31.8.07

Dunas de São Jacinto

Já aqui explicámos a peculiar situação geográfica de São Jacinto, freguesia de Aveiro separada pela ria da sua sede de concelho. Não pudemos visitar a Reserva Natural aquando da nossa imprevidente primeira viagem, e por isso voltámos lá algumas semanas mais tarde, dessa vez seguindo a EN 327 desde Ovar. Pouco depois da Torreira - que é a outra localidade, essa pertencente ao concelho da Murtosa, nesta península que se alonga de Ovar a São Jacinto - a reserva começa a acompanhar a estrada pelo lado poente, enquanto do outro lado a ria nunca nos sai da vista. É por isso impossível não dar pela reserva - mas, para que a visita seja compensadora, convém iniciá-la no posto informativo (que fecha aos domingos e feriados). É que, se não seguir o trilho certo, o mais provável é que o visitante não encontre nem o caminho para as dunas nem para a pateira. A reserva é cortada por uma rede de aceiros, amplos caminhos em linha recta que correm uns paralelos e outros perpendiculares à ria. Assim, o risco de alguém se perder é diminuto: basta tomar um aceiro na direcção da ria e em vinte ou trinta minutos reencontra a EN 327.

Serve isto para dizer que não começámos a visita por onde devíamos, mas a sorte ajudou-nos e encontrámos um guia prestável que nos pôs no rumo certo. Antes disso, chegámos a subir à torre de vigia, coisa que os visitantes bem comportados estão impedidos de fazer. Tivemos também ocasião de perceber a gravidade da infestação por acácias (Acacia longifolia), que obriga a desmatações frequentes numa guerra que dificilmente poderá ser vencida. Além das acácias, o coberto arbóreo, essencial para a fixação das areias, inclui muitos pinheiros-bravos, alguns medronheiros, salgueiros, choupos e amieiros, e uma população surpreendentemente abundante de faias-das-ilhas (Myrica faya). Seria interessante saber se a M. faya foi introduzida em São Jacinto, como os pinheiros e as acácias, na época em que a mata foi semeada (entre o final do século XIX e a década de 1930), ou se surgiu lá espontaneamente.



Encontrar o passadiço de acesso às dunas, depois de uma interminável caminhada na mata por um trilho perversamente coleante, é como chegar ao primeiro degrau da escadaria que leva ao paraíso. Começam ali as maravilhas que se vão refinando à medida que subimos, até que no miradouro se cumpre a promessa do mar aberto, rodeado de silêncio e de dunas sem mácula. De início, bordejando o passadiço, há pinheiros, camarinhas (2.ª foto), acácias e uma profusão de pequenas plantas dunares; à vista do Atlântico, na crista dunar (3.ª foto), a vegetação rarefaz-se e fica reduzida ao estorno (Ammophila arenaria). O regresso - inevitável porque o paraíso é para se tomar em pequenas doses - faz-se pelo mesmo viaduto de madeira suspenso por estacas sobre as dunas (1.ª e 4.ª fotos).

30.8.07

Amor de passarinho


Geranium robertianum (erva-de-São-Roberto)

Desde que mandei colocar na minha janela uns vasos de gerânio, eles começaram a aparecer. Dependurei ali um bebedouro, desses para beija-flor, mas são de outra espécie os que aparecem todas as manhãs e se fartam de água açucarada, na maior algazarra. Pude observar então que um deles só vem quando os demais já se foram.

Vem todas as manhãs. Sei que é ele e não outro por um pormenor que o distingue dos demais: só tem uma perna. (...) Segundo o dicionário, trata-se de «uma ave passeriforme de coloração verde-azeitonada em cima e amarela embaixo». Na realidade, é uma graça, o meu passarinho perneta.

Ao pousar, equilibra-se sem dificuldade na única perna, batendo asas e deixando à mostra, em lugar da outra, apenas um cotozinho. É de se ver as suas passarinhices no peitoril da janela, ou a saltitar de galho em galho, entre os gerânios, como se estivesse fazendo bonito para mim. Às vezes se atreve a passar voando pelo meu nariz e vai-se embora pela outra janela. (...)

Enquanto escrevo, ele acaba de chegar. Paro um pouco e fico a olhá-lo. Acostumado a ser observado por mim, já está perdendo a cerimônia. Finge que não me vê, beberica um pouco a sua aguinha, dá um pulo para lá, outro para cá, esvoaça sobre um gerânio, volta ao bebedouro apoiando-se num galho. Mas agora acaba de chegar outro que, prevalecendo-se da superioridade que lhe conferem as duas pernas, em vez de confraternizar, expulsa o pernetinha a bicadas, e passa a beber da sua água. A um canto da janela, meio jururu, ele fica aguardando os acontecimentos, enquanto eu enxoto o seu atrevido semelhante. Quer dizer que até entre eles predomina a lei do mais forte! De novo senhor absoluto da janela, meu amiguinho volta a bebericar e depois vai embora, não sem me fazer uma reverência de agradecimento. (...)

