31.1.05

Árvores classificadas do Porto


Ao contrário dos edifícios históricos ou arquitectonicamente marcantes, as árvores ou jardins raramente são objecto de protecção especial; e, no entanto, no que toca à dignificação da árvore como elemento qualificador da paisagem e repositório de memórias de uma comunidade, Portugal possui um instrumento legal que o distingue pela positiva até no contexto europeu. Trata-se da declaração de interesse público, exarada em Diário da República, de árvores isolados ou maciços arbóreos «que pelo seu porte, idade ou raridade se recomendem a cuidadosa conservação». A possibilidade de uma tal classificação, que confere à árvore uma razoável protecção legal, foi criada pelo Decreto-Lei n.º 28468 de 15/02/1938 - e, por mérito da Direcção-Geral das Florestas (DGF), que a tem divulgado através de brochuras e folhetos, tem sido amplamente reavivada nos últimos anos. ( mais informações )

Qualquer pessoa pode propor à DGF a classificação de árvores - mas, para que o pedido seja aceite, há vários requisitos a satisfazer: as árvores em causa têm que ser de algum modo notáveis, estar de boa saúde, e não apresentar aleijões devidos a maus tratos ou acidentes; e o seu proprietário tem que concordar com a classificação.

Em Janeiro de 2004, e no âmbito do nosso trabalho na associação Campo Aberto, submetemos (os três autores deste blogue) à DGF um pedido de classificação de 11 conjuntos de árvores no Porto. Nessa altura, só cá existiam quatro árvores classificadas. Soubemos há dias que, com excepção de duas árvores (uma por dela não se conhecer o dono, a outra porque o seu local de implantação a não favorece), todas as nossas candidatas foram aprovadas, e a sua classificação promulgada em Diário da República (II série, n.º 6, 10/I/2005). Foi ainda publicada no mesmo DR a classificação de outras árvores propostas anteriormente pelo NDMALO (conjuntos 7 e 9, na listagem abaixo).

Com isto, passámos no Porto de 4 para 242 árvores classificadas: um verdadeiro salto de gigante.

AS NOVAS ÁRVORES CLASSIFICADAS
.
1 e 2 - Avenida de Montevideu



Metrosideros excelsa (33) + (55)

3, 4; 5 e 6 - Jardim do Passeio Alegre

................................................................Metrosideros excelsa (2)

Phoenix canariensis (63) ...................... .Araucaria heterophylla (28)

7 - Praça de Pedro Nunes

...................................................Liriodendron tulipifera (4)

8, 9 - Jardim da Cordoaria



Araucaria bidwillii (1) ............. Platanus orientalis var. acerifolia (37)

10, 11 - Jardim das Virtudes e Largo do Viriato

...................................................Ginkgo biloba (1)

Jacaranda mimosifolia (1)

12 - Jardim de S. Lázaro

...........................................................Magnolia grandiflora (12)
Fotos: mdlramos

30.1.05

«I never had any other desire so strong, and so like to covetousness, as that one which I have had always, that I might be master at last of a small house and a large Garden. » ~Abraham Cowley, The Garden, 1666

29.1.05

Da minha janela # 1

.

Da minha janela, onde pouso os olhos? No céu azul, nas árvores sem folhas,
nas ovelhas a pastar, na laranjeira brilhando ao sol, na japoneira, no lençol branco...

Fotos: mdlramos 0501
Ramalde rural vai aos poucos desaparecendo -o cerco aperta! Nesta zona, apenas restam dois casais de lavradores, velhotes (mas q já descobriram q. os cd-roms são óptimos para espantar pardais ;-).
Nos parágrafos dedicados ao habitat e urbanismo do site da Junta de Freguesia de Ramalde pode ler-se o seguinte: «A habitação social marca profundamente a ocupação na freguesia de Ramalde que se organiza fundamentalmente a partir da década de 60. Em contrapartida, e sem explicação, embora tenha sido Ramalde um território rural, parece não ter havido então a preocupação de criar espaços verdes. Na realidade, em toda a freguesia apenas existe uma zona de lazer e que não é pública. Trata-se do parque de campismo da cidade, ou parque da Prelada, que ocupa a quinta que pertenceu ao antigo solar dos Senhores da Prelada(...).
A par deste tipo de habitação, aparecem as áreas residenciais de luxo (...) »
Essa ausência de "preocupação de criar espaços verdes" parece continuar, assim como prossegue a urbanização desenfreada, como não poderia deixar de ser. Já não falando em grandes zonas verdes, nem sequer em médios jardins públicos, o que seria tb desejável e possível era que nas pequenas zonas ajardinadas existentes se colocassem bancos (de jardim de preferência com costas ;-) e que se ajardinassem os espaços tipo baldio que abundam nas zonas de habitação social.
Bem, mas eu só tinha vindo à janela...

28.1.05

Dúvidas de semeador

Informa-nos Harri Lorenzi, no livro Árvores Brasileiras - Manual de Identificação e Cultivo de Plantas Arbóreas Nativas do Brasil (Instituto Plantarum, São Paulo, 1998), que as sementes da Ceiba insignis, que plantaremos logo que resolvam espreitar do aconchego do algodão que as envolve, germinarão em uma a duas semanas. Informações bem-vindas para aplacar a ansiedade. Em tempos idos, sem literatura especializada disponível, a sorte do semeador - e do contista - era mais imprevisível. Disso nos dá conta Fernando Sabino em As melhores crónicas (2000):

«Um ficcionista às vezes precisa saber coisas muito esquisitas. A experiência própria nem sempre ajuda. Passei, por exemplo, a minha infância nos galhos de uma mangueira, chupando manga o dia todo, e não soube responder a um amigo meu, excelente romancista, quanto tempo levava para germinar um caroço de manga. Contou-me ele, na época, que andou precisando saber este pormenor, em razão de uma história que estava escrevendo. Depois de perguntar a um e outro, e não obtendo senão respostas vagas, telefonou para a repartição do Ministério da Agricultura que lhe pareceu mais apta a fornecer-lhe a informação. O funcionário que o atendeu ficou simplesmente perplexo:
- Caroço de manga? Que brincadeira é essa?
Como insistisse, informaram-lhe que, realmente, havia quem talvez soubesse - um especialista no assunto, lotado num departamento ao qual estava afeto o sector de fruticultura. Discou para lá - mas só conseguiu colher vagos palpites:
- Um caroço de manga? Bem, deve levar um ou dois meses, o senhor não acha?
- Não acho nada: preciso saber com exatidão.
- Por quê?
- Bem, porque ...
Outros telefonemas, que somente despertaram reminiscências infantis:
- Na minha casa tinha uma mangueira. A manga-espada, por exemplo, se bem me lembro...
- Boa é a manga carlota, aquela pequenina, sem fibra nenhuma... Lá no Norte chamam de itamaracá.
- O caroço? Bem o caroço, para lhe dizer com franqueza...
Resolveu telefonar para o Gabinete do Ministro.
- Queria uma informaçãozinha de Vossa Excelência.
O Ministro não sabia.»

27.1.05

O que está para vir



Fotos: pva 0412 - botões de ulmeiro e de castanheiro-da-Índia

Previsões fiáveis de crescimento botânico para a Primavera de 2005: dando cumprimento aos objectivos (*) traçados pelas respectivas árvores no início da temporada de Inverno, estes botões irão ficar maiores e, logo de seguida, abrir-se e produzir folhas - folhas simples no primeiro caso, compostas no segundo.

Até lá, duvido que a actualidade nacional nos forneça motivo de maior regozijo.

(*) Objectivos estratégicos ou programáticos? Eis uma distinção que ainda hoje me confunde.

