31.1.05

Árvores classificadas do Porto


Ao contrário dos edifícios históricos ou arquitectonicamente marcantes, as árvores ou jardins raramente são objecto de protecção especial; e, no entanto, no que toca à dignificação da árvore como elemento qualificador da paisagem e repositório de memórias de uma comunidade, Portugal possui um instrumento legal que o distingue pela positiva até no contexto europeu. Trata-se da declaração de interesse público, exarada em Diário da República, de árvores isolados ou maciços arbóreos «que pelo seu porte, idade ou raridade se recomendem a cuidadosa conservação». A possibilidade de uma tal classificação, que confere à árvore uma razoável protecção legal, foi criada pelo Decreto-Lei n.º 28468 de 15/02/1938 - e, por mérito da Direcção-Geral das Florestas (DGF), que a tem divulgado através de brochuras e folhetos, tem sido amplamente reavivada nos últimos anos. ( mais informações )

Qualquer pessoa pode propor à DGF a classificação de árvores - mas, para que o pedido seja aceite, há vários requisitos a satisfazer: as árvores em causa têm que ser de algum modo notáveis, estar de boa saúde, e não apresentar aleijões devidos a maus tratos ou acidentes; e o seu proprietário tem que concordar com a classificação.

Em Janeiro de 2004, e no âmbito do nosso trabalho na associação Campo Aberto, submetemos (os três autores deste blogue) à DGF um pedido de classificação de 11 conjuntos de árvores no Porto. Nessa altura, só cá existiam quatro árvores classificadas. Soubemos há dias que, com excepção de duas árvores (uma por dela não se conhecer o dono, a outra porque o seu local de implantação a não favorece), todas as nossas candidatas foram aprovadas, e a sua classificação promulgada em Diário da República (II série, n.º 6, 10/I/2005). Foi ainda publicada no mesmo DR a classificação de outras árvores propostas anteriormente pelo NDMALO (conjuntos 7 e 9, na listagem abaixo).

Com isto, passámos no Porto de 4 para 242 árvores classificadas: um verdadeiro salto de gigante.

AS NOVAS ÁRVORES CLASSIFICADAS
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1 e 2 - Avenida de Montevideu



Metrosideros excelsa (33) + (55)

3, 4; 5 e 6 - Jardim do Passeio Alegre

................................................................Metrosideros excelsa (2)

Phoenix canariensis (63) ...................... .Araucaria heterophylla (28)

7 - Praça de Pedro Nunes

...................................................Liriodendron tulipifera (4)

8, 9 - Jardim da Cordoaria



Araucaria bidwillii (1) ............. Platanus orientalis var. acerifolia (37)

10, 11 - Jardim das Virtudes e Largo do Viriato

...................................................Ginkgo biloba (1)

Jacaranda mimosifolia (1)

12 - Jardim de S. Lázaro

...........................................................Magnolia grandiflora (12)
Fotos: mdlramos

30.1.05

«I never had any other desire so strong, and so like to covetousness, as that one which I have had always, that I might be master at last of a small house and a large Garden. » ~Abraham Cowley, The Garden, 1666

29.1.05

Da minha janela # 1

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Da minha janela, onde pouso os olhos? No céu azul, nas árvores sem folhas,
nas ovelhas a pastar, na laranjeira brilhando ao sol, na japoneira, no lençol branco...

Fotos: mdlramos 0501
Ramalde rural vai aos poucos desaparecendo -o cerco aperta! Nesta zona, apenas restam dois casais de lavradores, velhotes (mas q já descobriram q. os cd-roms são óptimos para espantar pardais ;-).
Nos parágrafos dedicados ao habitat e urbanismo do site da Junta de Freguesia de Ramalde pode ler-se o seguinte: «A habitação social marca profundamente a ocupação na freguesia de Ramalde que se organiza fundamentalmente a partir da década de 60. Em contrapartida, e sem explicação, embora tenha sido Ramalde um território rural, parece não ter havido então a preocupação de criar espaços verdes. Na realidade, em toda a freguesia apenas existe uma zona de lazer e que não é pública. Trata-se do parque de campismo da cidade, ou parque da Prelada, que ocupa a quinta que pertenceu ao antigo solar dos Senhores da Prelada(...).
A par deste tipo de habitação, aparecem as áreas residenciais de luxo (...) »
Essa ausência de "preocupação de criar espaços verdes" parece continuar, assim como prossegue a urbanização desenfreada, como não poderia deixar de ser. Já não falando em grandes zonas verdes, nem sequer em médios jardins públicos, o que seria tb desejável e possível era que nas pequenas zonas ajardinadas existentes se colocassem bancos (de jardim de preferência com costas ;-) e que se ajardinassem os espaços tipo baldio que abundam nas zonas de habitação social.
Bem, mas eu só tinha vindo à janela...

