31.10.06

Filosofia da janela fechada

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela
.


Alberto Caeiro (1925)


Billbergia euphemiae

30.10.06

Do outro lado

One gift the fairies gave me (three
They commonly bestowed of yore):
The love of books, the golden key
That opens the enchanted door.

Andrew Lang (1844-1912) in Ballade of the Bookworm

Vivemos hoje num mundo de portas fechadas; portas cada vez mais fortes, com miolo de aço, fechaduras de quatro voltas e sete trancas, cordão de segurança e óculo para avaliar instrusos. O tema da porta misteriosa sempre foi terreno literário fértil, mas as portas fechadas de hoje não têm qualquer mistério: escondem medrosos como nós.

E que faz a imaginação quando encontra uma abertura prosaica, sem porta e sem resguardo, que não leva a nenhum lugar de encanto? Isso é o que se vê à luz crua do dia, mas quem sabe o que aparece mais tarde, quando nos fechamos em casa? Há lugares mágicos que já não são para o nosso tempo. Uma Alice moderna nunca seguiria o Coelho Branco pela toca abaixo, pois os pais, mesmo deixando-a brincar à beira-rio com a irmã, nem por um instante a perderiam de vista.



Quem, a hora propícia, se encontrar na margem direita do Tâmega, em Amarante, com a única banda sonora do rio e dos bichos nocturnos, não deixe de seguir a criatura furtiva que desliza para dentro do plátano. Depois conte-nos o que viu.

28.10.06

Tibães no Dias com árvores

"o mais espectacular e belo pinheiro bravo do País"

A rever amanhã na visita a Tibães!

. Pinus pinaster monumental em Tibães- Novembro 2003

« Na Quinta do Convento de Tibães, próximo de Braga, há o mais espectacular e belo pinheiro bravo do País, e talvez o mais volumoso, em que o tronco tem 3,95 m. de PAP e está limpo de ramos até 22 m. de altura. Esta árvore tem no total a altura de 32 m. e uma copa bastante ampla.»
Ernesto Goes, Árvores Monumentais de Portugal (Portucel,1984), p. 99

Nota: a mancha branca que sobressai na base do lado esquerdo do tronco corresponde a uma pessoa.Ver foto de dois cedros monumentais e tília ao pé do
lago .

Adenda (29-10-06): Medimos hoje -o melhor que pudemos, devido ao declive do terreno, e o valor que obtivemos foi 4, 10 m. de perímetro do tronco à altura do peito (PAP); ou seja, em duas dezenas de anos o pinheiro terá engrossado cerca de 15 cm..
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27.10.06

Planta-zebra


Aphelandra squarrosa
aphelandra - do grego apheles, simples, e andros, estame

Numa inusitada comunhão dos reinos, esta herbácea brasileira, que em ambiente natural pode atingir 2 metros de altura, tem folhagem com nervuras bem assinaladas a branco como as listras das zebras africanas. As flores são tubulares, labiadas, amarelas, pequeninas e duram pouco; mas as brácteas formam uma espiga erecta que se mantém viçosa por várias semanas. Da família Acanthaceae, como a Acanthus mollis, a Pachystachys lutea, a Justicia brandegeana ou a Justicia carnea, recebeu o epíteto específico do latim squarrosus, áspero, possivelmente em alusão à textura das folhas.

A variedade louisae, de menor porte, tem folhas verde-esmeralda com veios amarelos e espiga dourada. O nome homenageia Louis van Houtte (1810-1876), naturalista belga cujo trabalho lembra o de Marques Loureiro, o jardineiro do Horto das Virtudes e proprietário do Jornal de Horticultura Prática (1872-1892). Louis van Houtte criou o Horto van Houtteano, em Ghent, um dos maiores e mais bem sucedidos do seu tempo na Europa (em 1870 tinha uma área de cerca de 14 hectares e 50 estufas), que começou a sua actividade com camélias. Vieram depois os gerânios, as 400 variedades de azáleas, as 1700 de rosas, os rododendros, as dálias e, mais tarde, coníferas, cactos, palmeiras, samambaias e ananases. A primeira Victoria amazonica cultivada na Europa nasceu ali em estufa concebida especialmente para ela. A propósito de uma visita do rei belga ao horto, disse-se em 1840: «O lugar é tão vasto que precisamos de mapa para o conhecer.» L. van Houtte foi também fundador e editor do jornal mensal de horticultura Flore des serres et des Jardins de l'Europe, tendo-se publicado 23 volumes de 1845 a 1883 (alguns póstumos) com cerca de 2000 reproduções parcialmente coloridas à mão pelos cromolitógrafos belgas Severeyns, Stroobant e De Pannemaker.

