31.10.05

ALIADOS - actualização

Dragoeiros nos Açores



Fotos: pva 0509 - Dracaena draco no Jardim Duque da Terceira, Angra do Heroísmo

Ainda que haja dúvidas de que o dragoeiro (Dracaena draco) seja nativo dos Açores, ele é tão característico dessas ilhas como da Madeira e das Canárias, de onde é seguramente originário: não há verdadeiro jardim açoriano onde ele não compareça. Este exemplar, que mora no patamar superior do Jardim Duque da Terceira, terá decerto idade considerável, embora não atinja o porte monumental de alguns na Madeira e nos jardins botânicos de Lisboa. O que nele há de assinável é que, ao invés do que é típico da espécie, se ramifica quase a partir da base. De resto a ramificação segue a regra dicotómica ditada pela genética: cada ramada se vai bifurcando sucessivamente, com as folhas pontiagudas dispondo-se em coroas nas extremidades dos ramos mais jovens; o efeito do conjunto, com a copa perfeitamente circular, é semelhante ao de um amplo guarda-sol de varetas intumescidas.

O estatuto do dragoeiro na iconografia açoriana é confirmado por um livro que comprei na livraria In-Fólio (na Rua da Guarita, em Angra): editado em 2005 pela Presidência do Governo Regional dos Açores, e com o título Dragoeiros do Museu do Vinho, o volume - encadernado, 72 páginas - reúne excelentes fotos da autoria de António Araújo e alguns breves textos introdutórios. Pela clareza e rigor, realço o de João Paulo Constância, de que aqui transcrevo um excerto: «Esta espécie de dragoeiro foi uma das principais espécies tintureiras, com interesse comercial, utilizadas entre os séculos XV e XIX. A sua resina, transparente e de cor vermelho sangue, é conhecida por sangue de dragão ou drago, tendo sido utilizada como substância corante e na produção de tintas, lacas e vernizes. Há também referência ao uso da resina em medicina popular.»

O Museu do Vinho fica na Vila da Madalena, Ilha do Pico. Visitei a ilha há uns anos de corrida, mas não vi o museu. Há agora mais motivos para lá voltar, mesmo para quem, desprovido como eu de ambições políticas, se iniba de ascender ao cume da ilha.

P.S. (2 de Novembro): Veja aqui os notáveis dragoeiros do Museu do Vinho. Obrigado, Pedro.

30.10.05

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Parque da cidade, ontem - em primeiro plano tronco de Quercus robur
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«Sou homem inteiramente ligado à natureza. Meu ser, minha vida, minha cultura são a natureza. Dela dependem minha sobrevivência e minha criatividade.» Frans Krajcberg *

* Artista brasileiro de origem polaca "que desenvolve esculturas com a utilização de cascas de árvores e tonalidades da própria terra"; dedica-se também à fotografia .
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29.10.05

Provérbio

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«A par do rio, nem vinha, nem olival, nem edifício.»
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28.10.05

Dezasseis anos depois



Fotos: pva - plátano na marginal de Gaia - Dezembro de 1989 / Outubro de 2005

O ano de 1989 terminou atribulado para os habitantes das zonas ribeirinhas do Douro, com o rio a subir-lhes até ao primeiro andar das casas. O plátano na marginal de Gaia junto à Ponte D. Luiz I, já diminuído por poda que lhe reduzira a copa a meia dúzia de tocos, ainda suportou a indignidade de mergulhar o tronco nas águas turvas do rio. Afinal sobreviveu à agressão humana e ao ímpeto das águas, e ei-lo em 2005, com a copa reconstituída, pronto para vencer mais um século. São retalhos da memória, os das fotos separados por dezasseis anos e outros que elas não mostram, que a mesma árvore renovada ajuda a entretecer nestes dias de chuva redentora.

27.10.05

"Não há, não, duas folhas iguais em toda a criação"

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Foto: manueladlramos 2002- Detalhe da estampa VII da Flora Lusitanica (1804) de F. Avelar Brotero
(exemplar da Biblioteca do Instituto Botânico do Porto)

Pastoral
Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
baínha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.


Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.

Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.
António Gedeão (Poesias Completas, 1956-1967 )
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26.10.05

Flores de Outono


Fotos: pva / mdlr - flores de nespereira; mdlr - panículas dos botões florais cobertos de lanugem, parecendo uns "cachozinhos de lã" , razão de ser da designação científica do género (Eriobotrya )

Agora que Outubro se instalou, as nespereiras estão em flor, preparando os frutos que nascerão em Abril. Não, não há engano: esta árvore não segue a tradição de florir na Primavera e frutificar no Outono.

É uma rosaceae de folha perene, nativa da China e Japão. As flores são brancas, perfumadas, com cinco pétalas; agrupam-se em cachos nas extremidades dos ramos e têm pedúnculo penugento. As folhas, alternadas e sésseis, mais largas junto ao ápice, são de cor verde escura, de aspecto ligeiramente enrugado, face inferior coberta de lanugem castanho-ferrugem e margens dentadas.

