25/12/2004

O Natal na Sala e na Cozinha


Fotos: pva 0412 Porto - caneleira (Cinnamomum zeylanicum)

Para este postal estava reservado um tema que, visto do ângulo apropriado, era irrepreensivelmente natalício. Fazia um paralelo entre a flora exótica e a fauna também exótica: a flora exótica era representada pelo eucalipto que, vindo da Austrália, por cá se instalou de forma tão avassaladora; a fauna pelo Pai Natal, que de tal modo se multiplicou em Portugal (e em especial no Porto) que acabou por extravasar dos centros comerciais para desfiles de rua.

Mas, embora um tal tema fosse natalício, talvez o seu espírito fugisse à tolerância e bonomia próprias da Quadra. Daí que resolvêssemos pôr de lado a analogia entre o eucalipto e o Pai Natal (que só mencionámos para que, se alguém desenvolver o tema antes de nós, fique registada a nossa prioridade) e tenhamos optado por assunto menos controverso.

Preocupou-nos, em textos e imagens anteriores, sobretudo a face exterior do Natal: as suas cores, os seus enfeites. Ora, é sabido que o Natal não é só isso: além das luzes a piscar e da troca de prendas, há também o que se come. A festa vistosa não nos deve fazer esquecer todo o trabalho de preparação que a sustenta; a sala colorida de luzes, com a lareira a crepitar e a mesa farta de iguarias, não poderia existir sem a cozinha. Por isso, tendo aqui falado de árvores de Natal, que se limitam a exibir-se à nossa admiração, seria imperdoável esquecermos as árvores que na cozinha dão o corpo ao manifesto.

Imaginem como seria insípido e inodoro um Natal sem canela. É pois de inteira justiça o destaque que hoje aqui lhe damos, com uma foto de corpo inteiro de um jovem exemplar de caneleira (Cinnamomum zeylanicum) e um grande plano da sua folhagem luzidia, de tom verde-limão. Embora as folhas, quando esmagadas, libertem o inconfundível cheiro a canela, não é delas que se extrai esse condimento, mas sim da casca da árvore.

"Natal à Beira-rio"


Foto: mdlr o4o4 - ramagem de abeto (Abies spp.)
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É o braço do abeto a bater na vidraça!
É o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...
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Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.
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Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia!
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David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal (1971)
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24/12/2004

Madeiro do Natal

«Noite geralmente fria, árvores descarnadas a erguerem os braços para o céu, campos desertos, caminhos sem viandantes (a não ser os que à última hora recolhem a pátrios lares), a véspera de Natal tem não sei quê de unção, de poesia, que a todos, cristãos ou livres-pensadores, crentes ou ateus, faz reunir, vindo das maiores distâncias, no conchego e convívio santo da família.
E o nosso povo, mantedor fiel de velhas e lindas tradições, vai ainda hoje, para honra e louvor do Menino Jesus, e para que os pobrezinhos tenham onde se aquecer, colocar no adro da Igreja grandes troncos de árvores que arderão, e morrerão em vivo braseiro, durante o ciclo do Natal.
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Em Castelo-Branco, como em grande número de povoações da Beira-Baixa, são os rapazes que, aproveitando o primeiro carro de de bois ou de muares que se lhes depara na via pública, fazem os transportes de madeiros.
Em Idanha-a-Nova, são as mordomias de São João, do Espírito Santo, etc. que, enfeitando os carros dos bois com grandes fitas multicolores, entre vivas aos santos da sua devoção, e acompanhados de uma grande caldeira de cobre ou de uma cântara cheia de vinho de onde todos bebem por um copo de lata ou de esmalte com asa, vão carregar grandes troncos de velhas árvores que hão-de arder no adro da Igreja ou junto das das capelas daqueles santos.
Em Castelo-Branco e em Idanha-a-Nova, como em todas as localidades que pertencem ao bispado de Portalegre, durante toda a noite de Natal, especialmente à entrada e saída da missa da meia-noite, ou "missa do galo", não cessa a romaria ao madeiro, sucedendo-se uns aos outros, alegres grupos a entoar, com a canção que se segue, hosanas ao Salvador
» (Segue-se a transcrição da conhecida canção em que uma das quadras se inicia com o verso "Entrai pastores entrai..." ) DIAS, Jaime Lopes - Etnografia da Beira. Câmara Municipal de Idanha-a-Nova : 1991 *, vol 1 pp.155-6
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«Em Louriçal do Campo queima-se na noite de Natal, o madeiro que segundo velho costume, deve ser roubado.
Para que se não saiba quem o rouba, as vacas e os bois que puxam o carro que o transporta vão cobertos com mantas, e os homens encapuçados. Ao atravessar a povoação, os homens carregam-se de pedras para, se alguém aparecer às janelas, o apedrejarem e obrigarem a recolher-se.» Id., vol 5, p. 53
*Edição facsimilada da edição de 1944 -Lisboa: Torres &C.ta- Livraria Ferin, 11 vols.
(nota 1: a referência ao autor das notáveis xilogravuras que ilustram esta obra ficará para depois já que não encontro o local onde registei o seu nome... ; nota 2: o jornal Público de hoje também refere a tradição associada à queima do Madeiro)

23/12/2004

Alternativa -Colar aromático

Ainda faltam algumas prendas? Não tem pachorra para ir para o meio da confusão?
Então faça como eu: dê um salto ao eucaliptal mais perto. Sinta o aroma balsâmico! Os eucaliptos estão em flor e o chão encontra-se atapetado pelos frutos que caíram das árvores, a maior parte deles sem o opérculo característico. Apanhe uns tantos, mas tenha cuidado em escolher os verdinhos e maleáveis.
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Fotos: mdlramos 0412 - Eucaliptus globulus- Parque da Cidade (Porto)

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Agora vai precisar de uma agulha grossa, de uma linha resistente, de um dedal e de uma tesoura. Se levar este material consigo, tanto melhor, se não, fica para TPC.


