30.4.05

Chegaram as andorinhas

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O seu voo inconfundível já cruza agora o céu, mas chegaram há apenas dois ou três dias (e não sou, entre os amadores, a única a espantar-me pelo seu atraso este ano).
Que andorinhas são estas? Vi no Dicionário de Aves que há muitas espécies. Será alguma das que andam aqui por cima da cidade uma andorinhas-das-árvores?
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29.4.05

No interior da outra margem


Frondosa sombra dos plátanos no Parque de Nossa Senhora da Saúde, Carvalhos, Gaia

Tirando os meses iniciais e um interregno de três anos quando já adulto, Vila Nova de Gaia foi a minha casa durante os meus primeiros trinta anos de vida. Este preâmbulo é necessário para que o que se segue não seja tomado como apontamento sobranceiro de quem paira acima da miséria alheia.

Gaia, propriamente falando, não existe: o seu miolo urbano reduz-se ao casario ribeirinho e a uma longa faixa rectangular centrada na avenida da República. O que há é uma colecção de antigas povoações (vilas umas, aldeias outras) que, por conveniência administrativa, foram agregadas num mesmo concelho: Valadares, Canelas, Avintes, Afurada, Pedroso e tantas outras que, no pouco que mantêm do seu carácter original, dificilmente poderiam ser mais contrastantes. Mas o rolo compressor de uma modernidade sem freio vai esbatendo essas diferenças: por todo o lado se rasgam vias rápidas e se erguem casas e prédios desordenados; novos moradores, aos milhares, caem de pára-quedas numa terra de ninguém.

Gaia é um território vasto, labiríntico, semeado de aleijões. Tirando um ou outro taxista, nenhum gaiense verdadeiramente conhece ou quer conhecer Gaia: pois que pode mover o morador de um subúrbio incaracterístico a uma incursão noutro subúrbio idêntico no mesmo concelho?

E que dizer de jardins, de lugares onde possamos exercitar os sentidos que se fazem apáticos para se defenderem da fealdade? Há poucos jardins públicos em Gaia: não mais que meia-dúzia e, com excepção do Jardim do Morro, muito pequenos; a sua área total é insignificante se comparada com a dos hipermercados e grandes centros comerciais que nas duas últimas décadas se multiplicaram por todo o concelho. Mas há ainda alguns locais arborizados que, com adequado tratamento paisagístico, poderiam vir a ser parques urbanos aprazíveis: por exemplo, o Parque de N. Sr.ª da Saúde, nos Carvalhos, e o Monte da Virgem, em Vilar de Andorinho. Em ambos os casos, haveria que disciplinar o estacionamento e, no que toca à vegetação, substituir gradualmente, nas matas circundantes, eucaliptos e acácias por espécies autóctones. Essa regeneração teria importância especial no Monte da Virgem, onde subsistem povoamentos de sobreiros e carvalhos.

A terminar, duas curiosidades. No topo do Monte da Virgem, em redor da igreja, todas as árvores (até as vadias das acácias!) vestem meia-calça branca como em sinal de pureza. E no Parque de N. Sr.ª da Saúde locais há, como o prado sombreado por plátanos que se vê na foto acima, onde, avisam as tabuletas, não é permitido jogar a bola, jogar a malha ou andar a cavalo. A terceira proibição terá sido lembrança de última hora, não fosse parecer que só os divertimentos da classe popular estariam interditos: é que no Monte da Virgem há avisos de teor semelhante, mas não se excluem os cavalos; e, em todo o caso, quem anda a cavalo terá sítios melhores para ensaiar os seus trotes.


Tílias de meia-calça - Monte da Virgem, Gaia
Fotos: pva 0405

28.4.05

Conversas à beira ramo



Foto: pva 0504 - Viburnum odoratissimum - Palácio de Cristal - Porto

Há aromas que são sabores, como o da sopa ao lume, o do bolo de chocolate a sair do forno, o do caril a fumegar. Outros adivinham-se com som, como o do incenso balançado no turíbulo. Muitos têm até cor, como o da flor-de-laranjeira ou do jasmim, ou textura, como o das cascas de pinheiro ou o da roupa lavada. Apesar desta interligação dos sentidos, a linguagem dos cheiros - de texto mudo - é-nos inacessível se a fonte do aroma está ausente. E se reconhecemos uma flor pela mensagem perfumada que liberta, não deciframos todos os seus segredos: esses são dirigidos a outras flores da mesma espécie e a insectos colaboradores.

O perfume da flor da espécie do género Viburnum que aqui se reproduz, de nome vulgar viburno-perfumado, é pouco mais do que uma palavra, que soa por isso demasiado convicta: o epíteto da espécie, odoratissimum, obriga-nos a acreditar que estas inflorescências são odoríferas, levando-nos a manter o nariz colado aos estames até ser reconhecível um cheiro muito suave, talvez mistura de mel com anis.

À parte o aroma, há alguns exemplares desta espécie dignos de uma visita demorada. Os do Palácio de Cristal, de Serralves e do Jardim das Virtudes têm porte majestoso, ramadas pejadas de folhas grandes (7 a 12 cm de comprimento) com nervura central vincada, numa copa arredondada que nos oferece uma sombra prazenteira e agora se destaca pelo verde-alface da folhagem. Originária da Índia, China e Japão, tem crescimento lento mas é muito rústica e tolerante a condições adversas de solo e clima. O tronco é pardo com manchas claras e esparsas; as flores, muito atraentes para as abelhas, são brancas, pequeninas e agrupam-se em panículas nos extremos dos ramos.

Outro Viburnum aqui

27.4.05

Últimos dias - Glicínias brancas em Serralves

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Fotos: mdlramos 0504- "Casa das Glicínias" em Serralves
Depois das glicínias lilazes, as Wisteria sinensis, é agora a vez das brancas.
O facto de serem mais tardias, das flores não eclodirem todas ao mesmo tempo mas aparecerem progressivamente nos longos cachos pendentes, e serem menos perfumadas, leva-nos a pensar que se trata da apreciadíssima variedade de origem japonesa, Wisteria floribunda "Longuissima alba" ou "Shiro Noda", símbolo da pureza e elegância no Japão.
A não perder!
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26.4.05

Imperatriz perfumada



Foto: pva 0504 - Camellia japonica "Impératrice Eugénie" - Palácio de Cristal - Porto

É axiomático que as camélias não deitam cheiro - pelo menos as vulgares japoneiras não o fazem, embora haja outras espécies do género Camellia, como a C. sasanqua, também comum nos nossos jardins, com flores intensamente odoríferas. Mas estava muito mal informada aquela jornalista que, há cerca de dois anos, escrevendo num jornal portuense, explicava como no Inverno a cidade se enchia do perfume das camélias - de que, acrescentava, existiriam precisamente quarenta variedades.

