nos lêem conhecem as Caldas de Vizela, essa encantadora aldeiazita, cheia de poesia e cercada de paisagem harmoniosa, que arrouba em doce êxtase o artista que sabe sentir, que sabe distinguir o belo, que conhece a arte em todas as suas minudências.
O local em que se procede à obra não é como outro qualquer. Ali há uma grande dificuldade, porque não se trata de simples jardinagem: trata-se duma indefinida combinação de ideias, em que é necessário respeitar sobretudo a Natureza, modificando-a, todavia, por modo que essa modificação cause uma impressão agradável, e sobretudo artística, sob o ponto puramente estético.
O Minho, chamado desde longo tempo "o jardim de Portugal", é, com efeito, pelas paisagens que oferece em todos os géneros, uma região privilegiada, uma região como não conhecemos outra.
Temos viajado alguma coisa, e nunca nos deixamos levar pelo patriotismo; mas confessamos, muito à puridade, que pouco temos visto que tanto nos encante, como é o trajecto da Trofa a Vizela. O rio Vizela, e antes disso, consorciando-se com o rio Ave, quem vai do Porto depara a cada passo, a cada minuto um quadrozinho sui generis, que só artistas que não sentem, que não têm vida, artistas que não sabem o que é o belo, não têm reproduzido. Há ali a arte nas suas manifestações mais poéticas, mais espontâneas e mais simples.
Não são as margens do Tamisa ou do Sena, quase todas artificiais, nem as margens do Reno, com os seus castelos federais, mas sim as margens de um riozito inocente, que desliza serenamente, cantando endechas pastoris que nos arroubam e nos atraem. É preciso ser poeta para compreender os seus encantos; é necessário ser artista para avaliar as suas belezas.
Ora, quem vai assim disposto, e chega ao parque de Vizela, precisa com certeza encontrar alguma coisa que lhe faça olvidar tudo quanto acaba de ver.
Que luta de gigante!...Destruir o que a Natureza criou; esmagá-la a golpes de machado, e criar uma nova Natureza! Remover terras, formar de terrenos acidentados planícies por onde os reumáticos possam passear sem esforço; em montanhas inacessíveis abrir estradas e avenidas pitorescas para onde os convalescentes possam ir aspirar ares puríssimos; transformar uma área considerável em jardim atractivo, tal foi a ideia da Companhia das Caldas de Vizela, e que os snrs. José Marques Loureiro e Jerónimo Monteiro da Costa tentaram pôr em prática.
Visitámos os trabalhos, e difícil é hoje dizer-se o que será tudo aquilo, conquanto se lhe esteja dando a última demão, porque as obras de jardinagem só se podem realmente avaliar quando as plantações tomem um certo desenvolvimento. Há a disposição das plantas, os agrupamentos, os efeitos, os golpes de vista e mil e um acessórios, que só é possível avaliar-se passados anos. É tal qual os ensaios de um drama: só quando todos os actores se apresentam vestidos a carácter, é que se pode dizer do seu merecimento.
E no parque de Vizela ainda está tudo despido: é necessário tempo, e muito tempo.
Ainda assim, afiguraram-se-nos os grupos muito bem combinados, e alguns deles prometem produzir bom efeito.
Como elogio antes de subir o pano - são precisos quatro ou seis anos - não se pode em boa fé dizer mais.
Aos que têm dirigido a obra, sabemos que não tem faltado boa vontade em acertar, e isso já não é pouco.
O snr. Marques Loureiro, pela sua parte, não a tem encarado como uma exploração comercial, e tem feito tantos sacrifícios, que já sabe que, concluída ela, não lhe fica um vintém de lucro.
Ele quer, contudo, poder um dia ir ali admirar os belos efeitos que produzem as plantas que saíram dos seus viveiros, aquelas plantas que em sua casa tão insignificante papel representavam.
O lago que se anda construindo é dos maiores que há em Portugal; mas, pelo projecto aprovado, dificilmente se poderá levar a cabo. Consiste em introduzir-lhe um braço de rio que deve alimentá-lo, tendo mais abaixo uma saída. Sucede naturalmente que a corrente e as cheias destroem tudo, e melhor seria que, por meio de comportas, se lhe conservasse sempre a água necessária para navegar, e se desistisse da saída.
São obras hidráulicas que custam muito, e que nenhuma importância têm para casos destes.
E, de resto, o rio Vizela não é navegável naquele sítio, e, por isso, não vemos que vantagem possa ter a tal saída.»

José Duarte de Oliveira, Jornal de Horticultura Prática, 1886

Ler: O Parque de Vizela 120 anos depois
.