A nespereira (do grego méspilon) é do género Eriobotrya (de érion, lã, e bótrus, cacho), espécie japonica. A designação comum em língua inglesa, loquat, deriva do chinês luh kwat que se refere ao fruto como «quase uma laranja».

A nêspera é arredondada, carnuda, com sabor próximo do do pêssego e casca alaranjada; celebrizou-se através do poema de Mário-Henrique Leiria (Rifão quotidiano, in Novos Contos do Gin, 1974) que o actor Mário Viegas popularizou:

Uma nêspera
estava na cama
deitada
a ver
o que acontecia


chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

25.10.05

"Aux Champs Élysées..."

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Avenida dos Campos Elísios (Agosto 2005) com as suas múltiplas filas de árvores talhadas caracteristicamente "à la marquise" : na extremidade Este o Arco do Triunfo, e no lado oposto a "Place de La Concorde" que dá acesso ao "Jardin des Tuileries" .
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Sempre que os arquitectos ou outros responsáveis se dignam falar da "requalificação" que estão a querer impôr na zona mais emblemática da cidade do Porto (e que, alegadamente, se anda lá a "burilar" há mais tempo do que pensávamos...), não faltam exemplos de praças e avenidas estrangeiras. Até com uma fonte inspirada em modelo parisiense nos querem presentear; assim como francês, mais concretamente como os dos Campos Elísios, pretendem que seja o "corredor de árvores" da Avenida dos Aliados, onde se projecta "subir o verde", eliminando-o do chão.
Cores e flores? Nem vê-las! Até porque (dizem eles) «"Nos Campos Elísios (Paris) não há canteirinhos", acrescentou Souto Moura, mostrando uma fotografia do coração da capital francesa.(...)»

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Pois não! Ladeando um terço da grande avenida há um lindíssimo jardim cheio de relvados e canteiros floridos, fontes, e árvores centenárias!

"Eh bien! Ça alors !? Oh la, la..."

«Aux Champs-Elysées, aux Champs-Elysées
Au soleil, sous la pluie, à midi ou à minuit,
Il y a tout ce que vous voulez aux Champs-Elysées ...»
(Joe Dassin; paroles et musique de Pierre Delanoel)
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24.10.05

Crença popular - noz

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«É crença popular que na noz não se pode deitar feitiço, porque a casca está em cruz.»

(José Leite de Vasconcelos, Etnografia portuguesa: tentame de sistematização. Lisboa : IN-CM, 1958-1988, vol.III, p.304)

23.10.05

Cancioneiro popular - noz

«A nogueira é de segredo,
Tem no segredo na noz;
Vós chamais-me doido, doido,
Eu endoideço por vós.
»

Certidão de idade


Foto: pva 0505 - nogueira (Juglans regia) no Jardim das Virtudes, Porto

«Redescobrira a manhã, que a pureza virginal e bravia das manhãs de outrora a mesma era, como se todas uma só, indefinida e rosada.

Já a nogueira do valado, essa não. Que assim crescida e copada, que grossura de tronco deitava! E, no entanto, criara-se a ouvir que não passava de uma varinha aí da grossura dum dedo quando os pais tinham casado. Ali via essa nogueira a valer de certidão de idade, tanto mais que se lembrava dela de todos os tamanhos, até ser tal qual agora.»

Tomaz de Figueiredo, cap. XVI de A toca do lobo (1947, reed. INCM 2005)

22.10.05

Estrelícias

Mantêm-se sempre em posição de voo
Talvez um dia as raízes
as não impeçam de voar

Jorge de Sousa Braga, Fogo sobre fogo (1998)


Foto: pva 0510 - Strelitzia reginae

21.10.05

Os nomes das árvores - plátanos

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Pelas melhores e piores razões temos ultimamente falado de plátanos, a árvore de sombra por excelência na maior parte das cidades da Europa e da América do Norte, e a folhosa ornamental mais regularmente distribuída de norte a sul de Portugal. E hoje, na sequência do que já foi aqui escrito nos comentários pela nossa amiga Ver, tentamos deslindar a sua origem e a razão de ser dos seus nomes.

Segundo Plínio -que no início da nossa era escreveu não haver árvore que melhor protegesse do calor do sol - os plátanos teriam sido introduzidas em Itália cerca de 390 a.C. provenientes da Grécia, onde eram objecto de uma veneração especial. Ainda hoje, na ilha grega de Cós, se pode admirar o chamado plátano de Hipócrates, debaixo do qual, segundo reza a lenda, aquele que é considerado o pai da medicina ocidental atendia os seus pacientes. É aliás do nome grego da árvore, "platanos", que vem a designação científica do género, derivando o termo de "platys" que significa plano, largo em referência às folhas, segundo a maioria dos autores.

Conhecem-se cerca de 6 a 7 espécies de plátanos. Enquanto os da Grécia pertencem à espécie Platanus orientalis, originária das regiões temperadas da Ásia ocidental, o Platanus occidentalis, é nativo da zona atlântica dos Estados Unidos e foi introduzido em Inglaterra ainda antes de meados do séc. XVII, oriundo da Virgínia. No entanto as espécies eram bastante confundidas na literatura dos séc. XVIII e XIX até 1853, data em que Sir Joseph D. Hooker esclareceu as diferenças entres as duas espécies baseando-se nas características distintas dos frutos, o que até então tinha passado despercebido (cf. Hui-lin li).