26.1.05

Pão silvestre


Fotos: pva 0412 - Araucaria araucana - Águas Santas (Maia)

A araucária das fotos é um exemplar jovem, de copa com formato piramidal típico, de uma das espécies mais raras no país, resultado de uma preferência de longa data pela Araucaria heterophylla (antes chamada excelsa) e, mais a norte, pela A. angustifolia. A propósito, escreve Duarte de Oliveira Júnior, em 1873, no Jornal de Horticultura Prática: «É esta uma das espécies mais ornamentais e, segundo a nossa opinião, excede em beleza a Araucaria excelsa, que aliás é a predilecta de muitos horticultores que nos acusarão de profanos, proferindo tal sentença. A sua rusticidade e a sua beleza como árvore ornamental deveriam assegurar a esta planta uma propagação rápida no nosso país.» E mais adiante: «A Araucaria excelsa é por certo bonita e o seu garbo é o que mais nos seduz. A Araucaria imbricata não é elegante, mas tem um porte austero e como que nobre. Só temos notícia de um exemplar que mereça ser assinalado. Pertence esse indivíduo ao sr. Chistiano Van-Zeller e está disposto na sua quinta de Villar (Porto). É um belíssimo espécime: mede de treze a quatorze metros e os verticilos estão dispostos com a maior regularidade possível, parecendo mais obra do homem do que da natureza. Como se a natureza não fosse mais caprichosa que a imaginação do homem!» [O exemplar aqui mencionado já não existe, pois a Quinta de Villar há muito que desapareceu.]

Da família Araucariaceae (que tem três géneros, Araucaria, Agathis e Wollemia), nativa da cordilheira andina partilhada pelo Chile e pela Argentina, a Araucaria araucana (antes imbricata) é uma conífera que gosta de frio, de crescimento lento e folha perene. As folhas têm cerca de 3 cm de comprimento, são rijas, de cor verde escuro brilhante, lanceoladas e muito ponteagudas, espiralando densamente em torno dos ramos. Estes dispõem-se no tronco como raios de um círculo, dando à copa da árvore adulta, que tem o tronco inferior despido, uma forma que lembra um guarda-chuva - imponente quando a árvore supera os 30 metros de altura. As sementes, produzidas em grande profusão mas só em exemplares com mais de 20 anos, são como amêndoas com o dobro do tamanho, comestíveis e muito apreciadas até em farinha, de importância comercial comparável à das tâmaras ou dos cocos. Esta é uma espécie dióica e as árvores femininas podem exibir mais de vinte cones, recheados de pinhões saborosos, por ramo. Assegura Duarte de Oliveira Júnior: «A quantidade de sementes que produz cada árvore feminina excede o que se imagina, e não se exagerará afirmando que os índios da região Araucariana estão completamente livres de passar fome.»

No Chile, onde ainda hoje há extensos povoamentos desta espécie, a Araucaria araucana é monumento nacional desde 1990. O nome alude aos índios pehuenche, da tribo mapuche, que vivem na Araucania e cuja oposição corajosa à ocupação espanhola é cantada por Pablo Neruda na Ode à Araucaria araucana.

Esta araucária chegou à Europa no século XVIII com o cognome monkey puzzle (ou désespoir des singes), fonte de alguns mal-entendidos. O termo teria sido sugerido aos europeus por um comentário sobre a aspereza da folhagem, que dificultaria a escalada aos macacos... afinal inexistentes na região de origem desta árvore.

25.1.05

Tílias - Casa de Ramalde (Porto)

.

Foto: mdlramos 0312
Em todas as estações do ano, coberta de folhas ou com a ramagem nua, as tílias que não sofreram grandes podas destacam-se pela maravilhosa harmonia das suas copas (como é o caso destas que se encontram nos terrenos da Casa de Ramalde *). Mas é no Inverno que os estragos dos cortes indiscriminados são mais vísíveis, como aliás já aqui mostrámos, publicando umas fotografias de tílias podadas e não podadas em Lamego.

(*Casa original do séc. XVI considerada imóvel de interesse público, remodelado por Nicolau Nasoni no séc. XVIII, situada na freguesia de Ramalde; nela se encontra sediada a DRN do IPPAR)

24.1.05

Enquanto há vida


Fotos: pva 0501 - Praça da República (Porto)

Das tílias diz Aquilino, na sua Geografia Sentimental, que chegam a parecer-lhe «mais tafuis do que esposas de marajás»; e acrescenta que, «se há planta que tenha o senso da simetria e das belas ordenanças, numa palavra, ponha garridice no seu amanho, é esta».

Face ao estado destas tílias na Praça da República, ocorreria perguntar quem foi o sádico e indigno marajá que ordenou tal serviço. Pergunta retórica, obviamente, e no caso um pouco injusta. A terra revolvida das caldeiras indica que as tílias foram para lá há bem pouco tempo; e é de supor que tenham sido transplantadas da rua D. Manuel II, de onde, como então noticiámos, foram expulsas pelas obras do enguiçado túnel rodoviário.

Embora lhes tenha sido irremediavelmente roubada a beleza que irradiavam quando primeiro as conhecemos, a sua vida não acabou ainda.

23.1.05

Provérbio - Nozes

...Deus dá nozes a quem não tem dentes
...

O filólogo brasileiro João Ribeiro, na 2ª e última série de Frazes feitas: estudo conjectural de locuções, ditados e provérbios (Rio de Janeiro : Francisco Alves, 1909, p.21-22), explica-nos assim o teor deste conhecido provérbio:
«
Aplica-se o ditado ao que não sabe ou não pode aproveitar a boa fortuna que lhe coube. À velhice edentada as nozes nada aproveitam, e por isso mais especialmente aos velhos é que ironicamente se endereça o rifão, e apodo, quando desposam meninas. Se desta situação marital é que resulta o provérbio, imaginado pela inveja, a explicação não pode ser outra que a de costume antiquíssimo e que data dos romanos. Por esses tempos remotos, quando se recolhiam os nubentes da cerimónia do casamento lançava o marido aos rapazes grande quantidade de nozes. Era quase um modo de despedir-se da meninice. O símbolo não trazia o amargor de hoje [...]
Com as nozes brincavam as crianças e "deixar as nozes" era fazer-se gente grande e séria. "Et nucubus fazimus quoecumque relictis". Cabem pois as nozes aos que não têm dentes, tanto à infância como à decrepitude.»

.
Esta também parece ser a interpretação de Rafael Bordalo Pinheiro que, no seu album Phrases e anexins da lingua portugueza: album de caricaturas (1876)*, ilustra a frase "Dá deus nozes a quem não tem dentes", fazendo figurar um homem de idade sentado ao lado de uma rapariga jovem, numa carruagem.
*A edição facsimilada desta obra foi publicada pela Caminus (Lisboa) em 1994.
O criador do Zé povinho morreu há 100 anos: ler no Público


Simbologia das árvores (índice novo)

. Ver

22.1.05

Laureados e Robustecidos


Foto: pva 0412

Uma árvore, por si só, não corporiza nenhuma mensagem: o carvalho, ainda que alto e forte e, a nossos olhos, quase imortal, não nos exorta a uma vida longa e saudável; o limoeiro não nos quer ensinar o quanto a vida pode ser azeda. Por sua vontade, a árvore nada nos diz; somos nós que a carregamos de simbologia: ao plantá-la num certo lugar, ao representá-la de um certo modo, ao darmos certo uso ao que ela produz. Humanizar a árvore e as outras formas de vida não humana é só um primeiro, incipiente passo para começarmos a respeitá-las.

Se uma árvore não é uma mensagem, a mesma árvore numa pintura ou esculpida em pedra tem quase sempre algum recado a dar-nos. Exemplo extremo é o da heráldica, em que os elementos botânicos e zoológicos dos brasões fornecem rico elucidário sobre a vaidade humana. No brasão da foto em cima, que aparece na fachada cinquentenária de uma escola de Vila Nova de Gaia, lêem-se máximas que não são deste tempo; talvez por isso ninguém hoje as queira ou saiba ler. Eu próprio posso estar a treslê-las.