24.8.04

O Parque de Vizela 120 anos depois




O Parque das Termas em Caldas de Vizela foi criado entre 1884 e 1886 pelo famoso horticultor portuense José Marques Loureiro, proprietário do Horto das Virtudes, e pelo jardineiro-paisagista Jerónimo Monteiro da Costa, autor dos jardins de Arca d'Água, do Carregal e de outros históricos jardins do Porto. O Parque apresenta sinais de degradação, como seja o avanço das acácias e dos eucaliptos na sua periferia, e as poluídas águas do rio Vizela não ajudam a compor o bucolismo ideal; mas as árvores que Marques Loureiro plantou atingiram um desenvolvimento luxuriante, emprestando ao local uma imponência e solenidade únicas: não conhecemos no país nenhum outro parque ou jardim com tal concentração de árvores gigantescas.

Nestas fotos vemos algumas dessas árvores: à direita em cima um tulipeiro (Liriodendron tulipifera) cujo tamanho se pode avaliar comparando com o da figura humana em primeiro plano; em baixo, também à direita, uma tília de dimensões semelhantes; e, à esquerda em baixo, uma Sequoia sempervirens (das muitas que há no Parque rivalizando em porte com as do Buçaco) eleva a sua flecha bem acima da concorrência.

Esta história é para continuar: amanhã publicaremos um texto de 1886 de José Duarte de Oliveira, redactor do Jornal de Horticultura Prática, descrevendo as obras de construção do Parque das Termas, verdadeiro mostruário desse estabelecimento ímpar da horticultura portuguesa do século XIX que foi o Horto das Virtudes.
.

23.8.04

Cipreste com laranjas

«- Isto deu-se há muito tempo, já não é da minha lembrança nem da dos mais velhos que há aí na vila. (...) Quando começou a constar que a sede do concelho vinha para cá, os de Sendim não queriam deixar nem à mão de Deus padre. Que não senhor, que não vinha. (...) Tocaram os sinos a rebate, pegaram em armas e juraram por todos os santos que Valeiros só seria vila quando o cipreste do largo desse laranjas. T' ás a ver o gozo, ó Jorginho: o cipreste dar laranjas... Como quem diz: nunca jamais em tempo algum. (...) O certo é que o decreto saiu mesmo e vão então os de Valeiros, para aporrinhar os de Sendim, no meio do estrondo dos foguetes e da banda marcial de Murça, assubiram-se ao cipreste e penduraram nele, com guitas, dois quarteirões de laranjas (...). E agora Valeiros é que é a vila (...).
Ambrósio Sardinha ria-se da picardia, saboreava-a como se nela se tivesse empenhado pessoalmente, dava palmadas gozosas nas coxas: era um valeirense dos quatro costados, orgulhoso dos feitos dos trisavós que subiram ao cipreste para suspender laranjas dos seus ramos já quebradiços da muita idade.»

A. M. Pires Cabral, A loba e o rouxinol (2004)

Cancioneiro popular -laranja #1

«Fui ao mar às laranjas
Coisa que lá não havia
Vim do mar toda molhada
Das ondas qu'o mar fazia.»

22.8.04

Jardim reservado

Alguém diz:
«Aqui antigamente houve roseiras» -
Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito de demoras.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia I (1944)

21.8.04

Palácio do Freixo



«O caso mais significativo de desdobramento dos espaços exteriores em jardins de aparato e jardim reservado encontra-se no palácio do Freixo. Junto da fachada principal virada a sul e sobre o rio Douro recorta-se, emoldurado por balaustradas dos três lados, em tabuleiro, o jardim de aparato. Para este jardim abrem-se os grandes salões e Sousa Reis [Apontamentos para a história do Porto] descreve "a par do formoso jardim que lhe fica em frente para a parte do Sul, para onde está voltada a principal fachada, se tal nome se lhe pode dar vista a riqueza de todas as outras, o tornam imponente e majestoso logo ao encará-lo (...), há outro jardim reservado e fechado, que fica a Poente, o qual pelos seus adornos muito concorre para a apreciação deste recinto"» (Helder Carita, Homem Cardoso, Tratado da grandeza dos jardins em Portugal, Quetzal 1998)

A árvore que se vê nas fotos é uma magnífica Taxodium mucronatum Afrocarpus falcatus e está justamente no jardim reservado a Poente, debruçando-se sobre o patamar inferior para a parte do Sul.



As fotos foram tiradas a 8 de Maio de 2004 durante uma visita ao Jardim do Palácio do Freixo guiada pela Arq.ª Laura Costa e organizada pela associação Campo Aberto. Tanto o jardim como o palácio estão normalmente fechados ao público.

Adenda. Agradecemos ao Eng.º João Pinho por ter corrigido a identificação desta árvore.

