14/01/2005

Eucaliptos monumentais na Quinta de Fiães (Gaia)

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Fotos: mdlramos 0312 ...Eucalyptus amygdalina e Eucalyptus obliqua
Os jardins do Solar Van-Zeller na Quinta de Santo Inácio de Fiães (em Avintes- Vila N. de Gaia) foram mencionados ainda há pouco tempo a propósito de um incomum exemplar de craveiro-da-Índia que lá se pode encontrar. Quando tirei estas fotografias, não o conhecia, e as únicas árvores desse local sobre as quais sabia alguma coisa, para além das camélias, eram os seus eucaliptos monumentais, nomeadamente da espécie E. obliqua.
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Mais uma vez a fonte de informação tinha sido o livro Árvores Monumentais de Portugal (1984), de Ernesto Goes que escreve o seguinte:
«E. obliqua- O nome botânico resulta do formato das suas folhas, que são acentuadamente oblíquas. É originária da Tasmânia e Austrália. É uma espécie algo difundida no País em Parques e Jardins, atingindo por vezes dimensões invulgares. Por outro lado é uma árvore muito bonita não só por ter um tronco cilíndrico e muito direito e despido de ramos até grande altura, com casca fibrosa castanha clara, como também por ter uma copa densa de folhagem verde escura.
(...) Eucaliptos da Quinta de Fiães, em Avintes- há a assinalar o maior eucalipto desta espécie, com 45 metros de altura, e um tronco de 7, 10 m. de P.A.P. completamente despido de ramos até 16 metros de altura, com um volume de madeira de 63 m. cúbicos. Há ainda a referir um outro E. obliqua de grande porte. Julga-se que estas árvores foram plantadas em 1912 de sementes provenientes da Austrália.»
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Relativamente ao eucalipto maior- actualmente com um perímetro de 8,15 m e uma altura superior a 50 metros- a cuidada brochura editada pela própria Quinta de S. Inácio em 2002, intitulada Os Jardins e os Bosques da Quinta de Stº Inácio de Fiães, sugere que a sua plantação terá sido muito anterior, tendo ocorrido em 1870.
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13/01/2005

A única revista que...

Neste mundo em que, cada vez mais, comunicamos à distância com aqueles que partilham os nossos gostos e ignoramos tudo sobre os nossos vizinhos, as revistas especializadas cumprem um papel agregador dessas dispersas comunidades de interesses, fornecendo-lhes referências e uma marca identitária. Um caçador de fim-de-semana - equipado com cão, veículo todo-o-terreno, artilharia quanto baste, farda e botas a condizer - alimentará a sua paixão, no dia-a-dia sedentário entre duas saídas de campo, com a leitura atenta de Cães & Tiros: a prosaica aparência quotidiana esconde afinal a sua verdadeira personalidade, que é a de um membro ferrenho do clube mato tudo quanto mexe.

Um relance pelos quiosques e ficamos convencidos: há interesses para tudo, e para cada interesse há uma revista ou até muitas revistas. Há assuntos em que mesmo em português elas proliferam: carros, motociclismo, cães, cavalos, caça, pesca, culturismo, decoração, bordados, saúde & bem-estar, moda, computadores, puericultura, futebol, música... No meio deste gasto desvairado de papel, uma revista há que proclama ser a única portuguesa sobre jardins; intitula-se precisamente Jardins. Será mesmo a única? Haverá mais portugueses interessados em motociclismo ou na criação de cavalos do que em jardins?

A falar verdade, a revista não é bem portuguesa: é a versão nacional de uma publicação que existe em várias línguas. Mais de dois terços do seu conteúdo não publicitário é traduzido; daí que muitas vezes ela pareça desajustada do público a quem se dirige, como nos insistentes conselhos sobre as precauções a tomar com a neve. Há dicas que são puro dislate, atribuível talvez à tradução: «devolva as formas às árvores de sombra em repouso, eliminando o ramo central principal» (n.º 28, Janeiro de 2005, pág. 36). Quer isto dizer que devemos cortar-lhes a flecha, fazendo assim com que as árvores cresçam deformadas?

O conteúdo português da revista, embora escasso, é de leitura proveitosa. Neste número de Janeiro, por exemplo, aparece uma boa reportagem sobre o jardim público de Viana do Castelo na margem do Lima: aprendemos que a sociedade que o construiu, na década de 1880, foi a mesma a quem se deve o Palácio de Cristal portuense; e recordamos a amputação que o jardim sofreu há quatro anos em prol do automóvel. Pena é que, contando-se a história do jardim, não se identifiquem as árvores, arbustos e flores que hoje o compõem. Regista-se ainda com agrado o espaço que a revista abre aos arquitectos paisagistas portugueses para descreverem os seus projectos, mas seria desejável que tais textos, potencialmente tão interessantes, fossem escritos em estilo menos canhestro.

12/01/2005

Feeding the bird


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Cena quotidiana em dias de sol no Palácio de Cristal, com cedros-do-Líbano ao fundo ;-) .
Agora que (finalmente) começou a chover ficam as saudades de imagens como esta.
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«They kill good trees to put out bad newspapers.» ~James G. Watt, citado na Newsweek (82-03-08)

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Companhia da canela



E, se buscando vais mercadoria
Que produz o aurífero Levante,
Canela, cravo, ardente especiaria
Ou droga salutífera e prestante;
Ou se queres luzente pedraria,
O rubi fino, o rígido diamante,
Daqui levarás tudo tão sobejo,
Com que faças o fim a teu desejo.
Camões, Lusíadas - Canto II - 4

Esta é a flor do craveiro-da-Índia. É pequenina, não maior que um polegar, de quatro pétalas, mas a árvore fica alvacenta de tantos bigodinhos brancos. A profusão de estames revela a família desta árvore, a mesma dos eucaliptos e dos metrosíderos: trata-se de uma Myrtaceae de origem asiática, de nome científico Syzygium aromaticum. Tem folha perene, com cerca de 8 cm de comprimento, verde claro brilhante, mole e notoriamente ondulada, com pecíolo longo e ponta acentuada; o tronco é cinzento e fissurado.

Os frutos parecem grandes gotas de vinho tinto. São comestíveis mas é o cálice seco da flor, o cravinho (do latim clavus), nome que alude à semelhança da forma com um prego, que é famoso pelo seu perfume. É uma especiaria requintada, de aroma doce como incenso e sabor forte que sobressai nas misturas para temperos picantes; usa-se em doces mas também para aromatizar tabaco, café, arroz e pão.



O craveiro-da-Índia é uma espécie endémica das ilhas Molucas, na Indonésia, plantado hoje extensivamente nas ilhas de Zanzibar, Pemba e Madagascar, no oceano Índico, para produção do cravinho: diz-se que o seu perfume se sente no mar por quem se aproxima destas ilhas.

