30.6.06

Cambarinho (2.ª parte)



É altura de abandonarmos a contemplação em que há dias nos detivemos, e de ascendermos ao cume da reserva do Cambarinho. Os dois jovens carvalhos em primeiro plano na foto, formando um portal que se abre para o maciço de rododendros à direita, são primos afastados um do outro, pertencentes a espécies diferentes do género Quercus. O da esquerda, de folhagem mais escura, é um carvalho-roble; o da direita um carvalho-negral. Passando os dedos pela folhagem de um e de outro notamos as diferentes texturas: glabra a do primeiro, penugenta como veludo a do segundo. Também no recorte as folhas se distinguem, mais sulcadas as do carvalho-negral que as do roble.

O passadiço de madeira que na foto se entrevê à esquerda acompanha os rododendros nos primeiros cento e tantos metros da descida; mas logo se interrompe quando o declive se acentua e o terreno se torna mais acidentado. Ao fundo, desenrolada a serpentina até ao fim, somos obrigados a furar por uma caverna formada pelos arbustos, e a saltar o veio de água que ouvíamos cantar e por fim podemos tocar. Na semi-penumbra da caverna, duas ou três pedras formam uma pequena represa onde a água se tinge com o roxo das flores caídas.

29.6.06

Canção mínima

No mistério do Sem-Fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles, Vaga Música (1942)


Flores de Stokesia laevis

Provérbios- S. Pedro

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Pelo São Pedro vai ver o teu olivedo; se vires uma, conta um cento.
Até ao São Pedro, tem a vinha medo.
in "Provérbios de Junho" - Os provérbios populares na Rota do tempo

Imagens de
Olea europaea e de Vitis vinifera
in "Prof. Dr. Otto Wilhelm Thomé Flora von Deutschland Österreich und der Schweiz. -1885,Gera, Germany"
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28.6.06

"Santo de pau carunchoso"

.E
Expressão idiomática- explicação:
«Frase irónica aplicada a um menino travesso, traquinas ou a um indivíduo santarrão, manhoso, hipócrita.
Segundo nos dá notícia Luís da Câmara Cascudo,
Dicionário do Folclore Brasileiro (p.564 ), esta locução depreciativa está divulgada em todo o território brasileiro, na variante Santo de pau oco e explica: "As imagens de santos esculpidas em madeira, eram ocas, e vinham de Portugal cheias de dinheiro falso".»

Gente de Portugal: sua linguagem, seus costumes /Alexandre de Carvalho Costa. - Portalegre : Assembleia Distrital, 1981. (Vol. I, tomo 3 , p.153 )

27.6.06

O último carvalho


Quercus pyrenaica

Foi no primeiro domingo de Junho, sob um calor de sauna que desmentia a Primavera do calendário, que visitámos a reserva do Cambarinho. O coração da reserva é uma serpentina de rododendros salpicada de roxo que, ocultando o fio de água rumorejante de que se alimenta, se desenrola entre rochas até ao fundo de um vale; mas antes de lá chegarmos subimos um largo caminho pedregoso entre densos eucaliptais. O que se vê nesse quilómetro inicial do percurso é uma paisagem degradada, em que a vegetação rasteira se compõe exclusivamente de fetos que em breve se irão transmudar em combustível perigosamente inflamável. Quando se há-de fazer jus ao estatuto de reserva botânica desta mata, eliminando-se os eucaliptos que vão erodindo o solo e promovendo-se uma reflorestação séria? Mas, a uma dezena de metros do lado direito do nosso caminho, espreitava-nos uma relíquia daquilo que este lugar terá sido noutras eras: um possante carvalho-negral (Quercus pyrenaica) estendendo os seus longos braços retorcidos como quem tenta sacudir o assédio dos eucaliptos. É o último do seu clã num raio de muitas dezenas de metros: nas bordas do caminho plantaram-se alguns carvalhos-robles (Quercus robur) que medram com dificuldade na terra empobrecida, mas só reencontramos carvalhos-negrais mais acima, já perto dos rododendros. Terminado o espectáculo dos rododendros em flor, esta árvore justifica por si só uma visita ao Cambarinho; por isso a deixamos hoje sozinha em palco.

26.6.06

Dobram as campânulas

A notícia, um pouco atrasada, mereceu primeira página no caderno Local Porto do Público de ontem: a Quinta de Villar d'Allen acaba de ser classificada pelo IPPAR como imóvel de interesse público. Protege-se deste modo a relíquia que constituem os seus jardins, recheados de variedades portuguesas de camélias, e a mata, refúgio de numerosas espécies ali plantadas por Alfredo Allen no que hoje constitui uma colecção de preciosidades botânicas. Aqui moram, por exemplo, exemplares raros de palmeiras Jubaea chilensis, as Araucarias bidwillii mais elegantes que conhecemos e até uma avantajada Agathis.



