30.12.06

Trá-lá-lá, trá-lá-lá...

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«O urso Eduardo, conhecido entre os seus amigos por Joanica-Puff, ou simplesmente Puff, andava um dia a passear pela floresta, cantarolando todo vaidoso para si mesmo. Tinha inventado uma pequena cantoria nessa mesma manhã, enquanto fazia os seus exercícios de ginástica diante ao espelho.

Trá-lá-lá, trá-lá-lá, enquanto levantava os braços e se esticava para cima o mais que podia, e depois, Trá-lá-lá, trá-lá-oh, socorro!-lá, enquanto procurava tocar nos dedos dos pés. Depois do pequeno almoço, tinha-se posto a repetir esta cantoria para si mesmo, até a ter aprendido bem de cor, como devia ser. Era assim:

Trá-lá-lá, trá-lá-lá,
Trá-lá-lá, trá-lá-lá,
Rão-tão-tirala-ão-tão.
Tirala-lila, tirala-lila,
Tirala-lila, tirala-lila,
Rão-tão-tirala-ão-tão.

Ora ia ele a trautear esta cantoria para si mesmo, caminhando alegremente, a pensar no que é que as outras pessoas estariam todas a fazer, e em qual seria a sensação de ser outra pessoa, quando deu, de repente, com um banco de areia no qual havia um grande buraco. (...)»


Joanica-Puff / A. A. Milne > , trad. Manuel Grangeio Crespo, il. E. H. Shepard. > -Lisboa : Minotauro, [D.L. 1962]

Ajudo-me desta passagem -transcrita da que creio ser a primeira edição em português de Winnie the Pooh- para fazer um balanço de 2006 e exprimir os meus sinceros desejos para 2007: alegres caminhadas por jardins, parques, e porque não ... florestas, trauteando cantorias inventadas durante a ginástica matinal. E votos para que os eventuais buracos, grandes ou pequenos, me conduzam (como ao ursinho) aos meus amigos.

Bom Ano de 2007 para todos nós!

29.12.06

Quinta da Nasceágua



Levado pela descrição que dela é feita no livro Parques e Jardins dos Açores, de Isabel Soares de Albergaria (ed. Argumentum, 2005), visitei a Quinta da Nasceágua, na ilha Terceira, no princípio de Outubro: dias de céu soturno em que um ar morno e pegajoso encharcava a roupa de suor. Dias quase tropicais, afinal, a condizer com a vegetação preponderante da quinta: uma colecção de palmeiras dominada pelas palmeiras-elegantes, fetos arbóreos, cicas, grandes maciços de fiteiras (Cordyline australis) - tudo isto em volta do lago sinuoso com o bordo pintado de um incongruente azul-piscina. No resto da quinta, o carácter tropical da vegetação atenua-se: além dos metrosíderos à entrada, há uma alameda de buxo - quase um túnel de tão cerrada - desembocando num largo circular sombreado por plátanos. No centro do largo, uma mesa de granito suporta uma escultura com quatro bustos femininos, representando porventura as quatro estações do ano. À exuberante companhia das palmeiras preferi, durante a visita, o aconchego dos plátanos neste largo rústico, que me fizeram sentir como em casa. Por contraste, as rãs do lago foram bem explícitas em mostrar o seu desagrado pela minha presença, precipitando-se na água sempre que me aproximava.

Apesar de a Quinta da Nasceágua existir desde o século XVI, a sua configuração actual, o essencial da sua colecção botânica, e a própria casa da quinta datam do final do século XIX. Funcionando actualmente como turismo de habitação, é um lugar que dá gosto conhecer.