Desde então muita coisa aconteceu. Para começar, a comprovação de que não era amiguinho e sim amiguinha - segundo me informou o jardineiro: responsável pelos gerânios e pelo bebedouro, seu Lorival entende de muitas coisas, e também do sexo dos passarinhos. (...)

Só de uns dias para cá deixou de vir. Fiquei apreensivo, pois a última vez que veio foi num dia de chuva, estava toda molhada, as peninhas do peito arrepiadas. Talvez tivesse adoecido. Não sei se passarinho pega gripe ou pneumonia. Segundo me esclareceu Rubem Braga, o sádico, costuma morrer de gato. Ainda mais sendo perneta.

Fernando Sabino, As melhores crónicas (Ed. Record - 2000)

29.8.07

Cores da Aveleda



Agosto de 2007

É em lugares como a Quinta da Aveleda que os olhos reencontram as cores que foram roubadas à cidade. Nas fotos de cima, os arranjos florais incluem Impatiens e Lobelias; na base do muro, há ainda begónias-tuberosas (Begonia x tuberhybrida). Mas na Aveleda podem também admirar-se árvores formidáveis, como as duas faias nas fotos de baixo: a primeira, fotografada há poucos dias com a sua folhagem cor-de-cobre contra o azul do céu, vive rodeada por um maciço de flores; a segunda, ainda despida nos primeiros dias de Abril, deixa entrever ao longe a vinha impecavelmente alinhada; em primeiro plano, vêem-se azáleas e carvalhos (Quercus robur) com a folhagem já a despontar.

A Quinta da Aveleda está aberta aos visitantes todos os dias úteis e também aos sábados de manhã; o ingresso custa 2,5 euros por pessoa, preço que inclui prova de vinhos e de queijos numa sala de estar aconchegante, decorada ao gosto novecentista.



Agosto de 2007 / Abril de 2007

28.8.07

Saramago-das-areias

- Onde vamos hoje?
- Leva o boné.
- Onde vão os sete quilos de máquinas fotográficas?
- Vamos às dunas.
- Outra vez?... Esta sarda é da semana passada!
- Há sempre novidades. Desta vez leva também protector solar...
- Mas os leitores do blogue já não acreditam que haja mais plantas à beira-mar. Tanta areia...
- ...
- ... e hoje deveríamos ver o filme animado do rato cozinheiro, os jornais aconselham...
- Estas dunas protegidas são refúgio de muitas espécies endémicas; ir lá é como visitar o passado desta costa.
- ... ... ...
- Vem ver isto... Sabes o que é?
- Parece saramago, mas as folhas são carnudas...
- Vês? Eu não disse que haveria surpresa? E se não tivesse trazido a máquina?...
- Há ali outro exemplar, e tem etiqueta: «Coincya johnstonii (Samp.) Greuter & Burdet, falsa-mostarda, Cruciferae». A abreviatura refere-se a Gonçalo Sampaio.
- Vem ver como ficou a foto...
- Demorou dez minutos, deve estar óptima... Vêem-se os estames?
- Há aqui uma sombra... Vou repetir, tenho de ajustar melhor a velocidade...


Coincya johnstonii - Parque das Dunas da Aguda

- ...
- Agora tem uma mosquinha... Foi-se embora, não ficou na foto...
- Esta espécie está identificada unicamente no litoral norte do país, entre a Póvoa de Varzim e a Aguda.
- Eu não disse que encontraríamos algo importante? E se não tivessemos vindo cá? Com a chuva de amanhã lá se iam estas últimas flores e a minha oportunidade de fazer um post fantástico sobre uma planta lusitana e raríssima!
- «Minha oportunidade»?! Sou eu que falo dela no blogue.
- Então não vais ver o filme do ratinho?
- Qual ratinho?

27.8.07

Portuguese watercress


Agrião (Rorippa nasturtium aquaticum)

Ainda que muito levemente, esta plantinha já fez latejar em mim o peito patriótico. No final da década de 1980 e princípio da seguinte, era eu estudante em Inglaterra (nas Midlands, não em Londres), a necessidade obrigou-me a cozinhar as minhas próprias refeições. Abastecia-me num Sainsbury's, rede de supermercados que cobre o Reino Unido de norte a sul, presente nas High Streets e centros comerciais de todas as pequenas ou grandes localidades. As visitas ao Sainsbury's eram não só necessárias, mas educativas: com tudo cuidadosamente etiquetado, fui aprendendo os nomes dos produtos no vernáculo local sem passar pela vergonha de os apontar com o dedo. Para lá dos nomes, havia outras indicações úteis. Por exemplo, na altura da paranóia alimentar causada por um surto de salmonela, o supermercado sossegava os seus clientes afiançando-lhes que só vendia salmonella-free eggs; e, a somar a essa reconfortante qualidade, os ovos eram British, coisa que as donas de casa muito prezavam. Mas, ou porque a ilha não produzia tudo, ou porque a globalização começava então a impor-se, também se vendiam muitos produtos importados: laranjas espanholas ou israelitas, manteiga neo-zelandesa, mel australiano, bananas sul-americanas... e agrião português. Tirando os vinhos, o agrião foi o único produto nosso que alguma vez encontrei num supermercado inglês. Era o representante solitário da agricultura nacional. Contra a fruta, a hortaliça e os lacticínios exportados por outros países, nós respondíamos com o agrião. Fosse pela qualidade ou pelo preço, esse era um monopólio nosso: nunca vi, nas bancas de verduras do Sainsbury's, outro agrião que não fosse o português. Mas a terrível verdade é que nunca o comprei, pois não saberia o que fazer com ele. O sabor acre do agrião não me entusiasma em saladas ou sanduíches, e usá-lo para fazer sopa (a sopa de agrião pode ser deliciosa) transcendia a minha habilidade. Porém, a fidelidade dos consumidores britânicos ao agrião luso dispensava e dispensa a minha modesta ajuda; por isso acredito que ele continue ainda hoje, e não obstante a sua natural leveza, a ter um peso decisivo na balança comercial luso-britânica.

