30.11.07

Amour en cage



Physalis alkekengi

Criar um fruto de uma flor é tarefa árdua, que exige enorme esforço à planta para que não se engane em nenhuma etapa da receita. Mas há as que conhecem processo económico de produzir frutos apetecíveis a partir de flores miudinhas. No género Physalis (do grego phusáo, insuflar), a flor minúscula tem cinco sépalas nervuradas que, terminada a polinização, crescem e se unem para formar um cálice inchado com textura de papel; que de seguida se fecha e se acende. Dentro desta lanterna, cinco pétalas formam uma corola em sino que segura uma baga lisa, redonda como um tomatinho, carnuda e comestível. Quando a cápsula adquire uma aparência rendilhada, e já permite ver o fruto, o consumidor sabe que se pode servir.

Este género, com cerca de 80 espécies, prefere regiões temperadas ou quentes, sendo a espécie das fotos espontânea no sul da Europa. A espécie mais consumida é a P. peruviana (que é nativa da América do Sul e não apenas do Peru), de que o primeiro produtor mundial é a Colômbia. Tem flores amarelas com base roxa, a casca que guarda o fruto é bege e a polpa é doce e muito aromática, deliciosa se imersa em chocolate; é também o ingrediente do «doce de capuchos» açoreano, a melhor compota que conheço e que é, infelizmente, rara nas lojas do continente. A P. philadelphica produz frutos mais ácidos que são transformados em molho picante, o famoso tomatillo da culinária mexicana.

29.11.07

Cedros monumentais- Palácio de Cristal



Cedros-do-Líbano (Cedrus libani ) ao pé da Biblioteca Municipal de Almeida Garrett (fotografados em Novembro de 2003 e Janeiro de 2004).
.
«No Jardim do Palácio de Cristal da Cidade do Porto há dois exemplares com 4, 75 m. e 2, 02 m. de P.A.P.» (P.A.P. =perímetro à altura do peito -a cerca de 1,30 m. do solo) » Ernesto Goes na sua lista de cedros de grande porte in Árvores Monumentais de Portugal (1984)

28.11.07

William Blake (1757-1827)


....A poison tree

....I was angry with my friend:
....I told my wrath, my wrath did end.
....I was angry with my foe:
....I told it not, my wrath did grow.

....And I watered it in fears,
....Night & morning with my tears:
....And I sunned it with smiles,
....And with soft deceitful wiles.

....And it grew both day and night,
....Till it bore an apple bright.
....And my foe beheld it shine,
....And he knew that it was mine.

....And into my garden stole,
....When the night had veild the pole;
....In the morning glad I see,
....My foe outstretched beneath the tree.

....
Songs of experience (1794)


......Determining the bounds of the material world

27.11.07

A árvore das espécies



Em Abril de 2005, a Manuela mostrou aqui imagens da existência atribulada desta Araucaria heterophylla no então estaleiro de obras da Metro do Porto. O que na altura se projectava para o quarteirão antes ocupado por uma fábrica têxtil há muito falida, embora estivesse ainda dependente da concordância do IPPAR, era um espaço com o nome de Camélias Parque: seria um centro de lazer e não, enfaticamente, um centro comercial. Como relata a Manuela, o IPPAR teria, segundo os jornais, intercedido pela preservação das «espécies arbóreas» no local. Escrevendo na Baixa do Porto, Francisco Rocha Antunes, promotor que esteve de início ligado ao empreendimento, estranhou o teor da notícia, já que a manutenção da araucária e das camélias terá sido desde sempre - como indicava o próprio nome do previsto centro de lazer - uma das balizas do projecto.

Nos 31 meses entretanto decorridos veio a autorização do IPPAR e a obra acabou por se fazer, mas o que foi inaugurado há duas semanas com o pindérico nome de Porto Gran Plaza já não se disfarça de centro de lazer: é um banalíssimo centro comercial onde nem sequer existem as prometidas salas de cinema (o único atractivo que me levaria a visitá-lo com regularidade).