Na nossa mais recente visita fomos recebidos à entrada por um renque de Campanula portenschlagiana com flores azuis. Herbácea do hemisfério norte, aprecia o aconchego de velhos muros, e os de Villar d'Allen, agora reconhecidos como património, resguardam desde o século XIX um especial - diz-se até romântico - apreço por árvores e jardins.

25.6.06

Manjericos

... nas árvores

Manjerico -um dos símbolos do S. João

Oh! a raiva com que eu fico
Desse teu jeito de acaso.
Olhar preso ao manjerico
Mãos em festinhas ao vaso.

Por eu ser pobre e tu rico,
Não julgues que o mundo é teu:
Se tu tens o manjerico
Quem tem o vaso sou eu.

Quadras que ficaram respectivamente em 5º e 8º lugar na 78ª edição do Concurso deste ano promovido pelo Jonal de Notícias (ver Quadras de S. João- sobre este concurso no Fonte das Virtudes).

A ler: A excelência de uma invenção - Entrevista a Helder Pacheco sobre o S. João no Porto
(por Maria José Guedes n' O Primeiro de Janeiro)
«Todas as tradições são, afinal, invenções que se repetem ao longo dos tempos, e o S. João não é excepção. A festa das festas da cidade do Porto que continua a mobilizar milhares de pessoas nasceu, conta Fernão Lopes, nos finais do séc. XIV, quando D. João I visitou a Invicta, no dia de S. João, e a cidade, toda ela se engalanou...»

24.6.06

Foguetes de água doce


Typha domingensis

23.6.06

"Para se ter boa fortuna..."

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«Na noite de S. João borrifa-se o azevinho com vinho que se leva numa garrafa.
Depois à meia-noite vai-se colher e diz-se:
Azevinho, meu menino,
Aqui te venho colher
Para que me dês boa fortuna
No comprar e no vender.
Em seguida leva-se para casa, para se ter boa fortuna. (Lavadores)

A "laranja par dar fortuna" há-de ser colhida à meia-noite do dia de S. João ou do primeiro de Janeiro. A pessoa que desejar possuí-la, pega nela, vira-se para Nascente e diz:
Laranjinha redondinha
Cortada por minha mão;
Dai-me fortuna
No comprar e no vender,
E em tudo o que eu pretender. (Fafe) »


Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e outros escritos etnográficos, Consiglieri Pedroso (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988)

Sugestão

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Ida à






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A cção, L iberdade, D esenvolvimento, E ducação, I nvestigação, A mbiente

22.6.06

CCDRN: o gosto de proibir

Se há tique que caracterize os responsáveis pelos organismos públicos em Portugal é a tentação de privatizar em seu proveito aquilo que deveria estar à disposição de todos; a isso se acrescenta a convicção, partilhada pelos índios das histórias aos quadradinhos, de que quem fotografa o que é nosso nos está a roubar um pedaço da alma. Assim, a solene proibição de fotografar (mesmo sem flash) é o mínimo que podemos esperar em museu, cemitério ou mesmo algum inocente jardim à guarda de tão ciosos zeladores.

Não é pois inesperado que, no cemitério de Agramonte, na Casa de Ramalde ou na sede da CCDRN (à rua da Rainha D. Estefânia), qualquer visitante munido de equipamento fotográfico seja de imediato travado pelos vigilantes de serviço. Compreende-se, pois os sujeitos cumprem ordens e são pagos para defenderem a alma dos lugares. Mas, desde que abdiquemos de usar o equipamento ofensivo, podemos (ou podíamos) passear à vontade nesses locais; olhá-los não nos é (ou era) interdito.

Hoje, porém, tive conhecimento de uma novidade. O guarda de plantão impediu-me de visitar o jardim da CCDRN, o que é na verdade estranho, pois na sede desse organismo funciona, entre outros serviços abertos ao público, uma biblioteca à qual o acesso se faz pelo jardim. Mas eu, admito-o, não me dirigia à biblioteca: queria apenas ir ao jardim, observar de perto uma árvore em flor que avistei por cima do muro. Não o pude fazer, pois agora o guarda tem instruções para impedir que os visitantes passeiem no jardim.