25.8.07

A figueira



Não tenho mãos para o azul.
Sonho com o mar
que não está longe mas não vejo
arder.
Só a sombra parece estar em casa
debaixo dos meus ramos:
canta baixinho enquanto se descalça.


Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1988)

24.8.07

Albarrã-do-Peru


Scilla peruviana

Como se refere aqui, o Cupressus lusitanica Mill. não é, ao contrário do que o nome sugere, uma espécie da flora portuguesa. O autor da designação é Philip Miller (1691-1771) e o engano deve-se ao facto de esta espécie ter sido primeiro identificada na mata do Buçaco, para onde terá sido trazida no século XVII do México ou América Central por colonizadores portugueses (segundo A. López Lillo e J.M.Sánchez de Lorenzo Cáceres em Àrboles en España, ed. Mundi-Prensa, 2001).

Para compensar este erro de taxonomia nada melhor que outro em sentido oposto. E cá está ele: a espécie Scilla peruviana L., a que os espanhóis chamam jacinto-do-Perú e os ingleses star of Peru, não é peruana, embora exista na América do Sul por ter sido ali introduzida e naturalizada por colonizadores europeus. Na verdade o género Scilla, da família Hyacinthaceae, abriga cerca de 40 espécies do Mediterrâneo, e continha algumas poucas da África do Sul que os botânicos transferiram para o género Ledebouria.

A S. peruviana, bolbosa que pode atingir os 40cm de altura, é da região oeste do Mediterrâneo e em Maio-Junho terá recebido em flor os primeiros veraneantes que aportaram ao Algarve; que, de volta a casa, bronzeados e descansados, poderão trazer frutos com numerosas sementes triangulares como lembrança de férias.

23.8.07

Uma flor ao fundo do túnel



Túnel da Trindade / Papaver sp.

Não se sabe em que data ou em que circunstâncias se começou a manifestar a doença da cromofobia. Certo é que, quando a patologia foi reconhecida como tal, já ela tomara proporções epidémicas, não apenas no Porto, onde se situa o principal foco infeccioso, mas um pouco por todo o país. Esse reconhecimento é, infelizmente, ainda parcial: a corrente ortodoxa do pensamento médico recusa-se a admitir que tal doença exista; ou, aceitando embora a presença da sintomatologia num número crescente de indivíduos, não considera que ela configure um estado patológico. A esse diagnóstico conservador não será alheio o facto de grande número de portadores da doença (que nunca se assumem como tal) serem pessoas de grande influência e prestígio.

O que distingue a cromofobia de outras anomalias do foro ocular é o seu carácter voluntário: um cromófobo escolheu sê-lo e, em teoria, pode deixar de o ser a qualquer momento. Os arquitectos são a classe mais atingida pela cromofobia, a ponto de haver quem queira declará-la doença profissional. Ela manifesta-se pela recusa horrorizada de qualquer cor que não seja o branco, o verde e o sizento. A natureza, na perspectiva mórbida de tais doentes, devia deixar-se de flores e limitar-se ao verde; por isso os jardins tocados pela cromofobia por interposto arquitecto são resignadamente verdes e apenas verdes.

Não existe tratamento conhecido para a cromofobia. Ou talvez exista, mas nunca pôde ser ensaiado. É que, dado o carácter heterodoxo da escola médica que primeiro descreveu a doença, nenhum doente aceitou ainda ser submetido a testes ou terapias experimentais. Contudo, talvez alguma forma de acção directa possa mitigar os efeitos nefastos da cromofobia. A estação da Trindade, a mais importante da rede do metro do Porto, desenhada por um dos primeiros e mais célebres cromófobos, é uma das obras emblemáticas dessa corrente patológica. A estação é toda ela composta por grandes superfícies lisas e monocromáticas; a tapá-la está uma placa com um imenso relvado; e é também um relvado que cobre o declive até à boca do túnel. Mas alguém, preocupado com tão extrema manifestação de cromofobia, semeou nessa rampa algumas dezenas de flores: papoilas, dentes-de-leão, consolidas, malvas e outras que não pude identificar. Ficou o pano verde todo rasgado por cores clandestinas, mas não se sabe que efeito teve nos doentes este tratamento de choque. Poucas semanas depois, uma brigada de cromófobos disfarçada de equipa de jardinagem trouxe o corta-relva e extirpou as cores rebeldes. É possível que a epidemia cromofóbica se continue a agravar. Mas - quem sabe? - talvez ela comece a regredir e este breve episódio seja uma primeira flor ao fundo do túnel.

