31.8.05

Falsa pimenteira

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Fotos agosto 2003
Pimenteira-bastarda em flor no Jardim de Serpa; frutos - árvore em Albufeira


Na região do Algarve, sobretudo nos jardins públicos e ruas das vilas e cidades, a pimenteira-bastarda (Schinus molle L.) é uma árvore ornamental bastante comum. Será que as pessoas sabem que os frutinhos - umas drupas de 6-7 mm de diâmetro, globosos, lustrosos, rosados, com uma só semente (in Árvores de Portugal e Europa) - que pendem, aromáticos, desta árvore, são os que aparecem também nos frasquinhos de pimenta com grãos multicolores que se compram nos supermercados?

A história do nome desta árvore da família do cajueiro (Anacardiaceae, como aqui já se referiu) fica para depois; entretanto transcreve-se parte da sua descrição tal como aparece na novíssima reedição do Guia Fapas (p. 226):

«Árvore ou arbusto de folha persistente, até 12 m. Ramos esbeltos, pendentes. Raminhos jovens glaucos. Folhas alternas, pinuladas; folíolos (...) fortemente aromáticos quando esmagados. (...) Inflorescência uma panícula axilar ou terminal, pouco compacta até 25 cm; flores cerca de 4 mm de diâmetro, com 5 pétalas branco-amareladas (...). Floração: Junho-Dezembro. Nativa da América Central e do Sul, é plantada como ornamental no S. da Europa, tendo-se naturalizado em alguns locais. (...)»
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30.8.05

Nos jornais: "Árvores classificadas estão de 'boa saúde'"

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Notícia do dia 28/08 n' O Primeiro de Janeiro
«(...) Chama-se Eucalyptus diversicolor Müller, 'vive' no que resta da Mata Nacional de Vale de Canas, em Coimbra, e foi plantado no final do século XIX. Com 75 metros de altura e mais de 30 metros de tronco limpo de ramos, é a mais alta árvore da Europa. Sobreviveu ao incêndio do último fim de semana. À semelhança desta, e de acordo com o técnico responsável pela mata, Francisco Pinto Bravo, outras "árvores classificadas encontram-se de boa saúde".
O aviso está afixado à entrada da mata, em cartazes que alertam os visitantes para os perigos decorrentes do incêndio que afectou cerca de 80 por cento de um dos pulmões de Coimbra:"Em resultado do fogo que destruiu parcialmente a mata, algumas árvores, pinheiros e cedros, foram gravemente afectados, podendo cair a qualquer momento".
Isto para além de o Instituto de Conservação da Natureza já teve o cuidado de, "rapidamente, mandar cortar algumas árvores situadas perto das vias de comunicação e do parque de merendas da mata, prevenindo possíveis acidentes".
No entanto, refere ainda o aviso do ICN, "como no interior da mata ainda existem muitas que, provavelmente, irão cair, apelamos ao visitante para durante os próximos dias evitar zonas onde exista uma maior densidade de arvoredo queimado". Algumas destas áreas estão já delineadas por fitas de cor vermelha e branca e são bem visíveis. Ainda de acordo com a nota de Francisco Pinto Bravo, "o ICN está já a tomar medidas conducentes à recuperação da mata".
Vale de Canas, juntamente com o Jardim Botânico e o Parque de Santa Cruz, era um dos maiores espaços verdes da cidade. Nas várias casas que circundam a mata são visíveis os estragos causados pelo fogo em sebes e jardins ardidos, num cenário desolador.»

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Na rua


Foto: pva 0508

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço de tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Carlos Drummond de Andrade, A flor e a náusea (in A rosa do povo, 1945)

29.8.05

As vistas deslumbrantes


Guimarães vista do miradouro da Penha

É uma daquelas parelhas clássicas: as vistas existem para ser deslumbrantes, e a beatitude do deslumbre só se atinge perante as vistas; por isso, enquanto houver português para maltratar a língua, ou agências imobiliárias para vender apartamentos no décimo andar, esse substantivo e adjectivo têm que cumprir, inseparáveis, o seu destino.

O deslumbre que a vista induz é proporcional à altitude a que está situado o observador e à largueza do panorama observado. A qualidade do que se vê - a harmonia e o ordenamento das partes que constituem a vista - não é tida em conta no cálculo do deslumbre - caso contrário, pelo menos em Portugal, o conúbio entre os dois vocábulos teria há muito terminado por incompatibilidade semântica.

Tudo a postos para calcular o coeficiente de deslumbre do miradouro da Penha? Aqui vão os dados necessários: dele se avista, a uma diferença de altitude de cerca de 400 metros, todo o núcleo urbano de Guimarães - que é uma cidade com carácter, amiga dos peões, bonita de se ver... ao perto. Ao longe - bom, mas o melhor é mudarmos de assunto, na certeza de que a sua rival Braga fica bem mais desfavorecida se retratada em idênticas condições.

Não se deduza daqui que não vale a pena subir ao monte da Penha. Para começar, a viagem no teleférico é um excelente sucedâneo, para adultos acomodados, das emoções da velha e desprestigiada roda-gigante. Ultrapassadas as primeiras tonturas, reparamos nas árvores que por vezes quase roçam na cabine: além dos eucaliptos, há, monte acima, muitos e grandes carvalhos-alvarinhos. Ficamos a pensar que, mesmo tendo já pago bilhetes de ida-e-volta, valia a pena descermos a pé.



Pseudotsuga menziesii junto ao Santuário da Penha

Lá em cima, e além do santuário, do miradouro, dos piqueniques e das caravanas de comes-e-bebes, descobrimos um arvoredo acolhedor (carvalhos na sua maioria, mas também sobreiros, medronheiros, ciprestes, cedros e tílias), caminhos cheios de meandros, musgosas rochas descomunais. E deparámos com esta Pseudotsuga menziesii, talvez a mais volumosa da sua espécie que conhecemos em Portugal. Ela que se acautele, pois se continua a crescer assim ainda lhe penduram no topo o sino do igreja, para que o vento leve mais alto e mais longe o repicar das Avé-Marias.