Talvez a CCDRN tenha vergonha em mostrar o histórico jardim que transformou em caótico parque de estacionamento; talvez o guarda não esteja habituado a respeitar quem se dirija ao portão pelo seu pé em vez de o fazer ao volante de um automóvel; talvez os donos desses automóveis estejam preocupados com os danos que um visitante mal intencionado possa causar aos seus queridos quadrúpedes. Enfim, faço por compreender as razões da CCDRN, mas não posso aceitar que privatize, para (mau) uso exclusivo dos seus funcionários e dirigentes, um jardim que é propriedade pública e referência patrimonial da cidade.

(A mesma tentação privatizadora é notória no jardim da rua de António Cardoso, onde funcionou a Casa das Artes: desde que a CCDRN ocupou a antiga casa, metade do jardim está vedada ao público, e a outra metade só é acessível pela rua de Ruben A.)

Ó meu rico S. João

Pau rosa


Tipuana tipu

Enquanto a cidade se enfeita para os festejos do S. João, algumas árvores dão anonimamente o seu contributo em cor e copa. As tipuanas, leguminosas da subfamília Papilionoideae como revela a forma das flores, chegaram à Praça da Batalha com o granito da Porto 2001, que partilham com alguns exemplares de saúde débil de Gleditsia triacanthos. São resistentes e não precisam de muita água, por isso são ideais para ornamentar as nossas renovadas praças-tipo-eiras.

O género Tipuana, designação que deriva do nome indígena do rio boliviano Tipuani - em cujo vale, zona mineira e montanhosa, estas árvores são endémicas -, inclui uma única espécie sul-americana (do Brasil, Argentina e Bolívia), a Tipuana tipu. As folhas são pinadas, perenes, verde-azuladas, com hábito pendente que lhe dá um jeito de guarda-sol e garante abençoada sombra. Têm a peculiaridade de cada par de folíolos opostos fazer um ângulo como as duas bandas de um telhado. As flores cor de pêssego, de pétalas enrugadas com um veio central cor de ferrugem, lembram borboletas. Os frutos são vagens semelhantes a sâmaras de uma só asa, num gesto bem-vindo de economia de meios. A madeira tem um leve tom rosa e, ao que dizem, é boa para carpintaria.

21.6.06

Os nomes das árvores - Metrosideros



Metrosideros excelsa- Av. Montevideu (Classificados de Interesse Público em Janeiro de 2005)

À semelhança das araucárias, das camélias e dos liquidâmbares, por exemplo, os metrosíderos são árvores cujo nome vulgar deriva directamente da designação científica do género, Metrosideros.
Este foi estabelecido por Joseph Banks (1743-1820) naturalista inglês e grande mecenas da ciência que participou na primeira viagem de James Cook ao Sul do Pacífico a bordo do Endeavour, considerada a primeira expedição dedicada a fins exclusivamente científicos. Organizada em 1768 sob os auspícios da Royal Society, passou primeiro pela América do Sul e seguiu depois para a Nova Zelândia e Austrália.

A equipa científica que J. Banks reuniu era constituída por voluntários possuidores de conhecimentos de botânica e zoologia e incluía dois pintores ilustradores que, segundo os relatos, não tinham mãos a medir, sem tempo sequer para colorir as ilustrações do material recolhido, deixando por vezes apenas as indicações das cores. (ver Ilustrações Botânicas da Expedição)
O herbário, constituído ao longo dos quase quatro anos que durou a viagem, constava de nada menos do que 1300 novas espécies e 110 novos géneros, número em que incluía o género Metrosideros. A designação alude a uma das principais características destas árvores (e arbustos): a dureza da sua madeira, semelhante ao ferro -sideros, em grego; com o primeiro elemento do nome- metro, do grego metra, útero- a transmitir a ideia de meio, interior.
Os metrosíderos pertencem à extensa família das Mirtáceas*, onde igualmente se incluem os eucaliptos, as melaleucas, os calistemon, as murtas, etc.. Há cerca de 20 espécies de metrosíderos, onze das quais são originárias da Nova Zelândia. Em Portugal os mais comuns são os Metrosideros excelsa, sendo este último termo, referente à espécie, indicativo do porte que a árvore pode atingir em plena maturidade: acima dos 20 metros de altura, com copas de mais de 30 metros de diâmetro. A designação sinónima de Metrosideros tomentosa que esta espécie ainda assume em alguma literatura, alude à característica lanugem branca que recobre a página inferior das folhas.