Eis o que as duas vozes gravadas no brasão diziam aos meninos (não às meninas, que a escola não era para elas) de há cinquenta anos:

- Se fores um estudante sério e aplicado - é o loureiro à esquerda falando com voz suave de tenor -, terás boas notas, serás elogiado pelos teus professores, admirado pelos teus colegas, e receberás como prémio, na cerimónia do dia oficial da escola, uma citação pública de louvor e um livro de conteúdo edificante.

- É o saber conquistado pelo estudo que robustece os homens e os faz subir na vida - estrondeia à direita a voz de barítono do carvalho-roble.

Como eram ingénuas estas vozes de antanho!

21.1.05

Obras de Janeiro

Segundo o Almanaque do Horticultor- «Arvoredos: Nesta época deve apressar-se, quando possível, a plantação de árvores frutíferas em geral, quando o horticultor se tenha descuidado de as plantar nos meses de Novembro e Dezembro; se, porém, o terreno for excessivamente húmido, será conveniente a plantação em Fevereiro.
As plantações em Março são perigosas no nosso país; porque a doçura do clima apressa a vegetação, e toda a casta de árvores, frutífera ou não, de folha caduca, deve ser transplantada quando a seiva está em repouso.
Quem quiser obter um bom resultado, tanto em relação ao vigor das árvores, como à abundância de frutos, não deve espaçar, além deste mês, a poda e limpeza das árvores frutíferas.
(...)
Durante este mês também se cortam as árvores destinadas a darem madeira para construções, a qual fica de melhor qualidade por estar a seiva em repouso.»
in Lunário e Prognóstico Perpétuo para todos os Reinos e Províncias por Jeronymo Cortez Valenciano. Reformado e muito acrescentado. Porto : Lello & Irmão, 1980 (obra original do séc. XVIII)
. .
Anteriores: Obras de Julho - Obras de Agosto - Obras de Setembro -Obras de Outubro

20.1.05

Metamorfoses



Fotos: pva 0412/0501 - Magnolia stellata - Parque de Serralves (Porto)

Desta vez, e apesar das promessas iniciais de uma floração temporã, as magnólias da cidade ainda não vestiram o manto alvacento com que festejam cada novo ano. Será a falta de chuva? Será que o desânimo geral também as atingiu? Fiquemo-nos com esta Magnolia stellata de Serralves que, embora não ainda no auge, pelo menos não faltou à chamada. Um mês atrás (fotos da esquerda), já ela se afadigava em rechear de pétalas rosadas os seus peludos botões.

19.1.05

Flores para Eugénio


Foto: pva 0501 - violeta-africana (Saintpaulia ionantha)

PRAÇA DA ALEGRIA

Cheira bem: a café fresco, ou antes, a café misturado com o cheiro das violetas que o pequeno vendedor pusera em cima da minha mesa, insistindo para que lhe comprasse um ramo. A quem o daria? Disse-lhe isto mesmo: que vivia no Porto como quem vive na ilha do Corvo, não tinha ninguém a quem dar uma flor. O rapazito, com olhos escuros de potro manso, percebendo que a minha recusa era débil, não arredava pé. Acabei por comprar-lhe as violetas e oferecê-las à lua, acabada de surgir no canto da praça, branca, redonda, carnuda, que, apesar de puta velha, ao aceitá-las, se pôs da cor das cerejas.

Eugénio de Andrade, Vertentes do Olhar (1987)

Araucárias classificadas (Monchique)

... .

Fotos: 0308 - Araucárias-de-Norfolk (Araucaria heterophylla) em Monchique
.

«Altura total: 34.00 m.; circunferência a 1,30 m.: 4,05 m.; diâmetro médio da copa: 18,50 m.; idade provável: centenária; localização: Qtª da Vila. Observações: árvore alta e bem conformada que se destaca na Vila de Monchique. Classificação em 14-08-1993
.
Altura total: 40.00 m.; circunferência a 1, 30 m.: 4,50 m.; diâmetro médio da copa: 16,50 m.; idade provável: centenária; localização: Qtª do Viador. Observações: árvore muito alta e bem conformada. Situa-se à saída de Monchique para o Barranco dos Pisões. Classificação em 14-08-1993 »
in Árvores isoladas, maciços e alamedas Classificados de Interesse Público, Instituto Florestal (1995)
A ler: A Araucária do Largo dos Chorõs

18.1.05

Camélias do Palácio Vila Flor - Guimarães


Foto 0412 - camélias no jardim do Palácio Vila Flor - Guimarães

Localizado numa zona alta da cidade de Guimarães, o setecentista Palácio Vila Flor, actualmente propriedade camarária, encima um histórico jardim que se distribui em terraços sucessivos, ligados por lanços de escadaria e delimitados por balaustradas de granito decoradas com motivos escultóricos. Este jardim é descrito em pormenor no livro Tratado da Grandeza dos Jardins em Portugal de Helder Carita e Homem Cardoso, e a comparação entre a seu plano original e o que dele se pode hoje observar confirma que chegou praticamente intacto aos nossos dias. É caso para dizer: bem hajam os que tiveram a sabedoria de preservar este tesouro.

O que certamente mudou no jardim foi a vegetação, já que as camélias, que lhe dão a marca mais distintiva, só no século XIX se vulgarizariam no nosso país. Mas, pelo seu avantajado porte, é de supor que estes soberbos espécimes sejam quase bi-centenários. Noutros jardins de Guimarães, privados ou públicos, e em especial no jardim ao longo da avenida central, também vicejam numerosas e variadas camélias, embora em geral muito mais jovens do que estas do Palácio Vila Flor.

Recentemente, o palácio entrou em obras para ser transformado num centro cultural. O projecto, segundo o Guimarães Digital, não é nada modesto: «O projecto do Centro Cultural de Vila Flor prevê quatro salas de reuniões com 55 lugares cada, uma área expositiva com mil metros quadrados, dois auditórios de teatro com capacidade para mil pessoas, um restaurante, um café-concerto e um parque de estacionamento [subterrâneo] com 250 lugares.» Em lugar da vista desafogada sobre o centro da cidade, alguns moradores locais terão doravante um enorme muro a tapar-lhes as casas. Felizmente, a obra, aproveitando o terreiro nas traseiras do palácio, não parece tocar no jardim; e, descontando a volumetria exagerada dos novos anexos, o destino que é dado ao histórico edifício é inteiramente digno e apropriado.

Só se lamenta, no terreiro onde as obras agora decorrem a todo o vapor, o sacrifício de uma gigantesca araucária que, com um pouco de imaginação e sensibilidade, muito valorizaria o projecto final. Afinal as árvores, como os edifícios, também fazem a memória das cidades.

17.1.05

Fantasia -Torga


foto: manueladlramos 0501
.
Canto ou não canto o limoeiro
aqui ao lado?
Ele é tão delicado!
Tem um jeito tão puro
de se encostar ao muro
onde vive encostado...
.
Canto ou não canto as tetas de donzela
que daqui da janela
vejo no limoeiro?
Elas são tão maduras...
E tão duras...
Têm uma cor e um cheiro...
Canto! Nem serei o primeiro,
nem eu sou nenhum santo!
.
Miguel Torga (1945)
Antologia Poética, Coimbra, Ed. do Autor, 1981
«Há precisamente 10 anos (...)» ; ver tb. "Dossier- Miguel Torga".
.
Outro poeta, outro perfume, outros Limões
.

16.1.05

Mimosas


Foto: pva 0501 - Acacia dealbata

Todos os anos na mesma altura
a montanha veste o mesmo vestido amarelo
para ver se ainda lhe serve na cintura.