28.1.05

Dúvidas de semeador

Informa-nos Harri Lorenzi, no livro Árvores Brasileiras - Manual de Identificação e Cultivo de Plantas Arbóreas Nativas do Brasil (Instituto Plantarum, São Paulo, 1998), que as sementes da Ceiba insignis, que plantaremos logo que resolvam espreitar do aconchego do algodão que as envolve, germinarão em uma a duas semanas. Informações bem-vindas para aplacar a ansiedade. Em tempos idos, sem literatura especializada disponível, a sorte do semeador - e do contista - era mais imprevisível. Disso nos dá conta Fernando Sabino em As melhores crónicas (2000):

«Um ficcionista às vezes precisa saber coisas muito esquisitas. A experiência própria nem sempre ajuda. Passei, por exemplo, a minha infância nos galhos de uma mangueira, chupando manga o dia todo, e não soube responder a um amigo meu, excelente romancista, quanto tempo levava para germinar um caroço de manga. Contou-me ele, na época, que andou precisando saber este pormenor, em razão de uma história que estava escrevendo. Depois de perguntar a um e outro, e não obtendo senão respostas vagas, telefonou para a repartição do Ministério da Agricultura que lhe pareceu mais apta a fornecer-lhe a informação. O funcionário que o atendeu ficou simplesmente perplexo:
- Caroço de manga? Que brincadeira é essa?
Como insistisse, informaram-lhe que, realmente, havia quem talvez soubesse - um especialista no assunto, lotado num departamento ao qual estava afeto o sector de fruticultura. Discou para lá - mas só conseguiu colher vagos palpites:
- Um caroço de manga? Bem, deve levar um ou dois meses, o senhor não acha?
- Não acho nada: preciso saber com exatidão.
- Por quê?
- Bem, porque ...
Outros telefonemas, que somente despertaram reminiscências infantis:
- Na minha casa tinha uma mangueira. A manga-espada, por exemplo, se bem me lembro...
- Boa é a manga carlota, aquela pequenina, sem fibra nenhuma... Lá no Norte chamam de itamaracá.
- O caroço? Bem o caroço, para lhe dizer com franqueza...
Resolveu telefonar para o Gabinete do Ministro.
- Queria uma informaçãozinha de Vossa Excelência.
O Ministro não sabia.»

27.1.05

O que está para vir



Fotos: pva 0412 - botões de ulmeiro e de castanheiro-da-Índia

Previsões fiáveis de crescimento botânico para a Primavera de 2005: dando cumprimento aos objectivos (*) traçados pelas respectivas árvores no início da temporada de Inverno, estes botões irão ficar maiores e, logo de seguida, abrir-se e produzir folhas - folhas simples no primeiro caso, compostas no segundo.

Até lá, duvido que a actualidade nacional nos forneça motivo de maior regozijo.

(*) Objectivos estratégicos ou programáticos? Eis uma distinção que ainda hoje me confunde.

26.1.05

Pão silvestre


Fotos: pva 0412 - Araucaria araucana - Águas Santas (Maia)

A araucária das fotos é um exemplar jovem, de copa com formato piramidal típico, de uma das espécies mais raras no país, resultado de uma preferência de longa data pela Araucaria heterophylla (antes chamada excelsa) e, mais a norte, pela A. angustifolia. A propósito, escreve Duarte de Oliveira Júnior, em 1873, no Jornal de Horticultura Prática: «É esta uma das espécies mais ornamentais e, segundo a nossa opinião, excede em beleza a Araucaria excelsa, que aliás é a predilecta de muitos horticultores que nos acusarão de profanos, proferindo tal sentença. A sua rusticidade e a sua beleza como árvore ornamental deveriam assegurar a esta planta uma propagação rápida no nosso país.» E mais adiante: «A Araucaria excelsa é por certo bonita e o seu garbo é o que mais nos seduz. A Araucaria imbricata não é elegante, mas tem um porte austero e como que nobre. Só temos notícia de um exemplar que mereça ser assinalado. Pertence esse indivíduo ao sr. Chistiano Van-Zeller e está disposto na sua quinta de Villar (Porto). É um belíssimo espécime: mede de treze a quatorze metros e os verticilos estão dispostos com a maior regularidade possível, parecendo mais obra do homem do que da natureza. Como se a natureza não fosse mais caprichosa que a imaginação do homem!» [O exemplar aqui mencionado já não existe, pois a Quinta de Villar há muito que desapareceu.]

