31.3.07

Cancioneiro popular- negrilho

Nesta rua hai negrilhos,
Onde hai negrilhos hai sombra:
Bem puderas tu, menina
Sair comigo à ronda.
(Concelho de Bragança)

in VASCONCELOS, José Leite de - Cancioneiro Popular Português. Coimbra : Universidade, 1975.

Ulmeiros verdejantes

Avenida Afonso Henriques em Matosinhos

O verde claro que enfeita nesta altura do ano os ulmeiros deve-se, não às suas folhas que ainda estão para vir, mas aos seus frutos alados, umas características sâmaras* farfalhudinhas .

*Sâmaras:"fruto seco, indeiscente e monospérmico, semelhante ao aquénio mas com o pericarpo prolongado em asa membranosa." in ficha do Ulmus minor -no mais do que recomendável ARBORIUM .: atlas das árvores de Leiria
Ver também a entrada relativa ao ulmeiro no também muito bom ARBOLES ORNAMENTALES

30.3.07

Emissários


Quercus robur no largo Abel Salazar (Porto)

Cercados por um delírio de pedra que já foi jardim, estes carvalhos, cumprindo a vocação temporã da sua espécie, não deixam ninguém esquecer que a Primavera chegou. Citadinos, são emissários dos seus irmãos mais afortunados, e vêm dizer-nos que está na altura de sairmos da cidade, nem que seja pelo tempo breve de uma tarde de sábado, para admirarmos em lugares mais propícios a frescura da sua folhagem.

29.3.07

Cartões amarelos



Chelidonium majus, Euryops pectinatus
Memora axillaris, Ranunculus ficaria

28.3.07

A ler

Damas de Blanco: With Pink Swords
As Damas de Branco > - movimento de oposição ao regime cubano que reune esposas e outros familiares de presos políticos- manifestam-se todos os anos desde a sua constituição em 2003, brandindo gladíolos brancos e de cor rosa.
Explica-nos Julie, editora do Human Flower Project, e a quem nada do que respeita as flores escapa: «The gladiolus – gladiolo, in Spanish – comes from the Latin word for “sword” (think gladiator). Thus, it adds to the Ladies’ peaceful demonstrations an edge of symbolic ferocity. By carrying pink gladiolus, like exclamation points, they alert us not to miss the message.»

Thanks Julie!

Árvores monumentais

No "freaky" Neatorama:
10 Most Magnificent Trees in the World (via Quinta do Sargaçal)
Na verdade são 10+2...:

  • Baobab
  • Bristlecone Pine: Methuselah and Prometheus, the Oldest Trees in the World >
  • Banyan Tree: Sri Maha Bodhi Tree >
  • Montezuma Cypress: The Tule Tree >
  • Quaking Aspen: Pando (The Trembling Giant)
  • Chapel-Oak of Allouville-Bellefosse >
  • Coast Redwood: Hyperion and Drive >
  • Thru Trees- Giant Sequoias: General Sherman >
  • Circus Trees
  • Lone Cypress in Monterey >
  • Tree That Owns Itself
  • The Lonely Tree of Ténéré >

Concurso: contos sobre árvores

Concurso FENAFLORESTA "Cont'Árvore" (via ONDAS)
«A Direcção da FENAFLORESTA considerou oportuno comemorar o Dia Mundial da Árvore em 2007, 21 de Março, com o lançamento de uma recolha de contos inéditos sobre as árvores, as suas florestas e a relação com o ser humano. (...)»

Ver também- Ambiente em Fotografia -Temas para os próximos meses: Abril - A árvore que eu sou... ; Maio - Cont'Árvore

Árvores Classificadas de Interesse Público- Novidades

post reeditado
  1. No site da Direcção-Geral dos Recursos Florestais já se pode pesquisar por distrito as árvores Classificadas de Interesse Público.
  2. «A Câmara Municipal de Lisboa, no âmbito da comemoração da Semana da Primavera (...), lançou no dia 25 de Março o primeiro roteiro online sobre árvores Classificadas de Interesse Público em Lisboa, fruto de um trabalho de pesquisa, actualização e georeferenciação, em coordenação com a entidade tutelar - Direcção-Geral de Recursos Florestais.»
    Na página Lisboa Verde (do site da CML) encontra-se um muito útil «mapa geral de localização da árvores Classificadas de Lisboa assim como vários percursos virtuais, organizados no tempo e no espaço, destinados à promoção de uma prática adequada à descoberta e exploração das mesmas.»
    (via jardinando sem parar )

Relativamente ao Porto, pode ver-se aqui e aqui a fotografia e a localização das árvores classificadas da cidade. Sabemos haver o propósito, por parte da autarquia, de também se publicar um roteiro dedicado a estes "monumentos vegetais". Enquanto isso não acontece, sugerimos o Mapa Verde (publicado pela Campo Aberto e que pode ser adquirido na sede da Associação ou via mail ), em que as árvores e conjuntos arbóreos classificados da cidade estão assinalados.