20.8.04

Cipreste-dos-pântanos e os novos primitivos

1) O Taxodium distichum é uma conífera invulgar, originária do Sudeste dos EUA: tem folhagem caduca (a sua folha lembra a do teixo, em latim Taxus, e daí o seu nome científico) e pode vegetar em terrenos alagados, lançando então as suas raízes umas protuberâncias (chamadas pneumatóforos) que, emergindo da água, permitem à árvore respirar; o seu nome comum é cipreste-dos-pântanos. Embora doutra espécie (T. mucronatum), pertence ao género Taxodium a mais larga árvore conhecida: está em Santa Maria del Tule, no México, e o seu tronco mede 36 metros de perímetro.

2) As coníferas têm orgãos reprodutores masculinos e femininos separados, às vezes até em plantas distintas: ao contrário das árvores ditas folhosas, não dão flor; são, na ordem evolutiva, plantas primitivas.

3) Os novos primitivos são os arquitectos que não gostam de flores: no Porto, conseguiram já bani-las dos jardins da Cordoaria, Avenida de Montevideu e Rotunda da Boavista; prometem continuar até que a cidade se esqueça de que existem flores. Agora querem erradicá-las (verbo favorito do actual executivo camarário) da Avenida dos Aliados, como declarou ontem um deles ao Comércio do Porto: «[a avenida] deverá ser limpa e trabalhada (...), sem canteiros e canteirinhos».

19.8.04

Abate de áceres platanoides na avenida dos Aliados

Um estilo de ser português

«(...) Se falei de árvores com ácida melancolia é porque me derrubaram uma das que mais amei na vida, o velho lódão que me entrava pela varanda e dava notícia das estações. O móbil foi, naturalmente, atravancar a rua com mais automóveis (...). Levei anos e anos a lamentar-me, até que, não há muito ainda, numa cerimónia em que, surpreendentemente, me fizeram cidadão honorário do Porto, disse ao Presidente da Câmara que preferia uma árvore à porta do que a medalha de ouro da cidade, com que me distinguia e honrava toda a vereação. Ele prometeu-me outro lódão e cumpriu a promessa, deus seja louvado. Agora a casa onde moro é fácil de descobrir: tem um troncozito despido que lembra um poema meu, exíguo e desamparado.»

Eugénio de Andrade, A cidade de Garrett (1996)

18.8.04

Taxodium distichum na Quinta da Aveleda

.

Fotos -Agosto 2004
«(...) completa o quadro um grupo de árvores colossais, entre as quais se destacam, pelo seu soberbo porte, dois exemplares de Taxodium distichum, alguns Abies e o mais belo exemplar, que temos visto, de Dammara moorei.»

José Marques Loureiro sobre a Quinta da Aveleda no Jornal de Horticultura Prática (1882)

17.8.04

Véspera do sol

Com o sol a trepar pelas árvores
não tardará
que a manhã corra mais limpa
e se possa beber.

Eugénio de Andrade, O peso da sombra (1982)

De cara lavada...

... é como ficam as ruas em dia de chuva. É bom assinalar esta grande vantagem da chuva para contrapor às pragas que em geral lhe rogam os veraneantes (designação que, nesta altura, só exclui os habitantes do hemisfério sul). O ar andava seco e empoeirado, o país ardia: tudo isso foi obliterado pela bendita chuva.

E há as árvores que nos acompanham os dias: quantas delas, debilitadas pela estiagem prolongada, não iam já deixando amarelecer as folhas, antecipando o Outono? Pois a chuva veio-lhes dar segundo fôlego, e algumas até reverdeceram a copa.

Depois da chuva, até os dias de sol são mais bonitos.

16.8.04

Na falésia - palmitos

.

Foto: mdlaramos 0308
Falésia entre as praias de S. Rafael e da Coelha - Albufeira

Esta palmeira, a que se chama vulgarmente palmeira anã, palmeira das vassouras ou palmito, é espécie única do seu género (Chamaerops humilis), apresentando no entanto muitas variedades, algumas de porte elevado. É a única palmeira espontânea no nosso país, podendo encontrar-se ainda no Algarve, onde no estado natural não ultrapassa ­um porte arbustivo de alguns decímetros de altura, daí o nome vulgar de palmeira anã.

A designação científica também exprime as suas características morfológicas, pois chamai em grego significa rasteira e rops, mato rasteiro; o designativo da espécie, humilis, é um termo que em latim tem o sentido próprio de baixo, pouco elevado.

Os usos tradicionais desta planta eram numerosos. Muitíssimo resistente a condições climáticas extremas, não sobrevive porém à destruição do seu habitat natural como parece já ter acontecido em França e em Malta.
.

Trabalhos para as férias

...
...passar pelo pinheiro manso a caminho da praia...
... nunca mais lá chegar por causa do rebanho e das garças acompanhantes...
...apanhar fava rica...
...cheirar novamente a falsa pimenteira e a madressilva...
... espantar-me com a variedade de oleandros ...
... fotografar as gaivotas, as aroeiras e as
palmeiras anãs nas falésias ...
...