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Espete a agulha na parte central dos frutos e, apoiando a ponta verticalmente, empurre com o dedal. A agulha entra facilmente: pode enfiar muitos frutos ou poucos, entremeando ou não com alguns opérculos, dando nós, enfim... a possibilidade das variações depende da imaginação, do material disponível e do tempo. Mas mesmo um colar simples já produz um belo efeito, exala um perfume divino e faz uma prenda apetecível! Eu adorava que me dessem um! (Já que vou oferecer os que fiz...)

Se o seu eucaliptal mais à mão é o do Parque da Cidade do Porto, e se ainda assim não tem as prendas todas, pode sempre passar pela Loja do Comércio Justo situada no Núcleo Rural do Parque. Ao menos aí gasta o seu dinheiro, em princípio, de uma forma mais justa e solidária.

Estrela de Natal


Fotos: pva 0412 - Jardim Botânico do Porto

Apreciámos já várias candidatas a "árvore-de-Natal", espécies que se destacam por naturalmente se fazerem acompanhar das respectivas bolinhas. A planta da foto traz o enfeite que faltava: uma estrela, de um vermelho natalício que faz empalidecer o dourado das outras. Parece feita de folhas que nasceram afogueadas, como labaredas em estado sólido. Está a tornar-se entre nós planta típica de Natal, embora não goste de frio. Daqui a uns anos, e tal como aconteceu noutros tempos com pinheiros, abetos e piceas, teremos nos nossos jardins alguns destes arbustos já com bom porte?

Conhecida vulgarmente por estrela-de-Natal ou poinsettia - em homenagem ao naturalista J.R. Poinsett, primeiro embaixador americano no México, que divulgou no século XIX as qualidades ornamentais desta planta - é um arbusto mexicano que pode atingir 3 metros de altura, da família das euforbiáceas, de que o Jardim Botânico do Porto contém um exemplar bem desenvolvido no canteiro das suculentas. No inverno formam-se brácteas rubras, que lembram folhas, em volta de flores pequeninas de cor amarela, sem dúvida um modo caprichoso mas económico de se embelezar. O nome científico é Euphorbia pulcherrima; o epíteto específico, superlativo do latim pulchru (belo), alude à formosura deste arbusto quando em floração. Esta ocorre em resposta à duração dos dias, beneficiando das noites longas próximas do solstício de Inverno. As flores pouco duram depois de desabrocharem; as brácteas podem manter-se coloridas por vários meses.

E aqui está uma planta que se veste a preceito para a nossa festa, calorosa como um abraço.

22/12/2004

Excurso - as magnólias já estão a florir

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Foto: mdlr 04.12.22 - Magnolia spp. (Rua do Lidador, Porto)
Sabíamos que estavam aí para breve, o poema já o anunciara... Entretanto, ei-las que começaram a florir!
(Excurso, porque pensava que só me ia ocupar de árvores de Natal e afins...;-)
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Apontamento sobre o solstício

Com o solstício ("sol stare") de Dezembro, ontem dia 21, precisamente às 12:42 - segundo informa o Obervatório - o Sol encontrou-se no seu ponto mais a Sul do seu caminho anual no céu e foi o dia mais curto do ano, ou vendo as coisas pelo outro lado, a noite mais longa.
No nosso calendário começou oficialmente o Inverno. No calendário tradicional Chinês (que muito e há muito me apraz) na sua divisão do ano em 24 períodos >, ontem foi o pico do Inverno que já tinha começado em Novembro (ca. dia 7). A partir de agora os dias começam a crescer...
(I like the idea! ;-)
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A árvore de Natal da Nova-Zelândia

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Foto mdlr 0406 - Metrosideros excelsa em flor (Foz)
A propósito da quadra natalícia, recuperámos esta fotografia (q. por coincidência, foi a primeira entrada no blog) da floração de um metrosídero. Enquanto por cá, estas árvores florescem entre Junho e Julho, na Nova Zelândia de onde são originárias, cobrem-se das suas magníficas flores entre Novembro e Janeiro. Os primeiros colonos usaram-nas para decorar as suas casas durante as festas do Natal e do Ano Novo e desde então esse costume manteve-se, razão por que chamam aos metrosíderos a "Árvore de Natal da Nova- Zelândia".
Ver Metrosidero em Flor - Passeio Alegre

21/12/2004

A Senhora da Abadia anda no seu pinheiral

Docemente, pela mão da Senhora da Abadia, entramos também na quadra do Natal e vamos colher pinhas no pinheiral...
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«A senhora da Abadia
Anda no seu pinheiral
A apanhar as pinhas verdes
Para a noite de Natal.
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A Senhora da Abadia
Diz que m'há-de dar o dote.
Se m'o há-de dar na vida.
Dê-mo na hora da morte.
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A Senhora da Abadia
Tem uma fita no braço,
Que lhe deram os anjinhos
A vinte e cinco de Março.
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No concelho de Amares ergue-se o santuário de Nossa Senhora da Abadia, célebre entre os mais célebres de toda a província. Está situado em Bouro, no declive de uma ramificação da serra do Gerês. » (in Alberto Pimentel, As Alegres Canções do Norte. Lisboa : Livr. Viúva Tavares Cardoso, 1905, p.175)

Gota d'água


Foto: mdlr 02 folha de Tropaeolum majus

EPIGRAMA N.º 5

Gosto da gota d'água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.

Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar - límpido e exacto.

E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do acto.