27.3.07

Ruínas fertéis


Cymbalaria muralis (ruínas)

Esta é uma pequena trepadeira hermafrodita originária da Europa mediterrânica mas naturalizada em todo o continente. Embora prefira os velhos muros de granito (as ruínas que lhe dão o nome), também já a vi despontar da berma dos passeios, aproveitando aqueles escassos centímetros que não são pisados nem pelos pés dos transeuntes nem pelos automóveis. É uma planta perene, de folhagem luzidia; as suas flores, minúsculas mas vistosas, mantêm-se até ao final do Verão. Para identificar esta planta, socorri-me da obra Conhecer as Plantas nos seus Habitats, da autoria de Rosa Pinho, Lísia Lopes, Fernando Leão e Fernando Morgado, publicada pela Plátano Edições Técnicas em 2003: com fotos de boa qualidade, este pequeno livro é o guia ideal para quem, no nosso país, queira tratar pelos seus nomes as pequenas maravilhas que brotam por todo o lado.

P.S. Há dias o Blogue dos Cheiros publicou foto da mesma planta (ou de outra muito semelhante) num muro mais a sul.

26.3.07

Podas no Palácio: resposta da Porto Lazer, E.M.

A Porto Lazer, E.M. respondeu já ao comunicado de imprensa e a uma carta anterior nossa sobre o mesmo assunto. Deixando os comentários para mais tarde, divulgamos para já no blogue Dias sem árvores o texto completo dessa resposta.

Arbre-aux-anémones


Calycanthus floridus var. fertilis

O género Calycanthus é um dos quatro da família Calycanthaceae e abriga duas espécies da América do Norte. Os arbustos de C. floridus (conhecidos como Carolina allspice) são de folha caduca, aromática e de face superior áspera. As flores têm pétalas estreitas que mergulham no arranjo espiralado de sépalas (os termos gregos kaluks e anthos aludem a este formato em cálice da flor), rescendem a morango/ananás e o seu vermelho acastanhado destaca-se na copa densa; a floração abundante dura em geral até ao fim do Verão. Os frutos são cápsulas fibrosas, com uma tampinha como as das papoilas.

A casca das plantas deste género contém um sucedâneo da canela usado como fármaco pelos índios americanos. Contudo o princípio activo deriva de um alcalóide que é muito venenoso e se assemelha à estricnina.

23.3.07

Jardins do Palácio de Cristal: um lamentável caso de má gestão

- comunicado da Campo Aberto à imprensa



A recente e violenta poda realizada na avenida das tílias do Palácio de Cristal, repetindo a asneira cometida há cerca de dois anos, deixou as árvores num estado tal que não pode deixar de chocar os frequentadores e visitantes do mais emblemático jardim portuense. A gestão do espaço tem sido assegurada por uma empresa municipal (a Porto Lazer) sem vocação nem competência para essa nobre tarefa. É urgente que a Câmara Municipal do Porto transfira essa gestão para os serviços do Pelouro do Ambiente – pois é inadmissível que as boas práticas que se observam nos restantes locais públicos da cidade não transponham os portões do Palácio.

Os jardins do Palácio de Cristal são dos locais mais frequentados da cidade e mais visitados por turistas. Um terreno acidentado, disposto em vários patamares, permitiu a criação, num espaço relativamente reduzido, de vários ambientes diferenciados: os jardins formais e geométricos logo à entrada do recinto, as alamedas de plátanos e tílias, o bosquete de camélias nas traseiras da biblioteca Almeida Garrett, o arboreto e a esplanada em redor do lago, os vários miradouros que deixam espreitar o curso do rio Douro desde Miragaia até à Foz.