Embora tenha perdido ramos e acuse alguma debilidade, salvou-se a araucária, protegida num cilindro de terra com diâmetro generoso; e foram ainda plantadas em caldeiras oito camélias já com dois metros de altura. É verdade que isto não se confunde com o jardim que o IPPAR, nos idos de 2005, parecia exigir; mas talvez o mesmo IPPAR que deixou petrificar a avenida dos Aliados, aceitando como boa a justificação dos arquitectos de que o que lá ficava era um jardim elevado constituído pelas copas das árvores, acredite que há agora um verdadeiro jardim à entrada do Porto Gran Plaza.

Só mais uma nota. O IPPAR fala em «espécies arbóreas», obviamente confundindo «espécie» com «espécime». Uma árvore não é uma espécie, assim como um homem não é uma espécie: é um representante de uma espécie, a humana. Os seres vivos estão agrupados em espécies, e cada indivíduo de uma espécie não é uma espécie: será, quando muito, um espécime. A confusão entre os dois vocábulos generalizou-se mesmo entre jornalistas. Andréia Azevedo Soares escreveu no Público, sobre este mesmo centro comercial, que «foram salvaguardadas questões ligadas ao impacte estético, à arqueologia industrial e à preservação de determinadas espécies arbóreas». E a frase é ainda mais caricata por estar no plural: uma só araucária, a única árvore que foi salvaguardada, corporiza várias «espécies arbóreas».


Do outro lado da rua Fernandes Tomás, nos velhos prédios contíguos ao Via Catarina, vive uma dessas famílias clandestinas que saltam de telhado em telhado. Obras como as do Porto Gran Plaza significam a morte para muitos gatos: ninguém se lembra deles, ninguém os protege; os operários divertem-se a apedrejá-los enquanto avançam com as obras que lhes destroem a casa. Fica aqui a lembrança de que a cidade também lhes pertence.

26.11.07

Exuberance is beauty

«Improvement makes straight roads, but the crooked roads without improvement are roads of genius.»
William Blake


Plectranthus barbatus

Depois de tantas flores da família Lamiaceae aqui publicadas e que julgámos as mais bonitas, deparámo-nos fascinados com estas, pequeninas gôndolas de Veneza. Inquietos, incapazes já de compreender como pode tudo isto ser beleza, buscámos um dicionário. Lemos: belo = o que é perfeito, qualidade que, presente em alto grau, o destaca entre os seus congéneres. Pois bem, há cerca de 500 espécies tropicais no género Plectranthus à espera das etiquetas que registem o grau de formosura que representam. Se nos faltar ânimo para tal tarefa, umas folhinhas esmagadas de P. barbatus, que produz forskolin, deverão repor o ajustado nível de coragem.

24.11.07

Cabaz de sábado











Comprado em Villar d'Allen (e fotografado em casa já ao lusco-fusco; clicar na foto para ver plantas ao sol): Elaeagnus x ebbingei > >, Justicia brandegeana >, Nandina domestica > (duas variedades, sendo uma delas a chamada Fire power),vincas, diascas > (os miosótis foram-me oferecidos ;-)

23.11.07

Uva-espim-do-Japão


Berberis thunbergii

Há mais de 400 espécies de arbustos no género Berberis, mas o da foto, conhecido como uva-espim-do-Japão, inconfundível pelas flores em umbela e folhas acobreadas, é o único que é vulgar em jardins do norte do país, onde muitas vezes é talhado em sebe: como arbusto espinhento que é, adequa-se muito bem a essa função. A única planta do mesmo género endémica em território nacional, a madeirense B. maderensis (ameixieira-de-espinho ou fustete em vernáculo), é uma completa desconhecida nos jardins continentais, e nem na sua ilha natal - a julgar pela dificuldade em encontrar fotos na rede - parece ser popular. (Há fotos e uma descrição da planta na pág. 259 do vol. VI da colecção Árvores e Florestas de Portugal do Público /LPN.)

O género Berberis é cosmopolita, oriundo de habitats muito variados, desde florestas húmidas temperadas a regiões semi-desérticas, presente em todo o hemisfério norte e também na América do Sul. Os arbustos não ultrapassam os cinco metros de altura e, apesar de lenhosos, têm madeira amarela e frágil. A Berberis está geneticamente muito próxima da Mahonia, e os dois géneros até hibridam; há mesmo botânicos que não consideram a Mahonia como género autónomo. Os frutos da Berberis são em geral comestíveis, e podem aproveitar-se para compotas - mas, no caso da B. thunbergii, não têm um sabor entusiasmante.