Já tantas vezes aqui falámos de camélias que quem nos lê regularmente pode honestamente acompanhar-nos na gargalhada triste que tamanha desinformação nos suscita. Desinformar é pior do que não informar: é substituir, na mente de quem ouve, uma noção correcta por uma falsa. Mas... não é que, das milhentas variedades de japoneiras, há pelo menos uma cuja flor liberta um leve perfume? É o caso da da foto, bastante debilitada, que existe à entrada do Palácio de Cristal: trata-se de uma "Impératrice Eugénie", variedade de camélia criada em França em 1854, um ano depois de a dita imperatriz ascender ao título ao casar com Napoleão III.

Além do exemplar no Palácio, encontrámos esta mesma variedade de camélia no Jardim Botânico do Porto e na Quinta de Villar d'Allen, locais onde moram as melhores colecções portuenses de camélias oitocentistas.

25.4.05

Árvore da Liberdade - definição

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«Em Política, árvore da liberdade, a plantada numa praça pública, para celebrar a época da emancipação de um povo.» in Grande diccionario português ou thesouro da lingua portuguesa (1871-1874), Frei Domingos Vieira.
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À sombra de uma azinheira...

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«Nada mais atraente que uma árvore gigantesca cujos ramos se abrem como um largo abrigo e cuja altura dá a impressão de um grandioso edifício à sombra do qual de podem recolher muitos homens.
Em Portugal há árvores gigantescas como ainda há pouco a Ilustração Portuguesa o marcou publicando algumas fotografias de exemplares colossais.
Hoje reproduzimos uma outra azinheira de grandes dimensões e que pertence ao abastado proprietário Sr. Francisco Sales Fernandes Gião, de Reguengos de Monsaraz e existe na herdade denominada Pecêna.
O tronco tem 8 metros de grossura na parte inferior e 6,60 na parte superior, a circunferência da ramagem 106 metros, a pernada direita 3,70, a da esquerda 4,40 e a do centro 5 metros e 30.
À sombra da árvore estão do lado direito 101 porcos, do lado esquerdo 956 ovelhas, o automóvel e as pessoas»
in "Uma Azinheira colossal", Ilustração Portuguesa, 30/03/1914

Nota: Não averiguei se esta árvore extraordinária ainda existe; parti aliás do princípio que não, por não vir mencionada no livro de Ernesto Goes, Árvores Monumentais de Portugal. (Por curiosidade refira-se que na Palavra -Coisas da nossa Terra se lê que um tal Eng. Francisco Sales Fernandes Gião "impoluto e bemquisto lavrador proprietário" faleceu com 83 anos, em 1955. )
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24.4.05

Pra minha imperfeição


Foto: pva 0504 - Enkianthus campanulatus - Jardim Botânico do Porto

Pra minha imperfeição está suspenso
Em cada flor da terra um tédio imenso.

Todo o milagre, toda a maravilha
Torna mais funda a minha solidão.
E todo o esplendor pra mim é vão,
Pois não sou perfeição nem maravilha.

As flores, as manhãs, o vento, o mar
Não podem embalar a minha vida.
Imperfeita não posso comungar
Na perfeição aos deuses oferecida.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do mar (1974)

23.4.05

"When proud-pied April, dress'd in all his trim..."

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From you have I been absent in the spring,
When proud-pied April, dress'd in all his trim,
Hath put a spirit of youth in every thing,
That heavy Saturn laughed and leapt with him.

Yet nor the lays of birds, nor the sweet smell
Of different flowers in odour and in hue,
Could make me any summer's story tell,
Or from their proud lap pluck them where they grew:

Nor did I wonder at the lily's white,
Nor praise the deep vermilion in the rose;
They were but sweet, but figures of delight,

Drawn after you, you pattern of all those.
Yet seemed it winter still, and you away,
As with your shadow I with these did play.

Soneto XCVIII [ in "William Shakespeare's Sonnets formatted for WIkisource's Complete Works of William Shakespeare from a public domain text file"]

Hoje é o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor ou Dia do Livro e da Rosa (...)
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22.4.05

Requinte de sedução



Fotos: mpc 0504 - Viburnum plicatum - Quinta de Sto. Inácio, Gaia

As flores alvas da primeira foto são de um exemplar de Viburnum plicatum, um arbusto da família Adoxaceae conhecido como bola-de-neve-do-Japão. Constituem mais um tipo de flor, a acrescentar aos que já mencionámos: as flores falsas, grandes e atraentes, cuja função é meramente decorativa.

Estes adornos rodeiam as flores férteis, que são perfumadas embora minúsculas e pouco vistosas, e o conjunto forma uma linda coroa achatada (uma cimeira) que serve uma estratégia muito bem sucedida no esquema competitivo da reprodução. O mesmo truque é usado, com resultados até mais impressionantes, pelas hortênsias (género Hydrangea), as plantas que hoje o turismo associa a várias ilhas açoreanas apesar de não serem lá endémicas. Na segunda foto pode notar-se como as inflorescências encimam e revestem os ramos.

As folhas nesta espécie são arredondadas, pontiagudas no ápice, opostas e serradas, com penugem na face inferior. Os frutos são bagos rubros, escuros quando maduros, agrupados em drupas que fazem lembrar as dos sabugueiros (género Sambucus, da mesma família). No Outono a folhagem muda de cor e o arbusto fica de um exuberante vermelho-tinto.

21.4.05

Pampilhos com eucaliptos ao fundo

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Foto: mdlramos 0504- campo em Beiriz
Anteontem demorei ainda mais a chegar a casa vinda da escola: não consegui resistir a um campo de pampilhos-das-searas (Chrysanthemum segetum >). Hoje as corolas devem estar carregadinhas de gotas de chuva...

20.4.05

De Judas ou da Judeia?


Olaia e canforeira numa rua da Foz (Porto)

A propósito da Quinta das Lágrimas (Coimbra), falou-se aqui da olaia (Cercis siliquastrum), e da discussão ficaram dúvidas que não conseguimos resolver. Foi mesmo numa árvore destas que Judas se enforcou? É só porque havia tal árvore nesse antigo território que o seu nome francês é árvore-da-Judeia? Finalmente, nenhum dicionário que conheçamos explica a origem da palavra olaia, e não parece existir noutras línguas designação semelhante para a mesma árvore.

Mas esta é mesmo a altura de celebrarmos a olaia, sob pena de, com a floração quase a terminar, termos de adiar o assunto por um ano. Originária da região mediterrânica, é uma pequena árvore da vastíssima família das leguminosas; as folhas têm forma de cardióide; os frutos são vagens que costumam manter-se nos ramos após a queda das folhas; as flores, que surgem antes das folhas e, conforme a variedade, têm cor entre o vermelho ou rosa carregado e o branco, brotam em cachos, por vezes directamente do tronco. Segundo alguma literatura, foram os botões vermelhos emergindo do tronco que inspiraram o nome árvore-de-Judas, ao sugerirem que a árvore teria sangrado quando Judas nela se enforcou.