27.12.06

Saramago de comer



Nesta quadra, de consumo obrigatório de couve-galega (Brassica oleraceae) e outras hortaliças, é tempo de prestar alguma atenção mesmo àquelas nabiças que usualmente não se comem. A da foto, a europeia Raphanus raphanistrum (da família Cruciferae, antes Brassicaceae), parece erva daninha que invadiu zonas de solo arenoso, perto do mar, no Parque da Cidade. Está agora em flor, que é bege, de quatro pétalas em forma de unha estreitando-se na base, e nervação vincada. A folhagem é lirada e áspera; os frutos são silíquas longas, bicudas e cintadas (a marcar o formato das semente como nos amendoins). As raízes são inchadas e deliciosas em saladas. O epíteto específico raphanistrum alude à semelhança com o rabanete, Raphanus sativus - curiosamente, segundo algumas opiniões, um cultivar de R. raphanistrum subespécie landra. A designação vernácula saramago deriva do árabe sarmaq, relacionado com o termo português armoles - talvez do latim holus, hortaliça, e molle, tenro.

Balanço de 2006



Esta estrada atravessa o interior da ilha Terceira na direcção sul-norte, ligando Angra do Heroísmo à vila de Biscoitos. A poucos quilómetros de Angra, e cobrindo a via com o toldo imenso das suas copas entrelaçadas, deparamo-nos com os metrosíderos da Quinta da Nasceágua. Foi num passeio a pé em Outubro que conheci a quinta e as suas árvores. No dia seguinte, então de bicicleta, planeava ir mais longe na mesma estrada: pelo menos até à Lagoa das Patas, para visitar a floresta de criptomérias.

Cem metros a subir por uma ladeira não muito íngreme elucidaram-me cabalmente sobre o vigor da minha pedalada; a bicicleta, alugada para uma tarde, foi devolvida ao fim de quinze minutos. Noutra latitude e noutro século as duas rodas foram o meu meio de transporte diário, mas tantos anos sem dar à perna não se recuperam numa tarde. Além de ser uma amostra de ingenuidade (não tenho que ser severo comigo próprio!), esta história fornece, e não só para meu uso pessoal, o mais fiel balanço do ano que vai terminando: em 2006, houve uma estrada que quis percorrer e não percorri.

Mas em 2007, de bicicleta ou a pé, é certo e garantido que a estrada não me escapa.

26.12.06

Ginkgo - Virtudes

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Ginkgo biloba - Jardim das Virtudes, Dezembro 2006

Há pouco menos de uma semana era assim que se encontrava a "Rainha das Virtudes": nos derradeiros dias de doirada exuberância, como escreveu José Bandeira em Ginkgo, a biloba.
Os seus mais de 35 metros de altura e 4,3 m. de perímetro de tronco (a 1.30 m. do solo) dão-lhe direito a um lugar de destaque no ranking das maiores da Europa e, até prova em contrário, o título de recordista absoluta em Portugal, tendo sido classificada árvore de interesse público no início de 2005. Este ano, devido ao facto do Jardim das Virtudes se encontrar encerrado > , a cromoterapia exerceu-se à distância...


Dezembro 2005
Ver outras fotografias desta árvore junto a alguns outros (poucos) espécimes portugueses que figuram no album de fotos das Ginkgo pages .

25.12.06

Paisagem

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Debaixo da
oliveira
verde
calma
A mãe bate palmas
O pai bate palmas
O menino bate palminhas
A mãe diz:
-Filho da minha alma!
O pai diz:
-Filho da alma minha!

Matilde Rosa Araújo, Mistérios (Livros Horizonte, 1988)

23.12.06

Prendas no sapatinho



A Nepenthes sabe bem o que quer no sapatinho. Ele tem a forma de um jarro, que se mantém perfumado de néctar, com uma tampa para evitar água em excesso - que diluiria o conteúdo diminuindo-lhe a eficiência digestiva. Como qualquer sapatinho de Natal, gosta do aconchego quente mas não suporta demasiada luz, que lhe rouba a magia. Mas não hiberna como o comum sapatinho manco de Natal, e tem apetite insaciável. Nepenthes deriva do grego ne (não) e penthos (tristeza), nome de elixir que faz esquecer as mágoas.

22.12.06

Do desconcerto do mundo



A foto foi tirada ontem de manhã no bairro de Vilar, no Porto, e mostra uma esguia Magnolia x soulangeana em plena floração. Ultrapassou as magnólias brancas e adiantou-se quase dois meses ao calendário habitual. É sinal de escassa modéstia enfeitar-se assim antes de chegar o ano novo; mas é também o mundo que está virado do avesso, e ela, coitada, mal sabe às quantas anda.