No livro Árvores Monumentais de Portugal (Portucel, 1984), Ernesto Goes introduz a descrição de alguns dos nossos mais notáveis plátanos do seguinte modo: «A única espécie difundida no país é a Platanus hybrida Brot., sendo de origem desconhecida e considerada uma espécie resultante do cruzamento do Platanus orientalis com o Platanus occidentalis

Com efeito o botânico português Félix da Silva Avelar Brotero (1744-1828) descreveu a espécie na sua Flora Lusitanica (1804) a partir de espécies cultivadas em Portugal (cf. Hui-lin li) todavia a denominação sinónima, Platanus x acerifolia Willd. que precedeu a de Brotero num ano é mais divulgada. (O x indica a natureza híbrida da espécie, o epíteto acerifolia reconhece a semelhança das folhas com as dos áceres, e a abreviatura final refere a autoria da designação: o botânico alemão Carl Ludwig Willdenow (1765 -1812), com quem aliás Brotero se correspondeu.)

Outra designação científica sinónima, por sua vez preferida no país vizinho, é a de Platanus hispanica Mill. ex Muenchh. Recentemente, a opinião dos botânicos evoluíu no sentido de considerar esta espécie, não um híbrido, mas sim uma variedade do plátano oriental, e por isso haverá uma tendência para se adoptar o nome de Platanus orientalis var. acerifolia Aiton. ou seja mais uma designação a juntar à longa lista e a necessidade de se reverem afirmações e "verdades" anteriores!

Os nomes vulgares da árvore nos diferentes idiomas são também significativos: platano comune em italiano; platane commun e platane à feuilles d'érable (p. de folhas de ácer) em francês; plátano de sombra em espanhol; e em inglês European plane (plátano europeu) e London plane (plátano de Londres), designação que faz jus à sua abundância nesta cidade onde mais de metade das árvores ornamentais são plátanos.

Porque é que se chama sycamore nos estados da América do Norte fica para apróxima "investigação", mas se alguém souber...

20.10.05

ALIADOS - actualização

  • Entregue à bicharada...
  • Frase #17
  • Transcrição das Audições na Comissão Parlamentar da Educação, Ciência e Cultura, no âmbito da petição de "Protesto relativo à intervenção urbanística no conjunto da Av. dos Aliados/ Pr. da Liberdade no Porto" - IPPAR; METRO (Empresa Metro do Porto SA) no passado dia 11 de Outubro.
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Paineira na Terceira


Fotos: pva - 30 de Setembro de 2005

Já antes aqui falámos, a propósito da árvore centenária no Jardim das Virtudes e de algumas jovens árvores no Jardim Botânico do Porto, da Ceiba speciosa (antes chamada Chorisia speciosa), conhecida no Brasil, de onde é originária, por paineira ou paineira-rosa. No Porto a floração é sempre escassa - e, em qualquer caso, ainda não começou; mas em Lisboa, e em particular no Jardim das Amoreiras, elas são a atracção do momento. Se puder também dar um pulinho a Cascais, não perca as paineiras-amarelas em flor. (Cabe aqui noticiar que essas árvores da Linha têm descendência no Porto, e que quatro dos seis rebentos, já espigadotes, foram esta semana plantados ao ar livre.)

Falta falar das elegantíssimas paineiras nas fotos: moram em Angra do Heroísmo, a da esquerda no Jardim Duque da Terceira, a outra no jardim do Palácio dos Capitães Generais. Quando as visitei, no último dia de Setembro, a floração mal despontava, mas prometia ser abundante. Alguém da Terceira pode mandar notícias frescas?

19.10.05

Jardim-museu de fontes e chafarizes


Fotos: pva 0503 - carvalho (Quercus robur) e fontes nos jardins de Nova Sintra

O bucólico jardim da rua Barão de Nova Sintra, suspenso sobre o rio Douro, de alamedas sinuosas e aparência um pouco rude, integrou a propriedade da família britânica Wright até 1932, altura em que a Câmara Municipal do Porto a adquiriu para aí instalar os SMAS. Ali encontramos, entre outras espécies, olaias, criptomérias, faias, oliveiras, cedros, sobreiros, carvalhos, tílias, loureiros, pitósporos, eucaliptos e ulmeiros. São companhia silenciosa de fontes e chafarizes dos séculos XVII a XIX que se acolheram àquele sossego depois de anos de serviço público.

Algumas destas fontes, que a tradição associou a episódios amorosos, continuam a dar aqui testemunho dos usos de antanho; outras são agora puro ornamento. O seu conjunto constitui grata memória de vivências de outros tempos em muitos recantos da cidade.