Há muitas olaias em jardins e ruas de norte a sul do país, e é por isso escusado dizer onde se encontram: basta andar de olhos abertos para que uma olaia em flor grite pela nossa atenção. Mas no Porto é obrigatório referir uma transversal da rua do Campo Alegre, a rua de Guilherme Braga, preenchida de uma ponta à outra com olaias alternadamente brancas e rosas.


Fotos: pva 0504

Dos Jornais - Assembleia quer discutir projecto dos Aliados

Uma luz no alto da Avenida?

«Assembleia quer discutir projecto dos Aliados: O projecto de requalificação da Avenida dos Aliados, no Porto, pode vir a sofrer alguns atrasos. Isto porque a Assembleia Municipal decidiu, anteontem à noite, definir um período de discussão pública "abrangente" que envolva não só a autarquia, mas também as associações da cidade e os munícipes. (...) » Ler notícia completa no JN

Ao sr. Gonçalo Gonçalves, da coligação no poder, que discorda desta decisão e afirma que "O projecto já foi apresentado publicamente há muito tempo e tem suscitado grandes elogios .", dizemos que se esquece da outra face da moeda: o projecto reune tudo menos consenso.

aqui reproduzimos a opinião da arquitecta paisagistaTeresa Andresen que escreveu:
«(...) Calada tenho estado e sei que muitos outros [tambem o estão]. Mas não posso calar mais. A mágoa é grande, assim como a estupefacção pelo continuado desconhecimento ou menosprezo do "ser" das coisas públicas e isto impele-me a me a não ficar calada.Estamos a falar de espaço público. Espaço publico é do público, da colectividade, dos munícipes que pagam os seus impostos e que mais frequentemente o utilizam e dele legitimamente se apropriam e o abrem aos visitantes diários ou de passagem. Eles adquiriram naturalmente um direito e um sentimento de posse sobre este espaço, assim como contribuem para a construção do imaginário que se vai tecendo sobre essa apropriação colectiva e que lhes confere o direito de ter uma palavra a dizer sobre os seus desígnios. Ou seja, estamos a falar de cidadania, de cidadãos que não ficam calados e que não gostam de ser admoestados a não falar.» (ler texto completo )

E há justamente uma semana, publicámos um texto do Paulo Ventura Aráujo, intitulado "Um presente envenado" , em que muito claramente são explicitadas as razões pelas quais o projecto deveria ser reconsiderado. "Requalificado" diríamos nós se o termo não tivesse adquirido conotações tão negativas.

Por isso é uma boa notícia esta da discussão alargada do projecto na Assembleia municipal.
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19.4.05

Boa notícia

Em Novembro do ano passado escrevemos aqui, a propósito da árvore no Jardim do Carregal do género Agathis, mirradita e ameaçada pelas famosas obras de um muito falado túnel, que «não conhecemos outro exemplar de Agathis no Porto; Amaral Franco, nos Anais do Instituto Superior de Agronomia, menciona um de bom porte no Palácio de Cristal mas que já não existe». Pois na nossa recente visita à Quinta Villar d' Allen descobrimos um exemplar formidável, de copa alta e tronco cinzento com manchinhas cor-de-laranja como mandam os manuais. Plantado por Alfredo Allen, com mais de cem anos, é mais um motivo para que a classificação desta Quinta pelo IPPAR como imóvel de interesse público não tarde. Aqui fica o registo do nosso contentamento.


Fotos: mdlramos 0504 - Agathis sp. (ladeada, na 2.ª foto, por um Cedrus e duas Araucaria bidwillii)

18.4.05

Quinta de Villar d'Allen em Abril

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Fotos: mdlramos 0504- Glicínia (Wisteria sinensis) em flor


Araucária-da-Austrália (Araucaria bidwillii), Palmeira-do-Chile (Jubaea chilensis) e Rododendro (Rhododendron sp.)

Já aqui falamos das Palmeiras de Villar d'Allen, mas não é apenas por esses magníficos exemplares de "príncipes do reino vegetal" -como lhes chamavam Alfredo Allen e os amigos- que vale a pena ir à Quinta de Villar d'Allen - depois das magnólias, estão agora em flor os rododendros, as azáleas, as glicínias; e as japoneiras, com exemplares raros, continuam a florir.

(Fui lá na semana passada e vim carregada de margaridas, prímulas, e amores-perfeitos. Não tenho um jardim, nem uma quinta, mas tenho uma varanda ;-)
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Árvores migratórias

Há anos que se verifica o fenómeno, mas ultimamente ele tem-se banalizado: as árvores do Porto, contrariando a sua vocação sedentária, andam irrequietas a saltar de poiso em poiso. Tamanha mobilidade não é boa para a sua saúde: ficam reduzidas, descarnadas, de grandes chagas expostas. Fogem para salvar a vida (ou o sopro de vida que lhes resta depois da mudança), mas por vezes nem isso conseguem. Foi o caso, no Verão de 2003, dos plátanos da Rua de Camões: expulsos pelo Metro, refugiaram-se na Estrada da Circunvalação, onde a construção de uma rotunda ditou a sua morte poucas semanas depois.

Já aqui falámos das tílias da Rua D. Manuel II que, forçadas pelas obras do enguiçado túnel de Ceuta, se mudaram para a Praça da República. Mais abaixo, na mesma rua, quatro tílias centenárias à frente do Palácio de Cristal foram abatidas por estarem doentes. Na semana passada, seriamente maltratadas pela viagem, começaram a chegar as suas substitutas. Vêm da Avenida da Boavista - ou melhor, do Circuito da Boavista, onde as Donas Elviras, quais velhas tontas, irão daqui a três meses competir à desfilada.

Numa cidade em que a cada instante as árvores se atravessam no caminho de uma obra, é uma séria desvantagem que elas insistam em prender-se ao chão pelas raízes, desse modo dificultando as suas frequentes e necessárias migrações. Está na hora de as plantarmos sobre estrados rolantes, para que possam ser removidas sem esforço sempre que o interesse público assim o exija.