Da família Araucariaceae (que tem três géneros, Araucaria, Agathis e Wollemia), nativa da cordilheira andina partilhada pelo Chile e pela Argentina, a Araucaria araucana (antes imbricata) é uma conífera que gosta de frio, de crescimento lento e folha perene. As folhas têm cerca de 3 cm de comprimento, são rijas, de cor verde escuro brilhante, lanceoladas e muito ponteagudas, espiralando densamente em torno dos ramos. Estes dispõem-se no tronco como raios de um círculo, dando à copa da árvore adulta, que tem o tronco inferior despido, uma forma que lembra um guarda-chuva - imponente quando a árvore supera os 30 metros de altura. As sementes, produzidas em grande profusão mas só em exemplares com mais de 20 anos, são como amêndoas com o dobro do tamanho, comestíveis e muito apreciadas até em farinha, de importância comercial comparável à das tâmaras ou dos cocos. Esta é uma espécie dióica e as árvores femininas podem exibir mais de vinte cones, recheados de pinhões saborosos, por ramo. Assegura Duarte de Oliveira Júnior: «A quantidade de sementes que produz cada árvore feminina excede o que se imagina, e não se exagerará afirmando que os índios da região Araucariana estão completamente livres de passar fome.»

No Chile, onde ainda hoje há extensos povoamentos desta espécie, a Araucaria araucana é monumento nacional desde 1990. O nome alude aos índios pehuenche, da tribo mapuche, que vivem na Araucania e cuja oposição corajosa à ocupação espanhola é cantada por Pablo Neruda na Ode à Araucaria araucana.

Esta araucária chegou à Europa no século XVIII com o cognome monkey puzzle (ou désespoir des singes), fonte de alguns mal-entendidos. O termo teria sido sugerido aos europeus por um comentário sobre a aspereza da folhagem, que dificultaria a escalada aos macacos... afinal inexistentes na região de origem desta árvore.

25.1.05

Tílias - Casa de Ramalde (Porto)

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Foto: mdlramos 0312
Em todas as estações do ano, coberta de folhas ou com a ramagem nua, as tílias que não sofreram grandes podas destacam-se pela maravilhosa harmonia das suas copas (como é o caso destas que se encontram nos terrenos da Casa de Ramalde *). Mas é no Inverno que os estragos dos cortes indiscriminados são mais vísíveis, como aliás já aqui mostrámos, publicando umas fotografias de tílias podadas e não podadas em Lamego.

(*Casa original do séc. XVI considerada imóvel de interesse público, remodelado por Nicolau Nasoni no séc. XVIII, situada na freguesia de Ramalde; nela se encontra sediada a DRN do IPPAR)

24.1.05

Enquanto há vida


Fotos: pva 0501 - Praça da República (Porto)

Das tílias diz Aquilino, na sua Geografia Sentimental, que chegam a parecer-lhe «mais tafuis do que esposas de marajás»; e acrescenta que, «se há planta que tenha o senso da simetria e das belas ordenanças, numa palavra, ponha garridice no seu amanho, é esta».

Face ao estado destas tílias na Praça da República, ocorreria perguntar quem foi o sádico e indigno marajá que ordenou tal serviço. Pergunta retórica, obviamente, e no caso um pouco injusta. A terra revolvida das caldeiras indica que as tílias foram para lá há bem pouco tempo; e é de supor que tenham sido transplantadas da rua D. Manuel II, de onde, como então noticiámos, foram expulsas pelas obras do enguiçado túnel rodoviário.

Embora lhes tenha sido irremediavelmente roubada a beleza que irradiavam quando primeiro as conhecemos, a sua vida não acabou ainda.

23.1.05

Provérbio - Nozes

...Deus dá nozes a quem não tem dentes
...

O filólogo brasileiro João Ribeiro, na 2ª e última série de Frazes feitas: estudo conjectural de locuções, ditados e provérbios (Rio de Janeiro : Francisco Alves, 1909, p.21-22), explica-nos assim o teor deste conhecido provérbio:
«
Aplica-se o ditado ao que não sabe ou não pode aproveitar a boa fortuna que lhe coube. À velhice edentada as nozes nada aproveitam, e por isso mais especialmente aos velhos é que ironicamente se endereça o rifão, e apodo, quando desposam meninas. Se desta situação marital é que resulta o provérbio, imaginado pela inveja, a explicação não pode ser outra que a de costume antiquíssimo e que data dos romanos. Por esses tempos remotos, quando se recolhiam os nubentes da cerimónia do casamento lançava o marido aos rapazes grande quantidade de nozes. Era quase um modo de despedir-se da meninice. O símbolo não trazia o amargor de hoje [...]
Com as nozes brincavam as crianças e "deixar as nozes" era fazer-se gente grande e séria. "Et nucubus fazimus quoecumque relictis". Cabem pois as nozes aos que não têm dentes, tanto à infância como à decrepitude.»