22.8.07

Borboleteando nas dunas


Helichrysum picardii

21.8.07

Calados, a vassourar


Acer negundo - Serralves

Visto de baixo, o arvoredo
é renda verde de luar,
desmanchada ao vento crespo
que à noite regressa ao mar.

Vão passando os varredores;
vão passando e vão varrendo
a terra, a lembrança, o tempo.

E, de momento em momento,
varrem seu próprio passar...

Cecília Meireles, in Mar absoluto e outros poemas (1945)

20.8.07

O esplendor do desleixo


Luma apiculata - Casa Tait (Porto)

Esta pequena árvore da família das mirtáceas não parece ter designação em português; na sua terra natal (Chile e sudeste da Argentina) chamam-lhe arrayán, palavra que é também um dos nomes comuns da murta (Myrtus communis) em castelhano. A Luma apiculata divide-se geralmente em troncos múltiplos e não sobe acima dos cinco metros. É muito ornamental o seu ritidoma marmoreado em tons de branco e vermelho, efeito causado, tal como nos plátanos, pelo contínuo descascamento do tronco. Alguns livros garantem-nos que ela é frequente em jardins na costa atlântica temperada europeia, mas a verdade é que por cá não conhecemos senão o exemplar da foto. E não foi fácil destrinçar esta árvore do matagal que quase a sufoca: glicínias, áceres, fiteira, fetos, buxo, ligustros - todos se acotovelando numa ânsia de espaço vital que reproduz a genuína lei da selva. Mas isto não é selva: é património municipal; é a mais triste prova do valor (próximo de zero) que a Câmara do Porto atribui aos jardins à sua guarda.

Há quem confunda tamanho desleixo com «romantismo» - e é talvez a ingenuidade de quem assim pensa que permite à Câmara manter os jardins da Casa Tait neste estado vergonhoso. O «abandono» que o verdadeiro romantismo prezava era resultado de uma encenação cuidada; era um «abandono» que nada devia ao acaso e nunca poderia sobreviver à negligência. O que vemos hoje, na Casa Tait e também em boa parte do Palácio de Cristal, é espelho de uma cidade que desistiu de ter brio.

18.8.07

«There were times...

... when I could not afford to sacrifice the bloom of the present moment to any work, whether of the head or the hands. I love a broad margin to my life. Sometimes, in a summer morning, having taken my accustomed bath, I sat in my sunny doorway from sunrise till noon, rapt in a revery, amidst the pines and hickories and sumachs, in undisturbed solitude and stillness, while the birds sang around or flitted noiseless through the house, until by the sun falling in at my west window, or the noise of some traveller’s wagon on the distant highway, I was reminded of the lapse of time. I grew in those seasons like corn in the night, and they were far better than any work of the hands would have been. They were not time subtracted from my life, but so much over and above my usual allowance. I realized what the Orientals mean by contemplation and the forsaking of works. [... ]»
.
Henry D. Thoreau, in Walden: Or, Life in the Woods (4. Sounds, §2); Shambhala Publications, 150th Anniversary, 2003, p. 96

17.8.07

Crisântemo-bordado


Spiraea salicifolia

São inconfundíveis os ramalhetes floridos, piramidais ou achatados, nas extremidades dos ramos novos das plantas do género Spiraea, populares como grinaldas-de-noiva. Trata-se de aglomerados de inúmeras flores de cinco pétalas, rosa ou brancas, pequeninas e enfeitadas com longos estames que lhes dão o característico ar farfalhudo. As flores e as folhas da S. salicifolia são perfumadas mas, curiosamente, os aromas de umas e outras são distintos. O exemplar da foto é da Quinta de Sto. Inácio.

Este género tem cerca de cem espécies do hemisfério Norte, com maior variedade na região asiática, todas de folha caduca (e de algumas faz-se saboroso chá), exigindo frio e terra fértil bem irrigada. São especialmente vistosas em maciços ou renques e multiplicam-se facilmente por estacas preparadas no Inverno.