Cecília Meireles, Viagem (1939)

20/12/2004

Japoneira na horta, camélias nas couves


Foto: mdlr 0412- Ramalde (Porto)
Por cá, não é só em jardins requintados que há japoneiras -também as vemos em quintaizitos remendados, como este, sobrevivendo em Ramalde.
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19/12/2004

5 ideias falsas sobre as "podas" radicais ou rolagens

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A propósito das "podas" radicais, ou "rolagens" praticadas em locais públicos e privados por pessoas sem formação, aconselha-se a leitura do texto de Dr. Francisco Coimbra "Se as árvores falassem"*, de que aqui se publicam alguns excertos:
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«As árvores que dignificam as nossas praças e avenidas e embelezam os nossos jardins e parques são um elemento essencial de qualidade de vida, autênticos oásis no "deserto" que são tantos dos nossos espaços urbanos actuais. E, no entanto, é por demais evidente a ainda quase absoluta ausência de sensibilidade para o papel da Árvore em Meio Urbano. (...)
De facto, é inacreditável como certos preconceitos sobre a poda de árvores ornamentais estão arreigados nos responsáveis pela sua gestão e manutenção. É frequente ouvirmos dizer, como justificação, que as "podas" radicais, ou "rolagens", rejuvenescem e fortalecem as árvores, ou que são a única forma económica de controlar a sua altura e perigosidade... quando, na verdade, devia dizer-se de uma poda o mesmo que de um árbitro: - tanto melhor quanto menos se der por ela! (...)

1. A poda drástica rejuvenesce a árvore?- NÃO! (...) O facto de, após uma operação traumática, as árvores apresentarem uma rebentação intensa- como tentativa "desesperada" de repor a copa inicial - não significa rejuvenescimento, mas sim um "canto-de-cisne", à custa da delapidação das suas reservas energéticas.(...)

2. Fortalece-a? - NÃO, a poda radical é um acto traumatizante e debilitante, uma porta aberta às enfermidades. (...)

3. Torna-a menos perigosa? -NÃO, estas "podas" induzem a formação, nos bordos das zonas de corte, de rebentos de grande fragilidade mecânica, pois têm uma inserção anormal e superficial no tronco. (...)

4. É a única forma de a controlar em altura? - NÃO, a quebra da hierarquia -que estava estabelecida entre os ramos naturalmente formados - permite o desenvolvimento de novos ramos de forte crescimento vertical, mas agora de uma forma desorganizada e muito mais densa! (...)

5. É mais barata? - NÃO, se a gestão do património arbóreo for pensada a médio e longo prazo! (...)»

* «A propósito das "podas" da Avenida Dr. Manuel Lousada... SE AS ÁRVORES FALASSEM!!!", Artigo publicado no Jornal da Mealhada de 27.03.2002 , por Francisco Coimbra (ex- Vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Arboricultura(SPA), e é Consultor em Arboricultura Ornamental (ver: "árvores & pessoas - gestão da árvore no espaço urbano, Lda.").

Ler versão mais completa aqui
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A máquina zero


Foto: pva 0412 - Massarelos - Porto

Ao fundo corre um rio Douro de cor pálida e desenha-se a traço leve o arco do viaduto do Cais das Pedras, obra de 1998 que, ligando a margem direita do rio a ela própria, oferece aos automobilistas encravados no trânsito uma vista panorâmica do arruinado casario de Massarelos. Tirada dos jardins do Palácio de Cristal, a foto mostra a nova ruína que agora mancha a mesma paisagem: estes tristes espantalhos - que, no tempo em que eram árvores, respondiam pelo nome de choupos - são obra recente da nossa Câmara, ou de alguém por ela autorizada. Como é possível fazer-se isto? Regressámos no Porto às podas municipais de má memória? Mais valia que tivessem arrancado todas as árvores, em vez de as deixarem reduzidas a destroços sem dignidade e sem préstimo.

18/12/2004

Reciprocidades

Como nós habitante do Porto, cidade surpreendente , agora em versão blog?
(Este post já vai na sua terceira versão... será a última?;-)

Árvores do Jardim do Carregal #5


Foto: pva 0411 - Carregal - Sequoia sempervirens

Além da sequóia-gigante (Sequoiadedron giganteum) de que falámos anteriormente, o Jardim do Carregal possui quase duas dezenas de exemplares de outra espécie aparentada: a sequóia-sempre-verde (Sequoia sempervirens). Estas duas árvores da família Taxodiaceae são originárias da Califórnia e destacam-se ambas pelas dimensões recordistas que atingem nos seus territórios de origem: a sequóia-gigante é a árvore mais volumosa que se conhece, e a sequóia-sempre-verde é a mais alta. A actual detentora do título de árvore mais alta mede 112 metros e mora na Reserva Estadual de Montgomery, na Califórnia; conforme aqui se conta, a sua identificação exacta é mantida tanto quanto possível em segredo, não vá o afluxo descontrolado de turistas danificar a árvore e perturbar o equilíbrio do seu habitat.

Tirando a semelhança dos troncos (avermelhados, fibrosos, profundamente sulcados) e a forma piramidal que ambas exibem, estas duas espécies de sequóias são marcadamente distintas: as ramadas da sequóia-gigante curvam para cima, as da sequóia-sempre-verde são pendentes; e as folhas desta última são semelhantes às do teixo, distribuindo-se ao longo dos raminhos em dois renques paralelos e opostos.