Jorge Sousa Braga, Fogo sobre fogo (1998)

15.1.05

Cedros no Líbano (links)

Lamartine e os cedros do Líbano (1833)

.
Nos Souvenirs, impressions, pensées et paysages pendant un voyage en Orient (1832-1833), A. de Lamartine relata a sua visita aos cedros-do-Líbano, mais propriamente aos cedros da floresta de Becharreh, célebres pelas suas associações bíblicas e considerados hoje em dia com um valor histórico semelhante às ruinas de "Byblos, Baalbeck or Tyre", como se pode ler na página da embaixada do Líbano abaixo indicada.
A descrição do homem de letras e político francês tornou-se, para quem se interessa pela história das árvores, num texto de referência, bastante comentado, e amiúde citado, se bem que de forma incompleta. Aqui fica a transcrição dessa passagem:
.
«p. 270 (...) D' Éden [Ehden], aux cèdres de Salomon il n' y avait plus que trois heures de marche, et si les neiges qui couvraient encore la montagne nous le permettaient, nous pourrions aller de là visiter ces arbres séculaires qui ont répandu leur gloire sur tout le Liban, et qui sont contemporains du grand roi. (...)
(p275) Ces arbres sont les monuments naturels les plus célèbres de l' univers. La réligion, la poésie et l' histoire les ont également consacrés. L' écriture sainte les célèbre en plusieurs endroits. Ils sont une des images que les prophètes emploient de prédilection. Salomon voulut les consacrer à l' ornement du temple qu' il éleva le premier au dieu unique, sans doute à cause de la renommée de magnificence et de sainteté que ces prodiges de végétation avaient dès cette époque. Ce sont bien ceux-là; car Ézéchiel parle des cèdres d' Éden comme des plus beaux du Liban.
"View of The Cedars, Lebanon, 7x5 inch Steel engraved Print, published in London c1850"
©
Lebanon, in engravings (Centre for lebanese studies)
Les arabes de toutes les sectes ont une vénération traditionnelle pour ces arbres: ils leur attribuent non-seulement une force végétative qui les fait vivre éternellement, mais encore une âme qui leur fait donner des signes de sagesse, de prévision, semblables à ceux de l' instinct chez les animaux, de l' intelligence chez les hommes. Ils connaissent d' avance les saisons, ils remuent leurs vastes rameaux comme des membres, ils étendent ou resserrent leurs coudes, ils élèvent vers le ciel ou inclinent vers la terre leurs branches, selon (p276) que la neige se prépare à tomber ou à fondre.
Ce sont des êtres divins sous la forme d' arbres. Ils croissent dans ce seul site des groupes du Liban ; ils prennent racine bien au-dessus de la région où toute grande végétation expire. Tout cela frappe d' étonnement l' imagination des peuples d' orient, et je ne sais si la science ne serait pas étonnée elle-même. -hélas ! Cependant Basan languit, le carmel et la fleur du Liban se fanent. Ces arbres diminuent chaque siècle.
Les voyageurs en comptèrent jadis trente ou quarante, plus tard dix-sept ; plus tard encore, une douzaine. -il n' y en a plus que sept, que leur masse peut faire présumer contemporains des temps bibliques. (...) Il reste encore une petite forêt de cèdres plus jeunes! Qui me parurent former un groupe de quatre ou cinq cents arbres ou arbustes.
Chaque année, au mois de juin, les populations de Beschieraï, d' Éden, de Kanobin et de tous les villages des vallées voisines, montent aux cèdres, et font célébrer une messe à leur pied. Que de prières n' ont pas résonné sous ces rameaux! Et quel plus beau temple, quel autel plus voisin du ciel, quel dais plus majestueux et plus saint que le dernier plateau du Liban, le tronc des cèdres, et le dôme de ces rameaux sacrés qui ont ombragé et ombragent encore tant de générations humaines, prononçant le nom de Dieu différemment, mais le reconnaissant partout dans ses oeuvres, et l'adorant dans des manifestations naturelles! Et moi aussi je priai en présence de ces arbres. Le vent harmonieux qui résonnait (p. 277) dans leurs rameaux sonores jouait dans mes cheveux, et glaçait sur ma paupière des larmes de douleur et d' adoration. (...)»
.
Ver * Cedars of Lebanon (página da embaixada do Líbano na Austrália); Cedros no Líbano (links)
.

14.1.05

Eucaliptos monumentais na Quinta de Fiães (Gaia)

.

Fotos: mdlramos 0312 ...Eucalyptus amygdalina e Eucalyptus obliqua
Os jardins do Solar Van-Zeller na Quinta de Santo Inácio de Fiães (em Avintes- Vila N. de Gaia) foram mencionados ainda há pouco tempo a propósito de um incomum exemplar de craveiro-da-Índia que lá se pode encontrar. Quando tirei estas fotografias, não o conhecia, e as únicas árvores desse local sobre as quais sabia alguma coisa, para além das camélias, eram os seus eucaliptos monumentais, nomeadamente da espécie E. obliqua.
,
Mais uma vez a fonte de informação tinha sido o livro Árvores Monumentais de Portugal (1984), de Ernesto Goes que escreve o seguinte:
«E. obliqua- O nome botânico resulta do formato das suas folhas, que são acentuadamente oblíquas. É originária da Tasmânia e Austrália. É uma espécie algo difundida no País em Parques e Jardins, atingindo por vezes dimensões invulgares. Por outro lado é uma árvore muito bonita não só por ter um tronco cilíndrico e muito direito e despido de ramos até grande altura, com casca fibrosa castanha clara, como também por ter uma copa densa de folhagem verde escura.
(...) Eucaliptos da Quinta de Fiães, em Avintes- há a assinalar o maior eucalipto desta espécie, com 45 metros de altura, e um tronco de 7, 10 m. de P.A.P. completamente despido de ramos até 16 metros de altura, com um volume de madeira de 63 m. cúbicos. Há ainda a referir um outro E. obliqua de grande porte. Julga-se que estas árvores foram plantadas em 1912 de sementes provenientes da Austrália.»
.
Relativamente ao eucalipto maior- actualmente com um perímetro de 8,15 m e uma altura superior a 50 metros- a cuidada brochura editada pela própria Quinta de S. Inácio em 2002, intitulada Os Jardins e os Bosques da Quinta de Stº Inácio de Fiães, sugere que a sua plantação terá sido muito anterior, tendo ocorrido em 1870.
.

13.1.05

A única revista que...

Neste mundo em que, cada vez mais, comunicamos à distância com aqueles que partilham os nossos gostos e ignoramos tudo sobre os nossos vizinhos, as revistas especializadas cumprem um papel agregador dessas dispersas comunidades de interesses, fornecendo-lhes referências e uma marca identitária. Um caçador de fim-de-semana - equipado com cão, veículo todo-o-terreno, artilharia quanto baste, farda e botas a condizer - alimentará a sua paixão, no dia-a-dia sedentário entre duas saídas de campo, com a leitura atenta de Cães & Tiros: a prosaica aparência quotidiana esconde afinal a sua verdadeira personalidade, que é a de um membro ferrenho do clube mato tudo quanto mexe.

Um relance pelos quiosques e ficamos convencidos: há interesses para tudo, e para cada interesse há uma revista ou até muitas revistas. Há assuntos em que mesmo em português elas proliferam: carros, motociclismo, cães, cavalos, caça, pesca, culturismo, decoração, bordados, saúde & bem-estar, moda, computadores, puericultura, futebol, música... No meio deste gasto desvairado de papel, uma revista há que proclama ser a única portuguesa sobre jardins; intitula-se precisamente Jardins. Será mesmo a única? Haverá mais portugueses interessados em motociclismo ou na criação de cavalos do que em jardins?

A falar verdade, a revista não é bem portuguesa: é a versão nacional de uma publicação que existe em várias línguas. Mais de dois terços do seu conteúdo não publicitário é traduzido; daí que muitas vezes ela pareça desajustada do público a quem se dirige, como nos insistentes conselhos sobre as precauções a tomar com a neve. Há dicas que são puro dislate, atribuível talvez à tradução: «devolva as formas às árvores de sombra em repouso, eliminando o ramo central principal» (n.º 28, Janeiro de 2005, pág. 36). Quer isto dizer que devemos cortar-lhes a flecha, fazendo assim com que as árvores cresçam deformadas?