Louis van Houtte esteve em Cabo Verde em 1834 e de seguida no Brasil até 1836, em expedição dedicada, a pedido do rei, à colecção de orquídeas e cactos. A descrição detalhada das novidades recolhidas nesta viagem começou em 1847 no seu jornal de horticultura e teve um último capítulo em 1875 com um estudo sobre a Araucaria angustifolia.

26.10.06

Venha visitar a minha casa



Por amável convite do Prof. Mario Tomé, do Departamento de Botânica da Universidade de Coimbra, visitaremos a mata do Jardim Botânico de Coimbra na tarde do dia 1 de Novembro (quarta-feira, feriado). O Prof. Jorge Paiva prontificou-se a acompanhar-nos, o que muito nos honra. O convite é extensível aos leitores deste blogue que se inscrevam pelo endereço dias-com-arvores(at)sapo.pt até terça-feira (31 de Outubro), mas a participação é limitada a 30 pessoas - por isso não perca tempo.

Esta é uma oportunidade muito especial, não só por sermos guiados pelo Prof. Jorge Paiva, mas também porque habitualmente a casa do esquilo está fechada ao público.

25.10.06

Nos Jornais- Campanha 50 espaços verdes

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População do Porto vai eleger espaços verdes em risco
«Campanha visa pressionar poder político a preservar os espaços ameaçados
"50 espaços verdes em perigo - 50 espaços verdes a preservar". A associação ambientalista Campo Aberto quer pôr a população da Área Metropolitana do Porto (AMP) a discutir que espaços verdes podem ser preservados nos diferentes concelhos em que residem. Por isso, lança esta noite um concurso que visa eleger 50 espaços verdes que, encontrando-se em risco, mereçam ser preservados.
A campanha vai ser apresentada esta noite*, no Departamento de Ciência de Computadores da Faculdade de Ciências, no Campo Alegre, numa sessão com direito a duas palestras:
O Verde no Grande Porto: o que ainda merece ser salvo, por Paulo Santos, do Departamento de Zoologia e Antropologia da Faculdade de Ciências,
e A Importância das Estruturas Ecológicas em Meio Urbano, pela arquitecta paisagista Teresa Andresen. (...)»
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Mapa Google
Descarregar Panfleto (campoaberto-50espacosverdes.pdf) 862.84 KB
*Hoje pelas 21:15h -anfiteatro 2 do Departamento de Ciência de Computadores da Faculdade de Ciências (antigo edifício da Faculdade de Psicologia da UP-situado nos jardins da Casa Burmester)
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24.10.06

Hai-Kai

Nada tem nexo.
Tudo é apenas
um reflexo.

Millôr Fernandes, Hai-Kais (L&PM, 1997)


Pinheiro-manso em Serralves

23.10.06

Fruta da época


Araçá (Psidium cattleianum) em Angra do Heroísmo

Nunca pude comer araçás nos restaurantes de Angra, embora a árvore por lá se encontre em todos os quintais e jardins, e a fruta amadureça logo no início de Outubro. Mas, mesmo numa ilha perdida no Atlântico, fruta da época é expressão que perdeu sentido: a fruta, desembarcada de todos os pontos do mundo, não tem época; e quanto de mais longe vier mais fina ela é. Afinal, ilha que saiba como bem receber não vai servir ao turista a fruta plebeia dos seus quintais; quando muito admite à mesa o ananás de S. Miguel, e isso é já uma grande concessão - pois terceirenses e micaelenses, rivalizando pela hegemonia regional, não são amigos do peito.

É uma pena que esta produção local seja desvalorizada. As ilhas atlânticas são paraísos tropicais de clima temperado: os termómetros nunca sobem muito alto (e por isso os autóctones se vestem com decoro europeu), mas também pouco descem. Plantas que no Continente não sobreviveriam à primeira geada crescem lá tranquilamente, desconhecendo o que é o frio. Cultivam-se anonas (Annona squamosa), bananas e araçás - mas, tirando porventura no mercado de Angra (onde por lapso não fui), nada disso se vende nas lojas ou se exibe aos visitantes.