Além do seu valor turístico, social e ambiental, os jardins do Palácio são importantes pelo seu valor histórico. Criados na década de 1860 por iniciativa de Alfredo Allen, com desenho do paisagista alemão Emílio David, são dos espaços ajardinados mais antigos do Porto: só o Jardim de S. Lázaro é mais antigo, sendo o Jardim da Cordoaria, também de Emílio David, alguns anos mais novo. Mas, enquanto S. Lázaro mantém o seu carácter original, o jardim de Emílio David na Cordoaria foi completamente obliterado pela Porto 2001. O Palácio de Cristal, de onde já desapareceu o edifício que lhe deu o nome, é pois o último espaço público do Porto a conservar alguma da herança dessa figura tão influente na arte dos jardins em Portugal.

Um património tão valioso como este, e um espaço tão marcante para a imagem do Porto (tanto aquela que a cidade tem de si própria como a que oferece aos visitantes), deveria merecer, por parte da Câmara Municipal, os mais desvelados esforços de manutenção e embelezamento. Infelizmente, por razões burocráticas que hoje mal se entendem, os jardins do Palácio de Cristal não estão na dependência nem do Pelouro do Ambiente, nem dos serviços municipais a ele subordinados que têm a missão de cuidar deste tipo de espaços. Tanto o Departamento Municipal de Espaços Verdes e Higiene Pública como a Divisão Municipal de Parques e Jardins não têm qualquer palavra a dizer sobre os jardins do Palácio: quem lá manda é a empresa municipal Porto Lazer, que os herdou do extinto Gabinete de Desporto. Tudo isto seria de somenos importância se os jardins e o seu património vegetal andassem bem tratados; como não andam, a comparação com outros espaços públicos da cidade leva-nos à conclusão inevitável: a Câmara do Porto abdica de usar as competências que tem (em jardinagem, no tratamento de árvores ornamentais, etc.) no mais emblemático jardim à sua guarda. O que se tem passado no Palácio de Cristal é uma combinação nefasta de incompetência e negligência.



O caso mais flagrante de incompetência é o estado em que ficou a avenida das tílias depois de uma série de podas insensatas, a primeira e mais radical feita há cerca de dois anos e a segunda há duas semanas. No extremo sul da avenida, junto à capela de Carlos Alberto, o que temos não são árvores, mas sim tocos: restos mutilados de árvores, sem utilidade e sem beleza. Não é plausível a justificação de que as árvores estariam doentes, pois a motosserra tanto atacou árvores jovens como adultas, e as feridas que ficaram expostas nos troncos mostram bem como elas estavam saudáveis. Terá sido por receio de as árvores caírem? É que, nos últimos anos, várias tílias têm lá caído empurradas pelo vento. Mas, por ironia, também tombaram árvores que tinham sido podadas preventivamente, o que mostra que tal remédio não é seguro. E se o preço para manter as árvores de pé é reduzi-las a tocos disformes, então mais vale desistirem das tílias e plantarem árvores mais resistentes às intempéries. Não tem sentido manter uma alameda de tílias – árvores ornamentais por excelência, admiradas pela harmonia e simetria das suas copas – neste estado miserável.

Em todo o caso, é importante que a Porto Lazer, E.M. responda às seguintes perguntas:

  1. Foi feito algum estudo fitossanitário que justificasse intervenções tão drásticas como as que foram feitas nas tílias da avenida?
  2. As podas foram acompanhadas por algum técnico de arboricultura credenciado?
  3. A empresa que as executou tem pessoal devidamente habilitado para estas intervenções?
Nas intervenções que os serviços da Câmara têm vindo a fazer em espaços públicos (árvores de arruamento, jardins, etc.), a resposta a perguntas análogas é afirmativa; é que, felizmente, já não é comum ver na cidade (fora do Palácio) árvores tão mal podadas como estas tílias. Que não são, no Palácio, as únicas vítimas deste tipo de tratamento: no final de 2004, os jovens choupos na encosta que desce para Massarelos sofreram um podão que apenas lhes deixou os troncos.

Outros casos mais ou menos recentes são indicativos de negligência. Em 2003, foi instalado um sistema automático de rega no jardim formal à entrada; na abertura dos regos usou-­se uma escavadora e não houve a precaução de não se cortarem raízes; em resultado disso – e talvez também do excesso de água – várias árvores e arbustos vieram posteriormente a perder­-se.