O exemplar que conhecemos está na Quinta de Sto. Inácio, em Vila Nova de Gaia. Tem mais de 10 metros de altura e uma copa graciosa, com uma distribuição densa de ramos; mora num recanto junto ao jardim de aromas, onde sobressai entre sebes de camélias plantadas por Francisco Van Zeller no princípio do século XIX.

Fotos: pva 0411

11/01/2005

Da cordilheira do Atlas para o Minho


Fotos: 0412 - cedros-do-Atlas - Monte de Pilar - Póvoa do Lanhoso

Dois belos e ainda jovens Cedrus atlantica Glauca no coração do Minho. Fotos gentilmente cedidas por um nosso assíduo leitor, que preferiu o anonimato.

10/01/2005

Sequóia-gigante e cedros-do-Atlas em Serralves

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Foto: mdlramos 04 .... Sequóia gigante e cedros-do-Atlas nos Jardins de Serralves (Porto)
A propósito das árvores do Jardim do Carregal, já aqui tínhamos falado desta formosa sequóia-gigante(Sequoiadendron giganteum); o que não dissemos é que se encontra ao lado de um não menos garboso Cedrus atlantica, espécie muito bem representada nos Jardins de Serralves pelo cultivar "Glauca"- a que também se costuma chamar cedro azul.
Nota: chama-se a atenção para o pequeno e quase imperceptível banco verde, em primeiro plano, do lado esquerdo, que dá uma noção das dimensões das árvores.
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09/01/2005

Árvores do Jardim do Carregal #7


Foto: pva 0411 - Cedrus libani - Jardim do Carregal (Porto)

Não há muitas árvores que tenham a honra de ser mencionadas na Bíblia: a macieira, ao contrário do que muitos pensam, nem uma só vez aparece no Livro do Génesis; a oliveira tem o destaque apropriado a uma árvore emblemática da civilização mediterrânica; e há ainda o cedro-do-Líbano, árvore que, segundo o Antigo Testamento, forneceu quantidades colossais de madeira para a construção do templo do Rei Salomão.

Originária dos montes do Líbano, esta majestosa árvore perenifólia da família das Pinaceas foi pela primeira vez plantada em Inglaterra em meados do século XVII, mas só cem anos mais tarde se começou a vulgarizar na Europa Ocidental, e é possível que a Portugal só tenha chegado no século XIX. A sua silhueta distingue-se pela copa achatada e pelas longas ramadas horizontais organizadas em sucessivos patamares; as suas folhas são pequenas agulhas reunidas em tufos que lembram pincéis (por contraste, as agulhas dos pinheiros, mais compridas, reúnem-se em grupos de dois, três ou cinco).

Duas outras espécies de cedro, com folhagem semelhante à do cedro-do-Líbano mas de aspecto geral distinto, são frequentes em parques e jardins portugueses: o cedro-do-Himalaia (Cedrus deodara) e o cedro-do-Atlas (Cedrus atlantica). O primeiro tem forma cónica, terminando numa flecha estreita e recurvada; do segundo é comum o cultivar glauca, de folhagem azulada; ambos são de crescimento mais vigoroso do que o cedro-do-Líbano.

No centro do Jardim de Carregal, e formando a mais admirável amostra dessa espécie em espaços públicos portuenses, distribuem-se onze cedros-do-Líbano. Embora tenham sido até hoje poupados pelo túnel que vai gradualmente devorando o jardim, não ficaram imunes às obras: além de sofrerem com o entulho e o desleixo, têm-lhes sido amputados grandes ramos para facilitar a manobra das máquinas.

Salomão sacrificou as florestas do Líbano ao culto de um Deus; e das árvores derrubadas fez um templo que inspirava os homens à transcendência. Hoje, no Porto e em todo o país, árvores e jardins são imolados ao culto efémero e materialista do automóvel. É a isto que ainda chamamos progresso?

Anteriores na mesma série: #1, #2, #3, #4, #5, #6

08/01/2005

Rainha de Sabá



Fotos: pva 0411/0412 - Porto - camélias no Jardim do Palácio de Cristal

«Há dias que gosto do vale, de estâncias mais amáveis. Outros dias em que o minuto mais grato é o da despedida para a serra. Em certas épocas a cidade é deliciosa e soberanamente feiticeira; o Porto por exemplo. Quando se toma aquele eléctrico 20, que sobe a Rua de Santo António para a Constituição e parece em seu rodeio ir dar volta ao mundo, tão vagaroso, como se fosse com medo de se meter pelas casas dentro ou esborrachar os paralelipípedos da calçada, oferece-nos no rosicler de Março as mais sedutoras iluminuras. Cada moradia, nesse circuito sem fim, tem o seu quintalinho, e cada quintalinho suas plantas floridas ou enfolhadas e seus relvados. Raro aquele que não ostente a sua japoneira, a qual é como uma rainha de Sabá postada a cada canto a dar as boas-vindas ao forasteiro e a encher-lhe a alma de jucundidade. O Porto é a cidade das camélias por excelência e elas realizam ali o milagre de tornar suportáveis e até amenos dias soturnos como os domingos a instilar ora chuva, ora sol, ora bruma, intencionalmente inglesados, dir-se-ia.»

Aquilino Ribeiro, Geografia Sentimental (1951)

Dos jornais: "Keeping our woods alive"

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Para marcar o início de 2005 "Year of the Volunteer" (em Inglaterra), no iCan* publica-se este relato deveras inspirador de Craig Dunsford, "tratador" voluntário de árvores:

«I think trees are beautiful structures. Perhaps it's because I'm a carpenter but I have always been attracted to them and I can't remember a time I haven't been aware of their importance. As a warden I have my name on a community notice board so if anyone has an issue with trees, I am there to advise them. I have acted as the go-between the local authority and the public. For example, if anyone found a tree damaged or broken I could give them advice about what to do or who to talk to. Even if they had a problem with a tree in their garden, I could give tips. My actual knowledge of trees is small in comparison to specialists but I have been able to learn enough to make myself useful. (...) » Continuar a ler.
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* "iCan site aims to help people take first steps in addressing issues which concern them"
(sugestão do JRF, Quinta do Sargaçal)
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07/01/2005

How far can a pomegranate-blossom whisper?