21.12.06

Árvore de Natal


«Árvore que nos países do norte da Europa, se coloca na noite de Natal, na principal sala ou casa da ceia, e de cujos ramos ornados de muitas velinhas acesas, pendem brindes, doces, brinquedos e outras prendas, que depois se dão por sorte às crianças. Este uso foi introduzido em Portugal há já bastantes anos.»
(in PEREIRA, Esteves; RODRIGUES, Guilherme -Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico. Lisboa : João Romano Torres ed. , 1904 ; nota: a edição para a Internet deste dicionário ainda não comporta os assuntos genéricos )

Ler sobre esta tradição:
The Chronological History of the Christmas Tree -in The Christmas Archives
Afinal porque razão fazemos nós a Árvore de Natal? -no Naturlink

Ilustração de Maria Keil para a 1ª edição do conto A Noite de Natal de Sophia de Mello Breyner Andresen.

20.12.06

Flor do solstício


Agostinho José da Motta(1824-1878) - Natureza Morta com Flores (1873)

Amanhã, depois da paragem do sol, os dias começam a crescer. Última oportunidade para a Euphorbia pulcherrima, que gosta de noites longas, florir.

19.12.06

A loja do gato justo


Núcleo rural do Parque da Cidade: Carpinus betulus; Olea europaea; Felis catus

O núcleo rural de Aldoar é um conjunto de casas rústicas onde, antes de existir o Parque da Cidade, viveram os agricultores que cultivavam os terrenos adjacentes. Agora recuperadas e a brilhar de novas, albergam uma amostra etnográfica, uma cafetaria com esplanada, um restaurante com preços proibitivos, e duas ou três lojas muito especiais. Uma delas é a loja do comércio justo, alegadamente da Associação Reviravolta. Dizemos alegadamente porque os verdadeiros donos são esse casal da foto: ele em primeiro plano e ela junto ao quadro negro. Tirando o curto intervalo para almoço em que os surpreendemos, estão sempre à porta da loja; e, como verdadeiros patrões, nunca são vistos a trabalhar. Mas metem conversa e aliciam potenciais clientes dando-lhes marradinhas e roçando-se-lhes nas pernas. O negócio corre-lhes tão bem que ele já exibe a característica barriguinha saliente do comerciante tradicional.

Nem quando o tema é zoológico e não botânico prescindimos do nosso didactismo habitual. Assim, os animais da foto pertencem à espécie Felis catus, e são usualmente designados por gato ou gata, conforme o exemplar em causa seja masculino ou feminino. Para sabermos mais sobre este animal, socorremo-nos de uma das obras cimeiras da erudição portuguesa neste vigésimo-primeiro século dC. É uma daquelas realizações multidisciplinares que deveriam ser depositadas em bunkers anti-atómicos ou lançadas em sondas espaciais para darem testemunho da civilização humana, e da própria vida na Terra, quando o nosso mundo tiver desaparecido. Referimo-nos à Fauna & Flora na Toponímia do Distrito do Porto (ed. Governo Civil do Porto, 2004), obra de J. J. Magalhães dos Santos onde a Geografia, a Toponímia, a História, a Zoologia e a Botânica confluem como outros tantos caudalosos rios no grande mar do Conhecimento. Em que outra obra de referência o leitor fica não só a saber, por fotos e descrições, o que é uma flor, um cão ou uma galinha, como também é informado dos lugares do seu país com nome floral, canino ou galináceo? Vejamos o que sobre gato nos ensina o esclarecido autor:

«Gato (Del. lat. cattus); sust. m. y f. Mamífero de la familia de los félidos, de pequeño tamaño, que tiene la cabeza redonda, lengua muy áspera, patas cortas, y pelaje espeso, suave y de distintos colores; el gato y la gata se hacían arrumacos en el tejado a la suave luz de la luna.»

(Uma das surpresas do livro é que as explicações científicas são em castelhano, enquanto os restantes verbetes são em português: as duas línguas irmãs alternam na mesma página em ameno convívio ibérico.)