Os vários jardins temáticos estão ao abandono. O Jardim dos Sentimentos, construído num socalco voltado para a rua da Restauração e inaugurado em Janeiro de 2001, embora parta de uma ideia interessante (divulgar alguma da simbologia associada às plantas) e faça uso de um espaço antes desaproveitado, tem por base um mau projecto. Todo o jardim assenta numa placa de cimento; e, entre tanques de água estagnada e caminhos em zigue-zague, sobram uns canteiros estreitos, de pequeníssima profundidade. As plantas que têm morrido – e têm sido quase todas – não são substituídas, e as etiquetas também já desapareceram: o efeito geral é desolador. Melhor sorte poderia ter tido o Jardim dos Cheiros, pois aí as condições não são tão adversas para as plantas; mas o abandono a que foi votado transformou-o num matagal onde há mais vegetação daninha do que plantas aromáticas. Finalmente, há o caso caricato do Jardim de Roterdão: inaugurado em 2001, ano em que essa cidade holandesa partilhou com o Porto o título de Capital Europeia da Cultura, foi concebido como um jardim para flores sazonais, mas está hoje convertido num triste relvado.

A gestão dos jardins do Palácio de Cristal não tem estado à altura da importância patrimonial, histórica e social desse lugar único da cidade do Porto. E é à Câmara Municipal do Porto, através do seu Pelouro do Ambiente, que cabe resolver o problema.

Porto, 23 de Março de 2007

P.S. Veja fotos da poda de 2005 no blogue A Cidade Surpreendente

22.3.07

A ler

UM DIAS DE MUITAS COISAS ... A PRIMAVERA É ASSIM
no jardinando sem parar

«(...)Como hoje, para além do dia da árvore, também é dia da infância, da poesia e do teatro, vou arriscar e, não sei bem se no papel de actor, de poeta, de criança ou de admirador de árvores monumentais, recitar a minha proposta (ou sonho, ou poema, ou ficção):

Lançar um programa de levantamento das árvores monumentais do País, solicitando o apoio das autarquias, de escolas, de empresas, de associações ambientalistas e outras com interesse e capacidade de colaborar nesta tarefa, com o objectivo de... em 2013 ter finalizado todo o processo de inventariação, selecção e classificação e editados materiais de divulgação, principalmente para utilização nas escolas e em promoção turística.


Porquê esta data? Por 3 motivos:

1º - 6 anos é um período de tempo razoável para uma missão que exigiria algum esforço de coordenação e mobilização, principalmente atendendo à óbvia necessidade de ser feita com custos reduzidos

2º - seria interessante que, passados 100 anos do decreto nº 682, de 1914, que mandava proceder ao inventário, classificação e divulgação das árvores notáveis, se tivesse conseguido concretizar os objectivos que aí foram definidos, apesar de em grande parte relativos já a outras árvores

3º - corresponderia ao final do mandato legislativo seguinte o que, tratando-se de um objectivo nacional, daria frutos à equipa actual, por ajudar a lançar o trabalho, e à seguinte, fosse ou não a mesma, por terminá-lo

Estou convencido que, de uma maneira ou de outra, vamos mesmo chegar a 2014 com as árvores “monumentais” bem identificadas, com publicações, sinalética e outra informação facilmente acessível, que ajudará a que a maior parte/uma parte maior da população tenha conhecimento do valor desse património, prazer em observá-lo e interesse na sua salvaguarda. (Ainda há optimistas não cépticos)

(...)» texto completo

APOIAMOS esta proposta!

(Por favor comentem no jardinando sem parar já que o texto foi tirado de lá ;-)

21.3.07

20.3.07

Camélias em Celorico de Basto

- 24 e 25 de Março



Para terminar em beleza a temporada de 2007, realiza-se este fim-de-semana em Celorico de Basto a IV Festa Internacional das Camélias, que inclui, além da habitual exposição/concurso, um mercado onde se podem comprar camélias envasadas. A abertura ao público do evento é às 15h30 de sábado, momento em que também são divulgados os prémios atribuídos. Segue-se um Verde de Honra às 16h10. Às 16h45 tem início um Fórum de Camélias, moderado pelo Professor Fernando Catarino, com os seguintes temas e intervenientes:

  • As potencialidades da camélia na composição dos jardins contemporâneos - Prof. Luís Torres de Castro (UTAD);
  • Monografia da Camellia sinensis (planta do chá) - Prof. José Alves Ribeiro (UTAD);
  • Processamento genético da hibridação nas camélias - Prof. Gilberto Igrejas (UTAD);
  • A topiária nos jardins de Basto - Arq. Ângela Silva (UTAD).

No domingo há a partir das 10h00 um passeio (gratuito) aos famosos jardins de camélias topiadas do concelho, e às 13h00 começa um almoço/buffet (25 euros por comensal). Ambas estas actividades exigem inscrição prévia, e provavelmente já é tarde de mais para o fazer. Se ainda quiser tentar a sua sorte, contacte a Qualidade de Basto, E.M. pelo telefone 255 320 250.