O nome Berberis vem da designação árabe para o fruto da planta; thunbergii refere-se ao botânico sueco - e discípulo de Lineu - Carl Peter Thunberg (1743-1828), que trabalhou na Companhia Holandesa das Índias com o propósito de enviar espécimes botânicos do Japão para a Europa, numa época em que os holandeses eram os únicos ocidentais autorizados a contactar com os nipónicos.

22.11.07

Planimundo

Imagine uma maçã a ser fatiada por uma faca: cada fatia é uma figura plana com um formato que recorda o da maçã inteira. Mas, se sempre tivesse vivido confinado a um plano, conheceria apenas as fatias isoladas da maçã: conseguiria ainda assim reuni-las mentalmente e adivinhar a forma tridimensional do fruto?

Este é um dos desafios que Edwin A. Abbott (1838-1926) propõe em Flatland: a romance of many dimensions (1884), uma aventura de percepção num mundo plano, com personagens inspiradas na matemática e regras de relacionamento copiadas da sociedade inglesa do século XIX. Tal como em Platão, estes seres só têm acesso a impressões que resultam de sombras de objectos sólidos projectadas numa parede. Mas é cenário propício para uma sátira aos preconceitos da Inglaterra vitoriana, onde a ascensão social não se fazia por mérito e poucas mulheres tinham acesso ao ensino.

As personagens masculinas, que corporizam o saber racional, são circunferências ou polígonos (triângulos, quadrados, pentágonos,...), sendo tanto mais sábias quanto mais lados tiverem. Os soldados são triângulos, as circunferências - que, encaradas como polígonos com infinitos lados, representam a sabedoria suprema- são os sacerdotes desta história. Nesta sociedade, os filhos nascem com mais um lado do que os pais, o que significa que cada geração sobe um degrau na escala social; mas, naturalmente, os sacerdotes estão impedidos de procriarem. As figuras femininas, que personificam o saber intuitivo, e também conceitos abstractos como a lealdade ou o amor, são meros segmentos de recta. Sendo tão estreitas e tão pouco inteligentes, mal compreendem a linguagem masculina, cujos meandros lhes são propositadamente ocultados. Mas são seres perigosos e temidos: têm o poder de se tornarem invisíveis (um segmento visto da extremidade reduz-se a um ponto) e de, usando o seu formato de agulhas, furarem e destruírem os polígonos.

Hábil no manejo da ironia, Abbott, ao contrário do que é usual em relatos de viagens a mundos exóticos, dá voz de narrador ao anfitrião (um quadrado) e não ao visitante; e o quadrado vai mudando de perspectiva, e de sensibilidade, por influência do que vai ouvindo ao estranho que vem do espaço, apesar das naturais dificuldades de comunicação. Pelo caminho, cruzamo-nos com várias pérolas da geometria que, interpretadas neste mundo, são acessíveis a matemáticos e a leigos.

Abbott foi também estudioso de Shakespeare e são muitas as alusões ao dramaturgo neste livro. Algumas distorcidas, como «One touch of nature makes all worlds akin» - que, no original, da tragicomédia Troilus and Cressida, é «One touch of nature makes the whole world kin». Contudo o livro não refere plantas neste universo achatado; por isso fomos à procura de uma que se pudesse encaixar numa espessura mínima sem se deformar em demasia. Deveria ser vulgar no nosso mundo, para que a reconhecêssemos facilmente mesmo num contexto incomum; e certamente teria de ser uma trepadeira, das que ascendem unidas às paredes da cidade como uma segunda pele, que não temem a ausência de sombra e que pintam aguarela que disfarça o tédio das nossas esquinas.

Ficus pumila

21.11.07

Situação



Nas ruínas de novembro,
a triste jardinagem dos poemas
por abrir.