Fotos: pva 0508

28.8.05

Conquistas

«Nunca foi grande entre nós o culto das flores e dos vegetais curiosos. Em épocas aventurosas, quando os nossos grandes heróis regressavam das suas épicas viagens, das celebradas excursões extraordinárias por esplendorosos países desconhecidos, traziam tecidos de preço, riquíssimos objectos de prata e oiro, montões de pedrarias, animais e aves exóticas, mil curiosidades diversas que eram o espanto dos conterrâneos, tudo, excepto os espécimes do reino vegetal, as assombrosas maravilhas das florestas virgens, as mil formas diversas, desconhecidas, de vegetais extravagantes que pela primeira vez se deviam apresentar dominadoramente ante os seus olhares absortos. Deviam... mas parece que os nossos antigos viajantes não se preocupavam muito com tais primores. Dominava-os de tal forma a sede de glória e do oiro e o ardor dos combates, que não tinham olhos para ver mais nada, de modo que nós, os portugueses, que podiamos e devíamos ter inundado a Europa de vegetais novos trazidos do extremo Oriente, da Ásia opulenta, da África, da América e da Oceania, limitámo-nos à importação de um ou outro fruto - homenagem à gulodice - e quasi por aí ficámos.»

Eduardo Sequeira, Guia do forasteiro no Porto e Província do Minho (ed. F. Lopes, 1895)


Foto: pva 0508 - Gardenia jasminoides

A Gardenia jasminoides, da família Rubiaceae, é originária do sul da China e Japão. O nome do género, que inclui cerca de 200 espécies, homenageia o botânico escocês Alexander Garden (1730-1791). As folhas são brilhantes e coriáceas, as flores brancas, cerosas e muito perfumadas. O fruto tem polpa amarela que se usa como corante alimentar ou pigmento em tinturaria. Consta que esta planta chegou à Europa a meio do século XVIII pela mão do naturalista francês Pierre Poivre (1719-1786), que criou na Ilha Maurícia (então colónia francesa, no sudeste de África) um recanto de plantas exóticas, o hoje afamado Jardim Botânico de Pamplemousses.

27.8.05

Jerivá



Fotos: pva 0508 - Prado do Repouso: Syagrus sp. (em primeiro plano à esquerda; pormenor da coroa à direita) e Washingtonia filifera

A entrada norte do Prado do Repouso é pontuada por 7 palmeiras centenárias, de belo porte, que acentuam o carácter de cemitério-jardim deste espaço. Estão dispostas em fiadas distintas, duas de sentinela mesmo junto ao portão e as restantes mais atrás, a descrever meia lua.

Cinco destes exemplares são da espécie Washingtonia filifera, com folhas em leque, enfeitadas de filamentos que dão o nome à espécie, e uma saia na coroa formada pelas folhas secas que permanecem presas ao espique. É conhecida por palmeira-de-saia-da-Califórnia, nome que também alude à sua região de origem.

As outras duas são do género Syagrus e, julgamos, da espécie romanzoffiana; a ser assim, daqui a pouco tempo a inflorescência que se vislumbra numa das fotos - protegida por grossa bráctea em forma de colher, lenhosa e sulcada na parte externa - transformar-se-á numa espectacular «crina de cavalo» amarela, pendente e penteadinha. Esta espécie, de nome vulgar jerivá, é muito cultivada com fins paisagísticos no sul do Brasil e por isso temos esperança que algum amigo brasileiro nos confirme esta identificação. (Ao lado vê-se o fruto, que tem cerca de 2,5 cm de comprimento e 1,5 cm de espessura.)

Anterior na mesma série

26.8.05

"A árvore mais alta da Europa"

A propósito do incêndio na Mata Nacional de Vale de Canas (ver imagem das chamas no Alcatruz)
e da notícia segundo a qual esta célebre árvore se terá salvo.

«Em publicação anterior afirmámos que "em Portugal há eucaliptos que são as árvores mais altas da Europa" e talvez as mais volumosas. Esses eucaliptos mais altos situam-se na Mata Nacional de Vale de Canas, próximo de Coimbra, e têm cerca de 70 m de altura. Esta nossa afirmação, "que em Portugal há eucaliptos que são as árvores mais altas da Europa", dita no Congresso de eucaliptos realizado pela FAO em Lisboa em 1960, caíu como uma bomba em tão selecta reunião, e só foi aceite como verdadeira quando os congressistas, na excursão de estudo que realizaram posteriormente, tiveram a oportunidade de admirar essas maravilhosas árvores. Sobre este assunto, mais tarde (em 1965) o prof. Jaime Pardé, Director da Estação de Silvicultura e Produção do Centro Nacional de Investigação Florestal de Nancy (França) e autor de vários livros lidos mundialmente por todos os técnicos florestais, escreveu-nos uma carta que em parte reproduzimos:

"Eu recebi recentemente Os eucaliptos de Portugal que apreciei com muito interesse. Preparando do meu lado um pequeno livro sobre a floresta, eu consagro um pequeno parágrafo às árvores mais altas do Mundo e da Europa. Eu julgava, antes da leitura do vosso livro, que o campeão era uma Picea romana, mas li na página 115 (Eucaliptus diversicolor) que existia um exemplar com 65 metros de altura na mata de Vale de Canas. Nestas circunstâncias, então será a árvore mais alta da Europa."

Em resposta confirmei que esse eucalipto tinha sido medido com todo o rigor e que tinha 64,70 metros de altura. Em 1974, em Vale de Canas foi medido esse eucalipto, assim como alguns E. globulus, cujas alturas a seguir se apresentam: E. diversicolor...60,50 m; E. globulus...66,50 m; E. globulus...66,00 m. Presentemente estes eucaliptos foram de novo medidos, tendo uma altura um pouco superior.»

Ernesto Goes, Árvores Monumentais de Portugal (1984) , p. 16

25.8.05

Lavandeira


Foto: pva 0508 - Largo da Lavandeira, Oliveira do Douro (Gaia)

No passado sábado, 20 de Agosto, foi inaugurado na freguesia de Oliveira do Douro, em Gaia, o Parque da Lavandeira, uma nova área verde com cerca de onze hectares. Lavandeira! Conheço este nome desde criança, pois, embora não morássemos lá mas numa rua próxima, cruzávamos diariamente, eu e a minha família, o Largo da Lavandeira: era aí que tomávamos transporte para o Porto; é aí que desemboca a Rua Raimundo de Carvalho, que liga à Avenida da República (antes chamada Avenida do Marechal Carmona); no largo existia e existe a oficina onde muitas vezes mandei consertar a bicicleta. Passei pelo largo milhares de vezes; também milhares de vezes fiz a pé os 2 Kms até Gaia, onde estudava (Oliveira do Douro não era Gaia).