19.3.07

Arbusto-olho-de-pássaro



A Ochna serrulata é um arbusto lenhoso sul-africano da família Ochnaceae cujas raízes têm uso medicinal. As folhas são serrilhadas e as sépalas, sendo inicialmente verdes, adquirem progressivamente um vistoso tom vermelho brilhante e permanecem na planta por longo tempo. Como os frutos - que quando maduros parecem azeitonas pretas e são muito apreciados por pássaros - nascem unidos, o cálice de cada flor retorce-se para os separar, num conjunto que a alguns lembra as orelhas do rato Mickey (daí a designação inglesa Mickey mouse plant). As pétalas amarelas das flores duram pouco e no ano passado já não vimos nenhuma. O exemplar da foto, o único que conhecemos em jardins do Porto, estará vestido de amarelo nos próximos dias e mora no terraço da fonte-dos-leões no Parque de S. Roque.

17.3.07

Abotoando

.
Liquidâmbar a florir em frente à minha varanda

Começaram a brotar há cerca de dez dias: de início parecem umas pequenas gotas brilhantes, uns simples pontos de luz cativando o olhar... Mas como não choveu e o sol vai bem alto, a hipótese de serem vestígios de chuva ou de orvalho é rapidamente posta de lado. Em breve, com o seu afilar e a progressiva transformação em pequenas candeias douradas, confirma-se a expectativa: o liquidâmbar está de novo a abotoar, e os pontos de luz mais não eram do que os gomos das suas flores.

São sempre estas que rebentam primeiro: no mesmo raminho encontramos um cacho erecto de inflorescências masculinas, na base do qual pende uma esferazita esverdeada, um pouco mais clara, constituída pelas flores femininas, agrupadas num capítulo globoso. Só depois surgem as folhas, fazendo com que toda a árvore pareça enfeitada com uns "laçarotes".

Estas flores, nuas, desprovidas de pétalas vistosas, nos manuais e sites da especialidade, são por vezes desdenhadas do ponto de vista ornamental e consideradas "sem interesse". Realmente podem passar despercebidas, sobretudo para quem não sabe (bem diz o velho aforismo que quem não sabe é como quem não vê). Em frente à minha varanda, é um dos espectáculos mais interessantes que me é dado contemplar e ainda agora começou!

Outros apontadores:

  • Imagens legendadas das flores do liquidâmbar (Dep. de Botânica da Universidade de Wisconsin-Madison.
  • Descrição e belíssimas fotos das flores (no Flickr, autoria de Ken King)
  • Liquidâmbares no Dias com árvores.
  • 16.3.07

    A ver - Câmara Clara

    .
    Hoje na RTP2, às 22.30 - ver aqui horários alternativos.
    «O Câmara Clara celebra a chegada da Primavera e o Dia Mundial da Poesia com flores, poetas, muita música e cinema. O biólogo Fernando Catarino , professor memorável e notável director do Jardim Botânico da Faculdade de Ciências de Lisboa durante vinte anos, um humanista amantíssimo de Alexandre O'Neill, é o único convidado do Câmara Clara, numa emissão em que lhe damos, ainda, Vivaldi e Kurt Weill, Shakespeare e Ruben A., o polémico cineasta Jean-Claude Brisseau e o universalmente amado Fellini.»

    Outros apontadores:

    15.3.07

    A náusea e o sabugo



    Sabugueiro (Sambucus nigra) no Parque da Cidade do Porto

    Não posso ver este arbusto sem me lembrar de Jean-Paul Sartre [JPS]. As leituras da adolescência, por muito desvairadas que sejam, têm sempre alguma utilidade, por exemplo a de nos vacinarem contra certos escritores: se sobrevivemos como leitores à agonia de os lermos, temos toda a vida adulta para lermos coisas melhores. Assim foi com JPS: interrogo-me como foi possível manterem-se os seus romances nas minhas estantes todos estes anos, tendo eu desdenhado e perdido livros muitos mais estimáveis como as colecções completas dos Cinco e do Sandokan. A conexão entre o sabugueiro e JPS vem-me da seguinte passagem de A Náusea:

    «Tenho medo das cidades. Mas não posso abandoná-las. Se nos aventurarmos a ir muito longe, encontramos o círculo da Vegetação. A Vegetação tem rastejado quilómetros e quilómetros em direcção às cidades. Está à espera. Quando a cidade tiver morrido, a Vegetação vai invadi-la, trepar-lhe pelas pedras, encerrá-las, esquadrinhá-las, fazê-las estalar com as suas longas pinças negras; obstruir os buracos, fazer pender, de toda a parte, patas verdes. É de ficar nas cidades, enquanto estão vivas; e nunca penetrar sozinho por aquela grande cabeleira que está às suas portas: deixemo-la ondular e estralejar sem testemunhas.»
    (trad. de António Coimbra Martins, ed. Europa-América)

    Embora este trecho faça lembrar distopias futuristas como Nós, do russo Yevgeny Zamyatin (em que toda uma civilização asséptica, onde não há plantas nem animais, se desenvolve sob uma gigantesca cúpula de vidro cercada por uma floresta proibida), A Náusea não é um livro de ficção científica: é a narrativa na primeira pessoa de alguém enjoado com todas as formas de vida animal ou vegetal, em particular com a humana. Mesmo em 1938, ano da publicação do livro, a ideia de que as cidades estariam a recuar face ao avanço da vegetação é estranha, e sublinha o carácter doentio do narrador. Mas a verdade é que a vegetação se apropria dos espaços abandonados das cidades, como há tantos no Porto: antigos quintais, lotes expectantes, casas em ruínas, esqueletos de prédios inacabados. E é nessa guerra que o sabugueiro dá cartas: já o vi romper do cimento, da brecha do muro, do monte de entulho por detrás da cerca ferrugenta.

    Além de incansável guerrilheiro urbano, o sabugueiro tem outras virtudes que o recomendam: é das primeiras caducifólias a revestir-se de folhagem, logo em meados de Fevereiro; é óptimo para sebes vivas em campos de cultivo ou pomares, pois atrai numerosos pássaros e insectos úteis; os frutos, depois de fervidos para eliminar a ligeira toxicidade, são empregues na confecção de bebidas; e o próprio sabugo (medula branca e esponjosa dos galhos) é usado em histologia e em medicina.

    14.3.07

    Aromas de África



    Freylinia lanceolata

    À entrada do jardim de Serralves, na primeira curva à direita, vegeta um arbusto de hábito pendente com enormes ramos arqueados e que exibe, durante quase todo o ano, lindos cachos terminais de flores com forte aroma a mel. As folhas opostas e o formato tubular das flores, com cinco pétalas unidas e quatro estames presos às pétalas, sendo dois mais longos, colocam-no facilmente na família Scrophulariaceae, que é predominantemente de herbáceas, mas não dispúnhamos de nenhum guia de flora europeia, ou do hemisfério norte, que o descrevesse. O livro Field guide to trees of Southern Africa, de Braam van Wyk e Piet van Wik, resolveu finalmente o mistério: trata-se de uma planta do Cabo, Freylinia lanceolata, que aprecia o frio, solos húmidos e margens de ribeiros, mas é resistente ao calor se a chuva não faltar. As folhas são longas e estreitas (lanceoladas), de cor verde-baço, com o veio central saliente na face inferior. A floração ocorre a partir dos dois anos de idade e a propagação por sementes é considerada fácil pelos horticultores.

    Escusado dizer que não somos os únicos a reparar neste arbusto tão ornamental. Por ser melífero, atrai uma multidão de insectos, que por sua vez são alimento para muitos pássaros. E no século XIX, cerca de 1817, o conde italiano Freylino plantou-a nos seus jardins de Buttigliera, atraindo a admiração dos visitantes e garantindo a difusão desta planta pela Europa.

    12.3.07

    Na avenida, ainda


    Camellia reticulata

    Esta Camellia reticulata floresce (e assim se manterá por alguns dias mais) no número 2547 da avenida da Boavista, no pátio de um edifício hoje ocupado por uma escola, perto do cruzamento com a Marechal Gomes da Costa. Ela tem sorte em ainda estar de pé: os jardins da avenida têm desaparecido a um ritmo acelerado; mesmo quando as velhas casas (há quem lhes chame palacetes) não são demolidas para loteamento, as obras de reconversão não têm o hábito de respeitar os jardins. Paradigma dessa atitude foram as obras de adaptação do antigo Colégio dos Maristas (no número 1354) à função bancária: manteve-se o edifício, mas o jardim foi quase integralmente destruído com o estacionamento subterrâneo e a construção nas traseiras de um novo anexo «para eventos culturais». Umas quantas árvores poupadas à face da rua e um relvado instantâneo parecem ter sido suficientes para disfarçar os estragos, tanto assim que a obra até foi premiada como exemplo de recuperação do património. Mas que outra coisa poderíamos esperar no nosso país, se o homem que destruiu a Quinta da Bacalhoa - um caso incomparavelmente mais grave do que o da Boavista - aparece como um respeitado patrono da cultura e das artes?