O araçá (Psidium cattleianum) é uma pequena árvore brasileira aparentada com a goiabeira (Psidium guajava). Os frutos, de 3 a 4 cm de comprimento, têm dezenas de pequenas sementes embutidas na polpa branca; dependendo da variedade, são amarelos ou vermelhos, sendo estes últimos em regra os mais doces. No Brasil, o nome comum araçá também se aplica a outras árvores do género Psidium; daí que lá se usem, para diferenciar esta nossa árvore, nomes compostos como araçá-doce, araçá-de-comer, araçá-amarelo e araçá-vermelho. Há ainda o araçá-azul, mas só o que Caetano Veloso cantou; ou, se existir fora da canção, não é fruto da mesma árvore.

21.10.06

A não perder

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O último número da National Geographic (Outubro)
Destaque: Pulmões Urbanos-Espaços para a alma
«Paris demonstrou ao mundo que não é preciso muito espaço para construir um parque urbano: basta imaginação, alguns metros quadrados livres na floresta de betão e vontade política. A cidade-Luz é o melhor exemplo da tendência urbana contemporânea no sentido de recuperação do verde entre as manchas de cinzento das cidades industriais. » por Jennifer Ackerman (Ler versão original )

Exemplar também: o site oficial dos Parques e Jardins da "capital mais arborizada da Europa".
Paris verde no Dias com árvores:
"L'échappée..."; Seduzida e deslumbrada ; Pelouse au repos ; "Humains au repos" ; Jardins do Luxemburgo- fim de tarde; A Fonte de Médicis ; "Aux Champs Élysées..." ; Conservação da Fauna na Cidade .
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20.10.06

"Dias sem árvores"

Era uma árvore


Jacarandá do Parque de S. Roque, abatido em 2006

Era uma árvore no passeio
e fosse tempo claro ou feio,
havia uma paz de agasalho
dependurada em cada galho.

E foi vivendo. Viver gasta
músculo e flama de ginasta,
quanto mais uma arvorezinha
meio garota-de-sombrinha.


Carlos Drummond de Andrade, Viola de Bolso

19.10.06

O abandono do Campo 24 de Agosto





Não podendo competir com Lisboa na profusão de jacarandás floridos, o Porto optou a dada altura pela qualidade: o jacarandá do largo do Viriato está numa categoria só dele, como é unanimemente reconhecido; e, no Campo 24 de Agosto, havia três outros que ocupavam ex aequo o segundo lugar do pódio. Até que veio o ano 2000 e com ele o arranque das obras da Metro do Porto: o Campo 24 de Agosto, tal como o Jardim do Marquês um pouco mais tarde, foi esventrado e convertido em estaleiro. Um dos jacarandás sucumbiu aos maus tratos; dos dois que sobraram no delapidado jardim, nenhum conserva hoje o vigor e a beleza de antes. (Para completar a necrologia da espécie, diga-se que o jacarandá de S. Roque também já não existe.) É também por desdenhar os seus jardins e as suas árvores que o Porto vai entristecendo - e disso a capital não tem culpa.

Após mais de quatro anos de obras, a estação de metro do Campo 24 de Agosto foi inaugurada em Junho de 2004, em conjunto com o troço Trindade-Estádio do Dragão: estava-se, é bom de ver, na véspera do Euro 2004. Completadas as obras e desmontado o estaleiro, era chegada a altura de cuidar do jardim. A sua recuperação nunca poderia ser total, pois o respiradouro circular tinha-lhe comido gorda fatia. (A propósito: é só impressão minha ou o metro no Porto tem mesmo os mais descomunais respiradouros à superfície de todos os sistemas de metro conhecidos? A bem da segurança, claro, pois os outros é que devem estar equivocados.) Entretanto mais dois anos se passaram, e no jardim nada aconteceu; mas em volta dele fizeram-se arranjos viários, assinados pelo intocável arquitecto do costume, com erros de palmatória no que à vegetação diz respeito: camélias plantadas em local ventoso e com muito sol (morreram quase todas pouco tempo depois); e o asfaltamento de um separador central para peões, asfixiando a magnólia que lá existia.