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Esta também parece ser a interpretação de Rafael Bordalo Pinheiro que, no seu album Phrases e anexins da lingua portugueza: album de caricaturas (1876)*, ilustra a frase "Dá deus nozes a quem não tem dentes", fazendo figurar um homem de idade sentado ao lado de uma rapariga jovem, numa carruagem.
*A edição facsimilada desta obra foi publicada pela Caminus (Lisboa) em 1994.
O criador do Zé povinho morreu há 100 anos: ler no Público


Simbologia das árvores (índice novo)

. Ver

22.1.05

Laureados e Robustecidos


Foto: pva 0412

Uma árvore, por si só, não corporiza nenhuma mensagem: o carvalho, ainda que alto e forte e, a nossos olhos, quase imortal, não nos exorta a uma vida longa e saudável; o limoeiro não nos quer ensinar o quanto a vida pode ser azeda. Por sua vontade, a árvore nada nos diz; somos nós que a carregamos de simbologia: ao plantá-la num certo lugar, ao representá-la de um certo modo, ao darmos certo uso ao que ela produz. Humanizar a árvore e as outras formas de vida não humana é só um primeiro, incipiente passo para começarmos a respeitá-las.

Se uma árvore não é uma mensagem, a mesma árvore numa pintura ou esculpida em pedra tem quase sempre algum recado a dar-nos. Exemplo extremo é o da heráldica, em que os elementos botânicos e zoológicos dos brasões fornecem rico elucidário sobre a vaidade humana. No brasão da foto em cima, que aparece na fachada cinquentenária de uma escola de Vila Nova de Gaia, lêem-se máximas que não são deste tempo; talvez por isso ninguém hoje as queira ou saiba ler. Eu próprio posso estar a treslê-las.

Eis o que as duas vozes gravadas no brasão diziam aos meninos (não às meninas, que a escola não era para elas) de há cinquenta anos:

- Se fores um estudante sério e aplicado - é o loureiro à esquerda falando com voz suave de tenor -, terás boas notas, serás elogiado pelos teus professores, admirado pelos teus colegas, e receberás como prémio, na cerimónia do dia oficial da escola, uma citação pública de louvor e um livro de conteúdo edificante.

- É o saber conquistado pelo estudo que robustece os homens e os faz subir na vida - estrondeia à direita a voz de barítono do carvalho-roble.

Como eram ingénuas estas vozes de antanho!

21.1.05

Obras de Janeiro

Segundo o Almanaque do Horticultor- «Arvoredos: Nesta época deve apressar-se, quando possível, a plantação de árvores frutíferas em geral, quando o horticultor se tenha descuidado de as plantar nos meses de Novembro e Dezembro; se, porém, o terreno for excessivamente húmido, será conveniente a plantação em Fevereiro.
As plantações em Março são perigosas no nosso país; porque a doçura do clima apressa a vegetação, e toda a casta de árvores, frutífera ou não, de folha caduca, deve ser transplantada quando a seiva está em repouso.
Quem quiser obter um bom resultado, tanto em relação ao vigor das árvores, como à abundância de frutos, não deve espaçar, além deste mês, a poda e limpeza das árvores frutíferas.
(...)
Durante este mês também se cortam as árvores destinadas a darem madeira para construções, a qual fica de melhor qualidade por estar a seiva em repouso.»
in Lunário e Prognóstico Perpétuo para todos os Reinos e Províncias por Jeronymo Cortez Valenciano. Reformado e muito acrescentado. Porto : Lello & Irmão, 1980 (obra original do séc. XVIII)
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Anteriores: Obras de Julho - Obras de Agosto - Obras de Setembro -Obras de Outubro

20.1.05

Metamorfoses



Fotos: pva 0412/0501 - Magnolia stellata - Parque de Serralves (Porto)

Desta vez, e apesar das promessas iniciais de uma floração temporã, as magnólias da cidade ainda não vestiram o manto alvacento com que festejam cada novo ano. Será a falta de chuva? Será que o desânimo geral também as atingiu? Fiquemo-nos com esta Magnolia stellata de Serralves que, embora não ainda no auge, pelo menos não faltou à chamada. Um mês atrás (fotos da esquerda), já ela se afadigava em rechear de pétalas rosadas os seus peludos botões.

