31.8.06

Jasmineiro-estrela



Afinal não é preciso esperar pelo Outono para confirmar que o Trachelospermum jasminoides, trepadeira chinesa de ramagem densa e floração muito perfumada, tem frutos em vagem num emparelhamento que não é surpreendente: a fragância das flores é tão intensa e agradável que naturalmente nascem muitos bigodes para a apreciar. Num notório exibicionismo surrealista, sebes e caramanchões apresentam agora dúzias de arrojados bigodinhos pendentes em comunhão com flores tardias - um cenário cuja exuberância só não pareceria excessiva a Dalí.

30.8.06

Dos jornais: Virtudes e Botânico


Virtudes: magnólia-de-Soulange em flor

Primeiro a má notícia: o Parque da Virtudes, no coração da freguesia de Miragaia, no Porto, foi encerrado ao público devido ao aparecimento de crateras nos socalcos e ao perigo de derrocadas (detalhes no Primeiro de Janeiro). Já antes, em finais de 2001, o desabamento de um muro levou à interdição do espaço durante mais de um ano. A muita chuva que caiu nesse Inverno, juntando-se ao caudal do rio Frio, que corre entubado no local, explica o desastre. Desta vez, em época de tão pouca chuva, supõe-se que a causa das fissuras esteja na obstrução do rio Frio, presumivelmente agravada pela construção do túnel rodoviário Ceuta-Carregal. Como nos é imperativo visitar a rainha das Virtudes também este Outono, fazemos votos de que o problema seja solucionado em breve. Já agora, aproveite-se a ocasião para dotar o Parque das Virtudes de uma entrada digna: a actual, com os montes de entulho já cobertos de ervas e o contentor servindo de guarita ao vigilante, faz lembrar um estaleiro de obras abandonado e só pode repelir os visitantes.


Jardim Botânico: sumagre-da-Virgínia (Rhus typhina) no Outono

Como antes aqui noticiámos, o Jardim Botânico do Porto entrou em obras, que afinal só terminarão em Dezembro. Saiu há dias sobre o assunto desenvolvida reportagem no Jornal de Notícias. Leia-se também o oportuno comentário da arquitecta Paula Morais na Baixa do Porto.

29.8.06

Sensitiva



Pergunto a Deus se estou viva,
se estou sonhando ou acordada.
Lábio de Deus! - Sensitiva
tocada.


Cecília Meireles, Noite (in Mar absoluto e Outros poemas, 1945)



A Mimosa sensitiva é uma leguminosa tropical cujas folhas se retraem ao contacto (os folíolos opostos das folhas aproximam-se) conhecida no Brasil como arranha-gato, malícia, maria-fecha-a-porta. Ou sensitiva, palavra com presença recorrente na obra da pastora de nuvens, a poetisa da mudança, do transitório e da morte.

28.8.06

Açoita-cavalo


Jardim Botânico de Coimbra: Luehea divaricata

A família Malvaceae, que inclui os hibiscos e os abutilons, foi recentemente aumentada pela inclusão das antigas famílias Tiliaceae (a que pertencem as tílias), Bombacaceae (abrangendo as paineiras e os famosos embondeiros) e Sterculiaceae (de que conhecemos os braquiquitos). Que todas essas famílias botânicas sejam fundidas numa só é consequência de avanços científicos (incluindo estudos genéticos) que permitem reconhecer afinidades profundas em plantas aparentemente muito diversas. Mas mesmo um leigo pode por vezes detectar certas semelhanças à vista desarmada. Por exemplo, quando primeiramente vimos a flor (pequena, de uns 3 ou 4 cm de diâmetro) da árvore na foto, a sua parecença com a do hibisco sugeriu-nos tratar-se de uma malvácea. E de facto assim é - mas apenas agora, pois antes a árvore em causa (Luehea divaricata) incluía-se nas tiliáceas. Mesmo que acidentalmente, essa árvore acaba por funcionar para nós como elo de transição entre as duas famílias agora reunidas; mas, para apaziguar a nossa teimosa ignorância, ainda aguardamos um exemplo intermédio que nos convença do parentesco entre a tília e o embondeiro.

Segundo o livro Árvores Brasileiras - vol. 1 de Harri Lorenzi (Instituto Plantarum, 3.ª ed., 2000), a Luehea divaricata é uma árvore caducifólia que pode atingir os 25 metros de altura, espontânea no Brasil desde a Bahia até ao Rio Grande do Sul, de distribuição irregular mas mais frequente nas margens dos rios. Um dos seus nomes brasileiros, açoita-cavalo, é cruel mas literal, pois os seus galhos muito flexíveis são usados como chicotes. O exemplar da foto, o único que conhecemos em Portugal, está agora em flor; encontra-se no Jardim Botânico de Coimbra, em local vedado ao público (numa das escolas sistemáticas entre o quadrado central e a estátua de Brotero), e sem uma placa que o identifique. A obtenção das fotos foi saga digna dos bandeirantes que - e seja-nos permitido fantasiar um pouco -, de entre os colonizadores do novo mundo, primeiro terão postos os olhos numa destas árvores; mas, ao contrário do que sucedeu à epopeia seiscentista, desta aventura em Coimbra não ficará, por modéstia nossa, relato para a História.

