30.11.06

"São mais as vozes que as nozes."

Explicação da origem da expressão pelo filólogo brasileiro João Ribeiro:
«A forma primitiva do provérbio é outra. Com varas batem-se as nogueiras, faz-se grande estardalhaço e às vezes as nozes que caem são poucas. Ao fragor demasiado não correspondem os poucos frutos que se colhem. Daí o dizer-se É mais o ruído que as nozes.
É esta a forma com que se encontra na Arte de furtar > quando diz o autor: "A um milhão de emprego claro está que deve corresponder um grandioso lucro; e tal lho deixam recolher, sem se advertir que é maior o arruído que as nozes." Cap. XX, n.59.
O que ainda agrava este caso, é que ao partir as nozes o ruído é grande e o miolo por vezes não há. Somadas as razões é verdade que é mais o ruído do que a noz, ou como diz o poeta dos Ratos da Inquisição>, 167:
"Mais são as vozes que as nozes
P'ra mim n'esta ocasião...
"

Em português preferimos voz a ruído porque voz ruído é, e é rima, e segundo entendo é mais do que rima, é simpatia. Há verdadeira atracção nas formas familiares dos pronomes e noz=nós, desperta vós= voz. E por tanto nozes e vozes, como é também o caso de tiques/miques.
A palavra voz podia perfeitamente substituir a de ruído, pois que significava clamor, grito.

Na Demanda do Santo Graal que é um dos documentos do português arcaico>, vem a expressão em toda a intensidade: "Quando a donzella esto viu, leixou-se caer em terra dando vozes como mulher sandia."pg.93

Nas antigas leis -dar vozes-era gritar o -a que d'el rei! e este sentido (voz=grito) ainda se conserva nos dizeres -À voz do comando; À voz de marche! etc..

Nota: Também existe a locução -vir à noz - que se tornou proverbial, naturalmente pelo equívoco ou frequência do vir a nós (venha a nós -da oração dominical). Vir à noz diz-se da corda da besta que se estica e entesa até alcançar o rebaixo próprio ( a noz). Foi usada na comédia Ulissipo: "Eu também já vou entrando em jogo com a minha gaita, que parecia impossível vir à noz."»

João Ribeiro, FRAZES FEITAS -Estudo conjectural de locuções, ditados e proverbios (Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1908)

Anterior: Deus dá nozes a quem não tem dentes

29.11.06

Hera-alemã



A herbácea da foto, com origem na África do Sul, é da família Asteracea; desde 1999 tem dois nomes científicos em disputa: Senecio mikanioides e Delairea odorata. O primeiro refere explicitamente propriedades das flores (Senecio deriva do latim senex, ancião, em alusão aos capítulos de flores que quando maduros embranquecem e lembram as cãs de um velhinho) e da folhagem, que é brilhante, dentada e com nervação marcada, semelhante à das lianas do género Mikania - termo que homenageia os botânicos checos Johan Christian Mikan (1769-1844) e Josef Gottfried Mikan (1743-1814). Em contrapartida, o segundo está ligado ao jardineiro francês Eugene Delaire (1810-1856), responsável pelo Jardim Botânico de Orléans entre 1836 e 1856, e dá ênfase ao perfume das flores, que é particularmente intenso no Inverno.

Esta planta multiplica-se facilmente por estacas e tolera bem o frio, sendo apropriada para revestir pórticos, caramanchões ou cercas. Mas contém alcalóides tóxicos e pode tornar-se invasora, ou pelo menos agressiva para outra vegetação. Talvez por isso o nome comum inclua o termo hera (alemã pelas flores loiras?). As várias «heras» da nomenclatura conhecida - do Cabo, da Algéria (Hedera canariensis), de canteiro, inglesa (Hedera helix), japonesa, persa, sueca, roxa, vermelha, herinha (Ficus pumila) - são em geral vorazes por solo e espaço, a maioria trepadeiras robustas de folha perene, que se adaptaram a quase todos os habitats e se tornaram daninhas. O exemplar que fotografámos está na rua Miguel Bombarda e, além de se dependurar como um lençol da parte superior de um muro, cobre quase totalmente uma camélia Jane Andresen.