Soube-se, por notícia publicada no JN em 22 Maio de 2006, depois confirmada de viva voz pelo Vereador do Ambiente da Câmara do Porto, que os serviços camarários tinham elaborado um projecto de recuperação do Campo 24 de Agosto, a ser executado, num prazo curto, pela Metro do Porto. Era uma boa notícia: confrontando a recuperação do Jardim do Carregal com a do Jardim do Marquês, não pode haver dúvidas de que quem sabe mesmo como (re)fazer um jardim são os anónimos projectistas da Câmara e não o adulado arquitecto da Metro. Cinco meses depois nada mais se ouviu, e o jardim continua no estado de abandono que as fotos documentam. Até quando?

18.10.06

A Minhoca

Um torrão de barro!
Eu vi um torrão de barro
Fresco, na enxada, e uma minhoca!
Aquele torrão cheiroso
Era a toca!

Eu vi bichas da terra,
Uma raiz ao sol,
Vi ervas verdes
E um osso.

E fiquei tão comovido,
Tão agradecido,
Que quis dizer isso a alguém,
Mas não sei a quem
Nem posso.
Eu vi a oliveira de bronze e de prata
Cheia de folhas e de pios,
E pelo vento soube dos rios.

Mas nem pinheiros nem fuminhos
De casais, semeaduras, cigarras,
Nem este pouco de poesia que me toca
E que do Mundo me desliga
Valem a pobre minhoca
Que se mexia para eu ver,
Só com metade da barriga.

Vitorino Nemésio ( in NEM TODA A NOITE A VIDA , 1952)
post
dedicado;-)

17.10.06

Campanha - 50 espaços verdes

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LANÇAMENTO DA CAMPANHA
" 50 espaços verdes em perigo -50 espaços verdes a preservar"
no próximo dia 25 de Outubro, quarta-feira, pelas 21:15h
anfiteatro 2 do Departamento de Ciência de Computadores da Faculdade de Ciências
( antigo edifício da Faculdade de Psicologia da UP-situado nos jardins da Casa Burmester)

«Ajude-nos a encontrar e a proteger 50 principais espaços verdes da Área Metropolitana do Porto! Se conhece algum que esteja em perigo diga-nos!

Objectivos
A Área Metropolitana do Porto é um espaço densamente povoado e cada vez mais urbanizado. A região, outrora rica em quintas e campos agrícolas que formavam um mosaico diversificado de paisagens de grande beleza, tem vindo a perder esses espaços a um ritmo acelerado. A cultura do cimento tem sido, de longe, a mais forte. Os espaços verdes que ainda subsistem podem ser perdidos a curto prazo se não se tomarem medidas. É preciso agir, e depressa!
O desenvolvimento não precisa de ser depredador da paisagem. A cidade só é apreciada quando edifícios e áreas verdes se conjugam de forma harmoniosa. O crescimento da cidade não deve ser feito sacrificando os seus locais mais emblemáticos. São estes espaços que conferem às cidades um espírito próprio e que permitem aos seus habitantes identificarem-se com elas. »
(continuar a ler)

Flores de Outono



A anémona-do-Japão está agora a estrelar, enfeitando inesperadamente muitos canteiros de jardins da cidade. Com folhas enormes e de margens lobadas na base da planta, o pé alto da flor é enfeitado a meio por um tufo de outras folhas minúsculas. As flores de cores suaves (amarelas, azuladas, cor-de-rosa, roxas ou brancas) não têm pétalas, mas os numerosos estames dispõem-se numa circunferência vistosa que rodeia uma bolinha verde, num arranjo que lembra um calhau roliço caindo de chapão na água.

A Anemone hupehensis, da família Ranunculaceae, é endémica na China e no Japão. A maioria das cerca de 140 espécies deste género tem componentes venenosas com uso farmacêutico em coagulantes.

16.10.06

Faia-das-ilhas


Myrica faya (Monte Brasil, Angra do Heroísmo)

A Myrica faya, conhecida como faia-das-ilhas ou samouco, é uma das espécies características da floresta laurissilva das ilhas atlânticas. Isoladas no meio do oceano, essas manchas de floresta perenifólia, por terem escapado à glaciação que atingiu as grandes massas continentais, são uma relíquia viva e única da era terciária. Mas, em contraste com o que sucede na Madeira, já quase nada sobra dessa floresta nos Açores. Uma das poucas espécies nativas que resistem nessas ilhas é precisamente a Myrica faya: vêmo-la, por exemplo, no Monte Brasil, sustentando acesa disputa territorial com as exóticas Pittosporum undulatum (falso-incenso), Populus alba (álamo) e Cryptomeria japonica. Emigrada por mão portuguesa para o Hawaii no final do século XIX, a Myrica faya confirmou a sua vocação guerreira, tendo-se aí tornado uma das piores espécies invasoras.