27.8.06

"Rezinas, Almacegas, ou Mastique"

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«As amendoeiras, damasqueiros, ameixieiras, e gingeiras dão alguma rezina que se exporta. Algumas outras rezinas e gomas se podião aproveitar dos arbustos e plantas que alli crescem.

Do lentisco verdadeiro de Brotero (Pistacia lentiscus) , que se cria pelos mattos e vallados das fazendas, se póde colher a almecega ou mastique que tem uso nas boticas, e na composição dos vernizes. Os habitantes da Ilha de Chio na Grécias são os que aproveitão esta rezina, fazendo no principio de Agosto incisões na cortiça do tronco do arbusto, sem tocar nos ramos novos, e por ellas vai distillando o suco nutritivo em pequenas lágrimas que amadurecendo formão os grãos de mastique, e se apanhão no mesmo arbusto, onde durão todo o mez; ou na terra quando tem cahido. (...)
Ainda que os botânicos dêm a este arbusto o nome de lentisco, com tudo no Algarve ninguem o conhece por tal, e sim pelo de aroeira, chamando-se lentisco ao Phyllirea angustifolia de Linneo, lentisco bastardo de Brotero. (...)

Os Romanos atribuião aos palitos da aroeira a virtude de firmar as gengivas, o que ainda tem credito entre nós; e até chamavão aos que trazião por ostentação o palito na boca, de roedores de lentisco (lentiscum arrodere). As mulheres do Imperador da Turquia, e dos seus magnates fazem grande uso do mastique para lhes conservar a alvura dos dentes, o bom hallito da boca, e a firmeza das gengivas; (...)
Assim pela abundancia do azeite que produzem as suas bagas, e que he excelente para as luzes, como pelo mastique, que deste arbusto se póde extrahir, deve promover-se a sua cultura, e aproveitamento: elle é indigena entre nós, basta querer utilizar os seus productos espontaneoas para tirarmos lucros.»

in LOPES, João Baptista da Silva, Corografia ou memória económica, estatística e topográfica do reino do Algarve, Academia Real das Ciências de Lisboa, 1841 (edição facsimilada da Algarve em Foco Editora, 1988), p. 158

Refrescos com pétalas

Cubos de gelo floridos (via Human Flower Project)

26.8.06

Jardim Botânico de Coimbra




O Jardim Botânico de Coimbra foi criado em 1772 como parte do Museu de História Natural da Universidade, instituído pelo Marquês de Pombal. Excelentemente planeado mas actualmente mal mantido, o Jardim ocupa hoje cerca de 13,5 hectares do centro da cidade, a maioria dos quais ostenta o aviso "Vedado ao público".

O que começou por ser um projecto modesto, inspirado no Chelsea Physic Garden, transformou-se desde 1774 numa colecção notável de plantas, nomeadamente de eucaliptos, cuidada inicialmente pelo botânico-jardineiro João Rodrigues Vilar e bastante depauperada pelo desmazelo a que foi sendo votada desde meados do século XX.

A primeira parte do Jardim a ser construída foi o "Quadrado central", que liga à Alameda das Tílias. Ainda hoje lá vegetam árvores do século XVIII, como uma Cunninghamia sinensis, uma Cryptomeria japonica e uma Erythrina crista-galli. A componente do Jardim a que o público tem acesso livre inclui, além deste quadrado (com magníficas espécies de magnólias) e da alameda, alguns terraços ajardinados. O Jardim contém ainda o "Terraço tropical" com palmeiras cabeludas, fetos arbóreos, cicadáceas, bananeiras e estrelícias; outros terrenos, ditos de "Escola", com árvores e arbustos que daria muito gosto observar de perto; e a "Mata", com preciosidades de difícil acesso: todos estes espaços são absolutamente interditos aos visitantes que não formem grupos de 20 ou mais pessoas que, com a antecedência de pelo menos duas semanas, solicitem e consigam uma visita vigiada (cuja data exacta é comunicada aos candidatos pela direcção do Jardim). Para consolo restam aos interessados duas das quatro estufas existentes no Jardim (entrada por 2 euros, fechadas ao fim-de-semana), com a sua dose de má manutenção que lhes vai destruindo a variedade de plantas (como ilustra o desaire este ano com a Victoria amazonica) e onde também se sente a falta de placas de identificação - que no exterior é escandalosa por este dever ser um espaço prioritariamente educativo.

As fotos que aqui ficam servem para que mais pessoas desejem visitar este Jardim e que a sua insistência, aparentemente mal-vinda aos donos deste lugar, leve os responsáveis a repensar a gestão desde património. Mostram flores de Pachystachys lutea, um arbusto peruano semi-herbáceo da família Acanthaceae conhecido como camarão-amarelo; de Hoya carnosa, trepadeira pouco ramificada da Austrália e China, classificada na família Apocynaceae, cujas flores perfumadas branco-róseas parecem feitas de cera; de Anthurium scherzerianum, da família Araceae, o rabinho-de-porco da América Central cuja flor tem uma espata de cor vermelha muito ornamental; e finalmente de Asclepias curassavica, também Apocynaceae, herbácea da América Tropical de flores amarelo-escarlate.