Ao contrário da sua conterrânea, a Sequoia sempervirens aclimatou-se bem ao nosso país e é frequente encontrá-la em parques e jardins. Os exemplares no Jardim do Carregal não se distinguem pela imponência: são árvores mirradas, vegetando em condições que lhes são desfavoráveis. Noutros locais do Porto (por exemplo no Jardim Botânico e no Parque de Serralves) encontram-se sequóias com melhor desenvolvimento; mas, saindo da cidade, há por cá vários locais onde elas vão fazendo algum jus à sua fama: na Mata do Buçaco (onde Ernesto Goes assinalou em 1984 a que lhe pareceu ser a maior do país, então com 45 m de altura), no Parque das Termas de Vizela (com numerosas árvores adultas a disputar o título à do Buçaco) e no Parque da Pena, em Sintra.

Anteriores na mesma série: #1, #2, #3, #4

17/12/2004

Lusco-fusco de Inverno

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foto mdlr 0312 / Jardim da Cordoaria - plátanos; araucária-da-Austrália; sequóia gigante
Depois das cores de Outono, um quase lusco-fusco de Inverno.
Hoje o céu, por cá, até está azul, mas tal não se verificava há precisamente um ano, quando foi tirada esta fotografia. Nela se vêem algumas das árvores mais notáveis do Porto destacando-se por entre a ramagem dos inconfundíveis plátanos: a Araucaria bidwilli de que já aqui se falou, e a sequóia-gigante (Sequoiadendron giganteum) também já mencionada a propósito de uma sua congénere do Jardim do Carregal.

16/12/2004

A faia em quatro novas lições



Fotos: pva 0411-0412 - Fund. Eng. António de Almeida e Serralves

No tempo em que a ludo-pedagogia não dominava exaltava-se o valor didáctico da repetição, e daí que muitos portugueses acima dos trinta ainda saibam recitar a tabuada ou consigam calcular o troco de cabeça. Da repetição, argumentava-se, acabaria por nascer a compreensão: de tanto insistir que 9x8 = 72, alguma vez, num relâmpago de inspiração, se iriam perceber as razões profundas de tão estranho resultado.

Já aqui falámos da faia: da sua robustez elegante, da sua fidelidade como repositório de afectos gravados, das cores outonais da sua folhagem. Mas, com a sucessão dos dias, os textos antigos são empurrados para o fundo da página até adormecerem no arquivo. Desfilam novos assuntos, novas árvores; porém a faia continua a deslumbrar-nos. Por isso a recapitulamos em quatro novas lições ilustradas: à força de a repetirmos ela há-de fazer parte de nós, e então talvez a possamos compreender.

15/12/2004

'Oliveiras-lulu'

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A propósito da entrada anterior, Os fícus do Senhor...cretino, não resisto a ir buscar aos arquivos de Agosto estas 'Oliveiras-lulu' em 'espaço verde' (Silves) .

Como diz o PVA num comentário: "Quem dera que as oliveiras ladrassem como os lulus de verdade e mordessem as canelas de quem lhes infligiu tal "penteado".
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Os fícus do Senhor

«A cretinice é uma árvore chamada fícus. Um jardineiro sádico, de instintos miseráveis - um jardineiro que era bem, na sua crueldade e mesquinhez, o perfeito rei dos animais - inventou a degradação do fícus. Eis uma árvore. Se a deixais crescer, ela cresce. Não vos pede ajuda - quer apenas a terra, a água, o ar - e vai crescendo. E o tronco se projecta alto e grosso da base de um encordoamento enérgico de raízes encravadas no chão, e os galhos partem oblíquos, e vão lançando ramas, e eis uma árvore nobre entre as mais nobres, grande, bela e poderosa.

Mas o fícus é apenas um arbusto - e o mesquinho rei dos animais e dos vegetais tem uma tesoura na mão. Esse arbusto jamais será uma bela árvore. Ide à Praça Paris, olhai o jardim, e tremereis de vergonha. Ali não há árvores. Há cubos, há caras de cão, pirâmides, paralelepípedos, poltronas, esferas; se quiserdes haverá telefones, sopeiras, cilindros, (...) - tudo o que quiserdes. Basta ter na mão uma tesoura - e saber.

Escrevendo outro dia a um velho amigo me ocorreu lembrar que os animais se domesticam facilmente com um chicote na mão direita e um torrão de açucar na esquerda. Os vegetais querem tesoura e estrume. (...)

Para uns é preciso que o chicote entre na carne, para outros basta que sibile no ar - para muitos basta que o chicote exista. Uns se jogam de quatro para lamber farelos de açucar preto, outros recebem com ares de dignidade alvos tabletes refinadíssimos, uns se limitam a ficar mansos, outros aprendem proezas e dão espectáculos graciosos. (...) E a floresta magnífica de homens se muda em praça paris com sofás de fícus e caixas de pó-de-arroz de fícus, guarda-chuvas de fícus, toda uma alucinação idiota de formas obedientes e escravas - de fícus.

Cortais a tesoura e serrote as folhas e palmas de uma palmeira, cravai-lhe no tronco o machado - ela não vira borboleta, nem vaso, é uma palmeira que morre, uma coluna partida, pois a árvore mutilada guarda a dignidade de árvore. (...) Há homens assim. Há os que se adaptam mas não se acostumam, se submetem mas não se servilizam, os vencidos jamais convencidos. E há os fícus. Os que poderiam ser gigantes, e gostariam de ser gigantes e sentem com amargura e revolta o primeiro corte da tesoura. Mas o tempo passa, a vida é curta e a tesoura é certa. Então o desgraçado já não espera a tesoura. Ele mesmo fica sendo sua própria tesoura. (...)

Que as forças mais profundas da terra se revelem numa espantosa arrebentação, num terramoto de raízes revoltadas, e a floresta dos homens se embeba com os uivos do vento e as águas da tempestade, e se contorça e se enfureça num bracejar medonho de galhos subitamente libertados e caia por terra, pisado, esmagado, o rei da tesoura e do estrume, do chicote e do torrão de açucar.»

