28.2.06

Índice -actualizado

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Poesia (no Dias com Árvores)
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A ler

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Autarquias e ambiente - por Jaime Prata
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Sequóias em Vizela

Uma das mais óbvias «lições» deste blogue, até pela insistência em o mantermos a funcionar durante o Inverno, é que qualquer época do ano é boa para visitar um jardim ou um parque. Tomemos o caso do Parque de Vizela: com o salgueiro e restantes folhosas em hibernação, os canteiros despojados de flores, e o ar gélido que só ameniza ao princípio da tarde, poderia pensar-se que, antes de vir a Primavera, não valeria a pena lá voltar. Puro engano: para começar, estão em plena floração as muitas camélias plantadas por Marques Loureiro, o Jardineiro das Virtudes; e é também agora que as árvores de folha perene, graças à nudez das suas companheiras, podem ser admiradas em toda a sua magnificência.

Já o dissemos, mas convém recordá-lo: o Parque de Vizela tem algumas das árvores mais altas que existem no nosso país; com ele só rivalizam, na concentração de árvores gigantescas, a Mata do Buçaco e talvez o Parque de Monserrate, em Sintra. E, se exceptuarmos um descomunal eucalipto, as mais altas entre as altas são, em Vizela, as sequóias (Sequoia sempervirens), de que por lá haverá cerca de duas dezenas; são como flechas pontiaguadas que, perfurando a mancha do arvoredo, sinalizam o parque à distância.

Outras sequóias

Foto: sequóias (Sequoia sempervirens) em Vizela - Janeiro de 2006

27.2.06

Sequóia chinesa



O género Metasequoia existia apenas em registos fósseis da Ásia e América do Norte, até que nos anos 40 do século passado alguns exemplares da espécie M. glyptostroboides foram descobertos nas províncias chinesas de Hubei e Sichuan. Contemporânea dos dinossauros, esta é uma conífera invulgar por ser de folha caduca, e que além disso se distingue das outras sequóias pela disposição oposta das folhas achatadas e das escamas nos cones femininos que têm pedúnculo longo. A copa é cónica com ramos ascendentes; o tronco muito erecto é avermelhado quando jovem, adquirindo progressivamente laivos cinzentos e tornando-se fissurado, de madeira quebradiça. Aprecia solos húmidos e ravinas e é de crescimento rápido.

Desde Janeiro de 1948 que sementes dos exemplares chineses germinam fora da China num esforço global para evitar a extinção deste género. Vimos o primeiro exemplar desta espécie na Quinta do Alão, com folhagem nova verde-alface, numa visita em Maio do ano passado. Os dois que encontrámos no Parque Florestal de Amarante estão agora despidos de folhas - há uns três meses poderíamos tê-las apreciado coloridas de castanho-rosa em véspera de tombarem -, exibem inúmeras flores masculinas douradas dispostas em cachos e cobriram as redondezas de cones femininos no que pode ser considerado um sucesso de aclimatação.

A designação Metasequoia, atribuída em 1941 pelo botânico japonês Shigeru Miki a material fóssil do Japão, deriva do grego meta (mudada) e sequoia, a taxodiaceae que lhe é próxima; glyptostroboides alude ao facto deste género se assemelhar ao Glyptostrobus, palavra que resulta de glypto e strobilos, referindo-se às incisões nos cones femininos.

26.2.06

Salix babylonica - Vizela

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Salgueiro chorão no Parque das termas em Caldas de Vizela no Outono de 2004.
O porte gracioso, os longos ramos pendentes e as características folhas lanceoladas fizeram com que se tornasse a espécie do género Salix mais apreciada nos jardins públicos e privados.
No entanto, negando-lhes a sua vocação ornamental e afrontando todos os que têm um mínimo de sensibilidade e sentido estético, ano após ano, estas árvores continuam a ser drasticamente podadas ficando por vezes durante longas semanas com as pernadas reduzidas a uns tocos atrozes! Esperemos que isso nunca aconteça à árvore da fotografia, um dos mais bonitos exemplares que conheço.

25.2.06

Provérbios

  • A copa da árvore é tecto de quem não tem o que quer que seja, mas fugi dela quando troveja.
  • Aquele que debaixo de árvore se acolhe, arrisca-se a que duas vezes se molhe.

24.2.06

38 toneladas de ferro


Foto: pva 0509 - estufa da Quinta da Lavandeira, Oliveira do Douro (Gaia)

Quem visita o Parque da Lavandeira depara, atrás de uma cerca de arame e quase oculta por densa mata de acácias, com uma grande estrutura de ferro forjado: parece despojo de civilização extinta engolido pelo avanço da selva; e, num certo sentido, é isso mesmo. Hoje imaginamos com dificuldade uma época em que a ostentação consistia em ter o jardim com as plantas mais raras ou, como neste caso, em erguer a estufa mais grandiosa. A estufa - ensina a brochura editada aquando da inauguração do Parque, em Agosto de 2005 - foi completada em 1883 a mando do Conde da Silva Monteiro (1822-1885), proprietário da Quinta da Lavandeira e presidente da Associação Comercial do Porto entre 1875 e 1877. Embora esteja fora do domínio municipal, a Câmara de Gaia entendeu proteger a estufa iniciando o processo para a sua classificação; espera-se que posteriormente a adquira para a recuperar e abrir ao público.