18.12.06

As árvores da sua rua...

Conhece-as?
Não faz a mínima ideia do seu nome e gostava de as identificar?
Pois há quem de muita boa vontade se preste a dar uma ajuda. Veja aqui.
Saudamos vivamente Jorge Cancela e o seu Árvores da minha rua !

16.12.06

Flor com cachecol



Com o frio, e o uso de fartos agasalhos que nos embrulham em lã como ovelhinhas, veio à lembrança a flor desta planta, Buglossoides purpurocaerulea. Tem cinco pétalas que se unem num tubo protegido no topo por um vistoso cachecol penugento - componente que ajudou a identificá-la. Esta planta gosta de solos arados, leves e rochosos, por isso não foi surpresa encontrá-la refastelada na horta de Serralves. Nesta altura, se a alternância de herbáceas naquele quintal não a fez desaparecer, exibirá pequenos frutos cada um dos quais com quatro nozinhas brilhantes e brancas.

O género Buglossoides tem sete espécies europeias com folhas tomentosas (por isso está na família Boraginaceae - a dos miosótis -, nome que deriva de borago, termo antigo de origem incerta que designa um tecido lanoso) e flores roxas (purpureo) que amadurecem azuis (caerulea), ou brancas. O termo Buglossoides vem do grego bouglosson, língua, em alusão óbvia ao formato das folhas.

15.12.06

Escada abaixo


Foto de Francisco Oliveira

Num comentário aqui deixado há precisamente uma semana, Francisco Oliveira falou destes ginkgos numa escadaria de acesso à nova alameda das Antas - dos quais teve entretanto a amabilidade de nos enviar a foto. Para além do fenómeno do desfasamento de cores - um só ginkgo permanece verde numa afirmação de personalidade, enquanto os outros se conformam com o amarelo -, o que se vê na foto é aquilo que Francisco Oliveira já tinha observado: cercadas como estão pelo granito (no chão) e pelo cimento (no muro), os dias de estiagem hão-de ser um suplício para estas árvores. As caldeiras, de tão minúsculas, também não lhes auguram grande futuro. Uma delas já morreu. É triste assinalar como no Porto se vem dando um retrocesso tão acentuado nas boas práticas com árvores, pois os ginkgos que se plantaram há anos na avenida da Boavista (junto ao Hospital Militar) e em 2001 nas ruas Galeria de Paris e Cândido dos Reis beneficiaram de caldeiras muito mais generosas. No caso desta escadaria não foi obviamente a falta de espaço que ditou tal asneira: foi inépcia dos projectistas, que por timidez ou negligência os serviços camarários não quiseram corrigir. Se as árvores pudessem crescer normalmente, este alinhamento descendente sublinhando a geometria quebrada do muro comporia em poucos anos, mesmo descontando os borrões na parede, um quadro digno de admiração.

14.12.06

Andam faunos pelos bosques

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A ver (Fantasia, Disney) e a ouvir (sexta sinfonia de Beethoven, a "Pastoral") no Fonte das Virtudes
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13.12.06

Orquídea de pobre



Os epítetos balfouriana e balfourii têm laços de família. O primeiro homenageia o botânico John Hutton Balfour (1808-1884), professor de botânica na Universidade de Glasgow, autor de numerosos trabalhos de botânica e director do Jardim Botânico de Edinburgh. O segundo refere-se ao seu filho, Isaac Bayley Balfour (1853-1922), botânico cujo trabalho e empenho guindaram o Jardim Botânico de Edinburgh à categoria de um dos mais afamados do mundo.

A Impatiens balfourii, da família Balsaminaceae, irmã das alegrias-da-casa, é do Himalaya e já foi mais frequente nos nossos jardins. Herbácea que pode atingir um metro de altura, exibe profusa folhagem, flores que parecem orquídeas e frutos que são cápsulas com comportamento característico deste género: impacientes, mal são tocadas partem-se em filamentos que se enrolam e, como molas, projectam as sementes para longe.

Os exemplares da foto são da Quinta da Aveleda.