Impressões de um regresso fortuito? Toda a freguesia foi retalhada, por vezes brutalmente, pelas novas vias rápidas e nós de acesso. Só por loucura me aventuraria agora a pé pelo antigo percurso; e só pais irresponsáveis consentiriam hoje que os seus filhos cometessem tal caminhada. A Rua Raimundo de Carvalho foi alargada e asfaltada, mas continua sem passeios; e surgiram duas gigantescas rotundas que nenhum peão poderá circundar sem perigo de vida. As urbanizações, que começaram em Mafamude, em torno do cemitério e do liceu, vieram alastrando, engolindo campos agrícolas, e ocupam já a ladeira que antecede o largo. Só a Lavandeira continua inalterável: os mesmos prédios, as mesmas lojas, o mesmo cedro no jardim do prédio à entrada do largo, os mesmos plátanos bordejando a placa triangular. E só agora tomo consciência de que este é o único largo arborizado em toda a freguesia, e estes quinze plátanos são quase as únicas árvores em espaço público num território de 7,5 Km2 com mais de 23000 habitantes. (Não é exactamente assim: há árvores junto à igreja paroquial e na rua que a ela conduz; e o Areinho e o Monte da Virgem, locais bem arborizados, ainda pertencem à freguesia. Mas largo como este, com casas à volta e árvores no meio, não há outro em Oliveira do Douro.)

Cá estamos no Largo da Lavandeira. Por onde se entra no Parque? Não é pelo portão da Quinta da Lavandeira, que ainda dá acesso a propriedade privada. Avançamos pela Rua do Conde Silva Monteiro e, uns seiscentos metros adiante, numa Rua de Almeida Garrett com ar de recém-estreada, vê-se o anúncio do Parque da Lavandeira em letras garrafais; ao lado, e um pouco abaixo do nível da rua, abre-se uma vasto estacionamento. É óbvio que o Parque da Lavandeira não quer conversa com o Largo da Lavandeira: não é um parque urbano, integrado na malha de ruas e na vivência quotidiana de um lugar, mas tão só um parque para quem chega e parte de automóvel.

Tirando isso (e tirar isso é tirar muito), o parque é resultado de trabalho meritório, tanto paisagístico como no aproveitamento da vegetação remanescente de uma propriedade que ficou ao abandono durante décadas. A brochura sobre o parque e a história da antiga quinta, concebida pela equipa do Parque Biológico de Gaia (que também dirigiu os trabalhos do novo parque), está bem elaborada e é muito informativa. Voltaremos ao assunto.

24.8.05

Ler no Naturlink: "Um avião europeu de combate aos incêndios florestais"

«Um avião europeu? Toda a floresta portuguesa tem dono, mas só uma fracção dela tem gestor. É bom não confundir as duas coisas. A floresta que não tem gestor está abandonada e é essa floresta abandonada que está na origem do problema dos incêndios.
Carlos Rio Carvalho, Engº Silvicultor ? ERENA (24-08-2005)»

Provérbio - castanha



«Em Agosto deve o milho ferver no caroço e a castanha no ouriço.»

23.8.05

Cidade de gatilho fácil

O Porto é, cada vez mais, uma cidade que se habituou a trucidar as suas árvores: desde que tomou o gosto à serra eléctrica e ao cheiro da madeira cortada já não consegue controlar o ímpeto arboricida. Terá sido com a Porto 2001 que a cidade compreendeu, num frémito destruidor, que as árvores também se abatem, bastando para tanto a vontade de quem as quer abater; não tardou que a Metro do Porto seguisse e ampliasse esse exemplo (tanto assim que foi galardoada com um merecido certificado de mérito arboricida); mais recentemente, é a própria Câmara que não deixa esmorecer a campanha.

Exemplos? Além da Av. da Boavista, transformada pela Câmara e pela empresa do Metro num escaldante deserto de asfalto, também a Rua D. Manuel II perdeu as tílias à frente do Museu Soares dos Reis; e, para completar a carecada na zona, foram há dias abatidas as árvores (áceres), algumas delas jovens, do lado do Hospital de Santo António na Rua Alberto Aires Gouveia, supõe-se que para permitir a colocação da linha do eléctrico. (É curioso que, quando realmente lá passavam eléctricos, as árvores se puderam manter; agora que se põem carris por onde talvez nunca passe qualquer eléctrico, considerou-se necessário tirar as árvores.)

Mas o pior foi o recente abate do centenário plátano no gaveto das ruas Damião de Góis e Antero de Quental. O terreno onde se situava a árvore, usado como aparcamento caótico, estava vazio e há muito aguardava construção. O que não se esperava é que este plátano, um dos mais volumosos da cidade e uma árvore de valor inestimável, fosse abatido com o início da empreitada. Qualquer arquitecto inteligente saberia integrá-lo no novo edifício; qualquer câmara municipal consciente exigiria a preservação desse verdadeiro monumento verde. Nada disso sucedeu e o plátano já não existe; o seu abate representa uma perda irrecuperável. Será que a Câmara perdeu o juízo? Ou o Regulamento dos Espaços Verdes foi conversa para entreter pacóvios?

Castanheiro monumental - Fóia


Foto: castanheiro monumental (Castanea sativa) na Fóia, em Monchique no Verão de 2002

«Castanheiros
Os castanheiros, posto que só medrem nos arredores de Monchique, talvez, ou de certo antes, por não os semearem em outros sitios analogos, fornecem bastantes artigos não só para o consumo do Algarve, e baixo Alemtejo, mas para a exportação estrangeira; taes como barrotes, morilhos, pontas, couceiros, aduelas, arcos de tonel, pipa, e barril, ripa, e castanha verde e pelada. Da madeira destas arvores se fazem, álêm do vazilhame para adegas, algumas cadeiras, bancas, e caixas toscas e grosseiras. Póde haver em todos os corgos da serra; algumas há em outras freguezias, e por desmazelo e incuria não estão mais propagados; o que bem conviria pelo lucro que deixão, e certerza de consumo interno.»


in LOPES, João Baptista da Silva, Corografia ou memória económica, estatística e topográfica do reino do Algarve, Academia Real das Ciências de Lisboa, 1841 ( edição facsimilada da Algarve em Foco, 1988) , p. 150

Este ano ainda não fui à Serra na minha quase peregrinação anual! Quero andar arredada da tragédia, não vejo telejornais, salto as páginas dos incêndios... Mas apesar de todos os estratagemas não consigo fugir aos telefonemas da família nem às notícias de que também os pinhais e outras árvores da família da C** arderam, (em Vila Real). Ardeu quase tudo! Fogo posto! A mãe de mais de oitenta anos teve de ser evacuada e está agora na cidade...

Por isso (e ao contrário do ano passado) ainda não fui à Serra de Monchique e não sei se este belo castanheiro também ardeu. Este e outros, para além de uma jovem plantação levada a cabo pelos alunos e professores de algumas escolas algarvias, e que nesse Verão de há três anos tinha ido visitar com umas amigas.