O conteúdo português da revista, embora escasso, é de leitura proveitosa. Neste número de Janeiro, por exemplo, aparece uma boa reportagem sobre o jardim público de Viana do Castelo na margem do Lima: aprendemos que a sociedade que o construiu, na década de 1880, foi a mesma a quem se deve o Palácio de Cristal portuense; e recordamos a amputação que o jardim sofreu há quatro anos em prol do automóvel. Pena é que, contando-se a história do jardim, não se identifiquem as árvores, arbustos e flores que hoje o compõem. Regista-se ainda com agrado o espaço que a revista abre aos arquitectos paisagistas portugueses para descreverem os seus projectos, mas seria desejável que tais textos, potencialmente tão interessantes, fossem escritos em estilo menos canhestro.

12.1.05

Feeding the bird


.
Cena quotidiana em dias de sol no Palácio de Cristal, com cedros-do-Líbano ao fundo ;-) .
Agora que (finalmente) começou a chover ficam as saudades de imagens como esta.
.

«They kill good trees to put out bad newspapers.» ~James G. Watt, citado na Newsweek (82-03-08)

.

Companhia da canela



E, se buscando vais mercadoria
Que produz o aurífero Levante,
Canela, cravo, ardente especiaria
Ou droga salutífera e prestante;
Ou se queres luzente pedraria,
O rubi fino, o rígido diamante,
Daqui levarás tudo tão sobejo,
Com que faças o fim a teu desejo.
Camões, Lusíadas - Canto II - 4

Esta é a flor do craveiro-da-Índia. É pequenina, não maior que um polegar, de quatro pétalas, mas a árvore fica alvacenta de tantos bigodinhos brancos. A profusão de estames revela a família desta árvore, a mesma dos eucaliptos e dos metrosíderos: trata-se de uma Myrtaceae de origem asiática, de nome científico Syzygium aromaticum. Tem folha perene, com cerca de 8 cm de comprimento, verde claro brilhante, mole e notoriamente ondulada, com pecíolo longo e ponta acentuada; o tronco é cinzento e fissurado.

Os frutos parecem grandes gotas de vinho tinto. São comestíveis mas é o cálice seco da flor, o cravinho (do latim clavus), nome que alude à semelhança da forma com um prego, que é famoso pelo seu perfume. É uma especiaria requintada, de aroma doce como incenso e sabor forte que sobressai nas misturas para temperos picantes; usa-se em doces mas também para aromatizar tabaco, café, arroz e pão.



O craveiro-da-Índia é uma espécie endémica das ilhas Molucas, na Indonésia, plantado hoje extensivamente nas ilhas de Zanzibar, Pemba e Madagascar, no oceano Índico, para produção do cravinho: diz-se que o seu perfume se sente no mar por quem se aproxima destas ilhas.

O exemplar que conhecemos está na Quinta de Sto. Inácio, em Vila Nova de Gaia. Tem mais de 10 metros de altura e uma copa graciosa, com uma distribuição densa de ramos; mora num recanto junto ao jardim de aromas, onde sobressai entre sebes de camélias plantadas por Francisco Van Zeller no princípio do século XIX.

Fotos: pva 0411

11.1.05

Da cordilheira do Atlas para o Minho


Fotos: 0412 - cedros-do-Atlas - Monte de Pilar - Póvoa do Lanhoso

Dois belos e ainda jovens Cedrus atlantica Glauca no coração do Minho. Fotos gentilmente cedidas por um nosso assíduo leitor, que preferiu o anonimato.

10.1.05

Sequóia-gigante e cedros-do-Atlas em Serralves

.

Foto: mdlramos 04 .... Sequóia gigante e cedros-do-Atlas nos Jardins de Serralves (Porto)
A propósito das árvores do Jardim do Carregal, já aqui tínhamos falado desta formosa sequóia-gigante(Sequoiadendron giganteum); o que não dissemos é que se encontra ao lado de um não menos garboso Cedrus atlantica, espécie muito bem representada nos Jardins de Serralves pelo cultivar "Glauca"- a que também se costuma chamar cedro azul.
Nota: chama-se a atenção para o pequeno e quase imperceptível banco verde, em primeiro plano, do lado esquerdo, que dá uma noção das dimensões das árvores.
.

9.1.05

Árvores do Jardim do Carregal #7


Foto: pva 0411 - Cedrus libani - Jardim do Carregal (Porto)

Não há muitas árvores que tenham a honra de ser mencionadas na Bíblia: a macieira, ao contrário do que muitos pensam, nem uma só vez aparece no Livro do Génesis; a oliveira tem o destaque apropriado a uma árvore emblemática da civilização mediterrânica; e há ainda o cedro-do-Líbano, árvore que, segundo o Antigo Testamento, forneceu quantidades colossais de madeira para a construção do templo do Rei Salomão.

Originária dos montes do Líbano, esta majestosa árvore perenifólia da família das Pinaceas foi pela primeira vez plantada em Inglaterra em meados do século XVII, mas só cem anos mais tarde se começou a vulgarizar na Europa Ocidental, e é possível que a Portugal só tenha chegado no século XIX. A sua silhueta distingue-se pela copa achatada e pelas longas ramadas horizontais organizadas em sucessivos patamares; as suas folhas são pequenas agulhas reunidas em tufos que lembram pincéis (por contraste, as agulhas dos pinheiros, mais compridas, reúnem-se em grupos de dois, três ou cinco).

Duas outras espécies de cedro, com folhagem semelhante à do cedro-do-Líbano mas de aspecto geral distinto, são frequentes em parques e jardins portugueses: o cedro-do-Himalaia (Cedrus deodara) e o cedro-do-Atlas (Cedrus atlantica). O primeiro tem forma cónica, terminando numa flecha estreita e recurvada; do segundo é comum o cultivar glauca, de folhagem azulada; ambos são de crescimento mais vigoroso do que o cedro-do-Líbano.

No centro do Jardim de Carregal, e formando a mais admirável amostra dessa espécie em espaços públicos portuenses, distribuem-se onze cedros-do-Líbano. Embora tenham sido até hoje poupados pelo túnel que vai gradualmente devorando o jardim, não ficaram imunes às obras: além de sofrerem com o entulho e o desleixo, têm-lhes sido amputados grandes ramos para facilitar a manobra das máquinas.

Salomão sacrificou as florestas do Líbano ao culto de um Deus; e das árvores derrubadas fez um templo que inspirava os homens à transcendência. Hoje, no Porto e em todo o país, árvores e jardins são imolados ao culto efémero e materialista do automóvel. É a isto que ainda chamamos progresso?

Anteriores na mesma série: #1, #2, #3, #4, #5, #6

8.1.05

Rainha de Sabá



Fotos: pva 0411/0412 - Porto - camélias no Jardim do Palácio de Cristal

«Há dias que gosto do vale, de estâncias mais amáveis. Outros dias em que o minuto mais grato é o da despedida para a serra. Em certas épocas a cidade é deliciosa e soberanamente feiticeira; o Porto por exemplo. Quando se toma aquele eléctrico 20, que sobe a Rua de Santo António para a Constituição e parece em seu rodeio ir dar volta ao mundo, tão vagaroso, como se fosse com medo de se meter pelas casas dentro ou esborrachar os paralelipípedos da calçada, oferece-nos no rosicler de Março as mais sedutoras iluminuras. Cada moradia, nesse circuito sem fim, tem o seu quintalinho, e cada quintalinho suas plantas floridas ou enfolhadas e seus relvados. Raro aquele que não ostente a sua japoneira, a qual é como uma rainha de Sabá postada a cada canto a dar as boas-vindas ao forasteiro e a encher-lhe a alma de jucundidade. O Porto é a cidade das camélias por excelência e elas realizam ali o milagre de tornar suportáveis e até amenos dias soturnos como os domingos a instilar ora chuva, ora sol, ora bruma, intencionalmente inglesados, dir-se-ia.»