Pinheiro-manso


A caminho da praia...
(Sesmarias-Albufeira 03)

15.8.04

Jardim não é homenagem

Deu recentemente a imprensa notícia de uma disputa entre políticos por não haver em Aveiro, até há pouco tempo, uma rua com o nome de Zeca Afonso, natural dessa cidade. Alegou-se que era imperdoável ter tardado tanto a homenagem devida a tão genial músico. Nenhum dos vereadores envolvidos, talvez confundidos por uma toponímia instável, que nem sempre nomeia quem é ilustre, se lembrou então do jardim, com o nome do músico, que embeleza o centro da cidade e cuja existência é um tributo exemplar ao talento do autor das Cantigas do Maio. Por lá os passos acautelam-se para melhor ouvir os sons da natureza que Zeca Afonso captou nos seus cantares; e o passeio descansado é acompanhado por choupos, amieiros, liquidâmbares, salgueiros, ulmeiros, magnólias, azereiros, zelkovas e até duas jovens araucárias columnaris que nesta altura estão carregadas de pinhas. Se algum andarilho ali «acelera» é porque um cachorrinho curioso o puxa pela trela.

O jardim Zeca Afonso é novo, requer cuidados urgentes (vê-se bem que os investimentos públicos em Aveiro têm outras prioridades), mas lembra a glória do poeta Zeca Afonso com o orgulho que nenhuma tabuleta de rua mais ou menos sufocada de prédios, mas sempre com trânsito que baste, alguma vez conseguirá exibir. Ora, dirão os governantes, de que vale um jardim? Ah, se às auto-estradas fossem dados nomes de gente, como seriam magníficas as nossas homenagens!

O Pinheiro do Marco


Fotografia do livro Árvores Monumentais de Portugal.
«É uma árvore muito velha com mais de 300 anos, e que serve de extrema entre três herdades, e por essa razão se denomina o Pinheiro do Marco.»

Com uma copa de 33 metros de diâmetro (em 1986) , este pinheiro, que segundo Ernesto Goes deveria «ser o maior do Baixo-Alentejo», foi o objecto de uma autêntica caça ao tesouro no verão do ano passado. Mas tinham sido tantas as paragens pelo caminho, de pinheiros em oliveiras, e de azinheiras em sobreiros, que a chegada à zona de Grândola se fez já perto do entardecer, o que não ajudou nada à descoberta.

Estradinhas secundárias, pinhais a perder de vista; pinheiros mais altos uns que os outros, mas do portentoso pinheiro do Marco, nada! As indicaçõe eram no entanto precisas: estava situado «... na extrema nascente da Herdade da Freixera, próximo da estrada de Alcácer do Sal a Grândola, a 6 Km desta vila.»
Ah! Mas isso era dantes! Agora, o maior entrave é a larga auto-estrada (mal nós imaginávamos...) que passa a um nível mais baixo e corta a meio a vasta extensão de pinhal, impossibilitanto que se procurasse no "outro lado". Finalmente, com a aproximação do lusco-fusco, e depois de termos contornado e cruzado várias vezes as herdades, adiámos a investigação para uma próxima vez.

Voltámos à estrada nacional, depois à auto-estrada, e, quando passávamos justamente na zona por onde tínhamos andado, qual não foi o nosso espanto... avistámos um enorme pinheiro, num canteiro triangular na berma da auto-estrada, no local onde há uma saída para Beja, na via contrária àquela que percorríamos. Nem queríamos acreditar! «-Olha o pinheiro! Olha o pinheiro!... é aquele, é aquele!...» Com semelhante altura (mais alto do que todos que até então avistáramos) só podia ser ele. E entretanto ficava para trás, cada vez mais para trás, pois, devido ao trânsito, foi impossível parar!

Não tenho nenhuma imagem, nem pude comprovar que se trata realmente do pinheiro do Marco referido por Ernesto Goes. (Há uma localidade chamada Pinheiro do Marco, que fica perto de Alcochete, mas não tem nada a ver com este pinheiro). Fica ao quilómetro 105 , sentido Norte-Sul ou 135, + ou -, no sentido contrário, e este ano vou lá confirmar a sua identidade, fotografá-lo e prestar as minhas homenagens. Pois, mesmo que não se trate «do maior pinheiro manso do Baixo-Alentejo», é uma senhora árvore ingloriamente condenada àquele cenário inóspito; e que, apesar de incrivelmente sobrevivente às obras da auto-estrada, causa dó.

Triste actualização-16 de Agosto de 2004
Confirma-se que o pinheiro avistado em 2003 era na verdade o grande pinheiro do Marco, mas infelizmente a árvore já não existe. Segundo informações recolhidas no local, há cerca de três meses caiu-lhe uma das pernadas e ficou em tão mau estado que teve que ser abatida.