28.11.06

Dedicatória

A todas as árvores que têm tombado com o mau tempo.


Alto-relevo numa lápide do Cemitério Britânico do Porto

27.11.06

Cedro monumental- Mateus


Cedro-do-Himalaia -Cedrus deodara

«No Parque do Solar de Mateus, em Vila Real, um exemplar plantado em 1870, que é constituído por uma rebentação de toiça, com 6 rebentos, cada um com 0,80 a 1 m de diâmetro na base. » Em 1984, Ernesto Goes in Árvores Monumentais de Portugal

25.11.06

Centenário



Se com flores se fizeram revoluções
que linda revolução daria este canteiro!


António Gedeão

24.11.06

Não são só amores-perfeitos

- flores nos jardins do Porto

Palestra pelos autores deste blogue amanhã
(25 de Novembro, sábado), às 18h00, na sede da Campo Aberto
- rua de Santa Catarina, 730 - 2º dir., Porto -


(Esta é só uma das muitas actividades mais ou menos natalícias
que a Campo Aberto lhe propõe para amanhã; consulte
aqui o programa completo.)

RESUMO. Desde há uns anos que muita gente no nosso país deu em desdenhar as flores, por serem pirosas e de modo nenhum compatíveis com um gosto depurado e moderno. Alguma dessa rejeição é genuína, pois afinal há quem abomine sinceramente tudo quanto é vegetal; mas boa parte dela é por ignorância e por mal-avisado espírito de imitação. Um dos sintomas do fenómeno é a crença de que nesses detestados canteiros quase só há amores-perfeitos, que seriam o epítome do decorativismo bacoco. Importa combater tais ideias falsas e preconceituosas - que, no Porto, quase levaram à extinção das flores em espaços públicos (e mesmo em jardins!). As fotos desta palestra - mais de uma centena - são os argumentos que usamos para repor a verdade, aqui sumariada em quatro pontos:

1) a beleza de uma flor não deve ser avaliada à luz dos padrões da arte moderna, pois uma coisa é a natureza e outra a sua representação;

2) os amores-perfeitos também são belos;

3) nos canteiros da cidade (os que foram poupados à destruição) revezam-se ao longo do ano, entre plantas anuais e perenes, centenas de diferentes variedades de flores;

4) o viveiro municipal do Porto é um dos maiores e melhores do país, e a cidade deveria ter orgulho nele; em vez disso, expulsou as flores dos seus espaços públicos mais emblemáticos.

(Foto: Watsonia sp., herbácea sul-africana da família Iridaceae)

23.11.06

"Árvores espontâneas em Portugal"

A propósito do Dia da Floresta autóctone

No livro A Árvore em Portugal de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo RibeiroTeles, constam várias listas de espécies:1- Árvores espontâneas em Portugal; 2-Árvores não espontâneas tradicionais da paisagem portuguesa > ; 3-Algumas árvores características dos jardins portugueses; 4- Mais algumas árvores tradicionais e da paisagem portuguesa. Em baixo reproduz-se a lista do nome comum das consideradas espontâneas.
Aderno-de-folhas-largas
Amieiro
Azevinho
Azinheira

Bordo ou Plátano-bastardo
Carrasco
Carvalho-cerquinho
Carvalho-negral
Carvalho-roble ou Carvalho-alvarinho
Catapereiro
Cerejeira-brava
Choupo-branco ou Faia-branca
Choupo-cinzento
Choupo-negro
Choupo-tremedor ou Faia-preta
Freixo
Lentisco-verdadeiro ou aroeira
Lódão-bastardo

Loureiro
Medronheiro
Palmeira-das-vassouras
Pinheiro-manso

Salgueiro-branco
Salgueiro-frágil ou vimeiro
Sanguinho das sebes ou Aderno-bastardo
Sobreiro
Teixo
Tramazeira
Sorveira
Ulmeiro ou Negrilho

Vidoeiro ou Bidoeiro
Zambujeiro
Zimbro


Para a respectiva designação científica
consultar por ex. a Flora Digital de Portugal (Jardim Botânico da UTAD)
.