12.12.06

Aveiro e os seus amigos



No litoral português entre Espinho e Aveiro há uma sucessão quase contínua de cidades e vilas que bem dispensariam ter árvores, e por isso castigam sem piedade todas as que tiveram a má sina de nelas vegetar. Muito embora em Aveiro o grau de dendrofobia ande longe do paroxismo espinhense, o visitante não pode deixar de observar como são poucas e pequenas as árvores nas ruas centrais da cidade. A principal artéria urbana, a Av. Lourenço Peixinho, tinha até há poucos anos um duplo alinhamento de álamos de belo efeito. Para criar estacionamento ou possibilitar mexidas no trânsito, a placa central foi sendo gradualmente estreitada - até ser suprimida por completo, no topo da avenida, para se rasgar o túnel rodoviário que cruza a linha do Norte. A avenida, que era acolhedora, tornou-se inóspita: do duplo alinhamento de outrora sobra-lhe um alinhamento simples em dois terços da sua extensão; no terço restante, em vez de árvores, o que temos são os muretes de protecção do túnel.

Outras empreitadas recentes ocasionaram também, posto que em menor grau, o abate de árvores adultas: a ligação viária desnivelada entre as avenidas de Santa Joana e de 5 de Outubro; o estacionamento subterrâneo na Praça Marquês de Pombal, com o abate de um grande número de bonitas Lagerstroemias; e a extensão em curso do Museu de Aveiro, com o sacrifício quase integral do pequeno jardim que, na toponímia oficial, leva o pomposo título de Parque de Santa Joana. E deu brado, em 2005, o bem sucedido requerimento à Câmara de alguns moradores da Baixa de Santo António pedindo o derrube dos pinheiros-mansos que serviriam de abrigo a namoros indecentes.

Não são pois as árvores que me chamam a Aveiro: são os braços da ria cingindo as ruas, essas ruas planas e de casas baixas onde se anda a pé com tranquilidade e sem esforço; são os moliceiros a gozar a aposentação no canal central, servindo de garrido contraponto às palmeiras do Rossio; e são também, devo confessá-lo, as enguias e os ovos-moles.



Aveiro tem pelo menos um espaço com arborização frondosa: o velho Parque do Infante D. Pedro - que, embora pequeno, foi de certo modo prolongado na década de 1980 com a construção da Baixa de Santo António, um parque moderno e aberto, separado do primeiro por uma rodovia onde pontificam grandes plátanos. O coberto arbóreo do Parque D. Pedro não é entusiasmante: há muitos choupos, muitas folhosas perenifólias de fraco efeito ornamental, muita hera trepando pelas árvores em redor do lago. Apesar de ter havido, há cerca de dois anos, uma intervenção positiva, com a retirada da gaiola dos pássaros e o derrube do muro à face da rua, a impressão geral é de abandono, reforçada pelo chalet fechado e pelos chafarizes de onde não escorre gota de água. Mais aprazível, mais cuidado e com árvores mais bonitas é o jardim contíguo ao parque, a que se acede por uma dupla escadaria ornamental coroada por uma pérgula com glicínias e buganvílias.

Ontem, no Jornal de Notícias, lemos que o Presidente da Câmara de Aveiro «desafiou os elementos da Associação dos Amigos do Parque Infante D. Pedro a assumirem, num futuro próximo, a gestão do maior espaço verde da cidade». A parte boa da notícia é que em Aveiro os amigos das árvores são agora ouvidos pelo poder municipal. Mas pode-se também entender dessas palavras que a Câmara, em lugar de usar o seu dinheiro e os seus recursos na manutenção dos escassos espaços verdes públicos, prefere entregar essa tarefa a voluntários - como se o orçamento camarário só devesse servir para coisas realmente importantes como as acessibilidades e o estacionamento. Oxalá eu me engane e esta interpretação seja de todo injusta.