14.8.04

Árvores Monumentais de Portugal - Livro



Um guia imprescindível!
Da autoria de Ernesto Goes e publicado pela Portucel em 1984, esta obra, já rara, indica a localização precisa de várias centenas de árvores monumentais (classificadas ou não) do território continental, com informações acerca do seu porte e morfologia.
Abrange 82 espécies dentro de 46 géneros, e alguns dos exemplares referidos já não existem ou estão completamente decrépitos. Tem sido ao longo dos anos um guia precioso e insubstituível (já nem uso o original para não o estragar mais) que me acompanha sempre que o meu périplo excede uma vintena de quilómetros.
Recomendo-o vivamente. O ideal seria uma nova edição, claro. Até porque a publicação da Direcção Geral das Florestas, já anteriormente mencionada, diz respeito apenas às árvores isoladas e maciços arbóreos classificados de interesse público, enquanto que no livro do Engenheiro Ernesto Goes estão incluídas essas e muitíssimas outras mais de porte excepcional.

Serviços mínimos

Há o Algarve, e há os que por cá ficam para garantir que a cidade não fecha, solidários com os bravos que mantêm abertos meia dúzia de restaurantes. Fiquemos então: para assegurar os serviços mínimos e por companheirismo com os outros que também ficam.

Que há ainda para ver que não se viu no resto do ano ou em anos anteriores? Muita coisa, se estivermos atentos. Por exemplo, há uma magnólia de folha caduca na Trindade, junto ao cruzamento com Fernandes Tomás, outra vez cheia de flores. Que cabeça a dela! Não sabe que só devia florir em Janeiro?

E, descontando a confusão no subsolo, o escândalo dos esgotos novos (Porto 2001) que não funcionam, a rua de Sá da Bandeira está um primor, com um esplêndido alinhamento de áceres (Acer saccharinum): as árvores têm crescido vigorosamente e o verde prateado da folhagem é muito ornamental. É vê-las agora, porque daqui a um ou dois anos vão inevitavelmente estragá-las com podas para que elas não se rocem nos prédios.

Esta variedade de áceres, originária dos Estados Unidos e do Canadá, não é muito comum em Portugal. No Porto são frequentes o Acer negundo (também oriundo da América do Norte, e de que há na rua do Campo Alegre muitos exemplares mutilados por podas), o Acer platanoides e o Acer pseudoplatanus (ambos de origem europeia, o segundo espontâneo em Portugal).

Que têm de comum estas árvores para serem incluídas no mesmo género Acer? A resposta mais óbvia é a presença em todas elas, na altura própria, das inconfundíveis sâmaras com duas asas fomando entre si um ângulo variável, mais aberto ou fechado conforme a espécie.

13.8.04

Palavra-flor

Dizem que as flores são todas
Palavras que a terra diz.
Não me falas: incomodas;
Falas: sou menos feliz.

Fernando Pessoa, Quadras, Assírio & Alvim (2002)

Romã - fruto

.

Foto: manueladlramos - Algarve 2003
Desabrochando como uma flor no pino do Verão

12.8.04

Antes dos nomes

A flor tem linguagem de que a sua semente não fala
A raiz não parece dar aquele fruto
Não parece que a flor e a semente sejam da mesma linguagem

Retirada a linguagem
a semente é igual a flor
a flor igual a fruto
fruto igual a semente
destino igual a devir.
E era o que se pedia: igual.

Almada Negreiros, Obras Completas 4 - Poesia, Editorial Estampa (1971)

Obras de Agosto conforme o "Almanaque do Horticultor"

«Arvoredo
Convem aproveitar a segunda ascensão da seiva, que tem lugar neste mês para enxertar os botões de fruto.
Os resultados obtidos por este meio de enxerto são de tal ordem, que será mui conveniente não os desprezar. Tem por fim: 1º obrigar a dar frutos as árvores rebeldes; 2º duplicar quasi sempre os produtos que se obteriam sobre a árvore mãe; 3º reunir na mesma árvore uma colecção dos mais belos frutos. (...)
Colher os frutos tardios da estação - damascos, pêssegos e ameixas. Estender palha por baixo dos pessegueiros para se não perderem os pêssegos caídos. No fim de Agosto devem quebrar-se os rebentões das cerejeiras e macieiras. Semear, logo depois que os frutos forem comidos, os caroços de cereja, pêssegos, ameixas e damascos. (...)
Neste mês podem transplantar-se com vantagem as árvores resinosas.»

in Lunário e Prognóstico Perpétuo para todos os Reinos e Províncias por Jenonymo Cortez Valenciano. Porto : Lello & Irmão, 1980 (obra original da primeira metade do séc. XVIII) > Obras de Julho

--------------
Lembrete:
- Semear damascos, pêssegos e ameixas (sobretudo caranguejeiras)
- Juntar mais dois termos à
lista de epítetos do Dicionário da Academia: "árvore rebelde" e "árvore mãe" .
- Transplantar pinheirinho de Natal.