22.8.05

Paz aos vencidos


Foto: pva 0508 - Butia eriospatha junto ao mausoléu aos vencidos, Prado do Repouso, Porto

Os cemitérios portugueses cumprem fielmente as últimas (e primeiras) vontades de um povo dendrófobo, que nem na morte quer árvores por perto: são duras mortalhas de pedra sem o alívio de uma pincelada verde. Mas há excepções à regra: os primeiros cemitérios públicos do Porto, o do Prado de Repouso (1839) e o de Agramonte (1855), construídos na época dos grandes jardins privados e do entusiasmo generalizado pela horticultura, ainda receberam uma arborização comparativamente abundante. No cemitério do Prado do Repouso, por exemplo, há das maiores japoneiras do Porto (e do país) e uma alameda de grandes tulipeiros que se estende por centenas de metros.

Entrando no cemitério pelo largo do Padre Baltasar Guedes, encontramos o mausoléu aos revoltosos republicanos de 31 de Janeiro de 1891 com a legenda a paz aos vencidos inscrita na base; foi inaugurado em 1897, era ainda Portugal uma monarquia. À sua frente, formando esparsa cortina, plantou-se um alinhamento de magnólias-de-Soulange; a seu lado, servindo-lhe de sóbrio contraponto, ergue-se uma palmeira com cerca de cinco metros de altura. Embora pequena, é uma palmeira perfeitamente proporcionada, arrumadinha como as donas-de-casa nos anúncios antigos. A Manuela já antes aqui falou de uma palmeira presumivelmente da mesma espécie no Parque de S. Roque; concluiu-se então, com a ajuda de um amigo brasileiro, que se tratava de uma Butia eriospatha, endémica das regiões temperadas do sul do Brasil.

Também há, no Prado do Repouso, coisas bonitas em ponto grande. Lá voltaremos para as admirar.

21.8.05

Jardins


Foto: pva 0506 - Nymphaea caerulea

«As casas que os possuíam vão sendo substituídas por outras construções e cada palmo de terra anda tão valorizado que é difícil encontrar quem o defenda para domicílio de uma planta. (...) A sensação de beleza, o sentimento de perfeição que residem na harmoniosa arquitetura das flores são lições para a vida humana. Pudéssemos ser também assim, tão exactos como as flores em suas pétalas, tão silenciosos na realização de um destino impecável, e tão prontos para morrer no momento justo! (...)

Tudo isto me ocorre porque estou diante de uma flor. De uma simples flor, fiel à sua genealogia, à sua linguagem, ao seu prazo de vida. (...) Assim estou (guardadas todas as distâncias), diante da minha flor solitária, que resume, na sua simples presença, muitos ramos, muitos jardins, muitos campos floridos. E contemplo-a com muito amor, porque amanhã certamente já teremos outro rosto; e ela não sabe, mas eu sei o que é sobre qualquer rosto, a passagem de cada dia.»

Cecília Meireles, Folha [de S. Paulo], 1964

20.8.05

Fado de repetição


Alecrim é rei das ervas,
O ouro, rei dos metais;
Rosa, rainha das flores;
Leão, rei dos animais.


Deus é rei universal;
Homem, rei da criação;
Rei dos sábios, Salomão;
Rei dos sabores o sal;
Rei das matas o pinhal;
Capitão, rei das catervas;
Virgem, rainha das servas;
Romã, rainha dos frutos.
O trigo é rei dos produtos;
Alecrim é rei das ervas.

É o mar o rei das fontes;
Cruz, das armas é a rainha;
Baco é rei de toda a vinha;
O Sinai é o rei dos montes;
O navio é o rei das pontes;
Foi Adão o rei dos pais;
Coral rei dos minerais;
Rei das amarguras o fel;
Rei dos doces é o mel;
O ouro, rei dos metais.

Rei da riqueza o trabalho;
Águia, rainha das aves;
Dó é o rei dos sons suaves;
Rei dos martelo, o malho;
Rei dos dentes é o alho;
O vinho, rei dos licores;
Cupido, rei dos amores;
Rei dos poetas foi Dante;
Rei das pedras o brilhante;
Rosa, rainha das flores.

Rei dos ventos é o Norte;
É o Sol o rei dos astros;
Traquete é rei dos mastros;
Rainha do pranto, a morte;
Rei dos dons é o bom porte;
Pena, rainha dos ais;
O ponto, rei dos sinais;
Rei das canas, o alcaçuz;
Rainha das cores, a luz;
Leão, rei dos animais.

(in PIMENTEL, Alberto - As Alegres Canções do Norte. Lisboa : Livraria Viuva Tavares Cardoso, 1905. p.194)

19.8.05

Requerimento


Foto: pva 0508 - romãs sigilosas

- Ei, ei, ouça lá! Aqui não pode fotografar!

- Ah não? É que vi o portão aberto e, como o edifício é património do Estado, julguei que não havia inconveniente em tirar fotos. A casa não me interessa, só quero fotografar estas romãs e as tílias à entrada.

- Seja lá o que for que lhe interesse, não pode entrar por aqui dentro assim, sem mais nem menos, a fotografar tudo. Na altura em que isto funcionava como museu era diferente, podia-se fotografar à vontade. Mas, desde que aqui instalaram a direcção regional do Porto do *****, isso só é permitido mediante autorização especial.

- E como posso obter essa autorização?

- O senhor tem que dirigir um requerimento ao Exm.º Senhor Director, dizendo o que quer fotografar e por que motivo o deseja fazer; para isso deve preencher este formulário. Não se esqueça de indicar data de nascimento, filiação, data e n.º do BI, n.º de contribuinte, situação civil, profissão, morada completa e telefone de contacto. O seu requerimento será apreciado numa próxima reunião do Conselho Directivo do *****, e o senhor será informado, no prazo de vinte dias úteis, do deferimento ou recusa do pedido.

- Mas isso é um mês de espera! Entretanto as romãs caem de maduras e lá se vai o motivo do requerimento!

*
* *

O que vale é que o fotógrafo conseguiu ainda registar estas lustrosas romãs antes de ser interrompido. Não pode, sob pena de procedimento judicial, revelar onde se encontra a romãzeira enquanto não vier a competente autorização. Pois quem sabe se este arbusto e a fruta que produz não são, justificadamente, matéria do mais cauteloso sigilo?

18.8.05

Pingos-de-mel

Quando tiraste da cesta
Os figos que prometeste
Foi em mim dia de festa
Mas foi a todos que os deste.


Fernando Pessoa, Quadras (Assírio & Alvim, 2002)

Crença popular - figo

«É crença popular antiga que o fruto das figueiras nasce sem necessidade de haver flor. E esta árvore não tem flores por Judas se ter enforcado numa figueira. A crença de que as figueiras não dão flor provém do facto de estas não se verem nunca, porque estão fechadas dentro de um receptáculo fechado (sícone), que é o figo.»