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Reprodução do Poema 217 in 300 Selected Poems of the Tang Dynasty (Classical Chinese Poetry )

Os nomes das árvores - Romãzeira

.A romãzeira ou romeira (Punica granatum L.) é uma pequena árvore de tendência arbustiva com uma enorme resistência a condições de seca, apreciada tanto pelas flores como pelos frutos. Estes adornam tradicionalmente as nossas mesas nesta altura do ano com a sua coroa perfeita e interior deslumbrante. Associadas a votos de ano afortunado, em certas famílias há ainda o costume de, no dia dos Reis, partilhar romãs para que durante o resto do ano não falte sorte nem dinheiro. "Bagalhos" e "bagulhos" são aliás designações regionais e populares para os "bagos" da romã e para o dinheiro.

Quase toda a simbologia popular e erudita associada à romã - abundância, fertilidade, união - está relacionada com a opulência das suas sementes. Característica morfológica que também determina a designação da romãzeira na maior parte das línguas europeias e está patente no seu nome científico, Punica granatum, em que o último termo, designativo da espécie, significa "abundante em grãos".

Em português, sinónimos de romã, temos os regionalismos "milgrada, milgrã e milgranada", «de mil grãos ou mil sementes, onde mil significa número indefinido» como explica o grande etnólogo e filólogo José Leite de Vasconcelos. Igualmente se encontra o étimo latino relativo a "grãos", no granada espanhol e no grenade francês, verificando-se para além disso, a presença de elementos que significam "maçã", "pomo", por exemplo em inglês, pomegranate, alemão, granatapfel e italiano, melograne.
Neste último, transparece uma das denominações usadas pelo romanos para a romãzeira, malum granatum, em que "malum" (do gr. melon; dórico mâlon) é um termo genérico que muitas vezes serve para referir tudo o que se assemelhe a maçãs.

Plínio, o grande naturalista romano do séc. I da nossa era, denominou-a malum punicum. Esta última palavra deriva de "poeni" (do gr. phoenikes) nome que os romanos davam aos habitantes da cidade fundada pelos fenícios no séc. IX a.C. no Norte de África, e exprime a ideia "de Cartago"; pode também significar "vermelho, da cor da púrpura", a famosa púrpura de Tiro (substância corante proveniente de uma glândula de um gastrópode marinho do género Murex) que os fenícios comercializaram.
Punica granatum, o nome científico instituído por Lineu, baseou-se aparentemente nas duas denominações criadas pelos romanos, e mesmo sem ser deliberadamente, presta homenagem aos fenícios pois terão sido estes a introduzir a romã no ocidente trazendo-a da Ásia Menor onde há muito era apreciada.

O género Punica compreende apenas duas espécies: a P. protopunica que só se encontra na ilha de Socotorá (Iémen) e a P. granatum de que estamos a falar. Esta, oriunda de uma zona que se estende do sul do Cáucaso ao norte da Índia passando pelo Irão (antiga Pérsia), é um dos frutos de que se conhecem testemunhos mais antigos. Aparece, por exemplo, representada no túmulo do faraó Ramsés IV (séc. XII a.C.) e, é interessante notar, dada a sua importância na simbologia do judaismo, que a única relíquia recuperada do chamado primeiro templo de Jerusalem é uma pequena romã em marfim do séc. VI a.C.. Em hebraico diz-se "rimon", e "ruman" é o termo árabe equivalente de onde parece derivar o nosso romã. (o nome da romã noutros idiomas)
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Ver outras entradas da série Os nomes das árvores

Um pé de romã


Foto: pva 0410 - flor de romãzeira

«Se uma criança pudesse fazer o mapa de uma cidade - pensava eu, olhando o pé de romã -, ele teria menos casas e mais árvores e bichos. A romã, por exemplo, está estritamente ligada à carambola, na minha coreografia íntima. Eu conhecia essas árvores de um só quintal da cidade; eram como que uma propriedade específica de certa família amiga.(...)

Uma das árvores que tinha mais prestígio era uma oliveira. Era só um pé, e estava nos altos do Jardim Público, perto do chamado Banco dos Amores. Não dava frutos. Não sei quem teve a fantasia de plantá-la em lugar e clima tão impróprios, mas de algum modo era importante haver em nossa cidade uma oliveira, árvore que produz azeitonas, azeitonas que produzem azeite; tudo isso era cultura para nossa infância.(...)

Havia as frutas sem dono, vulgares: mamão, goiaba, araçá, jenipapo, ingá. Mas que prestígio tinham as romãzeiras da casa das Martins! A gente gostava mais de carambola, mas a romãzeira, como era linda a flor! A fruta se rachava de madura no começo do verão...

Penso em muitas coisas aqui, neste chuvoso domingo, olhando um pé de romã no quintal de uma cidade estranha.»

Rubem Braga, As boas coisas da vida (1988)

06/01/2005

A Romã

Passaritos de cristal
Cantam rubros em cada bago
Caixa de música real
Perdida por um rei mago
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Foi brinquedo de Natal
Para o menino nascido
Passaritos de cristal
Brinquedo cedo perdido.

Matilde Rosa Araújo in As Fadas verdes
(Civilização 1993)
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À espera dos Reis Magos

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Fotos: mdlramos 0412
Que fazer quando não temos nenhuma romãzeira no quintal, quando a tradição manda que se comam romãs, quando apetecem os bagos cor de rubi?
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.Os resultados podem ser surpreendentes, sobretudo se estiver sol!

Árvores do Jardim do Carregal #6

A árvore do Jardim do Carregal que planeávamos referir hoje foi abatida esta semana pelos construtores do túnel rodoviário. Era uma magnólia de flor branca de belo porte, prestes a florir.

Anteriores na mesma série: #1, #2, #3, #4, #5

05/01/2005

Eucalipto com aroma de limão



Fotos: pva 0412 - Eucalyptus citriodora no Parque de S. Roque e na Rua de Entre-Quintas

Associado à destruição da paisagem natural portuguesa para benefício de uma das nossas mais prósperas indústrias, o eucalipto não goza por cá de boa fama. Fornecendo, em poucos anos, larga safra de matéria prima para a indústria do papel, o seu plantio em larga escala, expulsando espécies autóctones ou ocupando antigos campos agrícolas, é uma das razões mais óbvias para a degradação ambiental do nosso país: empobrecimento de solos, secagem de cursos de água, perda de bio-diversidade, risco exacerbado de incêndios.

Feito o necessário preâmbulo de acusação, passamos a aduzir as razões da defesa. O eucalipto, usado com moderação, não é uma árvore nociva: se agora se vê por todo o lado é porque lá o plantaram, pois ele não é entre nós, e ao contrário da acácia, uma árvore invasora. Um eucalipto em plena maturidade é um prodígio da natureza: possante e esbelto, erguendo-se numa urgência de tocar o céu; o seu aroma é dos mais agradáveis que se conhecem; e com os seus frutos podem fazer-se bonitos colares. É por isso incompreensível que, numa fúria purificadora como a que nos últimos meses varreu o Parque Biológico de Gaia, se queira de um só golpe erradicá-lo de locais onde a sua presença é comedida e perfeitamente integrada na paisagem, abrindo clareiras áridas que levarão muitos anos a rearborizar.