- Comprar vasos e terra...
.

11.8.04

Green Man 1


Foto: manueladlramos 0408 - "Green Man" na Quinta da Aveleda (Penafiel)

«The Green Man signifies irrepressible life. Once he has come into your awareness, you will find him speaking to you wherever you go.»
in Green Man: The Archetype of our Oneness with the Earth, William Anderson. (Harper & Collins, 1990) > >
.

Arborescer

«Recordo o senhor Leitão, amigo e defensor da Árvore, publicista que opuscularmente se produzia. O senhor Leitão postara-se ao lado da Árvore tal como alinhara com o Bem. Não há aqui pardal de troça. (...) Quando o conheci pessoalmente (primeiro, aconselhara-me com ele por correspondência sobre a forma de organizar um herbário) tive a impressão de que aquele homem já havia sido árvore, e pensei que, tal como sucede com o homem e o seu cão, Leitão incorporara à sua própria estrutura certos atributos arbóreos. Se assim era, devia existir algures, pela regra da interacção, uma árvore parecida com o homem Leitão. Afeiçoei-me tanto a essa ideia que, quando nos encontrávamos, lhe perguntava sempre:
- Então como vai, como está a sua Árvore?
Leitão sacudia os ramos e, a despassarar-se, ria.»

Alexandre O'Neill, Uma coisa em forma de assim, Editorial Presença (1985)

10.8.04

Vegetação de infância

«Onde está a antiga nogueira cujas raízes
entravam pela água? Sei que os seus ramos se partiam
de cada vez que o ribeiro enchia; que as folhas
se espalhavam pelo tanque, antes de se afundarem,
formando um lodo em que os pés escorregavam;
que o barulho das rãs ecoava na sua copa, enquanto
a noite se agitava com o vento frio que trazia
o outono. Mas de nada me serve este conhecimento,
agora que nada me diz se a nogueira existe, ainda,
nessa margem onde me sentei, ouvindo as rãs
e o vento, sem que me apercebesse do trabalho do tempo
no fundo das raízes. Ou antes: o que ele me dá é
uma inquietação áspera como o sabor das nozes
que se colhiam dessa árvore. Atiro-as para o armazém
da memória onde as sombras se acumulam; e
entro nessa árvore, como se fosse uma casa,
ou como se as suas ramagens se abrissem
num bater de asas impotentes para o voo.»

Nuno Júdice, Teoria Geral do Sentimento
(Lisboa: Quetzal, 1999)

Cancioneiro popular -raízes

«Soidades são raízes
Atiram grande lonjura;
Se é verdade o que me dizes,
Meu coração se aventura.»

9.8.04

Provérbio -4

«O corpo não deita raízes.»

Faia - raiz

8.8.04

Raízes

Quem me dera ter raízes,
que me prendessem ao chão.
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.

Que me deixassem crescer
silencioso e erecto,
como um pinheiro de riga,
uma faia ou um abeto.

Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lodão, o aloendro,
o ácer e o aloés.

Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.

Jorge Sousa Braga, Herbário (Assírio & Alvim, 1999)

Árvore - Vida humana

.
«A
árvore é figura do homem e próprio significado seu: porque nela, diz Santo Ambrósio, que há viver e morrer, crescer e decrescer, como no homem. Nela, diz Plínio, que há mocidade e velhice: doenças gerais e particulares, como no homem. Dela, diz Colunela, que padece fome e sede, como o homem e que tanto lhe faz mal a sobejidão do alimento, como a falta dele. Dela, diz Santo Agostinho, que vive enquanto reverdece e morre quando seca e murcha. Plutarco por encarecimento diz que as árvores têm fraqueza e mostram que sentem dores quando lhes quebram ou cortam os ramos. O sol as seca, frios as queimam, névoas lhes fazem mal, quenturas as abrasam, águas as apodrecem, ventos as combatem, tempestades as destroem e enfim muitas coisas lhes são adversas e outras favoráveis, como sucede aos homens. Também se diz das árvores que após admiráveis concebimentos de cada ano, têm fecundos partos com os quais aparecem quando descobrem flores, e então tem cuidado de criar os filhos que dão os frutos maduros e sazonados. As árvores são amigas entre si e folgam com a companhia das outras. Teófrasto diz que assim como o exterior do homem mostra os poucos ou muitos anos que têm, assim as árvores nas aparências mostram sua idade.
Por estas e outras razões têm as árvores muita simpatia e semelhança com os homens e metaforicamente são eles significados nelas. Assim diz São Gregório que o homem em sua criação é árvore que cresce, e na tentação folha que se move, e na fraqueza flor que cai. É o homem árvore e por isso em grego se chama Antropos que quer dizer árvore que tem as raízes para cima e os ramos para baixo. (...) »
in "Consideração primeira", Tratado das Significações das Plantas, Flores, e Frutos que se referem na Sagrada Escritura, Frei Isidoro de Barreira (Lisboa, 1622) -Grafia actualizada

7.8.04

Árvore feliz

«Deparou-se-nos há dias (...) uma árvore feliz. Foi um acontecimento! Árvore feliz é coisa rara como homem feliz. (...) Ficaríamos a contemplá-la até ao fim do mundo se ninguém nos dissesse: vamos, que são horas.»