(SILVA, D. A. Tavares da - Esboço de um Vocabulário Agrícola Regional. Lisboa : Imprensa Lucas Cª, 1942. Sep. dos «Anais do Instituto Superior de Agronomia»-Vol. XII. p.289)

17.8.05

Poema das coisas belas

As coisas belas,
as que deixam cicatrizes na memória dos homens,
por que motivo serão belas?
E belas, para quê?

Põe-se o sol porque o seu movimento é relativo.
Derrama cores porque os meus olhos vêem.
Mas por que será belo o pôr do Sol?
E belo, para quê?

Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,
mas só são coisas quando coisas percebidas,
por que direi das coisas que são belas?
E belas, para quê?

Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas
sem precisarem de ser coisas percebidas,
para quem serão belas essas coisas?
E belas, para quê?

António Gedeão, Poemas póstumos (1987)


Foto: pva 0506 - Gloriosa superba «Rothschildiana» - Kew Gardens

16.8.05

A Fonte de Médicis

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Fotos: manueladlramos 0508

Ei-la em todo o seu esplendor a famosa Fonte de Médicis nos Jardins de Luxemburgo! Produto de várias épocas, a última "requalificação" data já da segunda metade do séc. XIX. Curiosamente, na sua versão original, não era uma fonte (a água só começou a correr na bacia central a partir do início do séc. XIX) mas sim uma gruta construída a pedido da rainha Maria de Médicis, florentina de nascimento, que, em 1530, a encomendou a Thomas Francine, um escultor seu conterrâneo .
A gruta sofreu transformações várias sendo a mais importante a que ocorreu na década de 60 do século XIX quando foi desmontada pedra a pedra e transferida para a sua localização actual. Foi então que Alphonse de Gisors, o arquitecto do Senado encarregue do projecto, a dotou do longo tanque hoje protegido pela sombra dos plátanos então plantados.
Tanto os grupos escultóricos mais preominentes- nomeadamente o de Polifemo prestes a esmagar sob um rochedo o seu rival Acis apaixonado por Galateia- como a fachada oposta, viarada a Este, datam dessa altura.
(Mais informações e fotografias sobre a Fonte de Médicis e a sua história aqui e aqui. )

(É óbvio que a tão badalada inspiração desta fonte para a projectada futura fonte da Avenida dos Aliados, se limita ao tanque que, na fotografia, vemos ladeado por frondosos plátanos e adornado com vasos floridos.)

15.8.05

Às 6 da tarde no largo requalificado

.(Dias sem árvores...)


Espaço requalificado em frente à antiga Cadeia da Relação (edíficio onde funciona o actual Centro Português de Fotografia)

Na sexta-feira passada, cerca das 6 da tarde apeei-me do autocarro no Campo Mártires da Pátria. Contrariamente ao habitual, em vez de me atrasar nos meus recados cumprimentando as minhas amigas do Jardim da Cordoaria, resolvi ir explorar este espaço requalificado, quase completamente deserto, revestido a granito.
Apesar da torreira do sol já ter passado, a esta hora em Agosto o calor ainda se faz sentir e o que irradiava da pedra que reveste o pavimento ainda menos apetecível tornava o largo.
Não pude deixar de me lembrar do que aqui já escreveu o Paulo com a sua habitual verve, em especial da passagem seguinte: «Espaços como estes, por serem hostis à permanência de pessoas, matam o convívio na cidade. Um castigo merecido, ainda assim suave, para quem os planeia, seria obrigá-los a ficar de pé nesses lugares, sem a protecção de uma sombra, durante uma tarde de calor.»

Os autores destes projectos decididamente não calcorreiam a cidade, e muito o menos o fazem de dia! Imaginam estes espaços e as suas intervenções a que chamam "requalificações", de um modo completamente abstracto. De preferência a preto e branco em revistas da especialidade, e de certas escolas. Presumo eu. Se assim não fosse como explicar estas opcções?
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13.8.05

Vistas na paisagem

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Blogue! Blogue! O Vistas na paisagem está suspenso!

«O Blogue Vistas na paisagem foi editado entre Agosto de 2003 e Maio de 2005 e contém textos/opiniões acerca do direito à paisagem que assiste a cada um de nós. Num país litoralizado onde o planeamento nunca foi muito apreciado, o modelo de crescimento económico está baseado nas fileiras da construção, onde a suburbanização manhosa se faz regra; onde quem tem chão urbaniza ou eucaliptiza, a destruição das nossas paisagens (naturais e humanizadas) é sem dúvida um dos nossos mais estúpidos desperdícios. É certo que há bons exemplos em contrário, mas as tentações e a falta de pudor aconselham neste assunto, como noutros, vigilância redobrada.»
A blogoesfera fica menos verde com a suspenção deste blogue mas resta-nos a possibilidade de consultar o trabalho vigilante e exemplar que ao longo de quase dois anos João Gomes foi desenvolvendo.
Foi também graças a ele que aqui se publicou a fotografia do mais belo carvalho-cerquinho (Quercus faginea) de que temos conhecimento.
Saudades!

Seduzida e deslumbrada

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Fotos: © manueladlramos - Jardin du Luxembourg, Agosto 2005
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Seduzida e deslumbrada foi como me senti permanentemente nos jardins de Paris durante esta curta estadia.
E surpreendida! Não tanto pela árvores magníficas com as quais já contava, nem pelo apurado paisagismo dos jardins, mas pela abundância de flores e o gosto harmonioso das suas combinações nos canteiros e "parterres".
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Por esta entrada, se vai dar à famosa "fontaine de Médicis" (a tal que parece ter servido de inspiração para o tanque projectado para a Avenida dos Aliados ;-(
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12.8.05

Villar d'Allen


Foto: pva 0502 - camélia centenária na Quinta de Villar d'Allen, Porto

O historiador portuense Hélder Pacheco publicou ontem no Jornal de Notícias um interesse texto sobre esta preciosidade portuense, de que transcrevemos um extracto:

«No sítio chamado Campanhã de Baixo começou a construir-se, a partir de 1839, a Quinta de Villar d'Allen, quando o súbdito britânico John Allen, notável coleccionador de arte, negociante de vinho do Porto, membro da Feitoria Inglesa, co-fundador do Banco Comercial do Porto e da Associação Comercial, adquiriu um conjunto de propriedades, incluindo as antigas quintas da Arcaria e da Fonte Pedrinha.