José Miguel Silva, O sino de areia (Gilgamesh, 1999)

20.11.07

Falso jasmim, falsos jardineiros

A jardinagem pública é, em Portugal, uma arte em vias de extinção. Foi talvez no Porto e na Cordoaria que se iniciou a vaga requalificadora que, sob os auspícios do Polis e de outros programas de cariz semelhante, tem modernizado muitas cidades e vilas do país, substituindo canteiros floridos ao gosto oitocentista por eiras de granito chinês. A vegetação remanescente dessas intervenções já não compõe um jardim: será, no máximo, um espaço verde, com muita relva e nenhuma diversidade. O jardim à moda antiga é visto pelas edilidades como sinal de atraso; e os arquitectos convocados para atalhar o aleijão (sempre os mesmos), padecendo de ignorância ou de gosto atrofiado, são incapazes de conceber um espaço moderno que mereça o nome de jardim. Com o fim dos jardins, desaparecem também os jardineiros. Os profissionais que usurparam esse título, e que trabalham nas câmaras ou em empresas ditas de jardinagem, só sabem executar duas tarefas: operar o cortador de relva ou a motosserra. Chamar-lhes jardineiros é tão descabido como chamar cozinheiro a quem trabalha numa churrascaria.


Cestrum elegans

Os novos edifícios da Faculdade de Ciências do Porto, na rua do Campo Alegre, têm à sua volta grandes relvados, mas nada que se pareça com um jardim. Um arbusto curioso, que terá ido lá parar por equívoco, é esse de flores vermelhas que se vê nas fotos. Os «jardineiros» destacados para a manutenção do espaço não sabem o que fazer com ele: parece-lhes grave desleixo deixá-lo crescer livremente, e já por mais que uma vez, de motosserra em punho, o reduziram a quase nada. Numa ocasião até ensaiaram um arremedo de topiária, tosquiando-o em forma de cilindro.


Cestrum psittacinum

Mas falemos das plantas que ilustram este texto. O género Cestrum é nativo do México e da América do Sul e reúne 175 espécies de arbustos e árvores com folhas simples e flores tubulares, geralmente agrupadas em cachos. É uma planta venenosa e ameaçadora para o gado em regiões como a Austrália, onde a espécie C. parqui se tornou invasora, mas, quando se comporta mais regradamente, é redimida pelas suas qualidades ornamentais, pela fragrância das flores, e por fornecer farto alimento às borboletas. O Cestrum nocturnum é o representante mais famoso do género: só à noite espalha o perfume das suas flores, e é por isso conhecido como night-blooming jasmine. Constou-me que existe um desses arbustos no Parque das Nações, em Lisboa.

Além do martirizado exemplar na FCUP, encontrei já o Cestrum elegans no bosquete da Casa Tait (onde fotografei as flores) e em muitos outros jardins. Quanto ao Cestrum psittacinum, a identificação é baseada numa foto do livro The Botanical Garden (vol. I) de Roger Phillips e Martyn Rix, e não é absolutamente segura; o Cestrum aurantiacum tem flores semelhantes mas aparenta ter folhas mais esguias. Estes dois exemplares foram fotografados no Jardim das Virtudes (há bem mais de um ano, estava ele ainda aberto ao público) e no Cemitério Britânico do Porto.

19.11.07

Baby's got blue eyes


Nemophila menziesii

Baby blue eyes é o nome comum da Nemophila menziesii, planta anual da América do Norte, de crescimento rápido, que aprecia bosques (do grego némos) - e que, ao contrário do que parece, ignora a existência do famoso peixinho cor-de-laranja. Essa designação refere-se ao azul suave das suas flores, e não aos olhos daquele para quem Elton John cantou «Blue eyes / laughing in the sun / laughing in the rain / baby's got blue eyes / and I am home again». Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir encantos tão diferentes.

Um epíteto específico com dois «i's» finais, como menziesii, quase sempre remete a um antropónimo. Desta vez homenageia Archibald Menzies (1754-1842), naturalista escocês cujo relato da viagem de circum-navegação no navio Discovery (Journal of Vancouver's Voyage) é um dos mais minuciosos do género. Um episódio curioso começou num jantar no Chile, durante o qual foram servidas umas sementes que Menzies não soube identificar; Menzies guardou algumas no bolso que, na viagem de volta, germinaram; e a Araucaria araucana chegou à Europa.

18.11.07

Allium alexejanum



«A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite. (...)

Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.»


Fernando Pessoa, Livro do desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

17.11.07

Cabaz de sábado


É um prazer ir às compras semanais na feirinha de produtos biológicos da zona rural do Parque da Cidade.
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Hoje enchi o meu cabaz numa das minhas bancas preferidas: a da Ecoseiva.
Comprei maçãs bravo de esmolfe >, cenouras, batatas doces, nabiça, abóbora e pastinagas > . (O raminho de salvas-ananás e de pampilhos foi-me oferecido pelo Nuno ;-)
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Este não era para ser um post "a propósito de...", mas passa a ser, pois hoje é o primeiro dia da Semana Bio 2007 .