Na Nova Zelândia mantem-se o costume de também se chamarem as árvores pelo seu nome indígena, neste caso "pohutukawa", o que significa em linguagen maori, "salpicada pelo mar". Com efeito estes metrosíderos adaptam-se aos solos mais inóspitos e resistem ao sal dos ventos marítimos e da água do oceano, conseguindo crescer nas falésias rochosas, deixando então pender as suas características raizes aéreas sobre o mar. Em condições extremas não ultrapassam o estado arbustivo, com pouco mais de um metro de altura, não deixando no entanto de florir abundantemente.
Esta espectacular floração dá-se, no Sul do Pacífico, entre Novembro e Janeiro, o que levou os primeiros colonos ocidentais, nostálgicos das cores tradicionais do azevinho na época natalícia, a usarem os ramos floridos de vermelho destas árvores para enfeitarem as suas casas. Desde então, esta espécie, juntamente com mais três outras espécies de metrosíderos (M. robusta, M. umbellata e M. bartlettii), são, no seu país de origem, também chamadas simplesmente "árvore de Natal", sendo conhecidas nos outros países por "árvore de Natal da Nova Zelândia".
Estas árvores são actualmente consideradas invasoras, por exemplo na África do Sul, enquanto que, por ironia do destino, no seu país de origem estão ameaçadas em certas zonas por uns pequenos mamíferos marsupiais (Trichosurus vulpecula). (Ver a propósito o Project Crimson- "a charitable conservation Trust that aims to protect New Zealand's native Christmas trees - pohutukawa and rata").
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*Mirtáceas no Dias com Árvores

20.6.06

Os metrosíderos do Castelo do Queijo


Metrosideros excelsa

Quem os plantou não sabia que a mão de Deus ali estava.
Quantos anos se esperou por aquele deslumbramento?
Quantas gerações ali foram aguardando o milagre da Natureza?
Ninguém sabe? nem é preciso!
O importante é o presente que nos pertence e o privilégio de o vivermos.
Passar lá com sol, é enfiar os olhos no verde meio claro da ramagem que a luz viva embrulha!
Olhar as folhas com a luz rouca e cinzenta da chuva é também um espanto!
Quando paramos para ouvir a música do vento fustigando as folhas (seja ele norte ou suão), nasce um concerto de luz e de dança deslumbrante.
São árvores? Não! São arbustos centenários que o tempo agigantou com uma imensidão de altura e uma copa enorme e densa impossível de medir.
Mas com o vento suão e a chuva a acompanhar, os ramos cantam e?
Choram acompanhados pelas gotinhas de água caindo.
Os metrosíderos do Castelo do Queijo são mesmo inexplicáveis. Nasceram para as gentes que passam.
Entendê-los? Só o tempo o consegue!
Primeiro manda-lhe um verde perene e variado. Porque a folha pela frente é mais viva e tem mais cor, mas pelo avesso é esbranquiçada. E assim fica linda e espessa com o passar das estações.
Mas quando o Verão se aproxima vamos lá para espreitar o que está a preparara-se.
Um dia nada se vê; depois o botão verde começa a chegar, e com o tempo vai-se abrindo até nos trazer uns fios rubros que afinal são a flor. De longe vêem-se aqueles chapeletes bem vermelhos deslumbrando quem olha e quem vê!
O Verão chegou! E os metrosíderos acharam pouco mostrar o seu porte enorme e lindo, e quiseram dar-nos aquele espectáculo que une a Terra ao Céu. A maravilha daquelas manchas extraordinárias aconchega-se em nós até ao próximo Verão. Quase não é preciso esperar porque aquele espectáculo da Natureza se enraíza na nossa alma e a imagem ao vivo volta intermitentemente pela mão da nossa imaginação.


Maria de Sousa
Passeio Alegre, Junho de 2006
(texto enviado por Ana Aguiar)

19.6.06

Escrito no muro

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Buganvília e jacarandá em flor na rua de Álvares Cabral (Porto)
"Tanta pressa...para quê?"

18.6.06

Factura de 2001



Autor de romances históricos que hoje poucos lêem, o portuense Arnaldo Gama (1828-1869) tem mesmo assim direito, na sua cidade natal, a dar nome ao jardim onde figura em estátua de corpo inteiro. Mão de bronze no queixo de bronze, não sabemos se observa os transeuntes com curiosidade benévola ou se, alheado, cogita romance que nunca há-de escrever. Talvez pense que o seu Jardim Arnaldo Gama, ali junto à muralha, tem desde 2001 muito pouco que encha o olho; em rigor, melhor seria chamar-lhe Relvado Arnaldo Gama. Um alinhamento de dez grandes ciprestes que corria paralelamente à muralha foi arrancado pela Porto 2001 para se enterrar o inútil e caríssimo elevador dos Guindais; canteiros e árvores deram lugar à monotonia estéril da relva. Cingidos à muralha como quem busca protecção, cinco cedros escaparam à motosserra. Mas, ainda que ficassem de pé, o trabalho insidioso das escavadoras minou-os na base, amputando-lhes raízes e condenando-os a prazo. Já morreram dois cedros e um terceiro está por um fio: eis a factura de 2001 que, na cidade de Arnaldo Gama, ainda estamos a pagar.