19.1.05

Flores para Eugénio


Foto: pva 0501 - violeta-africana (Saintpaulia ionantha)

PRAÇA DA ALEGRIA

Cheira bem: a café fresco, ou antes, a café misturado com o cheiro das violetas que o pequeno vendedor pusera em cima da minha mesa, insistindo para que lhe comprasse um ramo. A quem o daria? Disse-lhe isto mesmo: que vivia no Porto como quem vive na ilha do Corvo, não tinha ninguém a quem dar uma flor. O rapazito, com olhos escuros de potro manso, percebendo que a minha recusa era débil, não arredava pé. Acabei por comprar-lhe as violetas e oferecê-las à lua, acabada de surgir no canto da praça, branca, redonda, carnuda, que, apesar de puta velha, ao aceitá-las, se pôs da cor das cerejas.

Eugénio de Andrade, Vertentes do Olhar (1987)

Araucárias classificadas (Monchique)

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Fotos: 0308 - Araucárias-de-Norfolk (Araucaria heterophylla) em Monchique
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«Altura total: 34.00 m.; circunferência a 1,30 m.: 4,05 m.; diâmetro médio da copa: 18,50 m.; idade provável: centenária; localização: Qtª da Vila. Observações: árvore alta e bem conformada que se destaca na Vila de Monchique. Classificação em 14-08-1993
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Altura total: 40.00 m.; circunferência a 1, 30 m.: 4,50 m.; diâmetro médio da copa: 16,50 m.; idade provável: centenária; localização: Qtª do Viador. Observações: árvore muito alta e bem conformada. Situa-se à saída de Monchique para o Barranco dos Pisões. Classificação em 14-08-1993 »
in Árvores isoladas, maciços e alamedas Classificados de Interesse Público, Instituto Florestal (1995)
A ler: A Araucária do Largo dos Chorõs

18.1.05

Camélias do Palácio Vila Flor - Guimarães


Foto 0412 - camélias no jardim do Palácio Vila Flor - Guimarães

Localizado numa zona alta da cidade de Guimarães, o setecentista Palácio Vila Flor, actualmente propriedade camarária, encima um histórico jardim que se distribui em terraços sucessivos, ligados por lanços de escadaria e delimitados por balaustradas de granito decoradas com motivos escultóricos. Este jardim é descrito em pormenor no livro Tratado da Grandeza dos Jardins em Portugal de Helder Carita e Homem Cardoso, e a comparação entre a seu plano original e o que dele se pode hoje observar confirma que chegou praticamente intacto aos nossos dias. É caso para dizer: bem hajam os que tiveram a sabedoria de preservar este tesouro.

O que certamente mudou no jardim foi a vegetação, já que as camélias, que lhe dão a marca mais distintiva, só no século XIX se vulgarizariam no nosso país. Mas, pelo seu avantajado porte, é de supor que estes soberbos espécimes sejam quase bi-centenários. Noutros jardins de Guimarães, privados ou públicos, e em especial no jardim ao longo da avenida central, também vicejam numerosas e variadas camélias, embora em geral muito mais jovens do que estas do Palácio Vila Flor.

Recentemente, o palácio entrou em obras para ser transformado num centro cultural. O projecto, segundo o Guimarães Digital, não é nada modesto: «O projecto do Centro Cultural de Vila Flor prevê quatro salas de reuniões com 55 lugares cada, uma área expositiva com mil metros quadrados, dois auditórios de teatro com capacidade para mil pessoas, um restaurante, um café-concerto e um parque de estacionamento [subterrâneo] com 250 lugares.» Em lugar da vista desafogada sobre o centro da cidade, alguns moradores locais terão doravante um enorme muro a tapar-lhes as casas. Felizmente, a obra, aproveitando o terreiro nas traseiras do palácio, não parece tocar no jardim; e, descontando a volumetria exagerada dos novos anexos, o destino que é dado ao histórico edifício é inteiramente digno e apropriado.

Só se lamenta, no terreiro onde as obras agora decorrem a todo o vapor, o sacrifício de uma gigantesca araucária que, com um pouco de imaginação e sensibilidade, muito valorizaria o projecto final. Afinal as árvores, como os edifícios, também fazem a memória das cidades.