22.11.06

Outono agarrado ao muro



Trepadeira-da-Virgínia (à esquerda e em cima) e trepadeira-do-Japão

Irmãs-quase-gémeas separadas apenas pela geografia, estas duas trepadeiras sabem muito bem o que é o Outono, pois sobre essa matéria receberam lições nas melhores escolas do mundo: a Nova Inglaterra (costa nordeste dos EUA) e o Japão. De folha caduca, com um colorido outonal que explora todos os cambiantes entre o verde, o vermelho e o amarelo, pertencem ambas ao género Parthenocissus, da família das vitáceas (onde se inclui a videira); mas, enquanto a trepadeira-da-Virgínia (Parthenocissus quinquefolia) tem folha composta com cinco folíolos de margens dentadas, a sua irmã japonesa (Parthenocissus tricuspidata) tem folhas simples com três lóbulos, muito semelhantes às das videiras.

Como forro vegetal para paredes e muros, as vantagens destas trepadeiras exóticas sobre a hera são inúmeras, e não apenas de ordem estética: por serem de folha caduca, deixam passar o sol nos meses frios; e, ao contrário da hera, não têm o mau hábito de invadir jardins e sufocar todas as plantas lá existentes.

As fotos em cima são dos muros do Cemitério Britânico do Porto.

21.11.06

O Jardim das Virtudes no Dias com árvores- índice

Mecenas para uma Chorisia



A sumaúma (Ceiba pentandra, da família Bombacacea) foi para os índios da América Central a árvore-da-vida. Apreciamos hoje em museus valiosas peças indígenas em cerâmica ornamentadas com representações dos picos típicos do seu tronco. Depois da conquista do México, muitos exemplares desta espécie, que hibrida facilmente e cujas sementes são apreciadas por papagaios, foram disseminados pelos trópicos com a intenção de se produzir paina em larga escala. Ao Porto chegou muito mais tarde, cremos que no fim do século XIX, um exemplar de outra espécie de Ceiba, género que abriga hoje as espécies que tradicionalmente se designavam por Chorisia. Esse famoso exemplar, uma Chorisia speciosa de grande porte e copa larga mas que sofre com o frio nortenho, vegeta no Jardim das Virtudes e está agora no auge da floração como a foto documenta. Espectáculo que só pode ser apreciado ao longe, do Passeio das Virtudes, porque desde 25 de Agosto que o Jardim das Virtudes está fechado ao público.

Acredita-se que não haja verbas municipais para escorar os socalcos, para os cercar com resguardos, para lá plantar mais camélias e outras árvores, para alterar o aspecto degradado da entrada no Jardim. Mas não haverá um mecenas que reconheça o interesse em regenerar este espaço verde, devolvendo-lhe a dignidade e o valor patrimonial que teve no tempo em que era o Horto das Virtudes ao cuidado de José Marques Loureiro, garantindo além disso boa propaganda e generosa dedução em impostos?

20.11.06

Gilbardeira

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.Ruscus aculeatus foto: Tibães, Outubro 2006

Planta dióica cujos frutos são bagas vermelho vivo surgindo na mesma altura que as do azevinho. Ostenta umas características "falsas folhas", designadas por cladódios - talos foliáceos achatados com a forma de folhas. Pode ser classificada tanto na família das Aspargacea como das Ruscacea (>).
Azevinho-espinhoso, azevinho-pequeno ou menor, erva-de-vasculho ou dos-basculhos, gibaldeira, gibardeira, gilbardeira, murta-espinhosa, pica-rato...
Quantos nomes para uma planta? E que nos contam eles? Excepto o sonante "gilbardeira" de origem desconhecida e os seus afins, todas as designações desta planta são prontamente compreensíveis: a forma das falsas folhas tem semelhanças com as da murta; para efeitos ornamentais pode fazer as vezes do azevinho; como pica foi usada para afastar os ratos dos alimentos pendurados; dela também faziam bom uso os talhantes para limpar os cepos onde cortavam a carne, daí o nome inglês de butcher's broom. Por cá faziam-se vassouras, os vasculhos, usadas segundo parece, para limpar chaminés.
Só falta um nome derivado do facto dos seus rebentos serem comestíveis... e outros tantos para nos elucidarem sobre as suas propriedades medicinais. Neste particular os franceses têm pelo menos um: "plante des jambes légères"(>). Mas sobre o valor terapêutico desta planta, que não devia ser ignorado pelos boticários de Tibães, nada melhor do que lermos o relato que a Mrs Grieve faz no seu Herbal, em que, como é seu hábito, transcreve as saborosas recomendações dos antigos herbalistas.