25.8.06

Aroeira, lentisco


Pistacia lentiscus L. --------------------Praia da Coelha (Albufeira, 2005)

«Aroeira, Lentico - Mastic tree, lentisc
Planta da família das Anacardiaceae. Perenifólia.
Arbusto dióico, que pode atingir 4 m. de altura, formando grandes moitas. Folhas paripinuladas e com sulcos resinosos aromáticos. Flores amareladas ou avermelhadas, em cachos simples. O fruto é uma drupa pequena, globolosa, primeiro avermelhada e negra quando madura, em cachos. Cresce nos matos charnecas e sebes. É ornamental e já muito utilizada em jardins, quer isolada para maciços e sebes, sendo pouco exigente em cuidados e tipos de solos. Floresce de Março a Junho.» in Plantas do Algarve com interesse ornamental (Ed. Afrontamento).

24.8.06

A Sombra Verde

A não perder este novo blogue português sobre árvores: http://sombra-verde.blogspot.com/

Jardim Botânico de Munique



Fotos cedidas pelo desNorte (clique para aumentar)

O Jardim Botânico de Munique foi fundado em 1812, mas só em 1914 se fixou na sua actual localização, um parque de 22 hectares nos arredores da cidade, contíguo ao palácio de Nymphenburg. Um jardim botânico com notáveis colecções, excelentemente planeado e mantido. As fotos que hoje publicamos (e outras que ficarão a aguardar melhor oportunidade) servem para aguçar o apetite a quem, como nós, nunca lá foi.

A árvore da segunda foto é um Acer sieboldianum, árvore de pequeno porte originária da China e da Coreia que tem a elegância característica dos áceres orientais; não nos recordamos de alguma vez a ter visto em Portugal. Na última foto aparecem prímulas de uma espécie (Primula vialii) pouco comum nos nossos jardins.

23.8.06

Postal de férias


Spirea x bumalda

O jardim, convite à preguiça, exige trabalho infatigável.

Carlos Drummond de Andrade, O avesso das coisas (1987)

22.8.06

Piteira

«(...) Servem as piteiras no Algarve para formar os vallados das fazendas quasi geralmente: há dellas grande quantidade. (...) He bem curioso o relatório que faz o celebre Francisco Fernandes, medico de Filipe II, dos usos para que a piteira serve na America aos Indios.
"Com ella entrincheirão elles as suas habitações formando cercas impenetráveis: os talos, ou tiges, servem de vigas, as folhas de telhas; destas tirão fios com que fazem tecidos, e huma espécie de calçado; e das raizes os tirão para fazer sogas fortes; os grandes picos, em que acabão as folhas lhes servem de pregos, agilhões, alfinetes, agulhas, e ainda de uma espécie de armas de que usão nos combates: também formão com eles sedeiras para sedar as fibras de que tecem os pannos. Cortão as pontas das folhas tenras nas plantas não muito grandes e que estão viçosas, e dellas corre em muita abundancia hum licor que tem por medicinal para varias enfermidades; evaporando um pouco ao lume esse licôr este licôr se concentra, torna doce, e forma hum arrobe de que se faz assucar; juntando ao dicto licôr huma porção de água, e cascas e flor de laranja, limão e outras, e deixando-o fermentar se faz vinho a que chamam Pulque, de que muito gostão, e com que se embriagão; do mesmo licôr se faz vinagre.

Comem assados debaixo da terra os pedaços mais grossos das folhas, e o sumo dellas he muito efficaz para curar as feridas recentes e ulceras. As folhas assadas curão as convulsões, sendo applicadas à parte afecta; e mitigão a dor, principalmente se se bebe o sumo quente; porém embotão os sentidos e entorpecem."»

in LOPES, João Baptista da Silva, Corografia ou memória económica, estatística e topográfica do reino do Algarve, Academia Real das Ciências de Lisboa, 1841 (edição facsimilada da Algarve em Foco Editora, 1988), p. 150

21.8.06

A túnica e as barbas



Não sei se alguma vez o vi na televisão: nos anos do seu apogeu, era eu criança, não tínhamos tal aparelho em casa. Quando o meu pai aceitou instalar na sala uma TV - ainda a preto e branco, no mesmo móvel de duas prateleiras onde em baixo repousava o rádio de válvulas - já tínhamos, eu e o meu irmão, alguma cautela nos gostos que a nós mesmos autorizávamos. Demis Roussos, o volumoso grego de barbas negras, túnica até aos pés e braços abertos que nem Cristo, era a encarnação cantante da pirosice que, mesmo aos dez-doze anos, o nosso amor-próprio nos obrigava a recusar. Mas a vontade consciente não controla tudo: uma distracção e eis-nos a trautear alguma canção foleira que se nos infiltrou pelos ouvidos incautos.