17.1.05

Fantasia -Torga


foto: manueladlramos 0501
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Canto ou não canto o limoeiro
aqui ao lado?
Ele é tão delicado!
Tem um jeito tão puro
de se encostar ao muro
onde vive encostado...
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Canto ou não canto as tetas de donzela
que daqui da janela
vejo no limoeiro?
Elas são tão maduras...
E tão duras...
Têm uma cor e um cheiro...
Canto! Nem serei o primeiro,
nem eu sou nenhum santo!
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Miguel Torga (1945)
Antologia Poética, Coimbra, Ed. do Autor, 1981
«Há precisamente 10 anos (...)» ; ver tb. "Dossier- Miguel Torga".
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Outro poeta, outro perfume, outros Limões
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16.1.05

Mimosas


Foto: pva 0501 - Acacia dealbata

Todos os anos na mesma altura
a montanha veste o mesmo vestido amarelo
para ver se ainda lhe serve na cintura.

Jorge Sousa Braga, Fogo sobre fogo (1998)

15.1.05

Cedros no Líbano (links)

Lamartine e os cedros do Líbano (1833)

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Nos Souvenirs, impressions, pensées et paysages pendant un voyage en Orient (1832-1833), A. de Lamartine relata a sua visita aos cedros-do-Líbano, mais propriamente aos cedros da floresta de Becharreh, célebres pelas suas associações bíblicas e considerados hoje em dia com um valor histórico semelhante às ruinas de "Byblos, Baalbeck or Tyre", como se pode ler na página da embaixada do Líbano abaixo indicada.
A descrição do homem de letras e político francês tornou-se, para quem se interessa pela história das árvores, num texto de referência, bastante comentado, e amiúde citado, se bem que de forma incompleta. Aqui fica a transcrição dessa passagem:
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«p. 270 (...) D' Éden [Ehden], aux cèdres de Salomon il n' y avait plus que trois heures de marche, et si les neiges qui couvraient encore la montagne nous le permettaient, nous pourrions aller de là visiter ces arbres séculaires qui ont répandu leur gloire sur tout le Liban, et qui sont contemporains du grand roi. (...)
(p275) Ces arbres sont les monuments naturels les plus célèbres de l' univers. La réligion, la poésie et l' histoire les ont également consacrés. L' écriture sainte les célèbre en plusieurs endroits. Ils sont une des images que les prophètes emploient de prédilection. Salomon voulut les consacrer à l' ornement du temple qu' il éleva le premier au dieu unique, sans doute à cause de la renommée de magnificence et de sainteté que ces prodiges de végétation avaient dès cette époque. Ce sont bien ceux-là; car Ézéchiel parle des cèdres d' Éden comme des plus beaux du Liban.
"View of The Cedars, Lebanon, 7x5 inch Steel engraved Print, published in London c1850"
©
Lebanon, in engravings (Centre for lebanese studies)
Les arabes de toutes les sectes ont une vénération traditionnelle pour ces arbres: ils leur attribuent non-seulement une force végétative qui les fait vivre éternellement, mais encore une âme qui leur fait donner des signes de sagesse, de prévision, semblables à ceux de l' instinct chez les animaux, de l' intelligence chez les hommes. Ils connaissent d' avance les saisons, ils remuent leurs vastes rameaux comme des membres, ils étendent ou resserrent leurs coudes, ils élèvent vers le ciel ou inclinent vers la terre leurs branches, selon (p276) que la neige se prépare à tomber ou à fondre.
Ce sont des êtres divins sous la forme d' arbres. Ils croissent dans ce seul site des groupes du Liban ; ils prennent racine bien au-dessus de la région où toute grande végétation expire. Tout cela frappe d' étonnement l' imagination des peuples d' orient, et je ne sais si la science ne serait pas étonnée elle-même. -hélas ! Cependant Basan languit, le carmel et la fleur du Liban se fanent. Ces arbres diminuent chaque siècle.
Les voyageurs en comptèrent jadis trente ou quarante, plus tard dix-sept ; plus tard encore, une douzaine. -il n' y en a plus que sept, que leur masse peut faire présumer contemporains des temps bibliques. (...) Il reste encore une petite forêt de cèdres plus jeunes! Qui me parurent former un groupe de quatre ou cinq cents arbres ou arbustes.
Chaque année, au mois de juin, les populations de Beschieraï, d' Éden, de Kanobin et de tous les villages des vallées voisines, montent aux cèdres, et font célébrer une messe à leur pied. Que de prières n' ont pas résonné sous ces rameaux! Et quel plus beau temple, quel autel plus voisin du ciel, quel dais plus majestueux et plus saint que le dernier plateau du Liban, le tronc des cèdres, et le dôme de ces rameaux sacrés qui ont ombragé et ombragent encore tant de générations humaines, prononçant le nom de Dieu différemment, mais le reconnaissant partout dans ses oeuvres, et l'adorant dans des manifestations naturelles! Et moi aussi je priai en présence de ces arbres. Le vent harmonieux qui résonnait (p. 277) dans leurs rameaux sonores jouait dans mes cheveux, et glaçait sur ma paupière des larmes de douleur et d' adoration. (...)»
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Ver * Cedars of Lebanon (página da embaixada do Líbano na Austrália); Cedros no Líbano (links)
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14.1.05