No entanto, a mais valiosa descoberta, ao "vasculhar a web" procurando informação sobre esta planta, foram as páginas Flora Digital de Portugal no renovado site do Jardim Botânico da UTAD (que já não visitava há uns tempos)! Vai passar a ser de consulta obrigatória.

17.11.06

Hospedaria Carvalho



No Bom Jesus do Monte, em Braga, há carvalhos carregados de séculos. Já não seriam jovens quando, há mais de 150 anos, Camilo os visitava em estirados passeios a cavalo, recolhendo cenários e peripécias para as suas novelas; agora que os visitantes chegam de carro aos milhares e as árvores exóticas dominam o parque, os carvalhos caminham para a decrepitude. Que fosse ao menos uma velhice sossegada, um lento decair para a morte; mas a pelo menos dois deles a natureza e a negligência dos homens negaram esse santo fim, obrigando-os a carregar hóspedes indesejados que lhes sugam a seiva já escassa. Trata-se de uma forma de parasitismo a que podemos achar graça no caso da palmeira empoleirada no choupo, árvore que mesmo sem tal apêndice teria sempre vida curta; mas é uma indignidade fazer dos veneráveis carvalhos do Bom Jesus simples porta-enxertos para espécies menos nobres. No tronco de um deles (foto da esquerda) germinou um pinheiro que atinge já envergadura respeitável: a cada dia que passa este centauro arbóreo é mais pinheiro e menos carvalho. Mas o pinheiro é pelo menos uma árvore da nossa flora; ao outro hospedeiro involuntário saiu-lhe em sorte um falso-incenso (Pittosporum undulatum), árvore australiana de vocação expansionista. Vegetando este carvalho no jardim central à frente do hotel, compreende-se mal que os jardineiros não tenham atalhado o fenómeno à nascença. Talvez tenham até gostado do efeito, o que só revelaria um senso estético embotado.

16.11.06

A ler

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A Floresta e os Florestais na História de Portugal (parte I), por Nuno Leitão-no Portal Florestal

Dente-de-leão



A foto mostra o fruto de Taraxacum officinale (ou Taraxacum dens-leonis, planta vivaz da família Asteracea), um aquénio redondo e estriado, composto de penachos brancos que se dispersam facilmente com o vento porque são pequeninos pára-quedas.

O termo taraxacum tem origem controversa: parece ligado ao grego taraksis, perturbação, a que se juntou akos, remédio; mas também ao árabe trahxaqun, chicória selvagem. O epíteto específico officinale refere-se às propriedades medicinais da planta, de que todas as partes são úteis: as folhas são ricas em vitamina A e C, e usadas em saladas; da raíz desidratada, com uso diurético, fez-se outrora bebida (lilás) semelhante ao café que é bom remédio para males do fígado; e as flores, amarelas com pétalas que lembram dentinhos, dão cosmético caseiro para atenuar as sardas.