Publicado também no Dias sem Árvores

17.6.06

Tisana 83.ª

Era uma vez um mono-asa. Como era mono-asa só podia voar numa direcção. Mas a generosa natureza tinha tomado as suas providências e assim ao mono-asa não importava nada saber para onde ia ou donde vinha. Por isso a sua asa tinha o aspecto duma barbatana e a maior parte das vezes servia-lhe de leque.

Ana Hatherly, 63 Tisanas (1973)



Tisanas de flores de tília (fotos mdlramos)

16.6.06

Colhendo a flor de tília

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As flores da tília são branco-amareladas, em grupos de 5 a 10 num pedúnculo comum soldado a meio de uma bráctea; têm 5 sépalas, 5 pétalas e numerosos estames. A floração não dura muito tempo, por isso as flores se dizem efémeras: colhem-se da árvore durante o mês de Junho, mais cedo ou mais tarde conforme a região, devendo ser secas à sombra e conservar-se longe da luz e do ar.


Fotos: Ramalde- Junho 2005
Faça chuva ou faça sol, esta tília é a única imagem de ordem no triângulo 'desajardinado' e no passeio, ambos selvaticamente invadidos pelos carros. De ordem e de conforto.
Este ano, as flores dos ramos mais baixos já foram quase todas colhidas: presumo que por lá tenha passado a senhora que, no ano passado por esta altura, me confidenciou ter o hábito de todos os anos as colher enquanto espera pelo autocarro. Para fazer 'chá'.
A infusão das flores de tília continua a ser muito usada entre nós, devido ao seu sabor suave e às suas propriedades ligeiramente calmantes e diaforéticas. A França é um dos países com maior tradição no consumo de 'tisane de tilleul'.
Sobre estas e outras propriedades medicinais da planta: Herb Information, Linden , Lime tree ;
ver também Tilleul e Tilia (Wikipedia)

(Post a pedido de várias famílias ;-)

15.6.06

«Je dois certainement la vie aux plantes [...] tant que j'herborise, je ne suis pas malheureux [...]» Jean-Jacques Rousseau, 19 Dezembro 1768.
(fonte > ver § 266)

14.6.06

Visita ao Jardim Condessa de Lobão



Sábado, 1 de Julho, às 10h00
Organização
Campo Aberto
Participação limitada
Inscrições pelo endereço jardins@campoaberto.pt

Adenda às 21h00 de 15/VI/06: as inscrições já estão encerradas!

O Centro Condessa de Lobão, situado no gaveto da avenida da Boavista com a rua dos Belos Ares, é um organismo do Instituto de Segurança Social dedicado ao apoio e formação de deficientes. A casa, o jardim e estruturas adjacentes (coreto, moinhos de vento e estufa) datam do primeiro quartel do século XX e são moldadas por uma arquitectura de feição arte nova. Árvores de grande porte (plátanos, faias, cedros, carvalhos) sombreiam o lago e o coreto, mobilado com mesa e cadeiras de ferro forjado; nos canteiros que bordejam os caminhos distribuem-se magnólias, hibiscos, camélias, jacarandás, palmeiras e uma profusão de plantas ornamentais; igualmente de assinalar são o roseiral e o pomar. Todo o conjunto se encontra classificado pelo IPPAR como imóvel de interesse público desde 1982.

13.6.06

Eugénio de Andrade: a nossa pequena antologia -2

Duplo Retrato-Jorge Ulisses ©
Último poema
Com um pezinho na água
Poema com rosas
Em cada fruto a morte amadurece...
...no jardim do Passeio Alegre...
"O Copo de Água"
Extravasou do largo o jacarandá...
São coisas assim...
Ciência descobre a arma do crime
Escrito no muro
Flores para Eugénio
"Com os lódãos" - poesia
A uma cerejeira em flor
As Palmeiras
Antologia do Porto
Música da terra
O espírito do outono
Parque da cidade #1
Abate de áceres platanoides na avenida dos Aliados
Véspera do sol

(19 de Janeiro de 1923-13 de Junho de 2005)

Linho


Linum grandiflorum

Esta herbácea pequenina, de folhas lanceoladas e flores exuberantes com cinco pétalas em espiral, é de uma família com longa história e tradição (Linaceae), que contém várias espécies endémicas da área mediterrânica.