Sobre a estufa, a brochura reproduz um elucidativo artigo de José Duarte de Oliveira publicado no Comércio do Porto em Agosto de 1883:

«A estufa do Sr. Conde da Silva Monteiro é um documento eloquente do progresso que a arte e a indústria têm feito em Portugal, porque, nessa edificação, nova no seu género entre nós, encontramos uma e outra levadas a um grau de perfeição que pode fazer a inveja de engenheiros distintos. (...) Não se procurou, como se vê, fazer uma edificação vulgar, uma estufa como todas as outras. Recorreu-se à arte, pensou-se muito na parte ornamental, e é este o seu maior mérito. Conhecemos as principais estufas e jardins de Inverno da Europa, em geral umas construções simples, pouco ou nada arquitctónicas, e que, portanto, diferem muito desta. Aqui, o desenhador pegou no lápis e foi descrevendo traços sobre o papel, à medida que a fantasia divagava pelos domínios da arte dos séculos passados. Não se pode dizer que seguisse rigorosamente este ou aquele estilo, mas o conjunto é agradável à vista.
A porta do centro é ampla (3m,30 de largo), elegante, bem proporcionada, e as laterais condizem com o resto do edifício. Os rendilhados da cobertura são todos de ferro e de uma leveza tão extraordinária, que mais parecem recortes feitos em papel transparente. O corpo principal é sustentado por quatro arcos, nos quais se observa o mesmo estilo da parte exterior, que recorda muito o gótico. Nesta edificação é tudo harmonioso e bem proporcionado. Tem 24 metros de frente, 12 de altura no centro e 12 de fundo. Quando estiver povoada de plantas, deve produzir efeito surpreendente. Daqui se vê que esta estufa é uma das maiores que existem em Portugal e a primeira entre todas quantas possuem os amadores portugueses.
Na parte exterior da estufa há uma escada que dá acesso a todos os pontos, o que é importante, porque facilita muito qualquer reparo que se torne necessário fazer. Segundo nos informaram os construtores, a organização dos moldes em madeira, chumbo e zinco levou 883 dias a um entalhador, e a fabricação das suas diferentes peças 2372 dias a um serralheiro. O peso total do ferro empregado na sua construção é de 38 285 quilos. A estufa ficou pronta por 10 000 $ 00 réis.»

23.2.06

"Cantar de Amigo"

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À beira do rio fui dançar... Dançando
Me estava entretendo,
Muito a sós comigo,
Ouando na outra margem, como se escondendo
Para que eu não visse que me estava olhando,
Por entre os salgueiros vi o meu amigo.

Vi o meu amigo cujos olhos tristes
Certo se alegravam
De me ver dançar.
Fui largando as roupas que me embaraçavam,
Fui soltando as tranças... Olhos que me vistes,
Doces olhos tristes, não no ireis contar!
Que o amor é lume bem eu sei... que logo
Que vi meu amigo
Por entre os salgueiros ,
Melhor eu dançava, já não só comigo
Toda num quebranto, ao mesmo tempo em fogo,
Melhor eu movia mãos e pés ligeiros.

Que Deus me perdoe, que os seus olhos tristes
Assim ofertava
Minha formosura!
Se não fora o rio que nos separava,
Cruel com nós ambos, olhos que me vistes,
Nem eu me amostrara tão de mim segura.

José Régio, Música Ligeira (1970) Portugália Editora

22.2.06

Com um pezinho na água



Poucos são os géneros de folhosas que como o Salix (salgueiros) tantos usos permitem: por exemplo, além de geralmente muito ornamentais (destacando-se entre nós a chinesa S. babylonica, o chorão de galhos graciosos e pendentes tidos como o melhor dos vimes), a espécie S. alba produz a madeira macia e leve com que se fazem os tamancos ou os bastões de críquete, a boa cestaria muito deve à S. viminalis, e a S. cinerea é fonte de matéria prima para o carvão dos lápis. Em todas as espécies o ritidoma contém salicina, um alcalóide usado para fabricar ácido acetilsalicílico, o princípio activo da aspirina.

Reunindo mais de 300 espécies dióicas (cada planta tem exclusivamente flores femininas ou masculinas) nativas do hemisfério norte, este género destaca-se também pela diversidade de ecossistemas a que se adaptou, embora a maioria prefira solos húmidos de bosques ou zonas ribeirinhas - facto talvez relacionado com a vida curta das suas sementes que perdem cedo a sua capacidade de germinação. Assépalas e apétalas, as flores dispõem-se em amentilhos, sendo as masculinas as mais vistosas.

Disse Eugénio de Andrade (Palavras em Serrúbia, 2003): «Eis o que tenho a pedir-vos nos meus oitenta anos: plantem nesse lugar um plátano, onde o vento enroladinho no sono possa dormir sem sobressaltos; ou uma oliveira, ou um chorão, e à sua roda ponham uma sebe da flor doce e musical de espinheiro branco. Embora tenha pouca ou nenhuma fé seja no que for, a terra ficará mais habitável. Um poema ou uma árvore podem ainda salvar o mundo.»