15.11.06

"o fruto dos frutos"

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Tibães- Novembro 2006
«[...] Mas o fruto dos frutos, o único que ao mesmo tempo alimenta e simboliza, cai dumas árvores altas, imensas, centenárias, que, puras como vestais, parecem encarnar a virgindade da própria paisagem. Só em Novembro as agita uma inquietação funda, dolorosa, que as faz lançar ao chão lágrimas que são ouriços. Abrindo-as, essas lágrimas eriçadas de espinhos deixam ver numa cama fofa a maravilha singular de que falo, tão desafectada que até no próprio nome é doce e modesta - a castanha.
Assada, no S. Martinho, serve de lastro à prova do vinho novo. Cozida, no Janeiro glacial, aquece as mãos e a boca de pobres e ricos. Crua, engorda os porcos, com a vossa licença.[...]»

Miguel Torga, Um reino Maravilhoso (1941)
Ler
texto completo (no Luminescências) com ilustrações de Graça Morais para a edição de 2002

14.11.06

«Aliados encheram-se de flores»



É com este título que a Câmara do Porto noticia a Festa das Flores que, no passado sábado, entre as 10h00 e as 16h00, decorreu na placa central da avenida dos Aliados, outrora um espaço ajardinado, hoje convertido em monótono terreiro de granito. Depois deste arranque, o evento será retomado com periodicidade mensal entre Março e Outubro: haverá flores nos Aliados oito dias em cada ano, em vez dos 365 a que a cidade se habituara.

Além da mostra e curso de artes florais - uma componente da festa que só ganha em ser reforçada -, o evento consistiu em duas dezenas de barracas vendendo ramalhetes de flores importadas da Holanda. Preferindo eu as flores vivas num jardim, a festa não combinava muito com o meu gosto; mas é legítimo que haja quem goste de enfeitar a sua casa com arranjos florais. Só que chamar festa a uma feira onde se vendem exactamente os mesmos produtos holandeses que se encontram em qualquer florista é algo desajustado. Em Portugal não há viveiristas? A própria Câmara não poderia aproveitar a ocasião para dar a conhecer à cidade a vasta produção do Viveiro Municipal? Para que a iniciativa venha a ser «uma referência na cidade», como é desejo expresso do Vereador do Ambiente, a Câmara terá que ser muito mais criteriosa na selecção dos futuros participantes.

13.11.06

Sempre jovem



Com o frio e os agasalhos, parecem-nos agora menos intensos os aromas das flores na cidade. Mas em alguns jardins há um cheirinho doce que mesmo um nariz constipado pressente: o da Ageratina ligustrinum, um arbusto da família Compositae, originário do México e América do Sul, em que até as folhas são perfumadas. As flores brancas têm longos estames e tingem-se de canela quando amadurecidas. Os exemplares que conhecemos estão em Serralves, têm cerca de 3 metros de altura e sempre os vemos juvenilmente floridos; daí o nome Ageratina, do grego agératos, que não envelhece.

11.11.06

Expressões idiomáticas- castanha

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«-Quebrar ou estalar a castanha na bôcca a alguem, fazer alguma cousa que causa ferro ou inveja a alguem.

-Tirar as castanhas do lume com a mão do gato, ou tirar as castanhas do lume sem se escaldar, fazer servir habilmente uma pessoa d'instrumento para chegar a um fim em que a propria pessoa correria risco ou inconveniente.

-Estar assando castanhas na quinta do Pegas, não ter real.»
in VIEIRA, Domingos Frei - Grande diccionario português ou thesouro da lingua portuguesa. Porto : Ernesto Chardron e Bartolomeu H. de Moraes, 1871-1874

Apesar de já aqui terem sido trancritas estas expressões, trago-as de novo à baila não só por ser hoje S. Martinho, dia em que por todo o lado se vão fazer magustos, mas também por, graças à Alexandra, ter ficado a saber na Seta despedida a origem de pelo menos a segunda frase-"Tirar castanhas do lume com a mão do gato"- pelos vistos ainda em uso no Brasil, e deduzo que também em França, na sua versão original "Tirer les marrons du feu".
Provem esta locução de uma das sempre edificantes fábulas do Sieur de La Fontaine: a história de Bertrand, o macaco, que convence Raton, o gato, a tirar umas castanhas assadas do fogo.
Quanto à quinta do Pegas...