15.8.07

A ler- "Descansar os olhos na azinheira"

no Público de hoje, por Fernando Catarino

«(...) * Nome científico: Quercus rotundifolia Lam, família Fagaceae. A história de Fátima está indelevelmente ligada a esta árvore, que, ao tempo das aparições, era muito abundante na Cova da Iria.
Em plena paisagem cársica, junto ao rebordo norte do planalto de São Mamede, há uma sucessão de afundamentos no relevo, pequenas depressões fechadas, de fundo abaulado, de onde veio o nome "cova". Estas covas opõem-se a estruturas semelhantes mas mais extensas e aplanadas, os "covões", que se encontram junto de diversas povoações com a mesma denominação.
Não faltavam, na Cova da Iria, penedos e locais para as brincadeiras, havendo pasto fresco todo o ano, pelo que os pastorinhos gostavam de lá levar o gado. Apesar da aridez da serra, a Cova da Iria tem um clima mais húmido do que o restante Maciço Calcário, devido às chuvas e à humidade dos ventos tocados de norte.
(...)
Do ponto de vista botânico, as azinheiras pertencem a um grupo de árvores com uma vastíssima distribuição biogeográfica e grande diversidade, agrupadas sob o nome comum de "carvalhos". Trata-se de vegetais com grande interesse científico que caracterizam bem as peculiaridades edafo-climáticas e a ecologia de muitas paisagens no hemisfério norte.
De grandes longevidade e dimensões, dada a excelência da sua forma arbórea, a riqueza de utilizações e o valor económico, estas árvores são marcas notáveis dos locais e das paisagens em que ocorrem. Não admira, por isso, que façam parte integrante da memória e da história cultural dos povos que sempre lhes votaram destacado lugar nas lendas e na literatura.
Ricas de simbolismo, a ponto de, em várias civilizações antigas, terem tido o estatuto de árvores sagradas, as quercus, o nome que os romanos davam aos carvalhos, merecem, só por si, ser protegidas e ter a sustentabilidade dos habitats em que ocorrem assegurada.

Foi, decerto, uma bênção que, nas repetidas e vultuosas obras de adaptação e modernização do recinto do santuário, tenha sido possível poupar a belíssima
"azinheira grande" , junto à Capelinha, recentemente considerada de "interesse público". Com ou sem peregrinos à volta , faça o tempo que fizer, é sempre reconfortante descansar os olhos em tão formoso padrão vivo, testemunha e memória da harmonia ambiental do sítio e do tempo dos pastorinhos.

*Excertos da entrada "Azinheira", da Enciclopédia de Fátima, Ed. Principia; selecção de textos de António Marujo»
..................
Ler excertos de "Pastoral" (1º quadro) e "A Flor da Azinheira" (2º quadro) de O mistério de Fátima entrevisto, visionado e contado em alguns poemas por António Correia de Oliveira, 1954

"En mi pecho florido..."

.
«En mi pecho florido
Que entero, para él solo, se guardaba.
Mi bien quedó dormido.
Y yo le regalaba
Y el ventalle de cedros aire daba.
El aire de la almena,
Cuando ya sus cabellos esparcia
Con su mano Serena,
En mi cuello hería
Y todos mis sentidos suspendía »


San Juan de La Cruz- Noche oscura del alma
Los Mártires, Granada, 1586
Poema transcrito daqui
Ver
foto do "famoso cedro bajo el cual San Juan de la Cruz escribió parte da obra". Trata-se de um Cupressus lusitanica (conhecido vulgarmente entre nós por Cedro-do Buçaco)

Cupressus lusitanica- Buçaco



Fotos-Agosto 2007 ....................................
Em cima: "Avenida dos Cedros"; em baixo: "Cedro de S. José", o mais famoso Cupressus Lusitanica da Mata do Buçaco, espécie vulgarmente chamada Cedro-do-Buçaco, com o tronco parcialmente soterrado.
Ver álbum de fotos: Cupressus no Buçaco

Esta é "árvore nº 16" de um já não existente percurso botânico , integrado num conjunto de circuitos pedestres cuja concepção, etiquetagem e montagem de estruturas informativas (agora quase completamente destruídas) "foram uma colaboração gratuita dos alunos da Escola Profissional Beira Aguieira, de Mortágua, sob a coordenação de Francisco Coimbra."



O "Cedro de S. José" é considerado o mais antigo Cupressus Lusitanica do Buçaco. Segundo a versão mais difundida, a sua introdução na Mata, ter-se-á efectuado entre a fundação do Convento (ca 1630) e 1644, ano em que o então reitor inaugurou a capela de S. José. No entanto, o professor Jorge Paiva, baseando-se em textos da época referentes a datas anteriores que já mencionam a existência de árvores de grande porte e até mais especificamente , o "funesto cypres" (na poesia de Bernarda de Lacerda, 1634), é de opinião que a introdução dessa primeira exótica na mata do Buçaco é anterior à chegada dos frades Carmelitas Descalços, não sendo de descartar a hipótese de se ter efectuado através de sementes do Carmelo de Granada* trazidas por San Juan de la Cruz «para Portugal, na viagem que efectuou, em 1585, de Granada, por Sevilha, até Lisboa.» Jorge Paiva , in A Relevante biodiversidade da mata, Monumentos, n.º 20, DGEMN, 2004, p. 27

Ernesto Goes, no seu livro sobre árvores monumentais (1986), refere que este exemplar tinha cerca de 5, 7 m. de PAP e 22 metros de altura e que «ao seu lado foi derrubado pelo último ciclone de 1981, um outro exemplar excepcional exemplar em que o tronco tinha na base 5 m. de perímetro.»