Mas há eucaliptos e eucaliptos: o que ocupa Portugal de norte a sul é o Eucalyptus globulus, originário da Tasmânia e de uma pequena faixa costeira no sudeste australiano; mas o género Eucalyptus - que, com excepção de dezena e meia de espécies na Nova Guiné, Filipinas e Timor, é exclusivo da Austrália - conta com mais de 500 espécies perenifólias, muito diversificadas quer no tamanho (de pequenos arbustos a algumas das maiores árvores à face da Terra), quer na forma, quer na textura do tronco (que pode ser liso, ou rugoso, ou sulcado, ou descascar-se em longas tiras). O que há de comum a todas as espécies é o tipo de flor, com um tufo de estames a emergir de uma espécie de cálice, e a morfologia variável das folhas, em geral mais rombudas e encurtadas quando jovens.

Além do Eucalyptus ficifolia, notável pela beleza da sua floração, outros eucaliptos há que são valorizados pelas suas qualidades ornamentais. O que hoje aqui trazemos provém, como a Araucaria bidwillii, a Agathis robusta e a Macadamia integrifolia, de Queensland, no nordeste da Austrália: é o Eucalyptus citriodora, que exibe um tronco liso, de cor leitosa, uma copa aberta e de folhagem esparsa, e pode atingir alturas até 50 metros. Mas a característica que mais facilmente o diferencia dos outros eucaliptos é o intenso aroma a limão que as folhas exalam quando esmagadas. (Não arranque folhas da árvore para fazer a experiência: aproveite alguma que esteja caída!)

O mais bonito Eucalyptus citriodora que vimos em Portugal está no Jardim Botânico de Coimbra, num dos canteiros no limite poente do jardim, perto da entrada principal. Um outro mora em Angra do Heroísmo, no patamar inferior do Jardim Duque da Terceira. Finalmente, no Porto, conhecemos só os dois que acima mostramos: um adulto no Parque de S. Roque e um jovem à entrada da rua de Entre-Quintas, atrás da Biblioteca Almeida Garrett. Apesar de curta, a vida deste eucalipto tem sido atribulada: a certa altura uma golpe de vento quebrou-lhe a copa, deixando-o reduzido a um pau; milagrosamente, do pau foram brotando folhas e ramos, e a copa acabou por se reconstituir; mas a árvore ressuscitada é sujeita à tortura diária dos encontrões por carros em manobras de estacionamento, e o seu tronco apresenta profundas feridas. Custaria muito aos serviços da Câmara protegê-la com uma cerca?

04/01/2005

Índice- Árvores (nome vulgar)

Actualizado (última actualização em 11-12-04)
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"Ó ciranda, ó cirandinha..."

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«Já nas crenças micénico-cretenses, precisamente em Micenas e na cretense cidade de Knossos, no segundo milénio antes de Cristo, a palmeira e a oliveira eram as árvores frutíferas dedicadas aos homens pelos deuses. Eram assim as árvores sagradas, e, por tal circunstância, tinham nos templos lugares em recintos especiais.
Ainda hoje o nosso povo canta que a oliveira é benta, e ramo dela dá virtude! Exprime assim o benefício da ramaria, que dá o azeite, antecipado pela promessa e pelo prestígio de esperanças da azeitona, origem do Azeite. Desde esta promessa natural até à promessa espiritual , corre, como um arco-íris anunciador e cumpridor, o culto da árvore milagrosa e das poderosas forças celestes, que a protegem e garantem ao homem.
(...)
Diz adágio antigo que tudo "vem a seu tempo, e os nabos no Advento". Pois assim acontece com a azeitona, que chega e se apronta para o lagar em "seu tempo".
(...)
A colheita da Azeitona, já no período invernal, pode ter por símbolo próprio a "ciranda", "seranda", "siranda", e até "giranda". A "apanha da azeitona" tem paisagem sua, quer nas almas, quer na natureza, e nos costumes populares com a sua virtualidade folclórica.
O frio intenso do Inverno, a humidade gélida, o nevoeiro nos olivais, quantas vezes a neve teimosa, a ventania rude, no panorama nu da natureza temporã... O ambiente pelo caminho e no "campo da azeitona" obrigam mulheres e homens, os "varejadores" e as "apanhadeiras", a cobrirem-se de resguardos fortes, mais ou menos pitorescos. Ranchos cantam a "ciranda" e marcham.
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-Ó ciranda, ó cirandinha,
Vamos nós a cirandar...
Lá no campo da azeitona
Anda a ciranda no ar!
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Anda a ciranda no ar,
Anda a ciranda no chão!
Ó ciranda, ó cirandinha.
Amor do meu coração!
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Amor do meu coração!
Não há palavra mais doce.
Quer tu me queiras, quer não,
Gosto de ti! Acabou-se. (...)»
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CHAVES, Luís -O Perfil Espiritual da Oliveira na Poesia Popular Portuguesa."Boletim", nº 78- ano XXIV,1969.15 p. Sep. da Junta Nacional do Azeite.
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Outra versão da Ciranda, cirandinha com música
(Nas páginas de Domingos Morais alojadas no Alfarrábio)
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Inverno


Foto: pva 0412 - oliveiras, pinheiro, metrosídero e (despidas) nogueira-preta e robínia
Jardins do Palácio de Cristal, Porto

«O Outono já lá vai. E enquanto os seus ventos foram desprendendo as folhas das árvores, parece que a nossa alma ficou despenteada. Chegamos ao Inverno a tiritar. Moídos por dentro pelo escuro dos dias. Apetece dormir. Parece acolher-nos o mesmo torpor e obscuridade das cavernas primitivas.(...) No entanto, eu gosto do Inverno. Deste tempo caprichoso e húmido. Das casas com os seus mistérios e penumbras. O fiolho resguardado. Os retratos familiares atentos e observadores. Gosto das adegas, com as arcas e as pipas cheias. As alfaias agrícolas a repousarem. Das teias de aranha nos caibros que sustêm os velhos soalhos. Das tranças das cebolas e dos presuntos pendurados na parede. Gosto de ver a luz baça a descer das clarabóias. Gosto de ver a água a transbordar dos leitos. Do verde a explodir pelos lameiros. Dos néons abertos na brusquidão da noite das cidades. Gosto do cheiro a café à porta das pastelarias. E dos cafés das vilas da província barulhentos nos domingos à tarde. E de chegar cedo a casa e acender a lareira, deixar-me ir no encantamento do lume.(...) Gosto de calçar botas e caminhar por caminhos enlameados. Ver apanhar a azeitona e observar o esqueleto dos freixos e dos carvalhos dissolvidos nas neblinas espessas. E partir com uma pedra o gelo dos tanques. E ver os limos verdíssimos puxados pela força da água corrente. E gosto de entrar no novo ano.(...)