A espécie da foto, Linum grandiflorum, que encontrámos em Maio no Parque de Vizela, é do norte de África e cultivada com fins ornamentais. A fibra de Linum usitatissimum - europeia, de flores brancas ou azuis - é usada há mais de dez mil anos para fabricar o linho, tecido nobre com que se envolveram as múmias egípcias e cuja produção só abrandou com a concorrência da indústria do algodão; das sementes fabrica-se, por um demorado processo de destilação, o óleo de linhaça, usado em massas e vernizes.

12.6.06

Tília- árvore histórica e lendária

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«Árvore sagrada das antigas civilizações germânicas, dotada de uma longevidade pouco vulgar, a tília, como o carvalho, é uma árvore histórica e lendária. Para Siegfried, herói dos Nibelungos desempenha o mesmo papel nefasto da mãe de Aquiles ao pousar a mão sobre o calcanhar do seu filho; efectivamente, Siegfried tornado invulnerável por um banho de sangue, morreu de uma ferida nas omoplatas, no local onde no momento do banho, se fixara uma pequena folha de tília.

Como o ulmeiro-campreste, a tília é uma imponente árvore venerada no centro das povoações e frequentemente plantada en renques nas áleas dos parques e jardins públicos. Até à 2ª Guerra-Mundial, a cidade de Berlim orgulhou-se da sua Unter den Linden (Sob as Tílias), uma magnífica alameda de cerca de 1 km de extensão flanqueada por filas destas árvores seculares. »

In Segredos e Virtudes das Plantas Medicinais, Seleções do Reader' s Digest (Lisboa ,1983)

Foto: Tílias no jardim Casa das Artes- Porto 04.04
(Em breve: A metamorfose de Filira)

11.6.06

Tílias de uma vida

Roubaram a minha Tília
Hoje voltei a fazer um percurso que me era habitual e que há bastante tempo não fazia. Ao subir a Rua Álvares Cabral (Porto) já só pensava em ver a minha Tília, ali no alto da Rua, no Jardim da Praça da República. Era uma Tília Perfeita, um exemplar maravilhoso. Dei-a a conhecer às minhas filhas e a alguns dos meus netos. Eles já sabiam que aquela era uma das árvores da Avó. Um dia, com grande desgosto, mostrei-lhes a poda que tinha sofrido a minha Tília. Uma poda incompreensível pois, naquele sítio, os seus ramos não eram estorvo para ninguém. Mesmo assim, era uma Bela Árvore. Hoje estou de luto. Há muito que não passava por ali e estava ansiosa por voltar a ver a minha Tília. Nem queria acreditar!! Porque mataram a Tília? Porque roubaram a minha Tília??



Fotos manueladlramos: a Tília e o Carvalho de Lordelo do Ouro - Abril 2006
Não lhe façam mal!!
Há outra Tília que também é minha e faz parte dos meus percursos actuais. Fica em frente ao Ipanema (Lordelo do Ouro, Porto). Precisava no entanto que a libertassem de outros arbustos e árvores pequenas que a rodeiam. Então, ficaria ela só, a reinar em toda a sua beleza e esplendor. Não lhe façam mal!! Um pouco mais acima do Ipanema há um belíssimo carvalho (Quercus coccinea?). Também é meu. Os meus netos sabem-no bem. Nunca passam por ali indiferentes. Não lhe façam mal!!


Avó Mixu, 6 de Junho de 2006
(textos enviados por Ana Aguiar)
Mais tílias

10.6.06

Ventoinhas de flor



Trachelospermum jasminoides - Praça da Alegria, Porto

A família Apocynaceae abriga cerca de 360 géneros de herbáceas, arbustos ou árvores, quase todos com uso farmacêutico importante e floração espectacular, como a dos loendros que nesta altura dão cor aos separadores das auto-estradas.

As flores de algumas das espécies desta família têm corolas em trombeta e pétalas encurvadas como as pás duma hélice. Por isso quando nos deparámos com este arbusto desconfiámos do seu parentesco com o Nerium oleander e a Plumeria rubra. É um exemplar bem desenvolvido de Trachelospermum jasminoides, uma trepadeira chinesa com flores brancas de cinco pétalas recurvadas e de ponta serrada, e perfume a noz moscada. O epíteto específico relaciona-a com o jasmim, embora tenha flores de formato bem distinto.