A faia-das-ilhas também se naturalizou em certas matas do centro e sul de Portugal - de tal modo que há dúvidas (como regista o livro Árvores de Portugal e da Europa, ed. Fapas) sobre se ela é ou não igualmente nativa do continente. O mais provável é que não seja, pois os nossos navegadores desconheciam esta pequena árvore (altura até 8 metros) quando com ela depararam nas ilhas. Chamaram-lhe faia, nada lhes importando que ela pouco se parecesse com a magnífica árvore que já tinha esse nome; e por isso uma das ilhas a que aportaram ficou sendo o Faial. (Numa inversão cómica, um dos fiáveis sítios da Internet que fala da árvore explica que o epíteto faya se deve à sua presença na ilha do Faial: é como dizer que o pinheiro foi assim baptizado por ter sido primeiramente avistado num pinhal; mas quem escreveu tal disparate tem a desculpa de não saber português.)

O género Myrica tem uma distribuição geográfica curiosamente dispersa: além da insular M. faya, conta com 7 espécies norte-americanas (uma delas, M. gale, presente também na Europa e na Ásia), outras 7 na África do Sul, e ainda duas espécies na Nova Caledónia e no Japão. A maioria dessas espécies, ao contrário da M. faya, prefere habitats húmidos e mesmo pantanosos (como a M. gale, chamada bog myrtle nos EUA).

14.10.06

O campo na cidade

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Ramalde rural - os últimos lavradores.
Corre um brando Outubro. Na horta, arrancadas as canas que suportaram o feijão, foi dada a vez às pencas que crescem viçosas estando já boas para serem cortadas: trabalho de que se encarrega a incansável srª M. Numa pequena fogueira, o sr. L. queima o que não serviu para o composto: vimes e restos de madeiras. Homem espadaúdo, ninguém adivinha que já conta oitenta anos. Doem-lhe um pouco as costas e o que lhe custa mais é "estar quieto".
Perguntou-me se me lembrava das fotografias que lhes tirei estavam eles a sachar o milho, ali onde agora construiram o Pingo Doce. Claro que sim! Foi quase há vinte anos e nessa altura eu fazia questão de pagar pelas couves que me vendiam, pelo menos o que gastava num café. Pediam sempre tão pouco por molhos tão grandes!
E então os netos, perguntei. Como estão? A que se formou em psicologia já trabalha e a outra encontra-se a tirar o doutoramento numa especialidade que não soube dizer. Se os bisnetos alguma vez quiserem cultivar (ou mandar cultivar) o que quer que seja, aqui em Ramalde não será decerto. Eu também gostava de cá não me encontrar quando na horta que vejo da minha janela construirem o prédio que irá tapar o sol.
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Apelo!

Cão à procura de dono/a

«I said you pick the best seed

of the tallest tree in the forest, and plant it in a flower pot, and it will grow into a tiny tree. Is there anything wrong with the seed? Nothing is wrong with the seed. It's the best seed. Then why is it tiny?
Because you planted it in a flower pot. You didn't allow it to grow in the real soil. The poor people are the bonsai people. Society has not allowed them the real soil. If you allow them the real soil, real opportunities, they will grow as tall as everybody else. (aqui) »

Muhammad Yunus, fundador do Grameen Bank - Prémio Nobel da Paz

13.10.06

Fogo eterno

Conta a lenda que Prometeu, deus grego guardião do fogo, o terá roubado a Zeus - que amuado connosco o escondera - para o doar aos não divinos. Ousadia devidamente castigada com o envio imediato de Pandora, que não hesitou em abrir entre nós a inesgotável caixa de reveses e infortúnios. A Cuphea ignea, herbácea de floração abundante, que floresce todo o ano e cujas flores lembram cigarros acesos, pode bem servir como lembrança da dádiva fértil de Prometeu.


Cuphea ignea

De origem mexicana, tem flores solitárias, axilares, sem pétalas, com um cálice tubular vermelho-alaranjado que termina num anel cinza - e parece um graveto de ponta incandescente. Quando destacada e invertida, cada flor assemelha-se à figura de um santo de túnica, dai a designação comum santantoninho.