Mas havia quem, na minha família, lamentando embora a extravagância da indumentária e dos adereços, admitisse gostar de o ouvir. Julgo hoje que as barbas e a túnica - sobretudo a túnica - eram o que de mais grego havia nesse cantor que tanto sucesso teve cantando em inglês e em variadíssimas outras línguas: convertiam-no em grego de caricatura, ideal para exportação, igualzinho aos das ilustrações clássicas nos manuais escolares de história.

Por que recordo hoje esse protótipo da música festivaleira e eurovisiva? É que por infelicidade visitei o Parque de La Salette, em Oliveira de Azeméis, quando decorria o último dia das festas anuais a Nossa Senhora. Era Demis Roussos que, trinta anos depois, todo se esgoelava em honra de Nossa Senhora de La Salette nos atordoadores altifalantes pendurados no arvoredo. Gerações recentes houve que cresceram sem ouvirem Demis Roussos, sem serem assombradas pela sua espaventosa figura; não porém em Oliveira de Azeméis, onde, suponho, todos os anos em Agosto o grego regressa do limbo dos esquecidos para ocupar, em voz e em espírito, o Parque de La Salette. No próximo Verão hei-de lá procurar nas barracas a cassete pirata dos seus maiores e afinal imortais êxitos. Não corro riscos, pois não tenho onde pôr a fita a tocar.

Antes disso, voltarei para admirar, no silêncio possível, as árvores deste parque quase centenário, projectado em 1909 por Jerónimo Monteiro da Costa, o mesmo jardineiro-paisagista e empresário hortícola a quem se devem o Parque de Vizela e muitos dos jardins públicos do Porto (Carregal, Rotunda da Boavista, Praça da República, etc.). Há por lá ciprestes (Cupressus lusitanica), sequóias, cedros, podocarpos, taxódios e sobretudo inúmeros exemplares de Leptospermum laevigatum. Plantados para formarem sebes, estes arbustos nunca foram podados com a regularidade esperada; acabaram por se transformar em estranhíssimas árvores, com os troncos torturados e oblíquos compondo descontínua abóboda sobre os caminhos do parque.


Parque de La Salette: Leptospermum laevigatum

20.8.06

Agave americana

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Piteira (Agave americana) nas falésias
Ao longe, os penedos da Praia dos Três Penecos (Sesmarias-Albufeira, Algarve 08.2004)

Outras designações vernaculares para esta suculenta perene originária do México: pita, piteira-de-boi, piteira brava, aloé-dos-cem-anos, cacto-dos-cem-anos (cf. Portugal Botânico de A a Z); em língua inglesa é chamada agave, century plant, american aloe, maguey (nome genérico dado no México às espécies do géneroAgave - que inclui as plantas que dão origem à tequilha e ao mescal*). Estas plantas só florescem uma vez durante toda a vida e apenas ao fim de mais de uma dezena de anos.

*Não confundir com o mescal proveniente do peyote (Lophophora williamsii)
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19.8.06

Sempre-em-flor



O arbusto-borboleta é um excelente corta-vento, de crescimento rápido, folhagem de um lindo verde-azulado, e floração contínua ao longo do ano embora mais abundante no Verão. Pertence ao género Polygala, fácil de identificar pelas flores. Elas agrupam-se nos extremos dos ramos e lembram barquinhos com um penacho no topo da quilha. Cada flor tem três a cinco sépalas e três pétalas; duas das sépalas são maiores, parecem pétalas desenhadas com veios escuros e estão dispostas como duas asas; uma das pétalas tem forma de canoa e suporta um tufo fimbriado.

Cosmopolita, a família Polygalaceae - geneticamente muito próxima da Leguminosae - abriga cerca de vinte géneros e umas mil espécies maioritariamente africanas. A Polygala myrtifolia, de flores roxas, de que vimos muitos exemplares nos jardins de Ponte de Lima, ocorre naturalmente na África do Sul onde são tradicionalmente exploradas as suas propriedades antibacterianas.

O nome Polygala deriva do grego polys, muito, e gala, leite, por se acreditar que a presença desta erva nos pastos promove uma maior produção de leite - o que justifica a designação erva-leiteira que lhe é atribuída em algumas regiões portuguesas.

18.8.06

Árvores intensas Casas de trapo
Chilreia a chuva Coxeia a cama
Frutos votivos Cal calejada
Ponte romana

Luiza Neto Jorge
(Silves 83. Poesia, Assírio & Alvim. Lisboa 2001)

17.8.06

Provérbios - Agosto

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Água de Agosto, açafrão, mel e mosto.
Água de Agosto apressa o mosto.


Mais em Os provérbios populares

15.8.06

Uma amoreira ao pé da porta

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Amoreira (Morus spp.) no Douro
Há quem não resista ao sabor um pouco ácido e à cor deliciosa dos seus frutos: é o caso desta minha amiga que tem uma amoreira mesmo ao pé da porta...