Aquilino Ribeiro, Geografia Sentimental (1951)

Dos jornais: "Keeping our woods alive"

.
Para marcar o início de 2005 "Year of the Volunteer" (em Inglaterra), no iCan* publica-se este relato deveras inspirador de Craig Dunsford, "tratador" voluntário de árvores:

«I think trees are beautiful structures. Perhaps it's because I'm a carpenter but I have always been attracted to them and I can't remember a time I haven't been aware of their importance. As a warden I have my name on a community notice board so if anyone has an issue with trees, I am there to advise them. I have acted as the go-between the local authority and the public. For example, if anyone found a tree damaged or broken I could give them advice about what to do or who to talk to. Even if they had a problem with a tree in their garden, I could give tips. My actual knowledge of trees is small in comparison to specialists but I have been able to learn enough to make myself useful. (...) » Continuar a ler.
.
* "iCan site aims to help people take first steps in addressing issues which concern them"
(sugestão do JRF, Quinta do Sargaçal)
..

7.1.05

How far can a pomegranate-blossom whisper?

.

Reprodução do Poema 217 in 300 Selected Poems of the Tang Dynasty (Classical Chinese Poetry )

Os nomes das árvores - Romãzeira

.A romãzeira ou romeira (Punica granatum L.) é uma pequena árvore de tendência arbustiva com uma enorme resistência a condições de seca, apreciada tanto pelas flores como pelos frutos. Estes adornam tradicionalmente as nossas mesas nesta altura do ano com a sua coroa perfeita e interior deslumbrante. Associadas a votos de ano afortunado, em certas famílias há ainda o costume de, no dia dos Reis, partilhar romãs para que durante o resto do ano não falte sorte nem dinheiro. "Bagalhos" e "bagulhos" são aliás designações regionais e populares para os "bagos" da romã e para o dinheiro.

Quase toda a simbologia popular e erudita associada à romã - abundância, fertilidade, união - está relacionada com a opulência das suas sementes. Característica morfológica que também determina a designação da romãzeira na maior parte das línguas europeias e está patente no seu nome científico, Punica granatum, em que o último termo, designativo da espécie, significa "abundante em grãos".

Em português, sinónimos de romã, temos os regionalismos "milgrada, milgrã e milgranada", «de mil grãos ou mil sementes, onde mil significa número indefinido» como explica o grande etnólogo e filólogo José Leite de Vasconcelos. Igualmente se encontra o étimo latino relativo a "grãos", no granada espanhol e no grenade francês, verificando-se para além disso, a presença de elementos que significam "maçã", "pomo", por exemplo em inglês, pomegranate, alemão, granatapfel e italiano, melograne.
Neste último, transparece uma das denominações usadas pelo romanos para a romãzeira, malum granatum, em que "malum" (do gr. melon; dórico mâlon) é um termo genérico que muitas vezes serve para referir tudo o que se assemelhe a maçãs.

Plínio, o grande naturalista romano do séc. I da nossa era, denominou-a malum punicum. Esta última palavra deriva de "poeni" (do gr. phoenikes) nome que os romanos davam aos habitantes da cidade fundada pelos fenícios no séc. IX a.C. no Norte de África, e exprime a ideia "de Cartago"; pode também significar "vermelho, da cor da púrpura", a famosa púrpura de Tiro (substância corante proveniente de uma glândula de um gastrópode marinho do género Murex) que os fenícios comercializaram.
Punica granatum, o nome científico instituído por Lineu, baseou-se aparentemente nas duas denominações criadas pelos romanos, e mesmo sem ser deliberadamente, presta homenagem aos fenícios pois terão sido estes a introduzir a romã no ocidente trazendo-a da Ásia Menor onde há muito era apreciada.

O género Punica compreende apenas duas espécies: a P. protopunica que só se encontra na ilha de Socotorá (Iémen) e a P. granatum de que estamos a falar. Esta, oriunda de uma zona que se estende do sul do Cáucaso ao norte da Índia passando pelo Irão (antiga Pérsia), é um dos frutos de que se conhecem testemunhos mais antigos. Aparece, por exemplo, representada no túmulo do faraó Ramsés IV (séc. XII a.C.) e, é interessante notar, dada a sua importância na simbologia do judaismo, que a única relíquia recuperada do chamado primeiro templo de Jerusalem é uma pequena romã em marfim do séc. VI a.C.. Em hebraico diz-se "rimon", e "ruman" é o termo árabe equivalente de onde parece derivar o nosso romã. (o nome da romã noutros idiomas)
.
Ver outras entradas da série Os nomes das árvores

Um pé de romã


Foto: pva 0410 - flor de romãzeira

«Se uma criança pudesse fazer o mapa de uma cidade - pensava eu, olhando o pé de romã -, ele teria menos casas e mais árvores e bichos. A romã, por exemplo, está estritamente ligada à carambola, na minha coreografia íntima. Eu conhecia essas árvores de um só quintal da cidade; eram como que uma propriedade específica de certa família amiga.(...)

Uma das árvores que tinha mais prestígio era uma oliveira. Era só um pé, e estava nos altos do Jardim Público, perto do chamado Banco dos Amores. Não dava frutos. Não sei quem teve a fantasia de plantá-la em lugar e clima tão impróprios, mas de algum modo era importante haver em nossa cidade uma oliveira, árvore que produz azeitonas, azeitonas que produzem azeite; tudo isso era cultura para nossa infância.(...)

Havia as frutas sem dono, vulgares: mamão, goiaba, araçá, jenipapo, ingá. Mas que prestígio tinham as romãzeiras da casa das Martins! A gente gostava mais de carambola, mas a romãzeira, como era linda a flor! A fruta se rachava de madura no começo do verão...

Penso em muitas coisas aqui, neste chuvoso domingo, olhando um pé de romã no quintal de uma cidade estranha.»

Rubem Braga, As boas coisas da vida (1988)

6.1.05

A Romã

Passaritos de cristal
Cantam rubros em cada bago
Caixa de música real
Perdida por um rei mago
. .
Foi brinquedo de Natal
Para o menino nascido
Passaritos de cristal
Brinquedo cedo perdido.

Matilde Rosa Araújo in As Fadas verdes
(Civilização 1993)
.

À espera dos Reis Magos

. .

Fotos: mdlramos 0412
Que fazer quando não temos nenhuma romãzeira no quintal, quando a tradição manda que se comam romãs, quando apetecem os bagos cor de rubi?
.

.Os resultados podem ser surpreendentes, sobretudo se estiver sol!

Árvores do Jardim do Carregal #6

A árvore do Jardim do Carregal que planeávamos referir hoje foi abatida esta semana pelos construtores do túnel rodoviário. Era uma magnólia de flor branca de belo porte, prestes a florir.

Anteriores na mesma série: #1, #2, #3, #4, #5

5.1.05

Eucalipto com aroma de limão



Fotos: pva 0412 - Eucalyptus citriodora no Parque de S. Roque e na Rua de Entre-Quintas

Associado à destruição da paisagem natural portuguesa para benefício de uma das nossas mais prósperas indústrias, o eucalipto não goza por cá de boa fama. Fornecendo, em poucos anos, larga safra de matéria prima para a indústria do papel, o seu plantio em larga escala, expulsando espécies autóctones ou ocupando antigos campos agrícolas, é uma das razões mais óbvias para a degradação ambiental do nosso país: empobrecimento de solos, secagem de cursos de água, perda de bio-diversidade, risco exacerbado de incêndios.