Devagarinho, o Inverno sucumbe à mornice dos primeiros sóis a sério. À floração das amendoeiras e dos pessegueiros. Depois às estevas, mimosas e rosmaninhos. Depois à rebentação das árvores. E quando finalmente o Inverno despe o seu vetusto e pesadíssimo sobretudo e tira o chapéu, percebemos que os seus bolsos estavam cheios de dádivas misteriosas. Como um avô muito antigo que tivesse guardado para nós, escondido no fundo de uma gaveta, uma prenda preciosa.»

Manuel Hermínio Monteiro, In Agenda Assírio & Alvim (1999)

03/01/2005

Árvore metálica

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Fotos: mdlramos 0208 -Odemira ..............................................................Escultura de Aureliano Aguiar
Uma notícia do JN, acerca de um conjunto de esculturas invulgares expostas em Guimarães, das quais se destaca uma "Árvore da Paz" feita com peças velhas de metal e cujos «braços metálicos esticados na direcção do céu parecem pedir misericórdia, o fim das tragédias», permitiu desvendar o mistério da autoria de uma escultura idêntica cuja fotografia se reproduz: o escultor Aureliano Aguiar.
Foi há cerca de dois anos que deparei com esta árvore (a que mais depressa chamaria árvore do trabalho) em Odemira: realmente uma visão extraordinária.
Todavia, e sem desprimor para a obra que muito apreciei e que vale bem a pena observar atentamente de mais perto, esta descoberta não compensou o triste desfecho da viagem que tinha sido empreendida com outro objectivo: encontrar o «maior exemplar» de Carvalho cerquinho (Quercus faginea) «do País», «árvore multissecular, talvez com cerca de 500 anos ou mais» (segundo as palavras de Ernesto Goes, in Árvores Monumentais de Portugal ,1984).
Com efeito deste e doutros carvalhos cerquinhos da Herdade do Reguengo Pequeno mais não restavam que carcaças em decomposição, dizimados que tinham sido por uma doença, cujo nome, a pessoa que nos levou até às árvores (um trabalhador da herdade) não soube identificar.
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Ver foto de Carvalho cerquinho anteriormente publicada.

Corísia amarela


Fotos: Galinhola 0411 - Cascais - Chorisia (Ceiba) insignis

A mesma repórter que noticiou a floração da corísia no Jardim das Amoreiras foi até Cascais e de lá nos trouxe em exclusivo a árvore da manchette de hoje. Na verdade a notícia já estava para sair há uns tempos, mas razões editoriais ponderosas (como sejam a preguiça dos editores e as obrigações da quadra festiva) foram adiando a publicação. Felizmente no nosso nicho de mercado a concorrência é pouca; e, mesmo com o atraso, ainda é privilégio nosso dar a notícia em primeira mão.

E a notícia é esta: em Cascais, perto do Teatro Gil Vicente, há um conjunto de corísias de flor amarela (cujo nome científico é Ceiba insignis ou Chorisia insignis) que frutificaram. Não conhecemos outro local do país onde haja tais árvores, pois as que existem do mesmo género nas Amoreiras e nalguns outros jardins são C. speciosas, que têm flores cor-de-rosa.

Voltaremos ao assunto quando recebermos uma semente (já encomendada).

02/01/2005

Oliveira - Paz

Ainda a própósito do Dia Mundial da Paz...
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Se bem que na mitologia grega, a oliveira apareça associada à longevidade e esperança, à vitória, à força e à fidelidade, actualmente, sobretudo se aparece sob a forma de um ramito no bico de uma pomba, é como símbolo da paz que impera no nosso imaginário. E isso desde a história antiquíssima relatada no Antigo Testamento.
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No livro do Génesis (8:11), conta-se que ao fim de 47 dias encerrado na Arca, Noé enviou, prospectivamente e pela segunda vez, uma pomba que voltou finalmente com uma folhinha de oliveira no bico, sinal que a ira de Deus amainara e que as águas do dilúvio estavam a baixar. Não interessa muito para agora o facto de ter sido ainda preciso, segundo o relato bíblico, o aroma aprazível de mais uns tantos animaizinhos a esturricar no altar que Noé então construíu já em terra firme, para serenar por completo os ânimos de YHWH (Yahweh ou Yaywah). O que nos importa para o nosso tema é que desde então, ambas, pomba e oliveira, ficaram associadas à concórdia, à aliança, à paz.
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As Palomas criada em 1949 e em 1950 por Picasso- a propósito do Movimento pela Paz e que figuram (ver) nos posters dos Congrès Mondial des Partisans de la Paix desses anos- não aparecem com raminhos de oliveira; mas a partir da série de "El rostro de la paz" que celebra o trigésimo aniversário do Partido Comunista em 1950 (era o tempo "des lendemains qui toujours chantaient...") a mansa ave surge com o raminho da árvore sagrada e será pela pena deste artista que se tornará o símbolo Universal da Paz.
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1959..................................................1961 ...................................... ...... 1962
. 1986, Ano internacional da Paz (selo comemorativo da autoria de Mário Ramos)
Desde então, a Pomba da Paz tem sido redesenhada de modo mais ou menos "réussi" e adoptada sob as mais variadas formas, por diversas intituições e organizações que de um modo ou doutro trabalham em prol desse ideal, como por exemplo os Médicos do Mundo.
«O logotipo de Médicos do Mundo é constituído por uma pomba que representa a paz e é portadora dos cuidados de saúde. As folhas do ramo de oliveira representam os cinco continentes, o azul evoca os elementos da natureza que os unem: mar e céu. A pomba atravessa todas as fronteiras, apontando para o lado direito, representando o futuro. O círculo do logotipo evoca a terra (o mundo de Médicos do Mundo). O nome da associação, Médicos do Mundo, também disposto em círculo, está envolto no simbolismo da imagem e é o espelho das equipas médicas que levam a sua ajuda a todo o mundo. »
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01/01/2005

Árvores para a democracia

«Quando eu era jovem em Nyeri, no Quénia Central, não havia palavra para deserto na minha língua mãe, o kikuiu. A nossa terra era fértil e florestada. Mas, hoje, em Nyeri, como em grande parte da África e do mundo em desenvolvimento, os recursos aquíferos secaram, o solo é estéril e incapaz de produzir alimentos, e os conflitos por causa da terra são habituais.