Apontadores:

Cedro de San Juan no *Carmen de los Mártires (outra foto)
Ficha do Cedro-do-Buçaco no Naturlink
A Mata Nacional do Buçaco “Catedral verde do Cupressus lusitanica em Portugal ” (pdf), por José Neiva Vieira
Cupressus lusitanica in The Gymnosperm Database

14.8.07

Duas eufórbias


Euphorbia neriifolia

Poucos serão os géneros botânicos com tão grande variabilidade morfológica como o género Euphorbia: há eufórbias que são pequenas herbáceas (algumas até espontâneas no nosso país), outras que formam arbustos espinhentos, outras que atingem porte arbóreo, e outras ainda, atarracadas ou esguias, que facilmente se confundem com cactos. Distribuem-se por climas tropicais, sub-tropicais e temperados de todos os continentes. O que há de comum a todas elas é a seiva leitosa e irritante que segregam (e torna dolorosos os arranhões por elas provocados) e a estrutura peculiar das flores.

A primeira das eufórbias de hoje é a E. neriifolia, fotografada no Jardim Botânico do Porto: trata-se de um arbusto suculento, ramificado, de grossas pernadas verticais, originário da Índia e da Malásia; o seu nome comum em inglês (hedge euphorbia) informa que ele é usado para formar sebes; e o epíteto neriifolia refere-se à suposta semelhança das suas folhas com as do Nerium (loendro).

A segunda Euphorbia, mais humilde, pertence à flora portuguesa e é uma presença comum nas nossas dunas; o exemplar da foto é da Aguda. Trata-se da E. paralias, que em vernáculo recebeu o curioso nome de morganheira-da-praia. Alguém sabe explicar porquê?


Euphorbia paralias

13.8.07

Camarinha


Corema album

Era uma vez uma camarinha que queria ser cabeça de fósforo. Para quê perguntou uma grainha de uva.

Ana Hatherly, Tisana 65 (1973)

12.8.07

Reflexão


Euphorbia sp.

.....Sim, olhar a paisagem...
.....Olhá-la como um bicho
.....Ou como um lago.
.....Olhá-la neste vago
.....Sentimento
.....De pasmo e transparência.


..........Miguel Torga - Diário XI (1973)

11.8.07

Negrilho revisitado

No centenário do poeta

Poesia "A um Negrilho "- Busto de "Miguel Torga baseado no retrato do Mestre Eduardo Tavares -1955 e interpretado pelo discípulo L. Ribatua-1995".

Fotos Abril 2006 - Um dos lugares de Miguel Torga: Largo de Eirô em S. Martinho de Anta- povoação do concelho de Sabrosa onde nasceu em 12 de Agosto de 1907. Ver fotografia deste negrilho ou ulmeiro (Ulmus minor) ainda vivo.
.
Na laje está inscrito o célebre poema:
A um Negrilho
S. Martinho de Anta, 26 de Abril de 1954

Na terra onde nasci há um só poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

Miguel Torga in Diário VII (1956)
.
A não perder: documentário "Miguel Torga, o meu Portugal", domingo (dia 12) na RTP2, pelas 21:15. Mais informação aqui

10.8.07

Reedição da obra de João de Araújo Correia

Uma boa notícia: a Imprensa Nacional - Casa da Moeda iniciou a reedição da obra do duriense João de Araújo Correia, um dos grandes contistas e cronistas portugueses do século XX e um prosador exemplar. O livro acabado de sair intitula-se Contos e Novelas I, e colige os três primeiros livros de contos publicados pelo autor: Contos Bárbaros (1939), Contos Durienses (1941) e Terra Ingrata (1946). O segundo destes livros não conhecia edição desde 1970, mas os outros dois haviam sido reeditados em 1983 e 1985 pela Editorial Estampa, cuja projectada reedição das obras completas de JAC se gorou ao fim de quatro volumes. Em 1999 a Campo das Letras fez sair uma descuidada antologia com o título O Mestre de Todos Nós - e é tudo quanto a edições de JAC nos últimos 30 anos, numa rarefacção que, se dificultou a sua chegada aos leitores, fez esfregar as mãos de contentes aos alfarrabistas.

Como os nossos visitantes mais assíduos poderão saber, João de Araújo Correia foi também (e por isso já aqui o trouxemos muitas vezes) um incansável defensor das árvores nas crónicas que escrevia regularmente para a imprensa - e isto num país onde quase toda a gente as desdenha. Nada melhor para comemorar esta edição do que (re)lermos hoje uma dessas crónicas.