A associação Campo Aberto, no âmbito do seu Ciclo Jardins 2005 - que já incluiu visitas ao Viveiro Municipal do Porto, ao Jardim da Fundação Eng. António de Almeida e à Quinta do Alão -, promove no SÁBADO, 12 de NOVEMBRO, às 14H30, uma visita guiada pelos SMAS às fontes e chafarizes do jardim de Nova Sintra; o ponto de encontro é à entrada dos SMAS, na rua de Nova Sintra (muito perto da estação de metro do Heroísmo). A participação é limitada e sujeita a inscrição prévia pelo endereço dias-com-arvores(at)sapo.pt

18.10.05

Um pedaço de noite

À noite, o salgueiro é negro...
Com o vento meneando,
Parecem filas de frades,
Todos em coro rezando.

Antero de Quental, Cantigas (1864)


Foto: pva 0411 - salgueiro-chorão (Salix babylonica) na Baixa de Santo António, Aveiro

17.10.05

Plátano de Alijó


Plátano monumental de Alijó, conhecido como a "árvore grande". Plantado em 1856 e classificado de interesse público em 1953. Segundo Ernesto Goes , ca1984, tinha «6 m. de P.A.P., 30 m. de altura, e 26 m. de diâmetro de copa.»

16.10.05

A Árvore do Pão

.«A árvore-do-pão: A saga de alguns dos mais comuns frutos tropicais conta com episódios curiosos, muitos dos quais vindos do período colonial. Em 1787, o tenente William Bligh navegou até ao Tahiti, no Índico, carregou uma caravela com sementes da árvore-do-pão.» (continuar a ler no Sapo )
The Breadfruit Institute
Artocarpus altilis

Este post, sobre uma árvore e um fruto que nunca vi, é apenas um pretexto para invocar um número, lido hoje na imprensa, que não me sai da cabeça:"Mais de dois milhões de pessoas morrem à fome todos os dias!"
Hoje é o Dia Mundial da Alimentação. E o tema para este dia de 2005 é "Agricultura e diálogo intercultural" (ler sobre este assunto no site da FAO

Provérbio - pinhal

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«Velhacos e pinhal não acabam em Portugal.»
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15.10.05

Nova arena para arboricidas

Aqui vai nascer um novo jardim: esta terá sido uma das promessas que levaram a população de São Martinho do Porto, no concelho de Alcobaça, a votar na reeleição de José Gonçalves Sapinho como Presidente da Câmara. E o edil honrou a sua palavra: logo na terça-feira, dois dias após as eleições, deu ordens, «no âmbito de um projecto de requalificação urbana que prevê a construção de um jardim no local», para abater os cinquenta plátanos no largo central da vila (notícia completa em rtp.pt).

Fico transido diante de tamanha barbaridade: é o imorredouro país arboricida que ressurge em toda a sua grotesca pujança, com a triste ironia de o pretexto ser desta vez a construção de um jardim. Seria apropriado que só houvesse, no novo jardim, relva sintética e plantas artificiais, com umas poucas flores de plástico para quebrar a monotonia, mas temo que tal ideia não seja aceite: o arboricida contumaz, à semelhança do toureiro-matador, precisa de uma arena para exercer a sua vocação, e só é feliz ao som da motosserra. Plantem-se pois para ele as árvores no jardim, como se criam na ganadaria os touros para a festa brava (só que as árvores não podem reagir contra quem as destrói).

Segundo a notícia citada, não parece que o Presidente da Câmara tenha actuado contra a vontade da maioria da população. Há aliás outros indícios de que ele é, na pulsão arboricida, uma fiel emanação do povo de Alcobaça, que o elegeu. Leia-se, por exemplo, esta passagem da entrevista, em Abril deste ano, do arquitecto Gonçalo Byrne - responsável por esta atroz requalificação em São Martinho do Porto e, em Alcobaça, pelo novo arranjo da zona envolvente do Mosteiro - ao jornal local Tinta Fresca:

«TINTA FRESCA - Se o projecto visava engrandecer e visualizar todo o mosteiro, porque não foram cortados todos os plátanos na praça D. Afonso Henriques?

GONÇALO BYRNE - No que respeita aos plátanos, actuámos por precaução eliminando apenas dois deles, mas é uma questão que está em aberto. Podemos removê-los em qualquer altura. Por outro lado, também é verdade que se o fizermos estamos a retirar sombras e as esplanadas no local podem perder bastante sem elas.
»

O Tinta Fresca não está sozinho nesta sua preocupação em remover os trambolhos dos plátanos. No blogue Terra de Paixão, o articulista, que se assina Alcobacense, discorre sobre o mesmo assunto:

«Plátanos da praça D. Afonso Henriques deverão ser podados, arrancados ou substituídos? Ou deverão antes morrer de pé?

Não sou a melhor pessoa para falar sobre este assunto, na medida em que sou contra a existência de plátanos nas cidades. São muito frequentes as alergias e os problemas respiratórios derivados deste tipo de árvores e em Alcobaça verifica-se essa situação. Na minha opinião seriam substituídos por um outro tipo de árvores de menor porte, que permitissem uma melhor visualização dos edifícios da praça. É uma das praças mais bonitas que conheço e é uma pena que esteja completamente escondida. Em termos de saúde seria também benéfico para todos, como referi anteriormente.»