10.11.06

O teste da rosa



«Digamos que você tem uma rosa. Uma só. Antes que eu continue, ela me interrompe: de que cor? Pensei na rosa, mas não pensei na cor. Cor-de-rosa, digo. Ela faz uma carinha de quem não aprova. Rosa cor-de-rosa, que falta de imaginação! Branca, me corrijo. Branca, não, ela corta. Vermelha. Tá bem. Uma rosa vermelha. Vermelhinha? Sim, vermelhíssima. Da cor de sangue vivo.

Digamos que você tem uma rosa, recomeço. É a única rosa que existe no mundo. A última? Não interessa. No caso é a única. E é sua. Digamos que você quer dar essa rosa a alguém. E se eu não quiser dar? Aí a história acaba. Continuo? Continua. Você tem que dar essa rosa a alguém. Uma pessoa só? Sim, uma só. Fui dar corda, a menina não pára de falar. Verdadeira matraca. Já quer saber por que tem de dar rosa. Se é dela e única, não vai dar a ninguém. Vai vender.

Mas a história é assim: é a única, a última rosa do mundo. E você tem que passar pra frente. Se não der, ela explode e queima a sua mão. Carinha de nojo, ela resmunga: rosa que explode e pega fogo, essa não. Finjo que não ouço e vou adiante. Você vai entregar essa rosa a quem mais a merece. A faladeira quer saber se a rosa é bonita. Lindíssima, já disse. Fresquinha. A última e mais bela rosa do mundo. Não, não pode guardar. Nem pode vender.

Novas tentativas de sair do script, mas eu fecho todas as portas. Não pode mudar. Não interessa quem inventou. É o teste da rosa. Existe desde o princípio do mundo, digo, convicto. E cale a boca, por favor. Mais um minuto e a rosa estoura na sua mão. Não é bomba, mas estoura. História inventada é assim. Rosa estoura e pronto. Você tem que dar a rosa pra alguém que a merece. A pessoa que você mais ama. Dona do seu coração. Vale, vale tudo. Gente grande, ou criança. Quem você quiser.

Não, não podem ser duas pessoas. Mesmo casadas, morando na mesma casa, não pode. Também não vale. Pétala por pétala, não. É a rosa inteira, perfumada. Uma beleza. Já disse que é a mais bonita do mundo. Nunca mais vai existir outra igual. E depressa, se não explode. Na sua mão, não no vaso. Fresquinha, com gotas de orvalho que brilham como pequenos sóis. Vamos logo, quem? A quem você dá essa rosa? Ela sorri, zombeteira, e me faz a pergunta fatal: você está crente que eu dou pra você, não está?»


Otto Lara Resende, Bom dia para nascer (1993)

9.11.06

Divulgação

Plantas Aromáticas e Medicinais - Sua Utilização e Conservação
Seminário dia 24 de Novembro (sexta-feira), em Beja
Organização: Naturlink e Museu Botânico da Escola Superior Agrária de Beja


Jardim das Aromáticas - Serralves

«É objectivo da organização que o Seminário seja não só muito útil e interessante para técnicos, investigadores e estudantes, empresários, gestores, ambientalistas, e decisores, que trabalham ou venham a trabalhar nestes temas, como seja também um evento que chame a atenção de uma opinião pública particularmente receptiva para os trabalhos que estão a ser desenvolvidos nesta área e para a importância actual e potencial da utilização e conservação das plantas aromáticas e medicinais. (...)»
As inscrições deverão ser efectuadas até amanhã dia 10 de Novembro

(Que pena ser a uma sexta-feira, dia de trabalho!).

8.11.06

Perpétuas-roxas



A Gomphrena globosa é uma amarantácea da América tropical que se adaptou ao frio europeu e tolera solos pobres. As flores são minúsculas mas as brácteas - que parecem de papel como as da Celosia - formam inflorescências de pé alto (gomphrena deriva do grego gomphos, prego), redondas (globosas), brancas, violeta, púrpura ou carmim; e uma das designações comuns em inglês para esta herbácea é precisamente bachelor's button.