.......Passarinhos
.......Júlio Brandão queixa-se no Janeiro da falta cada vez maior de passarinhos na terra portuguesa e atribui essa calamidade, pungente para o seu coração de poeta, à sanha com que o rapazio persegue a ave no ninho e fora do ninho.
.......Há muitos anos se afirma que os pássaros vão rareando. Eu era estudante e seria quando ouvi dizer a um médico militar da minha terra, Canelas do Douro, que as miríades de pássaros da sua infância estavam reduzidas a meia dúzia de bicos.
.......- Já não há pássaros, concluía.
.......O que não lhe ouvi foi explicar a causa da extinção das avezinhas. Não a atribuiu ao rapazio. Não a atribuiu a nenhum outro malefício.
.......Fiquei sem saber o motivo do êxodo dos pássaros até ao dia em que minha mãe me contou a história das árvores na nossa aldeia. História simples, breve, dolorosa como é quase sempre história de árvores em país idólatra de descampados. Narrava minha mãe que o terreiro onde se fazia a feira, a rua de S. Vitorino e a colina sobranceira ao povo eram rios e mares de verdura. Rematava, dizendo que esse arvoredo fora sacrificado a caprichos públicos e particulares. Lo de siempre, como diria o Campoamor se escrevera sobre árvores uma dolora.
.......Minha mãe, coeva do médico, deu-me sem querer a explicação que ele omitira. Se a nossa aldeia tinha sido toda ela uma árvore e a árvore tombara, com ela tinham perecido os passarinhos que a habitavam.
.......No tempo em que a minha aldeia era arvoredo, embora os rapazes se entretivessem a matar os pássaros, não os matavam todos. Ficavam bandos deles para regalo de ouvidos e olhos sentimentais. Não é certo que a maior parte das avezinhas vivem nos ramos?
.......A destruição das árvores, na minha opinião, é a causa do sumiço das aves da minha aldeia. Foi, pelo menos, causa importante. Na terra pelada, não cantam aves.
.......O que sucedeu lá em cima, no meu povoado, sucedeu por esse país fora... Jurou-se guerra à árvore em nome de qualquer princípio de mim desconhecido. Ouvi dizer que é por higiene, estética ou urbanismo que as árvores se arrancam ou degolam. Eu creio que sim, que é por isso tudo, mas a higiene, estética e urbanismo dos arboricidas estão acima do meu entendimento. Paciência... Sei ao menos que a falta da folhagem é causa de nos ir faltando em cada Primavera a poesia dos ninhos e das asas. Faz que a paisagem emudeça quando devia cantar.
.......Não será apenas o arboricídio o motivo de tão lúgrube mudez. É crível que os naturalistas lhe assinalem outro. Não estará a Natureza cansada de produzir pássaros para olhos cegos e ouvidos surdos? Não sei. Sei que os pássaros faltam e que a falta é demasiado grave para certas almas.
.......A educação do rapazio seria óbice ao desaparecimento das aves se fosse possível realizá-la a tempo... Não é. O rapazio é bárbaro por inocência. Destrói o ninho e mata o pássaro com impassível candura. Cuida que faz bem. É milagre vencer-se uma obstinação angélica. A espingardinha é uma açucena.
.......Coibir a guerra à passarinhada seria acertado... O pior é que exigiria um polícia ao pé de cada moço - um polícia que talvez se entretivesse a ensinar pontaria ao menino bonito.
.......Meu caro poeta Júlio Brandão: os pássaros ainda cantam. São poucos? Contentemo-nos com migalhinhas.
.......Originalmente publicado no Jornal de Notícias
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Incluído em Três meses de inferno (1947)

9.8.07

Espargo-pendente



Asparagus densiflorus «Sprengerii»

Não foi fácil fotografar as flores deste exemplar de Asparagus densiflorus «Sprengerii» nos jardins do Palácio de Cristal, e não se deveu isso ao facto de serem minúsculas. É que as sebes destes jardins, à semelhança das tílias da alameda, têm rotina militar, sempre em fase de recruta: o cabelo (leia-se florico) não pode espigar, e a ramagem (como franja) tem de manter-se em corte rente, para que as tropas estejam sempre aprumadas na parada. Por isso, o intervalo entre localizar a planta e correr a casa buscar a máquina fotográfica foi bastante para, ao som do pior clarim, a tesoura zelosa (leia-se serra de desbastar) ter desfeito quem agora ousou florir tão despenteadamente. Mas houve uma planta que se refugiou num canteiro e conseguiu (para já) escapar ao desbaste.

A família Asparagaceae é relativamente isolada mas tem cerca de 130 espécies sul-africanas. As do género Asparagus (do grego aspáragos, talo) não têm folhas autênticas, mas cladódios, isto é, ramos verdes que se deformam e assumem a tarefa da fotossíntese. São achatados para aumentar a área de exposição ao sol, carnudos para armazenar água, revestidos com uma camada protectora para evitar a transpiração excessiva, e dispostos em hélice ao longo do eixo do ramo para aumentar a eficácia de todos estes detalhes. As folhas verdadeiras são espinhos que pouco duram. As flores são estreladas ou campanuladas; seguem-se-lhes as bagas vermelhas, tóxicas mas muito ornamentais.

A espécie Asparagus densiflorus «Myersii», o aspargo-rabo-de-gato, difere do cultivar «Sprengerii» essencialmente nas hastes em que a falsa folhagem se organiza e na floração menos frequente. A A. setaceus acompanha usualmente os cravos nos enfeites dos trajes de bodas. Os espargos da culinária são os talos comestíveis da planta Asparagus officinalis.