Logo após, John Allen iniciaria a edificação de uma residência de Verão. Tendo moradia na Rua da Restauração, onde fundou o primeiro museu do Porto, a propriedade constituiria refúgio dos estios do burgo. Além do palacete, John Allen lançou-se no planeamento dos jardins, segundo novos princípios aplicados aquela arte na Europa. Mas seria seu filho Alfredo Allen (1.º visconde de Vilar d'Allen) a concretizar o projecto do fundador da quinta, ampliando-a, em 1869 e 1872, com a aquisição das quintas da Vessada e de Vila Verde. Nela construiu os jardins, com modernos componentes - lago, regatos, cascatas, caminhos no bosque, espaços de lazer, etc), introduzindo espécies arbóreas e plantas que marcaram a diferença em relação ao que predominava na cidade. A esta obra não será estranha a associação de Alfredo d'Allen a Emílio David, contratado para a construção dos jardins do Palácio de Cristal, de que Allen foi dos maiores entusiastas.»


(continuação do texto aqui)

Oxalá este texto ajude alguns a compreender que o património urbano não é só matéria inerte, os edifícios, mas é também feito desses organismos vivos que são as árvores e os jardins.

Sobre Villar d'Allen, leia-se ainda a magnífica reportagem dos nossos vizinhos galegos Amigos da Camélia, que de algum modo fundamenta a asserção de Hélder Pacheco de que os espanhóis conhecem melhor a quinta do que os portugueses. Mas é injusto ignorar, como faz o historiador, a obra Jardins Históricos do Porto de Teresa Andresen e Teresa Marques, em que a Quinta de Villar d'Allen ocupa o centro do palco. Mesmo no nosso livro À sombra de árvores com história, é dado todo o destaque ao contributo de Alfredo Allen para os jardins da nossa cidade e à magnificência das árvores de Villar d'Allen. Aliás, já aqui recapitulámos parte dessa matéria: Palmeiras em Vilar d'Allen; Quinta de Villar d'Allen em Abril.

11.8.05

Brincos-de-princesa

À entrada do jardim formal da Quinta de Sto. Inácio somos, todo o ano, recebidos por um perfume inebriante, com origem nas numerosas roseiras que desde o século XIX ali se cultivam. De nariz empinado e sorriso beatífico de apreço, esperamos que se desvaneça o feitiço para avançarmos para os pátios ajardinados que se seguem. Em cada um, o centro é ocupado por quatro quadrados arrelvados ladeados por canteiros, simetria vincada por robínias e magnólias nos cantos. No bordo de uma destas plataformas, protegida por boa sombra, está uma colecção preciosa de arbustos de folhagem densa enfeitada por pequeninos "brincos" de várias combinações de cor-de-rosa. São fuchsias, cujas flores lembram bailarinas de perna fina e saia de plissado arrojado, muito apreciadas por colibris.





Fotos: pva 0507 - Fuchsia spp. - Quinta de Santo Inácio, Gaia

Tal como acontece com as camélias, há em muitos países associações que reúnem admiradores de fuchsias e que, em congressos animados e exposições anuais, discutem variedades e trocam saberes.

O género, da família Onagraceae, que conta hoje com cerca de 100 espécies e mais de 15 mil variedades, tem origem na América do Sul; o nome homenageia Leonhard Fuchs (1501-1566), um botânico alemão que organizou um guia excepcional de plantas medicinais e cujas xilogravuras científicas são consideradas das mais bonitas e rigorosas da época.

O bailado dos brincos-de-princesa prossegue até ao Outono.

10.8.05

O papel de malmequeres


Foto: pva 0503 - Osteospermum ecklonis

«O papel de parede fora escolhido pela embaixatriz (...) A embaixatriz era originária do campo. No campo há flores. No campo evocado ainda mais. A embaixatriz inclinava-se para as flores. Para as flores não em estado ou circunstância de jarra, entenda-se, mas para aquelas que alegram, humílimas, pastos e bosquetes, para aquelas que a sandália de São Francisco pela certa sempre evitou. Hesitara entre um papel que repetia, sobre fundo verde-claro, uma papoila encurvada, quase borboleta ao vento, e um outro que recapitulava, palmo a palmo, um tufo de malmequeres. Por sentimento, foi para os malmequeres. Por cálculo, evitou a papoila (...)

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* *
Dois meses decorridos, já o gato siamês («O teu terceiro filho!», como dizia o embaixador) desfizera, pétala a pétala, um tufo de malmequeres à altura da pata. O bichano, de seu normal, não era destruidor. Qualquer almofada ou pufe lhe servia de pedestal para as intermináveis sonolências de deusete. À entrada de alguém, abria e fechava as pálpebras. Tirado o retrato ao efémero, reentrava na moleza da sua eternidade. Um tufo de malmequeres - e só aquele! Não havia, perto, franja ou pingente que pudesse, com mecânicas negaças, lembrar ao gato que era gato. Nenhuma sombra dançante ali se projectava.
- Caprichos do Amok! - decidiu a embaixatriz (...)
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* *
Ao sair o último convidado, um comissário de peito refulgente, o embaixador abandonou-se à poltrona, folgou o colarinho e pediu à embaixatriz que mandasse deitar as criadas e lhe preparasse um uísque (...) A embaixatriz trouxe-lhe o uísque e a carinhosa repreensão do costume. A chá de limão acompanhou o marido. Os dois acabaram por tirar os sapatos. A embaixatriz enroscou-se, escondendo as pernas sob a saia. O embaixador esticou-se e fez ginástica com os dedos dos pés. Dedos a mexerem dentro de peúgas. Dedos de embaixador dentro de peúgas de embaixador. De embaixador, que chatice, e logo num país daqueles! Comissários que entram com o peito a cintilintar...
- ... E se calhar amanhã cais em desgraça!
- Quem? Sobressaltou-se a embaixatriz.
- Estava a pensar no comissário...
*
* *
Com pezinhos de lã - esse não precisava de tirar os sapatos - Amok aproximara-se. A embaixatriz ensaiou tagatés. Amok não ligou. Parecia fascinado. Passou, como um fantasma, entre o homem e a mulher. Correu. Estacou junto à parede. Retesou-se. Saltou de pata no ar sobre o tufo de malmequeres destruídos. Bufava e rouquejava.
Embaixador e embaixatriz entreolharam-se. Sérios. Ouviram, então, um estalido que vinha do interior da parede. Um simples ruído nítido.
- Ratos? - perguntou a embaixatriz com a chávena suspensa entre beber e entornar.
- Microfones! - respondeu o embaixador pousando o copo.
E com uma ponta de orgulho, o homem levantou-se e foi acalmar o Amok. Com uma ponta de orgulho, sim! Ele, o pequeno embaixador do pequeno país, já merecera a «visita» dos microfones...»