O mesmo articulista arroga-se sabedor de podas, e recomenda à Câmara que ponha os olhos nos bons exemplos de outros municípios:

«Em relação às podas, é necessário e urgente podar quase a totalidade das árvores da cidade e do concelho. Todas as nossas árvores estão num estado lastimoso e necessitam deste tipo de intervenção. Vejamos os exemplos externos em que as árvores são podadas anualmente. Uma boa poda evita também problemas de quedas de árvores resultantes de ventos fortes.»

Mas esta história reserva para o final uma reviravolta edificante. Uma das consequências das obras no centro de Alcobaça é a preocupação, de que faz eco o nosso alcobacense, pela localização futura do monumento a três destacados membros de uma família da terra: Manuel, António e Joaquim Vieira Natividade. Saberá este inimigo dos plátanos que o grande agrónomo Joaquim Vieira Natividade foi entre nós um dos mais combativos e esclarecidos defensores da árvore na cidade? Que, contra gente como ele, escreveu coisas como esta:

«Compreende-se, num povo de fraca cultura, o desamor instintivo ao marmeleiro e ao castanheiro, árvores estas consideradas, desde remotos tempos, estimáveis ferramentas de educação e esteio dessa vida patriarcal, austera e digna, que os velhos, ao olharem o que vai pelo mundo, recordam com saudade e respeitoso enlevo. Já se não compreende, todavia, que se mutilem ou suprimam sem piedade o ulmeiro, o plátano, o umbroso freixo, o álamo esbelto, os nobres e austeros ciprestes, os cedros, os carvalhos e tantos outros soberbos gigantes vegetais que, estranhos, embora, muitos deles à nossa flora, encontraram na Lusitânia como que a sua segunda pátria.

Num país castigado por uma ardente canícula, dir-se-ia que temos horror à sombra; onde se pediam arvoredos frondosos e acolhedores, o ninho de um oásis a suavizar as inclemências do estio, fizemos terreiros imensos, cruamente ensoalheirados e inóspitos; quando tantos dos nossos monumentos lucrariam com uma nobre moldura vegetal que acarinhasse e aquecesse a frieza da pedra
(...)
»

É proverbial que ninguém é profeta na sua terra, mas este caso é peculiar: Alcobaça homenageia o profeta, mas faz o contrário do que ele pregou. Talvez nunca lhe tenha ouvido os ensinamentos: sabe tratar-se de um filho da terra que de tão ilustre até merece estátua, mas ignora por que razão é ilustre. Uma coisa tenho por certo: Joaquim Vieira Natividade ficaria estarrecido se voltasse hoje a Alcobaça.

14.10.05

As palavras correctas parecem às avessas


Foto: pva 0510 - alameda de 85 plátanos em Ponte de Lima, na margem esquerda do rio, plantados
em 1901 e declarados de interesse público em 1940


«Há países cuja cultura se expande como uma árvore alta, enraizada em húmus próprio e elaborado pela criatividade e pela memória do povo que faz as suas terras. Noutros países, porém, entre a raiz e a copa parece ter havido uma ruptura. A enxertia, em vez de enriquecer e apurar o original, parece, pelo contrário, apostada em travar o trânsito da seiva. O aperto é tanto que as duas partes da mesma árvore chegam a uma mútua desconfiança, por mais que alguns jardineiros a tragam tão fanaticamente cuidada que chegam a pôr virtude no defeituoso corte. (...)

E porquê este relambório numa altura destas? (...) Porque seria bom que a cultura e a arte em geral se produzissem descomplexadamente e sem obcecadas imitações dos modelos que a aldeia global hoje reproduz até à exaustão, esvaziando-nos de nós mesmos e subtraindo-nos o espaço da criação e o fermento mais íntimo. Deveríamos respirar o nosso ar. Ter na memória quem cuidou dos frutos que ainda hoje estão disponíveis para a nossa sede, ou os grandes plátanos cuja sombra continua a separar o sol da frescura, por nossa causa.»

Manuel Hermínio Monteiro, in Ler / Livros & Leitores, nº 24, (1993)

13.10.05

Frangipani



Fotos. pva 0510 - Plumeria rubra no Jardim Duque da Terceira, Angra de Heroísmo

O género Plumeria, tal como os outros membros da família Apocynaceae, tem flores cerosas exibindo pétalas levemente sobrepostas e torcidas como as pás de uma hélice. A essência almiscarada intensa a que as suas flores rescendem, que compensa em várias espécies a falta de néctar e lembra o aroma de pipoca, de laranja, de pêssego, de jasmim ou de gardénia, concede-lhe a designação frangipani, do antropónimo Muzio Frangipani, nobre italiano do século XVI que lançou a moda de se usar em luvas e outras vestimentas de pele o perfume desta planta. São estas as flores que compõem os famosos colares havaianos, os leis.