Fotos: pva 0502 - salgueiros-pretos (Salix atrocinerea) em flor nas margens do rio Ave em Santo Tirso

21.2.06

Onde comprar camélias portuguesas


Foto: pva 0602 - camélias nos Viveiros Mário Mota - Carvalhos (Gaia)

Quando há dias celebrámos a camélia «Augusto Leal de Gouveia Pinto», supúnhamos que ela seria difícil de encontrar em viveiros comerciais. Na verdade, comprovámos posteriormente não ser assim tão difícil: o que é preciso é ir ao local certo. Claro que nesses viveiros de berma de estrada, simples entrepostos de plantas lustrosas importadas da Holanda, nada há de especial quanto a camélias - pelo menos nada que tenha a ver com a nossa tradição de cultivo da planta. Mas, bem perto de nós, no concelho de Gaia, há dois viveiristas exemplares que prolongam essa tradição, cultivando e vendendo uma grande diversidade de camélias portuguesas, além de outras de várias proveniências. São eles:

1) Viveiros Mário Mota - Rua Gonçalves de Castro, 537 - 4415-379 Pedroso - tel. 227842015
Como chegar. Tome a IC2 da Ponte da Arrábida até à EN1 (Carvalhos); na EN1 vire à esquerda imediatamente antes do Colégio dos Carvalhos, e continue até um largo arborizado (Largo de França Borges); a Rua Gonçalves de Castro começa no extremo sul desse largo.
O que lá encontrámos. Augusto L.G.P., Dona Herzília II, Villar d'Allen e muitas mais camélias portuguesas, além de uma grande colecção de sasanquas, reticulatas e outras raridades. Ainda que especializado em camélias, o horto vende também outras árvores e plantas.

2) Horto Luís Faria & Filhos - Largo de São Martinho do Além - Vilar do Paraíso - 4405-905 V. N. Gaia - tel. 227110562
Como chegar. Tome a IC2 a partir da Ponte da Arrábida, depois a IC1 para sul até à primeira saída (VL3), onde deve seguir para leste; na primeira rotunda tome a saída à esquerda (Rua de Gramoinhos), e encontra o Largo de São Martinho do Além logo a seguir.
O que lá encontrámos. Não pudemos entrar por estar fechado ao domingo, mas o que vislumbrámos por cima do muro faz-nos querer voltar; além do mais, os nossos vizinhos galegos amigos das camélias já por lá andaram e contaram do que viram.

3) A estes dois viveiristas o aficcionado deve juntar Villar d'Allen, nome incontornável quando se fala de camélias portuguesas: aí, além de se poder visitar a preciosa colecção de camélias oitocentistas, vendem-se variedades exclusivas produzidas não só nessa quinta mas também na Quinta de Santo Inácio.

A propósito de camélias portuguesas, não podemos deixar de lamentar que, nas recentes obras de beneficiação do Parque de Serralves, em geral bem conduzidas, se tenham importado todas as novas camélias (e restantes plantas) de Itália. Os conhecedores, quando visitam jardins, gostam de lá encontrar o que é característico de cada país; não vêm a Portugal para ver o que é italiano. É triste que Serralves, por ignorância ou mal avisada poupança, tenha rompido com a tradição da camélia portuguesa.

20.2.06

Carvalhos e carvalhas, carvalheiros e carvalheiras

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«Ou pela idade , ou pela copa, ou pelo vigor, distingue-se, sobretudo no Norte e na Beira, carvalho de carvalha, carvalheira, e trave: carvalha é a planta já velha (cf. sobreira, supra), que se desenvolve amplamente em contraste com carvalho, que sobe muito.
Uma vez perguntando eu a um aldeão de Trás-os-Montes em que é que o carvalho se distingue da carvalha, ele repondeu-me por gestos, como um inglês: o carvalho...(e ergueu o braço direito e a mão para o ar); a carvalha.... (e estendeu os dois braços, cada um para o seu lado).

Carvalho em Felgueiras parece que é o carvalho que em parte se corta, e depois rebenta viçosamente: cf. em Braga o Campo das Carvalheiras, que uma vereação arboricida mandou derrubar, não deixando sequer um árvore para documentação viva do onomástico.
Trave designa em Felgueiras o carvalho, quando, em plena vegetação, se torna apto para a construções: e é talvez a esse especial sentido que se ligam os nomes de terra Travassos e Travaçós, que estudei nos Ópusculos, III, 397.
No Cadaval (Peral), em vez de carvalho, dizem carvalheiro; é curioso notar que Brotero, II, 332, citando carvalheiro remete para carvalho.
No Alto-Alentejo, carvalheira designa os rebentos do carvalho em volta do tronco, e os carvalhinhos nascidos perto do carvalho onde cai a lande. »
José Leite de Vasconcelos, Etnografia portuguesa: tentame de sistematização. Lisboa : IN-CM, 1958-1988, vol. II, p.66 (Ler parágrafos anteriores transcritos aqui a propósito do Carvalhal de Tibães)

E em Beijós como será?
O que distinguirá nessa freguesia de Carregal do Sal os carvalhos das carvalhas?
Conseguirão salvar-se as últimas carvalhas do Parque Arnaldo de Castro da rolagem que mutilou já 11 árvores soberbas? Pelo menos foi lançado um SOS . Terá resposta? Ou será o património (neste caso arbóreo) mais uma vez vítima da prepotência, insensibilidade e incultura?
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19.2.06

Chuva

Chove uma grossa chuva inesperada
Que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
Duma vida que é chuva e não parece.

Miguel Torga, Diário II (1943)


Foto: pva 0601 - camélia «Dona Herzília II» na Casa Tait

18.2.06

Dias sem árvores

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Rolagem nos Carvalhos centenários do Parque Arnaldo de Castro em Beijós (Carregal do Sal)
SOS Carvalhas
Vídeo carvalhos podados (São cerca de 9,5 MB, visualização ou download aconselhável apenas a utilizadores com acesso via banda larga.)
Carvalhos Centenários - Poda Radical - Beijós
O que se DIZ ao Chafariz
Para uma pessoa ouvir
Nem sempre se pode ESCREVER
No Blog na Internet
Para todo o mundo ver!
Micas 10

Salgueiros chorões- Circunvalação (Porto)
."Quem fez isto não percebe nada de nada!"
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BlogNoBotânico
O blogue de um Voluntario Europeu no Jardim Botânico da Universidade de Lisboa
Super!.