A planta contém substância anti-asténica usada tradicionalmente na farmacopeia africana e amazónica; e também na portuguesa, como infusão milagrosa que aclara a voz das fadistas. Além disso, dela se fabrica um corante violeta. E, quando em pleno sol, atrai irresistivelmente as borboletas.

7.11.06

Jardim Soares dos Reis: destruição consumada


(antes)

Com a inauguração há poucos meses do Corte Inglês na avenida da República, que se juntou ao Arrábida Shopping, Gaia Shopping, Carrefour e Aki, Vila Nova de Gaia deve ter assegurado, por larga margem, o título de campeã nacional de shoppings e monstros aparentados. Mas tal galardão não basta ao ambicioso munícipio, que persegue outro título de modernidade com incansável denodo: o do concelho do país com maior número de zonas urbanas ou residenciais dilaceradas por vias rápidas. Um peão desprevenido que deambule por alguma velha rua de Santa Marinha ou de Mafamude vê-se de repente, sem saber como foi lá parar, empoleirado num viaduto sobre um trânsito atroador ou encurralado por uma rotunda intransponível.

Sem se poderem considerar aprazíveis (poucas zonas urbanas de Gaia o são), as ruas confluentes com o Jardim Soares dos Reis compunham um quadro urbano aceitável, misturando habitação, escolas e algum pequeno comércio. Em poucos anos tudo mudou: a gigantesca torre na rua Visconde das Devesas onde funciona um hotel (e cuja atribulada construção se arrastou por mais de uma década) violentou toda a escala dos edifícios envolventes; e as vias rápidas, que com o seu trabalho de toupeira iam minando o lugar das Devesas, atacaram o jardim, pulmão e oásis de toda a zona.

Sabia-se desde Fevereiro passado, como aqui anunciámos, que as obras planeadas - construção de um túnel e de estacionamento subterrâneo - iriam afectar consideravelmente o jardim. O que não adivinhávamos é que a destruição atingisse tal grau, com a metade norte do jardim, já de si pequeno, engolida por obras ou cortada para desvio do trânsito - e isto enquanto uma zona de estacionamento contígua permanece intacta. Salgueiros, carvalhos, choupos, camélias e numerosos outros arbustos desapareceram sem dó e sem medida: aquele que era o único espaço de lazer de muitos moradores foi selvaticamente amputado.

Ao desbaratar sem compunção um dos dois escassos jardins públicos do seu centro urbano, Gaia mostrou em definitivo que não tem categoria nem vocação para ser cidade. Os seus parques verdes - poucos e pequenos para um concelho com 300.000 habitantes e área quatro vezes superior à do Porto - não substituem os lugares de convívio à porta de casa que são os jardins urbanos. É com gente a pé, e não ao volante de um automóvel, que se cose o tecido social e se promove a apropriação pública dos espaços; de outro modo, em vez de cidades, o que temos são dormitórios.


(depois)

6.11.06

Apelo!

. .

Pavão - Avenida das Tílias, Jardins do Palácio (0402)
"Que sont nos amis devenus ...?"
Pelos vistos estão engaiolados, parece que há já cerca de seis meses, eles e a restante "basse-cour" que costumava animar os jardins. Por causa da gripe das aves. Será razoável? Necessário? Agradável e reconfortante não deve ser, nem para os próprios nem para os seus amigos. Há até quem divulge apelos pela sua libertação.
.

A música barata

.
Paloma, Violetera, Feuilles Mortes.
Saudades do Matão e de mais quem?
A música barata me visita
e me conduz
para um pobre nirvana à minha imagem.

Valsas e canções engavetadas
num armário que vibra de guardá-las,
no velho armário, cedro, pinho ou...?
(O marceneiro ao fazê-lo bem sabia
quanto essa madeira sofreria.)

Não quero Handel para meu amigo
nem ouço a matinada dos arcanjos.
Basta-me
o que veio da rua, sem mensagem,
e, como nos perdemos,
se perdeu.

Carlos Drumond de Andrade (Antologia Poética, 1962)
.