Originário da América tropical, mas largamente disseminado por missionários que o promoveram como ornamento em cemitérios, hibrida com facilidade tornando árdua a tarefa de identificação. A espécie Plumeria rubra, antepassado da maioria dos híbridos e que nas zonas equatoriais pode manter-se em flor todo o ano, é um paquiderme vegetal de folhas largas, coriáceas, acuminadas e caducas que se agrupam nas extremidades dos ramos; o tronco suculento, musculoso e com ritidoma espesso, só se ramifica quando floresce, optando por uma divisão dicotómica que assim forma um arranjo de ramos que se assemelha ao do dragoeiro.

O nome Plumeria homenageia Charles Plumier (1646-1704), botânico francês que trabalhou nas Caraíbas.

12.10.05

«O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso

...penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista !
Precipitado tão de alto do pinheiro solitário, balouçou-se um instante e ensaiou um voo oblíquo. A meio caminho volteou, rodopiou, viu as nuvens ao largo, a terra em baixo e, saracoteando a fralda, desceu em espiral. Poisou em cima duma fraga, ligeiro como um tira-olhos. Mas novo pé-de-vento atirou com ele para a banda, quase de escantilhão, e a aleta, tomando-se de imprevisto fôlego, arrebatou-o para mais longe. Foi cair numa mancheia de terra, removida de fresco pelos roçadores do mato, e ali permaneceu à espera que pancada de água ou calcanhar de homem o mergulhasse no solo, dado que um pombo bravo o não avistasse e engolisse. (...)


Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta. Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la. No seu solo abrigado e gordo nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios a vez de germinar. De permeio desabrocharam cardos, que são a flor da amargura, e a abrótea, a diabelha, o esfondílio, flores humildes, por isso mesmo troféus de vitória. Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana. Faltava o senhor, meio fidalgo, meio patriarca, à moda do tempo. Ora, certa manhã de Outono...»
Aquilino Ribeiro, A casa grande de Romarigães: crónica romanceada (1957). Lisboa : Bertrand, cop. 1985

11.10.05

O valor do vento

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo, Homem de palavra[s] (1978)

10.10.05

ALIADOS - actualização

  • Dos Jornais - "Aliados levam Câmara e Metro ao Parlamento"
  • Resultado do envio das assinaturas para a Assembleia da República- relatório

O jardim dos cinco continentes


Foto: pva 0510 - Jardim Duque da Terceira, Angra do Heroísmo

O clima especial das ilhas açorianas, ameno, isento de grandes variações térmicas, com precipitação regular, possibilitou a coexistência no Jardim Duque da Terceira, e com óptimo desenvolvimento, de espécies tropicais ou subtropicais e de espécies de regiões temperadas. De sentinela à entrada do jardim, um de cada lado do portão, estão dois grandes tulipeiros (Liriodendron tulipifera), árvore norte-americana vulgar na Europa mas intolerante a climas tropicais. Fazendo-lhes companhia, além de metrosíderos, magnólias, araucárias, camélias, hibiscos e medronheiros, encontramos palmeiras (géneros Phoenix, Livistona e Archontophoenix), fetos arbóreos africanos (género Cyathea), zâmias (aparentadas com os encefalartos e originárias da América Central), poinsettias (Euphorbia pulcherrima), e até uma muito tropical fragipana (Plumeria rubra). Um verdadeiro convívio botânico intercontinental que noutras paragens só é possível com recurso a estufas.

9.10.05

"Ah ribeira do Lyma celebrada..."

. Peregrino-Écloga XV (Diogo Bernardes, ca1530-1596)

«(...) Limiano:
Está hum bosque ali verde, e sombrio,
Que sombra nos dará, assento o prado,
Fermosa vista o monte, o valle, o rio,
O rio que verás tam sossegado,
Que te parecerá que se arrepende,
De levar agua doce ao mar salgado.
Nem cabra, nem ovelha ali offende,
Erva, folha, nem flor, do ferro duro,
A planta, pelo ar livre, se estende,
N'uma secreta lapa, cristal puro,
Veras estar caindo em gotas fria,
Por antre hum musgo antigo ved' escuro.
Ali só me recolho os mais dos dias,
Por nao tratar com gente endurecida,
Que mais brandura sinto em penedias.


Rio Lima por entre freixos (Ponte do Lima-0403)
Peregrino: (...)
Podes-me crer, amigo esta verdade,
Que muitos valles vi, muitas ribeiras,
Mas esta me dobrou a saudade.
Que murtas, que medronhos, que avalleiras,
Que freixos, como estão d'era cingidos,
Quantas voltas lhe dá de mil maneiras!
Os lyrios junto d'agua bem nacidos,
Quanta graça que tem entre boninas,
Sem ordem cõ mais graça entremetidas.
Vem encrespando as aguas cristalinas,
Huma viraçaõ branda, a folha treme,
O movimento a penas determinas.
O seu perdido amor a Rolla geme,
Escondida se queixa a Filomella,
Parece que do ceu inda se teme!
Espanta-se quem olha, vendo aquella,
Rocha por cima d'agua pendurada,
Como ja se naõ deixa cair nella.
Ah ribeira do Lyma celebrada:
Com outras de mais aguas sempre sejas,
Sempre, de brandas Ninfas habitada.
Fujaõ longe de ti, iras , invejas,
Peçonha de pastores, morte sua,
Tudo sintas amor, tudo amor vejas!
De dia o claro Sol, de noite a Lua,
Em teu favor aspirem de maneira,
Que fértil sempre seja a praya tua.
(...)»
Obras completas /Diogo Bernardes, pref. e notas Marques Braga. - Lisboa : Sá da Costa, vol. II, 1946- O Lima ( p.105-107 )