11.12.06

Provérbios - lenha

E
A lenha sustenta o lume.
A quem Deus quer ajudar, o vento lhe apanha a lenha. >
Água e lenha, cada dia venha.
Arde mais a lenha verde que pedras enxutas.
Arde o fogo segundo a lenha do bosque.
Asno que entra em devesa alheia, sairá carregado de lenha.
Dezembro quer lenha no lar e pichel a andar.
Em Dezembro, lenha e dorme.
Lenha cortada, lenha dobrada.
Lenha dourada, pão queimado.
Lenha no ar e pichel a andar.
Lenha vozeira, sinal de ventaneira.
Mato verde não dá boa lenha.
Melhor é mau mancebo que feixe de lenha.
Não há lenha como o azinho, nem carne como o toucinho.
Nem carvão nem lenha compres quando geia.
Nunca sabe o mato onde irá fazer lenha.
Ou é tolo, ou rã, ou feixe de lenha, ou arméu de lã.
Pau, pau, madeira é lenha.
Quando se corta a lenha, saltam as lascas.
Quem está de fora racha lenha.

.....outros

Concelho de Sabrosa- 2006.04

Cancioneiro popular

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«Ó meu rico St. António
Vestidinho de estamenha,
A quem Deus quer ajudar
O vento lhe ajunta a lenha

9.12.06

O vento

Por mais que tente, o vento
não consegue adormecer
se não tiver nada para ler.
Seja uma folha de tília,
de bambu ou buganvília.

É por isso que o vento
arrasta as folhas consigo,
até encontrar um abrigo,
onde possa adormecer.
- arrastou até a folha,
onde eu estava a escrever!


Jorge Sousa Braga, Herbário (2002)


Palácio de Cristal, Dezembro

8.12.06

A ler- "Quinta da Conceição"




Reportagem fotográfica sobre o último jardim público de Matosinhos, n' O Verde e o Cinzento -um blogue que já tardava a aqui ser divulgado.

NB: Sábado, pelas 15 horas, haverá uma sessão extraordinária da Assembleia de Freguesia de Leça da Palmeira para debater a questão da concessão a privados da gestão da Quinta da Conceição.

O "Movimento Quinta da Conceição - Privatização Não! " já tem uma petição online e está ainda a organizar um abaixo-assinado.

A reler


«5 ideias falsas sobre as "podas" radicais ou rolagens» (excertos) pelo Dr. Francisco Coimbra
Infelizmente, continua a ser preciso divulgar.

A propósito dá-se a conhecer um novo blogue sobre o assunto: A PODA (com ph) das árvores Ornamentais.

Aparte: agrada-me de sobremaneira que seja iniciativa de alguém da área... (já nao era sem tempo). Espero que entenda que para ter visibilidade e, consequentemente, alguma influência tem que cumprir uma das "regras" mais interessantes da blogosfera: "linkar". Só assim se podem criar redes de comunidades que partilham interesses. Quem não linka não dá sinal da sua existência (pois nao aparece nos motores de busca).
É que por vezes se criam expectactivas que nao se cumprem.

Febre amarela



Ginkgo na Rua Nova da Alfândega; tílias no Largo da Lapa (Porto)

Outono estranho este que agora vai chegando ao fim. Incentivadas pelas temperaturas amenas e pela chuva generosa, algumas árvores fizeram brotar novas folhas na altura em que deviam começar a largá-las: é vê-las agora despindo-se à pressa quando o frio aperta e as nuvens se derramam em dilúvio ininterrupto. Nunca como este ano as camélias madrugaram tanto na floração; e as magnólias, que o calendário só manda enfeitarem-se em finais de Janeiro, vão-se já cobrindo de flores, assim se redimindo por excesso dos atrasos de anos recentes.

Apesar de tamanha balbúrdia, ainda nos ficaram alguns postais em tons de amarelo de um Outono-como-deveria-ser. Nesta altura talvez já tenham caído as últimas folhas do ginkgo e das tílias que se vêem em cima, fotografadas há dias num intervalo entre insistentes aguaceiros. Despiram-se essas árvores - e assim terminou para elas o momento outonal de glória. Mas é de justiça enaltecê-las pelo modo escrupuloso como cumpriram o seu dever, e marcar com elas um novo e feliz encontro no declinar de 2007.