4.11.06

Procura-se nome comum



Esta rosácea do Velho Mundo, Cotoneaster franchetti, não tem designação vernácula em português que faça justiça às belas inflorescências brancas que na Primavera cobrem os ramos como neve e à abundância de vermelho que nesta altura exibe. Cotoneaster deriva do latim cotoneum, marmelo, talvez pela semelhança da folhagem entre as duas plantas; franchetti homenageia o taxonomista francês Adrien Rene Franchet (1834-1900), que trabalhou no Museu de História Natural de Paris e escreveu extensa obra sobre a flora chinesa e japonesa - em particular o livro Plantae Delavayanae (1889), baseado nas amostras recolhidas pelo missionário jesuíta Jean Marie Delavay (1834-1895).

Neste género os frutos nascem agregados e permaneceriam no arbusto por longo tempo não fossem tão apreciados pelos pássaros. O exemplar dos jardins do Palácio de Cristal foi poupado a podas insensatas e tem uma ramagem notável; além disso, e porque nos climas frios como o nosso a frutificação é intensa, a sua copa vermelha parece agora o telhado de uma casinha de brincar.

3.11.06

Outono na reserva urbana


Porto

1) O campo começa onde a cidade acaba? Entre duas portagens de auto-estrada, é o campo que se desenrola para nos castigar a vista? Sou então tentado a concluir que o Outono português é fenómeno puramente urbano, e a dar-me por muito feliz com as folhas secas que, cumprindo o calendário, rodopiam nos passeios da minha cidade. É que nesse campo postiço de eucaliptos, acácias e pinheiros, com umas oliveiras lançadas aqui e ali para disfarçar, nenhuma árvore reconhece a autoridade cromática do Outono: o verde imutável alterna com o cinza do arvoredo queimado.


Coimbra

2) Enquanto não se vulgariza o tele-transporte, o viajante em Portugal não se livra de ver a paisagem; mas, quando o destino é especial, o suplício de testemunhar o nosso escalavrado país logo se esquece no termo da viagem. O Jardim Botânico de Coimbra, explicado pelo Professor Jorge Paiva numa luminosa tarde de Outono, é o melhor lugar do mundo, onde as plantas e as histórias que elas evocam nos falam dos quatro cantos da Terra.

2.11.06

A florir

numa das estufas do Jardim Botânico de Coimbra: "A Rainha-dos-nenúfares" (Victoria amazonica) ontem, antes da primeira noite.


«Existe uma história lindíssima entre os índios da Amazónia que explica o aparecimento da Victoria amazonica. Conta a lenda que uma índia chamada Naiá apaixonou-se por Jaci, a lua.(...) » Ana, in A Paixão dos sentidos> cont.a ler "A estrela dos lagos"

Ver: GalleriesVictoria amazonica

1.11.06

Árvores monumentais

do Jardim Botânico de Coimbra mencionadas por Ernesto Goes (1984)

Vista panorâmica: ao centro, por detrás das palmeiras, a copa da Ficus macrophylla (árvore da borracha)
e ao lado direito, o cimo do Cedrus deodara (cedro-do-Himalaia).

Araucaria bidwillii (sem referência de medidas),
Ficus macrophylla, "o maior exemplar existente no País com 11, 5 m de PAP e 32 m de diâmetro de copa;
Cedrus deodara, "com 3, 40 m de PAP e 30 m de altura";
Eucalyptus cornuta, "o maior exemplar existente no País (...) tendo 4, 20 m de PAP e 37 m de altura";
Eucalyptus obliqua "com 5,53 m de perímetro do tronco e 43 m de altura";
Eucalyptus viminalis com "4,8 m de perímetro";
Grevillea robusta, "o mais velho e grosso exemplar que se conhece (...) com 4,2 m de PAP (...) 29 m de altura";
Washingtonia filifera;
Avenida das Tílias.
TPC para a visita de hoje ...

A ler

"Tudo" sobre a abóbora- no Botany Photo of the Day

Abóbora em cima de muro - Mosteiro de Tibães, Outubro de 2006
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