Como sempre, vale a pena ler o que escreve Mrs. Grieve no seu Modern Herbal, desta vez sobre a amoreira negra- para além de informações sobre a origem das plantas e a história do seu cultivo, são muito interessantes as transcrições dos textos dos antigos herbalistas e outras curiosidades saborosas sobre a fitoterapia tradicional e moderna (a 1ª edição do MH é de 1931); mais links externos: Mulberry; Morus (Wikipedia).

Cancioneiro popular - Amoreira ; As últimas amoreiras; A fonte da Amoreira
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Uma senhora oliveira em Guimarães



O Museu de Alberto Sampaio, no centro histórico de Guimarães, ocupa a antiga Casa do Cabido da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, e estende-se ainda pelo claustro e por todas as salas anexas; a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, porém, permanece reservada ao culto religioso e dispõe de entrada independente pelo Largo da Oliveira. O claustro, que na sua forma actual poderá datar do século XVI, rodeia parcialmente a igreja, de que a divide um pátio ajardinado de formato irregular onde vegetam algumas árvores. De entre elas, muito apropriadamente, a mais notável é uma oliveira - que de tão alta se avista até do exterior, espreitando por trás da fachada do museu. Os séculos não lhe pesam como às velhinhas oliveiras de Serpa, e a vida resguardada que sempre levou dotou-a de um porte e um vigor admiráveis.

14.8.06

Dá-me uma gotinha de água

..
Fui à fonte beber água
Ao rio para te falar,
Nem na fonte nem no rio
Nunca te pude encontrar.

Dá-me uma gotinha de água
Dessa que eu oiço correr,
Entre pedras e pedrinhas

Alguma gota há-de haver.

Alguma gota há-de haver
Quero molhar a garganta,
Quero cantar como a rola
Como a
rola ninguém canta.

Fui à
fonte beber água
Achei um raminho verde,
Quem o perdeu tinha amores
Quem o achou tinha sede.

(Mais modinhas aqui)

12.8.06

As chagas


Tropaeolum majus

O meu jardim está cheio de chagas.
Já só me resta um lírio e um antúrio.
O que me resta fazer? Talvez pincelá-las
com tintura de iodo ou com mercúrio.

Jorge Sousa Braga, Herbário (1999)

11.8.06

Jardins do Lima

Em época de viagens e deslumbres de férias, há um recanto em Ponte de Lima digno de um passeio demorado: os jardins eruditos do Parque Temático do Arnado, da autoria de Francisco Caldeira Cabral e Elsa Matos Severino e inaugurados em 2001. São páginas recriadas da história da arte dos jardins, aqui impregnadas de ruralidade minhota. Mostram versões de:



1. Um jardim romano inspirado na Casa dos Repuxos de Conímbriga onde não faltam medronheiros, ciprestes, romãzeiras, limoeiros, vários pés de glicínia e herbáceas aromáticas. Sobre ele se comenta, na brochura editada em 2005 pelo Município, que «o pavimento em mosaico de calçada à portuguesa procura reflectir a influência que ainda, na prática actual, a cultura romana tem nas nossas tradições culturais.»



2. Um jardim barroco, onde predominam as roseiras, recheado de arbustos com floração abundante como as duas lagerstroemias da foto.

3. Um jardim labirinto, com o buxo metaforicamente disposto em socalcos, enigmático na evocação de várias lendas gregas sobre os caminhos para a sabedoria. No topo ergue-se um mirante perfumado por jasmins propício à reflexão e ao repouso.

4. Um jardim renascentista, com um guião para a organização do espaço de influência italiana. Pressente-se algum rigor na disposição e escolha das plantas, com realce para os belíssimos rododendros, amenizado por cascatas e jogos de água.

5. Um pequenino jardim botânico, com estufa de plantas raras, um horto de gramíneas e nenúfares no refrescante lago exterior.

Louve-se a manutenção cuidada e carinhosa deste jardim.

10.8.06

O Perfume Começa na Planta

«As essências ou óleos essenciais são extractos perfumados obtidos por destilação de plantas ou partes de plantas como as rosas, o sândalo e o limão. Nesta acção proceder-se-á à extracção dos óleos essenciais contidos nas flores da Alfazema e sementes do Funcho. Aproveitaremos a ocasião para visitar também o canteiro de Plantas Aromáticas e Medicinais do Jardim Botânico da Universidade do Porto.»

Hoje às 15 h. - Actividade promovida pelo Departamento de Botânica da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto no Âmbito da CIÊNCIA VIVA NO VERÃO

Se não puder ir hoje veja as datas alternativas para esta e outras actividades.

Provérbio

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«Em Agosto secam as fontes e ardem os montes.»

9.8.06

Senhor do Padrão



O monumento ao Senhor do Padrão, em Matosinhos, foi erigido no século XVIII para comemorar a aparição no local da imagem do Senhor de Matosinhos; está classificado como monumento nacional desde 1977. Já esteve sozinho no meio do areal, mas hoje as construções cercam-no por todos os lados; um corredor pedonal ajardinado concede-lhe um resto de dignidade. Essa amostra de jardim, único apontamento verde em toda a faixa costeira urbana de Matosinhos, desenha a fronteira quase exacta entre os esmagadores blocos habitacionais de Matosinhos Sul, antiga zona das fábricas de conservas, e o bairro piscatório a norte, onde perduram as casas baixas, convertidas quase todas em restaurantes.