16.11.07

Flor-borboleta

São fotógrafos minuciosos, intransigentes com o erro, hábeis a manusear duas objectivas e um tripé ao mesmo tempo. Sensíveis, não há borboleta azul-turquesa que os não tente: enquanto ela repousa, com as asas a ondularem ao ritmo da respiração, aproximam-se pé-ante-pé de máquina em riste, e começa o demorado ritual de afinar os mil parâmetros que garantirão que a foto será perfeita e a fama certa para ambos; um segundo antes de ele premir o botão, a ingrata decide dar uma corridinha até outra flor.

Conhece algum fotógrafo assim? Eu também. Para estes infelizes, a natureza compadecida criou na América do Norte uma obediente borboleta em flor, a Gaura lindheimeri.



Já encontrámos na flor-aranha esta disposição de 4 pétalas a lembrar-nos uma tiara índia de penas, e a justificar a designação comum Indian feathers. A floração começa com o Verão e estende-se até Novembro, mas, tal como as borboletas, cada flor dura pouco, nascendo branca de madrugada e ganhando tonalidades de rosa até ao fim dela, e do dia.

As flores dispõem-se em hastes finas que tendem a inclinar-se (alguns chamam-lhes mesmo wand-flowers), por isso esta planta é apropriada para escarpas rochosas onde forma graciosas cascatas de flores. É herbácea semi-perene e aprecia clima quente e solos secos, preferindo mesmo temporadas sem rega. Ideal, portanto, para alegrar um canteiro enquanto se poupa água.

Ferdinand Jakob Lindheimer (1801-1879) foi um naturalista alemão que emigrou para os Estados Unidos em 1834 e veio a ser colector de plantas no Texas onde descobriu centenas de novas espécies.

15.11.07

Introdução aos fundamentos - 1.ª aula


Alameda dos liquidâmbares - Parque de Serralves

«Entretanto, os liquidâmbares cansaram-se de esperar e resolveram assumir, unilateralmente, o Outono. Não sei como há quem ainda não tenha reparado e tirado as devidas consequências.» Não é certo que o recado/alusão/insinuação nos fosse dirigido, mas frases como estas fazem-nos sentir em falta. Reconhecida a anormalidade com o lamentável atraso que é inerente a estas coisas, a Manuela começou ontem a tentar remediá-la; esforço a que me junto hoje mostrando a alameda dos liquidâmbares de Serralves em pleno delírio outonal.

Posso recordar, em nossa defesa, que já antes e por mais do que uma vez tratámos do assunto, mas tal desculpa denuncia uma consciência pesada e tresanda a má pedagogia. Em qualquer escola, seja qual for o nível de ensino, todos os anos se leccionam as mesmas matérias. Nenhum bom professor se permite suspirar de enfado diante dos alunos ao ensinar o alfabeto ou a tabuada pela muitésima vez. Se na turma houver repetentes (como os há neste blogue), o professor deve considerar que há quem repita as matérias por gosto, e que é sua função atiçar essa possibilidade de entusiasmo. Mesmo que o reiterado interesse do aluno se esgote na parte introdutória do assunto - talvez para que o excesso de conhecimento não venha, como um holofote no escuro, roubar-lhe mistério e encanto -, é obrigação do professor acompanhar o aluno até onde ele quiser ir.

Quem me ensinou esta deontologia profissional foi a D. Natália. Os cruéis ou inconscientes, como eu próprio já fui, dirão que a D. Natália nunca aprendeu nada e ainda ensinou menos. Mas do que falo é de uma filosofia de vida que se baseia na aceitação calma dos nossos gostos e limitações. A D. Natália foi colega de curso de muitas gerações de estudantes da Faculdade de Ciências. Foi minha colega, como já tinha sido colega dos que me precederam e viria a sê-lo dos que me sucederam; só por acaso não foi também minha aluna. Não comparecia a exames; durante mais de duas décadas, antes de por fim se aposentar, estacionou firmemente no segundo ano do curso, frequentando sempre as mesmas disciplinas. Em cada ano, só era assídua nas primeiras semanas, enquanto não chegava, por exemplo, o teorema da função inversa: o que vinha depois, dizia-lhe a experiência, já não era para ela. Sabia de cor as aulas a que assistia, e apreciava-as com o sentido crítico de um melómano num concerto de música erudita, comparando em tom desfavorável os professores estreantes com os de antigamente. A partitura podia ser sempre a mesma, mas as inevitáveis mudanças - de professores, de colegas, das próprias condições da aula - davam um sabor único a cada ano lectivo. Num ano em que os alunos eram tantos que não havia lugar sentado para todos, ela refilou para o professor: «assim não pode ser». Falava com a autoridade de quem conhecera a faculdade em tempos bem melhores.