Camélias e pássaros


Foto: pva 0602 - Mathotiana rubra, mãe de Augusto L.G.P.

«Linda, a camélia da manhã. Puríssima. Eu entrava no horto quando era miúda e sim, lembro-me das camélias por serem das minhas flores preferidas, ainda não tinham nome de "Lavinia" ou "Margaret". Por isso é que hoje ao vê-las aqui, é como folhear um album de gente conhecida e amiga. Acho que, na verdade, as conheço bem. E por saber que não "cheiravam a nada", cheirava-as todas. Chamavam Japoneiras às árvores; eu também era bastante virada a Oriente pelo que nelas até o nome me atraía! Ali era, então, o horto, em frente ao Museu. A casa existe (é linda por dentro), ficou emparedada pelo "Cristal qualquer coisa". Ao fundo desse CC sentei-me algumas vezes, de coração partido, a olhar para os melros e as poucas árvores que aí restam. Os quintais vizinhos, também. Como fazem as lojas ou os cafés tão escuros quando há pátios e trepadeiras nos velhos jardins! Como se fecham, com tanto sol e ar e céu e mar! A pêra que ainda hoje é o logotipo do horto, estava na parede do lado do Carregal e dizia "Plantai as nossas sementes e colhereis melhores frutos", talvez... Eu gostava muito daquele anúncio, uma pêra grande. Assustava-me um pouco o imperativo - Plantai; tomai e comei; Olhai - parecia-me um pouco como o dedo ameaçador de Deus no catecismo (eu só gostava daquele Jesus que expulsava os vendilhões do templo, esse é que me dava gozo). Iamos lá, ao horto, eu e o Senhor Juvandes (incrível como me lembrei deste nome) quando havia alguma "festa" no Museu - seria isso? Não sei bem, sei que um jardim e plantas e árvores e bolbos e flores eram o meu encantamento, sempre. Pois, o Senhor Luís J era o porteiro do Museu Soares dos Reis. Eu morava perto e era pequena, levava-me com ele para brincar nos jardins. Ao fundo, tenho a certeza de que havia vacas a pastar. Um pórtico em pedra, árvores enormes. Gárgulas, miosótis (forget-me-not) e musgo macio. Escadinhas com heras. Pedras trabalhadas abandonadas pelos canteiros. Leões nas fontes e nenúfares rosados. O rei D.Afonso Henriques estava no átrio, estátua imponente (para mim) com a sua cota e espada. Tirando o D. Dinis que lavravra e fazia poesia, esse era o rei que de quem eu gostava antes de o aprender na Escola. Eu andava pelo museu e pelos jardins, livre com uma abelha. Todas aquelas estátuas, muitos quadros, instrumentos musicais, faianças, vestuário antigo bordado, em tudo isso eu podia mexer porque eu era "a menina bem comportada". Quando pedi, há um ano ou dois, a um segurança, para me deixar ver o jardim lá atrás, fiquei chocada. Não explico porquê. Foi mais um arranjo modernaço.

Não há sítio de romance. (Romances só nos Centros Comerciais, nas Praças da Alimentação, com árvores e comida plástica). Isto é o que te queria contar da camélia, do horto e do museu. Há um pássaro que aparece, fugidio, nos prédios das traseiras. Não é pomba, nem pardal, nem gaivota, nem rola, nem melro. É um pássaro esbelto, saltitante, com duas manchas brancas nas asas. Vai, determinado, a um sítio. Num segundo pousa e no outro voa. Quando voa para baixo, o pátio, faz uma curva graciosa. Quando abre as asas e foge como uma seta vêem-se manchas côr de laranja. Algums homens são como alguns pássaros. São coisas que eu às vezes cogito - há tempos que não escrevo esta palavra... mas é uma coisa que faço muitas vezes: não só pensar, cogitar, que me parece mais completo e controverso.»


Carta de E.P. (16/II/2006)

17.2.06

Edward Steichen

Achei de sobremaneira interessante a fotografia Pond-Moonlight que, na quarta-feira passada, atingiu o novo recorde da fotografia mais cara do mundo . E não é a única composição deste autor em que as silhuetas de árvores assumem um papel essencial.
Entretanto fiquei também agradavelmente surpreendida (a ignorância proporciona-nos destas surpresas) quando descobri que Edward Steichen foi o responsável por "The Family of Man" , exposição no Museu de Modern Art, em 1955 - que está na origem do maravilhoso e comovente livro homónimo, um dos favoritos da minha adolescência. Como nos conta Carter B. Horsley , Steichen considerava ser essa exposição de fotografia a sua obra mais conseguida:

«During his long career, he not only excelled in many different genres, creating masterpieces in all, but he also was exceedingly influential as a curator of photography at the Museum of Modern Art and as a fashion and celebrity photographer for Vogue and Vanity Fair magazines in the 1920's and 1930's and he also was an important adviser to the U. S. military in documentary photography during both World Wars.
"The Flatiron," by Edward Steichen, 1904
To many, his greatest achievements, of course, are his early Tonalist works, which were very important in elevating photography into a fine art form, and his celebrity portraits that stylistically used strong shadows and unusual angles to highlight his subjects and would have enormous influence on all subsequent fashion and art photography. Steichen, however, considered his greatest achievement his mounting of "The Family of Man" photography exhibition at the Museum of Modern Art in 1955.» (...)