Não há muitas árvores ou arbustos que possam sobreviver aos ventos marítimos; os exemplos que se conhecem estão quase todos representados nos jardins da Av. Montevideu, no Porto, e também nas ruas de Matosinhos: metrosíderos, pitósporos, tamarizes, melaleucas. O que é notável no jardim do Senhor do Padrão é que os lustrosos arbustos que o ornamentam pertencem a outra espécie: são mióporos (Myoporum acuminatum), arbustos australianos não muito comuns em Portugal de que já aqui tínhamos falado. A sua adequação às zonas costeiras foi então devidamente assinalada, mas faltava-nos um exemplo prático desse uso.

Acresce que as flores e frutos do mióporo (que mostramos em baixo) são muito atraentes para insectos e pássaros, o que mais ainda nos convence da justeza desta escolha matosinhense à beira-mar.


Myoporum acuminatum

8.8.06

As rosas



Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar (1947)

7.8.06

Oliveiras multisseculares - Serpa

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Oliveiras (Olea europaea L. var. europaea) classificadas de interesse público em 2001
Ver
mais fotos das oliveiras ao pé do aqueduto (por Vitor Oliveira- via Serpa (wikipedia)

Sobre estas oliveiras de Serpa, Ernesto Goes no seu Árvores Monumentais de Portugal (1984)escreveu o seguinte: «... em frente ao jardim público de Serpa e junto à estátua do Abade Correia da Serra , célebre botânico que viveu nos fins do século XVIII e princípios do século XIX, e natural desta vila, foram transplantadas 3 oliveiras multisseculares (possivelmente milenárias) de grande porte.
Estas oliveiras foram transplantadas em 1958 pelo distinto eng.º Silvicultor Pulido Garcia, também natural desta vila, que vingaram devido a uma técnica apurada. A maior delas tem 6.9 m. de PAP e as outras cerca de 5.5 .
Também junto à muralha do Castelo foram transplantadas várias oliveiras multiseculares.»


Passados quase cinquenta anos após a transplantação, estas oliveiras continuam a vingar tendo sido classificadas como árvores de interesse público em 2001, como se fica a saber na página sobre Património Natural do site da Câmara Muncipal de Serpa.
....
PS: Há muito que queria publicar fotografias destas oliveiras de Serpa e decidi-me finalmente, ao ler ontem no JN uma pequena reportagem sobre três oliveiras emblemáticas do concelho de Mirandela (chamada a Cidade das Oliveiras devido aos cerca de 750 exemplares dos seus jardins, ruas e avenidas > ) . Muito interessante a ideia de «uma rota unindo todos estes "monumentos vivos"»: com efeito para o património arbóreo poder ser "chamariz de turistas" tem que estar devidamente identificado e sinalizado o que infelizmente é raro acontecer. Veja-se por exemplo o caso do Porto em que nenhuma das árvores classificadas da cidade está assinalada como tal.

6.8.06

Roubaram a alegria!


Impatiens "Celsia"

Uma das plantas do género Impatiens, não a que mostro acima, tem em português o singelo nome de alegria-da-casa (a da foto, tanto quanto sei, não tem nome na nossa língua). Assim, no mesmo passo em que justifico um título reminiscente dos poemas de Ary dos Santos, admito que o mesmo está incorrecto. Mas o tom de denúncia que tenciono dar ao texto é, julgo eu, digno do estro do malogrado poeta.

Ao contrário do que diz a voz do povo (aí já me afasto do meu modelo, que deu sempre razão ao povo), as pombas não têm culpa das redes que cobrem alguns canteiros públicos; ou, se alguma culpa têm por devorarem as couves que por vezes os ornamentam, não têm dela o maior quinhão. É que as pombas não roubam flores para levar para casa, e é por isso forçoso atribuirmos à (desonesta) acção humana as clareiras que surgem nos canteiros desprotegidos logo depois de serem renovadas as flores sazonais.

No Jardim do Carregal as flores do momento são essas da foto a que chamo alegrias para fins retóricos. Roubaram-nas, claro - embora com moderação, para que ao longe não se notasse o desfalque. Se as flores se chamassem tristezas também as teriam roubado, pois estes ladrões não são de esquisitices.

5.8.06

A preparar o Natal

No parque de Serralves há uma escadaria à direita do portão de entrada que conduz os crentes de certa arte moderna a dois altos muros avermelhados de ferrugem. A ladear este caminho vários pés de avelaneira (Corylus avellana) estão agora a trabalhar para termos avelãs fresquinhas em Dezembro.

A família Betulaceae (a que também pertencem as bétulas, os castanheiros e os amieiros) é, numa apreciação geral, das mais especializadas, com flores adaptadas à polinização pelo vento. No género Corylus, com cerca de quinze espécies do hemisfério norte, as inflorescências masculinas são duas candeias formadas no Outono antes da folhagem nova; as flores femininas, na mesma árvore, estão escondidas em botões castanhos que apenas deixam ver os estigmas carmim quando polvilhadas de pólen. Os frutos nascem envolvidos numa camisa rendada feita de duas brácteas.