17.4.05

Modo de vida


Foto: mpc 0503 - pinheiros-do-Paraná (Araucaria angustifolia) e camélias
Casa de Campo - Molares, Celorico de Basto

«É verdade, eu havia desistido de ter passarinhos; distribuí-os pelos amigos; o último a partir foi o corrupião Pirapora, hoje em casa do escultor Pedrosa. Continuo a jogar, no telhado de minha água-furtada, pedaços de miolo de pão. Isso atrai os pardais; não gosto especialmente de pardais, mas também não gosto de miolo de pão. Uma vez ou outra aparecem alguns tico-ticos; nas tardes quentes, quando ameaça chuva, há um cruzar de andorinhas no ar, em vôos rasantes sobre o telhado do vizinho. Vem também, às vezes, um casal de sanhaços; ainda esta manhã, às 5h15m, ouvi canto de sanhaço lá fora; frequentam ou uma certa antena de televisão (sempre a mesma) ou o pinheiro do Paraná que sobe, vertical, até minha varanda. Fora disso, há, como em toda a parte, bem-te-vis; passam gaivotas, mais raramente urubus. (...) Mas a verdade é que um homem, para ser solteiro, não deve ter nem passarinho em casa; o melhor de ser solteiro é ter sossego quando se viaja; (...) viajar com o corpo e a alma, o coração tranquilo.

Pois nesse dia eu ia mesmo viajar para Belo Horizonte; tinha acabado de arrumar a mala, estava assobiando distraído, vi um passarinho pousar no telhado. Pela cor não podia ser nenhum freguês habitual; fui devagarinho espiar. Era uma canário; (...) um roller, desses nascidos e criados em gaiola. Senti meu coração bater quase com tanta força como se me tivesse aparecido uma dama loura no telhado. Chamei a empregada: "Vá depressa comprar uma gaiola, e alpiste..." Quando a empregada voltou, o canarinho já estava dentro da sala; ele e eu, com janelas e portas fechadas. Se quiserem que explique o que fiz para que ele entrasse eu não saberei. (...) Quando telefonei para o táxi ele já tinha bebido água e comido alpiste, e estava tomando banho. Dias depois, quando voltei de Minas, ele estava cantando que era uma beleza. (...)

Está cantando agora mesmo; como canta macio, melodioso, variado, bonito... Agora pára de cantar e fica batendo as asas de um modo um pouco estranho. Telefono para um amigo que já criou rollers, pergunto o que isso quer dizer. "Ele está querendo casar, homem; é a primavera..."

Casar! O verbo me espanta. Tão gracioso, tão pequenininho, e já com essas ideias! Abano a cabeça com melancolia; acho que vou dar esse passarinho à minha irmã, de presente. É pena, eu já estava a gostar dele; mas quero manter nesta casa um ambiente solteiro e austero; e se for abrir exceção para uma canarinha, estarei criando um precedente perigoso. Com essas coisas não se brinca.»

Rubem Braga, Apareceu um canário, in A traição das elegantes (1960)

16.4.05

Vereda

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Foto: mdlramos- 0503- Quinta da Aveleda
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«Vereda: caminho estreito; atalho; carreiro; (fig.) senda; rumo; direcção; modo de vida.»

Cancioneiro popular - Amoreira

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Fiz a cama na 'moreira
E o travesseiro na 'mora;
Coitadinha da menina
Que de rico se namora!


Chamais à moreira triste,
Assim vós vos enganais;
A moreira cria seda
Com que vós vos asseais.
(Baião)

VASCONCELOS, José Leite de - Cancioneiro Popular Português. Coord. e introd. de Mª Arminda Z. Nunes. Coimbra : Universidade, 1975.
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15.4.05

As últimas amoreiras


Fotos: pva 04/05 - folhas de Morus alba (Quinta de Sto. Inácio); Morus nigra no Inverno (Palácio de Cristal)

«Não cabe aqui a história do bicho-da-seda nem a do tecido proveniente do casulo. Essas duas histórias, a natural e a industrial, deparam-se ao leitor nas enciclopédias. (...) Lembre-se aqui apenas que Portugal, entre os países da velha cristandade, foi o primeiro que produziu seda. E veio a suceder que Trás-os-Montes foi a província que mais produziu durante séculos. Houve fábrica em Chacim e importantes filatórios noutros povoados. Mas, em qualquer casa rural se cultivava o bicho. Dava dinheiro e era fácil de criar. (...) Trás-os-Montes, principalmente Bragança, foi empório do sirgo. Pobre insecto, a troco de folhas de amoreira, seu único alimento, enriqueceu Trás-os-Montes.

Mas, não há bem que sempre dure. No século XVIII, apareceram nas sirgarias de França várias doenças que dizimaram o bicho. Essas doenças, a pouco e pouco, propagaram-se a Portugal. (...) O sirgo transmontano resistiu à epidemia por obséquio da natureza. Foi-lhe propício o clima. Atribuiu-se a resistência à qualidade da folha. Mas, não havia folha que chegasse na maré alta das exportações. Fome e má higiene das oficinas enfraqueceram o bicho a ponto de contrair a peste. Neste conflito, acudiu à seda o governo português, mandando plantar amoreiras nos baldios, praças públicas e caminhos. À parte outras provisões, insistiu no plantio da amoreira branca, porque a preta não serve. O bicho é esquisito.

Devem datar de 1863 as últimas amoreiras que nós por aí vemos, na estrada de Lamego, na do Rodo e na de Vila-Real. A indústria do sirgo foi suplantada pela indústria da seda vegetal. (...) Portugal abandonou uma cultura que, noutros países, ainda é fonte de receita. Não há seda como a seda natural.

Tornemos às nossas amoreiras. Inclinadas e carcomidas, ainda se revestem de esplêndida folhagem. Lembram, à beira das estradas, uma riqueza perdida. (...) À memória de uma indústria poética extinta deveria erguer-se um monumento. Seria, em cada cidade, vila e aldeia dos nossos sítios uma rua plantada de amoreiras. As amoreiras são ornamentais, ó municípios!»

João de Araújo Correia, Pátria pequena (1964)

14.4.05

No Jardim dos "Jotas"

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Fotos: mdlramos 0404
Jardim dos "Jotas" visto do caramanchão das glicínias- Jardim Botânico do Porto

«Era uma vez um jardim maravilhoso, cheio de grandes tílias, bétulas, carvalhos, magnólias e plátanos.
Havia nele roseirais, jardins de buxo e pomares. E ruas muito compridas, entre muros de camélias talhadas. (...)
Ora num dos jardins de buxo havia um canteiro com gladíolos. (...)
- Os jardins civilizados - diziam eles - são sempre jardins de buxo.
Perto dos gladíolos estava um caramanchão com glicínias e bancos de azulejos.
- Nos jardins antigos - diziam os gladíolos - há sempre azulejos.
Os buxos, quando ouviam isto, sorriam e murmuravam com voz de buxo, que é uma voz pequenina, húmida e verde.
- Nos jardins antigos havia buxo e azulejos mas não havia gladíolos. (...)»


Sophia de Mello Breyner Andresen, O Rapaz de Bronze, 1956


O traçado da composição em buxo do Jardim dos "Jotas" é da autoria da avó da escritora, Joana Lehman que reuniu a inicial do seu nome e a de seu marido, João Henrique Andresen.