«"Steichen's richly toned, evocative photographs reflected the yearning in the early years of the twentieth century to escape from the crass materialism and rationality of the everyday world into a space of quiet meditation. Pessimism in the late nineteenth century about traditional religions and technological progress had given rise to an almost spiritual belief in intuition and the creative possibilities of the individual. Many artists turned to intense, private experience for subject matter, embracing the transient imagery of dreams and the luminous mysteries of nature. The result was an art of withdrawal and detachment from the rational world, an art that eschewed precision in favor of mystery, reason in favor of reverie. The elusive, expression of dreamlike moods which Steichen achieved by exploiting softly nuanced, shallow space echoed the sensibility of British Aestheticism and of French Symbolism - movements which other Pictorial photographers also used as models for the portrayal of subjective, metaphysical truths,"» in Edward Steichen de Barbara Haskell (Whitney Museum of American Art) citada por Carter B. Horsley aqui

16.2.06

"Augusto Leal de Gouveia Pinto"


Foto: pva 0602

De ascendência ilustre - a mãe é a famosa "Mathotiana Rubra", de vistosas flores encarnadas - e nascida, corria o ano de 1953, em berço de ouro - no famoso viveiro portuense de Alfredo Moreira da Silva & Filhos - esta camélia, de seu nome "Augusto Leal de Gouveia Pinto", estava predestinada a grandes feitos. As suas flores, tais como as da mãe, são grandes e dobradas, com as sucessivas camadas de pétalas abrindo-se num arranjo de simetria perfeita; mas, em lugar do vermelho tinto uniforme da "Mathotiana", as pétalas exibem uma suave gradação rosa-lilás, rendilhada por venação mais escura e rematada por bordadura branca.

A "Augusto Leal de Gouveia Pinto" é a nossa eleita como Imperatriz das Camélias - pois, sendo já toda e qualquer camélia rainha do Inverno, a mais bela não podia ser menos que imperatriz. Quando pela primeira vez a admirámos ainda ela para nós uma camélia anónima, e nem a sabíamos portuense de origem; mas logo foi evidente que o título honorífico lhe pertencia de direito. E, para aniquilar de vez a suspeita de bairrismo nesta distinção, quando na verdade qualquer juiz imparcial a corroboraria, saiba-se que a "Augusto Leal" foi uma das 200 plantas notáveis (e uma das duas únicas camélias) escolhidas em 2004 por uma comissão de peritos da Royal Horticultural Society para celebrar o bicentenário da instituição.

Como é de regra com todos os portugueses (e portuguesas) que vencem lá fora, está na hora de a Pátria reconhecer pressurosamente o excelso mérito desta camélia portuense. Há o óbice de ela ser difícil de encontrar nos viveiros (nem sequer a firma Moreira da Silva a tem à venda); mas quem simplesmente a quiser admirar pode fazê-lo em muitos dos nossos jardins: no Palácio de Cristal (no canteiro à esquerda da entrada); na Casa das Artes (onde a foto em cima foi tirada); no Parque de São Roque (junto à casa); no jardim da Fundação Eng. António de Almeida; e no Parque de Serralves (jardim central).

A natureza, obedecendo ao sábio preceito de guardar o melhor bocado para o fim, determinou que a floração da Imperatriz das Camélias fosse tardia: começa em Fevereiro, quando outras variedades já encerraram a temporada, e prolonga-se até Abril.

14.2.06

Amarela por dentro e por fora


Foto: pva 0602

Nesta altura do ano os arbustos da espécie Mahonia japonica parecem ter sido toureados com bandarilhas amarelas. Afinal são as inflorescências erectas e densas, com numerosas flores amarelas muito perfumadas, arredondadas como cálices, que estão na origem deste pesadelo momentâneo. Certo é que as abelhas, de vista mais fina, não se deixam equivocar e até participam na formação dos frutos comestíveis, sumarentos e azuis. Arbusto de folha perene (composta, pinada com 3 a 41 folíolos, coriácea e de margens dentadas e espinhosas como a do azevinho), é resistente ao frio e por isso muito usado como protecção no bordo dos jardins.

O género Mahonia, da família Berberidaceae, reúne cerca de 100 espécies nativas dos Himalaias, Japão, Sumatra, América do Norte e América Central. Deve o nome ao botânico irlandês, depois norte-americano, Bernard McMahon (1775-1816), autor do primeiro catálogo americano de sementes e cujo guião de jardinagem, The American Gardner´s Calendar, de 1806, com 648 páginas e inspirado em obras inglesas de teor semelhante - dando mês a mês instruções precisas de horticultura e paisagismo - teve tal popularidade que conheceu onze edições até 1857.

A madeira da mahonia é também amarela.

13.2.06

A magnólia do dia


Foto: pva 0602 - magnólia no Palácio de Cristal

É de facto a magnólia branca, e não a senhora no seu pedestal, que queremos mostrar aos nossos leitores. Apesar deste tempo desatinado em que todas as estações se confundem, tentamos respeitar o calendário; e, não sendo ainda chegada a estação dessa senhora, não lhe são devidas desculpas pela desconsideração. Esta é a altura de refazermos o percurso pelas magnólias da cidade: a cada ano tudo se repete, e é sempre novo.