Feito o necessário preâmbulo de acusação, passamos a aduzir as razões da defesa. O eucalipto, usado com moderação, não é uma árvore nociva: se agora se vê por todo o lado é porque lá o plantaram, pois ele não é entre nós, e ao contrário da acácia, uma árvore invasora. Um eucalipto em plena maturidade é um prodígio da natureza: possante e esbelto, erguendo-se numa urgência de tocar o céu; o seu aroma é dos mais agradáveis que se conhecem; e com os seus frutos podem fazer-se bonitos colares. É por isso incompreensível que, numa fúria purificadora como a que nos últimos meses varreu o Parque Biológico de Gaia, se queira de um só golpe erradicá-lo de locais onde a sua presença é comedida e perfeitamente integrada na paisagem, abrindo clareiras áridas que levarão muitos anos a rearborizar.

Mas há eucaliptos e eucaliptos: o que ocupa Portugal de norte a sul é o Eucalyptus globulus, originário da Tasmânia e de uma pequena faixa costeira no sudeste australiano; mas o género Eucalyptus - que, com excepção de dezena e meia de espécies na Nova Guiné, Filipinas e Timor, é exclusivo da Austrália - conta com mais de 500 espécies perenifólias, muito diversificadas quer no tamanho (de pequenos arbustos a algumas das maiores árvores à face da Terra), quer na forma, quer na textura do tronco (que pode ser liso, ou rugoso, ou sulcado, ou descascar-se em longas tiras). O que há de comum a todas as espécies é o tipo de flor, com um tufo de estames a emergir de uma espécie de cálice, e a morfologia variável das folhas, em geral mais rombudas e encurtadas quando jovens.

Além do Eucalyptus ficifolia, notável pela beleza da sua floração, outros eucaliptos há que são valorizados pelas suas qualidades ornamentais. O que hoje aqui trazemos provém, como a Araucaria bidwillii, a Agathis robusta e a Macadamia integrifolia, de Queensland, no nordeste da Austrália: é o Eucalyptus citriodora, que exibe um tronco liso, de cor leitosa, uma copa aberta e de folhagem esparsa, e pode atingir alturas até 50 metros. Mas a característica que mais facilmente o diferencia dos outros eucaliptos é o intenso aroma a limão que as folhas exalam quando esmagadas. (Não arranque folhas da árvore para fazer a experiência: aproveite alguma que esteja caída!)

O mais bonito Eucalyptus citriodora que vimos em Portugal está no Jardim Botânico de Coimbra, num dos canteiros no limite poente do jardim, perto da entrada principal. Um outro mora em Angra do Heroísmo, no patamar inferior do Jardim Duque da Terceira. Finalmente, no Porto, conhecemos só os dois que acima mostramos: um adulto no Parque de S. Roque e um jovem à entrada da rua de Entre-Quintas, atrás da Biblioteca Almeida Garrett. Apesar de curta, a vida deste eucalipto tem sido atribulada: a certa altura uma golpe de vento quebrou-lhe a copa, deixando-o reduzido a um pau; milagrosamente, do pau foram brotando folhas e ramos, e a copa acabou por se reconstituir; mas a árvore ressuscitada é sujeita à tortura diária dos encontrões por carros em manobras de estacionamento, e o seu tronco apresenta profundas feridas. Custaria muito aos serviços da Câmara protegê-la com uma cerca?

4.1.05

Índice- Árvores (nome vulgar)

Actualizado (última actualização em 11-12-04)
.

"Ó ciranda, ó cirandinha..."

.
«Já nas crenças micénico-cretenses, precisamente em Micenas e na cretense cidade de Knossos, no segundo milénio antes de Cristo, a palmeira e a oliveira eram as árvores frutíferas dedicadas aos homens pelos deuses. Eram assim as árvores sagradas, e, por tal circunstância, tinham nos templos lugares em recintos especiais.
Ainda hoje o nosso povo canta que a oliveira é benta, e ramo dela dá virtude! Exprime assim o benefício da ramaria, que dá o azeite, antecipado pela promessa e pelo prestígio de esperanças da azeitona, origem do Azeite. Desde esta promessa natural até à promessa espiritual , corre, como um arco-íris anunciador e cumpridor, o culto da árvore milagrosa e das poderosas forças celestes, que a protegem e garantem ao homem.
(...)
Diz adágio antigo que tudo "vem a seu tempo, e os nabos no Advento". Pois assim acontece com a azeitona, que chega e se apronta para o lagar em "seu tempo".
(...)
A colheita da Azeitona, já no período invernal, pode ter por símbolo próprio a "ciranda", "seranda", "siranda", e até "giranda". A "apanha da azeitona" tem paisagem sua, quer nas almas, quer na natureza, e nos costumes populares com a sua virtualidade folclórica.
O frio intenso do Inverno, a humidade gélida, o nevoeiro nos olivais, quantas vezes a neve teimosa, a ventania rude, no panorama nu da natureza temporã... O ambiente pelo caminho e no "campo da azeitona" obrigam mulheres e homens, os "varejadores" e as "apanhadeiras", a cobrirem-se de resguardos fortes, mais ou menos pitorescos. Ranchos cantam a "ciranda" e marcham.
..
-Ó ciranda, ó cirandinha,
Vamos nós a cirandar...
Lá no campo da azeitona
Anda a ciranda no ar!
.
Anda a ciranda no ar,
Anda a ciranda no chão!
Ó ciranda, ó cirandinha.
Amor do meu coração!
.
Amor do meu coração!
Não há palavra mais doce.
Quer tu me queiras, quer não,
Gosto de ti! Acabou-se. (...)»
.
CHAVES, Luís -O Perfil Espiritual da Oliveira na Poesia Popular Portuguesa."Boletim", nº 78- ano XXIV,1969.15 p. Sep. da Junta Nacional do Azeite.
.
Outra versão da Ciranda, cirandinha com música
(Nas páginas de Domingos Morais alojadas no Alfarrábio)
.

Inverno


Foto: pva 0412 - oliveiras, pinheiro, metrosídero e (despidas) nogueira-preta e robínia
Jardins do Palácio de Cristal, Porto

«O Outono já lá vai. E enquanto os seus ventos foram desprendendo as folhas das árvores, parece que a nossa alma ficou despenteada. Chegamos ao Inverno a tiritar. Moídos por dentro pelo escuro dos dias. Apetece dormir. Parece acolher-nos o mesmo torpor e obscuridade das cavernas primitivas.(...) No entanto, eu gosto do Inverno. Deste tempo caprichoso e húmido. Das casas com os seus mistérios e penumbras. O fiolho resguardado. Os retratos familiares atentos e observadores. Gosto das adegas, com as arcas e as pipas cheias. As alfaias agrícolas a repousarem. Das teias de aranha nos caibros que sustêm os velhos soalhos. Das tranças das cebolas e dos presuntos pendurados na parede. Gosto de ver a luz baça a descer das clarabóias. Gosto de ver a água a transbordar dos leitos. Do verde a explodir pelos lameiros. Dos néons abertos na brusquidão da noite das cidades. Gosto do cheiro a café à porta das pastelarias. E dos cafés das vilas da província barulhentos nos domingos à tarde. E de chegar cedo a casa e acender a lareira, deixar-me ir no encantamento do lume.(...) Gosto de calçar botas e caminhar por caminhos enlameados. Ver apanhar a azeitona e observar o esqueleto dos freixos e dos carvalhos dissolvidos nas neblinas espessas. E partir com uma pedra o gelo dos tanques. E ver os limos verdíssimos puxados pela força da água corrente. E gosto de entrar no novo ano.(...)

Devagarinho, o Inverno sucumbe à mornice dos primeiros sóis a sério. À floração das amendoeiras e dos pessegueiros. Depois às estevas, mimosas e rosmaninhos. Depois à rebentação das árvores. E quando finalmente o Inverno despe o seu vetusto e pesadíssimo sobretudo e tira o chapéu, percebemos que os seus bolsos estavam cheios de dádivas misteriosas. Como um avô muito antigo que tivesse guardado para nós, escondido no fundo de uma gaveta, uma prenda preciosa.»