Tal como a D. Natália, podemos dizer que um certo jardim anda desmazelado ou que já vimos Outonos mais apurados. Mas dizemos isso porque gostamos de jardins e do Outono. E, tal como ela, não vamos desistir nem de uma coisa nem de outra, mesmo que nunca vamos além das primeiras lições.

14.11.07

Jardim do Liquidambar

«Este jardim, localizado no lado poente da casa, recebe esta designação devido ao notável exemplar de liquidâmbar (Liquidambar styraciflua) aqui existente. É um espaço onde se encontram diversas azáleas e rododendros e é também um espaço de referência no conto de Sophia "O Rapaz de Bronze".» (aqui)

Em cima, à esquerda: o liquidâmbar visto do fundo do Jardim dos Jotas


Para além das referidas plantas, neste jardim mora também um enorme Quercus robur e um jovem exemplar de Ginkgo biloba que está no apogeu da sua "doirada exuberância".

13.11.07

Três modos de ser flor



....Chega impressentida
....Nunca esperada
....Ela que é na vida
....A grande esperada.

....Dos homens, ai! dos homens
....Que matam a morte
....Por medo da vida.

Vinicius de Moraes, Poemas, sonetos e baladas (1946)

A Bidens pilosa é uma herbácea da América tropical muito prolífera que se dispersou facilmente pelo mundo. Sobressai agora nos nossos prados pelos aquénios castanhos feitos de garfinhos de fondue com 5 a 9 mm de comprimento e 2 ou 3 aristas (que justificam a designação latina bidens). Tem múltiplos usos medicinais mas é uma invasora séria em campos de cultivo.

O sol de ontem foi o último a aquecer a flor da foto, envelhecendo-a sem lhe permitir que se apegasse à vida. Hoje já ela se parece mais com um pincel de estames, a que também não sobram muitas horas: em breve nascerá dele um belo aquénio, redondo de sementes ancoradas ao fado de gerar mais flores. Esta morte planeada, anunciada, sem mistérios, ceifa sempre pela ordem certa. Nem parece morte.

12.11.07

Três modos de ser árvore


Taxodium distichum (cipreste-dos-pântanos) - Amarante

Em resultado da pressa que teve em subir acima das suas vizinhas, talvez para ser a primeira e a última a agarrar o sol da cada dia, esta árvore em Amarante apresenta-se esguia e desajeitada como uma adolescente. Mas tem ainda muitos anos de vida pela frente para alargar a copa e engrossar o tronco, tudo sem perder a leveza com que paira sobre as águas do Tâmega quando o rio vai cheio. Como ia em Dezembro passado, estava a árvore já pronta para hibernar; depois ela vestiu-se de verde na Primavera para se pintar de laranja no Outono; e o rio, emagrecido pela chuva que não cai, recuou vários metros, deixando-lhe os pés enxutos. Antes assim não fosse, pois é com o tronco encharcado que ela se sente bem: para poder respirar quando as raízes ficam submersas é que fez brotar os seus inúmeros narizes (ou pneumatóforos).

Originário de lugares húmidos ou alagados no sudeste dos EUA e primo das sequóias, o cipreste-dos-pântanos é uma conífera de folhagem caduca, peculiaridade que o género Taxodium partilha com a Metasequoia e com os lariços (género Larix). Não é uma árvore rara em Portugal, e temo-la visto até em jardins privados; dela conhecemos bons exemplares na Quinta da Aveleda, no Parque das Termas de Vizela e no Parque da Curia, e Ernesto Goes regista outros em Lisboa (jardim de Campo de Ourique, Jardim Botânico da U. L.), em Sintra (Quinta de Monserrate) e em Tondela (Quinta do Paço).