João de Araújo Correia, Pátria Pequena (1961)

6.8.04


Falso-fruto do teixo
O óvulo fecundado das flores femininas transforma-se numa única semente cujo invólucro - de início verde mas escarlate e polposo na maturidade - se chama arilo. É a única parte da árvore que não é venenosa.

Árvores monumentais - Teixos (Porto)

.

Foto: mdlramos 0408
Os teixos da Quinta dos Carvalhos do Monte
Em primeiro plano o teixo com o tronco mais grosso (3,5 m de PAP)
.


Teixo com araucária por trás
Com os seus cerca de 12 metros, também em altura esta árvore é recordista.

5.8.04

Os teixos da Quinta dos Carvalhos do Monte

A quinta a que se refere o título, e que tinha esse nome já no século XVII, há muito que não existe, mas os teixos ainda lá estão. Os terrenos da quinta, que no final do séc. XVIII e primeira metade do XIX pertencia à família Ribeiro Braga (os mesmos Bragas que deram o nome à rua), foram sendo progressivamente ocupados por arruamentos (Rua do Mirante, Praça do Coronel Pacheco, Rua dos Bragas) e estabelecimentos de ensino (Liceu Carolina Michäelis, Colégio Almeida Garrett e Faculdade de Engenharia).

Na Praça Coronel Pacheco há dois portões gémeos, um de cada lado da embocadura da Rua do Mirante. O portão da esquerda dá acesso ao antigo Colégio Almeida Garrett, que fechou em 1975 e passou então a ser um anexo da FEUP; actualmente está lá a Academia Contemporânea do Espectáculo. O portão da direita abre para as traseiras da antiga FEUP (actual Faculdade de Direito), onde há um edifício semelhante ao do Colégio Almeida Garrett e que, construído na década de 1870, albergou já três escolas distintas: o Colégio Inglês do Sagrado Coração de Maria (de 1873 a 1910), o Liceu Carolina Michäelis (de 1914 a 1951, ano em que o Liceu foi transferido para a Ramada Alta) e o Departamento de Engenharia de Minas da FEUP (de 1962 até à mudança da FEUP para a Asprela, em 2000); actualmente o edifício está desocupado.

No jardim do edifício há uma araucária-de-Norfolk (Araucaria heterophylla), possivelmente centenária, que se avista a grande distância, erguendo-se acima de todas as construções vizinhas. Pensámos em fotografá-la quando coligimos material para o livro À sombra de árvores com história, mas a ocasião acabou por não se proporcionar, e em qualquer caso já tínhamos muitas fotos de araucárias no Porto. Acabámos por ir lá esta semana, e as outras árvores que lá encontrámos roubaram todo o protagonismo à araucária.

O que vimos foram dois teixos (Taxus baccata) que, pelas suas dimensões, se guindam ao pódio das maiores do país: um deles tem um tronco com 3,5 metros de perímetro, o que faz dele vice-campeão nacional, logo a seguir ao teixo de Bragança (que tem 4,6 m); o outro, mais alto mas mais esguio, atinge os 2,9 m de perímetro, o que lhe dá um honroso 4.º lugar.

Árvores com tais dimensões têm, no mínimo, de 350 a 400 anos (veja nestes dois endereços como estimar a idade destas árvores). Os teixos podem viver milhares de anos, e por isso estes dois são ainda relativamente jovens; mas, num país arboricida como o nosso, é um milagre que os tenham deixado viver tanto tempo: são mais velhos do que quase todos os edifícios e monumentos que hoje compõem a fisionomia urbana do Porto (incluindo, obviamente, a Torre dos Clérigos).

Das muitas gerações de estudantes, professores e funcionários que passaram pelo edifício, terá alguém atentado seriamente nessas árvores notabilíssimas? Se o fez, não parece ter-lhes dedicado qualquer escrito. Mesmo que a Universidade do Porto não saiba reconhecer o valor único destas árvores, esperemos que tenha a sensatez de as poupar da próxima vez que o velho edifício entrar em obras.