Eucaliptos monumentais na Quinta de Fiães (Gaia)

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Fotos: mdlramos 0312 ...Eucalyptus amygdalina e Eucalyptus obliqua
Os jardins do Solar Van-Zeller na Quinta de Santo Inácio de Fiães (em Avintes- Vila N. de Gaia) foram mencionados ainda há pouco tempo a propósito de um incomum exemplar de craveiro-da-Índia que lá se pode encontrar. Quando tirei estas fotografias, não o conhecia, e as únicas árvores desse local sobre as quais sabia alguma coisa, para além das camélias, eram os seus eucaliptos monumentais, nomeadamente da espécie E. obliqua.
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Mais uma vez a fonte de informação tinha sido o livro Árvores Monumentais de Portugal (1984), de Ernesto Goes que escreve o seguinte:
«E. obliqua- O nome botânico resulta do formato das suas folhas, que são acentuadamente oblíquas. É originária da Tasmânia e Austrália. É uma espécie algo difundida no País em Parques e Jardins, atingindo por vezes dimensões invulgares. Por outro lado é uma árvore muito bonita não só por ter um tronco cilíndrico e muito direito e despido de ramos até grande altura, com casca fibrosa castanha clara, como também por ter uma copa densa de folhagem verde escura.
(...) Eucaliptos da Quinta de Fiães, em Avintes- há a assinalar o maior eucalipto desta espécie, com 45 metros de altura, e um tronco de 7, 10 m. de P.A.P. completamente despido de ramos até 16 metros de altura, com um volume de madeira de 63 m. cúbicos. Há ainda a referir um outro E. obliqua de grande porte. Julga-se que estas árvores foram plantadas em 1912 de sementes provenientes da Austrália.»
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Relativamente ao eucalipto maior- actualmente com um perímetro de 8,15 m e uma altura superior a 50 metros- a cuidada brochura editada pela própria Quinta de S. Inácio em 2002, intitulada Os Jardins e os Bosques da Quinta de Stº Inácio de Fiães, sugere que a sua plantação terá sido muito anterior, tendo ocorrido em 1870.
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13.1.05

A única revista que...

Neste mundo em que, cada vez mais, comunicamos à distância com aqueles que partilham os nossos gostos e ignoramos tudo sobre os nossos vizinhos, as revistas especializadas cumprem um papel agregador dessas dispersas comunidades de interesses, fornecendo-lhes referências e uma marca identitária. Um caçador de fim-de-semana - equipado com cão, veículo todo-o-terreno, artilharia quanto baste, farda e botas a condizer - alimentará a sua paixão, no dia-a-dia sedentário entre duas saídas de campo, com a leitura atenta de Cães & Tiros: a prosaica aparência quotidiana esconde afinal a sua verdadeira personalidade, que é a de um membro ferrenho do clube mato tudo quanto mexe.

Um relance pelos quiosques e ficamos convencidos: há interesses para tudo, e para cada interesse há uma revista ou até muitas revistas. Há assuntos em que mesmo em português elas proliferam: carros, motociclismo, cães, cavalos, caça, pesca, culturismo, decoração, bordados, saúde & bem-estar, moda, computadores, puericultura, futebol, música... No meio deste gasto desvairado de papel, uma revista há que proclama ser a única portuguesa sobre jardins; intitula-se precisamente Jardins. Será mesmo a única? Haverá mais portugueses interessados em motociclismo ou na criação de cavalos do que em jardins?

A falar verdade, a revista não é bem portuguesa: é a versão nacional de uma publicação que existe em várias línguas. Mais de dois terços do seu conteúdo não publicitário é traduzido; daí que muitas vezes ela pareça desajustada do público a quem se dirige, como nos insistentes conselhos sobre as precauções a tomar com a neve. Há dicas que são puro dislate, atribuível talvez à tradução: «devolva as formas às árvores de sombra em repouso, eliminando o ramo central principal» (n.º 28, Janeiro de 2005, pág. 36). Quer isto dizer que devemos cortar-lhes a flecha, fazendo assim com que as árvores cresçam deformadas?