Ver O nosso Jardim de Sophia

13.4.05

Descubra as diferenças

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As fotografias que tirei ontem, numa ida obrigatória ao Carmo, servem perfeitamente para mostrar a diferença entre um espaço que se preservou, acolhedor (apesar de as árvores ainda estarem pouco crescidas) e um outro, inóspito, cinzento, que nos amarga o coração.
No primeiro as pessoas passam, sentam-se nos bancos com encosto, alegram os olhos com as crianças, os pombos, as flores, a calçada. No outro...
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Praça de Carlos Alberto- calçada luminosa e canteiros com flores : "A gente gosta!"


fotos: mdlramos abril 2005 - Praças de Parada Leitão e dos Leões petrificadas em cinzento (abominamos!)
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Servem também as fotografias (nem de propósito) para acompanhar o texto de Paulo V. Araújo, publicado hoje em versão abreviada no Jornal de Notícias, sobre o sizento projecto da Avenida dos Aliados, que aqui transcrevemos integralmente:

«Apresentado publicamente pelos seus autores em 14 de Março passado, o projecto de remodelação da Avenida dos Aliados deverá, segundo anúncio da Câmara da Porto, estar concretizado até ao próximo mês de Agosto. Essa remodelação, financiada e executada pela empresa Metro do Porto, é consequência da construção de uma estação de Metro que, situada como está a meio caminho entre duas outras muito próximas (S. Bento e Trindade), nunca foi cabalmente justificada.

Pelas declarações que foram vindo a público, e pelas intervenções anteriores dos mesmos arquitectos no espaço público da cidade (Rotunda da Boavista, por exemplo), não se pode dizer que o projecto para a Avenida seja uma surpresa. De facto, uma das tendências que avulta nas transformações a que a cidade vem sendo submetida é a recusa do colorido, do canteiro com flores, e a opção pelos grandes espaços monocromáticos cobertos por granito ou arrelvados. Toda a
zona da Cordoaria, Parada Leitão e Leões foi intensamente petrificada pela Porto 2001; e as flores e canteiros desapareceram dos jardins da Rotunda da Boavista, da Cordoaria e da Avenida de Montevideu. Esta predilecção pelo cinzentismo, que ignora ou desdenha o que é característico das nossas cidades em favor de uniformizantes modelos de importação, é inteiramente perfilhada pelos arquitectos a quem foi adjudicada a requalificação dos Aliados.

Uma primeira perplexidade é que, tendo as obras da Porto 2001 provocado um desagrado tão manifesto em vastos sectores da cidade, se insista na mesma estética minimalista. Quem frequenta a cidade reconhece como o espaço público petrificado se tornou inóspito, mais frágil e, tirando ocasiões especiais, mais rarefeito da presença humana; e como essas transformações radicais, ao obliterarem a memória dos lugares, criaram, na feliz expressão de Rui Moreira, um efeito de orfandade nos cidadãos. Dir-­se-­ia, pois, que o fracasso da Porto 2001 não trouxe ensinamentos a quem planeia o espaço público ou sobre ele decide, e que estamos perante uma flagrante incapacidade de aprender com a (má) experiência.

As intervenções em zonas públicas consolidadas com alto valor patrimonial ou simbólico devem respeitar o carácter dos locais - e, em qualquer caso, não podem ser decididas de forma autocrática, ignorando a opinião dos cidadãos e os seus laços afectivos com a cidade. Ora, nada disso se passou neste caso e noutros semelhantes: os arquitectos decidem com toda a liberdade sobre o futuro de lugares que a todos pertencem; e à cidade, aturdida pelo prestígio dos arquitectos, só é consentido que exprima uma admiração sem reservas ou se cale.

Há aqui graves vícios de procedimento: primeiro, que o trabalho seja confiado aos arquitectos por ajuste directo e não por concurso público; segundo, que não haja um caderno de encargos que corporize, a bem da salvaguarda do património e da identidade urbana, os parâmetros a que o projecto deve obedecer; terceiro, que não se tenha promovido uma ampla e fecunda discussão pública em todas as fases do processo. E o procedimento autista da Câmara é ainda mais inaceitável por estar em causa um espaço emblemático, autêntica sala de visitas da cidade.

Ressalvando que este processo, por estar ferido de autoritarismo e torpedear os direitos dos cidadãos, deveria ser refeito desde o início, entendemos ainda assim manifestar a nossa opinião, na esperança de que pelo menos se repensem algumas das opções mais gravosas do actual projecto, como sejam:

1) o uso exagerado do granito, agravado pela ausência de arborização na placa central da Praça da Liberdade, que irá conferir um ar soturno a todo o conjunto e potenciar situações de desconforto térmico em dias de calor (já notório noutros locais da cidade sujeitos a tratamento semelhante);

2) a supressão, como já aconteceu na Praça da Batalha, da calçada portuguesa - que, além de embelezar o pavimento e ser uma marca da nossa fisionomia urbana que importa preservar, é no presente caso especialmente valiosa, exibindo um conjunto de raros e expressivos desenhos alusivos à produção do vinho do Porto;

3) a abolição dos canteiros floridos, numa atitude de menosprezo pela grande tradição floral portuense, que hoje sobrevive nos jardins públicos graças ao inestimável Viveiro Municipal e aos meritórios esforços dos jardineiros camarários;

4) a promessa de renovar a arborização da Avenida com árvores iguais às que ainda lá existem (Acer platanoides) e se revelaram inadaptadas ao local, o que só se pode explicar por ignorância;


5) o sacrifício de duas esplêndidas magnólias, junto à Igreja dos Congregados, que são uma referência na zona e florescem vistosamente nos primeiros meses de cada ano;

6) as facilidades concedidas ao automóvel, com a manutenção de três faixas de rodagem em cada sentido e dos atravessamentos na placa central, o que é uma atitude incompreensível face ao pesado investimento na rede do Metro e torna o centro da Avenida, que se quer um passeio público animado de vida, numa ilha rodeada de trânsito intenso;

7) o bizarro capricho de rodar 180 graus a estátua equestre de D. Pedro, obrigando-o a dar as costas, 170 anos depois, ao inimigo que tão garbosamente enfrentou durante o histórico cerco do Porto.

Fazer cidade não pode ser, como tem sido nos últimos anos, vestir o espaço público com um novo figurino que o torne irreconhecível. O dinheiro que se tem esbanjado nessas mal avisadas requalificações seria muito mais bem empregado na manutenção ou recuperação historicamente consciente de jardins e praças, ou na construção de novos jardins ou espaços públicos de qualidade em lugares onde eles não existam. Esta nova Avenida dos Aliados que a empresa Metro do Porto oferece à cidade tem um ar de requentado déjà vu; a cidade, para seu bem, deve ter a frontalidade e a lucidez de recusar a oferta.»

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São coisas assim...