[Bibliografia: Nuno Daupiás (1957) e Horácio Marçal (1962), ambos na revista O Tripeiro]

«The true meaning of life is to plant trees, under whose shade you do not expect to sit.» -Nelson Henderson

No problem with that! Mais complicado é quando as árvores, debaixo de cuja sombra era suposto podermo-nos sentar, desaparecem...

4.8.04

Árvores classificadas - Teixos


Teixo com 700 anos - Bragança- fotografia © DGF *
Teixos (Taxus bacata L.) classificados de "Interese Público" :

  • Teixo de cerca de 700 anos classificado em 1974 - Lugar da Tranguinha (em frente ao Albergue Distrital de Bragança), freguesia de Stª Maria, Bragança.
  • Teixo classificado em 2000 -Quinta de S. João., freguesia de Teixoso, Covilhã
  • Teixo multissecular, classificado em 1953- Solar de Stª Rita, Seia
  • 2 teixos classificados em 1968 e em 2000-Jardim Braancamp Freire, Pena, Lisboa.
  • Teixo de cerca 200 anos -Quinta do Senhor da Serra, freguesia de Belas, Sintra.
    • (Fonte: *Árvores isoladas, maciços e alamedas de Interesse Público, 1995 e 2003-Instituto Florestal; obras que podem ser pedidas na Biblioteca da Direcção Geral dos Recursos Florestais.)

      3.8.04

      Provérbio-3

      «Quem vê as árvores na água vê os peixes no céu.»

      2.8.04

      Pólen de fantasia

      « Sabem - dizia o poeta [Guerra Junqueiro] uma noite - sabem que cismo na forma de transformar toda a agricultura. (...) Um castanheiro dura séculos, tem uma vida estranha. É mais que uma árvore - é uma força. Vive nos montes. As suas raízes alastram-se vorazes, os seus ramos tocam o céu. Calcule que injecto pólen de castanheiro numa vide... Obtenho logo uvas como as da Terra da Promissão. De um pé de melancia tiro um fruto capaz de carregar um carro. Três maçãs metem ao fundo uma nau.»
      E eis, por uma negra noite de invernia, a natureza transfigurada, pelo poder da fantasia e do sonho. Flores seriam árvores como parassóis púrpuras abrindo no céu; pinheiros transformar-se-iam em montanhas verdes; monstros ergueriam as suas corolas de veludo, umas negras, raiadas outras, sangrentas, e na verdade não passariam de simples, humildes flores bravias. Uma pétala desabaria com o fragor de penedos e multidões sequiosas viriam dessedentar-se neste fruto colossal: - o morango. Eh, eh, rapazes! Bom dia aquele em que uma camélia branca desfolhando-se juncasse de corpos lácteos os prados verdes e em que eu pudesse armar a minha barraca de campanha no píncaro de um girassol - esse cedro!...

      Raul Brandão, Almanaque do «Dia» para 1904

      Teixos em Serralves


      Conjunto arbóreo nos jardins de Serralves (Porto) com teixos (Taxus baccata) ao centro e auracária-de- Norfolk (Araucaria heterophylla) ao fundo.

      1.8.04

      Deste mundo e do outro

      Edward Lear (1812-1888) foi um desenhador e humorista inglês, precursor da literatura de nonsense e, com Lewis Carroll, o maior expoente do género. Passou os últimos anos da sua vida em Itália (San Remo) na companhia do seu gato, Old Floss, a quem dedicou desenhos e versos. Começou por praticar desenho botânico e zoológico, mas teve que abandonar essa carreira por insuficiência de visão. Alguma dessa formação transparece nos seus desenhos e rimas, como neste limerick, parte de um alfabeto humorístico-didáctico:
      Y was a Yew,
      Which flourished and grew,
      By a quiet abode
      Near the side of a road!
      y!
      Dark little yew!
      O teixo (yew) é uma árvore deste mundo, e até autóctone no nosso país (dela advém o antropónimo Teixeira), mas a maior glória de Lear foi ter imaginado uma botânica que, ao contrário do plátano lunar, não é deste mundo, embora combine elementos facilmente reconhecíveis. E o latinório que acompanha esses absurdos desenhos é irresistível: Bottlephorkia spoonifolia, Manypeeplia upsidownia, Tigerlillia terribilis.
      E isto, que é a brincar, faz pensar na presunção humana de tudo nomear. Hoje uma árvore contemporânea dos dinossauros chama-se, por exemplo, Ginkgo biloba. No ciclo de existência dessa espécie, que poderá ainda sobreviver à própria humanidade (como sobreviveu a Hiroshima), os breves anos em que terá tido um nome científico são uma insignificância.

      O pássaro da imaginação


      Numa manhã cinzenta- que em alguns sítios deve estar negra como um tição :(
      - fica o convite para voar no mundo maravilhoso de Jimmy Liao, artista chinês mais conhecido por Jimmy Spa.