Apesar de autóctone em quase toda a Europa desde a última glaciação, o norte da Turquia é o local favorito da espécie C. avellana, que assim compete no terreno com a C. colurna, a árvore das avelãs-de-Constantinopla. Os seus ramos são tradicionalmente a varinha mágica dos adivinhadores de água.

Corylus deriva do grego kóros, capucho, lembrando o invólucro do fruto; (nux) avellana refere-se em latim à (noz de) Abella, cidade da Campania (sul de Itália) cujas avelãs foram em tempos famosas.

4.8.06

Quinta do Covelo- Porto

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Japoneiras, palmeiras, magnólia, pinheiro manso, carvalhos.

Fotos © manueladlramos 2004
Mais fotografias do Parque do Covelo (por António Amen in O Porto em Fotografia )

O concurso público de ideias para a futura requalificação da Quinta do Covelo foi publicitado em Abril (ver). De acordo com uma notícia vinda a público em de 29 de Junho «A Câmara valorizará as propostas que contemplem a recuperação da casa de lavoura do final do século XVIII (que se encontra em ruína), criem uma entrada mais digna para a quinta (hoje, a entrada principal faz-se por uma grande escadaria na Rua de Faria de Guimarães, próximo do acesso à auto-estrada) e novas zonas de estadia e circuitos pedonais no jardim e na mata, sem danificar a vegetação. (ler texto completo no JN) »

Todavia, e lamentavelmente, o processo parece incorrer numa série de inconformidades segundo o Conselho Directivo Regional do Norte (CDRN) da Ordem dos Arquitectos. Ler Edgar Soares - "Concurso Quinta do Covelo, palavras para quê?" n ' A Baixa do Porto .

Adenda:
1-
"Ordem nas Ideias" por Luís de Sousa ( 04.08.06) n ' A Baixa do Porto .
2- Explicação da CMP no Público (05.08.06) « (...)
Álvaro Castello-Branco, em declarações ao PÚBLICO, insistiu no concurso aberto a toda a gente nesta fase, para definir com algum rigor os termos da intervenção na Quinta do Covelo. "Quando decidirmos o que queremos fazer, então lançamos um concurso para adjudicar a obra, ao qual, naturalmente, só poderão concorrer profissionais", esclareceu o vice-presidente da câmara. (...) mantendo que o que se pretendia era recolher ideias "de toda a gente".
O que, de resto, foi conseguido com êxito: 120 pessoas pagaram os cinco euros requeridos para levantarem os termos do concurso, podendo avançar com as "ideias" até 21 de Agosto.»
(
ler texto completo)
3-
"Projecto de pai incógnito" por Luís de Sousa (07.08.06)

3.8.06

Jardim e mata protegidos


Santo Inácio: carvalho-alvarinho, rododendros e Eucalyptus obliqua

O arvoredo oitocentista da Quinta de Sto. Inácio, que inclui uma colecção notável de camélias portuguesas, rododendros e kalmias, além de majestosos carvalhos, pinheiros mansos (cujo registo de plantio data de 1800), eugénias, avelaneiras, azevinhos, azereiros e cuningamias - companhias de uma elegante araucária brasileira e um venerando tulipeiro - está finalmente classificado como de interese público. Uma distinção atribuída ao jardim romântico e à mata da Quinta pela Direcção-Geral de Recursos Florestais (Diário da República, 2ª Série - Nº 146 de 31 de Julho de 2006 - cópia aqui) que aguardávamos com expectativa dada a ameaça de construção de uma via rápida que iria truncar a ala nascente da propriedade.

Há na Quinta outro conjunto de árvores digno de nota: várias espécies de eucaliptos criados de sementes australianas recebidas por Roberto e Christiano Van-Zeller da Sociedade de Divulgação do Eucalipto por troca de sementes de couve galega, como documenta uma carta do Departamento de Agricultura de Victoria, de Dezembro de 1911, na posse dos herdeiros.

2.8.06

Fábula sizenta do Lobo e da Avozinha

(Depois dos Aliados, chega em Novembro a vez de Vidago...)

Capuchinho Vermelho nunca se arrependeu de ter adjudicado ao Lobo a requalificação da Avozinha. Desde então pode, sem vergonha, passear de braço dado com ela nas praças da cidade. Quem conheceu as rugas e a doçura da Avozinha, o buço que lhe sombreava o lábio, admira-lhe agora a face lisa e escanhoada, fixada num meio-sorriso altivo; o cabelo, antes alvacento e repuxado em concha atrás da nuca, cai agora, liso e sizento, sobre os ombros já não cobertos por coçado xaile de lã. Desapareceram os pavorosos vestidos de cores claras estampados com padrões florais para darem lugar ao sóbrio minimalismo de uma blusa e mini-saia sizentas às riscas. O chlop-chlop arrastado das chinelas foi substituído pelo percutir seco dos sapatos altos. E que dizer das intermináveis histórias do seu tempo que a Avozinha infligia a quantos ouvintes agarrava, enquanto Capuchinho, vermelha agora de embaraço, lhe ia puxando pela manga? A Avozinha, felizmente, já não conta histórias, pois a requalificação mudou-a por dentro e por fora: na verdade pouco fala, quase se limitando a discretos gestos de assentimento; só uma vez por outra deixa escapar que ouve, lê e concorda com os nossos maîtres à penser da TV e das colunas de opinião dos jornais.