12.2.06

Pinheiro manso "desclassificado"- Gaia

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Pinheiro manso (Pinus pinea)
- altura total: 21 m - P.A.P.: 3,5 m - diâmetro da copa: 18 m
- idade provável: centenária
- localização: Av. da República (gaveto com a rua D. Pedro V), freguesia de Mafamude, concelho de Vila Nova de Gaia
- "Árvore de porte elevado que serve de referencial a esta zona da cidade"
- classificada em 25-Janeiro-1993
In Árvores isoladas, maciços e alamedas de Interesse Público, 1995 -Instituto Florestal, DGRF
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-"desclassificada" em ???
-abatida em???

(resposta à pergunta que Bruno santos deixou aqui)

Cancioneiro popular -freixo

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Deixa-m' ir, que vou com pressa
Ao freixo tirar um ninho.
Está o freixo a quebrar
C'o peso do passarinho.

Quando o sol chegar a dar
Na c'roa do alto freixo
Então saberás amor
A razão por qu'eu te deixo.

Cancioneiro Popular de Vila-Real, Augusto C. Pires de Lima (CPVR/APL)
Edição Maranus, 1928


Foto: freixo- Rua António Cardoso-Porto, Janeiro 2006

11.2.06

Branca e feliz no seu abandono


Foto: pva 0602 - magnólia na rua Guilherme Braga, Porto

O título ao estilo das revistas do coração serve para introduzir a verdadeira história de um abandono feliz. Na mesma rua do bairro do Campo Alegre onde, no terreno de uma casa abandonada, esta magnólia expande livremente o seu vestido branco, outras magnólias suas vizinhas vivem em jardins com relva impecavelmente aparada; e, por terem dono e beneficiarem dos cuidados de quem se diz jardineiro, pagam o devido preço em podas mal feitas que só lhes subtraem encanto. Feliz pois a árvore sem eira nem beira por estar a salvo das atenções desses desastrados operadores de motosserra.

10.2.06

De vez em quando uma boa notícia


Foto: pva 0506 - Rhododendron sp.

Os jornais deram-nos conta esta semana da descoberta de várias espécies animais e botânicas - incluindo cinco novas palmeiras e um rododendro com vistosas flores brancas - nas montanhas de Foja, Nova Guiné, lugar de floresta quase inacessível onde a equipa de exploradores foi largada de helicóptero. O que de mais semelhante ao paraíso existe hoje no planeta.

9.2.06

A não perder...

porque vale a pena reflectir sobre o que se está a passar:

HOJE -Quinta-feira às 17:30 - A "requalificação" da Avenida e da Praça na RTPN
Repetiçao do programa BIOSFERA

«As chamadas requalificações urbanas não deixam de suscitar debate, polémica e mesmo protestos. É o caso da actual requalificação da Baixa do Porto. Neste momento o projecto já está consumado no plano das decisões e as obras caminham para uma irremediável conclusão. Defensores e opositores do projecto falaram com a Biosfera.
Este é o tema que lhe propomos para hoje.»


(imagens do programa BIOSFERA)
Para além dos Aliados e da Praça, é também abordado o caso do Bolhão e o problema da requalificação da Baixa do Porto em geral.

NB: Pode ler algumas das declarações de Teresa Andresen -aqui e de Rui Rio- aqui e aqui.
Os mestres também foram convidados mas não mostraram disponibilidade.

8.2.06

Estacionamento comestível



Têm sido desencontradas as notícias sobre a sorte do Jardim Soares dos Reis, um dos dois únicos jardins públicos existentes no centro urbano de Vila Nova de Gaia (o outro é o Jardim do Morro). Garantido é que pelo menos até final de 2006, enquanto prossegue a construção do túnel rodoviário que completa a IC23, o jardim está convertido em estaleiro e vedado ao usufruto público. É triste sinal de menosprezo pelos jardins públicos este uso como estaleiros de obras que nada têm a ver com a sua vocação. A razão para tal procedimento, que nos últimos anos ganhou carácter epidémico, é que os jardins são terreno municipal e a sua ocupação não onera as autarquias. Mas a degradação da paisagem urbana e a perda de qualidade de vida enquanto duram essas expropriações deveriam pesar bem mais na balança de quem pondera custos e benefícios. E, no que toca às obras agora em curso, a situação agrava-se com as denúncias de achados arqueológicos no subsolo do jardim que não terão sido devidamente valorizados e protegidos.

Entretanto, soube-se há dias que, no final das obras, com a reorganização do trânsito em seu redor, o jardim crescerá cerca de 2400 m^2. Uma indiscutível boa notícia, para mais apresentada com declarações que só podemos saudar, como esta do Presidente da Câmara gaiense: «O impacto que o último troço do IC23 vai criar, com a passagem de 70 mil carros por dia, teria de ser minorado com algo de qualidade que sirva a cidade e evite que espaços públicos se transformem em locais de marginalidade.»

Só que, embrulhada na boa notícia, vinha a desagradável promessa de construir um parque de estacionamento sob o jardim; e igualmente foi divulgada, há tempos, a intenção da Câmara de construir estacionamento subterrâneo no Jardim do Morro. Ora sabe-se que, por muitos cuidados que se tenham nessas empreitadas (e a regra é nem haver tais cuidados), os jardins sofrerão sempre graves amputações; e que as condições vegetativas das árvores nunca serão as mesmas se, no subsolo, houver uma placa de betão em vez de terra viva e permeável. De pouco vale a prometida ampliação do Soares dos Reis se entretanto as árvores tiverem sido abatidas ou seriamente debilitadas. Um jardim não se faz à pressa, nem se confunde com uma superfície arrelvada camuflando uma laje de cimento: é antes o resultado de um processo de crescimento e maturação que dura décadas, e que obras insensatas como estas, feitas em prol do já sufocante domínio do automóvel no espaço público urbano, ameaçam desbaratar brutalmente.