Rubem Braga, Um pé de milho (1946)

14/12/2004

Pinheiro manso (Loivos)- Árvore classificada

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Pinheiro manso (Pinus pinea) centenário, no lugar de Barroca, freguesia de Loivos no concelho de Chaves, classificado como árvore de interesse público em 1953.
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Situado ao km 118,3 da estrada Vidago-Loivos, este pinheiro manso tinha (segundo documento* da Direcção Geral das Florestas, de 1995) uma altura total de 13 metros e um diâmetro de copa de 29 m.
Por curiosidade refira-se que a pessoa que aparece na 1ª fotografia mede cerca de 1 m. 55 .
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Obs.: Em Setembro do ano passado (2003) os terrenos circundantes estavam invadidos por Ailanthus.




*Árvores isoladas, maciços e alamedas de interesse público, Lisboa : Instituto Florestal, 1995

13/12/2004

Provérbios - folha, folhinha

  • Ao cair da folha morre muita gente.
  • Folha caída, esperança perdida.
  • Folha seca sabe cortar.
  • Folhinha e noivado só prestam um ano.
  • Formiga sabe a folha que rói.
  • Muitas vezes a má folha esconde o melhor fruto.
  • Quem se abraça debaixo da folha, três vezes se molha.

Outros provérbios

12/12/2004

Antologia do Porto



Fotos: pva 0410/0412 - camélias no Porto

Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.

Eugénio de Andrade, As mãos e os frutos (1948)

11/12/2004

Índice- Árvores (nome vulgar)

Actualizado

Pinheiro - Cancioneiro popular

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Quem tem pinheiros tem pinhas
Quem tem pinhas tem pinhões
Quem tem amores tem zelos,
Quem tem zelos tem paixões.
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Outrora para te ver,
saltava sete pinhais,
Agora p'ra te não ver
Inda me vês saltar mais.
..
in Cancioneiro de Entre Douro e Mondego,
de Arlindo de Sousa (Livraria Bertrand, 1944)

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10/12/2004

Redonda e lustrosa


Foto: pva 0412 - camélia na Quinta do Covelo

Enquanto ardem os últimos dourados do Outono e a nudez invernal se vai disseminando pelas árvores, as camélias, de copas cerradas e lustrosas, vão-se enfeitando com uma abundância espaventosa de flores dos mais variados tons e feitios. O Porto é a cidade das camélias: elas entranharam-se de tal forma nos nossos hábitos visuais que um jardim sem camélias - como quase é, para nossa tristeza, o actual Jardim da Cordoaria - nos parece sempre incompleto.

Esta jovem e elegante camélia, em nada diminuída pela simplicidade das suas flores, saúda-nos à entrada da Quinta do Covelo pela rua do Bolama. Uma segunda camélia adulta no passeio e numerosas outras num pequeno jardim quadrangular, cercado por um muro baixo, completam a amostra de camélias do local: é uma colecção modesta mas digna de se ver, atestando o legítimo carácter portuense da Quinta do Covelo.

A Quinta, situada na zona norte da cidade, confina a poente com a rua de Faria Guimarães, que nesse troço é uma via-rápida francamente desagradável para peões. A entrada na Quinta por essa rua, feita por uma escadaria íngreme e delapidada, espécie de Bom-Jesus de Braga em miniatura, dá acesso directo a um cerro coberto por vegetação autóctone de grande valor: carvalhos-alvarinhos, sobreiros, pinheiros-mansos e pinheiros-bravos. Desaconselhável aos corações frágeis, que devem optar pela entrada plana pela rua do Bolama, a escadaria pode ser encarada como a primeira etapa do circuito de manutenção que a Câmara fez espalhar pela mata.

Na zona baixa da Quinta, a nascente, situa-se a antiga casa senhorial e alonga-se um caminho calcetado e rectilíneo, com bancos e passeios arborizados. De um dos lados do caminho, e fazendo um suave declive, há um extenso relvado plantado com numerosas árvores jovens que compõem um bonito conjunto; do lado oposto, estufas e viveiros pertencentes à Câmara preenchem inteiramente os antigos campos agrícolas. Parece ter sido esta a única parte da Quinta que a Câmara cuidou de valorizar, pois em tudo o resto se nota algum abandono. É urgente completar o que tão bem se começou.

09/12/2004

Adeus ao triste pinheiro


Foto: pva 0412 - Porto - Quinta do Covelo

ESTES SÍTIOS!
Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro...
Ai!, o negro dos montes erguidos,
Ai!, o verde do triste pinheiro!
Que saudades que deles teremos ...
Que saudade!, ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh!, aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh!, deixar tais delícias como esta!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade...
Ai!, não, não... nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize à sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sítios queridos
Desta ruda, feroz soledade,
Paraíso onde livres vivemos...
Oh!, saudades que dele teremos,
Que saudade!, ai, amor, que saudade!

Almeida Garrett, Folhas Caídas (1853)

08/12/2004

Os nomes das árvores - Ginkgo

(Família: Ginkgoaceae)
Nome científico: Ginkgo biloba
Nomes vulgares: Ginkgo, gincgo, nogueira-do-Japão
....
Originária da China, esta árvore considerada um "fóssil vivo"- termo utilizado por Darwin para designar sobreviventes de um longínquo passado- aparece mencionada pela primeira vez na Materia Medica chinesa, Ri Yong Ben Cao (ca. 1350) e é posteriormente descrita em obras tanto chinesas (por ex. Ben Cao Gang Mu de Li Shi-Zhen, 1596), como japonesas.
Os europeus descobriram-na apenas no início do séc. XVII graças ao alemão Engelbert Kaempfer, botânico e médico que permaneceu no Japão (entre 1690 e 1691, ao serviço da Companhia Holandesa das Índias Orientais) e a quem se deve não só a primeira descrição científica ocidental da árvore, como provavelmente a sua introdução na Europa, mais particularmente na Holanda, onde o primeiro exemplar semeado dizem ainda se poder hoje admirar no jardim botânico de Utrech.
Também a Kaempfer devemos o nome corrente, pois ginkgo é a sua transcrição (1711) de "ginkyo", uma das denominações japonesas da árvore- mais concretamente o termo usado na literatura da época- cujos caracteres, idênticos aos que em chinês a designam, significam "alperce (ou amêndoa) de prata".