8.8.07

Não bulirás

Ainda no rescaldo de uma visita à Mata do Buçaco.*
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«Para protecção da mata, os religiosos alcançaram do Papa Urbano VII, logo em 1643, uma sentença de excomunhão maior contra todos os que sem autorização do prior, entrassem na área da clausura "para efeito de cortar árvores ou espécies (...) ou para efeito de qualquer outro dano."
Respondia-se assim, a um problema real, compreensível, antes de mais, pelo impacto da fundação do convento junto das populações das redondezas. A presença dos carmelitas prejudicava muitas pessoas habituadas, anteriormente, a servirem-se daquelas matas como sendo comuns, embora, como sabemos, pretencessem de direito aos prelados da Diocese de Coimbra. A nova fundação despertou, pois, algum descontentamento local. Essa situação poderá explicar a má vontade patente nas denúncias, feitas quando da Restauração, sugerindo que a clausura dos carmelitas poderia estar a ocultar forças inimigas. De qualquer forma, eram uma realidade os repetidos prejuízos causados por entradas furtivas na mata, nomeadamente para obtenção de lenha.
Os abusos continuaram de modo que, em 1690,o Bispo de Coimbra, D. João de Melo, entendeu mandar divulgar a referida sentença de excomunhão nas paróquias circunvizinhas e fazer gravar o seu texto numa lápide colocada nas portas de Coimbra, que eram então a entrada principal da mata.
Neste final do século XVII a mata do Buçaco tinha já alcançado renome. Foi mesmo visitada por botânicos que se pronunciaram com admiração. Assim aconteceu com G. Grisley, numa obra de 1661, e com J. Tournefort que a visitou em 1689 e que, num trabalho publicado em 1719, registou as diversas espécies observadas. Entre estas, os famosos cedros eram, ainda a única árvore exótica existente.»
in Novo Guia Histórico do Buçaco por J. J. Carvalhão Santos, Minerva, 1997, p.18

*Hoje, na mata, cruzei-me com dezenas de forasteiros, como eu, como nós, perdidos de mapas na mão. Claro que não fui às cegas, e reencontrei a Araucária (do Palácio Hotel >), o Cedro (de S. José), o Eucalipto gigante (da curva), o Freixo (da Fonte Fria) ... mas o mapa que recolhi no posto de turismo do Luso , com listas das árvores mais importantes da mata numeradas, assim como as fontes, ermidas, etc., tinha-me dado falsas esperanças. Foi ilusão de pouca dura, com bom efeito apenas no papel: no local, excepto umas placas antigas a indicar os caminhos principais, e três ou quatro árvores, tudo o resto não ostenta um único sinal. Nem o próprio cedro de S. José e a sua ermida (com a figura do santo) de porta abertas e vandalizada- saem do terrível anonimato. .
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Uma mata meia abandonada que não se dá a ler, percursos com histórias que não se mostram. Segundo nos contaram, aparentemente, as ermidas e outras construções nunca terão tido letreiros em língua vernácula, mas até já houve percursos botânicos (patentes no mapa) devidamente assinalados, e muitas árvores tiveram placas identificativas que foram entretanto sistemática e repetidamente arrancadas. Actos de vandalização, parece que sobretudo por parte de população juvenil , que a falta de fiscalização e de manutenção evidentes devem até facilitar. Portugal no seu pior (e melhor).

7.8.07

A ponte, as palmeiras e o sul


Vista da rua do Gólgota com palmeiras-das-Canárias (Phoenix canariensis) em primeiro plano

É por pontes como esta que a cidade se esvazia, rumo ao sul. O sul, na acepção mais extrema do termo, é a única parte do país que não fecha em Agosto. Por isso, e para não definharem à míngua de companhia e de entretenimento (e até de coisas mais básicas), é no sul que os nossos concidadãos vão desaguar em grossas torrentes. Se o país fosse a tábua de um baloiço, nós aqui a norte, em número escasso para equilibrar as hostes sazonais a sul, ficaríamos o mês inteiro a espernear aflitos, sem nunca pormos os pés no chão. (E Lisboa, que é onde aproximadamente se situa o ponto de apoio, nem notaria a nossa atribulação.)

Quando vejo os turistas a passear pelo Porto, dá-me vontade de lhes pedir desculpa. Vieram enganados? Ninguém lhes disse que este mês fecham lojas, restaurantes, teatros, salas de música, cinemas e museus? E que só por um absurdo inexplicável não fecham também os hotéis? Não os preveniram das obras que transformaram passeios e ruas em labirintos poeirentos e traiçoeiros, delimitados por grades e fitas vermelhas?

Claro que há um Porto intemporal, feito de ruas, jardins e miradouros, que não faz férias em Agosto e talvez compense transtornos e desilusões. Escolhi duas vistas com a ponte da Arrábida para ilustrar essa cidade fiel: duas paisagens com palmeiras (palmeiras que vieram do sul mas se enraizaram a norte) e com marcas de uma ruralidade, embora decadente, que poucos associariam ao Porto.


Vista do jardim das aromáticas (Palácio de Cristal) com uma palmeira Washingtonia robusta