Manuel Hermínio Monteiro, In Agenda Assírio & Alvim (1999)

3.1.05

Árvore metálica

.

Fotos: mdlramos 0208 -Odemira ..............................................................Escultura de Aureliano Aguiar
Uma notícia do JN, acerca de um conjunto de esculturas invulgares expostas em Guimarães, das quais se destaca uma "Árvore da Paz" feita com peças velhas de metal e cujos «braços metálicos esticados na direcção do céu parecem pedir misericórdia, o fim das tragédias», permitiu desvendar o mistério da autoria de uma escultura idêntica cuja fotografia se reproduz: o escultor Aureliano Aguiar.
Foi há cerca de dois anos que deparei com esta árvore (a que mais depressa chamaria árvore do trabalho) em Odemira: realmente uma visão extraordinária.
Todavia, e sem desprimor para a obra que muito apreciei e que vale bem a pena observar atentamente de mais perto, esta descoberta não compensou o triste desfecho da viagem que tinha sido empreendida com outro objectivo: encontrar o «maior exemplar» de Carvalho cerquinho (Quercus faginea) «do País», «árvore multissecular, talvez com cerca de 500 anos ou mais» (segundo as palavras de Ernesto Goes, in Árvores Monumentais de Portugal ,1984).
Com efeito deste e doutros carvalhos cerquinhos da Herdade do Reguengo Pequeno mais não restavam que carcaças em decomposição, dizimados que tinham sido por uma doença, cujo nome, a pessoa que nos levou até às árvores (um trabalhador da herdade) não soube identificar.
.
Ver foto de Carvalho cerquinho anteriormente publicada.

Corísia amarela


Fotos: Galinhola 0411 - Cascais - Chorisia (Ceiba) insignis

A mesma repórter que noticiou a floração da corísia no Jardim das Amoreiras foi até Cascais e de lá nos trouxe em exclusivo a árvore da manchette de hoje. Na verdade a notícia já estava para sair há uns tempos, mas razões editoriais ponderosas (como sejam a preguiça dos editores e as obrigações da quadra festiva) foram adiando a publicação. Felizmente no nosso nicho de mercado a concorrência é pouca; e, mesmo com o atraso, ainda é privilégio nosso dar a notícia em primeira mão.

E a notícia é esta: em Cascais, perto do Teatro Gil Vicente, há um conjunto de corísias de flor amarela (cujo nome científico é Ceiba insignis ou Chorisia insignis) que frutificaram. Não conhecemos outro local do país onde haja tais árvores, pois as que existem do mesmo género nas Amoreiras e nalguns outros jardins são C. speciosas, que têm flores cor-de-rosa.

Voltaremos ao assunto quando recebermos uma semente (já encomendada).

2.1.05

Oliveira - Paz

Ainda a própósito do Dia Mundial da Paz...
.
Se bem que na mitologia grega, a oliveira apareça associada à longevidade e esperança, à vitória, à força e à fidelidade, actualmente, sobretudo se aparece sob a forma de um ramito no bico de uma pomba, é como símbolo da paz que impera no nosso imaginário. E isso desde a história antiquíssima relatada no Antigo Testamento.
.
No livro do Génesis (8:11), conta-se que ao fim de 47 dias encerrado na Arca, Noé enviou, prospectivamente e pela segunda vez, uma pomba que voltou finalmente com uma folhinha de oliveira no bico, sinal que a ira de Deus amainara e que as águas do dilúvio estavam a baixar. Não interessa muito para agora o facto de ter sido ainda preciso, segundo o relato bíblico, o aroma aprazível de mais uns tantos animaizinhos a esturricar no altar que Noé então construíu já em terra firme, para serenar por completo os ânimos de YHWH (Yahweh ou Yaywah). O que nos importa para o nosso tema é que desde então, ambas, pomba e oliveira, ficaram associadas à concórdia, à aliança, à paz.
.
As Palomas criada em 1949 e em 1950 por Picasso- a propósito do Movimento pela Paz e que figuram (ver) nos posters dos Congrès Mondial des Partisans de la Paix desses anos- não aparecem com raminhos de oliveira; mas a partir da série de "El rostro de la paz" que celebra o trigésimo aniversário do Partido Comunista em 1950 (era o tempo "des lendemains qui toujours chantaient...") a mansa ave surge com o raminho da árvore sagrada e será pela pena deste artista que se tornará o símbolo Universal da Paz.
..
1959..................................................1961 ...................................... ...... 1962
. 1986, Ano internacional da Paz (selo comemorativo da autoria de Mário Ramos)
Desde então, a Pomba da Paz tem sido redesenhada de modo mais ou menos "réussi" e adoptada sob as mais variadas formas, por diversas intituições e organizações que de um modo ou doutro trabalham em prol desse ideal, como por exemplo os Médicos do Mundo.
«O logotipo de Médicos do Mundo é constituído por uma pomba que representa a paz e é portadora dos cuidados de saúde. As folhas do ramo de oliveira representam os cinco continentes, o azul evoca os elementos da natureza que os unem: mar e céu. A pomba atravessa todas as fronteiras, apontando para o lado direito, representando o futuro. O círculo do logotipo evoca a terra (o mundo de Médicos do Mundo). O nome da associação, Médicos do Mundo, também disposto em círculo, está envolto no simbolismo da imagem e é o espelho das equipas médicas que levam a sua ajuda a todo o mundo. »
.

1.1.05

Árvores para a democracia

«Quando eu era jovem em Nyeri, no Quénia Central, não havia palavra para deserto na minha língua mãe, o kikuiu. A nossa terra era fértil e florestada. Mas, hoje, em Nyeri, como em grande parte da África e do mundo em desenvolvimento, os recursos aquíferos secaram, o solo é estéril e incapaz de produzir alimentos, e os conflitos por causa da terra são habituais.

Por isso, não admira que eu me sentisse estimulada a plantar árvores para satisfazer as necessidades básicas das mulheres rurais. Como membro do Conselho Nacional das Mulheres do Quénia, no princípio dos anos 70, ouvia as mulheres dizerem que precisavam mas não tinham suficiente energia, água potável e alimentos. A minha reacção foi começar a plantar árvores com elas, para ajudar a recuperar a terra e quebrar o ciclo da pobreza. As árvores detêm a erosão, permitindo a retenção da água e fazendo aumentar a pluviosidade. Fornecem combustível, material para construção e para vedações, frutos, forragem, sombra e beleza.(...)

A minha ideia evoluiu para o Movimento Cintura Verde, constituído por milhares de grupos, inicialmente de mulheres, que plantaram 30 milhões de árvores no Quénia. As mulheres recebem uma pequena quantia por cada planta de viveiro, o que lhes confere um rendimento ao mesmo tempo que melhoram o ambiente. O movimento alastrou para países da África Oriental e Central. Através deste trabalho, concluí que a degradação ambiental das comunidades pobres era simultaneamente a fonte dos seus problemas. (...). Com o tempo, o Movimento Cintura Verde tornou-se o principal promotor da reintrodução da democracia multipartidária e das eleições livres e justas no Quénia. Através da educação pública e do activismo político, também procurámos proteger os espaços abertos e as florestas dos urbanizadores sem escrúpulos.(...)

O Comité Nobel reconheceu a interdependência entre o ambiente, a democracia e a paz e procurou chamar a atenção do mundo para tal.(...) Para celebrar este prémio e o trabalho que ele reconhece por todo o mundo, permitam-me recordar as palavras de Gandhi: "A minha vida é a minha mensagem". Plantem também uma árvore.»

Wangari Maathai, Prémio Nobel da Paz 2004
In Visão de 16/XII/2004

Dia Mundial da Paz

..

«(..) L'amour de la justice et de la liberté
A produit un fruit merveilleux
Un fruit qui ne se gâte point
Car il a le goût du bonheur.(...)»



Imagem daqui
Le Visage de la Paix (1951) - ilustração de Picasso para poema de Paul Éluard .
.

.