Fotos: mdlr
Em 1771, Lineu adopta a palavra para o género e utiliza o termo biloba (com dois lobos) para designar a espécie, devido à característica forma indentada das folhas. Note-se no entanto que nem todas as folhas têm esta particularidade (glosada por Goethe no seu conhecido poema).
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No século XIX, a ginkgo também foi conhecida por Salisburia adiantifolia, designação pro­posta em 1797 por Sir James E. Smith, fundador da Linnean Society de Londres -que achava o nome de origem oriental "uncouth and barbarous" (cf. Hui-Lin Li)- em homenagem ao seu amigo Richard A. Salisbury, botânico como ele, para além de horticultor.
Também neste caso, o desig­nativo da espécie exprime as características morfológicas da folhagem, semelhante às avencas, do género Adiantum, plantas conhecidas em língua inglesa per "mai­den hair fern", sendo um dos nomes comuns da ginkgo, em inglês, justamente "maiden hair tree".
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Inicialmente classificada como conífera e incluída na família das Taxaceae, a ginkgo é -desde as descobertas do botânico japonês Hirase em 1898, sobre as peculiares características dos núcleos das células reprodutoras masculinas- considerada a única representante viva das Ginkgoales, ordem de que se conhecem apenas vestígios fossilizados.

São admiráveis alguns dos sítios dedicadas a esta árvore na WWW. O mais completo, Ginkgo Pages, é da autoria de Cor Kwant, uma holandesa que reuniu um conjunto fabuloso de informações, nomeadamente fotografias de ginkgos do mundo inteiro, inclusivé Portugal. (A propósito faz-se aqui um pedido: se conhecer alguma ginkgo de algum modo notável, envie essa informação para o mail de Cor Kwant).
Ver também Ginkgo-"living fossil" (1 e 2), "product of Brian Chandler's fevered imagination"

07/12/2004

Boa notícia # 4 - A Árvore na Cidade

Na quinta-feira, 9 de Dezembro, às 21h30, na Biblioteca Almeida Garrett (Porto), a Arquitecta Paisagista Teresa Andresen irá falar sobre A Árvore na Cidade: da sua vida e da sua morte. O anúncio da palestra é acompanhado pelo seguinte resumo:

As árvores são seres vivos com uma importância significativa para a imagem na cidade. Enquanto seres vivos, as árvores são tema de estudo da ciência, manifestações da natureza, apelo à observação e contemplação, tema de representação artística, razão de bem-estar. Porém, os pontos de vista sobre as árvores na cidade são diversos e produzem divergência, surpreendendo e dividindo opiniões.

Absolutamente a não perder. A entrada é livre.

Uno e duplo

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), figura máxima da literatura alemã, escreveu em 1815 um poema sobre a Ginkgo biloba que dedicou a uma sua antiga amante. As folhas da árvore, com dois lobos, simbolizam o tema "uno e duplo" desenvolvido pelo poeta. O poema foi publicado em 1819 no livro West-östlichen Divan (Divã ocidental-oriental na tradução portuguesa); além da versão original, encontram-se nesta página traduções do poema em seis línguas, mas não em português. Para suprir a lacuna, transcrevemos de seguida a tradução de Paulo Quintela na antologia poética de Goethe publicada pela Universidade de Coimbra em 1958.

Ginkgo biloba

A folha desta árvore que de Leste
Ao meu jardim se veio afeiçoar,
Dá-nos um gosto de um sentido oculto
Capaz de um sábio edificar.

Será um ser vivo apenas
Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram
E nós julgamos num unidos?

P'ra responder às perguntas
Tenho o sentido real:
Não vês por meus cantos como
Sou uno e duplo, afinal?

06/12/2004

Golden time - Ginkgo

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Fotos: manueladlramos-0412
Terapia pela cor: debaixo da Ginkgo biloba do Jardim das Virtudes, podem sentir-se os efeitos benéficos e absolutamente fascinantes do amarelo-dourado (últimos dias).
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Jardim das Virtudes (Porto)
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Outro aspecto da Ginkgo (vista dos Jardins da "Árvore")

05/12/2004

«Death is a low chemical trick played on everybody except sequoia trees.»
J. J. Furnas
Tree quotes: 1 - 2 - 3
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Árvores do Jardim do Carregal #4


Fotos: pva 0411 - Carregal - Sequioadendron giganteum com pormenor da folhagem

Já nem tenho vontade de falar
senão com árvores, vento,
estrelas e águas do mar.
E isso pela certeza de saber
que nem ouvem meu lamento
nem me podem responder.

Cecília Meireles


A algumas sequóias-gigantes têm consentido viver neste silêncio, nem inimigo nem irmão, por mais de mil anos. Nativa de Sierra Nevada, na Califórnia, região dos Estados Unidos com zonas áridas e verões quentes e secos, a Sequoiadendron giganteum, conífera da família Taxodiaceae e única espécie do seu género, retira sabiamente a humidade de que precisa da névoa em que a sua copa alta (que pode atingir os 100 metros de altura) mergulha em cada madrugada. É uma espécie monóica, competidora poderosa em florestas, elevando-se rapidamente acima das demais árvores para ganhar um maior quinhão de sol. Cultivada na Europa desde 1853, está presente em jardins portuenses desde 1860, mas não sem ter sofrido alguns percalços iniciais na sua adaptação ao nosso clima.