Por isso, não admira que eu me sentisse estimulada a plantar árvores para satisfazer as necessidades básicas das mulheres rurais. Como membro do Conselho Nacional das Mulheres do Quénia, no princípio dos anos 70, ouvia as mulheres dizerem que precisavam mas não tinham suficiente energia, água potável e alimentos. A minha reacção foi começar a plantar árvores com elas, para ajudar a recuperar a terra e quebrar o ciclo da pobreza. As árvores detêm a erosão, permitindo a retenção da água e fazendo aumentar a pluviosidade. Fornecem combustível, material para construção e para vedações, frutos, forragem, sombra e beleza.(...)

A minha ideia evoluiu para o Movimento Cintura Verde, constituído por milhares de grupos, inicialmente de mulheres, que plantaram 30 milhões de árvores no Quénia. As mulheres recebem uma pequena quantia por cada planta de viveiro, o que lhes confere um rendimento ao mesmo tempo que melhoram o ambiente. O movimento alastrou para países da África Oriental e Central. Através deste trabalho, concluí que a degradação ambiental das comunidades pobres era simultaneamente a fonte dos seus problemas. (...). Com o tempo, o Movimento Cintura Verde tornou-se o principal promotor da reintrodução da democracia multipartidária e das eleições livres e justas no Quénia. Através da educação pública e do activismo político, também procurámos proteger os espaços abertos e as florestas dos urbanizadores sem escrúpulos.(...)

O Comité Nobel reconheceu a interdependência entre o ambiente, a democracia e a paz e procurou chamar a atenção do mundo para tal.(...) Para celebrar este prémio e o trabalho que ele reconhece por todo o mundo, permitam-me recordar as palavras de Gandhi: "A minha vida é a minha mensagem". Plantem também uma árvore.»

Wangari Maathai, Prémio Nobel da Paz 2004
In Visão de 16/XII/2004

Dia Mundial da Paz

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«(..) L'amour de la justice et de la liberté
A produit un fruit merveilleux
Un fruit qui ne se gâte point
Car il a le goût du bonheur.(...)»



Imagem daqui
Le Visage de la Paix (1951) - ilustração de Picasso para poema de Paul Éluard .
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31/12/2004

Ponto, parágrafo

A espera pela meia-noite do dia 31 de Dezembro parece sempre uma das mais longas de que há memória, como se a física que rege o tempo se alterasse nesses fins de calendário. Por isso há que recorrer à imaginação para a preencher. Podemos optar por um demorado passeio num dos parques da cidade, a apreciar o aroma dos eucaliptos ou as magnólias a abotoar, assunto vasto para a conversa mais tarde com a família; ou ir ao Jardim Botânico do Porto conhecer um exemplar de Macadamia.


Fotos: pva 0412 - folhagem e sementes de Macadamia spp.

Esta árvore de origem australiana é da família Proteacea (tal como os géneros Banksia ou Grevillea) e as espécies integrifolia e tetraphylla (ou seus cultivares) produzem sementes que são consideradas as mais saborosas entre os frutos secos que hoje em dia se consomem. O nome homenageia John Macadam, médico e químico do século XIX, amigo de Ferdinand von Muller, botânico em Melbourne que primeiro nomeou este género. O exemplar do Jardim Botânico tem folha perene, ovada, ondulada no bordo, com cerca de 14 cm de comprimento, sem lóbulos e só ligeiramente serrada (diz-se inteira, daí que suspeitemos que seja integrifolia), de cor verde brilhante. As flores da macadâmia são brancas ou rosadas e desabrocham em cachos, num efeito ornamental muito vistoso; os frutos nascem em drupa, como nas palmeiras, depois dos 7 anos de idade da árvore. A plantação desta árvore com intenção comercial foi iniciada em 1858 em Queensland pelo administrador do Brisbane Botanical Garden; hoje o primeiro produtor é o Havai seguido pela Austrália e África do Sul, uma meia dúzia de países onde a macadâmia partilha com sucesso o solo e o clima favoráveis à planta do café, e outros interessados no preço elevado que esta semente tem no mercado.

Depois de uma tarde frutuosa a estudar esta árvore rara entre nós, merecemos o banquete de fim-de-ano. Como relata Miguel Esteves Cardoso, em A causa das coisas (1991), «Começa-se com um aperitivo, para aguçar um dente que já está perfeitamente vampiresco desde o meio-dia. (...) Depois do aperitivo, como «a comidinha demora», pedem-se «umas coisinhas para petiscar». Os portugueses não petiscam em vez de almoçar: petiscam porque vão almoçar. Chegam então aquelas partes do porco que servem para a locomoção, para o olfacto e para a audição, todas elas reciladas num molhinho com pesados pêsames de alho e coentrada. Juntamente com uns queijinhos para «fazer boca», e umas azeitoninhas para fazer companhia, servem para «ir comendo». «Ir comendo», como já sabemos, não conta como comer. A quantidade colossal de pão que se consome ao mesmo tempo - as chamadas «buchas» - também não conta, porque se destina a um fim essencialmente humanitário, que é «fazer a cama ao vinho». (...) Tecnicamente, os petiscos terminam quando principia a refeição propriamente dita (o «conduto»). (...) Impõem-se agora - precisamente - uma sopinha (talvez de grão, certamente com massa). Para quê? - poder-se-á perguntar. Para «assentar». (...) Depois dos petiscos para abrir o apetite, do conduto para dar força, do pão para fazer a cama, do arrozinho para ensopar e da sopa para assentar, vem a sobremesa para «tirar o gosto da sopa», a fruta para «desenjoar» e o bagacinho para «fazer a digestão».»

E umas deliciosas macadâmias para receber o novo ano.

30/12/2004

As palmeiras

Também o deserto vem
do mar. Não sei em que navio,
mas foi desses lugares
que chegaram ao meu jardim
as palmeiras.
Com o sol das areias
em cada folha,
na coroa o sopro
ainda húmido das estrelas.

Eugénio de Andrade, Ofício de paciência (1994)

Encantamento em contraluz na Rotunda






Fotos: mdlramos 0412 - Jardim da Rotunda da Boavista a meio do dia
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Na Rotunda da Boavista a maior parte dos liquidâmbares que perderam as folhas ostentam os seus frutos característicos... Em contraluz, são pontos negros que nos distraiem e encantam, a mim e à pomba!

Que bonito está o jardim no Inverno apesar de tudo...! As numerosas japoneiras em flor, as palmeiras sempre verdes, as tílias e os tulipeiros, e os carvalhos sem folhas, o metrosídero cheio de raízes vermelhinhas, os braquititons a dar fruto...