Alexandre O´Neill, Uma coisa em forma de assim (Editorial Presença, 1985)

9.8.05

Árvores do Jardim do Carregal #9


Foto: pva 0507 - Araucaria bidwillii no Jardim do Carregal, Porto

Agora que o Jardim do Carregal começa a ser recuperado, está na altura de retomarmos o inventário das suas árvores mais notáveis. A Araucaria bidwillii que hoje aqui trazemos - e que, apesar de altaneira e pujante, é mais jovem e de menor porte do que a do Jardim da Cordoaria (uma das novas árvores classificadas do Porto) - foi em 2004 protagonista de um incidente que vale a pena relatar.

Como se observa na foto, a casa que desfeava o jardim já desapareceu, demolida que foi, como aqui anunciámos, no final de Julho; mas quem teve a honra de lhe partir a primeira telha foi, em 2004, a nossa bidwillii, ao largar sobre ela uma das suas descomunais pinhas (que podem pesar até 10 Kg e caem inteiras). Nos mais de cem anos que a árvore conta de vida, não havia ainda registo de semelhante acidente; talvez só agora o clima seja favorável à eclosão das pinhas. Espera-se que, para prevenir algum desastre sério, haja o cuidado (que não existiu com a sua irmã da Cordoaria) de, na reconstrução do jardim, se vedar a vizinhança da árvore aos transeuntes.

Anteriores na mesma série: #1, #2, #3, #4, #5, #6, #7, #8

8.8.05

A "acácia" do Jorge


Foto: pva 0508 - Robinia pseudoacacia frente à Casa de Camilo, São Miguel de Seide

Jorge, o "filho louco" de Camilo Castelo Branco, plantou em 1871, tinha então 8 anos, uma árvore junto à escadaria de pedra no terreiro da casa de S. Miguel de Seide. A esta árvore se refere Camilo várias vezes, como em Durante a febre:

Quando a Acácia do Jorge ainda outra vez inflore,
Chamai-me, que eu de Abril nas auras voltarei
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A árvore não é uma acácia, mas uma robínia. Um deslize em taxionomia que não ofusca o apego de Camilo ao convívio com a natureza, alimentado pelas léguas palmilhadas desde a infância em pedregosas ladeiras de serra. Camilo chegou a ser um peregrino convicto de arvoredos, córregos e morros de terra agreste, aldeias, costumes e lendas populares, que depois transfigurou em palco de prosa admirável.

Estas árvores são minhas amigas há vinte e sete anos. (...) Seria engodo ao riso andar-me eu aqui abraçando árvores, se alguém me visse. Que o não saibam os tolos, nem os felizes. (...) Quando eu lá ia [às matas do Bom Jesus do Monte], voltava sempre melhor. Nunca me aconteceu outro tanto ao dobrar a última página de livro de moral.

7.8.05

A boa alternância



Fotos: pva 0507 - Sophora japonica na rua Feliciano de Castilho, Porto

A árvore que aparece nestas fotos, de seu nome Sophora japonica, é, à semelhança de várias outras que antes apresentámos, uma leguminosa da subfamília Papilionoideae. Originária do extremo oriente, é amplamente usada em jardins e na arborização de ruas. Agora que está em flor, podemos admirar, enquanto não lhes passam uma vassoura, algumas ruas da cidade discretamente atapetadas de amarelo.

As ruas do Porto arborizadas com sóforas têm índole muito variada. Na zona oriental da cidade, que cresceu ao longo do século XIX, as antigas fachadas, escurecidas pelo tempo, sucedem-se coladas umas às outras com a interrupção ocasional de algum solar de brasileiro-de-torna-viagem. Aí, nas ruas Barão de S. Cosme e Duque da Terceira, as sóforas alternam com os castanheiros-da-Índia. Na parte ocidental, o bairro do Campo Alegre só foi construído um século mais tarde: cada casa exibe o seu jardim e todos os passeios têm árvores (olaias, freixos, cerejeiras, lodãos, castanheiros-da-Índia...) . Na rua Feliciano de Castilho encontramos sóforas e também conteiras (Melia azederach), árvores de características botânicas bem distintas mas de porte geral semelhante.

Boa ideia esta de se plantarem espécies arbóreas diversas na mesma rua: em cada época de floração há um novo motivo para lá voltar.

6.8.05

Memórias em flor


Foto: pva 0505 - Solanum rantonnetii

«Nossos avós sentimentais associavam seus prazeres e seus pesares à imagem de uma folha ou de uma flor: abrimos por acaso algum livro antigamente lido e amado, e o vento leva de dentro dele velhos amores-perfeitos reduzidos a uma seda tão seca e tão leve; folhas de roseira finamente distendidas; violetas que são apenas uma cinza ainda imobilizada...

Oh, os nossos avós deixaram seus amores entrelaçados em monogramas pelos troncos de outrora; e ainda hoje há grandes árvores admiradas da mão que lhes vai gravando coração, flechas, iniciais, com uma suave preserverança - e os jardins ficam de braços tatuados, com o sopro da tarde secando suas poéticas feridas...»

Cecília Meireles, Nossas irmãs, as plantas - Obra em prosa (in A manhã, 1945)

5.8.05

Paris - Londres


Foto: pva 0506 - Robinia pseudoacacia - Kew Gardens, Londres

Não sabemos se uma disputa entre os velhos rivais separados pelo Canal da Mancha vai bem como entretenimento estival, mas é o que se arranja. A Manuela prometeu-nos uma reportagem no Jardin des Plantes sobre uma das mais velhas robínias da Europa, nascida de semente por volta de 1600. Sustentada por cabos e muletas, ainda se mantinha viva em 2000. O exemplar dos Kew Gardens que se vê na foto data de 1762, e é uma das últimas árvores sobreviventes da primeira plantação nos jardins. (Uma outra é o Platanus orientalis que já aqui mostrámos.) Com um século e meio a menos pesando-lhe no tronco do que à sua irmã parisiense, a árvore londrina ganha em juventude o que perde em respeitabilidade. Ainda assim é uma juventude provecta, marcada por graves achaques, que a obrigam a usar, entre outros amparos, um anel de metal à cintura para não se desagregar por completo.

Antes que alguém entusiasmado com estas veteranas resolva plantar um exemplar no seu quintal, fica o aviso de que esse acto está proibido por lei, pois a Robinia pseudoacacia está listada como invasora no decreto-lei 565/99.