    Exposição de camélias-Palácio do Freixo

    Algumas imagens

    10.3.07

    Exposição de Camélias

    .
    .Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket


    Ver programa


    Camélias no Dias com Árvores
    Árvores monumentais no Palácio do Freixo >

    "Palácio do Freixo com perfume de camélias" > (Jornal de Notícias )


    "A portuense camélia recupera prestígio de outros tempos" > (Diario de Noticias - ano passado)


    9.3.07

    Ode à cebola... e ao alho

    Cebola,
    luminosa redoma,
    pétala a pétala
    formou-se a tua formosura,
    escamas de cristal te acrescentaram
    e no segredo da terra sombria
    arredondou-se o teu ventre de orvalho.


    Pablo Neruda
    (tradução de José Bento)


    Allium neapolitanum (alho-de-Nápoles)

    8.3.07

    Ameixoeiras em Santo Tirso



    Prunus cerasifera

    Os espaços ajardinados que rodeiam o Museu Municipal Abade Pedrosa, junto à velha ponte sobre o Ave (há uma ponte nova logo a jusante), são por esta altura o mais aprazível recanto de Santo Tirso. O que, bem vistas as coisas, até é estranho, pois os jardins, rodeados por um trânsito incessante, estão encravados entre uma rotunda, a estrada de acesso à ponte, um parque de estacionamento, e um barracão de venda de vasos e plantas. Mas a morfologia acidentada do terreno, descendo em declive irregular até ao Ave, os grandes plátanos em procissão à entrada da ponte, e as ameixoeiras-de-jardim, magnólias e camélias em floração uníssona - todos estes ingredientes compõem, neste declinar do Inverno, um tempo e um lugar como poucos.

    Tendo para aqui chamado com assiduidade magnólias e camélias, é altura de relembrar as ameixoeiras-de-jardim (Prunus cerasifera) - até porque a sua floração, agora no auge, é muito mais efémera do que a das outras duas. Oportunidade também para ler o informativo texto que há tempos Jorge Cancela escreveu sobre esta árvore. Gostei de saber que os frutos (amargos, semelhantes a pequenas ameixas) se podem aproveitar para compota. Se se generalizasse a sua apanha com esse fim, resolver-se-ia o mais sério inconveniente desta árvore na arborização de ruas: é que os frutos, produzidos em grande abundância, formam quando pisoteados uma pegajosa pasta vermelha nos passeios.

    7.3.07

    A ler: "Vegetalizar ou mineralizar"

    A crónica semanal de Bernardino Guimarães no JN
    «Neste mês de Março comemora-se o Dia Mundial da Floresta ou Dia da Árvore, de tão antigas tradições. Não tanto a efeméride mas certamente o objecto dela, vale bem uma crónica. Já cheira a Primavera, discretas florações mostram-se aqui e ali. Um pouco por toda a parte preparam-se com certeza comemorações- onde não faltará a ritual plantação de árvores, mesmo se o nosso clima não aconselha tal acto em época tão tardia. Salva-se raras vezes a árvore plantada, quase sempre a lembrança do festejo. A entrada primaveril proporciona assim, de qualquer modo, uma oportunidade para lembrarmos a importância das árvores na nossa vida, ecologia e economia consideradas - e talvez fique alguma coisa das homenagens às rainhas do mundo vegetal. Pena é que, nas ruas das cidades como nos campos, a retórica ou o sentimentalismo da data seja desmentida pela dureza dos factos.