Ler: O Lima e o Bucolismo de Diogo Bernardes (ensaio por J. Cândido Martins in Letras & Letras)
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8.10.05

Ponte de Lima


Foto: pva 0510 - Festival de Jardins de Ponte de Lima - Jardim do Arco-Íris

Só tem mais uma semana para visitar o Festival de Jardins em Ponte de Lima, que termina precisamente no domingo, dia 16 de Outubro. Mas, mesmo que não chegue a tempo de ver o festival, vale sempre a pena visitar Ponte de Lima, concelho exemplar no cuidado com o espaço público, três vezes vitorioso em outras tantas participações no concurso nacional de vilas e cidades floridas, e que, nos últimos anos, tem enriquecido o seu património com a criação de jardins (como o Parque do Arnado) e de áreas protegidas (Bertiandos). Tudo isto com uma discrição louvável e sem recurso aos arquitectos do regime que muitos dos nossos autarcas gostam de usar na lapela.

Uma vez em Ponte de Lima, não deixe de comprar (por 12 euros) a brochura que a Câmara Municipal editou para celebrar este evento: mais do que um roteiro do festival, é um valioso guia do rico património natural do concelho, ilustrado com fotos de muito boa qualidade.

7.10.05

Jardins do Luxemburgo - fim de tarde

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Dias compridos, longos fins de tarde luminosos até ao cair da noite ... são alguns dos encantos do Verão que deixam saudades.
"Folheando" o album de férias tornei a deliciar-me com as imagens dos jardins e parques da capital francesa onde, muito rapidamente, um novo tema se impôs à minha voracidade fotográfica: cenas de leitura. Por todo o lado e em qualquer parte se vêem pessoas mergulhadas em livros.
Aqui no Jardim do Luxemburgo, ao fim da tarde, em redor do "parterre" principal e a dois passos da Fonte de Médicis, o espectáculo encenado em todos os espaços verde parisienses reproduzia-se: pessoas a ler e a contemplar as flores!

6.10.05

Em campanha no bairro das Campinas

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Em 1º plano: rua Direita das Campinas num Ramalde rural em vias de extinção, vendo-se atrás a urbanização dos Edifícios do Lago.
Estávamos, o Sr. Silva* e eu, a trocar impressões sobre as couves, o loureiro e a seca, como não podia deixar de ser, quando subitamente os bombos e as gaitas de foles nos despertaram do sossego da conversa do fim de tarde.
Se me quiserem ver pular é mesmo com bombos e gaitas: é dito e feito; nem sei bem explicar o súbito entusiasmo.
Mas não sou caso único e deve ser por isso que a campanha socialista anuncia desse modo aos quatro ventos a sua passagem.

Pois era mesmo disso que se tratava: a campanha eleitoral do PS a passar no bairro, anteontem. Juntei-me ao número de mirones e apreciei durante algum tempo a movimentação do candidato em pessoa e dos seus apoiantes.

Ontem de manhã, imagine-se!, foi a vez da campanha laranja passar pelo bairro das Campinas. Outro estilo, música gravada.

Em ambos os casos não resisti a atravessar-me literalmente no caminho dos ilustres candidatos, a estender-lhes a mão e a falar-lhes... adivinhem de quê. Se quiserem saber vejam aqui.
O Sr. Silva* esse continuou impávido e sereno debaixo do loureiro, ao lado das couve galegas e da sua estufazita, "admirando" as vistas na paisagem.
* (nome fictício)
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Divinas



Fotos: pva 05 - flores de Protea sp. em Angra do Heroísmo e nos Kew Gardens

Estas são flores de arbustos sul-africanos do género Protea, talvez o mais conhecido da família Proteaceae, designados por sugar bushes nas regiões de origem pela abundância de néctar das suas flores. A época da floração varia com a zona e o clima, entre nós começa no Inverno; e, para que não passem despercebidas, um invólucro de belas brácteas agiganta cada flor e abre-se progressivamente como um guarda-chuva. O nome Protea assinala a grande variabilidade destas flores, já que Proteus, deus grego do mar, era capaz de adquirir qualquer forma.

5.10.05

Um jardim no Atlântico



Fotos: pva 0510 - Angra do Heroísmo: patamar superior do Jardim Duque da Terceira; a baía e o Monte Brasil, com um vislumbre do patamar inferior do jardim; subindo para o Outeiro da Memória; catedral de Angra com a fortaleza do Monte Brasil ao fundo (as árvores à direita são do jardim do Palácio dos Capitães Generais).

Os jardins e praças de Angra do Heroísmo são frequentados, mesmo à semana, por gente de todas as idades. Ninguém receia um mau encontro, e não há, como noutras paragens, aqueles olhares de desconfiança atirados de raspão aos forasteiros. Cumprimentam-se todos, até quem não se conhece, como percebi à minha custa com alguma surpresa.