Os frutos são longas vagens verdes, reunidas em pares formando charmosos bigodes-à-Dali; esperamos fotografá-los no Outono.

9.6.06

Acanthus cantabile

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Foi sem dúvida um dos pontos altos da tão badalada Festa de Serralves:
o espectáculo dos Acanthus ao pé do lago, ao som da Harpa Lacustre.

Estrelas consagradas na arte do paisagismo (e não só), estas "ervas-gigantes" davam aliás show
em outros locais do parque; aqui vemo-las num cenário particularmente bem conseguido, emoldurando
uma das fotografias da Exposição de exterior -"Parque Serralves 1940".
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8.6.06

O ambiente e os valores naturais - destruir ou preservar?

Sexta-feira, 9 de Junho (amanhã), às 21h30
Casa de Cultura de Paranhos
Debate com Helena Freitas, Paulo Talhadas Santos e Rui Sá

Organização Campo Aberto
(mais informações
aqui)

"Total ausência de afectos"

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«É uma tristeza muito grande e um enorme desalento por verificar que não houve nesta cidade uma veemente acção de rejeição àquele projecto. Parece-me que é um verdadeiro cataclismo urbano transformar a Avenida dos Aliados e a Praça da Liberdade numa área inóspita.
O que encontramos ali, pretensamente referendado por uma noção de modernidade, é a modernidade mais impessoal que grassa por esta Europa. A modernidade massificada, com falta de alma. Sinto, naquela praça, uma total ausência de afectos.»
Mário Cláudio (in Público Local- 8 de Junho) Ler mais
.

7.6.06

Tribunal

Somos nós os culpados do que somos.
E é de mim que me queixo.
Tão intensa foi sempre a minha voz,
que ninguém a entendeu.
Por isso, quanto mais água pedi,
Mais distante me vi
De cada fonte que me apeteceu.

E agora é tarde, já nem sede tenho.
Ou tenho-a como os cactos:
Eriçada de espinhos.
Olho de longe a bica tentadora,
Adivinho-lhe o gosto e a frescura,
E é de borco na areia abrasadora
Que refresco a secura.


Miguel Torga, Diário VIII (1959)

6.6.06

Dos blogues: Mais de 40.000...

... drogados na Festa de Serralves

Nota do editor. Este título é uma extrapolação legítima, mas que alguns poderão julgar alarmista ou tabloidizante, da frase «o que mais me desagradou foram os drogados, que tomaram literalmente conta da festa». Em qualquer caso, como o número de participantes excedeu 50.000, o nosso título admite que 10.000 deles não fossem drogados, o que é saco folgadamente amplo para nele enfiarmos todos os amigos e conhecidos (como os inocentes provadores de malmequeres ) e assim evitarmos melindres. Mas, além do que viu e cheirou o nosso arguto comentador, outros sinais houve capazes de suscitar a desconfiança e o repúdio das pessoas de bem. A quantidade de gente sentada ou - pior ainda - espojada na relva era escandalosa; e é bem sabido, de Woodstock aos festivais do nosso luso-verão, o que indicia tão desbragada postura. E é fraca desculpa que, depois da requalificação do Parque, todos os bancos tenham desaparecido: quem se quisesse dar ao respeito que ficasse de pé! Mas a prova acabada do ambiente malsão da alegada festa é esta papoila, captada fotograficamente no prado em flagrante delito de ser o que é: nada menos que uma Papaver somniferum, a genuína flor do ópio!


Papaver somniferum - Parque de Serralves, 3 de Junho de 2006

5.6.06

Jardim na Lomba



Quem quiser saber o que é a Lomba e ter uma ideia do seu significado deve ler o que sobre esse bairro operário escreveu Helder Pacheco em Porto - O Sentimento da História (Ed. Afrontamento, 2005). Se visitar o bairro, faça-o com discrição, pois ir lá é como entrar sem convite em casa de gente pouco useira em receber turistas. Para já, a localização: fica na freguesia do Bonfim, no quadrilátero desenhado pelas ruas de António Carneiro, Heroísmo, Padre António Vieira e Pinto Bessa. As ruas do bairro, ladeadas por um contínuo de casas térreas, são estreitas e impróprias para automóveis. A embocadura da rua da Lomba na rua do Heroísmo é um pátio que, de tão acanhado, mal se adivinha; mas é mesmo por aí que nos metemos, acompanhados por alto muro de pedra de onde se debruça um loureiro enfeitado de roseiras bravas.