Fotos: pva 0504 - Drimys winteri - Jardim do Morro, Gaia

... que tornam o coração vulnerável, disse Eugénio de Andrade. Entusiasmados com a alameda de tílias do Jardim do Morro, entrámos no arboreto que ela ladeia. E no topo do morro deparámo-nos com uma bela surpresa: um exemplar em flor, com aroma característico a jasmim, de uma Drimys winteri.

Nativa do sul da Argentina e Chile, de zonas de floresta húmida, esta pequena árvore pertence à família Winteraceae, designação que homenageia o Capitão William Winter que acompanhou a expedição de Sir Francis Drake em 1578. Por sugestão indígena, aceite por Winter, a casca da árvore - rica em vitamina C e taninos - foi bebida em chá, de sabor acre (daí o nome grego do género), pelos marinheiros, tornando-se remédio santo contra o escorbuto que tanto afligia os viajantes. A estrutura simples dos carpelos e o tronco sem vasos renderam alguma notoridade ao género Drimys nos anos 50 do século passado pela polémica sobre o carácter primitivo da árvore. Esta característica da madeira é hoje aproveitada no fabrico de instrumentos musicais.

As folhas são carnudas, com pecíolo curto e nervura central acentuada. Tal como os lódãos, exibe três tipos de flores. As mais vistosas são estreladas, agrupam-se em umbelas com pés longos, têm pétalas cor-de-marfim e centro com uma coroa verde.

12.4.05

Dos jornais - Árvores excepcionais vão ser classificadas

«Existem árvores raras e centenárias no concelho de Coimbra que merecem ser protegidas. Para muitas delas, nunca ninguém olhou com a devida atenção. Classificar as árvores mais importantes da cidade como património de interesse público é um dos objectivos do Departamento de Ambiente e Qualidade de Vida da autarquia de Coimbra. O processo de identificação dos exemplares a candidatar à Direcção Geral das Florestas (DGF) foi iniciado após luz verde do executivo camarário.
Para já, o conjunto de palmeiras (Phoenix dactylifera) que se enconta no jardim da Avenida Sá da Bandeira é um dos núcleos arbóreos de maior valor já identificados, não só pelo número de exemplares reunidos, como também pelo seu alinhamento e dimensão alcançada.

Embora localizadas numa zona menos nobre, também as duas araucárias existentes na margem esquerda do Mondego, na Quinta da Várzea - Lages - são exemplares que merecem destaque pela dimensão e idade, tal como a araucária que está junto aos Arcos do Jardim.

Outro conjunto que também é um autêntico «monumento verde» refere-se ao núcleo de tílias da Rua Pedro Monteiro, que os especialistas consideram «em muito bom estado fito-sanitário». (...)

Em Coimbra, todo o património existente no Jardim Botânico fica fora do processo de classificação uma vez que já se encontra devidamente protegido pelo seu próprio estatuto, na dependência da Universidade de Coimbra.

As espécies da Quinta das Lágrimas, uma vez que se encontram em propriedade privada, também não serão alvo de estudo dos serviços municipais. Neste caso, Paulo Lúcio, engenheiro florestal que cuida dos jardins e mata do hotel, informou que o referido espaço faz parte da Associação de Jardins Antigos e Históricos. Até agora nunca foi equacionado avançar para a classificação das árvores existentes, embora confirme a presença de «exemplares únicos na Península Ibérica», como é o caso da «famosissíma Ficus Macrophila, originária da Austrália, conhecida erradamente como borracheira». Com cerca de 40 metros de altura, é uma árvore que mantém um crescimento excepcional com raizes que se desenvolvem à superfície como «escoras». Também as Olaias (árvores de Judas) e a sequóia, que se diz ter sido plantado pelo Duque de Wellington aquando das invasões franceses, são exemplares raros que dominam a mata da Quinta da Lágrimas.»

(Extractos de uma reportagem de António Rosado publicada ontem em asbeirasonline)

Fotos: pva 0502 - Ficus macrophylla e Sequoia sempervirens na Quinta das Lágrimas - Coimbra

Tílias do Jardim do Morro



Fotos: pva 0504 - tílias e, em primeiro plano na 2.ª foto, glícinia, azálea e loendro

Ainda que avesso desde criança ao exercício físico, sempre gostei de andar a pé. Na verdade, só quando desesperaram de nos fazer praticar desportos a sério é que os médicos e outros oficiosos promotores da boa forma física se lembraram de elevar o naturalíssimo acto de caminhar, entretanto rebaptizado como walking, à categoria de desporto. Mas eu nunca caminhei por desporto - como aliás nunca pedalei por desporto, nem fiz nada com o intuito consciente de praticar desporto.

Sou sobretudo um caminhante de cidade. É a andar a pé que coso mentalmente os retalhos do tecido urbano e surpreendo os seus contrastes. Mas há motivos mais prosaicos para esta preferência: não me enervo com o trânsito e chego sempre a horas; e, quando estudante, andar a pé era um importante reforço da mesada, pois embolsava todo o dinheiro que me era entregue como subsídio de transporte. Nos anos em que, morador em Gaia, estudava no Porto, passei quase diariamente sob esta alameda de 22 tílias no Jardim do Morro, prelúdio para a travessia da Ponte D. Luís com o mais famoso postal do Porto a desenrolar-se vertiginosamente até à foz do rio.

O meu convívio com estas árvores tem assim mais de vinte anos, embora de início nem lhes soubesse o nome. Estão saudáveis, bonitas, elegantes como só as tílias - e por isso, e também pela amizade antiga, vou desde já galardoá-las com o título de melhor alameda de tílias que conheço. Numa bem-vinda excepção à regra, as obras do Metro só as beneficiaram: a Avenida da República, finalmente livre da perturbação do trânsito no seu troço final, fornece-lhes agora uma envolvente digna da sua grandeza. E a Câmara de Gaia, ao contrário da sua congénere portuense, não parece ter equipas de especialistas encarregadas de desfigurar as tílias, que assim podem exibir intacta a arquitectura ímpar das suas copas. (No Porto, o zelo podador extravasou da via pública e vitimou mesmo as tílias do Palácio de Cristal, que ficaram em estado lastimável.)

11.4.05

Sugestão - As aves nos nossos jardins

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Apetece-lhe ouvir gorjear o rouxinol? Recordar o melodioso melro ? Saber como cantam o tordo-pinto, o pisco-de-peito-ruivo (...) ? Em The birds in our gardens podemos refrescar a memória e aprender muita coisa sobre os pássaros que animam os nossos jardins, os quintais e todos os locais onde existem árvores ;-).