Da família Lythraceae, que inclui as romãzeiras e as lagerstroemias, o género Cuphea abriga cerca de 260 espécies da América tropical. Em zonas onde as palmeiras do dendê (a africana Elaeis guineensis ou a americana E. oleifera) não se dão bem, tem crescido o interesse pelo óleo de sementes de cúfea, usado em sabonetes, detergentes e rebuçados.

Alguns recantos do Jardim do Carregal estão forrados com C. gracilis, planta brasileira de discretas flores lilases ou brancas que, como velhotas gaiatas, mudam para cor-de-rosa com a idade.


Cuphea gracilis

12.10.06

Freixo que te olhas no rio

Amarante é bissectada pelo Tâmega, e é possível, quase sem sair da cidade, passear pelas margens do rio, aqui e ali inteiramente naturalizadas. Na margem esquerda, acompanhando o Parque Florestal, as árvores com um pé na água são maioritariamente amieiros. Na margem oposta, há uma estreita via empedrada que permite o acesso (moderado) de automóveis e se prolonga por alguns quilómetros; aí vêem-se plátanos e alguns grupos de freixos. É curioso que uma árvore urbana e sem vocação ripícola, como o plátano, se adapte ao habitat semi-aquático, não receando encharcar as raízes. Há até pequenos plátanos que cresceram agarrados às pedras do muro e agora se debruçam sobre as águas.

Mas os campeões do equilibrismo à beira-água são sem dúvida os freixos. Há-os possantes, como o da foto, que estendem o tronco inclinado dezenas de metros além da margem. Julgam eles que, continuando a crescer, alcançam o outro lado? Talvez só queiram narcisar-se no espelho instável das águas, mesmo correndo o risco de tombarem.


Fraxinus angustifolia

O freixo (género Fraxinus) é uma árvore típica dos cursos de água, com folhas compostas pinadas, pertencente à família das oleáceas (que inclui as oliveiras); a espécie F. angustifolia, de folhagem azulada e folíolos estreitos, é endémica no sul da Europa.

11.10.06

Festival de sazankas em Amarante




Sazanka é o nome japonês da Camellia sasanqua, que inaugura logo em Setembro a época da floração das camélias: a japoneira (C. japonica) recebe o testemunho com o declinar do Outono, atravessa connosco o Inverno, e só se despede com Maio à vista. Ao contrário da japoneira, a sazanka gosta da exposição solar directa e tem flores fragrantes, exalando um perfume rústico muito agradável. Presença comum nos jardins nortenhos, é contudo invulgar encontrar tão grande número delas, e de porte tão respeitável, como no Parque Florestal de Amarante, onde preenchem uma alameda e bordejam um dos lados do terreiro em redor da casa. A visitar com urgência de nariz e olhos bem despertos antes que o espectáculo termine.

10.10.06

Linda de morrer

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Enviadas por um ramo familiar ;-) muito querido, finalmente as tão desejadas fotografias de uma Corypha umbraculifera em flor no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro! Que surpresa e que alegria! Este acontecimento excepcional já tinha sido por nós anunciado aqui e aqui. Destas palmeiras com propriedade se pode afirmar que são lindas de morrer! Com efeito, depois da floração e de uma frutificação segundo parece assaz longa, morrem pouco a pouco. Mas deixemos os especialistas falar: da versão portuguesa do livro Palmeras. Un reino vegetal, de Alex Puig e Pera Ramoneda, transcrevem-se os seguintes parágrafos referentes a esta recordista invulgar de nome original talipot ("folha de palmeira" em bengalês segundo o Houaiss) que já apenas se encontra em cultura.
«do grego koryphe "cabeça coroada" (...)
Características: É uma das maiores palmeiras do Mundo. As suas enormes folhas costapalmadas, com mais de 7 m. de diâmetro, podem albergar e manter a seco umas quinze pessoas. (...)
É uma palmeira monocárpica, o que quer dizer que dá flor e fruto uma única vez e depois morre. A sua grande inflorescência, de caules encurvados como enormes penas de avestruz, chega a medir 7 m. de altura por 12 metros de largura e a albergar uns 79 milhões de flores hermafroditas brancas; podendo pesar quase uma tonelada quando está carregada de frutos. Estes são algo assimétricos e medem uns 4 cm. de diâmetro. Dá flor aos 60 ou 80 anos.(...)»
Ver fotos de outras corifas.
..