Ontem os jornais noticiaram que o lançamento do concurso para a construção e exploração do estacionamento no Soares dos Reis foi aprovado pelo executivo camarário gaiense. Ilda Figueiredo, honra lhe seja feita, quebrou a unanimidade da vereação ao alertar para o que na verdade está em causa: «o equipamento terá impactos fortes negativos num dos poucos jardins dignos desse nome, em Gaia».

A mentalidade dos restantes vereadores é lapidarmente resumida por um deles, Barbosa Ribeiro, quando declara (segundo o jornal Público) que a zona de Soares dos Reis «precisa de estacionamento como de pão para a boca». Tomáramos nós ouvir o político que dissesse, com muito mais acerto, que Gaia precisa de jardins como de ar para os pulmões.


Fotos: pva 0504

7.2.06

A árvore e o homem

«Glória aos fotógrafos, a essa objectiva humilde que vai visitar as árvores na mata, no jardim público ou à beira da estrada, e delas recolhe a imagem menos imperfeita, porque menos individualista - árvore em estado de árvore. Não me achando em condições de possuir um sítio, nem mesmo uma araucária particular, incompatível com as dimensões do metro quadrado em que resido, eu (e aqui sou João, Leovigildo, Heitor, homem urbano em geral) consolo-me contemplando algumas fotografias de olmos, faias, eucaliptos, jequitibás, espécies resinosas e essências. Amo vê-las em grupo ou isoladas, oferecendo à pressão do vento a massa compacta de folhagem; reflectindo, interceptando ou matizando os raios solares que tentam penetrá-las; lavando-se à beira da corrente, em sincera solidão; ou ainda contrastando com os frágeis monumentos de pedra, tijolo e cimento, que chamamos de casas, e que é tão raro não "sobrarem" na natureza; e até mesmo esparsas entre esses outros monumentos, os mais frágeis de todos, de nervos e vasos sanguíneos, que chamamos homens, e tampouco sabem integrar-se no conjunto natural onde folhas, raízes, insetos e ventos se organizam sem política.»

Carlos Drummond de Andrade, Passeios na Ilha (1952)


Foto: 0509 - Araucaria bidwillii no Buçaco

6.2.06

"Será a poda um crime?"

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«Isto é o que resta dos plátanos à saída de Alcantarilha para Armação de Pêra. Será que esta gente saberá o que está realmente a fazer? Há podas e podas... e esta parece demasiado radical, salvo melhor opinião.
O que é certo, e bom sinal dos tempos, é também serem cada vez mais estes assuntos motivo de tratamento mediático e por consequência de movimentos da insatisfação popular (refiro-me à notícia lida no Barlavento on-line*). (...)»
Continuar a ler no Saco dos desabafos

*Corte de árvores em Alcantarilha causa polémica- 3 de Fevereiro de 2006 )
Foto de barlavento - Jornal de Informação Regional do Algarve

Arquivado no Dias sem árvores

A Madrinha

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É um dos contos que mais gosto de ler na escola; da autoria de Leonel Neves conta a história de um velho ulmeiro que os habitantes de uma vila descobrem com grande alegria estar na origem do nome da sua terra: Mosqueiro. Tudo graças à visita de um velho sábio, o doutor Pafúncio da Silva, que aproveitara a sua estadia nas termas da vizinhança para visitar a velha árvore de que tinha ouvido falar.

«(...) Esteve mais de dez minutos a andar à roda da árvore, a olhar para ela, muito calado, e por fim disse:
- É um belo ulmeiro, talvez o maior ulmeiro português. Devia ser considerado monumento nacional. E deu o nome à tua vila, como sabes.
O senhor Presidente da Câmara, que tinha sido colega do sábio na Universidade de Coimbra e o levara junto da árvore, ficou de boca aberta e gaguejou:
- O... quê?
- Ulmeiro... mosqueiro --disse o doutor Pafúncio.
- Estás a perceber?
- Não - respondeu o sr. Presidente. - Ora explica lá isso.
E o sábio, que sabia tudo de árvores, explicou:
- Ulmeiro ou ulmo é o mesmo que olmo ou olmeiro. Mas também pode ter outros nomes: negrilho, lamegueiro ou... mosqueiro. Se não acreditas, vai ver a um bom dicionário. Com certeza esta árvore, há algumas centenas de anos, é que deu o nome a esta vila. Donde julgavas tu que vinha o nome da tua terra?
- Eu... eu... E achas que isto é um monumento nacional? - perguntou o senhor Presidente.
- Devia ser - respondeu o sábio. - Mas, pelo menos, é de interesse público, o que quer dizer que, sendo como é uma árvore tão antiga, tão alta e tão bonita, ninguém lhe pode fazer mal. ninguém a pode cortar. É da lei! Encontras tudo isso num decreto publicado há muitos anos no «Diário do Governo» (agora «Diário da República»). (...)»
Leonel NEVES, in O cão, o gato e a árvore

O resto da história ... bem não vou ser desmancha-prazeres e contar o fim; só adianto que acaba muito bem.

Agora, qual a razão dos nomes negrilho e mosqueiro para o ulmeiro? Terão algo a ver com a doença que os afecta -provocada por um fungo e com os insectos nocivos associados a esta árvore, Pyrrhalta luteola e Scolutus multistriatus (este último transmissor da grafiose) ?