11.11.07

Provérbio


Dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho...
(vai ser agora ao serãozinho...)

10.11.07

Outono por um fio


Alameda de plátanos de Ponte de Lima vista da outra margem, com amieiro em primeiro plano

9.11.07

Bem-me-quer


Lewisia cotyledon - Kew Gardens

..... Escolhi o malmequer
..... para o teu cabelo verde:
..... virá, não virá,
..... perguntava o calafrio
..... da canção que me ensinaste.

José Miguel Silva, O sino de areia (Gilgamesh 1999)

8.11.07

Quercus alba


Quercus alba - Cemitério Britânico do Porto

Eis um carvalho de boa índole, que não gosta de enganar ninguém: a sua semelhança com o nosso carvalho-alvarinho (Quercus robur) é notória e reconfortante - aliás pertencem os dois ao subgénero Leucobalanus (carvalhos-brancos) do género Quercus -, mas as folhas do primeiro são maiores, mais assimétricas e com lobos mais sulcados. O Q. alba reserva o seu momento de glória para o Outono, adquirindo então uma coloração alaranjada cheia de matizes, ao passo que o nosso impaciente conterrâneo brilha logo à entrada da Primavera com o verde-alface da folhagem nova. Em tamanho e longevidade é o Q. robur quem leva a palma, mas não por larga margem, pois o Q. alba também desenvolve uma copa ampla e pode viver centenas de anos. Ambos fornecem madeira valiosa, com lugar importante na história social dos seus continentes de origem.

O Q. alba é originário da costa leste da América do Norte, do sul do Canadá ao Golfo do México. Ao invés dos outros carvalhos americanos que aqui mostrámos, é raramente visto em solo europeu: em Portugal só sabemos deste exemplar no Cemitério Britânico, tão jovem que ainda não produz bolotas, plantado há pouco mais de 10 anos em memória de alguém que lá foi sepultado. Infelizmente a placa que nos dá tal informação erra ao identificar a árvore - que não é um Quercus velutina, pois as folhas dessa outra espécie americana têm os lobos pontiagudos e não arredondados.

7.11.07

Cedros ao pé do lago

clicar para aumentar

Cedros-do-Himalaia (Cedrus deodara) Mosteiro de Tibães >
..
Trata-se sem dúvida de um dos locais mais interessantes da cerca do mosteiro e, sempre que visito o local, saboreio antecipadamente o impacto provocado pela visão dos dois enormes cedros ladeando o estreito caminho que acede ao lago. De acordo com Ernesto Goes, há cerca de um quarto de século, as dimensões destes dois guardiões do lago, que aqui se podem ver de corpo inteiro, eram de 3, 26 m. e 3, 16 m. de PAP e 37 m. de altura. Perto destes cedros monumentais encontra-se "o mais espectacular e belo pinheiro bravo do País"

6.11.07

Grama-preta



Ophiopogon planiscapus "Nigrescens"

Ao contrário do que faz supor a designação vernácula e o formato da folhagem, esta planta do este da Ásia não é uma gramínea, nem sequer suporta o pisoteio como as nossas (demasiado bem conhecidas e gulosas por água) relva-de-estádio (Poa pratensis) ou relva-de-campo-de-golfe (Zoysia tenuifolia): é uma ex-liliácea que agora pertence à família dos dragoeiros. As folhas lineares, finas, invulgarmente pretas e as flores diminutas em espigas curtas mas de um branco-lilás pouco usual dão-lhe lugar de destaque nas bordaduras de jardins - utilização que consta de pinturas chinesas do século XVIII.

Mas há mais vantagens nesta herbácea anã. Propaga-se por divisão de touceira em qualquer época do ano. É de crescimento lento e não requer corte e aparo, poupando-nos àquelas máquinas ruidosas com que os vizinhos decidem, em boa consciência cidadã, gastar os feriados desde madrugada para que o seu relvado bem penteadinho seja um carinho antecipado aos seus convidados da noite. As raízes tuberosas são comestíveis e constam da famosa Famine Foods List de Jiuhuang Bencao; cristalizadas em açucar constituem tonificante tradicional.

O canteiro da foto está no jardim romano do Parque do Arnado, em Ponte de Lima.