É também a minha porta de entrada favorita para The Garden Safari , interessante sítio sobre "a vida selvagem nos jardins" (membro do "The Urban Wildlife Ring"), da autoria de Hania e Hans Arentsen.
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(O Dicionário de Aves pode tornar-se uma ajuda preciosa.)
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10.4.05

A palavra


Fotos: pva 0412 - Kalmia latifolia - Jardim Botânico do Porto

Falo da natureza.
E nas minhas palavras vou sentindo
A dureza das pedras,
A frescura das fontes,
O perfume das flores.
Digo, e tenho na voz
O mistério das coisas nomeadas.
Nem preciso de as ver.
Tanto as olhei,
Interroguei,
Analisei
E referi, outrora,
Que nos próprios sinais com que as marquei
As reconheço, agora.

Miguel Torga, Diário X (1968)

9.4.05

Do alto da sua ignorância...

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Rolagem em salgueiro-chorão (Salix babylonica) - Av. Vasco da Gama (Ramalde-Porto)
Tinha pensado que este ano o salgeiro-chorão escapava. Mas não, ontem de manhã, no dia em que as árvores atingiam um novo tom de verde (ainda mais verde... ) lá estava o sujeito. Jardineiro da Câmara, faz biscates (para o condomínio do prédio ao lado do meu) nos seus tempos livres e todos os anos "trata" assim esta árvore, cuja beleza reside justamente na sua ramagem pendente.
(Por que razão este espaço é da responsabilidade do condomínio foi coisa que ainda não entendi...)
O ano passado a nossa conversa foi significativa. O homem, de poda parece perceber menos do que eu. A certa altura clamava que não sabia qual era o meu problema porque depois de podada desta maneira a árvore lançava ramos em ainda maior número. "Pois...", argumentava eu, "é por compensação! Mas então não é justamente o que o senhor não quer? "

Este ano com voz desgostosa e sem a mínima simpatia, interpelei-o sem sequer me atardar : "Que poda, Sr. (...). Tinha mesmo que ser assim? Mais vale cortar a árvore!"; "É necessário, é necessário!" respondeu ele do alto da sua ignorância.
Talvez não haja nada que me irrite mais do que os ignorantes convencidos. Fotografei-o a ele e ao seu lindo serviço de todos os ângulos possíveis e imagináveis.
......
Fui pedir que plantassem estas árvores em frente aos prédios recém-construídos, há cerca de vinte anos atrás, quando os Serviços dos Jardins ainda estavam instalados no Palácio de Cristal. Dessa altura sobrevivem este chorão (Salix babylonica) e dois liquidâmbares um dos quais se vê na fotografia do lado direito. O chorão está na área que supostamente pertence ao outro condomínio, mas isso não significa de modo nenhum que os liquidâmbares estejam a salvo! Eu um dia mostro o que (me) fizeram a um lódão...
......
Ler 5 ideias falsas sobre as "podas" radicais ou rolagens
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"Primavera"

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Namorou-se uma princesa
Dum pajem loiro e gentil;
Chama-se ela - Natureza,
Chama-se o pajem - Abril.

A Primavera opulenta,
Rica de cantos e cores,
Palpita, anseia, rebenta
Em cataclismos de flores.


(...)
Tudo ri e brilha e canta
Neste divino esplendor:
O orvalho, o néctar da planta
O aroma, a língua da flor.

Enroscam-se aos troncos nus
As verdes cobras da hera.
Radiosos vinhos de luz
Cintilam pela atmosfera.

Entre os loureiros das matas,
Que crescem para os heróis,
Dá o luar serenatas
Com bandas de rouxinóis.

É a terra um paraíso,
E o céu profundo lampeja
Com o inefável sorriso
Da noiva ao sair da igreja.


Guerra Junqueiro
(in Tesouro Poético para a Infância, antologia - org. Antero de Quental-1877)

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8.4.05

Abril, flores mil


Casa de Campo, Molares, Celorico de Basto

Os jardins, agora que o tempo aqueceu, têm novo atractivo: os rododendros e as azáleas estão em flor, exibindo vistosas copas de cor branca, amarela, laranja, rosa, vermelha ou violeta. O género Rhododendron (o termo grego rhodo significa rosa, o sufixo dendron refere-se a árvore) é da família Ericaceae, com 8 subgéneros, que incluem as azáleas, e mais de 800 espécies, maioritariamente asiáticas. Preferem solos ácidos, de zonas montanhosas e temperadas. A folhagem é luzidia e em alguns casos tomentosa; as flores agrupam-se em feixes nos extremos dos ramos, rodeadas por um arranjo de folhas em leque; as 5 sépalas formam uma trombetinha onde sobressaiem os estames.

Um projecto da Universidade do Algarve, que investiga a propagação da adelfeira (Rhododendron ponticum subsp. baeticum) e a sua reintrodução em solos degradados na serra de Monchique, dá conta da distribuição muito restrita entre nós desta espécie, apesar da sua boa adaptação à Península Ibérica, e do consequente risco de extinção neste seu habitat natural.

Ironicamente, o Rhododendron ponticum é considerado invasor nas ilhas britânicas. Num artigo recente da revista Molecular Ecology sobre a sua evolução nestas ilhas - onde foi introduzido no século XVIII como arbusto ornamental, tornando-se muito popular na época vitoriana - cientistas revelam dados de análise genética que confirmam que os exemplares britânicos desta espécie são muito provavelmente descendentes de arbustos com origem na zona de Monchique. Ter-se-ão entretanto transformado numa ameaça à fauna e flora das ilhas, tendo-se cruzado com outras espécies, a mais importante das quais a norte-americana Rhododendron catawbiense, e adquirido maior resistência ao frio, colonizando agora também as regiões menos temperadas das ilhas. Das centenas de espécies de rododendro só esta constitui um problema.

O rododendro notável da foto em cima é da Casa de Campo e tem mais de duzentos anos. Tivemos oportunidade de o conhecer durante o passeio na região de Basto por algumas quintas e jardins organizado pela Câmara de Celorico de Basto no âmbito da 2.ª Festa Internacional da Camélia.


Casa da Gandarela, São Clemente, Celorico de Basto
(Fotos: mpc / pva)

7.4.05

A física de trocar o passo

Há certos farrapos de conversa que nos transportam num ápice para um mundo irreal. Como este, ouvido na manhã sonolenta de uma barbearia:

- Não é bruxaria, garanto-lhe. É física. Se você for pela rua e pensar mal da pessoa que vai à sua frente, vai ver que ela começa a trocar o passo. E é perfeitamente natural, não há milagre nenhum nisso. A física explica tudo. Todos nós temos um campo eléctrico à nossa volta, é só estarmos atentos aos efeitos. Por exemplo, quando passa uma mulher somos forçados a olhá-la. Porquê? É o campo eléctrico dela que interfere com o nosso.