A certa altura, tomando uma ladeira à nossa esquerda, deparamos com um recinto desportivo vedado a rede e, logo abaixo, com um pequeno jardim. O local, até há pouco mais de três meses, era depósito de lixo e refúgio de marginalidade; hoje há lá árvores, sombras, bancos e sossego. A Câmara do Porto, que levou a cabo esta exemplar transformação, aproveitou as árvores existentes (eucaliptos, choupos e até uma figueira) e, além de arbustos nos canteiros, plantou novas árvores: castanheiros-da-Índia, fotínias e olaias (mas algumas destas últimas secaram). Um muro de blocos de cimento preenchido com rabiscos multicolores, encimado por gradeamento branco, separa-nos dos terrenos do antigo Liceu Rainha Santa Isabel (actual DREN), de onde nos saúdam bonitos ciprestes.

Saindo do jardim, há a opção de continuarmos pelo bairro até à rua de Pinto Bessa, ou de retrocedermos até à rua do Heroísmo: duas ruas de muito trânsito que nos devolvem num ápice à inóspita normalidade citadina.

4.6.06

Jardim das Aromáticas - Serralves

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Hoje, de novo, aqui na Colecção das Aromáticas, entre as 10 e as 11 e meia por por favor coma os malmequeres (e não se esqueça de reparar em quem por lá anda a dar autógrafos). Às 15 e 17 horas arranja decerto companhia para uma visita.
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Em 2005)
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3.6.06

Um fim-de-semana em cheio...

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Festa de Serralves
Terra Sã
e Feira do Livro no Palácio
(não esquecer de a ir ver... )
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Aromas de África



A Dodonaea viscosa é um arbusto vistoso da família Sapindaceae, mas só há poucos dias reparámos na existência de um exemplar nos jardins do Palácio de Cristal. É de folha perene, alternada, de bordo levemente ondulado e muito pefumada. As flores são minúsculas e escuras, quase não se distinguindo da folhagem. Mas as sâmaras em arranjos pendulares, com textura de papel, cor carmim e formato de maçã cortada ao meio dão-lhe nesta altura um lugar honroso entre as plantas ornamentais.

Apreciando as zonas semi-áridas ou arenosas, o género Dodonaea é maioritariamente australiano, mas algumas espécies, entre elas a D. viscosa, são endémicas na África do Sul. As folhas e as raízes têm uso medicinal; o arbusto é frequentemente utilizado para consolidar zonas costeiras.

A designação homenageia o naturalista holandês Rembert Dodoens (1517-85) - de nome latinizado Rembertus Dodonaeus - cujo herbário sobre ervas medicinais com cerca de 700 imagens teve inúmeras traduções, sendo no seu tempo um dos livros de botânica mais referidos nos meios científicos.

O maior exemplar que conhecemos de dodonéia, já com cerca de 3 metros de altura, está num prado em declive na pousada de Santa Marinha em Guimarães.

2.6.06

Há um ano: (foi mesmo) o último verão!

Ricardo Reis na Praça da República

As rosas contemplemos do Verão que passa
Pois com elas, Lídia, mais amena é
A procissão dos dias
Em que, enlaçadas as mãos,
Por nada esperamos.

Sejamos gratos aos deuses
Pelas repetidas rosas que, em jardins outros,
Escaparam ao arquitecto subtractor
Da nossa boa vista.


Jardim da Praça da República - com rosas

1.6.06

Informação comercial

O livro Um Porto de Árvores já está à venda nas seguintes livrarias do Porto:

- Fundação Voz Portucalense (rua de Santa Catarina, 521)
- Livraria da Fundação Serralves (rua D. João de Castro, 210)
- Livraria Latina (rua de Santa Catarina, 2 a 10)
- Livraria Lello (rua das Carmelitas, 144)
- Livraria Nova Fronteira (C. Com. Brasília, av. Boavista, 267, Lj. 505)
- Porto Editora (praça D. Filipa de Lencastre, 42)
- Unicepe (praça de Carlos Alberto, 128 A)

O preço de venda ao público é de 10 euros. Os sócios da Campo Aberto pagam apenas 8 euros se comprarem o livro directamente à associação.

Jacarandá do Viriato

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foto- Junho de 2003
Recebi ontem a notícia que afinal as primeiras flores do Jacarandá do Viriato já começaram a abrir.
Ainda não extravasou do largo, nem está de fazer parar o trânsito como na fotografia (não, não ia de helicóptero quando a tirei- estava em casa da amiga que me deu a notícia ;-) mas é só para avisar.

Convite irrecusável! - (As Ruínas Circulares-junho 19, 2005)
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