Que pena continuar a ser tão difícil atravessar a rua para ver de mais perto toda esta beleza!
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A Nossa Vida Piorou

Não falamos do défice ou da estagnação dos salários, pois essas coisas, dentro de limites razoáveis, não têm na verdade grande importância. Nem se trata de fazer o balanço do ano, computar o deve e o haver para que a aritmética nos esclareça se estamos hoje mais felizes do que em 1 de Janeiro de 2004: aquilo que faz os nossos dias amenos ou aziagos não é mensurável pela frieza autista da economia.

A nossa vida piorou porque arrancaram as jovens tílias na Rua D. Manuel II, frente ao Museu Soares dos Reis. O nosso trajecto diário a pé vai ter menos beleza; e, quando vier a Primavera, não nos irá regalar o perfume das tílias floridas.

No futuro, graças às novas acessibilidades (como o túnel rodoviário que obrigou ao sacrifício das tílias), gozaremos de uma mobilidade quase frenética: é pelo menos esse o sonho dos nossos governantes. Mas esse frenesim há-de ser como o dos ratos em laboratório: nestas placas contínuas de betão como cada vez mais são as nossas cidades, nada haverá que nos retenha ou apazigue os sentidos.

«Gardens are a form of autobiography.»
Sydney Eddison, 'Horticulture magazine', Aug./Sept. 1993 (ou Robert Dash ?)
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29/12/2004

O Mundo da Camélia - Livro

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Por força da jardinagem pública de alguns municípios nortenhos, o interesse pelo cultivo das camélias tem conhecido entre nós, nos últimos anos, um ressurgimento promissor. Afinal temos ilustres pergaminhos a defender: na segunda metade do século XIX, no Porto, José Marques Loureiro teve no Horto das Virtudes um dos mais importantes estabelecimentos hortículas peninsulares, que contribuiu decisivamente para a voga das camélias em jardins públicos e privados tanto no norte de Portugal como na Galiza. O livro que agora aqui trazemos, O Mundo da Camélia, é o melhor testemunho do renovado vigor dessa tradição.

O livro, com cerca de 170 páginas, contém um resumo, muito bem documentado, da história da camélia e da sua introdução no Ocidente, indicações sobre cultivo e métodos de propagação, descrição das moléstias mais comuns, e finalmente uma listagem de mais de seiscentas variedades, todas elas ilustradas com excelentes fotos acompanhadas por descrições sumárias. Todas as flores foram fotografadas pelos autores em viveiros portugueses (em especial na Quinta Vilar de Matos, na Junqueira, Vila do Conde), e são incluídas não só variedades de Camellia japonica, mas também de C. sasanqua, de C. reticulata, de C. higo, de camélias híbridas, e de outras espécies raras em cultivo como a C. irrawadiensis e a C. chrysantha (que tem a particularidade de dar flores amarelas).
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Em suma: uma obra que honra a horticultura portuguesa e talvez a ajude a recuperar algum brio, numa época em que a maioria dos ditos hortos não são mais que entrepostos de venda de plantas importadas, e o contributo nacional para a literatura sobre plantas e jardinagem é quase inexistente. Pena é que esta edição, de tão escassamente divulgada, seja quase clandestina.
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Título: O Mundo da Camélia
Autores: Veiga Ferreira e Maria Celina
Ano de edição: 2000
edição dos autores, tiragem 500 exemplares
170 páginas em papel couché, formato A4
Preço: 50 euros

Contacto dos Autores:
José Alberto Ferraz da Veiga Ferreira
Rua Manuel Bandeira 147-93
Porto
Fax 226090036
Telemóvel: 968019684


À venda também na Quinta Vilar de Matos, Junqueira, Vila do Conde

28/12/2004

Dos jornais: a Quinta de Marques Gomes (Gaia)

«Que está a ser feito das últimas zonas verdes com dimensão e significado na Área Metropolitana do Porto? A resposta é simples: em certos casos, estão esses derradeiros bastiões entregues ao esquecimento e, o que é pior, à voracidade das operações imobiliárias - sem que ao menos a opinião pública tenha uma ideia clara sobre o que se está perdendo. E isto passa-se no momento em que mais se fala de "requalificar", de defender o ambiente e de ordenar o território. Algum dia - certamente já tarde de mais - lamentaremos amargamente a perda de espaços que tornariam possível a qualidade de vida e a verdadeira humanização das cidades!

A Quinta de Marques Gomes é um desses espaços, porventura dos mais importantes. Estendendo-se entre S. Paio e o Cabedelo, e da marginal do Douro até aos pontos mais altos de Canidelo, aí se guardam matas e terras cultivadas, pastagens e prados selvagens, num conjunto notável, como que emoldurando o belo cenário estuarino, com a sua paisagem bela e surpreendente.
(ver foto aérea) Vila Nova de Gaia poderia contar com tal património natural para criar o "Parque da Cidade" tão necessário e diversas vezes proposto. Mas não. A Quinta, e tudo o que ela significa como "pulmão" de Gaia e da zona do Porto, está em grave risco de se perder.

Foi recentemente anunciado o que a aguarda: a sua transformação num "agregado com cerca de 1100 casas, totalizando mais de 148 mil metros quadrados de habitações - com uma cércea , em média, de quatro andares -, e 10 mil de escritórios, a que acrescem 70 mil metros quadrados de estacionamento subterrâneo".

Uma tão pesada ocupação significa, sem apelo nem agravo, a transformação da Quinta numa saudade, certamente com resultados lucrativos, mas que se duvida possam ser de interesse público.»


Bernardino Guimarães no JN de 28/XII/2004
(texto completo aqui)
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Adenda: Visita à Quinta de Marques Gomes (10/II/05)

Garden with views - Jardim do Palácio de Cristal

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Palacio de Crital
Vista para o rio Douro, lado nascente
No pouco luxuriante Jardim dos Sentimentos, sobressai, com a sua folhagem verde limão, uma jovem caneleira (Cinnamomum zeylanicum) que, neste espaço onde se pretende representar algumas espécies botânicas e assinalar a simbologia correspondente, se encontra associada à "Nobreza".
Do lado poente avista-se a Foz

Palacio de Cristal- poente

Fotos: manueladlramos 2004.12

Já anteriormente tínhamos oferecido uma bem triste perspectiva deste lado: fica na zona abaixo do patamar que aqui se vê adornado com um pequeno jardim romântico a que nem falta uma gruta com fetos e água a escorrer. Ao centro, na fotografia, destacam-se duas criptomérias quase escondendo uns sobreiros.
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A faia pseudo-mutante


Fotos: ver 0412 - Jardim Botânico de Glasgow


Conversámos tanto sobre esta faia (à direita na primeira foto) que ela bem merecia o destaque de ficar sozinha na montra. Ficou a dúvida: coalescida ou mutante-regressiva? (Sabe bem enrolar na língua palavras como estas, atestados de sabedoria que obrigam quem as ouve a socorrer-se furtivamente do dicionário...) Indiscutível é que sofre de uma indefinição de personalidade que se traduz num fenómeno inédito em faias: tem algumas folhas normais, outras típicas do cultivar asplenifolia e, a julgar pela foto, outras intermédias entre essas duas formas.