Nessa altura, e como quem faz um violento esforço para acordar, saio da barbearia para a Praça Filipa de Lencastre, onde as tílias, na sua imperturbável grandeza, garantem que o mundo não está virado do avesso. Já foram as mais bonitas do Porto, redondas e verdes como enormes sorvetes de pistácio, mas agora, aparadas as copas por causa do túnel e do hotel, parecem fusos. Não me posso distrair a contemplá-las: mesmo que ninguém me queira mal, andar a pé exige atenção constante. Retirada a vedação que tapava a entrada do túnel, a praça está diferente mas não melhor: com estacionamento no passeio e em dupla fila junto às tílias, o peão tem que meter-se ao trânsito e disputar o seu espaço com os automóveis.

Caminho agora pela rua de Vilar. Um jardim - simplório, é verdade, mas um pedaço de terra viva - está a ser destruído para ser transformado em estacionamento. Consta que é por uma boa causa: o estacionamento será reservado aos deficientes que frequentarão as instalações desportivas do bairro. Acontece que mesmo ao lado há meia dúzia de lugares que bem poderiam servir para o mesmo fim, e mais abaixo um parque de estacionamento subterrâneo quase sem uso. Quem ganhou não foram os deficientes, mas o automóvel; quem perdeu foi toda a cidade.

Vou fazer força na cabeça e pensar mal da obra da próxima vez que lá passar. Pode ser que as máquinas se avariem e a obra seja interrompida. Vou também pensar mal dos condutores que invadem passeios. Com a física tudo pode acontecer.

6.4.05

"Com os lódãos" - poesia

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Havia outras noites outras folhas
um percurso de água era o meu corpo
sobre as noites havia outras colinas
ou talvez não, talvez apenas dormisse
com os lódãos sobre o coração.

Eugénio de Andrade -In Véspera da Água (1972-73)

Ler: « Se falei das árvores com ácida melancolia...»
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Flores, folhas e frutos novos - lódãos

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Todos os anos é assim nas primeiras semanas de Março: umas espessuras apenas mais marcadas nas axilas e nas extremidade dos ramos, que se mantêm por um dia ou dois, alimentando a nossa expectativa. Um tom e uma textura ligeiramente diferentes. Algo no ar... Já é ? Ainda não? Mas logo se dissipam as dúvidas: em todos os ramos rebentam borbulhitas farfalhudas, de onde brotam flores e folhas de tamanho diminuto.


Fotos: mdlramos 05 - Flores, folhas e frutos de lódão (Celtis australis) em março e abril .

Passado pouco tempo, os frutos, as futuras "ginginhas de rua" como dantes lhes chamavam, fazem também a sua aparição, verdes, da cor das folhas. (Só mais tarde farão a alegria dos pássaros...)
Reparei em todo este processo com mais atenção depois de ler um pequeno livro sobre lódãos (em francês micocouliers), da interessante colecção "le nom de l'arbre"* do qual transcrevo os seguintes parágrafos. Neles ficamos a saber que estas floritas não são todas iguais: há as masculinas, as femininas e as hermafroditas:
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«Vers le mois d'avril, à l'aisselle des jeunes feuilles à peine formées, naissent de petites fleurs presque invisibles. Dépourvues de pétales elles se réduisent à une collerette découpée en quatre ou cinq languettes ovales entourant les organes reproducteurs. Curieusement l'arbre dispose de trois types de fleurs différentes.
Des fleurs mâles, qui naissent à la base des jeunes rameaux. Tantôt isolées, tantôt regroupées en bouquets, elles possèdent un calice à cinq sépales lanceolées, et autant de courtes étamines qui de façon étonnante s'allongent après la dissémination du pollen.

Des fleurs femelles, solitaires ou groupées par deux ou trois à l'aisselle des jeunes feuilles. Elles se distinguent par leurs styles saillants en forme de flèche recourbée.
Des fleurs hermaphrodites, plus rares, possédant à la fois des étamines (la partie mâle) et un pistil (la partie femelle). Portées par un long pédoncule, elles sont situées au dessus des fleurs mâles.
Ces florules, qui ne durent que quelques semaines, se flétrissent avant que les feuilles n'acquièrent leur forme et leur taille définitives.
Généralement chez les angiospermes, plantes dont la graine est enfermée dans un fruit, les fleurs peuvent être soit hermaphrodites, la fleur renfermant à la fois les deux sexes, mâle et femelle, soit monoique, quand sur une même plante les fleurs mâles et les fleurs femelles sont différenciées. Quand la nature les a généreusement dotées, les plantes possèdent en même temps fleus mâles, fleurs femelles et fleurs hermaphrodites. Elles sont trimonoiques (trois sexes dans une même habitation). C'est le cas de certains érables et du micocoulier.» Lionel Hignard, Le micocoulier, p. 16. "le nom de l'arbre"* (ed. Actes du Sud)

* colecção iniciada em 1997, já tem cerca de duas dezenas de números publicados. A Temas & Debates edita desde 2003 a versão portuguesa destes pequenos manuais, na colecção homónima "o nome das árvores". Já aqui falámos destes livrinhos preciosos.
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Ver com mais detalhe as flores do lódão na página sobre o Celtis australis do Herbari Virtual de les Illes Balears (informação via Húmus).
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5.4.05

Aprendendo a olhar

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Embora estivesse pouca gente na Fundação Eng. António de Almeida à hora marcada para o início da palestra no passado sábado, a sala lá se foi compondo e acabámos por registar quase quarenta ouvintes.
A chuva terá obviamente dissuadido algumas presenças, mas a primeira parte do programa decorreu em local abrigado, com uma janela espreitando discretamente a promessa do jardim; e, quando chegou a altura de sairmos, recebeu-nos um odor a terra fresca num jardim reluzente, acabado de lavar.
Teresa Andresen une um raro dom de comunicar com uma óbvia paixão pelos jardins e um profundo conhecimento da génese e história desses lugares que, na Terra, criam uma frágil evocação do paraíso. Começando por recordar alguns dos grandes mestres jardineiros (Marques Loureiro, Jacinto de Matos, Moreira da Silva) que marcaram a história e o carácter urbano do Porto nos séculos XIX e XX, e terminando com uma citação de Sophia de Mello Breyner Andresen, ofereceu-nos uma viagem fotográfica por jardins de várias épocas e lugares; aprendemos como o jardim se mostra ou se esconde, como se fecha sobre si próprio ou se abre à paisagem envolvente.



Visitámos de seguida, por gentileza da Fundação, a Casa Museu do Eng. António de Almeida. Apesar de a casa, seguindo o gosto da época, não ter acesso directo ao jardim, a presença das flores é uma constante: quadros, tapeçarias, papel de parede, porcelanas, móveis, cortinas - tudo é decorado com motivos florais.
No jardim reinavam azáleas, rododendros, camélias e um carvalho soberbo ostentando a folhagem nova.

Não houve garden party como nos tempos de Olga Andresen, a senhora da casa, embora a chuva não tivesse faltado e os músicos de granito, hoje mais corroídos pela humidade, lá continuassem expectantes. Uma óptima tarde de sábado em Abril.
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