9.10.06

A ler

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The Thief of Color :"The Harvest Moon, usually a September visitor... "- Human Flower Project
Kaki, la força de la vida :"Al Closet, el corral del conco Nadal, hi havia un caquier nan...." -Amics arbres
A um Deus Desconhecido :«...O vento sussurrou um momento na relva e depois cresceu, trazendo consigo intensos odores a erva e a terra molhada, e a grande árvore agitou-se vivamente sob o vento...» -Palavras ao Vento
o cheiro inebriante dos eucaliptos altos. só por isso teria valido a pena- Welcome to Elsinore
Que bela chuvinha p' ô madronho e p 'à zêtona... -Parente da Refóias

e last but not least ...
assinala-se o tão esperado regresso do
Vulgar de Lineu ;-)

........"toda flor
é aflordisíaca


Nicolas Behr, INICIAÇÃO À DENDOLATRIA (2006)

7.10.06

Esporas-bravas


Linaria triornithophora


Viajei por toda a Terra
desde o norte até o sul;
em toda a parte do mundo
vi mar verde e céu azul.

Em toda a parte vi flores
romperem do pó do chão,
universais, como as dores
do mundo
que em toda a parte se dão.


António Gedeão, Lírio roxo, in Teatro do Mundo (1958)

5.10.06

Árvores do Jardim do Carregal #11


Casuarina equisetifolia

Num dos bordos do Jardim do Carregal estão agora em flor um grupo de casuarinas (Casuarina equisetifolia) de belo porte. Não são coníferas como a maioria das suas vizinhas no Jardim, mas são australianas como elas. A copa piramidal verde-alface ganha no Outono o tom acastanhado das inflorescências masculinas, espigas terminais alongadas só com brácteas pequenas. As flores femininas, que se formam nas axilas das folhas, são conjuntos de estiletes avermelhados e também não têm pétalas. As brácteas quando maduras soldam-se e criam pinhas cilíndricas que contêm samaróides, cada um com uma semente alada e achatada.

Esta árvore, da família Casuarinaceae, é de crescimento rápido e tolerante a solos salinos; adequa-se por isso como quebra-vento e como revestimento de zonas costeiras. Diz-se que a sua madeira de cerne vermelho é a melhor das lenhas. A ramagem pendente, num hábito que faz lembrar a plumagem dos casuares (do malaio kasuari) - grandes aves pernaltas mas não voadoras, com uma crista óssea e pescoço azul ou púrpura - é feita de tubinhos ocos, finos, rijos, estriados longitudinalmente, articulados com nós em redor dos quais se encaixam as folhas diminutas como dentinhos triangulares brancos. Parece-se com a folhagem da cavalinha (Equisetum sp., nome que tem origem no latim equus, cavalo, e seta, cerda ou crina), daí o epíteto específico. Em dias de vento, os numerosos tubos produzem um silvo característico, que lhe deu a designação comum Whistling-Pine e árvore-da-tristeza.

No jardim da Casa Burmester, na Rua do Campo Alegre, há três exemplares de outra espécie de casuarina, também de origem australiana, que tem inflorescências mais vistosas e frutos maiores.

Anterior desta série: #10

4.10.06

Make a noise!

Excurso (ou até nem por isso)

Começa hoje uma semana em que ainda vou fazer mais barulho (do que habitual)...
E olhem o que encontrei! -aqui há mais ;-)
Já agora visitem um dos meus blogues favoritos.
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A viagem fabulosa de Adelbert von Chamisso

Em 30 de Julho de 1815, partiu de Kronstadt, cidade russa no golfo da Finlândia, o navio Rurick, comandado pelo capitão Otto von Kotzebue e com 27 homens a bordo. A viagem, financiada pelo Conde Nikolai Romanzoff, ministro da corte russa, duraria três anos, e tinha objectivos exploratórios e científicos: descobrir uma passagem marítima a norte entre o Pacífico e o Atlântico (o que não foi conseguido); e estudar a fauna, a flora e a geografia das ilhas do Pacífico e da costa ocidental da América, do Cabo Horn ao Alasca. A comitiva incluía o botânico Adelbert von Chamisso; entre as espécies novas por ele então descritas contam-se a papoila-da-Califórnia - chamada Eschscholtzia californica em honra de Johann Friedrich Gustav von Eschscholtz, médico da expedição - e a Myrica californica, pequena árvore aparentada com a nossa faia-das-ilhas (Myrica faya).