Os mais idosos têm o hábito peculiar de não ir ao jardim para jogar cartas. Como os bancos até têm encosto, ao contrário do que agora sucede no Porto, simplesmente sentam-se e conversam. Mais estranho ainda: não é sobretudo de futebol que falam. Numa ilha com 59000 habitantes onde não é possível percorrer mais de 29 kms em linha recta, julgar-se-ia que todos os assuntos estariam há muito esgotados. Puro engano: a vida, e não a televisão, dá-lhes pano para mangas; até o estado do tempo é aqui tema apaixonante, com as nuvens ligeiras a obrigarem o sol a um permanente jogo de escondidas.

O Jardim Duque da Terceira, no coração de Angra, é um dos mais bonitos e acolhedores de quantos conheço. Reparte-se por dois patamares, ligados por um declive com caminhos desenhados a pedra de lava. É a meio desse declive que se erguem duas descomunais araucárias (A. heterophylla); é aí também que gatos e gatinhos, escondidos entre os arbustos, aguardam ao fim da tarde que lhes tragam comida. Partindo do patamar superior, uma escadaria conduz a uma íngreme vereda arborizada que leva ao Outeiro da Memória; lá do alto, no miradouro, vê-se a cidade desenhada como num mapa, rematada pelo semicírculo da baía e pela mole verdejante do Monte Brasil.

Com os olhos cheios de mar, desço novamente ao jardim, repositório de uma colecção de plantas, quase todas etiquetadas, de fazer inveja a alguns jardins botânicos. Das preciosidades que lá se encontram aqui se dará notícia em fascículos de periodicidade irregular. Para já conto um segredo: as traseiras do Hotel Angra Jardim - agora chamado, vá-se lá saber porquê, Angra Garden Hotel -, com entrada pela Praça Velha, estão viradas para o Jardim Duque da Terceira. Todos os quartos dessa ala têm varanda, nada se interpondo entre ela e o jardim: de um salto, qualquer medíocre acrobata aterraria sem mossa nos canteiros. Mas eu nem precisaria de arriscar os ossos, pois um formidável metrosídero (M. excelsa) estende grossa braçada até à minha varanda, como que convidando-me a descer. E ao fim da tarde, a título de bónus, a chilreada frenética da passarada que se abriga na árvore abafa todos os outros sons da cidade.

4.10.05

Alerta laranja...

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In pág. 10 do programa de recandidatura de RR à presidência da C. Municipal Porto, finalmente publicado.
Aqui fica o alerta lançado por Teófilo M. via A Baixa do Porto.

Como não diz o povo mas devia dizer "mais vale prevenir que requalificar..."
Recordo que já em Março, Teresa Andresen tinha aventado a possibilidade de uma onda sizenta vir a atingir outros jardins históricos, isto a propósito das "requalificações" minimalistas da Porto 2001 e da que entretanto se abatera sobre uma das zonas mais emblemáticas da cidade: «(...) Mas veja-se a Cordoaria, Poveiros, Montevideu, Batalha, Leões, Infante, etc. A Avenida e a Praça estão agora em marcha. A opção é criar o vazio, como noticia o Público, citando Souto Moura. "O vazio que pode ficar ocupado". E o que estará para vir? A Arca de Água resistirá ao vazio? E São Lázaro? E o Passeio Alegre? Também seremos admoestados a calar?! (...)» (ler artigo completo)

Tenho plena consciência de estar "a pôr os carros à frente dos bois", mas, como não diz o povo e também deveria passar a dizer, "cidadão prevenido vale por dois".

Foto manueladlramos - 0404 Jardim do Passeio Alegre (Porto)

Flores de papel



A buganvília, da família Nyctaginaceae, é uma trepadeira de crescimento rápido e vigoroso, com folha perene, ovalada e pontiaguda, que pode atingir porte arbóreo e optar por um regime de folha caduca em períodos breves no Inverno. O tronco é lenhoso, castanho-claro; os ramos são espinhosos e o seu arranjo é denso, pendente e de franja espetada e longa. Sul-americana de origem, preferindo zonas tropicais, adaptou-se bem às varandas e floreiras ensolaradas em clima mediterrânico, sendo até tolerante a geadas.

O género Bougainvillea - nome que homenageia o navegador francês Louis Antoine de Bougainville (1729-1811) - tem cerca de duas dezenas de espécies muito apreciadas pela floração terminal abundante e de cores muito vistosas (vermelho, slamão, rosa, violeta, laranja, ferrugem, branco, ...). As brácteas parecem folhas que mudaram de cor (notam-se até as nervuras) e adquiriram textura de papel; agrupam-se em trios formando chapéuzinhos de três bicos; no centro de cada um aninham-se três flores amarelas ou brancas (as três-marias) que são pequenos cálices estrelados na ponta. Revelando uma notável economia de meios e eficiência na reciclagem de materiais, a buganvília utiliza ainda estas brácteas como planadores para transporte das sementes.


Fotos: pva 0510