À nossa correspondente em Glasgow (que está de visita ao Porto e tivemos o gosto de conhecer ontem pessoalmente) um muito obrigado por ter partilhado esta árvore connosco.

27/12/2004

Especiarias

«Quando os mongóis e os turcos interromperam o suprimento por terra dos condimentos do Oriente, a era dos descobrimentos começou. A Europa descobriu que não podia viver sem tempero e lançou-se ao mar e à conquista de rotas alternativas para o cominho e, por acidente, outros mundos. (...)

Toda a grande aventura imperial foi aromática, tangida pela pimenta e o gengibre, a hortelã e a noz-moscada. Homens rudes lançavam-se contra o desconhecido e a morte pelo rosmaninho. Navios inteiros eram tragados pelo mar e deixavam, na superfície, irônicas sopas de ervas. Até a poluição era inocente: se se rompesse um porão de navio, as praias se cobriam de grãos de mostarda, as gaivotas se intoxicavam com favos de baunilha. (...)

A especiaria de hoje é a droga. (...) O apetite servido é pelo delírio, não mais pela noz-moscada, e a carga viaja escondida. Quem transporta drogas é chamado de "mula" e há no apelido uma vaga evocação das caravanas do Oriente que enfrentavam bárbaros e ursos - em vez de fiscais de alfândega - só para dar uma sensação à Europa.»

Luis Fernando Verissimo, A mesa voadora (2001)

26/12/2004

Os nomes das árvores- Canela

Há muitas espécies de árvores cujo nome é simplesmente canela ou canela qualquer coisa. O dicionário Houaiss, por exemplo, lista nada menos do que 86 termos em que aparece o vocábulo (ressalvemos todavia que alguns designam a mesma árvore ou arbusto.) Quase todas estas "canelas" pertencem à família das Lauráceas (Lauraceae) que agrupa árvores com madeiras aromáticas (e por vezes também fétidas), e aos géneros Cinnamomum, Cryptocarya, Ocotea, Nectandra e Persea.
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A canela da nossa doçaria, a que entrava no rol das especiarias que levaram os europeus a largarem rumo ao Oriente, e que motivou Sá de Miranda (1481-1558) a reclamar na sua famosa tirada :
«Não me temo de Castela
Donde guerra inda não soa,
Mas temo-me de Lisboa,
Que ao cheiro desta canela
O Reino nos despovoa.»
essa pertence ao género Cinnamomum, e é da espécie Cinnamomum zeylanicum, como já aqui aliás foi referido.
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A origem do nome vulgar da canela é muito simples de entender e transcreve-se na íntegra o que escreve José Pedro Machado, no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (Livros Horizonte, 1967, 2ª ed.) : «Canela: Árvore. De cana. Na origem é diminutivo do lat. Canna, "junco, canudo", pois a casca ressequida da árvore toma a forma de pequenos canudos. Séc. XVI em P.M.»
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Conquanto actualmente não seja usual, a esta especiaria também se costumava chamar canela-da-Índia, canela fina e canela-da-Rainha; esta última designação «dever-se-à ao facto da Infanta D. Maria (neta do Rei D. Manuel), mulher culta ligada à literatura e à culinária, ter utilizado esta especiaria em receitas que compilou no seu famoso livro de cozinha, nos finais do séc. XV/início do séc. XVI. O livro de cozinha da Infanta D. Maria.*» segundo escreve Cremilde C. Barreiros em "Lisboa Arte e Canela".
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Fotos manueladlramos 0112 - Alguma doçaria tradicional da quadra natalícia em que se usa canela.
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Quanto à razão de ser do seu nome científico, o termo que designa o género, Cinnamomum - e que dá origem por ex. ao vocábulo inglês cinnamon -também se deve ao modo como mais vulgarmente contactamos com esta planta: os canudos ou rolinhos do seu ritidoma. Segundo Jacques Brosse : «Cinnamomum: du grec Kinnamómon, de Kineien, "enrouler", a- "privatif" et mômos "défaut", car la plante n'était connue en Grèce, que par les petits rouleaux d'écorce aromatique de cannelier qu'on y emportait; ce mot était lui-même une déformation du nom hébreu de la cannelle, kinnemom.» (in Larousse des Arbres et des Arbustes. Paris : Larousse - Bordas, 2000)
Gernot Katzer na sua página dedicada à esta espécie de canela acrescenta :«(...) it is, however, possible that the word is ultimately loaned from an early Malaysian language, cf. the modern name kayu manis "sweet wood" in Malay and Indonesian ».
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Já o designativo da espécie, zeylanicum fala por si: de Ceilão (que desde 1972 se chama Sri-lanka). Lembremos a referência à origem desta especiaria, na estrofe 14 do "Canto IX", dos Lusíadas:
«Leva alguns Malabares, que tomou
Per força, dos que o Samorim mandara
Quando os presos feitores lhe tornou;
Leva pimenta ardente, que comprara;
A seca flor de Banda não ficou;
A noz e o negro cravo, que faz clara
A nova ilha Maluco, co a canela
Com que Ceilão é rica, ilustre e bela
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A origem geográfica (apesar da planta crescer abundantemente noutros locais como enumera Mrs. M. Grieve no seu famoso Modern Herbal: «Malabar, Cochin-China, Sumatra and Eastern Islands. Has also been cultivated in the Brazils, Mauritius, India, Jamaica, etc.. ») é também a razão de ser para a designação de Canela-da-Índia.
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Como já se referiu, há muitas outras espécies de árvores em cujo nome aparece o termo canela (sobretudo no Brasil), e dentro do próprio género Cinnamomum (que inclui cerca de 200 espécies) a C. Zeylanicum não é a única usada em culinária. Aliás nada nos assegura que a canela que compramos no supermercado, na mercearia ou a que (na minha opinião indevidamente) nos fornecem com o café para servir de colher, não seja, por exemplo, canela-da-China ou cássia-aromática (Cinnamomum cassia) que, segundo os entendidos, apesar de ter os mesmos constituintes e propriedades, é de qualidade inferior.
Mas se realmente quiser saber mais sobre os nomes (e não só) da(s) canela(s) inebrie-se com Gernot Katzer's Spice Pages, o melhor site sobre especiarias da internet, "ever"!
O que aqui lhe trouxemos é meramente um cheirinho...
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*Sobre estes manuscritos originalíssimos (e as suas modernas edições) ver:
As certidões de nascimento da cozinha portuguesa