Chamisso, nascido em 1781 em França, refugiado com a família na Alemanha em 1790 para escapar à Revolução Francesa, não foi apenas um cientista distinto. Escrevendo na sua língua adoptiva, foi poeta e prosador de renome, autor de um diário da expedição Romanzoff, publicado com grande sucesso em 1836 (dois anos antes da sua morte), e da História fabulosa de Peter Schlemihl, de 1814, que teve grande voga na Europa e foi traduzida em muitas línguas. Peter Schlemihl vende inocentemente a sua sombra ao diabo em troca de uma bolsa que é inesgotável fonte de ouro; mas logo descobre que não ter sombra é tão ruim, pelo ostracismo que provoca, como ser leproso. Desesperado pelo assédio do demónio, Peter Schlemihl desfaz-se da bolsa mágica sem por isso reaver a sombra; equipado com botas-de-sete-léguas, percorre o mundo (com excepção da Austrália, fora de alcance por ser muito remota) em estudos naturalistas que o redimem da impossibilidade do convívio humano.

A História fabulosa de Peter Schlemihl é um conto-de-fadas autobiográfico: Chamisso, dividido entre a França e a Alemanha, países habituados a guerrearem-se, terá experimentado, como apátrida que era, a mesma rejeição que o seu anti-herói sofreu. Enquanto Peter Schlemihl, cavalgando as prodigiosas botas, pulava de continente em continente para recolher as suas amostras, também Chamisso, em navio vagaroso sacudido por correntes e marés, enriquecia a botânica com novas descobertas. E Chamisso, tal como Peter Schlemihl, nunca visitou a Austrália.

(A Assírio & Alvim editou em 2005 A História fabulosa de Peter Schlemihl, numa tradução em bom português de João Barrento.)

3.10.06

Tristes choupos

revisitados - a propósito das obras de requalificação da Avenida de Mouzinho de Albuquerque na Póvoa de Varzim.
Segundo notícia vinda ontem a público,«(...) o arranque será, todavia, especialmente traumático para quem aprecia o corredor frondoso formado pelas 108 árvores (sobretudo choupos) que serão abatidas. Mendes Leal disse que a intervenção prevê a colocação de 77 espécies "mais apropriadas" (pimenteiras-bastardas, castanheiros-da-Índia, catalpas, plátanos e magnólias) e a grande maioria também terá uma dimensão razoável, ficando as raízes inseridas em caixas subterrâneas. (...)»

Poderá com efeito ser eventualmente traumático para quem aprecia a sombra, mas não para quem gosta realmente de árvores. Para os que como nós ficam doentes com o triste espectáculo daqueles choupos repetidamente mutilados por podas inadequadas, a sua remoção vai ser um alívio!

E, evidentemente, espera-se que as espécies escolhidas para a rearborização da zona sejam mais apropriadas. (Mas plátanos, senhor vereador? Não irão repetir a asneira que se fez cá no Porto ainda há bem pouco tempo? )
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2.10.06

Corypha umbraculifera

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Die Schattenpalme (Corypha umbraculifera ) auf Ceylon -
pg 203 of Anton Joseph Kerner von Marilaun, Adolf Hansen: Pflanzenleben: Erster Band: Der Bau und die Eigenschaften der Pflanzen, 1913 (via wikipedia)

Enquanto esperamos que nos mandem "provas" da floração de uma Corypha umbraculifera no Aterro do Flamengo -que cremos estar fazendo manchete no Rio- publicamos a reprodução de uma pintura de 1913 desta especialíssima palmeira; assim como a sugestão de visita a uma página do site do Jardim Botânico de Caracas para se apreciarem "fotos de um espécime que está em condições muito semelhantes às daqui do Rio de Janeiro", como afiança a nossa amiga Leonor (causadora de toda esta expectativa do lado de cá do Atlântico ;-) .
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Outono em pleno, e...

(...)
Quem o olhava bebia
Quem o olhava escutava
O jacarandá florido
Que o silêncio cantava.

.Matilde Rosa Araújo

post dedicado
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