4.8.05

Glicínia-de-flores-vermelhas



Fotos: pva 0507 - Sesbania punicea

Na rua do campo Alegre, num canteiro arrelvado onde sobressaem lantanas, há dois exemplares jovens de Sesbania punicea em flor, exibindo vagens de geração anterior que facilitam a identificação destes arbustos (têm 4 asas e portanto secção transversal quadrada). Endémica em quase toda a América do Sul, esta Fabaceae é bastante tolerante a solos pobres mas prefere climas quentes; tem crescimento rápido, o que lhe fragiliza os ramos e por vezes lhe encurta a vida. As inflorescências são cachos vermelho-laranja de flores com uma enorme pétala disposta em leque aberto de onde emerge um bico; este é um formato característico das flores das leguminosas da subfamília Papilionoideae, como as eritrinas, as giestas, as glicínias, as olaias, as robínias, as sóforas ou as tipuanas.

Ao entusiasmo inspirado pela novidade de uma espécie exótica a ornamentar a cidade sobrepõe-se por vezes uma preocupação legítima dos botânicos com a invasão da nossa flora por espécies que revelam um sucesso excessivo na sua naturalização. A sua distribuição é frequentemente facilitada por perturbações na natureza, como incêndios, tempestades, alterações no uso da terra ou demasiada construção em zonas antes florestadas, que abrem clareiras onde a invasora se fixa e expande. Além disso, à ausência de inimigos naturais, o que aumenta a capacidade de produção de sementes viáveis e mais duradouras, associam-se agentes polinizadores novos que tornam mais eficaz a sua disseminação. As invasões biológicas favorecem a globalização que, como noutros domínios, corresponde a perda de identidade local com a extinção de muitas espécies nativas.

O decreto-lei 565/99 regula a introdução de espécies não indígenas em território português (os organismos geneticamente modificados têm legislação própria). Proíbe a comercialização, cultivo, exploração económica ou libertação na natureza de espécies exóticas que possam conter algum risco ecológico. Das cerca de 400 espécies vegetais consideradas introduzidas, apenas 27 são, neste decreto, classificadas como perigosas. A Sesbania punicea tem-se revelado extremamente invasora noutros ecossistemas, mas não consta desta lista.

3.8.05

"L'échappée..."

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A moi Paris, la capitale la plus boisée d'Europe!
Claro que não vou poder visitar todos os 17 maiores parques parisienses, a totalidade dos 16 mais belos jardins de Paris", nem calcorrear os 2000 hectares dos dois célebres bosques, já para não falar das inúmeras praças ajardinadas! Mas vai ser relativamente fácil apreciar uma ínfima parte desta extraordinária riqueza paisagística e conciliar as visitas aos bosques, jardins, parques, praças e pracetas - a minha primeira opção- com as idas aos museus- a opção da minha companhia ;-) porque estes últimos estão de um modo geral perto ou inseridos em espaços verdes

No topo da lista está evidentemente o Jardin des plantes onde se encontra o "Muséum National d'Histoire Naturelle". Há anos que quero visitar este jardim! Vai ser desta vez que vou ver o que resta de umas das duas mais famosas robínias (Robinia pseudoacacia) parisienses-as árvores mais antigas da cidade- plantada em 1636. E a Sófora-do-Japão (Sophora japonica L) semeada en 1747 por Bernard de Jussieu - será que está em flor?- também não me vai escapar! Estas e muitas outras árvores históricas, ou não tivesse este fantástico jardim botânico quase quatrocentos anos!
(au revoir et bonnes vacances "4 u 2"...)
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Robinia


Robinia pseudoacacia L (Acácia-bastarda) nos jardins do Palácio de Cristal- Julho 2003

«Le genre Robinia comprend environ 20 espèces d?Amérique du Nord et du Mexique.
Le nom de ce genre a été donné par Linné en hommage à celui qui fit croître les premiers pieds de Robinia pseudo-acacia en Europe, Jean Robin (1550-1629), apothicaire et "arboriste" des rois Henri III et Henri IV qui, peu avant 1600, en sema de graines qui lui avaient été envoyées de Virginie par son ami John Tradescant I dans son jardin expérimental à la pointe de l'Ile de la Cité à Paris.

La construction du Pont Neuf obligea Robin à transplanter le premier éxemplaire de robinier faux acacia près de l'église Saint Julien-le-Pauvre, où on peut le voir encore aujourd'hui; en 1636, son fils Vespasien Robin, lui aussi arboriste du Roi, transplanta un de ces arbres dans le Jardin du Roi, l'actuel Jardin des Plantes, fondé 10 ans plus tôt; on l'y voit encore, vétuste mais soigneusement étayé.»
Jacques Brosse in Larousse des Arbres et des arbustes, Larousse-Bordas 2000

2.8.05

Ciência Viva- Biologia no Verão- Porto

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«Em férias, marque encontro com a Biologia.
Das plantas aos animais, dos fungos às bactérias... venha conhecer a Vida em estuários, praias, sapais, jardins...
Leve os amigos, a família e vá ao encontro dos biólogos neste Verão.
Consulte a lista das actividades e inscreva-se junto das entidades promotoras.»

Só no concelho do Porto há 46 eventos: não perca!
Mas não há só Biologia no Verão, também há Astronomia, Geologia, Engenharia.
Ver em Ciência Viva no Verão

(ainda bem que que fui visitar o Geografismos! ;-)

Cancioneiro popular- alfarroba

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«Sou da serra, sou serrenho,
Vendo carne às arrobas,
Não sou como vocês,
Que só comem alfarrobas.»


(sugestão: Doçaria com alfarroba )
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Parece mas não é...

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Há árvores, como por exemplo a alfarrobeira e a oliveira, possuídoras do que parecem ser troncos com formas peculiares, cordados, por vezes grossíssimos. Mas serão mesmo e apenas troncos?
Como explica Joaquim Vieira Natividade «a existência [...] de raízes aéreas concrescentes com o tronco, as quais partindo, de mamilos radicíferos formados em diferentes níveis, e com frequência na parte inferior da inserção das pernadas e outros ramos importantes, vêm a constituir "as cordas", ou nervuras características do fuste das árvores adultas.»
O autor esclarece também a função destas raízes aéreas e o seu papel na resistência destas duas espécies «não relacionadas filogeneticamente» às condições adversas de clima e de solo em que se desenvolvem. (Cf. Natividade, "O significado ecológico e fisiológico do sistema radicular aéreo da Oliveira (Olea europea L.) e da Alfarrobeira (Ceratonina Siliqua L.)", 1949


foto: Alfarrobeira no interior algarvio (Verão 2000)

1.8.05

Feijoa


Foto: pva 0507 - fruto de Acca sellowiana - Quinta da Bonjóia, Porto

Em cada fruto a morte amadurece,
deixando inteira, por legado,
uma semente virgem que estremece
logo que o vento a tenha desnudado.

Eugénio de Andrade, As mãos e os frutos (1948)