7.12.06

Camélias de Dezembro- S. Roque

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Camélias brancas em S. Roque- (fotos: Dezembro 2004)

Parque de S. Roque no Dias com árvores

(A casa e logradouro da Quinta de S. Roque -ver localização no mapa Google-foram recentemente incluídos num dos fundos de investimento imobiliário criados com bens municipais, facto veementemente criticado por Teresa Andresen que considerou a situação "extremamente grave". Ler notícia completa aqui . Quais as possíveis consequências de tal decisão?)

6.12.06

Poaia-do-campo



A família Rubiaeae contém cerca de 650 espécies predominantemente tropicais, incluindo as plantas do café (Coffea sp.), as gardénias (Gardenia sp.) e as quinas (espécies do género Cinchona de cuja casca se fabrica o quinino). A elas acresce a Diodia brasiliensis, que tem também utilidade farmacêutica: as raízes têm propriedades eméticas e são usadas tradicionalmene em soro antivenenoso ou pó antifúngico.

Com formato natural arredondado, esta planta forma sebes harmoniosas e muito perfumadas, estando agora pintalgada de flores tubulares, minúsculas e brancas. Nos jardins de Serralves podem ver-se exemplares já crescidos nos novos canteiros junto à casa cor-de-rosa, outrora embelezados com sálvias e canas; e nos jardins do Palácio de Cristal, onde foram tiradas as fotos, o muro sobranceiro ao roseiral é encimado em toda a sua extensão por uma sebe de Diodia.

Diodia deriva dos termos gregos di, ao longo de, e hodós, caminho, aludindo ao habitat natural deste género.

5.12.06

Liquidâmbar-da-Formosa



Numa das últimas visitas que fiz ao Jardim Botânico do Porto, antes de ele encerrar para obras, detive-me numa pequena árvore a que antes não prestara atenção: fazendo par com outra da mesma espécie, encontrava-se no limite nordeste do arboreto, perto dos degraus enfeitados com uma glicínia. Deveriam ter sido plantadas há pouco tempo, e não estavam ainda etiquetadas; a sua pequenez e a vegetação densa (e descuidada) em seu redor facilmente as tornavam despercebidas - além de dificultarem, como se vê pela amostra, uma boa foto de corpo inteiro.

As folhas fazem lembrar as dos liquidâmbares comuns, mas com três lobos em vez de cinco. As referências consultadas sugerem que os dois exemplares pertencem a uma das espécies Liquidambar formosana ou L. acalycina, mais provavelmente à primeira delas. Originário da China (e não apenas da Formosa), onde pode atingir alturas de 40 metros, o Liquidambar formosana é raro na Europa, onde parece existir apenas em colecções botânicas; e o L. acalycina, também chinês, é mais raro ainda. Não pude ver este ano se o colorido outonal destas árvores é comparável ao da sua congénere norte-americana; mas em 2007, com o Jardim Botânico já renovado e reaberto ao público, não hei-de falhar a inspecção.

4.12.06

Os nomes das árvores- Liquidâmbar


Liquidambar styraciflua- Palácio de Cristal, Novembro 2000
Nestas fotografias podem ver-se os ramos caracteristicamente suberificados, as folhas parecidas com as dos áceres e o frutos aglomerados.

No Porto, os liquidâmbares são muito usados como árvores ornamentais. Encontram-se alguns de porte notável- destacando-se entre esses o monumental exemplar do Jardim Botânico, a belíssima alameda de Serralves (já aqui retratada em Novembro e em Dezembro ) e os da Rotunda Boavista . Dificilmente passam despercebidos no Outono e não deve haver nenhuma outra folhosa que ostente, por vezes simultaneamente, uma tão grande variedade de tons de verde, amarelo, laranja, vermelho.

São quatro as espécies que o género abriga: duas da China, uma da Ásia Menor e uma da América do Norte. A espécie americana, Liquidambar styraciflua > , é a mais usada como árvore ornamental, na Europa onde aportou proveniente da Virgínia, no início do século XVIII.