Capuchinho Vermelho está mesmo muito contente com a sua Avozinha requalificada, e não perde nenhuma ocasião para recomendar os serviços do Lobo às suas amigas. Há só dois ínfimos grãos de areia que não chegam a emperrar a roda da sua felicidade. O primeiro é a mini-saia da Avozinha, realmente muito curta; mas, ao reparo que Capuchinho lhe fez, o Lobo apenas resmungou «está bem assim, depois cresce». Capuchinho nem se atreveu a sugerir ao Lobo que, não aceitando ele alongar a mini-saia, bem poderia ter trabalhado mais as pernas. O segundo grão de areia manifesta-se à noitinha, quando Capuchinho e Avozinha, sentadas no sofá lado a lado, de comando em riste, vêem o plasma de grande formato saltar de canal em canal como antes viam saltar as chamas na lareira; é uma dúvida que inquieta Capuchinho por instantes: será esta Avozinha, que não parece guardar qualquer memória do seu passado (mesmo do passado que ela e Capuchinho viveram juntas), a sua verdadeira Avozinha, carne da sua carne, sangue do seu sangue? Mas logo Capuchinho varre esta dúvida como pieguice absurda. Seja ou não ela a sua verdadeira Avozinha, é indiscutivelmente esta a Avozinha que a contemporaneidade exige.

1.8.06

João de Araújo Correia no Dias com Árvores:

«O nosso único parque»

O duriense João de Araújo Correia (1899-1985), um dos maiores contistas e prosadores portugueses de sempre, dedicou muitas crónicas à Régua, sua terra natal. Foi também um dos mais constantes defensores da árvore em Portugal e um verdadeiro ecologista avant-la-lettre; outra das suas preocupações insistentes, como já dissemos ontem, foi a triste decadência das Caldas de Moledo. A crónica que a seguir transcrevemos, e que ainda hoje os autarcas da Régua e de muitos outros concelhos do nosso castigado país poderiam ler com proveito, apareceu em Agosto de 1970 numa publicação local e foi incluída no livro Pátria Pequena, de 1977:

«O vício de ler também obriga a sofrer. Quem lê jornais e revistas fica apavorado com a perspectiva de morrermos todos se continuarmos a poluir o ar, a água e a terra. Automóveis, fogões de gás, fumos de fábrica, poluem o ar. Insecticidas e outros venenos poluem a terra e, por sua vez, todas as águas. Não haverá, dentro de poucos anos, se continuarmos a envenenar o mundo, lugar em que se viva. A Terra, como a Lua, girará pasmada, na sua órbita, como cão morto que quisesse morder o rabo. Imagine-se a tristeza dos anjos e dos bem-aventurados quando a virem passar tão morta como louca. À poluição do ar poderíamos opor, como contra-veneno, o oxigénio proveniente da vegetação. Mas, em vez de semelhante medida, recorremos a outra, que é uma rica vasilha com o fundo virado para cima. Com herbicidas, machado e serrote, destruímos a vegetação. Destruímos as fontes de oxigénio. Não nos passa pela cabeça oca a impossibilidade de vivermos sem ele. Pensamos até que não existe, porque ninguém o palpa. É, porventura, uma quimera de sábios.

Se assim é o homem do povo, se assim é o lavrador, e até o homem medíocre, dotado de instrução elementar, não deve ser assim o homem que governa. Esse, por amor ao oxigénio, benção de que não duvida, respeitará a árvore onde quer que exista. Se lhe faltar a sensibilidade precisa para se comover diante de uma árvore, suplique-a a Nosso Senhor nas suas orações.

Desapareça o tempo em que os governantes, nas cidades e vilas portuguesas, fizeram de cada árvore uma ré condenada ao patíbulo sem defesa. A olhos de poeta, não há canto de Portugal que não chore, como viúvo, a árvore que o embelezou.

Pelo que toca à nossa terra
[Régua], são horas de nos iniciarmos no respeito devido a cada árvore - fonte de vida e de beleza. São horas, mais do que horas, de plantarmos o nosso parque, fazermos da nossa zona verde, pura ficção, uma realidade.

Enquanto não houver parque municipal, gozemos e amemos o do Moledo, que também é nosso como principal adorno das nossas ricas termas. Não se diga, por vergonha nossa, que não temos árvore capaz de abençoar e amparar o viajante cansado.

O parque do Moledo é o nosso único parque. Ame-se e defenda-se, enquanto não tivermos outro e depois de termos outro. Quanto mais arvoredo, mais beleza e mais saúde...»