O exemplar do Jardim do Carregal tem cerca de 105 anos, 18.2 metros de altura e um PAP (perímetro do tronco à altura do peito) de 3.85 metros; como é típico nesta espécie, apresenta um tronco grosso na base, fibroso e avermelhado (daí o nome comum redwood), quase sem ramagem na parte inferior; a copa é cónica no topo, os ramos pendentes com extremos curvados para cima e lembrando, na forma, uma coroa. A folhagem é persistente, de cor verde-azulado (o que permite realçar a árvore nas fotografias), com escamas que espiralam nos ramos e os revestem completamente. Produz pinhas abundantes no fim do verão, mas não parece de boa saúde, resultado por certo da agressão a que inevitavelmente as obras do túnel do Carregal a têm submetido.

A sequóia-gigante mais famosa no Porto é ainda a do Jardim da Cordoaria, mencionada em várias crónicas e jornais de horticultura nos séculos XIX e XX. Mas o exemplar mais formoso é sem dúvida o de Serralves, com uns 60 anos de idade, que vegeta no bosquete em frente à casa rosa, junto à alameda de castanheiros-da-Índia.

Esperemos que, como corais, estes espécimes continuem por alguns séculos mais a contemplar-nos tranquilos e com rumo seguro.

Anteriores na mesma série: #1, #2, #3

04/12/2004

Áceres do Japão

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Foto: mdlr 0311 - Acer japonicum nos Jardins do 'Palácio'


0412
São dois os Acer japonicum que se destacam no jardim da entrada principal do Palácio de Cristal. Agora, no início de Dezembro, apenas um deles mantem ainda a folhagem vermelha contrastando com os verdes das japoneiras e do rododendro.
Esta pequena árvore (ou grande arbusto) originária das montanhas do norte do Japão (e que no Outono é motivo de regozijo pelo espectáculo da sua beleza >) só chegou à Europa na segunda metade do séc. XIX, apesar de ter sido descrita por Carl Peter Thunberg (1743-1828) na sua Flora Japonica, em 1784. (Este botânico sueco, que tinha ocupado o lugar de cirurgião na primeira embaixada holandesa ao Japão, manteve, durante dois anos em Nagasaki, um viveiro onde cultivou plantas vindas de todo o país. Cf. Jacques Brosse, Larousse des Arbres et des Arbustes, 200o)

03/12/2004

"In a Japanese Garden" - Lafcadio Hearn

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«...There are two sakuranoki [Cerasus pseudo-cerasus (Lindley)], 'Japanese cherry-trees', those trees whose blossoms, as Professor Chamberlain so justly observes, are "beyond comparison more lovely than anything Europe has to show." Many varieties are cultivated and loved; those in my garden bear blossoms of the most ethereal pink, a flushed white. When, in spring, the trees flower, it is as though fleeciest masses of cloud faintly tinged by sunset had floated down from the highest sky to fold themselves about the branches. This comparison is no poetical exaggeration; neither is it original: it is an ancient Japanese description of the most marvellous floral exhibition which nature is capable of making. The reader who has never seen a cherry-tree blossoming in Japan cannot possibly imagine the delight of the spectacle. There are no green leaves; these come later: there is only one glorious burst of blossoms, veiling every twig and bough in their delicate mist; and the soil beneath each tree is covered deep out of sight by fallen petals as if by a drift of pink snow.
But these are cultivated cherry trees. There are others which put forth their leaves before their blossoms, such as the yamazakura, or mountain cherry. This too, has its poetry of beauty and of symbolism. Sang the great Shintô writer and poet, Motowori:
Shikishima no
Yamato-gokoro wo
Hito-towaba,
Asa-hi ni niou
Yamazakura bana.
("If one should ask you concerning the heart of a true Japanese, point to the wild cherry flower glowing in the sun.")
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Whether cultivated or uncultivated, the Japanese cherry-trees are emblems. Those planted in old samurai gardens were not cherished for their loveliness alone. Their spotless blossoms were regarded as symbolizing that delicacy of sentiment and blamelessness of life belonging to high courtesy and true knightliness. "As the cherry flower is first among flowers," says an old proverb, "so should the warrior be first among men."»
Lafcadio Hearn, "In a Japanese Garden", Glimpses of Unfamiliar Japan (Tokyo: Charles E. Tuttle) 355-56.
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(Enviado pela DK - eu sabia que ela ia comentar ;-) a propósito de Jardim de Cerejeiras