O conteúdo português da revista, embora escasso, é de leitura proveitosa. Neste número de Janeiro, por exemplo, aparece uma boa reportagem sobre o jardim público de Viana do Castelo na margem do Lima: aprendemos que a sociedade que o construiu, na década de 1880, foi a mesma a quem se deve o Palácio de Cristal portuense; e recordamos a amputação que o jardim sofreu há quatro anos em prol do automóvel. Pena é que, contando-se a história do jardim, não se identifiquem as árvores, arbustos e flores que hoje o compõem. Regista-se ainda com agrado o espaço que a revista abre aos arquitectos paisagistas portugueses para descreverem os seus projectos, mas seria desejável que tais textos, potencialmente tão interessantes, fossem escritos em estilo menos canhestro.

12.1.05

Feeding the bird


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Cena quotidiana em dias de sol no Palácio de Cristal, com cedros-do-Líbano ao fundo ;-) .
Agora que (finalmente) começou a chover ficam as saudades de imagens como esta.
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«They kill good trees to put out bad newspapers.» ~James G. Watt, citado na Newsweek (82-03-08)

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Companhia da canela



E, se buscando vais mercadoria
Que produz o aurífero Levante,
Canela, cravo, ardente especiaria
Ou droga salutífera e prestante;
Ou se queres luzente pedraria,
O rubi fino, o rígido diamante,
Daqui levarás tudo tão sobejo,
Com que faças o fim a teu desejo.
Camões, Lusíadas - Canto II - 4

Esta é a flor do craveiro-da-Índia. É pequenina, não maior que um polegar, de quatro pétalas, mas a árvore fica alvacenta de tantos bigodinhos brancos. A profusão de estames revela a família desta árvore, a mesma dos eucaliptos e dos metrosíderos: trata-se de uma Myrtaceae de origem asiática, de nome científico Syzygium aromaticum. Tem folha perene, com cerca de 8 cm de comprimento, verde claro brilhante, mole e notoriamente ondulada, com pecíolo longo e ponta acentuada; o tronco é cinzento e fissurado.

Os frutos parecem grandes gotas de vinho tinto. São comestíveis mas é o cálice seco da flor, o cravinho (do latim clavus), nome que alude à semelhança da forma com um prego, que é famoso pelo seu perfume. É uma especiaria requintada, de aroma doce como incenso e sabor forte que sobressai nas misturas para temperos picantes; usa-se em doces mas também para aromatizar tabaco, café, arroz e pão.



O craveiro-da-Índia é uma espécie endémica das ilhas Molucas, na Indonésia, plantado hoje extensivamente nas ilhas de Zanzibar, Pemba e Madagascar, no oceano Índico, para produção do cravinho: diz-se que o seu perfume se sente no mar por quem se aproxima destas ilhas.

O exemplar que conhecemos está na Quinta de Sto. Inácio, em Vila Nova de Gaia. Tem mais de 10 metros de altura e uma copa graciosa, com uma distribuição densa de ramos; mora num recanto junto ao jardim de aromas, onde sobressai entre sebes de camélias plantadas por Francisco Van Zeller no princípio do século XIX.

Fotos: pva 0411

11.1.05

Da cordilheira do Atlas para o Minho


Fotos: 0412 - cedros-do-Atlas - Monte de Pilar - Póvoa do Lanhoso

Dois belos e ainda jovens Cedrus atlantica Glauca no coração do Minho. Fotos gentilmente cedidas por um nosso assíduo leitor, que preferiu o anonimato.

10.1.05

Sequóia-gigante e cedros-do-Atlas em Serralves

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Foto: mdlramos 04 .... Sequóia gigante e cedros-do-Atlas nos Jardins de Serralves (Porto)
A propósito das árvores do Jardim do Carregal, já aqui tínhamos falado desta formosa sequóia-gigante(Sequoiadendron giganteum); o que não dissemos é que se encontra ao lado de um não menos garboso Cedrus atlantica, espécie muito bem representada nos Jardins de Serralves pelo cultivar "Glauca"- a que também se costuma chamar cedro azul.
Nota: chama-se a atenção para o pequeno e quase imperceptível banco verde, em primeiro plano, do lado esquerdo, que dá uma noção das dimensões das árvores.
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