    Se progresso há no tratamento da árvore urbana, a verdade é que persistem os atentados e desatinos em tudo contrários aos discursos de exaltação e aos anúncios municipais. Árvores de que serão de porte considerável em espaços exíguos que não acautelam o seu crescimento futuro. Em certos locais, ainda a poda regular e assassina a desfigurar estes seres, vivos e singulares. Pior do que isso cada vez é mais escasso e problemático o espaço da árvore nas cidades, expulsas pelo betão, pelo parque de estacionamento e mesmo por aquelas "requalificações urbanas" onde pontifica o cimento e o granito como moda, que recusa a árvore e detesta os canteiros de flores! (...) »

    5.3.07

    Loureiro-do-Japão


    Aucuba japonica

    Num extenso artigo no Jornal de Horticultura Prática de 1870, Jean Verschaffelt (Gand, Bélgica) faz um rasgado elogio à Aucuba japonica, arbusto semi-herbáceo de folhagem persistente, levemente serrilhada, brilhante e espessa, de belo efeito ornamental e fácil cultivo. É que os primeiros pés de aucuba a chegarem à Europa, por volta de 1790, eram todos femininos; e só em 1863, por mão de Robert Fortune, chegaram exemplares masculinos. A frutificação foi recebida com júbilo: magníficas bagas vermelhas que, «a não serem as folhas, se poderiam tomar por um açafate de cerejas.» Plantas de alguns centímetros de altura passaram então a vender-se pelo «preço exorbitante de 48$000 reis». Páginas adiante, no mesmo volume do jornal, ficamos a saber (em texto de Thos. Staley) que foi José Marques Loureiro quem importou para Portugal os primeiros pés masculinos de Aucuba japonica. A planta virou moda por cá nas últimas décadas do século XIX; e, dando-se bem em climas frios, é hoje abundante nos jardins do Porto.

    O exemplar da foto com flores (A. japonica Variegata) é masculino. As plantas femininas carregam ainda alguns frutos e darão, daqui a pouco tempo, flores parecidas com as masculinas, mas sem as quatro pintinhas amarelas e em inflorescências menos vistosas. O género Aucuba conta com três espécies do Japão aos Himalaias, das quais algumas variedades produzem frutos brancos ou amarelos.

    3.3.07

    Santo Tirso



    É a nossa sina: somos guiados pelas camélias como os reis magos pela estrela de Belém. Por isso, toca a andar hoje e amanhã para Santo Tirso, onde no Museu Municipal Abade Pedrosa decorre a VII Expocamélia, evento bienal organizado pela Câmara local.

    Vasculhando o arquivo das fotos, verifico que a nossa última ida a Santo Tirso foi em 2005, por altura da anterior Expocamélia. Tão longa ausência é imperdoável: Santo Tirso é uma cidade bonita, com espaços públicos bem arrumados, enfeitada por jardins amplos onde dá gosto passear, aqui e ali abrindo-se em miradouros para uma paisagem verdejante atravessada pelos meandros do rio Ave. Além do mais, e seja-me permitido invocar razões pessoais, nasci em Santo Tirso - embora não tenha família no concelho, e só lá tenha vivido até aos doze meses de idade. E nós, os tirsenses de nascença (incluindo tresmalhados como eu), somos, como tem sido sobejamente noticiado, uma espécie em vias de extinção por decreto governamental.


    2.3.07

    O FREIXO

    .
    «Alto freixo redondo apazigua
    Entre verdes pinhais a minha aldeia,
    E, toucado de pássaros, à lua,
    Parece uma mulher que se penteia.

    Pede-lhe o vento norte segurança,
    Toca-lhe o pé água de fresco poço;
    Eu, tornado a meus olhos de criança,
    Em seu casto perfil me sinto moço.

    Seus ramos vejo como via os anjos
    Que à vida me trouxeram pequenino.
    Ó imaginação, que altos arranjos

    Fazes às coisas simples transtornadas:
    Vinhas em flor, um breve freixo fino,
    Cães, colmeias sem mel, águas passadas! »


    Vitorino Nemésio
    in Nem toda a noite da vida, 1953

    1.3.07

    Árvore da roda-de-fogo


    Stenocarpus sinuatus

    Tivemos no sábado o privilégio de passear por parte do Jardim Botânico do Porto, em obras de remodelação desde o ano passado. Uma das surpresas da visita foi a floração do Stenocarpus sinuatus, uma proteácea australiana de crescimento lento que mora num recanto sombreado por cedros-do-Líbano perto da entrada. É uma árvore jovem, alta e esguia, de ritidoma cinzento e folhagem em disposição espiralada. Exibe folhas de margens lisas e outras pinatilobadas, com um a quatro lóbulos (daí o epíteto sinuatus), variação que é característica deste género. As flores tubulares, com abundante néctar na base, têm cor escarlate e pé inserido numa coroa. Os frutos são folículos alongados (os termos gregos karpus e stenos significam fruto e estreito), com sementes de asa castanha-clara. Oxalá o Jardim reabra a tempo de os vermos.