Jardim de cerejeiras

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Numa altura em que, no Japão, o que andou (ou anda) na boca e nos olhos e corações de todos foi o "kô-yô" - as folhas vermelhas do Outono- como é que estamos nós aqui a falar de "sakura", de cerejeiras em flor?
Simplesmente porque no Jardim de Serralves foi descoberta uma em flor. De espantar? Algo que teve a ver com o prolongado verão com que S. Martinho nos presenteou? Parece que não: trata-se da chamada cerejeira-de-outono, uma Prunus x subhirtella 'Autumnalis Rosea', cultivar da cerejeira "Higan" (a primeira das cerejeiras japonesas a serem introduzidas no Ocidente), que começa a florescer em Novembro e o faz intermitentemente até à Primavera.
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E não são só as palavras que são como as cerejas... os posts também: atrás da foto da flor da cerejeira veio o texto de Wenceslau de Morais e, agora, a referência ao Jardim Japonês planeado para Lisboa, em Belém. A plantação da primeira cerejeira desse jardim ocorreu no dia 27 de Setembro passado, numa altura em que, justamente, se comemoram os 150 anos do nascimento do autor que 'que se apaixonou' pelo Japão. Segundo as notícias, o jardim será inaugurado em Março de 2005 «quando as 461 árvores, uma por cada ano de amizade entre os dois países, florirem.»
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No Japão, a floração das cerejeiras é acompanhada fervorosamente pela população, e o seu simbolismo e beleza celebrado por todos. A chamada "sakura zensen", a frente de floração que ocorre progressivamente de Sul para Norte, (ver mapa) é divulgada diariamente nos boletins metereológicos, e por todo o lado se realizam eventos comemorativos.
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É de esperar que em Lisboa -caso se concretize o projecto- se venha também a realizar no futuro um pequeno festival das flores de cerejeira, seguindo-se o exemplo dos que ocorrem em locais (fora do Japão) com grande número de cerejeiras. O mais célebre é o que acontece em Washington DC nas margens do rio Potomac, no West Potomac Park, quando as suas 6800 cerejeiras florescem (as primeiras 3,000 "sakura" foram oferecidas pelo Japão em 1912 «to celebrate the nations' then growing friendship.» ver)
Em menor número, mas mais variadas, são as cerejeiras do Jardim Botânico de Brooklin que também festeja anualmente o seu "Sakura Matsuri".
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Nós, por cá, (e enquanto não descobrimos mais nenhuma), deliciamo-nos com a floração solitária da cerejeirazinha de Serralves...
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02/12/2004

A dança da borboleta


Foto: pva 0411 - Serralves - Prunus x subhirtella 'Autumnalis Rosea'
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«Entro agora no meu jardim, quase solenemente, quase com o recolhimento religioso de quem entra num santuário: vou em procura de impressões que possam registar-se nestas páginas.
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Feliz do homem solitário que, como eu, encontra ainda num jardim recreio ao seu espírito, que se deleita na cultura de dois palmos de terra, que cuida por suas mãos das plantas, que vê com prazer o ínfimo rebento desenvolver-se em folhas e flores. Este homem não está só; acha-se, pelo contrário, cercado de amigos; nem a reclusão lhe empederniu o sentimento, porque quem ama as plantas crê em alguma coisa, crê, pelo menos, na harmonia universal e na justiça dos destinos; e, se sofre, encontra nestas crenças consolação inefável às angústias da alma dolorida.
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O meu jardim tem uns trinta metros quadrados de extensão. É, pois, um arremedo de jardim; mas eu avalio-o em trinta quilómetros quadrados, em trinta milhões de quilómetros quadrados, em muito mais ainda, levando em conta os limites de distância por onde o pensamento me viaja, quando me demoro a contemplar um arbusto, a admirar uma florescência, embalando-me os diferentes aspectos das coisas em divagações que não têm fim...»

Wenceslau de Moraes, in O Bon-Odori em Tukushima (1914), O Comércio do Porto (1915) e O Independente (2004)

01/12/2004

Os jardins abandonados


Foto: pva 0411 - Praça da República - Melia azedarach

Prédios herméticos como fortalezas, portões que se abrem por telecomando, carros com janelas cautelosamente fechadas, ginásios onde se cuida do físico pedalando sem sair do lugar, descompressão semanal nos shoppings entre neons e muzak: aqui está, a traço grosso, o modo de vida estatisticamente provável do nosso cidadão médio urbanizado. É claro que a estatística é redutora e caricatural, e o homem médio não existe propriamente: para o construir teríamos, como o Dr. Frankenstein, que coser retalhos desirmanados de muitos indivíduos; mas o que assusta é a abundância de material humano de que disporia entre nós o malévolo cientista para dar vida ao perfeito espécime do cidadão enclausurado.

Se um tal cidadão médio não existe, existe pelo menos uma percepção média, cumulativa, que emerge desse modo de vida e acaba por valer como senso comum. Por exemplo, a transformação recente, quase sempre para pior, de alguns jardins públicos no Porto foi justificada, em artigos de jornais e declarações de arquitectos, pelo estado de degradação de tais espaços: é que, tirando reformados e marginais, quase ninguém os frequentava. Certamente não passaria pela cabeça a quem subscrevia tais opiniões aventurar-se nesses antros sem que uma prévia requalificação os desinfectasse. Vieram e passaram as requalificações, esmoreceu a novidade, e o nosso cidadão enclausurado continua a não pôr os pés nos jardins da cidade. Se calhar o problema não estava na suposta degradação dos jardins: ao tratar-se a doença, confundiu-se o sintoma com a causa; e talvez a doença não tenha cura.

A foto em cima foi tirada no jardim da Praça da República e mostra uma Melia azedarach, pequena árvore asiática conhecida em Portugal como amargoseira ou conteira e no Brasil como cinamomo, e que, depois de perder as folhas, ainda fica coberta com pequenas bagas amarelas. Neste jardim há ainda numerosos Prunus cerasifera, algumas palmeiras-das-Canárias adultas e, ao longo do passeio circundante, um alinhamento de tílias muito desfalcado por sucessivas quedas e abates.

Não é um jardim frondoso nem aconchegante: faltam-lhe meandros, sombras, árvores de grande porte - porém, numa cidade onde eles são escassos, sempre é um jardim, e portanto infinitamente preferível às eiras de granito agora em voga. Mas é um jardim desqualificado pelo senso comum e pelo preconceito, que espreitam ao longe, medrosamente, por detrás da vidraça; é um jardim abandonado por quem parece recear que o céu lhe caia sobre a cabeça.

P.S. Veja aqui uma curiosa estátua da Praça da República.