Tal como em Espanha > , entre nós é conhecida por árvore-do-âmbar e sobretudo liquidâmbar, termo homónimo da designação científica para o género, utilizado pela primeira vez em francês por Dalechamps > , na Histoire générale des plantes > em 1615, como conta J. Brosse no seu Larousse des Arbres et des Arbustes.

Conhecida no continente norte-americano por sweetgum, os franceses chamam-lhe, para além de liquidambar, copalme d'Amérique. Em azteca copali designava genericamente a resina extraída de certas árvores- significado idêntico ao de "styrax" de que deriva"styraciflua", o designativo da espécie. Tanto a designação científica como os nomes vulgares aludem a esta seiva balsâmica cor de âmbar, a sua resina aromática, uma goma utilizada em perfumaria e farmácia sob o nome de estóraque*. Refira-se, por curiosidade, que foi usada na experiência que levou à descoberta acidental do polistireno > .

Outras designações > para o liquidâmbar e para a sua madeira > .

*O termo também se usa para designar resinas provenientes de outras árvores: pertencentes ao próprio género Styrax > e, segundo esta fonte > , a resina do Myroxylum balsamum.

2.12.06

Assobio branco, assobio rosa

Silene dioica (L.) Clairv.

Resultado directo da irrigação generosa dos solos que aconteceu nas últimas semanas, estas herbáceas da família dos cravos (Caryophyllaceae) produziram nova colheita de flores. O género Silene é dos mais vastos e complexos das regiões temperadas pois hibridam frequentemente entre si, produzindo variedades férteis e robustas. Uma das espécies mais comuns no norte da Europa, porém rara em Portugal (sabe-se que ocorre esporadicamente nas serras do Gerês e da Estrela), é a Silene dioica, planta vivaz de 30 a 80 cm de altura com flores cor-de-rosa ou, muito excepcionalmente, brancas.

As folhas são penugentas e nascem em pares opostos; as mais próximas das flores, que são terminais, são quase sésseis. As flores têm cinco pétalas bilobadas, que se fecham de noite, e um cálice tubular insuflado de sépalas com veios roxos lembrando os calções de um palhaço. Silene deriva provavelmente do latim Silenus, o aio de Baco, deus do vinho, embora possa também referir-se à goma das folhas e caule neste género. O epíteto específico indica que as flores masculinas e as femininas moram em exemplares distintos, diferindo essencialmente no tamanho e venação do cálice.

As sementes esmagadas de S. dioica eram tradicionalmente usadas para tratar mordidas de cobra.

1.12.06

Árvores do Cemitério Britânico


Liquidâmbar e carvalho-americano (à esquerda) e tílias (à direita)

O Cemitério Britânico do Porto, ao contrário dos seus congéneres de feição portuguesa, não é um lugar de ostentação: não se vêem mausoléus ou outros monumentos funerários, as campas são assinaladas por simples cruzes ou lápides, e os epitáfios, quando os há, são breves. A natureza, destino último a que todos regressaremos, encontra refúgio atrás destes muros: os caminhos são de terra e não calcetados; e as grandes árvores que sombreiam o recinto, resguardando-o da dissonante visão dos prédios circundantes, não tiveram o seu crescimento atalhado pelo zelo do podador.

Primeiro lugar de enterro ao ar livre estabelecido no Porto, foi inaugurado em 1788 (os cemitérios da Lapa, do Prado do Repouso e de Agramonte só o seriam em meados do século XIX), em local fora das muralhas e bem afastado da urbe. À sua volta só existiam quintas, mas o implacável crescimento da cidade, acelerado a partir da década de 1930 pela abertura da rua Júlio Dinis, extinguiu todo esse bucolismo. O golpe de misericórdia foi, muito a propósito, desferido recentemente pela Diocese do Porto, ao construir, em terrenos que uma versão provisória do PDM do Porto chegou a propor como área verde a preservar, uma esmagadora casa sacerdotal.

Só nos podemos regozijar por este rectângulo pacato e arborizado ter ficado, não na posse da católica Diocese, mas sim na de protestantes com a sensatez bastante para nunca o quererem modernizar.

(Mais informações sobre os cemitérios do Porto aqui e aqui.)