5.2.06

A última Primavera

Da meia-dúzia de árvores que sobreviveram à construção da nova Faculdade de Ciências do Porto, iniciada na década de 1990, este par de ulmeiros - que bem pode ser uma única árvore com dois troncos - é o que mais bem combina com as linhas do edifício, formando, com as camélias à sua frente, um esbelto mas assimétrico arco que acolhe quem entra no recinto pela rua das Estrelas. Um arco que, receio-o, não se vai recobrir de verde na próxima Primavera, pois, atingidas talvez pela terrível doença que, desde meados do século passado, tem dizimado os ulmeiros em toda a Europa e América do Norte, as árvores parecem ter secado. Para outro exemplo aqui perto, em poucos anos morreram quase todos os ulmeiros numa cidade, Aveiro, onde eles eram das árvores mais comuns em jardins e arruamentos.

O verde pálido e esparso que se observava nas árvores em Março de 2005, e que nem sequer ocultava os farrapos de nuvens, era formado, não pelas folhas então ainda por rebentar, mas pelos frutos quase translúcidos em forma de sâmara. Quando maduros, em Abril, os frutos ganhariam coloração acastanhada.

A doença dos ulmeiros já foi tema de filme: em As virgens suicidas (2000), filme de estreia de Sofia Coppola, são as árvores que, morrendo primeiro, mostram o caminho às cinco protagonistas. Mas às árvores como símbolos ou mensageiras prefiro as árvores testemunhadas por quem tem por elas verdadeira empatia, como W. G. Sebald (1944-2001), escritor alemão radicado em Inglaterra:

«Dutch elm desease spread from the south coast into Norfolk around 1975, and within the space of two or three summers there were no elms left alive in the vicinity. The six elm trees which had shaded the pond in our garden withered away in June 1978, just a few weeks after they unfolded their marvelous light green foliage for the last time. The virus spread through the root systems of entire avenues with unbelievable speed, causing capillaries to tighten and leading to the trees' dying of thirst. Even solitary trees were located with infallible accuracy by the airborne beetles which spread the disease. One of the most perfect trees I have ever seen was an almost two-hundred-year-old elm that stood on its own in a field not far from our house. About one hundred feet tall, it filled an imense space. I recall that, after most of the elm trees in the area had succumbed, its countless, somewhat asymmetrical, finely serrated leaves would sway in the breeze as if the scourge which had obliterated its entire kind would pass it by without a trace; and I also recall that barely a fortnight later all these apparently invincible leaves were brown and curled up, and dust before the autumn came.»

The Rings of Saturn (1995; trad. Michael Hulse 1998)

4.2.06

Beijos-de-frade


Foto: pva 0512 - Oxalis purpurea no Parque de São Roque, Porto

Um dos muros soalheiros do Parque de S. Roque estava há umas semanas coberto por uma herbácea em flor, com folhas compostas trifoliadas com o formato típico de trevo, num vestir tão espontâneo que nos pareceu portuguesa esta ervinha.

Mas não: a Oxalis purpurea é de zonas tropicais, abundante na América do Sul e no sul de África, multiplicando-se facilmente por divisão dos bolbos ou por estacas. A flor é tubular, de pescoço amarelo, magenta nas pétalas que se dispõem como pás de ventoinha. As sementes têm um arilo insuflado que ao amadurecer se vira do avesso e as expele como num jacto, ajudando assim à sua dispersão.

O género Oxalis reúne mais de 700 espécies de ervas e subarbustos, algumas suculentas ou aquáticas, uma das quais é o trevo-da-sorte, o de quatro folíolos. A família Oxalidaceae abriga também a espécie Averrhoa carambola que dá os conhecidos frutos dourados, cerosos, de secção estrelada - que se podem apreciar numa natureza-morta da exposição Artistas Viajantes e o Brasil do Século XIX, patente no Museu Soares dos Reis, que junta harmoniosamente uma jaca, carambolas, goiabas, anonas, pitangas...

O termo Oxalis deriva do grego oksalís, aludindo ao sabor azedo das folhas induzido pelo oxalato que contêm.

3.2.06

Descoberta do dia

. Botany Photo of the Day - "a daily photo weblog run by the staff at the University of British Columbia Botanical Garden"
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A reler: 5 ideias falsas sobre as "podas" radicais ou rolagens

O podão do hospital

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Circunvalação- Rolagem em eucaliptos (e sobreiro) no Hospital Magalhães Lemos (Porto)

Pergunto a mim mesma o que pensarão as pessoas que diariamente passam pelo Hospital Magalhães Lemos. Os que lá trabalham, os que precisam de lá ir por motivos de saúde, os que como eu simplesmente passam. Será que reparam, que se espantam? Acharão normal, aceitável? Sentir-se-ão de algum modo afectados?
Alguém pedirá contas ao ignorante* que fez este serviço? Será o mesmo que anteriormente decepou o sobreiro que se vê na foto do lado esquerdo? Ou a insensibilidade e a ignorância de quem encomentou e de quem executou são do mesmo calibre?
Infelizmente é apenas mais um caso para o Dias sem árvores- lá ficará registado.

(*Ia usar o termo besta mas confirmei aqui que é mesmo insulto assim como todos os seus sinónimos...)

1.2.06

Fala, amendoeira

«Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.

Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios eléctricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe o tronco. Nenhum desses incómodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.

Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois a qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam o seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador do seu azedinho. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:

- Não vês? Começo a outonear. É 21 de Março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono.Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.

- E vais outoneando sozinha?

- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.

- Somos todos assim.

- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exactamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

- Não me entristeças.

- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho.»

Carlos Drummond de Andrade - Fala, amendoeira (1957)